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quarta-feira, novembro 14, 2012

Direito de corpo




"Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?"
(Amor, pois que é palavra essencial, Carlos Drummond de Andrade)





Quando você fala em conquista, eu penso em desbravadores espanhóis do século XVI: armados até os dentes com seus estandartes reais e sua generosa civilização a postos. Prontos a impor línguas, estuprar jovens nativas, escravizar povos, ensacar culturas. Eu penso em posseiros, em acampamentos do MST; fazendas pecuaristas improdutivas; grandes plantações de soja; agronegócio. Eu poderia até pensar em agricultura familiar, pequena propriedade, mas eu penso em latifúndio, eu penso nas contradições do capitalismo, nas contradições do termo pro-pri-e-da-de e me agarro a minha mais fajuta filosofia budista: não há posse, não há conquistas, não há direitos.

Você poderia argumentar que há quem faça uso da terra estando ciente de tudo isso. Há quem aproveite o que a terra oferece, sabendo que ela dá generosa, que não pede nada em troca e que, por isso, não cabe exigir nenhuma segurança. Quando a gente menos espera, estão aí os furacões, terremotos e outras combinações várias disso que convencionamos chamar natureza só pra dizer que não é nosso. Com a casa nos ares, as plantações alagadas e o trabalho destruído, nós fingimos não escutar.

Pois eu te digo que não é seu. Que meu corpo não é território a conquistar – e mesmo se. Que você não chega e coloca uma bandeira num pedaço e isso te dá direitos adquiridos, que você vai e volta, sei lá quanto tempo depois, e a bandeira está ali, exibindo o seu brasão. Também não é questão de tempo ou distância, posto que o mesmo vale para quem fica, coabita, compartilha pão, espaços e sonhos. Tenho pra mim que estes poucos chegaram a estudar a fundo a teoria, mas na prática ficou faltando quebrar as cercas.

Antes que soe grosseiro, acusação que já estou acostumada a receber, me defendo: meu corpo também não é meu. O rompimento dessa falsa relação de posse é tão difícil que na hora de colocar em palavras vem o pronome pos-ses-si-vo a tiracolo. É costume o pronome, mas nem por isso. Esse pedaço de pele, carne e sangue com o qual convivo tem suas próprias vontades e desvontades. Chora sem pedir licença, dorme ou mergulha em longas insônias. Come muito mais do que eu gostaria, tanto quanto descome. Igualmente bebe e desbebe. Sente calor e frio, tem sinapses angustiantes, arrepios fora de hora, focaliza no estômago as dores mais fundas que tampouco lhe pertencem. 

Isso que nem é uma coisa à parte, não depende de mim, não está sob meu domínio e a muito custo, nesses vinte e três anos de convivência, venho tentando aprender a lidar. Não digo que seja fácil nem que eu tenha sucesso constante na empreitada, mas se eu já aceitei que mesmo com a convivência íntima e cotidiana não posso falar em posse, não venha você.

Não desperdice suas técnicas de guerra aprendidas, pois não há louros no final. Não há espólios, nem haverá muralhas. Conquista é aquilo que se faz com uso de força militar para dominar algo que não nos pertence, a gente tenta exercer poder, mas a capilaridade felizmente nunca é tão ampla. Portanto, não transfira para mim sua ilusão.

Não existe nem existiriam contratos estabelecendo direitos de uso. Não houve mesmo para quem firmou acordo em praça pública, digo, praia pública, com testemunhas e tudo o mais que se tem direito. Não há direito que não seja o de viver. Todos vivem. E os corpos convivem – e se entendem melhor do que as almas, sempre sabemos.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Machismo nosso de cada dia

É sempre adequado reagir diante de uma situação de machismo? Talvez o meu questionamento pareça covarde, mas foi isso o que fiquei pensando hoje enquanto voltava para casa bastante chateada com o tal do 'machismo-nosso-de-cada-dia'. No de hoje eu calei. Em parte porque na situação não cabia, em parte porque ouvi de uma amiga um dia desses que eu devia parar de ser chata, pois ela gostava/gosta de ouvir cantadas na rua.

Hoje, quando engoli minha pílula diária de misoginia, de alguma forma ficou claro para mim que a vítima da situação (sim, para mim há vítima e agressor, porque sim, há um tipo de violência) se sentiu lisonjeada com o ocorrido - e imagino que essa reação, somada à minha não-reação, foram os responsáveis por esse nó na garganta que me acompanhou até em casa e que continua aqui até agora.

