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terça-feira, novembro 29, 2011

Machismo na novela das oito

Aposto que de olhar o título vocês estão pensando, dã! Machismo está em todos os lugares e na novela das oito da Globo é que não ia faltar. Não duvido que existam umas dez cenas dignas de comentários críticos e revoltados a cada capítulo, mas como vocês sabem, eu não vejo mais tanta tv e o tempo de abstinência que eu pude experimentar me ajudou a ter um estranhamento maior quando me deparo com os absurdos cotidianos da telinha.

Pois bem, estava eu ontem diante da novela Fina Estampa quando, entre uma cena e outra de maldade clichê, me deparo com uma cena de violência contra à mulher. Não, eu não estou falando da personagem Celeste (Dira Paes) sendo espancada pelo marido, um esforço que considero válido de discussão do tema na sociedade. A cena que me chocou por não ter nenhuma tentativa de problematização e muita legitimação da violência foi uma cena com as personagens Danielle (Renata Sorrah) e Enzo (Júlio Rocha). Não achei o vídeo da cena (só o capítulo inteiro e não sei cortar), acompanhem a minha humilde descrição, vejam se soa familiar e escolham o final. 

Danielle está numa festa sozinha. Ela fala ao telefone com alguém enquanto bebe o que parece ser um drink quando é abordada por Enzo. O cara solta uma dessas cantadas baratas e recebe um fora. 

O você acha que acontece na sequência?

a) O cara pede desculpas e vai embora.

b) O cara insiste, a mulher continua negando e é agredida.

c) O cara insiste e consegue ir para a cama com a mulher.


Apesar de muit@s desejarem que aconteça a opção a e saibam que não são raros os casos em que a letra b acontece, a ficção global optou por nos enojar com a letra c, com agravantes assustadores de legitimação de uma suposta necessidade que as mulheres têm dos homens e os direitos que estes têm sobre elas. 

Quando Enzo aborda Danielle já do lado de fora do local da festa, entre as palavras do que para mim é um estuprador, estão frases como "Eu vou tirar o seu atraso" e "Você está precisando muito de um homem". Eu já me senti ofendida de ver a cena e ingenuamente esperei que a negativa fosse continuar, mas quais não foram meu nojo e meu estranhamento quando a mulher foi para casa, olhou para o agressor da janela (ele continuava na calçada, olhando com aquela expressão de quem acha que mulher é um pedaço de carne) e abriu a porta de sua casa para que ele subisse e "tirasse o atraso"!



Sabem o que essa cena me diz? Repete aquela concepção besta de que mulher não pode dizer não e até quando diz, está querendo dizer sim*. Esse tipo de cena diz aos homens que as mulheres estão apenas fazendo doce e que, se você transar com ela à força, você vai estar dando a ela tudo o que precisa e depois ela vai te agradecer. O que também me remete a absurdos que (como a Lola diz) os trolls ficam dizendo por aí - esses eu não vou linkar porque não se dá audiência para maluco, nem visitação para criminoso, foi minha mãe quem me ensinou -, como que você você vai estar fazendo um favor à mulher e, na verdade, ela nem sabe o que quer, não pensa. Lembram que a racionalidade é exclusividade do homem? Que mulher serve para cuidar da casa e dos filhos (não que eu acredite que não é necessário muito pensamento racional para isso) e que quem responde por ela é o pai, depois o marido e depois os filhos? Ué, você achou isso um absurdo de tempos que já se foram? Então porque a opinião e a vontade das mulheres a respeito de si mesmas e do mundo não são levadas em consideração?





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* Sobre o desrespeito ao não da mulher, um entre vários textos ótimos é o da Sara Joker que você pode ler no Blogueiras Feministas: http://blogueirasfeministas.com/2011/10/nao/ 

quinta-feira, setembro 29, 2011

Todo mundo odeia televisão


Durante toda a minha adolescência-tentativa-de-pseudo-intelectualidade eu dizia que quando tivesse minha própria casa nunca mais assistiria à televisão, que eu odiava aquilo, que atrapalhava a minha vida, que a culpa dos meus problemas de concentração era daquele aparelho ligado o dia todo etc.

Bem, eu realmente posso contar nos dedos das mãos as vezes em que a tevê daqui de casa (que de própria não tem nada, aliás) foi ligada e não vou mudar a frase de que atrapalha a minha vida, mas não tenho como negar que todas as vezes em que vou visitar minha mãe eu assisto. Também não posso negar aquele argumento de que a mídia manipula as massas, nos diz quem devemos querer ser, quem somos, quem não somos e tal. Contudo, já faz algum tempo - graças a deus!? - que eu deixei de tomar explicações assim tão simplistas para as coisas e acredito que nada é tão homogêneo e perfeito assim.

Isso tudo só pode ser mesmo um preâmbulo para eu dizer que gosto de televisão (desde que apreciada com moderação e muito senso crítico). Não faz assim tanto tempo que eu saí da casa da minha mãe e parei de passar todo o tempo com a caixinha colorida sorrindo para mim, mas percebo hoje o quanto a minha memória e as minhas principais referências para várias coisas na vida estão relacionadas aos programas, às novelas e, principalmente, às propagandas. Perco a conta de quantos textos publicitários me vêm à mente em momentos variados do quotidiano.

Entretanto, eu estou aqui para falar bem desse instrumento adestrador de criancinhas, não é mesmo? Então, nessas minhas visitas vespertinas à casa da mamãe não raro o horário coincide com um seriado que eu adoro: Todo mundo odeia o Chris.

Sempre que eu vejo os percalços da vida do adolescente num perigoso e estereotipado bairro de periferia e numa escola onde é o único aluno negro, eu me lembro de um outro seriado que acompanhou a minha infância, pré-adolescência e adolescência (sim, nós sabemos que 1. esses seriados costumam ter muitas temporadas; 2. O sbt nunca teve pudores para repetir mil vezes a programação; 3. Nós também nunca ligamos de assistir ao mesmo episódio 50 vezes, até decorar todas as falas): Um maluco no pedaço.


Não precisa de grandes explicações para traçar paralelos entre os dois seriados, não é? Contudo, o recente sucesso do Chris entre os meus alunos - e a variedade de exemplos que consigo retirar dos episódios para abordar em sala temas como racismo, segregação racial, desigualdade e preconceitos em geral - me fez pensar na importância que esses seriados têm na construção da identidade de muitos jovens. E isso se dá pelo mecanismo simples da identificação, nos mesmos mecanismos da mídia - está lá um personagem (nesse sentido, mais o Chris, porque afinal o Will estuda numa escola particular caríssima em Bel Air) que é um garoto pobre, negro, estigmatizado e, diferente do que pretende a professora da escola, normal.

Além disso, o seriado aborda outras questões corriqueiras como a exploração do trabalho infantil, o subemprego, o bullying, este tão na moda, etc. Sem falar no divertimento que é assistir a tudo isso naquela dublagem super bem feita. Não vou fazer a propaganda completa (sim, o que eu estava fazendo era só um comentário crítico, entendeu? Eu não sou uma criança deslumbrada com a televisão, ouviu?) porque além de não gostar muito da emissora que transmite a série, não faço ideia dos dias e horários em que é transmitida, vou sempre na sorte.