Páginas

Mostrando postagens com marcador inacabado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inacabado. Mostrar todas as postagens

terça-feira, julho 03, 2012

Eu não quero conversar, eu não quero ouvir vozes, eu não quero ver ninguém. Quero recobrar meu egocentrismo esquecido, quero implodir a convivência civilizada e madura, quero ignorar as ligações que perguntam se eu estou bem como uma cobrança, uma fiscalização das lágrimas, uma sentinela que teme suicídios, dramas, dívidas ou sei-lá-o-que-as-pessoas-fazem-quando-terminam-um-relacionamento. Eu não se o que as pessoas fazem, mas sei que elas também não devem saber e me procuram para saciar curiosidades.

Eu não quero que se preocupem comigo. Eu quero me me deem espaço. Eu quero medir sozinha a extensão das minhas lágrimas junto com os braços, eu quero tatear sozinha os meus próprios poços e - se for o caso de dividir com alguém, é para isso que blogs servem. O folhetim eu exponho em palavras porque a minha voz embargada é só minha. O meu desespero é só meu e é isso o que eu procuro.

Eu não quero ficar engolindo choro, eu não quero fingir que perdoo as coisas imperdoáveis. Eu não quero fingir que não há mágoas fundas e também não quero que ninguém cuide das minhas feridas que só eu sei lamber. Cada um tem os direitos sobre seus próprios mortos, eu enterro com meus próprios rituais, acendo vela, apago, ponho fogo na casa ou o que for. Desde que as minhas oferendas sejam aos meus próprios deuses. Desde que os julgamentos venham de mim.

São as minhas rédeas e se sobra alguma resolução grande de tudo isso é que preservação é importante e eu já me expus muito mais do que devia e podia e no fim das contas ficar na vitrine é só ficar na vitrine e pode ser que alguém quebre o vidro, e dói quando isso acontece. E se ninguém respeita, ao menos eu tenho o direito de respeitar, compreender e tratar bem a minha própria dor - já que é ela o que me resta e é a partir dela que eu vou moldar o que vem pela frente.

terça-feira, maio 01, 2012

Ainda sem

Para se ler ao som de O velho e o moço (Los Hermanos)

O mais novo de mim mesma é muito antigo.



São amontoados de meia dúzia de frases de livros mal lidos, outros apenas comprados que enfeitam estantes inexistentes, se espalham por mesas inutilizáveis e por pedaços de chão manchado por tintas desconhecidas cujas histórias me são bem mais atraentes do que as das capas nunca abertas.

O egoísmo é tanto que ficou gravado na pele tudo o que não é para fazer. A preocupação foi tanta que ficou tudo inacabado, desinteressante. Sempre me procurando, me procurando, me procurando em várias coisas já prontas e mal-feitas, por isso sempre vi um pouco de espelho do meu rabisco. São só rascunhos manchados, desabafos de coisa nenhuma e agora que precisava de algo pronto, ninguém fez. Todas as histórias boas estão fechadas nas estantes, no chão, nas livrarias. Não adiantou nada cortar o cabelo e decorar meia dúzia de contos se agora eles não dão conta - com o perdão do trocadilho besta - da profundidade necessária.

Repetir as mesmas frases, não ter aprendido nenhuma palavra, não ter escrito nenhuma história e não ter aprendido as formas corretas de usar o termo mesmo fazem perceber quanto tempo foi gasto à toa. Quanta lágrima desperdiçada, o choro inútil de não ter motivo para chorar.

O drama nasceu comigo. A intriga ficou faltando. Eu perdi a literatura em artigos pouco produtivos e também mal-lidos, já que nem a escrita mais mercadológica me é eficiente. Farsa intelectual. Metáfora comprada de quem roda na roda e roda fodidamente por não saber sequer dar nomes aos próprios bois. Por ter perdido a mão na hora de ser mais vaca, mais filha da puta.  São correntes historiográficas tão mal aprendidas quanto os fatos colocáveis em linha do tempo. Não dá para subverter o ensino quando não se sabe verter uma lágrima que valha a pena. Quando não se sabe a teoria clássica que pode ser desconstruída, quando uma preguiça enorme de aprender é o que mais tem espaço.

