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quarta-feira, dezembro 05, 2012

Dez mil destinos

"Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria, pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu"
Escândalo (Caetano Veloso).

Comprei minha virgindade por nove reais e noventa e nove centavos nas Lojas Americanas. Ok, a história não é assim. Comprei a trilha sonora do dia em que perdi a minha virgindade. Não sei se as pessoas têm isso. Parece coisa de gente psicótica lembrar a música que estava tocando quando aquela pelezinha sem importância do seu corpo deixou de existir. Mas o caso não é exatamente esse, não é o pedacinho de pele assim como não é a música que estava tocando no momento exato em que. É do início da minha vida sexual que estou falando - desde então já se vão alguns anos - e de um disco que fez parte desse processo.

Eu ouvia sempre o mesmo disco e transava sempre com a mesma pessoa - coisa que só se faz mesmo quando começa a vida sexual. Tava ali, entre um livro de receitas e um filme da Audrey Hepburn, enquanto eu tentava fugir o mais rápido possível das musiquinhas irritantes de natal: a capinha laranja e preta querendo combinar com esse período - que deve ter uma explicação astrológica - de reconciliação com todos os passados possíveis.

Esse momento de andar na rua achando que posso tropeçar numa lembrança em qualquer esquina que vem acompanhado dessa certeza serena de que, em caso de tropeço, vou pegar nas mãos a lembrança, tirar o pó e colocar em alguma prateleira da memória. Assim arrumadinho, limpinho, como deve ser.

Como se pode imaginar, comprar o disco não é só comprar o disco. É chegar em casa e colocá-lo para tocar num cenário totalmente diferente do que ele conheceu - do que eu conhecia. E parar agora para ouvir tentando lembrar sem conseguir daquela menina que sonhava com novos horizontes e com uma vida sem medidas. Posso não lembrar da menina, mas a sequência das músicas ainda é familiar. Daquele jeito anterior ao modo 'aleatório', sabe? Quando as notas finais de uma música parecem pedir e anunciar a seguinte. É assim.

Nem tão longe que eu não possa ver, nem tão perto que eu possa tocar, depois de uma vida mais confusa do que a América Central, depois da pressa que liberta e leva a outras tantas direções, depois de saber que ninguém é igual a ninguém e de ficar parada olhando-me para nada e nunca ter ido ao Paraná, depois de saber que tudo passa e as pessoas realmente acabam passando por aqui, depois de saber que o dia desses dos encontros casuais sempre chega; de acordar cedo e tarde, de aquecer a água sem querer que ela ferva; de comprar e entulhar instrumentos que poderiam ter sido uma guitarra elétrica; depois de saber que sempre há novos horizontes e que o carnaval, afinal sempre chega. E saber que mesmo que eu seja uma pessoa completamente diferente agora, o disco ainda é o mesmo, com suas letras rasas, óbvias e som sujo.

Os anos passaram e os sonhos também. As trilhas sonoras foram outras tantas (e as mesmas músicas já embalaram outros amores também), as melodias, harmonias e letras mais doces, a vida tão mais real e saborosa, mas fica ali na memória, uma memória barata, mas que não se encontra todo dia. E deixa transparecer essas metáforas envelhecidas e graves. Minha pele teve tantos outros pedaços em que se descobriu ao longo do tempo...

terça-feira, dezembro 04, 2012

Sem Ana, blues

Sabia que um dia chegaria a hora de postar esse conto.

Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma correspondência, a vizinha de cima à procura da gata persa que costumava fugir pela escada, ou mesmo alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava pedir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar - então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés - ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarujá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, tão disponível & natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, irrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.

(em Os dragões não conhecem o paraíso de Caio Fernando Abreu).

sábado, novembro 03, 2012

O dia que não existe

Ao som de Ponto Cego (Cícero).

Na falta de decorar uma única palavra, achei que equivalia substituir por versos e mais versos, contos inteiros que a gente lê para qualquer um antes e depois de uma transa. Sempre o mesmo conto, sempre a mesma angústia na esperança de que alguém a entenda, pegue nas mãos ou simplesmente diga "eu também sinto".

Como isso não acontece, sobra sempre uma repetição a mais para o dia seguinte e a forma de a cada dia, a cada transa, a cada corpo, decorar um verso a mais desse pedaço que desbota os dias, acumula sobre as emoções fortes, oscilantes, bipolares, temerosas de que cheguem afinal a tão já próxima idade da esquizofrenia.

Enquanto fica só nessa ameaça, vou botando versos imperceptíveis, naco pouco de poesia rala misturada entre as trepadas. Nem sempre os elementos se combinam, n'algumas fica parecendo agressão à homogeneidade, quando o gosto nítido de cada elemento se interpõe e impede que saboreie nos cantos da boca o gosto.

Como se eu tivesse desaprendido a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. E eles não percebem os versos que eu uso à guisa de resposta às perguntas que eu não entendo e retribuo docemente com as respostas que eles sequer percebem. Nem você. Nem eu. Nem qualquer pessoa que procure ou ache possível encontrar nexo.


quinta-feira, outubro 11, 2012

"Por favor, me reconheça"

Ao som de Amor, meu grande amor (Frejat).

Às almas incomunicáveis.


Eu achei que se eu ficasse olhando para a porta você viria. Eu já não sabia dizer há quanto tempo esperava. Não saberia precisar coisas imprecisas como a cor do céu, talvez a tarde já tivesse caído, o sol tivesse baixado. Devia ter uma claridade bonita lá fora, a luz poderia bater como um tapa no meu rosto e desfazer essa expressão desesperada de olhos vidrados na porta.

Já fazia muito tempo que eu estava ali e eu sabia que você não vinha. Talvez tivesse ficado preso no trânsito, quem sabe um acidente ou apenas um desses imprevistos inescapáveis. O celular mudo em minhas mãos sugeria algo mais grave e impeditivo. Se não viesse, eu tinha alguma certeza rasa de que você ligaria, pensei abusando de minha própria credulidade.

Há imprevistos, obstáculos e outras coisas absolutamente contornáveis.

Eu pensava - digo isto por pura força de expressão, posto que não havia uma ponta sequer de racionalidade ali. Se houvesse, eu piscaria lentamente as pálpebras cansadas e me libertaria da tarefa inútil. Repito que não havia nenhum tipo de racionalidade - que talvez você tivesse dificuldade de me ver quando entrasse por aquela mesma porta. Eu poderia parecer imperceptível em meio a tantas pessoas e mesas, por isso me posicionei estrategicamente próximo à porta, meio de frente, meio de lado, pronta para abrir um sorriso quando você chegasse e me visse. Eu queria que você chegasse e me visse. Queria que você visse que eu estava ali esperando durante todo esse tempo com a minha melhor cara de desespero.

Eu tinha um milhão de coisas para dizer e as coisas pareciam querer ser ditas a qualquer preço, mesmo sem você aqui. À essa altura, nem faz sentido dizer que você não apareceu, tamanha a obviedade disso.

Eu olhava aflita a calma das pessoas em volta, engolia em seco puxando de volta ao estômago as frases todas, imaginando se eles percebiam, se eles sentiam no ar ou se era possível ver nos meus olhos. Eu sequer sabia dizer quem eram os tais eles, mas tinha a sensação de que sim, todos viam, percebiam, sentiam no ar o cheiro. Recebia de volta algumas expressões de incompreensão, desprezo, perplexidade, medo. Expressões que não se convertiam em ações mais concretas do que aquele afastamento sutil do corpo ao passar perto da mesa.

Eu amaldiçoava os tempos pós-modernos, os cerceamentos e as repressões nossas de cada dia enquanto alternava o olhar entre a porta e o aviso de proibido fumar. Frases de bonitas paredes francesas percorriam minha mente numa velocidade que eu chamaria de superior à velocidade de luz por pura provocação no vazio. Fato é que eu não tinha meios de mensurá-la, a velocidade da luz.

A vertigem do pecado me percorria os poros e transformava a ansiedade desesperada em ódio. Levantei e saí com a mesma irracionalidade de antes. Cruzei rapidamente a portas dos fundos tentando passar despercebida enquanto você adentrava esbaforido o salão principal, os olhos também desesperados percorrendo as mesas à minha procura.

Na rua, o vento bagunçou meus cabelos, mas não me impediu de acender um cigarro.

