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domingo, julho 01, 2012

"Tá nos astros, boy"

Para ler ao som de Quase sem querer.

Os planetas em capricórnio dizem que o sofrimento está com a hora marcada. A lágrima do enterro necessário virá, desde que respeite as agendas, os compromissos - desde que tenha a responsabilidade devida. A procrastinação não vê nem como boa desculpa a tal dor. Fina, crônica e de longa data e evocadora de boas músicas guardadas em pastas perdidas da memória.

Alimento um pouco por dia. Tenho excesso de versos decorados, tenho prontas as melodias, os acordes, as sonoridades e os jeitos de mergulhar nos sentimentos fundos, do mesmo modo que conheço perfeitamente as formas, as curvas, os degraus e o barulho que fazem os ponteiros do relógio quando o tempo simplesmente passa e a gente simplesmente vive. Continua vivendo. Eu tenho o conto perfeito e pronto que conforta e irrita e impede a citação outra da "inspiração pr'eu ganhar dinheiro". Ainda assim, a conta vai bem, obrigada por não perguntar.

O equilíbrio dá a satisfação pequena-constante-cotidiana de ir-fazendo. Eu reencontro fácil as minhas partículas reflexivas com exemplos que você nem conhece. Eternos estranhos que se cruzam em ruas, vias, vidas, caminhos, estradas e - de repente - ninguém esperaria, mas chega a hora de dobrar outra esquina e voltar a procurar as coisas todas que durante tanto tempo ficaram em suspenso. Eu te dei mais rédeas do que você seria capaz de segurar e você soltou sem aviso, agora eu corro desembestada pra sentir o vento no rosto e o barulho que faz esse vento quando passa pelas coisas. Corro sentada como a menina que escreve um poema no banco de trás. Corro quietinha, a água tem sempre de esperar a tal temperatura certa para ferver. Corro com sapatos novos, corro nos músculos que se estendem, corro nas arestas que ninguém vê, nem precisa, nem é o caso, nem tem por onde que os trajetos mais fundos não são visíveis a olho nu. Os corpos bem mais fáceis de despir e, afinal, todas as pessoas do mundo tem um pedaço de pele em que o ombro encontra o pescoço e a curva produz o cheiro que nunca é igual ao de outra, e metade da graça está em testar os tais paradigmas.

Eu tenho fantasmas que são só meus. Eu faço a casa com a solidão e sei apreciar com rum, cachaça ou chocolate os sabores que ela adquire mesmo quando medonha. Não preciso mais de desculpas ou esquivas para os meus pronomes tão pessoais. Não preciso ter calafrios das caras de nojo que se erguem diante da minha gramática. Os gestos rolam, os mares são sempre navegáveis.

E dos timbres, rostos, vozes, cheiros e tudo e tal, eu levo sempre as histórias cuja narrativa é tão minha, mas tão minha, que não carece nem de contar. Faço meus cantos, arrumo minhas gavetas, abro, fecho, refaço e tiro os pequenos tufos de poeira insistentes.


Os dicionários ainda estão abertos, as páginas frescas e sedutoras com seus venenos nas bordas. O prazer que dá encostar as pontas dos dedos sutilmente, fingindo não saber...

E o mergulho é fundo, é salgado, é denso e intensamente sensorial. Há adormecimentos nunca imaginados. Há dragões invisíveis, páginas rasgadas, pedaços de papel dobrados e guardados. Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar...

terça-feira, maio 01, 2012

Ainda sem

Para se ler ao som de O velho e o moço (Los Hermanos)

O mais novo de mim mesma é muito antigo.



São amontoados de meia dúzia de frases de livros mal lidos, outros apenas comprados que enfeitam estantes inexistentes, se espalham por mesas inutilizáveis e por pedaços de chão manchado por tintas desconhecidas cujas histórias me são bem mais atraentes do que as das capas nunca abertas.