O mais novo de mim mesma é muito sem graça. Ele tem roupas novas. Ela agora mandou dizer que fuma só para poder simultaneamente esquecer mais um verso e eliminar uma tarefa do eterno dia seguinte. Ela agora diz que conhece o amor livre quando ainda repete o substantivo no singular e desconhece as adjetivações necessárias para se dar prazer. O gozo é pouco quando o dia seguinte pede o pragmatismo de um novelo de náilon do qual o felino mais idiota se desvencilharia com maestria.

O mais novo de mim não sabe ser mestre nem se convence de que possa ser algo entre chefe e alguém que pode se responsabilizar quando algo der errado. Não entendem? No meio de toda a minha frigidez, o que eu quero é que tudo se foda e se confunda e fique parecido com o que chamariam de errado só para conhecer alguma proximidade com o caos. O mais perto que eu teria de uma realização pro-fis-sio-nal em letras douradas e caligrafia de normalista seria o circo pegando fogo sem que eu pudesse assistir de fora, em que eu pudesse sentir o calor torturando a pele e participar dos gritos de desespero.

O mais velho de mim era mais dedicado intelectualmente e bem menos arrogante, mas isso eu sempre temi e previ que aconteceria. Hoje eu já não sei conjugar verbos e ainda me atrevo a me meter em oraçõezinhas com toda a minha ausência de insubordinação. Eu me escondo em linhas do tempo superficiais, finjo que tenho objetivos que não sejam um dia depois do outro enquanto penso como-quando-onde será o último e desejo como quem amarra uma fita no pulso que seja algo interessante.

Eu sei que o meu vazio é falta de empenho. Eu sei que existem histórias mais fascinantes, mais elaboradas, mais originais e, principalmente, mais bem escritas do que estas parcas que já há tanto tempo eu leio e releio. Sei que também que existem outros pronomes além da primeira pessoa do singular, mas falta um descentramento que me permita o mergulho. E falta, mais do que tudo, tomar vergonha na cara junto com o gelo do uísque que até agora sequer pode vir sem coca-cola ou guaraná.

domingo, fevereiro 05, 2012

Rascunho para uma Caroline: Pesquisar ou descobrir?

Eu tô cansada de tanta babaquice, tanta caretice... 
dessa eterna falta do que falar....

Para se ler ao som de Vida louca vida.

Para uma Caroline

O tempo passa a cada minuto. Meu cabelo não é mais o mesmo, a pele, os olhos, a extensão dos músculos - e a juventude é tanta ainda que nem parece. Olhando ninguém diz. Preces antigas aparecem num espelho estranho. Na sua idade eu já era assim e só tenho pra te dizer que mesmo depois que tudo mudar - e tudo vai mudar, e como vai com direito a exclamação seca - nada muda. As angústias, desesperos, vazios, loucuras não são diluíveis em álcool, fumaça, diplomas ou mesmo tintas de caneta. Não importa o quanto você pire ou encarete; não importa quantas vezes você vai se apaixonar ou quebrar a cara; não importa o quanto você pode ficar orgulhosa de si mesma ou o quanto pode se arrepender contemplando os próprios fracassos e olheiras no espelho. Não importa se você vai escolher certo ou errado, se nós já bem sabemos que apenas a tristeza consegue ser assim tão exata. No fim das contas é só a procura que vale. Não tem a ver com os cem caminhos versus os outros noventa e nove, a vida tem muito mais curvas, esquinas, estradas e, como você já deve ter percebido, ninguém dá nenhum mapa, tutorial, ma-nu-al.