ARTE DE AMAR


Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

sexta-feira, outubro 05, 2012

"Eu já nem sei se eu tô misturando"



Há cansaço. Há a vida que urge e se acumula em dias, em tarefas, em rotina - essa que chega, sempre chega de uma forma ou de outra para alguém dizer em tom controlador que a gente se acostuma a tudo na vida. A gente não se acostuma, mas a gente vai fazendo a vida que quer dentro do que as possibilidades permitem. Rema contra a corrente quando é preciso e deixa a maré carregar quando o balanço do mar é bom.

Caso é que o sono mesmo que chegue guarda na cabeça a lembrança de ontem que quer dizer que conquista é um processo. Que a gente ganha espaços - ou metafóricos e os territórios do corpo mesmo. Vai avançando aos poucos, alargando as fronteiras da pele e ergue uma bandeira. Pode ser uma bandeirinha pequena, uma bandeirinha do arco-íris, no pescoço. Claro, na-linha-em-que-se-encontram-o-pescoço-e-ombro-,-onde-o-cheiro-de-nenhuma-pessoa-é-igual-ao-de-outra. Isso a gente já sabe.

Sabe também que não é conquista no sentido militar do termo. Que no fim aquela bandeira não fica fincada ali. Que não é de ninguém e que também não é só uma curva de pele. Se fosse, já tinham se ido fronteiras infinitamente mais profundas. Tem gente do outro lado da lente e na metade de cá do espelho. Gente que se faz e que se mostra. Eu assisto. E caminho devagar.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Estátua de gesso

Para ler ao som de Não há cabeça.

"Essa tristeza que o amor me deu
É a coisa mais bonita dentro do meu eu".
(Marina Lima)


Em primeiro lugar, pega-se entre as mãos a massa disforme. Bloco sólido, neutro. Quase sem querer a gente esbarra e vê que é possível tocá-lo. Depois que encosta as pontas dos dedos, vê que sai uma eletricidade estranha. Há um tipo desconhecido de ímã que parece pedir que as linhas das mãos percorram toda a sua superfície.

De início ela é impenetrável. Há que lubrificar as mãos e umidificar aos pouquinhos a massa até que ela possa ser moldada, penetrada, modificada – até que vire alguma coisa. Mesmo que a gente não tenha sabido dar um nome, que não tenhamos conseguido transformar numa obra de arte, numa estátua, num enfeite de estante, num bibelô, nem nada disso, dava para ver que do misturar de mãos e massa, do magnetismo, da vontade de transformar dedos e corpos numa única explosão de gozo constante; dava pra ver que de tudo isso se poderia ter feito alguma coisa.

A gente fez a poesia palpável que se mostra em constelações da pele, no tom rosado sob a luz de fim de tarde. A gente até fingiu que tinha mais do que pele, misturou álcool no momento de moldar a massa; a gente colocou algumas cores de outros cenários; a gente tocou partes fundas, desejos irreveláveis, frustrações comuns. A gente viveu versos.

Numa segunda-feira qualquer veio um vento e quebrou a estátua de gesso.


Que nem era gesso, que nem tinha nome, mas que era algo mais maleável como faixas de gaze – espuma branca lavando os pés – que a gente enrola igual a um quase amor de promessas telefônicas. Todo quase amor tem um calcanhar de Aquiles que pode se quebrar de uma hora pra outra mesmo que não seja quebrável. Deixa meia dúzia de versos na cabeça. Ficam cheiros, gostos, gozo, a mesma incompreensão da pele na pele e aquela sensação de que um dia desses, num desses encontros casuais talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação.

sexta-feira, setembro 21, 2012

E depois de tanto e tanto tempo é vinte e um de setembro de novo, depois de tantas outras datas que se passaram, tanta coisa que a gente finge que ressignifica pra ver se pára de doer. Um dia a dor se convence ou o calendário passa, sempre passa. Os dias correm rápidos, as estações mudam, o sol abre e mesmo os dias nublados vão mostrando sua beleza leve, fresca por traz do tom de cinza.

Não dá mesmo para exigir que o sol nasça deliberadamente no meio do inverno, mas quando vem, do jeito mais cliché, mais ultrapassado, mais adolescente e mais tosco, as lágrimas evaporam. Mas algumas músicas ainda tocam em alguma parte da cabeça...

Corpos em movimento
Universo em expansão
O apartamento que era tão pequeno
Não acaba mais
Vamos dar um tempo
Não sei quem deu a sugestão
Aquele sentimento que era passageiro
Não acaba mais
Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Novos horizontes
Se não for isso, o que será?
Quem constrói a ponte
Não conhece o lado de lá
Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Suspender a queda livre
Libertar
O que não tem fim sempre acaba assim

segunda-feira, setembro 03, 2012

Ao momento presente

Para ler ao som de Ta Douleur (Camille Dalmais).

É preciso fazer alguma coisa quando se ganha um presente. É preciso, em primeiro lugar, segurar a caixa que colocam em nossas mãos para que ela não caia no chão. Depois, tirar os laços, caso eles existam, romper o lacre com a calma educada de quem sabe o que fazer ou com a pressa voraz de uma criança faminta por vida, rasgando o papel, espalhando seus pedaços pelo chão com ansiedade. Quando o presente está ali, finalmente aberto, a gente sempre imprime alguma expressão no rosto. Logo no primeiro olhar o presenteador atento consegue ver se é alegria, desgosto, desconforto, desagrado, carinho, surpresa, alegria, felicidade, ou cara-de-quem-estava-esperando-apenas-isso. Independente do que pensa e do que veste no rosto - posto que existem os presenteados mais atores - a pessoa pega o conteúdo do pacote. Segura com os dedos, agradece entusiasmada ou burocrática. Aquilo que foi escolhido, comprado ou feito com carinho, embalado, protegido, transportado etc. - aquilo foi dado e agora pertence à outra pessoa.

Não é seu aniversário, não é Natal na Leader Magazine, não é nem mesmo Páscoa - a data dos melhores presentes. Era para ser um dia comum, com uma aflição disfarçada de um saudade antecipada, uma agonia da distância, mas aí os ventos de um agosto que já era para ter-se ido trazem um assovio sombrio e rimado de uma angústia sua. E aí, você nem sabe que sua angústia colocou numa gaveta imaginária o meu medo de acreditar, dobrou o guardanapo com cara de quem rejeita os rótulos mais verdadeiros e quis, quis com força, quis com a voracidade de criança que rasga a embalagem do presente, te dizer de dentro de um abraço que passa, que há tempestades nos mares abertos, mas o melhor de tudo é perceber os músculos movendo-se seguros em cada braçada. São gelados e salgados os primeiros golpes que a gente leva no rosto, mas lavam a alma.

E por mais que por fora a gente espere sorriso, abraço etc., quem dá um presente não espera absolutamente nada além de dar o presente, além de que a pessoa presenteada ganhe uma coisa bonita e tenha alguns momentos de alegria. Toma, é seu, pode pegar (se quiser).

domingo, setembro 02, 2012

Tudo novo de novo (Paulinho Moska)


Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

terça-feira, julho 31, 2012

Para se ler ao som de Mergulho.

Bicho ferido fere. Grita, guincha, esperneia e esparrama seu sangue enquanto se debate e lanha ainda mais a pele nas paredes das grades. Quem se debate é afogado, sussurra em seu ouvido uma voz distante, um dos muitos fantasmas que atormentam as madrugadas frias que não cabem nas horas infinitas e nascem em manhãs cálidas, frescas, às vezes até ensolaradas.

Bicho ferido quer arrancar sangue alheio. Ferve os olhos de vingança enquanto observa acuado e imóvel os dedos que mergulham fundo em tuas feridas hemorrágicas. É preciso tempo e solidão para lamber cada uma delas com o devido cuidado. É preciso cicatrizar e esquecer o quanto doeram antes de colocar a cara à tapa.

Bicho ferido quer mesmo é chafurdar na dor e mergulha em qualquer possibilidade de. Gosta de sentir as patas enlameadas em poça de sangue, chapinhadas da lama do poço. Bicho ferido sabe que, se for pra doer, sempre vale estender a outra face. Bicho ferido confraterniza versos bíblicos como se fossem poesia entre copos de cerveja às quatro da manhã de sábado - não sem mesclar o embasbacamento cristão com lembranças de sórdidos pecados.