O egoísmo é tanto que ficou gravado na pele tudo o que não é para fazer. A preocupação foi tanta que ficou tudo inacabado, desinteressante. Sempre me procurando, me procurando, me procurando em várias coisas já prontas e mal-feitas, por isso sempre vi um pouco de espelho do meu rabisco. São só rascunhos manchados, desabafos de coisa nenhuma e agora que precisava de algo pronto, ninguém fez. Todas as histórias boas estão fechadas nas estantes, no chão, nas livrarias. Não adiantou nada cortar o cabelo e decorar meia dúzia de contos se agora eles não dão conta - com o perdão do trocadilho besta - da profundidade necessária.

Repetir as mesmas frases, não ter aprendido nenhuma palavra, não ter escrito nenhuma história e não ter aprendido as formas corretas de usar o termo mesmo fazem perceber quanto tempo foi gasto à toa. Quanta lágrima desperdiçada, o choro inútil de não ter motivo para chorar.

O drama nasceu comigo. A intriga ficou faltando. Eu perdi a literatura em artigos pouco produtivos e também mal-lidos, já que nem a escrita mais mercadológica me é eficiente. Farsa intelectual. Metáfora comprada de quem roda na roda e roda fodidamente por não saber sequer dar nomes aos próprios bois. Por ter perdido a mão na hora de ser mais vaca, mais filha da puta.  São correntes historiográficas tão mal aprendidas quanto os fatos colocáveis em linha do tempo. Não dá para subverter o ensino quando não se sabe verter uma lágrima que valha a pena. Quando não se sabe a teoria clássica que pode ser desconstruída, quando uma preguiça enorme de aprender é o que mais tem espaço.

O mais novo de mim mesma é muito sem graça. Ele tem roupas novas. Ela agora mandou dizer que fuma só para poder simultaneamente esquecer mais um verso e eliminar uma tarefa do eterno dia seguinte. Ela agora diz que conhece o amor livre quando ainda repete o substantivo no singular e desconhece as adjetivações necessárias para se dar prazer. O gozo é pouco quando o dia seguinte pede o pragmatismo de um novelo de náilon do qual o felino mais idiota se desvencilharia com maestria.

O mais novo de mim não sabe ser mestre nem se convence de que possa ser algo entre chefe e alguém que pode se responsabilizar quando algo der errado. Não entendem? No meio de toda a minha frigidez, o que eu quero é que tudo se foda e se confunda e fique parecido com o que chamariam de errado só para conhecer alguma proximidade com o caos. O mais perto que eu teria de uma realização pro-fis-sio-nal em letras douradas e caligrafia de normalista seria o circo pegando fogo sem que eu pudesse assistir de fora, em que eu pudesse sentir o calor torturando a pele e participar dos gritos de desespero.

O mais velho de mim era mais dedicado intelectualmente e bem menos arrogante, mas isso eu sempre temi e previ que aconteceria. Hoje eu já não sei conjugar verbos e ainda me atrevo a me meter em oraçõezinhas com toda a minha ausência de insubordinação. Eu me escondo em linhas do tempo superficiais, finjo que tenho objetivos que não sejam um dia depois do outro enquanto penso como-quando-onde será o último e desejo como quem amarra uma fita no pulso que seja algo interessante.

Eu sei que o meu vazio é falta de empenho. Eu sei que existem histórias mais fascinantes, mais elaboradas, mais originais e, principalmente, mais bem escritas do que estas parcas que já há tanto tempo eu leio e releio. Sei que também que existem outros pronomes além da primeira pessoa do singular, mas falta um descentramento que me permita o mergulho. E falta, mais do que tudo, tomar vergonha na cara junto com o gelo do uísque que até agora sequer pode vir sem coca-cola ou guaraná.