Isso significa dizer que tudo o que eu queria te dizer é que vai sim, vai ser sempre assim - como dizem as músicas e os livros e os poetas: esse vazio ninguém preenche nem tem a obrigação de. A busca desencontrada é só sua, por isso, vá reunindo as poucas coisas e pessoas em que pode se agarrar.

Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve como borboletas que às vezes podem parecer e se transformar em anjos. Esse sangramento que ninguém estanca é o que vai te manter viva quando você achar que não é capaz de. O sangue é seu e ninguém pode ou sabe tocá-lo ou saber o que fazer com ele. Portanto, faça. E se descobrir me conte.

domingo, novembro 20, 2011

Se essa rua, se essa rua fosse minha...


Eu sei que não é fácil. Eu sei que você sabe que eu sei que não é fácil tanto quanto nós sabemos que vai passar mas nem por isso deixamos de repetir o máximo de vezes que dá para ver se passa mais rápido. Às vezes as coisas ficam muito à flor da pele e a gente deixa entrar um ventinho da janela que chega a doer nos poros todos. A dor parece tão funda e parece ainda mais funda porque a gente sabe que, se não tivesse assim tão sensível, não ia ter dor nenhuma. Seria até bom aquele ventinho no rosto.

Queria te dizer que estamos juntas, mas sei que às vezes você só quer ficar sozinha. Queria te dizer que eu queria que as minhas frases não te machucassem e que eu queria que pudéssemos dormir todas as noites. Que essas tais pedras que temos que botar na hora de construir o caminho às vezes são muito pesadas e que eu percebo quando elas machucam os seus dedos, doem nos seus braços e ombros e eu queria que não doessem nunca, ainda mais quando é uma pedra - mesmo uma pedrinha - que você só pega para me ajudar. Vai ver o bom dessas pedras grandes e pesadas é que ajudam a construir a estrada mais rápido, aí quem sabe chega logo a hora de podermos olhar o contorno e ver como há flores e cores e céu e nuvens em formatos estranhos e tantas outras coisas que não são essa estrada.

Eu quero ver e apontar deseducadamente e rir e sentir o sol das coisas com você. Mas enquanto isso, me dá essa pedra, deixa eu segurar desse lado de cá que a gente divide o peso.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Compromissos, birras e frases ríspidas


Não posso negar que tenho o defeito de me sentir injustiçada. Sabe aquela mania que a maioria dos seres humanos têm de se encerrarem dentro de seus casulos cinzas achando que os seus problemas são os maiores do mundo? Então... Acho que eu passo uma boa parte do meu tempo enxergando moinhos enormes que não me deixam dar sequer um passo de tanto medo. Eu posso até saber que existem sofrimentos muito mais graves, mas, por mais que eu me solidarize com a dor do outro, não tem jeito, é só a minha que dói na minha própria pele. E dói bastante, bem mais fundo que a pele até. Às vezes dói no estômago, noutras ardes nos olhos insones, nas pernas esticadas ou dobradas, a depender das circunstâncias, por mais tempo do que deviam e queriam. Há os momentos de doer nos braços e nos ombros o peso; além das mãos, a escrita infindável (quem falou que escrever não é trabalho braçal nunca teve de dar aula escrevendo no quadro por um dia inteiro). Da cabeça não se fala, a falta de sono, a visão que parece diminuir a cada dia ignorando a minha aparente juventude.

Doem as contas, os prazos, as cobranças, as datas, as horas que passam, os passarinhos que começam a cantar, desaforados e lindos, antes que eu durma, o sol que nasce agredindo, de novo, os pobres e exaustos olhos. Dói a minha ausência de mim, das pessoas que amo e que pouco vejo nascerem, crescerem, envelhecerem. São dores pequenas que se somam e que eu sei que são pequenas e minhas. Não saem das minhas paredes, não são despejadas em cima de ninguém. Não se convertem em lamúrias para amigos - dos quais prefiro mesmo me afastar para não ficar uma pessoa chata e lamurienta. Daí que vem a outra dor, a da incompreensão.

