Páginas

Mostrando postagens com marcador Ney Matogrosso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ney Matogrosso. Mostrar todas as postagens

terça-feira, janeiro 15, 2013

Inclassificável

Ao som de Medo de Amar (Vinícius de Moraes)

Um desejo que é meio ocasião, meio discografia.

É a voz da Elis que você procura no cheiro do meu pescoço e só encontra um verso estranho, apesar de repetido à exaustão.

É a visceralidade do Ney Matogrosso que você quer no gosto do meu sexo, mas não sabe que é só esse-gosto-molhado-que-as-pessoas-têm-quando-tiram-a-roupa e que a sede de outro corpo é só essa sede-que-ninguém-mata.

Por maior que seja o tesão musical, não vão surgir nos arrepios da minha pele as palavras de Chico.

É só sexo.

Coisa de vagabundos perdidos no fim das noites de sexta que viram sábados quando a gente vira do avesso.

É só sexo.

Não transcende melodias, não estoura em metáforas, não explode em timbres - nem sequer mata a sede (apesar de subverter uma ou outra convicção).

Só vira a página, o disco e muda a roupa que não serve mais.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Estátua de gesso

Para ler ao som de Não há cabeça.

"Essa tristeza que o amor me deu
É a coisa mais bonita dentro do meu eu".
(Marina Lima)


Em primeiro lugar, pega-se entre as mãos a massa disforme. Bloco sólido, neutro. Quase sem querer a gente esbarra e vê que é possível tocá-lo. Depois que encosta as pontas dos dedos, vê que sai uma eletricidade estranha. Há um tipo desconhecido de ímã que parece pedir que as linhas das mãos percorram toda a sua superfície.

De início ela é impenetrável. Há que lubrificar as mãos e umidificar aos pouquinhos a massa até que ela possa ser moldada, penetrada, modificada – até que vire alguma coisa. Mesmo que a gente não tenha sabido dar um nome, que não tenhamos conseguido transformar numa obra de arte, numa estátua, num enfeite de estante, num bibelô, nem nada disso, dava para ver que do misturar de mãos e massa, do magnetismo, da vontade de transformar dedos e corpos numa única explosão de gozo constante; dava pra ver que de tudo isso se poderia ter feito alguma coisa.

A gente fez a poesia palpável que se mostra em constelações da pele, no tom rosado sob a luz de fim de tarde. A gente até fingiu que tinha mais do que pele, misturou álcool no momento de moldar a massa; a gente colocou algumas cores de outros cenários; a gente tocou partes fundas, desejos irreveláveis, frustrações comuns. A gente viveu versos.

Numa segunda-feira qualquer veio um vento e quebrou a estátua de gesso.


Que nem era gesso, que nem tinha nome, mas que era algo mais maleável como faixas de gaze – espuma branca lavando os pés – que a gente enrola igual a um quase amor de promessas telefônicas. Todo quase amor tem um calcanhar de Aquiles que pode se quebrar de uma hora pra outra mesmo que não seja quebrável. Deixa meia dúzia de versos na cabeça. Ficam cheiros, gostos, gozo, a mesma incompreensão da pele na pele e aquela sensação de que um dia desses, num desses encontros casuais talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação.

terça-feira, agosto 02, 2011

O doce e o amargo

O sol que veste o dia
O dia de vermelho
O homem de preguiça
O verde de poeira
Seca os rios, os sonhos
Seca o corpo a sede na indolência

Beber o suco de muitas frutas

O doce e o amargo
Indistintamente
Beber o possível
Sugar o seio
Da impossibilidade

Até que brote o sangue
Até que surja a alma
Dessa terra morta
Desse povo triste

quinta-feira, setembro 18, 2008

Carta pública a um fim sem começo

"E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Feitiço, transe-viagem, alucinação
Não te enganarias"
(Bandoleiro, Ney Matogrosso)

(Ou nome próprio das coisas imperdoáveis)

Após tempos e tempos, enfim, voltando a conviver comigo. De certa forma, de bem com minhas esquizofrenias, com minhas múltiplas máscaras e faces - e até mesmo com minha artificialidade e as situações com as quais eu continuo sem ter dedos para lidar, sem saber onde ponho as mãos chamuscadas do que eu mesma incendiei. E até mesmo com a mente que se aprende a ordenar no papel de um jeito (quase) inteligível.

É isso mesmo: até com as minhas guerras e com os meus fracassos eu, enfim, me conciliei. Desculpa se eu te magoei, é que eu tranquei mesmo as portas dessa vez. E sei, dessa vez, exatamente de que lado cada coisa fica. A isso a gente dá os nomes que quiser - eu liberdade, você medo. O importante é que cada um no seu dicionário e não diga que eu não avisei.

É que eu aprendi a até no meu suicídio preservar uma parte de mim. E por isso saio sempre, ao menos em parte, ilesa. Desculpe dizer sem rodeio. Calar sem rodeio. Desculpe até mesmo rodear tanto para não dizer nada: é que eu não tenho nada mesmo para dizer.



*Editado em 19 de outubro de 2012.