Sei que contar publicamente o caso pode ser uma forma de colocar a cara à tapa e receber muitas críticas ao meu feminismo da-boca-pra-fora, pouco combativo ou o que quer que seja. Bem, sem intenção de defesa prévia, digo que eu já me fiz todas essas mesmas críticas enquanto voltava para casa e, sem solução ou rótulo, escrevo sempre como uma forma de expurgar, tentar inteligir com palavras.

Explico:
Estava na aula de uma das disciplinas do mestrado. Uma das cinco alunas que compõem a turma apresentava os textos escolhidos pela professora para o tema a ser discutido. Vale observar que a turma é composta por cinco alunas e um aluno, bem como que quem leciona é uma professora. Ao final da apresentação, todxs fizeram suas observações, perguntas, comentários etc., como é de praxe. Foi em algum ponto desse momento da aula que o aluno fazia as suas considerações e alegou sentir falta de um determinado aspecto na fala encerrada. Rapidamente, a professora informou que o tópico havia sido abordado pela aluna e que, possivelmente, ele não tinha prestado atenção à hora.

A frase que veio em resposta pareceu incomodar apenas a mim naquela sala. Foi algo como: "Acho que eu me desconcentrei com a beleza da apresentadora". Nesse momento, eu acho importante esclarecer que a doutoranda em questão é uma mulher jovem, alta, loira e de olhos claros, ou seja, enquadra-se no padrão de beleza vigente em nossa sociedade. Qual a parte que não encaixa? O fato de uma mulher considerada bonita ocupar um papel ou estar numa posição que representa poder e inteligência.

Me vieram à mente as alegações usadas à época das lutas pela inserção das mulheres nas universidades, no mercado de trabalho, enfim, no espaço público: dizia-se que a beleza da mulher, ou melhor, a sua natural sedução, distrairiam os homens da racionalidade, das tarefas comumente desempenhadas com eficácia pelo lado racional da humanidade. Dizer que a beleza distraiu quer dizer que a presença feminina sugere obrigatoriamente beleza, sedução ou que só se deve permitir que pensem as mulheres que estejam fora dos tais padrões de beleza, ou que o papel da mulher é apenas enfeitar o universo masculino. Pode parecer que estou exagerando, mas se fosse eu que estivesse apresentando, que tivesse me esforçado para fazer uma pesquisa profunda sobre um tema, trazido questões, exposto e debatido ideias por mais de meia hora, ficaria muito indignada e ofendida de ouvir que todo o meu trabalho fica apagado por um caráter estético.

Pode ter passado despercebido, pode ter soado como um elogio, mas eu enxergo nesse comentário a demonstração do quanto o machismo está longe de ser extinto do nosso cotidiano. O quanto o ambiente acadêmico das ciências humanas está longe de ser um espaço de reais questionamentos, debates, transformações sociais - ou que pelo menos essas mudanças ocorrem com muito vagar. Que a presença feminina, ainda que majoritária em algumas situações, como foi o caso citado, não necessariamente significa que a lógica machista da sociedade está sendo de fato modificada.

E eu fiquei pensando se não falar nada não foi uma forma de legitimar, sei lá, perpetuar esse tipo de atitude. Fiquei pensando, mas ainda assim não disse nada. Vim embora pensando nisso, apenas... e talvez continue a pensar até que aconteça o próximo episódio que, infelizmente, não duvido que tarde. Espero então ter mais profícuas reações.

quarta-feira, agosto 29, 2012

29 de agosto: Dia da Visibilidade Lésbica

O dia quase no fim, cheio de problemas, preocupações, coisas martelando na cabeça e a internet (que sempre me avisa das coisas) me diz que hoje é dia da visibilidade lésbica. E eu me sentindo tão invisível - e até bastante hétero nos últimos tempos... É claro que este tem sido apenas um comentário com amigos que explicita o fato de que eu tenho me relacionado muito mais com homens nos últimos tempos, mas quem sou eu para julgar e condenar a minha própria sexualidade se eu procuro tanto não fazer isso com a de mais ninguém?