quarta-feira, abril 11, 2012

Trascurare

Para ler ao som de E poi? de Giorgia

E depois? Depois que aquele um já chegou, depois que já escarnecemos juntos tudo o que podíamos de uma roda em que a gente já entrou, já saiu, já rodopiou, já vomitou junto lá de cima, já entrou escondida sem pagar o ingresso, já deixou de ir porque não tinha dinheiro, já ficou olhando de cara cheia todo mundo que roda sem fim, já ficou olhando de cara feia, já escreveu artigos criticando quem roda, já ficou tonta e pensou que talvez as coisas não sejam tão cíclicas nem tão metafóricas nem tão literais assim. Faz o quê? Depois que nos conquistamos, nos vimos, nos perdemos, nos machucamos, nos confundimos entre objetos diretos, verbos pronominais ou reflexivos. Depois que já falamos outras línguas, já nos xingamos e nos amamos em dialetos incompreensíveis, já nos entendemos em silêncio, já nos desentendemos com um milhão de palavras. Depois que o gelo derreteu, que o disco já terminou e fica aquele barulho da agulha enganchada. Depois que você já cansou de me ouvir tentando criar referências de coisas que eu nunca vivi. Depois que eu já nem me lembro como funciona um vitrola e também ainda não sei como se mexe nos icoisas da vida. Depois que você já cansou de saber que eu sou perdida na vida, perdida no mundo às três da manhã ou às duas da tarde. Depois que esse ar de angústia perdeu a graça, depois que meu cigarro de não fumante já não passa de uma cena repetida, sem graça e incompatível com a saúde e com o bolso. Depois que a gente já mandou para a puta que pariu a saúde, o cheque especial, a moral burguesa, a roda, as cobranças, os rótulos. Depois que a gente aprendeu que o bom de fumar charuto é sim não precisar tragar. Depois que a gente descobriu a calma que dá um cigarro mentolado acompanhado de uma xícara de café correto. Depois que a gente já aprendeu um montão de pequenos prazeres e perdeu os grandes. Depois que a gente ficou assim meio dependente, que a gente não sabe andar na rua se não tiver uma mão em que segurar. Depois que a gente perdeu as medidas, as fronteiras, as etiquetas, a definição de onde se guardam as senhas e como se fecham as gavetas. Depois que o seu sapato não pisa no meu, mas os meus pés estão com suas meias, seu cabelo com meu corte, seu desespero com as minhas frases feitas. Depois que a gente já passou do tempo da crise, depois que as estruturas caíram em desuso, depois que os  rótulos das garrafas de cerveja-conhaque-uísque, depois que todos os rótulos já foram meio destruídos com aquele gesto besta de retirar o papel já sem cola e tentar usar para identificar um copo. Ainda assim, a gente troca os copos, mistura as bebidas para além dos brindes. Apesar de tudo, a gente sabe que não tem ninguém tentando envenenar ninguém.

Depois que você já decorou todas as frases que eu já esqueci. Depois que nenhum vizinho suporta mais ouvir as mesmas músicas, em madrugadas cada vez mais iguais - álcool, gelo, choro e uma tentativa de sentir alguma coisa, qualquer coisa que possa, antes de acordar alguém, nos ajudar a dormir tranquilas.

Depois passa o plural. Deixa de existir o "a gente" e perde-se o risco de equivocar alguma concordância. Depois eu vou dormir tranquila, você vai escrever tranquila. Depois que separar as roupas, os livros, as músicas, depois que soubermos o que há de indissolúvel na mistura, depois que eu descobrir enfim o que sobrou de mim que ainda me seduz. Depois que eu souber ser sem ser através de frases feitas. Depois que eu me reencontrar em palavras, em cores, em desabafos e angústias.

Depois que eu souber a função sintática da palavra depois. Que eu dominar a historiografia da saúde e da ciência. Depois que você souber definir seus conceitos. Quem sabe um dia eu te ligue para saber onde você está, quem sabe você estará disponível, quem sabe eu saberei te explicar o que eu queria mesmo em frases audíveis ou escrevíveis. Talvez você nem tenha mais tempo para ouvir, talvez você não queira mais ouvir. Talvez você simplesmente esteja em outra cidade, outro estado, outro país. Talvez a gente tenha que esperar um tempo para se reencontrar. Talvez seja amanhã, talvez demore muito tempo. Talvez a gente nunca saiba.

