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segunda-feira, março 04, 2013

Incomunicável

Nem tudo deve virar palavra. Nem tudo pode virar também. Palavra é feita para dizer e a gente só diz o que não consegue expressar de outra forma. As línguas têm jeitos outros de mostrar o que o corpo sente. Com ou sem separação metafísica. O corpo, esse construto social com o qual se convive achando que dá para ter relação de posse. Nem com o próprio nem com outros. Isso em que a gente habita e separa da categoria 'mente' fingindo que é possível dominar algum dos dois. É um. E nunca é. Assim como não é caso de fazer escolhas.

O corpo pede, manda, age por seus impulsos próprios e a gente segue num misto de obediência e rebeldia. Às vezes funciona para um lado, às vezes fracassa para o outro. Fato é que, mesmo que a gente finja não ouvir, os corpos dizem nitidamente o que querem.

Palavra não. Palavra a gente usa para dizer o que não quer, para ferir bruscamente as pessoas, para tentar desfazer erros, para destrançar textos decorados. Conversas servem para quando não se quer dizer, quando precisa amenizar, devolver objetos, resolver coisas. A voz é necessária quando existe a indiferença. Porque mesmo a raiva pode ser dita em gestos, expressões, portas batendo e choro, muito choro.

O que não é nada a gente tenta esquematizar, tenta dizer de um jeito que não pareça extremamente ofensivo, tenta desdobrar em mais frases o que deveria ser um simples e seco não.

O que se sente pode sempre ser silêncio, olhar, gemido, toque. Indecifrável, indescritível, incomunicável.

domingo, março 03, 2013

Às vezes preservo e suicido simultaneamente. Eu quero lambuzar e não ficar só lambendo as feridas. Sacrifício voluntário, lembra? Depois de subir no cadafalso não tem mais como voltar. Tem que deixar a corda envolver vagarosamente o pescoço e se deixar cair sem olhar o carrasco - ele não é outro que não o espelho.

(Ao contrário do que acreditava Susan Sontag, a vida só é possível com metáforas).

Escrever é como cozinhar. É preciso separar os ingredientes, lavar, descascar, cortar etc. etc. Só depois é que é possível misturar, fazer o molho e esperar que as coisas aos poucos ganhem outro gosto, consistência e virem, por fim, uma outra coisa. Uma coisa saborosa, esperemos.

O problema é que eu não sei cozinhar.

sexta-feira, outubro 26, 2012

Deve ser bom

Pensou ter sentido alguém tocar seu ombro e se virou brusca, como quem desacostuma ao toque, desde a definição até a comprovação empírica. Do teclado, do telefone, da pele - da pele em outra pele. O falso palíndromo soava distante como um sussurro, um arrepio ou um vento que passa e dá aquela sensação de que alguém tocou-nos o ombro. Mesmo desconhecido o verbo se conjuga, como só as abstrações fazem, como quem resolve uma questão matemática sem que para isso precise macular seu pleno desconhecimento de tudo.

O mundo é um eterno desconhecido. Uma caixa pequena cujas paredes a gente não rompe, às vezes pinta um desenho bobo, abre um buraco e coloca uma pessoa dentro.

As pessoas saem e as madrugadas insones continuam sem sentido.

O insuportável é que nada é insuportável. A gente sempre vai se acostumar e os dias continuarão a nascer um após o outro.

terça-feira, setembro 11, 2012

Entrelaçado

Para ler ao som de Tempo de pipa (Cícero).

"Vamos nos espalhar sem linhas".

Eu não sei como faz para desatar nós e nem sei se é necessário - ou se vale a pena. Há nós apertados, há pronomes pessoais retos tão pessoais e tão plurais que não dá para desfazer assim por qualquer bobagem. Não que futuro seja bobagem, não que projetos completamente diferentes também o sejam, mas é que alguém sempre sai machucado das coisas e preservar tudo no seu devido lugar é sempre a minha maneira de evitar que o sangue respingue em mim quando ainda tem as nem-tão-velhas feridas assim tão mal fechadas.

Quando o nó fica assim muito preso, a gente machuca as unhas e não consegue. Às vezes usa os dentes e parece que só fica tudo mais amarrado.

Sei não... Enquanto os nós não se desmancham, nada impede que nos deixemos levar pelos laços que nossos corpos fazem sozinhos, sem que a gente queira e porque a gente quer.

domingo, julho 22, 2012

Dedicatória

"Para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".
 (Paulo Mendes Campos)

Na falta de coragem de tirar de mim o sangue, me perco no seu olhar-abraço-voz. Nem sei se é quente, rápido que foi. Devo admitir que não deu tempo de planejar perdições. Daria tempo de despertar sonhos, se eu ainda soubesse. Qualquer distração parece que serve. Dito assim parece que te desprezo. Saiba que não é o caso. O caso é que as frases curtas, re-pe-ti-tivas, mal conectadas, escondem uma admiração distante. Uma inveja funda que se confunde em desejo. Um desejo que não é só do teu corpo. É da tua vida que quero em posse e quero em vida. Quero vampirizar tua ânsia de paixões, sua desenvoltura para pedir de mim mais do que posso dar e menos do que gostaria.