Eu costumo dizer, costumo mais do que dizer, costumo levantar a bandeira (e olha que essa é uma das poucas bandeiras busco levantar com todas as minhas forças) de que sexualidade é uma coisa muito mais ampla do que querem nossas classificações. Como já disse Caio Fernando Abreu, em frase que eu também repito constantemente, "homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade — voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe"*. Então, fica a pergunta: por que um dia da Visibilidade Lésbica? Por que um dia do Orgulho Gay?

Enxergo os caminhos das respostas para essas questões na própria nomenclatura das datas - e hoje, por razões óbvias, opto por dar destaque à questão da (in)visibilidade. A conversa pode começar naqueles clichés de que lésbicas são aquelas mulheres que ainda não encontraram um homem capaz de comê-las direito, mas eu prefiro enveredar por um caminho diferente. Não faz muito tempo, ouvi de um amigo que é muito mais fácil para uma lésbica "sair do armário", que a sociedade tem menos preconceito, que a aceitação é muito mais fácil.

Imagino que por trás dessa formulação esteja um pensamento do tipo "Ué, mas tem um monte de filme pornô com lésbicas, existe uma cultura erótica do sexo entre mulheres". Sim, existe. E nos leva àquele outro cliché de que o sexo entre mulheres existe para o deleite masculino - construção baseada naquela velha e tão presente lógica machista segundo a qual as mulheres, afinal, só existem para o deleite masculino, são inclusive uma mera parte dos homens ou vocês esqueceram da historinha da costela do Adão? Não, eu não esqueci. E não esqueci porque nunca me deixaram esquecer. Porque ser lésbica e lutar pela visibilidade não é necessariamente lutar para sair nas ruas e não ser fisicamente agredida. Ser lésbica e lutar pela visibilidade é ouvir gracejos, "elogios", gente "querendo participar", é enxergar nos olhares alheios aquela agressão da cultura do estupro - e, ouso dizer, com a ameaça do estupro mais exacerbada pelo argumento de que as lésbicas precisam disso para corrigirem a sua sexualidade.

Como disse no começo do texto, após três anos casada com uma mulher, nos últimos tempos tenho me relacionado com homens e me peguei em alguns momentos constatando como a gente acaba criando mecanismos de defesa para a homofobia. Um gesto bastante corriqueiro e inconsciente para um casal heterossexual como andar de mãos dadas nas ruas foi o que me surpreendeu um dia desses. O que era para ser um gesto de carinho, ter as minhas mãos entre as de outra pessoa, depois de um certo tempo, depois dos percalços e inseguranças de uma separação, depois da alma machucada por muitas coisas, o que era para ser um gesto de carinho me sobressaltou. Tentei disfarçar o susto e me vi automaticamente observando minuciosamente o local em que estávamos, como costumava fazer a fim de precaver a mim e a minha companheira de possíveis demonstrações de homofobia. A gente se acostuma com o preconceito? A gente acostuma a sentir medo... Esse medo invisível para muita gente, esse medo intangível para os que abrem a boca para dizer que direitos para minorias servem para construir privilégios.

Me surpreender nesse "momento heterossexual" me fez sentir exatamente assim, uma pessoa privilegiada. Uma pessoa que vive em circunstâncias mais confortáveis do que uma quantidade enorme de pessoas e essa sensação não foi nada legal, porque se eu estivesse com uma mulher ao meu lado, talvez nós não déssemos as mãos, talvez ficasse entre as duas a áurea de medo que nesse caso passou só por mim. E é isso o que acontece muitas vezes e o que eu não canso de ver (graças a deus e com muito orgulho, quero ver muito mais!) é gente vencendo esse medo, unindo as mãos, os lábios e mostrando que uma demonstração de afeto é uma demonstração de afeto independente de qualquer coisa. O que eu queria ver mais é que as outras pessoas entendam que essa demonstração de afeto não altera em nada a vida heterossexual delas e que não há motivo para responder a isso com xingamentos, comentários estúpidos, agressões, assassinatos e outras formas de violência.





* Trecho da crônica A mais justa das saias publicada no jornal O Estado de São Paulo em 23 de julho de 1987 e presente no livro Pequenas Epifanias (2007).

sexta-feira, agosto 17, 2012

Damas grátis: pra quem?