quinta-feira, março 08, 2012

Mais um dia

Li muitos textos muito bons para pensar o machismo nosso de cada dia. Que pensemos hoje e sempre. Que repensemos os papéis dos gêneros em nossa sociedade. Fiquei meio sem saber o que escrever depois de ler A metáfora perfeita e 08 de março, dia de você repensar seu machismo, fica a recomendação e a tentativa de conto abaixo:

Acordar cedo como de costume. Levantar apressada disfarçando o inchaço dos olhos para o caso de o marido despertar com o barulho de seus passos. Prender o cabelo em um rabo de cavalo para espantar a aparência de quem acabou de acordar. Ir até a cozinha antes mesmo de escovar os dentes. Água para ferver, pó para passar o café, pães na torradeira para o marido, cereais para o do meio, iogurte para o caçula. Antes que tudo estivesse no lugar, as crianças chegam como pequenas tempestades pedindo coisas. O marido com um beijo burocrático, gritaria, correria, leite no chão. Pano e desinfetante no chão. Banho no mais novo, grito com o do meio para que vá logo tomar banho, nó na gravata do marido, uniformes e mochilas dos meninos, lancheiras, tchau com outro beijo burocrático no marido.

Ponto de ônibus cheio de manhã. Olhar tarado de um babaca próximo. Crianças na frente na hora de subir no ônibus. Um homem que dá a vez simulando gentileza e olha para a bunda dela quando sobe no veículo. Ônibus ainda mais lotado que o ponto. Equilibrar crianças, segurar mochilas, evitar contatos físicos indesejados. Descer do ônibus, tentar atravessar no sinal fechado, quase ser atropelada e receber um "quer morrer, vadia?". Dar tchau para as crianças, atravessar a rua de volta, pegar outro ônibus lotado, chegar atrasada no trabalho, receber um olhar de reprovação do chefe, perceber aquele aumento desejado e necessário cada vez mais longe, ligar o computador, acessar o email, receber várias mensagens com flores, imagens maternais e etc. irritantes. Receber um convite do chefe para almoçar, receber uma cantada do chefe, trabalhar o dia todo, ficar exausta, buscar as crianças no colégio, chegar em casa, fazer comida, colocar a roupa para lavar, passar o uniforme das crianças para o dia seguinte, tomar banho, receber uma lingerie do marido como presente e deitar antes que ele queira que ela vista.

Essa é a primeira imagem que aparece no google para a palavra "mulher".

quarta-feira, novembro 30, 2011

As unhas não correm risco, nunca tive o hábito de roê-las - nem de conjugar esse verbo, por isso soou tão estranho agora. Mas o estômago eu começo a sentir corroendo na ansiedade que sempre chamo de angústia para vestir uma personagem exageradamente cliché. As pontas dos dedos é que podem se desgastar de tanto clicar no mesmo botão, atualizar a mesma página e não ver nada ainda. Sempre o medo do fracasso, o medo da frustração, enfim, o medo que aos poucos vai se esvaindo na certeza de que de todas formas as coisas se acertam e se ajeitam de algum jeito. MAS PODIAM SE RESOLVER LOGO!!!!




domingo, novembro 20, 2011

Se essa rua, se essa rua fosse minha...


Eu sei que não é fácil. Eu sei que você sabe que eu sei que não é fácil tanto quanto nós sabemos que vai passar mas nem por isso deixamos de repetir o máximo de vezes que dá para ver se passa mais rápido. Às vezes as coisas ficam muito à flor da pele e a gente deixa entrar um ventinho da janela que chega a doer nos poros todos. A dor parece tão funda e parece ainda mais funda porque a gente sabe que, se não tivesse assim tão sensível, não ia ter dor nenhuma. Seria até bom aquele ventinho no rosto.