Eu me abro demais. Sempre me abro demais e perco completamente os limites do senso. Eu me publico. Eu sempre faço manchetes dos meus sentimentos para ver se os crio. Pra ver se alguém compra o que fica ali exposto na banca. Às vezes funciona, às vezes vira caso de polícia. Minhas letras são garrafais, mais finjo fingir que não. Dissimulam escrúpulos num gesto tão falso como quando eu acendo um cigarro.

Você olha e pede um abraço em agradecimento por eu ter feito exatamente o que você pediu. Pode ter pedido com o inconsciente até, mas eu sou boa a esse ponto em interpretação. Te dou um livro, te leio uma página, te abro minha alma que, mesmo sem ser grande coisa, é o que de mais fundo tenho para te oferecer. Quero te oferecer mundos que você desconhece, quero te dar um leque de sabores de vida pra você provar e depois escolher feito sabor de sorvete. Quero te dizer que o mundo é grande, que as melhores sensações não estão só nas páginas dos livros, que você pode pegar a estrada e sentir o vento no rosto afastando seu corpo das raízes empoeiradas, dos julgamentos prontos, das pessoas de alma tão pequena remoendo pequenos problemas. Não tenho sequer a pretensão de pertencer a esse mundo grande que você merece, acho que você tem todo direito de provar muito mais corpos, muito mais cheiros, muito mais gostos, muito mais curvas do que as que você já conhece, do que as que imagina conhecer e do que as que te serão completamente inesperadas. Se couber minha opinião, apenas direi que adoraria.

Mas se você também é só uma coisa que eu quero porque não tenho, porque não posso ter e querer o que não posso ter é um outro jeito de aprender a aceitar que a gente nunca tem mesmo. A gente ocupa espaços, representa papéis, finge que pode preencher vazios mais fundos que o imaginado, matar as sedes que ninguém mata. A gente se deixa cair confortável em qualquer vida que soe como uma luva, que cubra com panos quentes as feridas e os abismos, que faça parecer que é possível fingir que a solidão medonha não existe. Quando a gente se deixa cair mais confortável é que puxam de repente a luva, o tapete, o chão e a queda livre tem essa mistura de poeira, nada e vômito que gruda na boca, na garganta, nos lábios que se ressecam e parece impossível sentir outro gosto mesmo sabendo e forçando o corpo a saber que há muitos.

As cortinas fecham de quando em vez e a gente é obrigado a trocar a maquiagem, o figurino, troca cenários pra garantir. O mais difícil é escrever um texto novo. Mas pra quê? Se posso por em suas mãos, em sua cabeceira, em seus lábios aquele roteiro já tão pronto e bonito. Posso fingir na minha imaginação bem menos fértil do que imagino, que não há hierarquias nem relações de poder. Porque na verdade, nem é um mundo meu que quero te apresentar, quero é me jogar nessa trilha sonora que você me prepara, quero debater as angústias tão certas e petulantes que você tem apesar de e por causa da juventude, quero sorver tuas palavras, degustar embasbacada a forma displicente como você solta a fumaça do cigarro, quero me deixar embalar pela tua voz crítica, firme e perdida. Quero alimentar teu interesse na verdade tão mais fundo que o meu. Quero roubar um pouco da paixão que ainda tens nos olhos, te convencer que a direcionas pelos caminhos errados, quero te dar mapas.

Quero te prometer esse milhão de mentiras só para mergulhar fundo nas coisas inomináveis que esse abraço curto desperta. Quero me deixar levar pelo desconcerto, pelo não saber onde colocar as mãos quando você me oferece um cigarro. Quero ficar horas ouvindo seu jeitinho calmo de falar, te chamar pra tomar um café enquanto te falo as bobagens mais amenas para ver se do outro lado da mesa enxergo uma lasca do sangue da tua ferida que sei que também é aberta e incurável. Eu quero te dizer que conheço unguentos que aguçam as sensações.