Dia desses, conversava com uma amiga sobre a mercantilização do corpo feminino que está por trás das programações noturnas que não cobram entrada para as mulheres. Como assim?, você deve estar se perguntando. Que mal há em deixar as mulheres entrarem de graça nas boates - e às vezes ganharem bebida liberada também? Fiquei com isso na cabeça durante alguns dias, pensando que muitas mulheres não atentam para esse tipo de violência e acham super legal entrar de graça nos lugares. Ouso dizer que muitas amigas minhas gostam e escolhem seus momentos de lazer enfatizando esse tipo de lugar para economizar dinheiro. O desconforto ficou martelando até o dia em que recebi um convite de aniversário cuja programação traz no flyer não só a entrada VIP (?) das mulheres, mas também o tal do Open Bar.


Não vejo problema nenhum em não pagar entrada, aliás, acho caro e sem sentido gastar uma fortuna para ficar num lugar escuro, abafado e com música alta. Mas não é sobre o meu espírito velho que quero falar. O probleminha invisível no 'damas grátis' é que normalmente a mesma filipeta sinaliza um valor bastante alto para a entrada dos homens, como é o caso desta que recebi.

Eu passo para vocês a mesma pergunta que minha amiga fez: por que os homens pagam valores (às vezes bem exorbitantes) para entrar numa casa noturna em que as mulheres entraram de graça algumas horas antes e estão ganhando drinks? Eles não estão pagando pela entrada, eles estão comprando um produto - foi a resposta que ela me deu e com a qual concordo plenamente. Eles estão pagando caro justamente pelas mulheres que entraram antes e já estarão bêbadas e fáceis na hora em que eles chegarem. E aí, se eles estão comprando esse produto, nada mais legítimo que ele o receba. Lógica capitalista. E nessa lógica assustadora, o cara ganha o direito de reclamar em caso de valor pago e produto não recebido.

Sei que não sou a melhor pessoa para relatar experiências nesses lugares, mas nas poucas vezes em que fui, me recordo das abordagens super agressivas, mãos no cabelo (imagino que isto seja até sorte), homens puxando pelo braço etc. Até onde me lembro, aliás, é por isso que não frequento esses lugares. O que não percebemos é que essa modalidade de violência - entre tantas outras sofridas pelas mulheres todos os dias - não está partindo apenas de meia dúzia de caras babacas. Essa violência é estimulada, alimentada, acalentada pelas casas noturnas. De vez em quando a gente vê consequências mais complicadas, uma agressão mais explícita como o caso da mulher que teve o braço quebrado ao recusar um homem numa boate em Natal. O que não vemos é que toda a lógica de funcionamento dessas casas noturnas, do ingresso às músicas tocadas, tratam as mulheres como objetos do desejo masculino - e se há alguma agência atribuída a elas, é a de satisfazer esses desejos, tornando legítimas as reações com violência física caso isto não ocorra. O que está sendo vendido não é um espaço com música e diversão, é um abatedouro em que, desculpem, eu não quero ser mais um pedaço de carne.

domingo, junho 03, 2012

Me perguntaram o que eu penso sobre a Marcha das Vadias... e eu me empolguei na resposta:




Acho que me converti ao feminismo pela linha teórica da História. Durante a faculdade eu tive a sorte de cursar uma eletiva sobre História das Mulheres que me chamou a atenção para os silêncios sobre o feminino na narrativa historiográfica. Me chamou a atenção por várias coisas para além dos textos, duas em especial: o fato de que ao todo só 4 pessoas se inscreveram para a disciplina e destas, só eu e mais uma a cursamos até o final (a outra pessoa, também mulher não por acaso, só precisava de mais uma matéria para se formar). A outra coisa que me chamou a atenção foram os comentários de colegas homens quando eu comentei sobre as aulas. Piadas como "O que vocês estudam? História dos eletrodomésticos?" e outras barbaridades das quais agora nem me lembro me deixaram enojada e com mais vontade de estudar o tema.

Depois de ter terminado a disciplina, comecei a acompanhar alguns blogs feministas que eu já conhecia de nome, mas que nunca tinha parado para ler. O Blogueiras Feministas e o Escreva Lola Escreva se transformaram em leituras obrigatórias para mim. 

Desculpe ir tão longe para responder algo que parece bem mais pontual, mas é que foi a partir dessas leituras que eu comecei a perceber que existe um mito ridículo de que o machismo não existe mais na nossa sociedade, que as mulheres já conquistaram tudo e que os homens coitados é que são as grandes vítimas hoje em dia. Um mito que está incrustado na cabeça da maioria das mulheres que eu conheço e que mascara a violência que todas nós sofremos todos os dias.