Queria te dizer que estamos juntas, mas sei que às vezes você só quer ficar sozinha. Queria te dizer que eu queria que as minhas frases não te machucassem e que eu queria que pudéssemos dormir todas as noites. Que essas tais pedras que temos que botar na hora de construir o caminho às vezes são muito pesadas e que eu percebo quando elas machucam os seus dedos, doem nos seus braços e ombros e eu queria que não doessem nunca, ainda mais quando é uma pedra - mesmo uma pedrinha - que você só pega para me ajudar. Vai ver o bom dessas pedras grandes e pesadas é que ajudam a construir a estrada mais rápido, aí quem sabe chega logo a hora de podermos olhar o contorno e ver como há flores e cores e céu e nuvens em formatos estranhos e tantas outras coisas que não são essa estrada.

Eu quero ver e apontar deseducadamente e rir e sentir o sol das coisas com você. Mas enquanto isso, me dá essa pedra, deixa eu segurar desse lado de cá que a gente divide o peso.

terça-feira, outubro 25, 2011

Fruta da estação

Sentia a proximidade das peles que não se tocavam, deveria existir um verbo para expressar apenas esse não toque, essa presença. Como quando a gente está em cômodos separados, mas se houve em ruídos, se vê em reflexões dos vidros dos móveis, se escuta nas pontas dos dedos que poderiam ser distantes, às vezes são, mas não sempre. Os pêlos que já não têm acento eriçam nessa indecisão provocante do semi-toque. Como quando você me liga para perguntar um caminho que tem plena certeza de que eu desconheço só para ouvir que não me importo de tentar descobrir junto com você. Como quando viramos noites em tarefas que passam a ser em dupla, trabalhos, relatórios, projetos, contos, aulas - porque as pessoas não sabem que a vida é em couple em tempo integral. E a gente se participa, confunde os temas e se pega gostando mais de uma coisa que nem é nossa - e nem existe para lado nenhum esse limite da possessividade.

Vamos ver um filme só para esquecer um pouco os problemas da vida? Vamos arrumar a casa só para esquecer um pouquinho os problemas de dentro? Vamos arrumar o cabelo, as unhas, as frases para esquecer um pouquinho que a vida é grande, grave e incerte? As roupas se misturam numa vaidade completamente perdoável. Nos misturamos e distanciamos numa oscilação de respiração ofegante de quando uma chega correndo para contar à outra que. Às vezes dormimos abraçadas e acordamos em disputa, às vezes a raiva pequena me faz querer olhar para a parede fingindo que nela não tem um espelho, mas quando acordo nada faz sentido antes de te olhar e ver que você ainda está aqui.

Adoro saber que o tempo vai passando e a gente vai construindo - assim, no gerúndio que indica ação em andamento e simultânea - coisas mais profundas. O erro foi acreditar que acharíamos as coisas todas prontas no caminho, talvez numa estrada de pedras coloridas. Quando abrimos a porta e vimos que não havia nada lá, não imaginávamos o quanto seria longo, intenso, saboroso, construir aos poucos, a cada dia, o nosso caminho.

Sabe aquele sentimento disforme que eu te mostrei num texto ainda escrito à lápis e você me falou em sussurros em outra língua? A gente foi falando, moldando, provando, vivendo, fazendo, definindo... E muda, como muda de planta, homonímia, cresce, tomba, muda de cor, brota, floresce, resseca, chega perto do céu, tomba no chão, vira adubo, vira jardim, desdobra em breguices, pieguices e originalidades.

Não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo de casa de vida de cabelo de roupa de comida de país de trabalho etc. etc. etc. etc. - as minhas mãos vão estar coladas às suas.

E hoje não é vinte e nove.

quinta-feira, setembro 29, 2011


Escrevo só e ando só. Já faz tanto tempo que desaprendi a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. Principalmente a corpórea. Aí eu fico esperando um algo que aconteça dentro ou fora de mim, uma epifania que me dê algum caminho, já que eu não engano ninguém e nem quero enganar. Me afastei de gentes. Não sei mais o cheiro ou a textura que as pessoas têm. Não sei o que vou fazer nem amanhã nem no próximo mês ou no próximo ano. O mar aberto tem ondas revoltas, batem geladas no rosto toda hora, deixam mareada, com vontade de voltar para a terra firme.