Bicho ferido quer que lhe lambam o ego, já colocou há tempos tua jaula ensanguentada na vitrine e vez em quando um visitante do zoológico joga um pedaço de fruta. Ele faz piruetas enquanto deseja que não seja banana.

Bicho ferido pode demorar um pouco para perceber que abriram a jaula, pode achar mais confortável ficar um tempo sentado olhando como fica diferente a paisagem sem as grades no caminho. Lambe o sangue do chão antes de levantar para evitar novas quedas. Certifica-se de que aos poucos as feridas fundas, inflamadas, vão criando casca. Ainda dói se um desavisado tocar, isso ainda o fará guinchar de dor, mas já é possível vislumbrar cicatrizes charmosas em seu lugar. Por isso, aos poucos o bicho espreguiça o corpo, estica as patas, fareja a insegurança do terreno e dá os mais pequenos passos até ultrapassar os limites da porta. Dali, uma pequena esticada no pescoço faz com que o vento bata no rosto. Dá aquela ardência da pele ainda em carne viva e junto aquele frescor de saber que toda bofetada nos dá um rosto novo. A passos tímidos rompe as grades e se entrega ao galope veloz e inconsequente de quem só quer dar com a cara no primeiro muro.



sexta-feira, julho 27, 2012

É preciso fé cega e pé atrás

Para se ler ao som de Dois perdidos (Filipe Catto).


As citações antigas ajudam a povoar a entrega mais recente, o medo enorme de se jogar depois que já jogou e já caiu e já está tudo assim espalhado no chão. O silêncio é o medo de exteriorizar, de colocar em palavras, de ouvir em alto e bom som isso tudo o que a gente já sabe mas finge que pode minorar e controlar marcando prazos de distância. Dá para não interferir. Desde que não fira, desde que não atrapalhe, desde que mande um ou outro sinal de vida para sabermos que haverá uma tarde livre para. Desde que se saiba proteger as pessoas que devem ser protegidas.

O corpo fica mareado, sentindo o ritmo do teu corpo no meu mesmo depois que você se afasta. A surpresa não é uma questão de gênero, é uma questão de surpresa. É sentir na ponta dos poros um desejo já tão inimaginável, um desejo que não se vê nos olhos - e nem poderia - mas que encosta a ponta dos pelos e pasma e gruda e sua e soa e toca e geme e treme e suga e queima e revira e insinua e veste e despe e cantarola e relembra frases antigas e se perde e gruda na voz e soma outras mil conjunções aditivas que perambulam pelo ar inebriado do prazer mais simples.

Deixa marcas que qualquer um, qualquer outro, qualquer tempo viraria raiva. Mas fica, cobre de maquiagem e lenço travestido dessa elegância que a gente compra barato nos camelôs do centro. Vou construindo imagens do que quero de mim, só que perdi a decência, o time, o pudor, o bom senso. Perdi o pé atrás que me sabia nos objetivos claros. Perdi a noção do auto-conhecimento e me deixei cair nas armadilhas mais previsíveis. Achei de volta o caminho de casa e uma cesta bonita de pães. Fico me permitindo prazeres e tédios alternados. Incorporo esse gesto sublime e blasé de quem já sabe em que pé finca e em que fim dá. Começou com a cena perfeita, a porta aberta, teu cheiro no vento parado e teu gozo no corpo. Deixou de ser só mais um conto pra virar essa vontade que não tem outra palavra. É corpo, é físico. Por isso há-que respeitar. Há-que mergulhar de cabeça, tronco, membros - deixar sentir a pele que estremece e revira e entrega em lágrima imperceptível que denuncia.

Agora espero e fico desesperada de tanto esperar. Percebo os mesmos erros já cometidos e me pego achando tudo assim diminutivo, me vejo vendo beleza nas árvores da estrada e me perco horas a fio nas pontas das folhas que nunca tornarei a ver. É fio d'água.

domingo, julho 22, 2012

Dedicatória

"Para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".
 (Paulo Mendes Campos)

Na falta de coragem de tirar de mim o sangue, me perco no seu olhar-abraço-voz. Nem sei se é quente, rápido que foi. Devo admitir que não deu tempo de planejar perdições. Daria tempo de despertar sonhos, se eu ainda soubesse. Qualquer distração parece que serve. Dito assim parece que te desprezo. Saiba que não é o caso. O caso é que as frases curtas, re-pe-ti-tivas, mal conectadas, escondem uma admiração distante. Uma inveja funda que se confunde em desejo. Um desejo que não é só do teu corpo. É da tua vida que quero em posse e quero em vida. Quero vampirizar tua ânsia de paixões, sua desenvoltura para pedir de mim mais do que posso dar e menos do que gostaria.

Eu me abro demais. Sempre me abro demais e perco completamente os limites do senso. Eu me publico. Eu sempre faço manchetes dos meus sentimentos para ver se os crio. Pra ver se alguém compra o que fica ali exposto na banca. Às vezes funciona, às vezes vira caso de polícia. Minhas letras são garrafais, mais finjo fingir que não. Dissimulam escrúpulos num gesto tão falso como quando eu acendo um cigarro.

Você olha e pede um abraço em agradecimento por eu ter feito exatamente o que você pediu. Pode ter pedido com o inconsciente até, mas eu sou boa a esse ponto em interpretação. Te dou um livro, te leio uma página, te abro minha alma que, mesmo sem ser grande coisa, é o que de mais fundo tenho para te oferecer. Quero te oferecer mundos que você desconhece, quero te dar um leque de sabores de vida pra você provar e depois escolher feito sabor de sorvete. Quero te dizer que o mundo é grande, que as melhores sensações não estão só nas páginas dos livros, que você pode pegar a estrada e sentir o vento no rosto afastando seu corpo das raízes empoeiradas, dos julgamentos prontos, das pessoas de alma tão pequena remoendo pequenos problemas. Não tenho sequer a pretensão de pertencer a esse mundo grande que você merece, acho que você tem todo direito de provar muito mais corpos, muito mais cheiros, muito mais gostos, muito mais curvas do que as que você já conhece, do que as que imagina conhecer e do que as que te serão completamente inesperadas. Se couber minha opinião, apenas direi que adoraria.

Mas se você também é só uma coisa que eu quero porque não tenho, porque não posso ter e querer o que não posso ter é um outro jeito de aprender a aceitar que a gente nunca tem mesmo. A gente ocupa espaços, representa papéis, finge que pode preencher vazios mais fundos que o imaginado, matar as sedes que ninguém mata. A gente se deixa cair confortável em qualquer vida que soe como uma luva, que cubra com panos quentes as feridas e os abismos, que faça parecer que é possível fingir que a solidão medonha não existe. Quando a gente se deixa cair mais confortável é que puxam de repente a luva, o tapete, o chão e a queda livre tem essa mistura de poeira, nada e vômito que gruda na boca, na garganta, nos lábios que se ressecam e parece impossível sentir outro gosto mesmo sabendo e forçando o corpo a saber que há muitos.

As cortinas fecham de quando em vez e a gente é obrigado a trocar a maquiagem, o figurino, troca cenários pra garantir. O mais difícil é escrever um texto novo. Mas pra quê? Se posso por em suas mãos, em sua cabeceira, em seus lábios aquele roteiro já tão pronto e bonito. Posso fingir na minha imaginação bem menos fértil do que imagino, que não há hierarquias nem relações de poder. Porque na verdade, nem é um mundo meu que quero te apresentar, quero é me jogar nessa trilha sonora que você me prepara, quero debater as angústias tão certas e petulantes que você tem apesar de e por causa da juventude, quero sorver tuas palavras, degustar embasbacada a forma displicente como você solta a fumaça do cigarro, quero me deixar embalar pela tua voz crítica, firme e perdida. Quero alimentar teu interesse na verdade tão mais fundo que o meu. Quero roubar um pouco da paixão que ainda tens nos olhos, te convencer que a direcionas pelos caminhos errados, quero te dar mapas.

Quero te prometer esse milhão de mentiras só para mergulhar fundo nas coisas inomináveis que esse abraço curto desperta. Quero me deixar levar pelo desconcerto, pelo não saber onde colocar as mãos quando você me oferece um cigarro. Quero ficar horas ouvindo seu jeitinho calmo de falar, te chamar pra tomar um café enquanto te falo as bobagens mais amenas para ver se do outro lado da mesa enxergo uma lasca do sangue da tua ferida que sei que também é aberta e incurável. Eu quero te dizer que conheço unguentos que aguçam as sensações.