Uma das coisas de que não gosto na vida é quando colocam o lazer na esfera da obrigação. Sabe quando você marca de ir à praia num lindo domingo de janeiro e reclamam da sua meia hora de atraso? Este é só um exemplo, pois nunca tive o hábito de me atrasar. Me entristece que as pessoas criem ainda mais causos e sofrimentos pelas minhas ausências, transformem-nas em ainda mais cobranças como se fosse porque eu gosto que fico noites em claro trabalhando, como se eu amasse trabalhar aos sábados e ter ainda uma vida para resolver no domingo, antes que chegue a segunda-feira e atropele o tempo, criando mais bolas de neve insolúveis.

Dois mil e onze tem sido um ano difícil, de muitas (in)definições que eu espero que passem junto com o calendário. Muitos abismos e poços cujo limo já entranhou na minha pele de um jeito que eu nem sei quantas águas de janeiro serão necessárias para limpar. Mas tenho fé e boas esponjas de banho. O que eu não preciso é de pessoas que agravem mais do que eu os meus problemas. Pessoas que criem cobranças dentro das cobranças quando o papel de amigos poderia (poderia, apenas, pois não acho que ninguém deva nada a ninguém na vida) ser acompanhado de compreensão, apoio, afeto, sei lá, essas coisas que a gente diz em cartas da adolescência e depois ficam perdidas em gavetas antigas. Essas coisas que a gente vai deixando de ser e nem percebe. Quando vê sobram só compromissos, birras e frases ríspidas.


quarta-feira, agosto 31, 2011

Deu vontade de escrever alguma coisa séria. Mas é que eu tenho preguiça. Tanta preguiça quanto se pode ter às duas e meia da manhã, depois de ter dado aulas durante toda a tarde e preparado aulas durante toda a noite. Pode ser que seja só cansaço misturado ao hábito de ser muito dura comigo mesma. Às vezes eu sou.

Sou quando acho que todas as coisas são grandes e eu não posso transformá-las em pequenas e simples. Sou quando me recuso a ser uma pessoa comum, que simplesmente faz as coisas e vive os dias - tento me convencer de que tudo precisa ter uma razão maior, um sentimento mais fundo. Um egocentrismo mal trabalhado? Talvez.

Mal trabalhado e mal resolvido porque me faz remoer por eras os pequenos detalhes e deixar sempre o mais importante para quando as forças - e o saco, a paciência - já se exauriram. Tudo termina capenga, pela metade, ou não termina mesmo. Transformo as coisas em grandes dramas, pinto de dramas épicos detalhes pelos quais todo mundo passa na vida. Todo mundo passa, sobrevive e parece que nem dói.

O problema pra mim é esse. Para mim sempre dói. Nunca é tão simples. E sempre é cheio de palavras como sempre, nunca. Como uma descrição de uma criança de quatro anos de idade.

Acontece que a paciência acabou até para a explicação cotidiana de que tudo (olha ela aí de novo) se resume ao fato de que eu sou uma criança mimada. Acontece que tudo não existe, nem fato - e se espremer muito, nem explicação, eu ou existir.

sexta-feira, junho 17, 2011

Pouca disposição para as coisas pragmáticas. Mergulhada num êxtase estranho e completamente fictício. Ficção é bom. Mas fica faltando uma questão de honestidade básica, questão de não admitir os limites. O problema não está no que se quer comer, o problema está sempre na fome. Essa fome de vida que não cessa e não adianta tentar que não se traduz em palavras, não tem como simplificar, não tem como virar a cabeça para o outro lado ou lidar de outro jeito. A vida é agora, aprende.