Voltar nunca é possível. As metáforas são frágeis. O momento presente é o pedaço frágil de patim cujas fraldas eu sempre esqueço de trocar, ou finjo que esqueço por falta de vontade. Queria uma rotina, uma prisão daquelas com cartão de ponto e tudo, contanto que acabasse bem na hora de ir embora, não fosse junto comigo para os momentos outros, não ficasse martelando o texto para revisar, a aula para terminar, a fonte para pesquisar, a greve para atrapalhar. Segurança e liberdade não podem ser simultâneas.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Trilha sonora

Um apelido que se desdobra em doença porque tinha de ser, porque as teorias se desdobram em coisas mais. Encontrar caminhos, procurar caminhos, perder caminhos, caminhar. Gradativamente. Cada passo. Repetitivamente. Falta gente, uma boa música e uma cerveja gelada no fim do dia. Quando não tem começo não termina e quando termina antes de começar todos os dias só porque tem trilha pronta. Sonora, porque as solas dos sapatos estão novas e tilintantes esperando que alguém lhe diga aonde ir.

Sim, porque saber apenas a transitividade do verbo nunca serviu de nada a ninguém. Espera sentada, olhando os pés que não tocam o chão no auge de seus cinco anos de idade. Sacudindo-os de expectativa, como quem sabe que vai receber um elogio. Sempre esperando uma veneração que lhe dê sentido. Um sorriso de aprovação, uma estrela no caderno.

O silêncio e a espera lhe sorriem de volta, mas um sorriso irônico dizendo que não há o que esperar, que caminho a gente trilha com os próprios pés. Observa-os inquietos e incapazes. Conclui que precisa de um novo par de sapatos que estes não estão condizentes com a situação. Desce da cadeira com esforço - é mesmo alta - enquanto grita com os pulmões cheios para alcançar a cozinha:

- Manhêê! Me compra um novo par de sapatos?

Antes que a resposta venha, substitui a expectativa por uma aflição fingida sobre a cor dos ditos.

sexta-feira, junho 17, 2011

Pouca disposição para as coisas pragmáticas. Mergulhada num êxtase estranho e completamente fictício. Ficção é bom. Mas fica faltando uma questão de honestidade básica, questão de não admitir os limites. O problema não está no que se quer comer, o problema está sempre na fome. Essa fome de vida que não cessa e não adianta tentar que não se traduz em palavras, não tem como simplificar, não tem como virar a cabeça para o outro lado ou lidar de outro jeito. A vida é agora, aprende.

O diabo dessa vida não é que entre cem caminhos diferentes nós temos de escolher um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. O diabo dessa vida é que há coisas sobre nós mesmos que a gente não escolhe. Há-que admitir que nem sempre a escolha é possível. Só podemos controlar a maneira como lidaremos com esse imutável. O desejo é inexorável. O não-desejo também. Há-que ter coragem para enfiar a unha na garganta. Angústia maior do que a de estar encruzilhado numa esquina sem rumo é admitir que não há rumo. Há uma questão de ser o que se é, pois abdicar da vida ainda não é opção. "Tem umas coisas que a gente vai deixando de ser, vai deixando de ser e nem percebe".

quarta-feira, setembro 22, 2010

Capítulo Seis - Revivências

Joelmo estava com uma expressão lívida que Lúcia não soube interpretar como felicidade. No fim das contas ele não viera trazer um grande sofrimento, apenas a notícia de que casara e que agora Lúcia podia morar com ele se quisesse. Seria bem-vinda e Maryara adoraria a presença dela, se viesse. Joelmo tinha um grande medo de que seu plano não desse certo e a presença de Lúcia era um tipo de segurança bastante peculiar naquele momento.