Quero é jogar esse quebra-cabeças bagunçado no colo de qualquer pessoa que apareça - qualquer não, desculpe! Quero jogar essa bagunça mal ajambrada de mim em cima de quem tenha apreço literário o bastante para juntar os versos, os fios de barbante, os cacos de vidro, as noites de frio, os pincéis espalhados, os pelos de gato, a luminária, as bolinhas, as listras, o cabelo preto, os planetas em capricórnio, os graus de astigmatismo, o gosto por capuccinos, os timbres perdidos na mente, as citações decoradas e repetidas em voz alta, as birras de criança, a resolvicência de adulta, a petulância, o ar professoral e mandão, os segredos que moram em pedras-quentes-que-encostam-na-sola-dos-pés, as palavras, embaralhadas, perdidas, as peças, pedaços, fragmentos bonitinhos, sujos, gosmentos, doces, quentes, ferventes, gelados - desde que jogue fora tudo o que estiver em temperatura ambiente.

quinta-feira, julho 19, 2012

Cada gosto de vida, ao passo que me satisfaz, me aumenta a sede e a fome

Quando a gente não sente nada, entra e segue de olhos fechados por qualquer rua que dê sentido. Quando o orgulho é grande demais para pedir socorro, a gente é que vaga sob as duras penas de não ter a alma tão funda como supunha. A dor cicatriza rápido quando a gente já conhece os remédios, coloca os curativos certos. Mas o vazio de sempre, a angústia, o tédio - que eu nem sei se é um sentimento - nada cura, nada ameniza, nada consegue pintar de uma cor bonita, nem que seja esse cinza clarinho da minha janela da qual não quero ter de me despedir.

Aquilo que a gente ilude dizendo que já não existe, pulsa em partes diferentes do corpo. Depois de um tempo, a gente se contenta tanto com qualquer emoção, que confunde mesmo desejo com encantamento. A gente se perde em corpos pelo prazer do desconhecido, pela graça das contradições aparentes de quem não se suspeitava. Dá pra desenhar constelações novas em novas peles, há outros encaixes que soam quase perfeitos quando há uma preocupação qualquer com a cena, com o texto, com o cenário. Somos bons diretores e nos fazemos bons personagens. Não parece uma razão suficiente o meu respeito pela sua preocupação cênica.

Eu, afinal, consegui conquistar o ar blasé e invernoso de quem já teve e perdeu um grande amor. Você me cativa com dores maiores, com ausências maiores que me fazem pensar duas vezes antes de desligar o telefone na cara do meu passado freudiano. Posso pensar até dez vezes e ainda assim o faço depois de já ter desligado com uma desculpa menos amarga do que desejaria.

A linguagem é demasiado limitada para procurar as razões do que faz bem, mas eu não tenho... (o que será que é preciso ter? Nem sei...). Não tenho fibra (talvez seja isso) o bastante para cortar uma orelha. Me desestimula até o desafio do corpo, que não se espreguiça nem vai muito longe no meio de um inverno tão rigoroso. Mas aquilo que eu finjo chamar de alma, vai aonde chamarem - vai por saber que qualquer prazer é o que faz um pedaço de vida valer os dias que passam um atrás do outro antes da interrupção para a qual nunca estaremos preparados.

A frase se repete em minha cabeça toda vez que você se vai e eu não sei se gosto mais do momento em que você esteve ou do talento que você tem para me deixar com mais vontade quando a porta fica assim aberta, a música ainda tocando e meu corpo ainda quente. Fica sempre um cheiro que gruda no ar e na pele e se converte em narrativas já menos comprometidas intelectualmente na minha cabeça. Os paradigmas rodopiam junto com náuseas, revoluções e detalhes indizíveis. O que não passa de um problema geracional a gente resolve esperando o tempo passar, assim como o passado não cabe no guarda-roupa, o novo, como grita a lancinante Elis, sempre vem.

E aí cada pequena coisa compensa e cada compensação dá uma esperançazinha pequena de que ainda seja possível se jogar em abismos e perder a direção da rua que a gente entrou por falta de melhor caminho. As penas emprestadas de uma alma qualquer eu mergulho em nanquim e desenho meu barco que está prontinho pra navegar no mar que eu construí de lágrimas.





*O título é um trecho do poema "Da Vida" de João Pedro Magalhães de Sá.

terça-feira, julho 17, 2012

Volta fitas cassete que podem ser usadas como luminárias, um copo quando cai no chão pode quebrar ou virar uma girafa. Uma figura mitológica antiga pode virar uma rocha de um país distante. Repetir o mesmo filme pode ter final diferente no mundo em que ninguém presta. A cena pela cena não dá sentido. Não basta representar para viver, sentir. Não dá pra desabalar aquilo que ainda descabela, aquilo que corrói em não aceitação e faz pensar que passar-se-á um tempo, assim com colocações pronominais antigas, e tudo voltará ao normal. Aquele normal morno, quentinho, que eu desejo só porque é inverno e porque tenho uma preguiça enorme de fazer tudo o que está por vir.

Combater o pó diário das emoções é um esforço grande. A gente alterna, se divide em muitos pedaços, muitas bonecas, muitas partes de perder a conta porque assim fica mais fácil que juntar toda a bagunça. Um pouco mais perto de livre agora. Um pouco menos de medo de andar na rua, esbarrar no corredor. A distância necessária, o cadáver já fede, um mês apodrecendo sem coragem de enterrar, sem ânimo para falar e já sem lágrimas porque não é isso o que o estômago produz.