O diabo dessa vida não é que entre cem caminhos diferentes nós temos de escolher um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. O diabo dessa vida é que há coisas sobre nós mesmos que a gente não escolhe. Há-que admitir que nem sempre a escolha é possível. Só podemos controlar a maneira como lidaremos com esse imutável. O desejo é inexorável. O não-desejo também. Há-que ter coragem para enfiar a unha na garganta. Angústia maior do que a de estar encruzilhado numa esquina sem rumo é admitir que não há rumo. Há uma questão de ser o que se é, pois abdicar da vida ainda não é opção. "Tem umas coisas que a gente vai deixando de ser, vai deixando de ser e nem percebe".

quinta-feira, maio 05, 2011

"Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende?" (continuação do conto Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu, presente no livro O ovo apunhalado).

terça-feira, abril 26, 2011

Diário de um prisioneiro

Às oito eles desligam o ar condicionado. Às luzes ficam acesas até no máximo 21h15. Já é difícil respirar o mesmo ar daqueles que vemos, perceber que eles têm a mesma cara de desespero do nosso rosto. A angústia de não ter um espelho revira-se de um jeito estranho, dá vontade de não ter nenhum tipo de reflexo, melhor o vazio do que o reconhecimento justo na parte que não queremos admitir de nós mesmos. Ser plural já é bem ruim.

Quando a luz se apaga a angústia maior é a de respirar o mesmo ar daqueles que não vemos. Imaginamos apenas os olhares desesperados uns dos outros. Procuramos o branco dos olhos, a referência de desenho animado sem encontrar nada além das respirações entrecortadas, ofegantes, passando entre si goles de ar feito brincadeira de telefone sem fio.

domingo, dezembro 12, 2010

Inacabado

Era para não ter sobrevivido, mas com o tempo a gente aprende que dá para superar até a falta de tempo. Em algumas situações desistir é o que equivale a fazer o melhor possível. O mantra mais besta, a gente faz os maiores problemas, mas tem hora que uma boa música e uma contagem mais longa dão o saldo positivo do mar vermelho - ele não se abre e eu continuo sem aprender a nadar.

Um passo de cada vez até o cadafalso. Ainda que fique para o próximo inverno, se acelerar muito posso não conseguir pisar no freio depois - e sem nenhuma vontade de aprender a dirigir, vai que cai uma chuva daquelas um dia desses... Quando o desespero vira uma constante, a gente aprende a viver com ele também. Mas não é como um dragão que a gente alimenta com a nossa magia, é um moinho. E se ele triturar os meus sonhos mais mesquinhos, hão de ficar outros com algum valor a mais.

Que bom que ainda é cedo, por mais tarde que seja. Que bom que existem muitas temporalidades e pode ser uma opção de vida, além de teórico-metodológica escolher com a qual trabalhar. Esquece o curto, antes que exploda.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Meta-

Eu e muitas outras pessoas ficamos impactados com o trailer de "Do começo ao fim" e apostamos todas as nossas fichas de todas as cores nesse filme. Não vou dizer que foi uma decepção, até porque já decidi que não vou guardar recortes de produtos para vender ou pifar.

A eleição passou e talvez a paz volte a reinar em nossos corações - o caos habitual vai continuar por aí e a tendência é sempre piorar.

Eu digo frases sem sentido, mas sempre tive a impressão de que se acertasse o tom pareceria inteligente. Eu nunca fui muito inteligente e é a primeira vez na vida que preciso esperar a máquina de lavar para poder dormir. Gosto de primeiras vezes. Sei que ainda há muitas por aí pela frente.

Verborragia é uma palavra que me atrai, mas o tempo vai passando e o cansaço da escrita não é mais só por causa da dor que causa colocar o dedo na ferida, tem um nódulo no ombro, a coluna vai curvando e até os dedos doem quando fazem esse barulho já não tão rápido mas ainda um pouco firme. Nunca enxergo o que escrevo. Nunca leio o que escrevo. Não gosto. Causa uma vaidade concomitante à necessidade latente de reescrever e eu sou péssima em reescrever. Sou péssima em repetir qualquer coisa: frase, gesto. Toda vez que vou contar uma história, na segunda vez já não sei medir o que estou inventando. Sou péssima para refazer.