Acho que não corro o risco de generalização em excesso ao afirmar que toda mulher sofre violência misógina (ou seja, aquela que parte da premissa de que as mulheres são inferiores aos homens) todos os dias. Andar na rua, coisa que parece simples, mas não é porque o espaço da mulher na lógica machista é o espaço privado e controlado; é sempre um desafio enojador. Se você faz parte do padrão de beleza, você sofrerá com agressões de cunho sexual. Se você não faz, sofrerá com ofensas que te lembram que não cabe a mulher ser inteligente, trabalhar, pensar ou qualquer outra coisa - o que se espera é que seja bonita e reprodutora.

As tais cantadas na rua, quer fossem destinadas a mim ou a outras mulheres, sempre me incomodaram profundamente. E acho que aí que eu consigo entrar no tema da Marcha das Vadias. Nós não nos damos conta o tempo todo, mas estamos sempre sofrendo essas tais violências que são uma lembrança constante de que somos passíveis se estupro. O pensamento é simples e acho que percorre a cabeça de muitas mulheres, se você escuta uma frase asquerosa numa rua extremamente movimentada, o que aconteceria se a rua estivesse deserta?

Mudando um pouco a situação, podemos pensar em conversas entre amigos em mesas de bar. Surge um comentário sobre uma mulher que ficou com um cara e não transou com ele, foi embora de última hora ou algo assim. Qual é o comentário quase predominante? Que a mulher não pode "atiçar" o macho e depois ir embora, caso isso aconteça, é praticamente legítimo em nossa sociedade que o cara tem direito de forçar a barra e terminar o que começou. Porque? Porque vivemos numa lógica velada em que a mulher não é dona do próprio corpo.

É isso que me dizem as cantadas nas ruas e essas lógicas de acasalamento bizarras. Que as mulheres que andam nas ruas não são donas de si, elas são corpos que estão ali para serem observados e avaliados pelos homens e, caso sejam aprovados, é direito deles usufruir desses corpos.

A Marcha das Vadias, para mim, é um importante movimento de luta que denuncia e tenta modificar essa situação. É importante refletir sobre esse assunto tanto para mulheres que acham que precisam se vestir de uma determinada forma para se sentirem desejadas como para conquistar o direito das mulheres de se vestirem ou se despirem como bem quiserem sem serem violentadas por isso.

Infelizmente, eu não pude comparecer à Marcha no último dia 26 por estar trabalhando em outra cidade. Ainda assim, o que pude fazer para cumprir com meu dever de militante do feminismo e dos direitos sexuais foi explicar para os meus alunos o que era o movimento, como surgiu r para que serve. Não foi com espanto que ouvi de muitos deles o comentário "Marcha das Vadias, eu conheço várias que poderiam participar". O que para mim é uma evidência de tudo o isso que eu disse nos parágrafos acima.

Por fim, acho que vivemos uma época de neo-conservadorismo muito assustadora. A cidade do Rio de Janeiro me surpreende muito negativamente em relação a isso a cada eleição, a cada tema que ganha espaço para debate público. As pessoas constroem visões estereotipadas dos movimentos de luta com o claro objetivo de enfraquecê-lo e muitas pessoas compram fácil o discurso. Prova disso é que a Marcha não teve tantxs participantes como eu imaginei que teria. Mas ainda assim, acho que o resultado foi muito positivo na divulgação que teve, principalmente nas redes sociais. Qual não foi a minha alegria ao descobrir que a cidade de Campos dos Goytacazes também realizará uma Marcha no próximo mês, mesmo sem acompanhar a agenda mundial que originou as manifestações do sábado passado.

A Marcha das Vadias é um movimento que surgiu na internet e, felizmente, vem ganhando repercussão. Espalhemos e lutemos.