O desespero vai ficando amigo, vira uma espécie de companheiro enquanto corrói as paredes invisíveis. Há que comer, limpar, fazer, acordar, dormir e digerir imagens, histórias, cenas, arte, cultura, literatura. Essa coisa estranha que serve pra gente ver que há outras emoções mais graves, mais bonitas e mais invejáveis do que as que eu jamais sentirei. No fim fica sempre o vazio de um novo começo.

Resta desenhar outros cenários, moldar na unha outros personagens. Tornar mais plural isso que foi se fechando num casulo estranho e eu que me acostumei a chamar de vida mesmo sabendo que a palavra não dá conta da experiência, que o universo semântico mais limita do que ajuda e ainda assim insisto.

terça-feira, julho 10, 2012

Fingir que não estou na minha própria casa, ter segredos para satisfazer vontades alheias. Me tornar uma vontade alheia. Me tornar alheia. Não ter medida das minhas próprias vontades. Não ter nada de próprio nem ter onde morar. Não ter mais na ponta da língua a resposta em versos decorados que me tiram o trabalho de moldar com as fendas das mãos que se desfazem em peles, sangue e ressecamento do frio.

Histórias começam e terminam. Páginas foram feitas para serem viradas e a outra nem ainda. O corpo está quente e o cadáver nem está ainda esverdeado como deveria. Ainda está na mesa da sala, em velório mórbido. Velo pelo prazer sádico de ver apodrecer, quero ver os vermes surgindo e ver se entra na história a controvérsia da geração espontânea. A minha morte eu gero no ventre e aborto. Não basta mais o vômito para expulsar de mim o que precisa de contrações longas, gritos lancinantes e esse frio na pele que é sempre sinônimo de vida.

A pele vai criando fissuras, os lábios descamam, há pruridos que normalmente só surgem no calor. Há o vazio. Há o vazio de pairar no vazio. Há o conforto desesperante de não esperar nada e ainda assim se decepcionar com cada pequena estupidez humana. Dá essa sensação gostosinha de superioridade. Dá essa solidão altiva no mundo, o desconforto, o não se sentir em casa - e tudo bem, já que não há nenhuma para. Há uma esperança de que o refazer preencha alguma coisa, quando toda a superfície está envernizada e não há jeito de mesclar partes, não mistura, não há jeito.

Não há porta aberta. Lacrei fendas e posso pensar em barreiras de som se for o caso. O show está montado e não há palcos. Uma cena perdida apenas, com partes de cenário que perambulam pela casa, fotos inquisidoras que olham e reolham e indagam coisas que a boa educação não permite. Ficou muita coisa para arrumar e jogar fora. Ficou o desespero e a repulsa imensa de tudo o que venha do passado. Repulsa de gente.

Vêm os vícios. A gramática tão repreensível e repressora, os cigarros, as páginas mudas à guisa de companhia, as cervejas, os pequenos detalhes que iludem e fazem pensar que a calmaria não é tanta quanto parece. Não era a última, afinal. Era mais medonha. E virão outros, outras, eu sei. Os móbiles giram e, como um bebê colocado à força e ingênuo no berço, eu olho e reolho e vejo o furacão que se aproxima no vazio de não saber de nada, não querer nada e não ter para onde fugir, não querer correr no meio da tempestade que passa mais depressa e mais lenta do que eu gostaria. Eu não gostaria nada, eu não queria nada, eu só queria sentir. E agora sinto as coisas mais fundas cortando a pelo. Exponho na ânsia de guardar e expulsar paradoxal e simultaneamente.

Eu me perco e nem ligo de estar perdida se a gente encontra um ou outro perdido pelo caminho. Muda tudo a cada minuto e o que permanece é essa desvontade absurda. Fica a ânsia de chafurdar na lama fria, pegajosa, sentir como toca a pele, como é fétida e como gruda na pele e endurece nela assim.

domingo, junho 24, 2012

Riso, preces e paixão

Chega a hora de mudar a trilha sonora. Reconstruir detalhes mais fortes que as cores do cabelo que nem podem ser tantas assim. Faz a casa com a tal solidão-liberdade. Buscar dentro de si os meios de retirar o pó, dar brilho, lustrar emoções novas-velhas-outras, descobrir que a gente se ilude em frases antigas nos dizendo que já não há mais quando ainda há tanto e de tantos jeitos e formas.

Quem se deixava vencer pelo cansaço da alma que minava o corpo agora desperta seu sono na exaustão que é só vontade de um algo a mais, uma foda a mais, uma noite a mais, uma vida a mais, porque eu sei que você tem muitas, que nós temos tantas e que ainda é cedo para decorar tantas frases. Ainda há muito o que escrever, muita coisa para arrumar, nem que seja para poder contar depois.

