Páginas

Mostrando postagens com marcador Los Hermanos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Los Hermanos. Mostrar todas as postagens

domingo, fevereiro 17, 2013

Todo carnaval tem seu fim

É só uma questão de recobrar a saúde, recobrar as rédeas, recobrar a sanidade, o volume do rádio, a agenda de telefones, o formato do travesseiro. O relógio corre. Os dias idem. E não há tempo. Simplesmente não há tempo nem sanidade para criar de novo as próprias armadilhas. O segredo é desfazer o ponto à mesma proporção que teço. Difícil é saber medir e controlar a velocidade com que o sol bate nos olhos.

O tempo é necessário. A solidão é necessária. Qualquer tropeço me faz perder o rumo nesse caminho de quem não sabe aonde está indo. O sabor do passo, lembra? Uma hora ou outra esbarro num instante mais bonito que desvirtua, fragiliza.

Há mais cores e possibilidades e não há doença que Drummond não cure. Não há cabeça que o coração não ame e não há lembrança e rosto virado na rua que não faça lembrar o quanto o amor arde - mesmo quando a gente anda depressa demais tentando não rever os próprios passos. Vovó diria que tropeça, mas as pessoas da minha família nunca gostaram de alimentar estereótipos.

É preciso tempo e dedicação. É preciso convivência. É preciso não precisar e saborear devagar cada pequena folha de manjericão.

O carnaval acaba, sempre acaba. A coerência não, posto que ela nunca existiu.

Os vírus passam depois de determinado ciclo. Atos de um drama teatral: o momento da reflexão sempre chega. Ainda que seja a mais simplista, a mais cliché, a mais encerramento-birra de quem no fundo guarda o vestido estampado para o carnaval que vem.

Eu pinto o nariz quantas vezes for, mas o suor borra e a pintura se desfaz.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Pá furada

A poesia grita em duelos nas ruas
povoadas de almas desertas
que se desconhecem
mas já se viram n'outras noites e carnavais

Não sei se tem mais poeta
ou vendedor de amendoim
no pouco espaço entre as mesas e corpos

Não sei se eles têm mais fome
de comida ou de voz
Não sei se eu tenho mais culpa
ou sede

Sei é que um pouco de arte passa
Aos borbotões
nas calçadas sujas de suor e solidão

Não sei se é mais fome ou angústia

Não sei se ele põe mais orégano
ou desenhos de capa
se faz promoção-três-por-cinco
ou declama alto pr'as menininhas
cheias de vontade que alguém lhes diga
qualquer coisa que pareça vida

e eles dizem
mesmo que seja essa vida parca,
esses dias consecutivos,
esses brindes aguados em copos vazios,
esse tesão forjado,
essa teatralidade canastrona,
essa chuva que cai dos olhos
no verso mais cliché
que se diz com lascívia.

com seus livretos curtos
de papel xerocado na gráfica da esquina
- aquela mesma dos balcões antigos -,

com seus cones de papéis coloridos
e higiene duvidosa

eles jogam uma pá de terra
na culpa
e uma pá de letra
na cara dura

terça-feira, outubro 16, 2012

As damas da noite recolhem o seu perfume com a luz do dia



"Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada".
(Trecho do conto Dama da noite, de Caio Fernando Abreu).



Podia ter acabado num convite para uma dança do qual ninguém lembraria já que a dança sequer aconteceu. Quer dizer, aconteceu. Aconteceram várias enquanto você observava de longe o movimento que faziam os cachos dos meus cabelos. Não, não era isso. Você observava os movimentos só, sem nem saber ou se importar com quem eu era. A pista rodando e eu rodando junto com uma depois outra e outras tantas de quem também não é possível lembrar. As moças e as músicas.

Você olhava de fora, à margem, a cara cheia de quem diz, "Olha, eu não sei" e oferece um sorriso perambulando entre a doçura e a educação. A vida segue e a roda continua rodando e toda a gente junto, dentro.

Quem olhasse sua cara de fora - digo assim 'quem olhasse', porque eu mesmo não olhei, eu estava dentro, como todo mundo - diria que a sua vontade era rodar junto também, mas as pessoas nunca sabem.


É que ninguém sabe - ou todos sabem e nunca é importante saber - que a vida é a polpa de onde se tira com custo, sangue, suor e pequenos gritos o substrato para a literatura. Essa coisa inútil, impalpável, essa coisa de quem não tem nada de concreto. Eu nunca disse que tinha. E também quem sou eu para me achar li-te-rá-ria? 

A pergunta não era para ser realmente respondida. A vida não era pra ser real. Não era pra ser, entende? Chega um dia em que a gente vira personagem da própria história e aí... e aí não tem jeito que dê jeito. Não tem vida que dê fim.

Quando eu fui atrás de você, no entanto, não era no intuito de encontrar uma brechinha e aprender a tal palavrinha secreta. O que eu queria era te tirar dessa roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar. Queria só quebrar, como se diz?, o pro-to-co-lo.

Eu disse que não sabia rodar misturando feito cachaça e cerveja essas minhas referências que no fim das contas ninguém entende. Enchi o copo e te disse que viver é melhor do que entender, que criticar pode ser melhor do que propor - ou alguma coisa parecida com ou completamente diferente disso. Dissemos coisas porque era preciso dizer, era preciso quebrar o silêncio que se formava com o recolher da música e com o fim dos pretextos e com o vazio que fica na mente quando o que se quer é só apresar as coisas. E falamos essas coisas vagas, vazias, essas frases que a gente encontra para preencher o tempo entre o primeiro copo e a primeira transa. Dissemos, andamos, fomos.

Eu acordei sem saber a que horas você teria saído. Poderia até pensar que foi tudo sonho, mas isso não chegaria a ser um pensamento e sim uma lembrança. Alguns vestígios pelo chão e alguns cheiros ainda presos ao lençol que você mal desforrou me diziam que não.

E não adiantava tudo o que me diziam, não adiantava a cena, não adiantava a música, as coisas no lugar e as tais coisas todas que você disse, que a gente disse. Eram só essas frases que a gente usa para preencher os tempos e espaços que separam a cama do primeiro copo. O meu primeiro havia sido cerveja e o último cachaça. Você parecia ter bebido outras coisas e vindo de outros mundos. Mundos que deixam as portas abertas quando saem e sabem que isso não é um aviso de volta.

Esse nunca mais ficou rodando na cabeça só o tempo que durou a ressaca, como uma melodia fina que se desmancha no ar durante a manhã de segunda-feira.