* A foto aí em cima é de uma grande amiga minha e foi feita na Marcha daqui do Rio de Janeiro.

quinta-feira, março 08, 2012

Mais um dia

Li muitos textos muito bons para pensar o machismo nosso de cada dia. Que pensemos hoje e sempre. Que repensemos os papéis dos gêneros em nossa sociedade. Fiquei meio sem saber o que escrever depois de ler A metáfora perfeita e 08 de março, dia de você repensar seu machismo, fica a recomendação e a tentativa de conto abaixo:

Acordar cedo como de costume. Levantar apressada disfarçando o inchaço dos olhos para o caso de o marido despertar com o barulho de seus passos. Prender o cabelo em um rabo de cavalo para espantar a aparência de quem acabou de acordar. Ir até a cozinha antes mesmo de escovar os dentes. Água para ferver, pó para passar o café, pães na torradeira para o marido, cereais para o do meio, iogurte para o caçula. Antes que tudo estivesse no lugar, as crianças chegam como pequenas tempestades pedindo coisas. O marido com um beijo burocrático, gritaria, correria, leite no chão. Pano e desinfetante no chão. Banho no mais novo, grito com o do meio para que vá logo tomar banho, nó na gravata do marido, uniformes e mochilas dos meninos, lancheiras, tchau com outro beijo burocrático no marido.

Ponto de ônibus cheio de manhã. Olhar tarado de um babaca próximo. Crianças na frente na hora de subir no ônibus. Um homem que dá a vez simulando gentileza e olha para a bunda dela quando sobe no veículo. Ônibus ainda mais lotado que o ponto. Equilibrar crianças, segurar mochilas, evitar contatos físicos indesejados. Descer do ônibus, tentar atravessar no sinal fechado, quase ser atropelada e receber um "quer morrer, vadia?". Dar tchau para as crianças, atravessar a rua de volta, pegar outro ônibus lotado, chegar atrasada no trabalho, receber um olhar de reprovação do chefe, perceber aquele aumento desejado e necessário cada vez mais longe, ligar o computador, acessar o email, receber várias mensagens com flores, imagens maternais e etc. irritantes. Receber um convite do chefe para almoçar, receber uma cantada do chefe, trabalhar o dia todo, ficar exausta, buscar as crianças no colégio, chegar em casa, fazer comida, colocar a roupa para lavar, passar o uniforme das crianças para o dia seguinte, tomar banho, receber uma lingerie do marido como presente e deitar antes que ele queira que ela vista.

Essa é a primeira imagem que aparece no google para a palavra "mulher".

sábado, dezembro 17, 2011

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Estou há uns seis meses com esse livro em minha companhia com as recomendações de que seria ótimo, uma das obras primas da literatura recente. Tanto que assim que a maré de mil coisas a fazer baixou (e passei para o mestrado! êh!) optei por descansar a minha cabeça lendo o tal livro do Marçal Aquino, cuja foto de capa vocês podem conferir abaixo:


O problema é que depois que se começa a ter senso crítico na vida, isso não se restringe ao que é do âmbito acadêmico, não dá para desligar o botão quando se entra de férias. É bom levantar problemas a respeito das coisas ao invés de tomar tudo como simples deleite descompromissado porque artístico. Aliás, foi isso o que sempre me incomodou no universo das Letras e contribuiu muito para que a balança pesasse mais para o lado da História, um certo ar excessivamente contemplativo e estético que às vezes deixa de lado o contexto e os compromissos inalienáveis que toda obra tem com seu próprio tempo.

Isso tudo para dizer que Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é um livro que até tem seus méritos, mas é extremamente machista. Sabe aquela velha, desgastada e muito difundida imagem da mulher simultaneamente boa esposa e piranha para satisfazer o homem? Pois então... Eu estava lendo com muita boa vontade e curiosidade a trama até uma das primeiras cenas de romance (caso não queira saber detalhes da trama, interrompa sua leitura exatamente aqui, pois vou começar a fazer essa coisa chata, porém, extremamente necessária para dizer o que eu preciso dizer) entre o casal Lavínia e Cauby. A personagem masculina, que narra a história, encaminha-se para abrir a porta para sua amada e no caminho olha desconsertado para a pia cheia de louça com que receberá a visita, "Lavei as mãos na torneira do tanque e, a caminho da sala, passei pela cozinha: louças e talheres sujos se amontoavam na pia" (AQUINO, 2005, p. 34). Até aí tudo bem, né?, o cara tem todo o direito de olhar a sua própria louça. O desagrado iniciou algumas linhas depois e tornou-se completo nas páginas seguintes. 