Deitar no velho travesseiro pensando em novas roupas de cama, novas peles, novas camas. Acordar no velho travesseiro ancorando em novas vidas, em novos planos e sonhos. Acordar no meio da noite, no meio da tarde, no meio do dia, no meio do desespero de saber que você não resolveu nem poderia nem ninguém poderia tirar do peito essa angústia, era muito exigir essa responsabilidade.

Na falta de uma ingenuidade essencialista, na falta de crença antiga de que é possível encontrar a gosma pronta. Eu tiro os dedos da garganta e vou é tateando outras coisas, texturas, peles, cheiros, gostos que deem prazer e façam sentir que no caminho a gente sempre vai encontrando uma ou outra coisa de mais ou menos valor.

No mundo sem canetas, ninguém mais perguntaria sobre valer a pena. Ninguém conhece ou pretende medir o tamanho das almas.

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A depender de mim
Os psicanalistas estão fritos
Eu mesmo é que resolvo os meus conflitos
Com aspirina, amor ou com cachaça
Os gritos todos virarão fumaça
A dor é coisa que dói e que passa
Curar feridas só o tempo há de
Toda regra para o bem da humanidade
É certo necessita de uma exceção

A depender de mim
Os publicitários viram bolhas
Eu sei como fazer minhas escolhas
E assumir os erros que lá vem
Se a alma finca pé os medos somem
Menino nunca deixe que te domem
Meu pai dizia o verdadeiro homem
Sabe o que quer ainda que não queira
Besteira é não seguir o coração

A depender de mim
Os padres e pastores serão tristes
Eu penso mesmo que deus não existe
E ainda assim quem sabe eu creia em deus
Se deus é o outro nome da verdade
Deste momento até a eternidade
Eu levo entre mentiras e trapaças
Besta felicidade frágil farsa
do que preciso riso, preces e paixão



terça-feira, maio 29, 2012

Não há possibilidade de fazer nada enquanto não expurgar tudo isto. Não há meios de continuar a agir normalmente, acordar, tomar banho, café e andar na rua com essas palavras grandes, indefinidas, indecifráveis atravessadas. As palavras que deveriam ser imagens não abandonam os ciclos, círculos, pontos e espirais que se desenham e redesenham nas vertigens antigas que eu tento vender como novidades desencaixadas nos pronomes impessoais e tortos.

Celinda Ojeda


A lâmina atravessa o feltro vermelho que não só não sangra, como expurga espuma branca da forma mais sutil. Os movimentos musculares que rasgam as superfícies querendo penetrar, mergulhar fundo, destruir, ver jorrando o forro, desmontando os planos de conforto, os movimentos querem rasgar peles, espremer carnes, escorrer sangues que pingam incomoda e vagarosamente. Isto não é uma fala de teatro, não é uma cena de teatro, não é um roteiro de cinema, não é uma imagem para além do texto. É texto. É só texto. É sempre apenas texto. Emoção falseada, engodo-explosão. A vida não é feita de palavras. As palavras podem vivificar um pouco em vozes, sussurros, choros, desesperos.

É um desespero leve, alternado com essa tranquilidade grande. É um desespero atormentado por formigas, dentes, alimentos estragados, bolores. É um desespero que se refugia em filmes porque os livros são muito densos ou porque a atenção anda muito dispersa e perdida em tensões de uma era em que se dá nomes de gerações ao que antes era apenas conhecido por preguiça. Pecado capital que se fosse para escolher, não seria o escolhido. Mas a gente aprende que não somos só escolhas, que existem as tais partes de nós mesmos que não são possíveis de serem seguidas, acompanhadas, esmiuçadas. A compreensão impossível, a tarefa árdua que não deve valer a pena. O tal reflexo desprezível, o que não se quer ver de si mesmo, os atos mais falhos, os inconscientes mais corruptíveis.

O empenho intelectual vai mais fácil pelo ralo, escorre no chuveiro envolto em sangue, ferrugem e suco gástrico que deveria ser a metáfora do dia, mas foi seu prato de ontem que eu peguei frio e azedo para mastigar. Fica a mesma massa incompreensível, intocável e previsível. Massa disforme e áspera em que a gente afunda sulcos, constrói peles, faz brotar lágrimas artificiais, porque quando é verdade a dor é o grito que se escuta de longe, perdido no meio da tarde.

A dor ganha, perde, faz e desfaz contornos, curvas de seios, curvas de músculos, veias vísiveis sob a pele. A gente vai modelando a dor que nunca é mais que invenção. Limites que a gente mesmo testa porque sabe que a destruição só é possível uma vez e depois tudo é reinvenção. Depois que a gente já sabe como remonta, não tem a mesma graça o peteleco inicial do efeito dominó. Depois que a gente já sabe como faz para escalar pedras, não tem o mesmo impacto o salto dos altos abismos. Depois que a gente já conhece o nosso próprio antes, a gente tem a ilusão besta de que já se conhece, que já sabe como vai reagir. Acha que tem resposta na língua, acha que a conversa de frase-feita funciona, acha que há jeito, que tem peito, que encara, resiste e que o calor que vai subindo pelo rosto pode ser controlado antes de virar lágrima.

terça-feira, maio 01, 2012

Ainda sem

Para se ler ao som de O velho e o moço (Los Hermanos)

O mais novo de mim mesma é muito antigo.