Quero é jogar esse quebra-cabeças bagunçado no colo de qualquer pessoa que apareça - qualquer não, desculpe! Quero jogar essa bagunça mal ajambrada de mim em cima de quem tenha apreço literário o bastante para juntar os versos, os fios de barbante, os cacos de vidro, as noites de frio, os pincéis espalhados, os pelos de gato, a luminária, as bolinhas, as listras, o cabelo preto, os planetas em capricórnio, os graus de astigmatismo, o gosto por capuccinos, os timbres perdidos na mente, as citações decoradas e repetidas em voz alta, as birras de criança, a resolvicência de adulta, a petulância, o ar professoral e mandão, os segredos que moram em pedras-quentes-que-encostam-na-sola-dos-pés, as palavras, embaralhadas, perdidas, as peças, pedaços, fragmentos bonitinhos, sujos, gosmentos, doces, quentes, ferventes, gelados - desde que jogue fora tudo o que estiver em temperatura ambiente.

quinta-feira, julho 19, 2012

Cada gosto de vida, ao passo que me satisfaz, me aumenta a sede e a fome

Quando a gente não sente nada, entra e segue de olhos fechados por qualquer rua que dê sentido. Quando o orgulho é grande demais para pedir socorro, a gente é que vaga sob as duras penas de não ter a alma tão funda como supunha. A dor cicatriza rápido quando a gente já conhece os remédios, coloca os curativos certos. Mas o vazio de sempre, a angústia, o tédio - que eu nem sei se é um sentimento - nada cura, nada ameniza, nada consegue pintar de uma cor bonita, nem que seja esse cinza clarinho da minha janela da qual não quero ter de me despedir.

Aquilo que a gente ilude dizendo que já não existe, pulsa em partes diferentes do corpo. Depois de um tempo, a gente se contenta tanto com qualquer emoção, que confunde mesmo desejo com encantamento. A gente se perde em corpos pelo prazer do desconhecido, pela graça das contradições aparentes de quem não se suspeitava. Dá pra desenhar constelações novas em novas peles, há outros encaixes que soam quase perfeitos quando há uma preocupação qualquer com a cena, com o texto, com o cenário. Somos bons diretores e nos fazemos bons personagens. Não parece uma razão suficiente o meu respeito pela sua preocupação cênica.

Eu, afinal, consegui conquistar o ar blasé e invernoso de quem já teve e perdeu um grande amor. Você me cativa com dores maiores, com ausências maiores que me fazem pensar duas vezes antes de desligar o telefone na cara do meu passado freudiano. Posso pensar até dez vezes e ainda assim o faço depois de já ter desligado com uma desculpa menos amarga do que desejaria.

A linguagem é demasiado limitada para procurar as razões do que faz bem, mas eu não tenho... (o que será que é preciso ter? Nem sei...). Não tenho fibra (talvez seja isso) o bastante para cortar uma orelha. Me desestimula até o desafio do corpo, que não se espreguiça nem vai muito longe no meio de um inverno tão rigoroso. Mas aquilo que eu finjo chamar de alma, vai aonde chamarem - vai por saber que qualquer prazer é o que faz um pedaço de vida valer os dias que passam um atrás do outro antes da interrupção para a qual nunca estaremos preparados.

A frase se repete em minha cabeça toda vez que você se vai e eu não sei se gosto mais do momento em que você esteve ou do talento que você tem para me deixar com mais vontade quando a porta fica assim aberta, a música ainda tocando e meu corpo ainda quente. Fica sempre um cheiro que gruda no ar e na pele e se converte em narrativas já menos comprometidas intelectualmente na minha cabeça. Os paradigmas rodopiam junto com náuseas, revoluções e detalhes indizíveis. O que não passa de um problema geracional a gente resolve esperando o tempo passar, assim como o passado não cabe no guarda-roupa, o novo, como grita a lancinante Elis, sempre vem.

E aí cada pequena coisa compensa e cada compensação dá uma esperançazinha pequena de que ainda seja possível se jogar em abismos e perder a direção da rua que a gente entrou por falta de melhor caminho. As penas emprestadas de uma alma qualquer eu mergulho em nanquim e desenho meu barco que está prontinho pra navegar no mar que eu construí de lágrimas.





*O título é um trecho do poema "Da Vida" de João Pedro Magalhães de Sá.

terça-feira, julho 17, 2012

Volta fitas cassete que podem ser usadas como luminárias, um copo quando cai no chão pode quebrar ou virar uma girafa. Uma figura mitológica antiga pode virar uma rocha de um país distante. Repetir o mesmo filme pode ter final diferente no mundo em que ninguém presta. A cena pela cena não dá sentido. Não basta representar para viver, sentir. Não dá pra desabalar aquilo que ainda descabela, aquilo que corrói em não aceitação e faz pensar que passar-se-á um tempo, assim com colocações pronominais antigas, e tudo voltará ao normal. Aquele normal morno, quentinho, que eu desejo só porque é inverno e porque tenho uma preguiça enorme de fazer tudo o que está por vir.

Combater o pó diário das emoções é um esforço grande. A gente alterna, se divide em muitos pedaços, muitas bonecas, muitas partes de perder a conta porque assim fica mais fácil que juntar toda a bagunça. Um pouco mais perto de livre agora. Um pouco menos de medo de andar na rua, esbarrar no corredor. A distância necessária, o cadáver já fede, um mês apodrecendo sem coragem de enterrar, sem ânimo para falar e já sem lágrimas porque não é isso o que o estômago produz.

O desespero vai ficando amigo, vira uma espécie de companheiro enquanto corrói as paredes invisíveis. Há que comer, limpar, fazer, acordar, dormir e digerir imagens, histórias, cenas, arte, cultura, literatura. Essa coisa estranha que serve pra gente ver que há outras emoções mais graves, mais bonitas e mais invejáveis do que as que eu jamais sentirei. No fim fica sempre o vazio de um novo começo.

Resta desenhar outros cenários, moldar na unha outros personagens. Tornar mais plural isso que foi se fechando num casulo estranho e eu que me acostumei a chamar de vida mesmo sabendo que a palavra não dá conta da experiência, que o universo semântico mais limita do que ajuda e ainda assim insisto.

segunda-feira, julho 09, 2012

É só uma questão de gosto, uma questão de cheiro-curva-do-pescoço-com-ombro-onde-o-de-nenhuma-pessoa-é-igual-ao-de-outra, uma questão de toque, peles que se encontram e não importa muito o grau do arrepio, é uma questão de cena - bota as cores, uma iluminação diferente, cenário bem escolhido, uma questão de trilha sonora, vozes sussurradas, inesperadas, timbres, melodias, batida forte pulsando junto com ouvidos entorpecidos, músculos relaxados e gestos aparentemente despretensiosos.

Questão de não ter questão nenhuma, não ter peso, não ter amanhã, não ter paixão triste, submissão, renúncia. Não tem nada além dos tais sentidos que no fim das contas guiam, perdem, acham-se em fundos de copos, fundo dos olhos, poça de lágrimas que sempre acham o tal caminho de casa. Sabe deus por quanto tempo... Quem saberá quantas expressões idiomáticas serão necessárias, quantos ninguéns para quem ser, quantos espelhos em que a gente procura estender-se, esticar, espreguiçar, caber. E nunca cabe, fica nesse transbordamento sem fim, essa procura que se fantasia de passo de dança porque vai que é esse o caminho.

As citações estão prontas e ainda há muitos livros na estante. Muitos papéis em branco, muitas tintas querendo se espalhar nos dedos, desembocar em papel - em cor ou palavra, da melhor forma que caia a carapuça. Poça de sangue, de lama, de lágrima ou mesmo de chuva que molha a raiz do cabelo e lava junto aquilo que chamamos de alma.

E para os dias de frio, basta ter café e bons cobertores. O resto a gente inventa pra se distrair sem saber de fato o que existe.

domingo, julho 01, 2012

"Tá nos astros, boy"

Para ler ao som de Quase sem querer.