Continuo com o spoiler: logo ao entrar, Lavínia "deu uma discreta avaliada no caos da pia ao passarmos pela cozinha" (Idem). Nesse momento as minhas sobrancelhas devem ter se retorcido um pouco pelo pressentimento ruim que se confirmou na página 36, quando "Depois de fotografar Zacarias, Lavínia entrou na cozinha e começou a lavar a louça acumulada na pia. Não, não faça isso [Cauby diz]. Eu gosto, ela disse" (AQUINO, 2005, p. 36, grifo, desespero e desgosto meus!!!!). Para fazer o trocadilho besta com o título, para mim, a pior notícia já estava dita.

Vocês vão me perguntar: "por que, então, continuar a leitura?". Não é porque eu gosto de sofrer, é porque eu não podia simplesmente tomar o livro todo por essa manifestação ridícula de misoginia com a clássica compreensão de que lugar de mulher é na cozinha. Não só isso, né?, tem o adendo que nós já ouvimos inúmeras vezes, de que modificar esse papel é ir contra a natureza da mulher, a prova cabal disso é que elas gostam de servir a seus homens, amam as atividades domésticas e nascem com vocação materna. Não larguei porque queria ver até onde isso iria e porque seria pouco justo julgar o livro apenas por essa cena. Vamos então.

Depois que o relacionamento entre Lavínia e Cauby começa a existir de fato, a personalidade da personagem feminina é construída, digo, as duas personalidades o são. O quê? Você não entendeu? Deixa eu explicar: lembra de Lucíola, aquele romance do José de Alencar, lá do século XIX (quando a gente até compreende, mas não aceita!, uma postura mais machista)? É, aquele livro em que a personagem feminina se desdobra em duas, uma casta e outra pervertida? Na verdade é a personagem pervertida que tem um passado triste que justifica ela ter sido desvirtuada do caminho justo de todas as mulheres. A impressão que eu tive é que a Lavínia-Shirley (jájá eu explico isso) é uma Lucíola-Lúcia do século XXI, tanto que no final ela até adquire um terceiro nome e, para a minha nula surpresa, passa a se chamar Lúcia!

Tá, mas deixa eu voltar um pouquinho para vocês entenderem. Lavínia na verdade é histérica, retomando aquela velha imagem de que quando a mulher foge dos padrões é literalmente rotulada como fora da norma, passa a ser considerada louca. Mais um chato cliché que Marçal Aquino nos traz. A diferença é que a 'loucura' de Lavínia é ter duas personalidades, o que para mim seria esquizofrenia, mas como eu não sou psiquiatra, eu vou fingir que não acho que ela dá o nome histeria porque é essa a doença normalmente atribuída às mulheres... Daí, Lavínia é a boa moça, casta, dona de casa, doce, dedicada e delicada. A outra é Shirley, a devassa (é, igualzinho à cerveja que fica reduzindo a imagem das mulheres à vulgaridade e sexo, como mostra esse anúncio em que o verbo pegar e a silhueta feminina, como de praxe, estão bem destacados), cujo apetite sexual é constante e está o tempo todo pronta para realizar todos os desejos de ambas as personagens masculinas, Cauby e Ernani. 

A pessoa que me emprestou o livro (uma grande amiga, porém, bastante sexista - a ponto de dizer isso com um quê de orgulho que me preocupa) disse para eu relevar esses detalhes e reparar na narrativa. Lembram do argumento estético meio vazio que eu falei no início, então... Mas eu não achei a narrativa nada demais. Algum dinamismo, mas não me prendeu. O que me fez continuar até o fim, como disse, foi querer saber até aonde aquilo iria.

Lembram que eu disse que o livro tinha seus méritos? No final, tem uma certa crítica a um protestantismo fanático que anda muito na moda. O problema (sempre há muitos, meu deus!) é que ela é um pouquinho mal construída, porque no fim das contas fica reduzida a um outro preconceito: com as cidades pequenas. A história se passa numa cidade de garimpo do Pará, que não recebe nome, sugerindo que cidade pequena é tudo igual mesmo. O desfecho pretende problematizar a classificação do que é e do que não é pecado, mostrando cristãos que apedrejam um suposto criminoso. Só que o que fica no ar é que a população do interior não tem muito discernimento, cai na conversa de qualquer um, pode chegar qualquer pastor ou empresário pilantra que leva todo mundo na lábia.


Por fim, o que era para ser a minha primeira leitura de férias acabou sendo uma decepção e mais uma constatação de que esse mundo precisa mudar. E que reforçar preconceitos, estereótipos e desigualdades não deve ser o papel de nenhuma arte.