São amontoados de meia dúzia de frases de livros mal lidos, outros apenas comprados que enfeitam estantes inexistentes, se espalham por mesas inutilizáveis e por pedaços de chão manchado por tintas desconhecidas cujas histórias me são bem mais atraentes do que as das capas nunca abertas.

O egoísmo é tanto que ficou gravado na pele tudo o que não é para fazer. A preocupação foi tanta que ficou tudo inacabado, desinteressante. Sempre me procurando, me procurando, me procurando em várias coisas já prontas e mal-feitas, por isso sempre vi um pouco de espelho do meu rabisco. São só rascunhos manchados, desabafos de coisa nenhuma e agora que precisava de algo pronto, ninguém fez. Todas as histórias boas estão fechadas nas estantes, no chão, nas livrarias. Não adiantou nada cortar o cabelo e decorar meia dúzia de contos se agora eles não dão conta - com o perdão do trocadilho besta - da profundidade necessária.

Repetir as mesmas frases, não ter aprendido nenhuma palavra, não ter escrito nenhuma história e não ter aprendido as formas corretas de usar o termo mesmo fazem perceber quanto tempo foi gasto à toa. Quanta lágrima desperdiçada, o choro inútil de não ter motivo para chorar.

O drama nasceu comigo. A intriga ficou faltando. Eu perdi a literatura em artigos pouco produtivos e também mal-lidos, já que nem a escrita mais mercadológica me é eficiente. Farsa intelectual. Metáfora comprada de quem roda na roda e roda fodidamente por não saber sequer dar nomes aos próprios bois. Por ter perdido a mão na hora de ser mais vaca, mais filha da puta.  São correntes historiográficas tão mal aprendidas quanto os fatos colocáveis em linha do tempo. Não dá para subverter o ensino quando não se sabe verter uma lágrima que valha a pena. Quando não se sabe a teoria clássica que pode ser desconstruída, quando uma preguiça enorme de aprender é o que mais tem espaço.

O mais novo de mim mesma é muito sem graça. Ele tem roupas novas. Ela agora mandou dizer que fuma só para poder simultaneamente esquecer mais um verso e eliminar uma tarefa do eterno dia seguinte. Ela agora diz que conhece o amor livre quando ainda repete o substantivo no singular e desconhece as adjetivações necessárias para se dar prazer. O gozo é pouco quando o dia seguinte pede o pragmatismo de um novelo de náilon do qual o felino mais idiota se desvencilharia com maestria.

O mais novo de mim não sabe ser mestre nem se convence de que possa ser algo entre chefe e alguém que pode se responsabilizar quando algo der errado. Não entendem? No meio de toda a minha frigidez, o que eu quero é que tudo se foda e se confunda e fique parecido com o que chamariam de errado só para conhecer alguma proximidade com o caos. O mais perto que eu teria de uma realização pro-fis-sio-nal em letras douradas e caligrafia de normalista seria o circo pegando fogo sem que eu pudesse assistir de fora, em que eu pudesse sentir o calor torturando a pele e participar dos gritos de desespero.

O mais velho de mim era mais dedicado intelectualmente e bem menos arrogante, mas isso eu sempre temi e previ que aconteceria. Hoje eu já não sei conjugar verbos e ainda me atrevo a me meter em oraçõezinhas com toda a minha ausência de insubordinação. Eu me escondo em linhas do tempo superficiais, finjo que tenho objetivos que não sejam um dia depois do outro enquanto penso como-quando-onde será o último e desejo como quem amarra uma fita no pulso que seja algo interessante.

Eu sei que o meu vazio é falta de empenho. Eu sei que existem histórias mais fascinantes, mais elaboradas, mais originais e, principalmente, mais bem escritas do que estas parcas que já há tanto tempo eu leio e releio. Sei que também que existem outros pronomes além da primeira pessoa do singular, mas falta um descentramento que me permita o mergulho. E falta, mais do que tudo, tomar vergonha na cara junto com o gelo do uísque que até agora sequer pode vir sem coca-cola ou guaraná.