Os planetas em capricórnio dizem que o sofrimento está com a hora marcada. A lágrima do enterro necessário virá, desde que respeite as agendas, os compromissos - desde que tenha a responsabilidade devida. A procrastinação não vê nem como boa desculpa a tal dor. Fina, crônica e de longa data e evocadora de boas músicas guardadas em pastas perdidas da memória.

Alimento um pouco por dia. Tenho excesso de versos decorados, tenho prontas as melodias, os acordes, as sonoridades e os jeitos de mergulhar nos sentimentos fundos, do mesmo modo que conheço perfeitamente as formas, as curvas, os degraus e o barulho que fazem os ponteiros do relógio quando o tempo simplesmente passa e a gente simplesmente vive. Continua vivendo. Eu tenho o conto perfeito e pronto que conforta e irrita e impede a citação outra da "inspiração pr'eu ganhar dinheiro". Ainda assim, a conta vai bem, obrigada por não perguntar.

O equilíbrio dá a satisfação pequena-constante-cotidiana de ir-fazendo. Eu reencontro fácil as minhas partículas reflexivas com exemplos que você nem conhece. Eternos estranhos que se cruzam em ruas, vias, vidas, caminhos, estradas e - de repente - ninguém esperaria, mas chega a hora de dobrar outra esquina e voltar a procurar as coisas todas que durante tanto tempo ficaram em suspenso. Eu te dei mais rédeas do que você seria capaz de segurar e você soltou sem aviso, agora eu corro desembestada pra sentir o vento no rosto e o barulho que faz esse vento quando passa pelas coisas. Corro sentada como a menina que escreve um poema no banco de trás. Corro quietinha, a água tem sempre de esperar a tal temperatura certa para ferver. Corro com sapatos novos, corro nos músculos que se estendem, corro nas arestas que ninguém vê, nem precisa, nem é o caso, nem tem por onde que os trajetos mais fundos não são visíveis a olho nu. Os corpos bem mais fáceis de despir e, afinal, todas as pessoas do mundo tem um pedaço de pele em que o ombro encontra o pescoço e a curva produz o cheiro que nunca é igual ao de outra, e metade da graça está em testar os tais paradigmas.

Eu tenho fantasmas que são só meus. Eu faço a casa com a solidão e sei apreciar com rum, cachaça ou chocolate os sabores que ela adquire mesmo quando medonha. Não preciso mais de desculpas ou esquivas para os meus pronomes tão pessoais. Não preciso ter calafrios das caras de nojo que se erguem diante da minha gramática. Os gestos rolam, os mares são sempre navegáveis.

E dos timbres, rostos, vozes, cheiros e tudo e tal, eu levo sempre as histórias cuja narrativa é tão minha, mas tão minha, que não carece nem de contar. Faço meus cantos, arrumo minhas gavetas, abro, fecho, refaço e tiro os pequenos tufos de poeira insistentes.


Os dicionários ainda estão abertos, as páginas frescas e sedutoras com seus venenos nas bordas. O prazer que dá encostar as pontas dos dedos sutilmente, fingindo não saber...

E o mergulho é fundo, é salgado, é denso e intensamente sensorial. Há adormecimentos nunca imaginados. Há dragões invisíveis, páginas rasgadas, pedaços de papel dobrados e guardados. Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar...

domingo, junho 24, 2012

Riso, preces e paixão

Chega a hora de mudar a trilha sonora. Reconstruir detalhes mais fortes que as cores do cabelo que nem podem ser tantas assim. Faz a casa com a tal solidão-liberdade. Buscar dentro de si os meios de retirar o pó, dar brilho, lustrar emoções novas-velhas-outras, descobrir que a gente se ilude em frases antigas nos dizendo que já não há mais quando ainda há tanto e de tantos jeitos e formas.

Quem se deixava vencer pelo cansaço da alma que minava o corpo agora desperta seu sono na exaustão que é só vontade de um algo a mais, uma foda a mais, uma noite a mais, uma vida a mais, porque eu sei que você tem muitas, que nós temos tantas e que ainda é cedo para decorar tantas frases. Ainda há muito o que escrever, muita coisa para arrumar, nem que seja para poder contar depois.

Deitar no velho travesseiro pensando em novas roupas de cama, novas peles, novas camas. Acordar no velho travesseiro ancorando em novas vidas, em novos planos e sonhos. Acordar no meio da noite, no meio da tarde, no meio do dia, no meio do desespero de saber que você não resolveu nem poderia nem ninguém poderia tirar do peito essa angústia, era muito exigir essa responsabilidade.

Na falta de uma ingenuidade essencialista, na falta de crença antiga de que é possível encontrar a gosma pronta. Eu tiro os dedos da garganta e vou é tateando outras coisas, texturas, peles, cheiros, gostos que deem prazer e façam sentir que no caminho a gente sempre vai encontrando uma ou outra coisa de mais ou menos valor.

No mundo sem canetas, ninguém mais perguntaria sobre valer a pena. Ninguém conhece ou pretende medir o tamanho das almas.

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A depender de mim
Os psicanalistas estão fritos
Eu mesmo é que resolvo os meus conflitos
Com aspirina, amor ou com cachaça
Os gritos todos virarão fumaça
A dor é coisa que dói e que passa
Curar feridas só o tempo há de
Toda regra para o bem da humanidade
É certo necessita de uma exceção

A depender de mim
Os publicitários viram bolhas
Eu sei como fazer minhas escolhas
E assumir os erros que lá vem
Se a alma finca pé os medos somem
Menino nunca deixe que te domem
Meu pai dizia o verdadeiro homem
Sabe o que quer ainda que não queira
Besteira é não seguir o coração

A depender de mim
Os padres e pastores serão tristes
Eu penso mesmo que deus não existe
E ainda assim quem sabe eu creia em deus
Se deus é o outro nome da verdade
Deste momento até a eternidade
Eu levo entre mentiras e trapaças
Besta felicidade frágil farsa
do que preciso riso, preces e paixão



terça-feira, maio 01, 2012

Ainda sem

Para se ler ao som de O velho e o moço (Los Hermanos)

O mais novo de mim mesma é muito antigo.



São amontoados de meia dúzia de frases de livros mal lidos, outros apenas comprados que enfeitam estantes inexistentes, se espalham por mesas inutilizáveis e por pedaços de chão manchado por tintas desconhecidas cujas histórias me são bem mais atraentes do que as das capas nunca abertas.

O egoísmo é tanto que ficou gravado na pele tudo o que não é para fazer. A preocupação foi tanta que ficou tudo inacabado, desinteressante. Sempre me procurando, me procurando, me procurando em várias coisas já prontas e mal-feitas, por isso sempre vi um pouco de espelho do meu rabisco. São só rascunhos manchados, desabafos de coisa nenhuma e agora que precisava de algo pronto, ninguém fez. Todas as histórias boas estão fechadas nas estantes, no chão, nas livrarias. Não adiantou nada cortar o cabelo e decorar meia dúzia de contos se agora eles não dão conta - com o perdão do trocadilho besta - da profundidade necessária.

Repetir as mesmas frases, não ter aprendido nenhuma palavra, não ter escrito nenhuma história e não ter aprendido as formas corretas de usar o termo mesmo fazem perceber quanto tempo foi gasto à toa. Quanta lágrima desperdiçada, o choro inútil de não ter motivo para chorar.

O drama nasceu comigo. A intriga ficou faltando. Eu perdi a literatura em artigos pouco produtivos e também mal-lidos, já que nem a escrita mais mercadológica me é eficiente. Farsa intelectual. Metáfora comprada de quem roda na roda e roda fodidamente por não saber sequer dar nomes aos próprios bois. Por ter perdido a mão na hora de ser mais vaca, mais filha da puta.  São correntes historiográficas tão mal aprendidas quanto os fatos colocáveis em linha do tempo. Não dá para subverter o ensino quando não se sabe verter uma lágrima que valha a pena. Quando não se sabe a teoria clássica que pode ser desconstruída, quando uma preguiça enorme de aprender é o que mais tem espaço.

O mais novo de mim mesma é muito sem graça. Ele tem roupas novas. Ela agora mandou dizer que fuma só para poder simultaneamente esquecer mais um verso e eliminar uma tarefa do eterno dia seguinte. Ela agora diz que conhece o amor livre quando ainda repete o substantivo no singular e desconhece as adjetivações necessárias para se dar prazer. O gozo é pouco quando o dia seguinte pede o pragmatismo de um novelo de náilon do qual o felino mais idiota se desvencilharia com maestria.