Característica imperdoável para um ser humano.

Outro motivo pelo qual não posso reler as coisas que escrevo é que decoro. Sim, em paralelo ao total destalento para repetir, tenho uma espécie de tara por decorar os trechos. Recitaria textos inteiros agora, mas vocês pensariam que é control-vê porque não tem como saber.

Não faz sentido? Experimente decorar o texto que você acha mais bonito do mundo. Vai, chafurda, pode ser a citação mais profunda, inteligente, megalomaníaca. Escolheu? Agora decore e repita dez vezes todos os dias, module o tom e a voz de acordo com a necessidade.

Deixe passar vinte e um dias e me responda.

sábado, outubro 02, 2010

Capítulo Sete - Atrás da porta

Aguentou por algum tempo até perceber que dava na mesma. Acordar, fazer o café, lavar a louça do café, arrumar as camas, varrer o chão, passar pano, fazer o almoço, servir o almoço, lavar a louça do almoço, tirar o pó, lavar a roupa, estender a roupa, recolher a roupa, passar a roupa. Mas o pior de tudo era escutar os lamentos de uma esposa perfeita, com sua vida pequena de quem não tinha com o que ocupar o tempo já que tinha uma cunhada para fazer de escrava.

Um dia percebeu que sentia saudades de se vestir demoradamente para as noites de promiscuidade na pensão da Dona. Pegou as meias já meio desfiadas que guardara numa caixa, junto com aquela par de sapatos pretos, saltos finos e pontas já meio puídas. Um dia pegou aquele vestido florido, de tecido macio e que rodava ao redor do seu corpo quando andava. Lúcia lembrou como era sentir-se bonita. Alguém bateu na porta do seu quartinho nos fundos da cozinha. Era Joelmo pedindo que pegasse copos e uma garrafa de cachaça na venda, que a ocasião era para festa pois ele ia ter um filho.

Lúcia aproveitou que já estava vestida, deu uma resposta de consentimento e mais uma vez reuniu suas poucas coisas para mais uma empreitada sem rumo.


quarta-feira, setembro 22, 2010

Capítulo Seis - Revivências

Joelmo estava com uma expressão lívida que Lúcia não soube interpretar como felicidade. No fim das contas ele não viera trazer um grande sofrimento, apenas a notícia de que casara e que agora Lúcia podia morar com ele se quisesse. Seria bem-vinda e Maryara adoraria a presença dela, se viesse. Joelmo tinha um grande medo de que seu plano não desse certo e a presença de Lúcia era um tipo de segurança bastante peculiar naquele momento.

Lúcia não queria reviver os excessos de intimidade que experimentara com seu irmão, mas por outro lado, a companhia de Maryara lhe parecia um bom futuro a seguir. Dona Carmem lhe olhava mais feio a cada dia e não gostava nem confiava naqueles clientes tão cheios de pelos e manias. Uma casa onde se refugiar não pareceu má ideia.

Não conseguiu pensar se estaria atrapalhando a vida do recente casal. Enxergou uma maneira de se ver longe de suas habituais angústias. Não parecia possível um sofrimento maior. Foi. Joelmo sempre fora um bom irmão e lhe valia a esperança de ainda estar longe de tudo o que não queria ver - nem reviver.

terça-feira, setembro 21, 2010

Capítulo Cinco - Envelope lacrado

Depois de um tempo, Lúcia já não abria as cartas de seu irmão. Era suficiente para ela saber que as coisas e pessoas estavam no mesmo lugar, faziam as mesmas coisas, tinham os mesmos problemas. Uma espécie de conforto residia em ter sua solidão inteira para degustar junto com todos os seus problemas novos e insolúveis.