quarta-feira, abril 11, 2012

Trascurare

Para ler ao som de E poi? de Giorgia

E depois? Depois que aquele um já chegou, depois que já escarnecemos juntos tudo o que podíamos de uma roda em que a gente já entrou, já saiu, já rodopiou, já vomitou junto lá de cima, já entrou escondida sem pagar o ingresso, já deixou de ir porque não tinha dinheiro, já ficou olhando de cara cheia todo mundo que roda sem fim, já ficou olhando de cara feia, já escreveu artigos criticando quem roda, já ficou tonta e pensou que talvez as coisas não sejam tão cíclicas nem tão metafóricas nem tão literais assim. Faz o quê? Depois que nos conquistamos, nos vimos, nos perdemos, nos machucamos, nos confundimos entre objetos diretos, verbos pronominais ou reflexivos. Depois que já falamos outras línguas, já nos xingamos e nos amamos em dialetos incompreensíveis, já nos entendemos em silêncio, já nos desentendemos com um milhão de palavras. Depois que o gelo derreteu, que o disco já terminou e fica aquele barulho da agulha enganchada. Depois que você já cansou de me ouvir tentando criar referências de coisas que eu nunca vivi. Depois que eu já nem me lembro como funciona um vitrola e também ainda não sei como se mexe nos icoisas da vida. Depois que você já cansou de saber que eu sou perdida na vida, perdida no mundo às três da manhã ou às duas da tarde. Depois que esse ar de angústia perdeu a graça, depois que meu cigarro de não fumante já não passa de uma cena repetida, sem graça e incompatível com a saúde e com o bolso. Depois que a gente já mandou para a puta que pariu a saúde, o cheque especial, a moral burguesa, a roda, as cobranças, os rótulos. Depois que a gente aprendeu que o bom de fumar charuto é sim não precisar tragar. Depois que a gente descobriu a calma que dá um cigarro mentolado acompanhado de uma xícara de café correto. Depois que a gente já aprendeu um montão de pequenos prazeres e perdeu os grandes. Depois que a gente ficou assim meio dependente, que a gente não sabe andar na rua se não tiver uma mão em que segurar. Depois que a gente perdeu as medidas, as fronteiras, as etiquetas, a definição de onde se guardam as senhas e como se fecham as gavetas. Depois que o seu sapato não pisa no meu, mas os meus pés estão com suas meias, seu cabelo com meu corte, seu desespero com as minhas frases feitas. Depois que a gente já passou do tempo da crise, depois que as estruturas caíram em desuso, depois que os  rótulos das garrafas de cerveja-conhaque-uísque, depois que todos os rótulos já foram meio destruídos com aquele gesto besta de retirar o papel já sem cola e tentar usar para identificar um copo. Ainda assim, a gente troca os copos, mistura as bebidas para além dos brindes. Apesar de tudo, a gente sabe que não tem ninguém tentando envenenar ninguém.

Depois que você já decorou todas as frases que eu já esqueci. Depois que nenhum vizinho suporta mais ouvir as mesmas músicas, em madrugadas cada vez mais iguais - álcool, gelo, choro e uma tentativa de sentir alguma coisa, qualquer coisa que possa, antes de acordar alguém, nos ajudar a dormir tranquilas.

Depois passa o plural. Deixa de existir o "a gente" e perde-se o risco de equivocar alguma concordância. Depois eu vou dormir tranquila, você vai escrever tranquila. Depois que separar as roupas, os livros, as músicas, depois que soubermos o que há de indissolúvel na mistura, depois que eu descobrir enfim o que sobrou de mim que ainda me seduz. Depois que eu souber ser sem ser através de frases feitas. Depois que eu me reencontrar em palavras, em cores, em desabafos e angústias.

Depois que eu souber a função sintática da palavra depois. Que eu dominar a historiografia da saúde e da ciência. Depois que você souber definir seus conceitos. Quem sabe um dia eu te ligue para saber onde você está, quem sabe você estará disponível, quem sabe eu saberei te explicar o que eu queria mesmo em frases audíveis ou escrevíveis. Talvez você nem tenha mais tempo para ouvir, talvez você não queira mais ouvir. Talvez você simplesmente esteja em outra cidade, outro estado, outro país. Talvez a gente tenha que esperar um tempo para se reencontrar. Talvez seja amanhã, talvez demore muito tempo. Talvez a gente nunca saiba.

quarta-feira, abril 04, 2012

Por aí (Cazuza)

Imagem retirada daqui


Se você me encontrar assim
Meio distante
Torcendo cacho
Roendo a mão
É que eu tô pensando
Num lugar melhor
Ou eu tô amando
E isso é bem pior, é
Se você me encontrar
Rodando pela casa
Fumando filtro
Roendo a mão
É que eu não tô sonhando
Eu tenho um plano
Que eu não sei achar
Ou eu tô ligado
E o papel, e o papel
E o papel pra acabar
Se você me encontrar
Num bar, desatinado
Falando alto coisas cruéis
É que eu tô querendo um cantinho ali
Ou então descolando
Alguém pra ir dormir
Mas se eu tiver nos olhos
Uma luz bonita
Fica comigo
E me faz feliz
É que eu tô sozinho
Há tanto tempo
Que eu me esqueci
O que é verdade
E o que é mentira em volta de mim

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Insomnia Scriptum

Uma espécie de insônia resultante de uma espécie de cansaço que não se deixa vencer se for para ver você dormindo entregue. Como uma rima boba, como uma música já feita e um momento que por se repetir não perde o sabor de novo, o sabor do gesto, ainda que imóvel.