O mais novo de mim não sabe ser mestre nem se convence de que possa ser algo entre chefe e alguém que pode se responsabilizar quando algo der errado. Não entendem? No meio de toda a minha frigidez, o que eu quero é que tudo se foda e se confunda e fique parecido com o que chamariam de errado só para conhecer alguma proximidade com o caos. O mais perto que eu teria de uma realização pro-fis-sio-nal em letras douradas e caligrafia de normalista seria o circo pegando fogo sem que eu pudesse assistir de fora, em que eu pudesse sentir o calor torturando a pele e participar dos gritos de desespero.

O mais velho de mim era mais dedicado intelectualmente e bem menos arrogante, mas isso eu sempre temi e previ que aconteceria. Hoje eu já não sei conjugar verbos e ainda me atrevo a me meter em oraçõezinhas com toda a minha ausência de insubordinação. Eu me escondo em linhas do tempo superficiais, finjo que tenho objetivos que não sejam um dia depois do outro enquanto penso como-quando-onde será o último e desejo como quem amarra uma fita no pulso que seja algo interessante.

Eu sei que o meu vazio é falta de empenho. Eu sei que existem histórias mais fascinantes, mais elaboradas, mais originais e, principalmente, mais bem escritas do que estas parcas que já há tanto tempo eu leio e releio. Sei que também que existem outros pronomes além da primeira pessoa do singular, mas falta um descentramento que me permita o mergulho. E falta, mais do que tudo, tomar vergonha na cara junto com o gelo do uísque que até agora sequer pode vir sem coca-cola ou guaraná.

segunda-feira, abril 09, 2012

Os sapatinhos vermelhos


Dançarás - disse o anjo
Dançarás com teus sapatos vermelhos
Dançarás de porta em porta
Dançarás, dançarás sempre.
(Andersen: Os Sapatinhos Vermelhos)


1

Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina - ela repetiu olhando-se bem nos olhos em frente ao espelho. Ou quando começa: certos sustos na boca do estômago. Como carrinho de montanha-russa, naquele momento lá no alto, justo antes de despencar em direção. Em direção a quê? Depois de subidas e descidas, em direção àquele insuportável ponto seco de agora.

Restava acender outro cigarro, e foi o que fez. No momento de dar a primeira tragada, apoiou a face na mão e, sem querer, esticou a pele sob o olho direito. Melhor assim, muito melhor. Sem aquele ar desabado de cansaço indisfarçável de mulher sozinha com quase quarenta anos, mastigou sem pausa e sem piedade. Com os dedos da mão esquerda, esticou também a pele debaixo de outro olho. Não, nem tanto, que assim parece japonesa. Uma japa, uma gueixa, isso é que fui. A putinha submissa a coreografar jantares à luz de velas. - Glenn Miller ou Charles Aznavour?-, vertendo trêfegos os sais - camomila ou alfazema? - na sua água da banheira, preparando uísques - uma ou duas pedras hoje, meu bem?

Nenhuma pedra, decidiu. E virou a garrafa outra vez no copo. Aprendera com ele, nem gostava antes. Tempo perdido, pura perda de tempo. E não me venha dizer mas que teve bons momentos, não teve não? A cabeça dele abandonada em seus joelhos, você deslizando devagar entre os cabelos daquele homem. Pudesse ver seu próprio rosto: nesses momentos você ganhava luz e sorria sem sorrir, olhos fechados, toda plena. Isso não valeu Adelina?

Bebeu outro gole um pouco sofrêga. Precisava apressar-se, antes que a quinta virasse Sexta-Feira Santa e os pecados começassem a pulular na memória feito macacos engaiolados: não beba, não cante, não fale nome feio, não use vermelho, o diabo está solto, leva sua alma para o inferno. Ela já estava lá, no meio das chamas, pobre alminha, nem dez da noite, só filmes sacros na tevê, mantos sagrados, aquelas coisas, Sexta-Feira da Paixão e nem sexo, nem ao menos sexo, isso de meter, morder, gemer, gozar, dormir. Aquela coisas frouxa, aquela coisa gorda, aquela coisa sob os lençóis, aquela coisa no escuro, roçar molhado de pelos, baba e gemidos depois de - quantos mesmo? - cinco, cinco anos. Cinco anos são alguma coisa quando se tem quase quarenta, e nem apartamento próprio, nem marido, nem filhos, herança: nada. Ponto seco, ponto morto.

Ué, você não escolheu? Ele ficou parado à frente dela, muito digno e tão comportadamente um-senhor-de-família-da-Vila-Mariana dentro do terno suavemente cinza, gravata pouco mais clara, no tom exato das meias, sapato ligeiramente mais escuro. Absolutamente controlado. Nem um fio de cabelo fora do lugar enquanto repetia pausado, didático, convincente - mas Adelina, você sabe tão bem quanto eu, talvez até melhor, a que ponto de desgaste nosso relacionamento chegou. Devia falar desse jeito mesmo com os alunos, impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar esse rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato.

Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro&relacionamento&rompimento&afeto, teria dito também estima&consideração&mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado. Uma estalactite - estalactite ou estalagmite? merda, umas caíam de cima, outras subiam de baixo, mas que importa: aquela lança fininha de gelo afiado - cravada com extrema cordialidade no fundo do peito dela. Vampira, envelheceria séculos lentamente até desfazer-se em pó aos pés impassíveis dele. Mas ao contrário, tão desamparada e descalça, quase nua, sem maquilagem nem anjo da guarda, dentro de uma camisola velha de pelúcia, às vésperas da Sexta-Feira Santa, sozinha no apartamento e no planeta Terra.

Esmagou o cigarro, baixou a cabeça como quem vai chorar. Mas não choraria mais uma gota sequer, decidiu brava, e contemplou os próprios pés nus. Uns pés pequenos, quase de criança, unhas sem pintura, afundados no tapetinho amarelo em frente à penteadeira. Foi então que lembrou dos sapatinhos. Na segunda-feira tentando reunir os fragmentos, não saberia dizer se teria mesmo precisado acender outro cigarro ou beber mais um gole de uísque para ajudar a idéia vaga a tomar forma. Talvez sim, pouco antes de começar a escancarar portas e gavetas de todos os armários e cômodas, à procura dos sapatos. Que tinham sido presente dele, meio embriagado e mais ardente depois de um daqueles fins de semana idiotas no Guarujá ou Campos do Jordão, tanto tempo atrás. Viu-se no espelho de má qualidade, meio deformada, uma mulher descabelada jogando caixas e roupas para os lados até encontrar, na terceira gaveta do armário, o embrulho em papel de seda azul-clarinho.

Desembrulhou cuidadosamente. Uma súbita calma. Quase bailarina em gestos precisos, medidos, elegantes. O silêncio completo do apartamento vazio quebrado apenas pelo leve farfalhar do papel de seda desdobrado sem pressa alguma. E eram lindos, mais lindos do que podia lembrar. Mais lindos do que tinha tentado expressar quando protestou, comedida e comovida - mas são tão... tão ousados, meu bem, não tem nada a ver comigo. Que evitava cores, saltos, pinturas, decotes, dourados ou qualquer outro detalhe capaz sequer de sugerir sua secreta identidade de mulher-solteira-e-independente-que-tem-um-amante-casado.

Vermelhos - mais que vermelhos: rubros, escarlates, sanguíneos - com saltos finos altíssimos, uma pulseira estreita na altura do tornozelo. Resplandeciam nas suas mãos. Quase cedeu ao impulso de calçá-los imediatamente, mas sabia instintiva que teria primeiro que cumprir o ritual. De alguma forma, tinha decorado aquele texto há tanto tempo que apenas o supunha esquecido. Como uma estréia adiada, anos. Bastavam as primeiras palavras, os primeiros movimentos, para que todas as marcas e inflexões se recompusessem em requintes de detalhes na memória. O que faria a seguir seria perfeito, como se encenado e aplaudido milhares de vezes.