Lúcia não queria reviver os excessos de intimidade que experimentara com seu irmão, mas por outro lado, a companhia de Maryara lhe parecia um bom futuro a seguir. Dona Carmem lhe olhava mais feio a cada dia e não gostava nem confiava naqueles clientes tão cheios de pelos e manias. Uma casa onde se refugiar não pareceu má ideia.

Não conseguiu pensar se estaria atrapalhando a vida do recente casal. Enxergou uma maneira de se ver longe de suas habituais angústias. Não parecia possível um sofrimento maior. Foi. Joelmo sempre fora um bom irmão e lhe valia a esperança de ainda estar longe de tudo o que não queria ver - nem reviver.

terça-feira, setembro 21, 2010

Capítulo Cinco - Envelope lacrado

Depois de um tempo, Lúcia já não abria as cartas de seu irmão. Era suficiente para ela saber que as coisas e pessoas estavam no mesmo lugar, faziam as mesmas coisas, tinham os mesmos problemas. Uma espécie de conforto residia em ter sua solidão inteira para degustar junto com todos os seus problemas novos e insolúveis.

É claro que um grande bocado do motivo de ter acumulado aquele montante de envelopes lacrados tinha a ver com a recusa de possíveis novidades. Não suportaria nem mesmo saber que Dario pudesse ter um grande problema, não conseguiria aguentar uma compaixão por ele no estado em que se encontrava. Ademais, não tinha interesse nenhum em ler que se formava um rótulo de felicidade em volta dele e de Marliana, que planejavam um bebê para o próximo ano, que ela havia parado com as faxinas para se dedicar ao lar. Não precisava que essas coisas ficassem ainda mais reais e constantes em sua cabeça. Não lia nem telefonava. O irmão não tinha o número da pensão, não corria maiores riscos.

Ou assim imaginava até a noite de ventos gelados em que a Dona da pensão bateu na porta enquanto se maquiava para mais uma noite. A Dona disse que tinha um homem esperando lá embaixo, que não era hora ainda, onde ela pensava que estava. O coração de Lúcia bateu como se tivesse a mesma ingenuidade de antes e o corpo cansado desceu o mais rápido que pode sem atentar a nada no que dizia a velha senhora.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Problemas numéricos

Problema número um: Isso aqui não é um blog. Não sei se é porque eu sou mesmo uma pseudo-intelectual que acha divertido problematizar e relativizar tudo, mas eu nem mesmo sei o que é um blog. O mais próximo de uma definição que eu tenho para blogs é uma espécie de diário público. Isso aqui nunca foi um diário. Não, eu não vou entrar no mérito de tentar descobrir o que é isso-aqui. Rótulos nunca adiantaram para explicar nada. Como já disse antes, o mais próximo que chego a dizer é que isso-aqui que é um repositório, que se diz despretencioso, de escrita. Ou mesmo uma boneca russa com faces múltiplas mas nem tão surpreendentes assim.

Pois bem, se isso não é um blog, não faz sentido nenhum falar do dia do blog, que ninguém sabe o que é, quem criou ou para quê serve. Mas poxa, mesmo com sei lá quantas camadas de cebola na explicação do que esse lugar imaterial representa, tá escrito ali em cima o domínio blogspot. Talvez escrever alguma coisa seja necessário para pelo menos agradecer a esse tal de blogger por me hospedar de graça por cinco anos.

Problema número dois: o blogday foi ontem, né? Então leiam fingindo que vocês não sabem que dia é hoje.

Problema número três: sem saber que dia hoje tudo perde totalmente o sentido, não é? Então deixa pra lá.

Fato é que o fato aconteceu (ó!) e não consegui não pensar no que me fez/faz ficar aqui falando pro além durante tanto tempo. Somos a primeira geração da internet democratizada e mesmo que não tenhamso muitos leitores, a possibilidade de escrever alguma coisa que está disponível para o mundo inteiro é fascinante.

Não sei se é possível registrar o espanto e continuar com a minha habitual pseudo-literariedade. Vai ver estou ficando menos literária mesmo. Será o tal do adultecimento? De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho - que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.