Todas as bobagens lidas ao longo do dia pairam um pouco na mente como uma saudade clichê e uma vontade de que possa ser um pouco mais outra coisa - e a tal não vocação ou falta de vontade se confunde. Depois de feito, depois de fato, não adianta lavar o hábito que já grudou no corpo - por menos santa que seja a lingerie por baixo.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Era para ser qualquer coisa e pode ser qualquer coisa. Podia parecer vertigem ou dia de sol no meio da chuva, no meio do tempo, no meio da carro. Era para ser inteiro mas ficou parecendo metade por alguma falta de calor e ficou parecendo uma dívida eterna, dessas boas de pagar em pequenas prestações para não se desvencilhar de nada.

Mas aí é outra coisa, como sempre inominável - e fica tudo sendo coisa e parecendo igual quando é completamente diferente e tem só no não nome uma semelhança. Tá tudo bem quando a gente não precisa mesmo de palavras para chamar, pois olhares, suspiros e melodias simples dão conta do recado. Poderia ser um bilhetinho (azul ou de todas as cores que existem) ou uma mensagem gravada em uma secretária eletrônica que já não existe. Não há problema se já somos de outro tempo, se o tempo é nossa ocupação.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

O sumiço é sinônimo de descanso. Um descanso cansativo como a vida sempre é, porque quase nunca dá pra descansar a cabeça e o corpo ao mesmo tempo, mas dá para ir somando os momentos alternados e ver que o resultado é aquela felicidade doce, uma certeza vaga de que eu não queria estar em nenhum outro lugar agora. Aquela felicidade completamente diferente das que prometem, vendem e alugam por aí - com direito a muitos sujeitos indeterminados que a essa altura do ano é melhor deixar para lá.

As marcas do corpo mudam um pouco. O corpo, a pele, os ouvidos são outros. Cada coisinha nos faz pessoas novas, ainda mais em épocas de renovação. Mesmo em meio a trabalho duro, o sol brilha, os dias brilham, as pessoas brilham, o sol nasce, se põe, a noite cresce bonita e venta luares doces, clichês deliciosos e momentos indescritíveis, irrepetíveis, maravilindos porque partilhados.

domingo, janeiro 08, 2012

Estradas, trilhos e muitos e variados caminhos

Eu quis ter feito um post de fim de ano, ainda no clima de natal, com agradecimentos a pessoas que tornaram a barra pesada que foi dois mil e onze um pouco mais leve. Mas aí o ano acabou e ficou fora de contexto. Depois eu quis fazer um de boas vindas pro ano, com promessas, energias vibrantes que inauguram coisas, mas aí passou também. Hoje já é dia oito, já tem mais de uma semana que o ano começou e, passado o deslumbre inicial, a vida vai continuando, plena e saltitante.

Dois mil e onze foi um ano que demorou muito a passar, tanto que merece ser escrito assim, bem por extenso. Dias longos, dores longas, trabalhos árduos e intermináveis, momentos de desespero - uma das partes boas foi uma espécie de reconciliação com esse espaço aqui. Recapitular o blog esse ano é passar um pouco por tudo o que passou. Vai passar, disseram dado momento. E não era mentira. Que bom. São sempre moinhos os monstros gigantescos, mas a gente só percebe isso depois de sair em migalhas. E eu me pergunto se monstros gigantes não seriam mais amenos, mais leves...

A sensação que eu tenho (acho que até já disse isso aqui alguma vez, sou sempre muito repetitiva) é que a cada ano - poderia dizer a cada dia, não fosse a época de ciclos outros - as coisas, digo, a vida fica mais densa e mais intensa. Nos problemas e nas sensações maravilhosas pelas quais passo. Dores indescritíveis, alegrias mais indescritíveis ainda é o que deixa o tal do doismileonze. Deixa também uma vida completamente diferente e inimaginável há uns meses atrás. Os abismos foram fundos a ponto de usar essa metáfora clichê - e os voos estão sendo altos.


segunda-feira, dezembro 05, 2011

Agora falta pouco para o mundo mudar de cor -  e ele já tem muitas cores. Tem coisas que a gente não diz, as mais difíceis de engolir. Há coisas que é preciso gritar, lutar contra. Um gosto amargo e pastoso na boca, é isso que depois se converte em sulcos que gritam nas horas difíceis. É difícil se posicionar o tempo todo, ter força e voz o tempo todo. Mas a gente vai tentando com a certeza de que não ser fácil não é motivo bom o bastante para não fazer. Vez ou outra a gente até é surpreendido positivamente. Outras vezes não - e aí vale a pena chorar, gritar, xingar desde que depois passe e a gente saiba olhar o sol que nasce todos os dias. Depois passa, sempre passa.