Perfeitamente: Adelina colocou um disco - nem Charles Aznavour, nem Glenn Miller, mais uma úmida Billie Holiday, I’m glad, you’re bad, tomando o cuidado de acionar o botão para que a agulha voltasse e tornasse a voltar sempre, don’t explain, depois deixou a banheira encher aos poucos de suave água morna, salpicou os sais antes de mergulhar, com Billie gemendo rouca ao fundo, lover man, e lavou todos os orifícios, e também os cabelos, todos os cabelos, enfrentou o chuveiro frio, secou o corpo e cabelos enquanto esmaltava as unhas dos pés, das mãos, no mesmo tom de vermelho dos sapatos, mais tarde desenhou melhor a boca, já dentro do vestido preto justo, drapeado de crepe, preso ao ombro por um pequeno broche de brilhantes, escorregando pelo colo para revelar o início dos seios, acentuou com lápis o sinal na face direita, igualzinho ao de Liz Taylor, todos diziam, sublinhou os olhos de negro, escureceu os cílios, espalhou perfume no rego dos seios, nos pulsos, na jugular, atrás das orelhas, para exalar quando você arfar, minha filha, então as meias de seda negra transparente, costura atrás, tigresa noir, Lauren Bacall, e só depois de guardar na carteira, talão de cheques, documentos, chave do carro, cigarros e o isqueiro de prata que tirou da caixinha de veludo grená, presente de trinta e sete, só mesmo quando estava pronta dos pés à cabeça e desligara o toca-discos, porque eles exigiam silêncio - foi que sentou outra vez na penteadeira para calçar os sapatinhos vermelhos.

Apagou a luz do quarto, olhou-se no espelho de corpo inteiro do corredor. Gostou do que viu. Bebeu o último gole de uísque e, antes de sair, jogou na gota dourada do fundo do copo o filtro branco manchado de batom.

2

Eram três, estavam juntos, mas o negro foi o primeiro a pedir licença para sentar. A única mulher sozinha na boate. Tinha traços finos o negro, afilados como os de um branco, embora os lábios mais polpudos, meio molhados. Músculos que estavam dentro da camisa justa, dos jeans apertados. Leve cheiro de bicho limpo, bicho lavado, mas indisfarçavelmente bicho atrás do sabonete.

- E aí, passeando? - ele perguntou, ajeitando-se na cadeira à frente dela.

Curvou-se para que ele acendesse seu cigarro. A mão grande, quadrada, preta e forte não se moveu sobre a mesa. Ela mesma acendeu, com o isqueiro de prata. Depois jogou a cabeça para trás - a marcação era perfeita - tragou fundo e, entre a fumaça, soltou as palavras sobre os patéticos pratinhos de plástico com amendoim e pipocas:

- Você sabe, feriado. A cidade fica deserta, essas coisas. Precisa aproveitar, não?

Por baixo da mesa, o negro avançou o joelho entre as coxas dela. Cedeu um pouco, pelo menos até sentir o calor aumentando. Mas preferiu cruzar as pernas estudada. Que não assim, tão fácil, só porque sozinha. E quase quarentona, carne de segunda, coroa. Sorriu para o outro, encostado no balcão, o moço dourado com jeito de tenista. Não que fosse louro, mas tinha aquele dourado do pêssego quando mal começa a amadurecer espalhado na pele, nos cabelos, provavelmente nos olhos que ela não conseguia ver sem óculos, à distância. O negro acompanhou o seu olhar , virando a cabeça sobre o próprio ombro. De perfil - ela notou - o queixo era brusco, feito a machado. Mesmo recém-feita, a barba rascaria quando se passasse a mão. Antes que dissesse qualquer coisa, ela avançou com voz muito rouca:

- Por que não convida seus amigos para sentar com a gente? - Ele rodou um amendoim entre os dedos. Ela tomou o amendoim dos dedos dele. O crepe escorregou do ombro para revelar o vinco entre os dois seios - Acho que você não precisa disso.

O negro franziu a testa. Depois riu. Passou o indicador nas costas da mão dela, pressionando:

- Pode crer que não.

Soprou a fumaça na cara dele:

- Será?

- Garanto a você.

Descruzou as pernas. O joelho dele tornou a apertar o interior de suas coxas. Quero te jogar no solo a música dizia.

- Então chame seus amigos.

- Você não prefere que a gente fique só nós dois?

Tão escuro ali dentro que mal se podia ver o outro, ao lado do tenista dourado. Um pouco mais baixo, talvez. Mas os ombros largos. Qualquer coisa no porte, embora virado de costas para ela, de frente para o balcão, curvado sobre o copo de bebida, qualquer coisa na bunda firme desenhada, pelo pano da calça --- qualquer coisa ali prometia. Remexeu as pedras de gelo do uísque na ponta das unhas vermelhas.

- Uns rapazes simpáticos. Assim sozinhos. Não são seus amigos?

- Do peito - ele confirmou. E apertou mais o joelho. A calcinha dela ficou úmida - Tudo gente boa.

- Gente boa é sempre bem-vinda

Falava como a dublagem de um filme. Uma mulher movia o corpo e a boca: ela falava. Um filme preto e branco, bem contrastado, um filme que não tinha visto, embora conhecesse bem a história. Porque alguém contara, em hora de cafezinho, porque vira os cartazes ou lera qualquer coisa numa daquelas revistas femininas que tinha aos montes em casa. As mais recentes, na parte de baixo da mesinha de vidro da sala. As outras acumuladas no banheiro de empregada, emboloradas por um eterno vazamento no chuveiro, que a diarista depois levava. Para vender, dizia. E ela odiava contida a idéia das páginas coloridas das revistas dela embrulhando peixe na feira ou expostas naquelas bancas vagabundas do centro da cidade.

Se você quer mesmo - o negro disse. E esperou que ela dissesse alguma coisa, antes de erguer a mão chamando os outros dois.

- Não quero outra coisa - sussurrou.

E muito de repente - porque depois do quarto ou quinto uísque tudo acontece sempre assim, sem que se possa determinar o ponto exato de transição, quando uma situação passa a ser outra situação - quase de repente, o tenista dourado estava ao lado direito dela, e o rapaz mais baixo à sua esquerda. Na cadeira em frente, o negro olhava tudo e com atentos olhos suspeitosos. Perguntou o que bebiam, eles disseram juntos e previsíveis: cerveja. Ela falou nossa, bebam algum drinque mais estimulante, vocês vão precisar, rapazes, um ar de Mae West. Todos os três explicaram que estavam duros, a crise, você sabe, mas de jeitos diferentes. O tenista dourado chegou a puxar o forro do bolso para fora e mostrou, pegando a mão dela, veja, veja só, pegue aqui, mas ela retirou a mão pouco antes de tocar. Tão próximo o calor latejante na beira dos dedos. Problema nenhum, ofereceu pródiga: eu pago. A fita da garrafa pela metade, serviu do uísque dela ao negro e ao tenista-dourado. Não ao mais baixo, que preferia vodca, natasha mesmo serve. Ela então atentou nele pela primeira vez. Todo pequeno e forte, cabelos muito crespos, contrastando com a pele branca, lábios vermelhos, barba de dois, três dias, quase emendada nos cabelos do peito fugidos da gola da camisa, mãos cruzadas um tanto tensas, unhas roídas, sobre o xadrez da toalha. Cabeça baixa, concentrado em sua pequenez repleta da vitalidade que certeira, ela adivinhava mesmo antes de provar.

Pacientes, divertidos, excitados: cumpriram os rituais necessários até chegar ao ponto. Que o negro era Áries, jogador de futebol, mês que vem passo ao primeiro escalão, ganhando uma grana. Sérgio ou Sílvio, qualquer coisa assim. O tenista-dourado, Ricardo, Roberto ou seria Rogério? Um bancário sagitariano, fazia musculação e os peitos que pediu que tocasse eram salientes e pétreos como os de um halterofilista, sonhava ser modelo, fiz até umas fotos, quiser um dia te mostro, peladinho, e ela pensou: vai acabar michê de viado rico. Do mais baixo só conseguiu arrancar o signo, Leão, isso mesmo porque adivinhou, não revelou nome nem disse o que fazia, estava por aí, vendo qual era, e não tinha saco de fazer de social.

Eu? Gil-da, ela mentiu retocando o batom. Mas mentia só em parte, contou para o espelhinho, porque de certa forma sempre fui inteiramente Gilda, Escorpião, e nisso dizia a verdade, atriz, e novamente mentia, só de certa forma, porque toda a minha vida.