É claro que um grande bocado do motivo de ter acumulado aquele montante de envelopes lacrados tinha a ver com a recusa de possíveis novidades. Não suportaria nem mesmo saber que Dario pudesse ter um grande problema, não conseguiria aguentar uma compaixão por ele no estado em que se encontrava. Ademais, não tinha interesse nenhum em ler que se formava um rótulo de felicidade em volta dele e de Marliana, que planejavam um bebê para o próximo ano, que ela havia parado com as faxinas para se dedicar ao lar. Não precisava que essas coisas ficassem ainda mais reais e constantes em sua cabeça. Não lia nem telefonava. O irmão não tinha o número da pensão, não corria maiores riscos.

Ou assim imaginava até a noite de ventos gelados em que a Dona da pensão bateu na porta enquanto se maquiava para mais uma noite. A Dona disse que tinha um homem esperando lá embaixo, que não era hora ainda, onde ela pensava que estava. O coração de Lúcia bateu como se tivesse a mesma ingenuidade de antes e o corpo cansado desceu o mais rápido que pode sem atentar a nada no que dizia a velha senhora.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Capítulo Quatro

Lúcia não gostava das noites, não gostava quando uma certa penumbra a impedia de distinguir as pessoas, as cores, os lugares. Quando se vestia, escondida sob uma maquiagem pesada e colorida que não gostava nem de olhar no espelho, não tropeçava nem perdia o caminho de volta, mas ninguém imaginava a cegueira que tinha naquelas noites.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Capítulo 3 - Três

Poderia ser uma letra de tango com palavras totalizantes, mas o que Lúcia vivia embalada por músicas da jovem guarda e nos momentos de maior sofrimento repetia os versos "pobre menina, não tem ninguém". Naquele quarto pequeno da pensão de Dona Carmem, gostaria de ter versos buarqueanos para embalar suas lágrimas noturnas, mas quando os homens cuja soma não fizera gozavam de pressa e saíam cheirando a gim, não tinha nem mesmo essas palavras para narrar o momento para si. O costumeiro inenarrável era para ela um constante desespero.

Recebia cartas constantemente, de seu irmão e de outros tantos admiradores que já não podiam visitá-la. Guardava todas numa mesma caixa e quando a solidão parecia maior do que o suportável acostumava-se a ler nas entrelinhas uma paixão que não havia, um amor que ninguém jamais sentira por ela.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Capítulo 2 - "Concreto e asfalto"

Carregando umas poucas coisas numa sacola e muitas outras no estômago e até no ventre. A primeira porta em que ousou bater foi a segunda cujo estampido do fechar não quis ouvir. Dario nem mesmo estava em casa e, sua mãe, sempre tão amável e simpática, ofereceu um dinheiro suficiente para que Lúcia não esperasse para assistir à cerimônia do casamento dali a dois meses e se livrasse de pelo menos um dos pesos que carregava dentro de si. Quando a notícia do ma-tri-mô-nio enfim concretizado chegou - através de uma carta de seu irmão -, Lúcia já tinha até um casa onde receber uma carta. Tinha também um travesseiro onde esconder o rosto para chorar todas as habituais últimas lágrimas de sua vida. Na carta, seu irmão dizia que a festa tinha sido bonita e quase toda a cidade estivera presente. Lúcia sentiu uma ausência enorme naquela cidade de presença inestimável em que agora vivia. Respirou fundo para conter as lágrimas, sentindo a fumaça e a poeira inebriarem as partes do seu dentro cada dia mais pesado.

terça-feira, setembro 14, 2010

Capítulo 1 - A menina má

Lúcia era uma menina doce até o dia em que ficou amarga. Saiu de casa aos quinze anos sem olhar para trás nem quando sua cabeça foi obrigada a voltar-se naquela direção com o impacto do tapa. Não chegou a saber se saiu expulsa ou em fuga. Dali em diante enfrentaria todos os clichês que uma Vida dura-e-amarga podia lhe oferecer. Ela estava pronta, sua pele jovem ansiava por todos os tipos de arrepio.