Então dançaram, um de cada vez. O negro apoiou a mão pesada na cintura dela e, puxando-a para si, encaixou o ventre dos dois, quase como se a penetrasse assim. Ao som de Roberto Carlos daqueles de motel, o côncavo, o convexo, tão apertado e rijo que ela temeu que molhasse a calça. Mas de volta à mesa, ao acariciar disfarçada o volume, tranqüilizou-se antes de sair puxada pela mão dourada do tenista-dourado. Que a fez encostar a cabeça entre os dois peitos dele, cheiro de colônia, desodorante, suor limpo de homem embaixo da camisa pólo amarelinha, lambeu a orelha dela, mordiscou a curva do pescoço ao som duma dessas trilhas românticas em inglês de telenovela, até que ela gemesse, toda molhada, implorando que parasse. O mais baixo não quis dançar. Quero foder você, rosnou: pra que essa frescura toda?

Foi quando ela levantou a perna, apoiando o pé na borda da cadeira, que todos viram o sapato vermelho. Depois dos comentários exaltados, as meticulosas preparações estavam encerradas, a boate quase vazia, sexta-feira instalada, era da Paixão, cinza cru de amanhecer urbano entrando pelas frestas, o único garçom impaciente, cadeiras sobre as mesas. Tinham chegado ao ponto. O ponto vivo, o ponto quente.

- Pra onde? - perguntou o tenista-dourado.

- Meu apartamento, onde mais?- ela disse, terminando de assinar o cheque, três estrelas, caneta importada.

- Mas afinal, com quem você quer ir?- o negro quis saber.

Ela acariciou o rosto mais baixo:

- Com os três, ora.

Apesar do uísque, saiu pisando firme nos sapatos vermelhos, os três atrás. Lá fora, na luz da manhã, antes de entrarem no carro que o manobrista trouxe e o tenista-dourado fez questão de dirigir, os sapatos vermelhos eram a única coisa colorida daquela rua.

3

Que tirasse tudo, menos os sapatos - os três imploraram no quarto em desordem. Garrafa de uísque na penteadeira. Fafá de Belém antiga no toca-discos (escolha do tenista-dourado, o negro queria Alcione), cinzeiro transbordante na mesinha de cabeceira. Tirou tudo, jogando para os lados. Menos a meia de seda negra, com costura atrás, e os sapatinhos vermelhos. Nua, jogou-se na colcha de chenile rosa, as pernas abertas. Eles cercaram lentos, jogando as zorbas sobre o crepe negro.

O negro veio por trás, que gostava assim, tão apertadinho. Ela nunca tinha feito, mas ele jurou no ouvido que seria cuidadoso, depois mordeu-a nos ombros, enquanto a virava de perfil, muito suavemente, molhando-a de saliva com o dedo, para que o mais baixo pudesse continuar a lambê-la entre as coxas, enquanto o tenista-dourado, de joelhos, esfregava o pau pelo rosto dela, até encontrar a boca. Tinha certo gosto também de pêssego, mas verde demais, quase amargo, e passando as mãos pelas costas dele confirmou aquela suspeita anterior de uma penugem macia num triângulo pouco acima da bunda, igual ao peito, acinzentado pelo amanhecer varando persianas, mas certamente dourado à luz do sol. Foi quando o negro penetrou mais fundo que ela desvencilhou-se do tenista-dourado para puxar o mais baixo sobre si. Ele a preencheu toda, enquanto ela tinha a sensação estranha de que, ponto remoto dentro dela, dos dois lados de uma película roxa de plástico transparente, como num livro que lera, os membros dos dois se tocavam, cabeça contra cabeça. E ela primeiro gemeu, depois debateu-se, procurou a boca dourada do tenista-dourado e quase, quase chegou lá. Mas preferia servir mais um uísque, fumar mais um cigarro, sem pressa alguma, porque pedia mais, e eles davam, generosos, e absolutamente não se espantar quando então invertiam-se as posições, e o tenista-dourado vinha por trás ao mesmo tempo que o mais baixo introduzia-se em sua boca, e o negro metido dentro dela conseguia transformar os gemidos em gritos cada vez mais altos, fodam-se os vizinhos, depois cada vez mais baixo novamente, rosnandos, grunhindos, até não passarem de soluço miudinhos, sete galáxias atravessadas, o sol de Vegas no décimo quarto grau de Capricórnio e a cara afundada nos cabelos pretos encaracolados do negro peito largo dele. De outros jeitos, de todos os jeitos: quatro, cinco vezes. Em pé, no banheiro, tentando aplacar-se embaixo da água fria do chuveiro. Na sala, de quatro nas almofadas de cetim, sobre o sofá, depois no chão. Na cozinha, procurando engov e passando café, debruçada na pia. Em frente ao espelho de corpo inteiro do corredor, sem se chocar que o mais baixo de repente viesse também por trás do tenista-dourado dentro dela, que acariciava o pau do negro até que espirrasse em jatos sobre os sapatos vermelhos dela, que abraçava os três, e não era mais Gilda, nem Adelina nem nada. Era um corpo sem nome, varado de prazer, coberto de marcas de dentes e unhas, lanhados de tocos de barbas amanhecidas, lambuzadas de leite sem dono dos machos das ruas. Completamente satisfeita. E vingada.

Quando finalmente se foram, bem depois do meio-dia, antes de jogar-se na cama limpou devagar os sapatos com uma toalha de rosto que jogou no cesto de roupa suja. Foi o néon, repetiu andando pelo quarto, aquelas luzes verdes, violetas e vermelhas piscando em frente à boate, foi o néon maligno da Sexta-Feira Santa, quando o diabo se solta porque Cristo está morto, pregado na cruz. Quando apagou a luz, teve tempo de ver-se no espelho da penteadeira, maquilagem escorrida pelo rosto todo, mas um ar de triunfo escapando do meio dos cabelos soltos.

Acordou no Sábado de Aleluia, manhã cedo, campainha furando a cabeça dolorida. Ele estava parado no corredor, dúzia de rosas vermelhas e um ovo de Páscoa nas mãos, sorriso nos lábios pálidos. Não era preciso dizer nada. Só sorrir também. Mas ela não sorria quando disse:

- Vai embora. Acabou.

Ele ainda tentou dizer alguma coisa, aquele ridículo terno cinza. Chegou mesmo a entrar um pouco na sala antes que ela o empurrasse aos gritos para fora, quase inteiramente nua, a não ser pelas meias de seda e os sapato vermelhos de saltos altíssimos. Havia um cheiro de cigarro e bebida e gozo entranhado pelos cantos do apartamento, a cara ressacada dela, manchas roxas de chupões no colo. Pela primeira, única e última vez ele a chamou muitas vezes de puta, puta vadia, puta escrota depravada e pervertida. Jogou o ovo e as rosas vermelhas na cara dela e foi embora para sempre.

Só então ela sentou para tirar os sapatos. Na carne dos tornozelos inchados, as pulseiras tinham deixado lanhos fundos. Havia ferimentos espalhados sobre os dedos. Tomou banho quente, arrumou a casa toda antes de deitar-se outra vez - o broche de brilhantes tinha desaparecido, mas que importava: era falso -, tomar dois comprimidos para dormir o resto do sábado e o domingo de Páscoa inteiros, acordando para comer pedaços de chocolate de ovo espatifado na sala.

Segunda-feira no escritório, quando a viram caminhando com dificuldade, cabelos presos, vestida de marrom, gola fechada, e quiseram saber o que era - um sapato novo, ela explicou muito simples, apertado demais, não é nada. Voltavam a doer, os ferimentos, quando ameaçava chuva. E ao abrir a terceira gaveta do armário para ver o papel de seda azul – clarinho guardando os sapatos, sentia um leve estremecimento. Tentava - tentava mesmo? - não ceder. Mas quase sempre o impulso de calçá-los era mais forte. Porque afinal, dizia-se, como num conto de Sonia Coutinho, há tantas sextas-feiras, tantos luminosos de néon, tantos rapazes solitários e gostosos perdidos nesta cidade suja... Só pensou em jogá-los fora quando as varizes começaram a engrossar, escalando as coxas, e o médico então apalpou-a nas virilhas e depois avisou quê.

ABREU, Caio Fernando. Os Sapatinhos Vermelhos. In: Os dragões não conhecem o paraíso. 1988.