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quarta-feira, abril 11, 2012

Trascurare

Para ler ao som de E poi? de Giorgia

E depois? Depois que aquele um já chegou, depois que já escarnecemos juntos tudo o que podíamos de uma roda em que a gente já entrou, já saiu, já rodopiou, já vomitou junto lá de cima, já entrou escondida sem pagar o ingresso, já deixou de ir porque não tinha dinheiro, já ficou olhando de cara cheia todo mundo que roda sem fim, já ficou olhando de cara feia, já escreveu artigos criticando quem roda, já ficou tonta e pensou que talvez as coisas não sejam tão cíclicas nem tão metafóricas nem tão literais assim. Faz o quê? Depois que nos conquistamos, nos vimos, nos perdemos, nos machucamos, nos confundimos entre objetos diretos, verbos pronominais ou reflexivos. Depois que já falamos outras línguas, já nos xingamos e nos amamos em dialetos incompreensíveis, já nos entendemos em silêncio, já nos desentendemos com um milhão de palavras. Depois que o gelo derreteu, que o disco já terminou e fica aquele barulho da agulha enganchada. Depois que você já cansou de me ouvir tentando criar referências de coisas que eu nunca vivi. Depois que eu já nem me lembro como funciona um vitrola e também ainda não sei como se mexe nos icoisas da vida. Depois que você já cansou de saber que eu sou perdida na vida, perdida no mundo às três da manhã ou às duas da tarde. Depois que esse ar de angústia perdeu a graça, depois que meu cigarro de não fumante já não passa de uma cena repetida, sem graça e incompatível com a saúde e com o bolso. Depois que a gente já mandou para a puta que pariu a saúde, o cheque especial, a moral burguesa, a roda, as cobranças, os rótulos. Depois que a gente aprendeu que o bom de fumar charuto é sim não precisar tragar. Depois que a gente descobriu a calma que dá um cigarro mentolado acompanhado de uma xícara de café correto. Depois que a gente já aprendeu um montão de pequenos prazeres e perdeu os grandes. Depois que a gente ficou assim meio dependente, que a gente não sabe andar na rua se não tiver uma mão em que segurar. Depois que a gente perdeu as medidas, as fronteiras, as etiquetas, a definição de onde se guardam as senhas e como se fecham as gavetas. Depois que o seu sapato não pisa no meu, mas os meus pés estão com suas meias, seu cabelo com meu corte, seu desespero com as minhas frases feitas. Depois que a gente já passou do tempo da crise, depois que as estruturas caíram em desuso, depois que os  rótulos das garrafas de cerveja-conhaque-uísque, depois que todos os rótulos já foram meio destruídos com aquele gesto besta de retirar o papel já sem cola e tentar usar para identificar um copo. Ainda assim, a gente troca os copos, mistura as bebidas para além dos brindes. Apesar de tudo, a gente sabe que não tem ninguém tentando envenenar ninguém.

Depois que você já decorou todas as frases que eu já esqueci. Depois que nenhum vizinho suporta mais ouvir as mesmas músicas, em madrugadas cada vez mais iguais - álcool, gelo, choro e uma tentativa de sentir alguma coisa, qualquer coisa que possa, antes de acordar alguém, nos ajudar a dormir tranquilas.

Depois passa o plural. Deixa de existir o "a gente" e perde-se o risco de equivocar alguma concordância. Depois eu vou dormir tranquila, você vai escrever tranquila. Depois que separar as roupas, os livros, as músicas, depois que soubermos o que há de indissolúvel na mistura, depois que eu descobrir enfim o que sobrou de mim que ainda me seduz. Depois que eu souber ser sem ser através de frases feitas. Depois que eu me reencontrar em palavras, em cores, em desabafos e angústias.

Depois que eu souber a função sintática da palavra depois. Que eu dominar a historiografia da saúde e da ciência. Depois que você souber definir seus conceitos. Quem sabe um dia eu te ligue para saber onde você está, quem sabe você estará disponível, quem sabe eu saberei te explicar o que eu queria mesmo em frases audíveis ou escrevíveis. Talvez você nem tenha mais tempo para ouvir, talvez você não queira mais ouvir. Talvez você simplesmente esteja em outra cidade, outro estado, outro país. Talvez a gente tenha que esperar um tempo para se reencontrar. Talvez seja amanhã, talvez demore muito tempo. Talvez a gente nunca saiba.

terça-feira, outubro 26, 2010

Paredes amarelas

No meu último dia de aula do ensino médio eu senti toda a desproteção do mundo que me esperava do lado de fora das paredes amarelas. A frase é muito forte, mas não é nada disso. Eu não consigo me lembrar detalhes do meu exato último dia de aula - e acho que isso não tem muita importância, já que me lembro bem de muitos dos dias percorridos nos meus sete anos de Colégio Pedro II.

Uma coisa que me lembro bem é que o significado de proteção que o colégio tinha para mim sempre esteve simbolizado nas paredes amarelas e seus furinhos estranhos por onde alguns alunos teimavam passar. As pessoas sempre me diziam em tom apavorante que o mundo aqui de fora era muito maior e que eu ía sair amputada. Eu, como boa discípula da metáfora da terceira perna, adorava essa pinta de adolescente desprotegida e disposta a enfrentar um mundo grandão fazendo aquela cara de filhote de gato.

Sobre o tamanho do mundo não tinha nenhuma mentira, mas não me disseram que a ausência das paredes era uma espécie saborosa de algo parecido com liberdade. Que do lado de fora a gente podia tomar café na hora do recreio, usar meias coloridas e colocar um boné na cabeça se desse vontade. O mundo é mesmo enorme e as possibilidades da vida muito mais infinitas que uma prova de vestibular - só fui perceber isso depois de quase terminar a faculdade e conhecer mais de perto esse mundo dos cursinhos.

As paredes amarelas? Bem, elas continuaram sendo um recanto adocicado da minha memória, um travesseiro quente onde se agarrar nas noites de solidão e desespero do futuro - quando não resta outra saída senão (opa!) olhar pro passado.

E foi buscando esse refúgio que acordei no dia da festa setembrina do colégio pensando única e exclusivamente que veria as minhas paredes amarelas. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com uma tinta verde-meleca-depressiva. A mesma falta de chão - ou de parede - de quando tive de passar por aqueles portões com ares de definição. Ainda devo ter em algum lugar o papel que me diz que, além de bacharel em ciências e letras, eu também não sou mais uma criança com direito a chorar por qualquer tropeço.

Isso ficou na minha cabeça por algum tempo, até a data recente em que cheguei na faculdade e me deparei com um amarelo indeciso sobre as paredes antes de um branco habitualmente incardido. Entrei em paradoxo e comecei a repensar todos os meus simbolismos e dependências e amarras visuais.

Sem nenhuma conclusão, fico com esse meu medinho-gigante de perder as amarras de novo e ganhar o tal atestado de adulto, mas isso é papo para o ano que vem...

quinta-feira, julho 22, 2010

Ainda membro

Alguma coisa, algum dia, teve que surgir do nada. Mas nada vai embora do nada. As tais das rupturas continuadas a que tanto nos apegamos. É um processo de mudanças e continuidades. Não adiantou dar todos os passos para frente de uma vez só. Correndo a gente cai e pode ter um abismo embaixo - que não se viu porque olhar só pra frente dá nisso.
Segurei antes de cair apenas. Abrir mão e admitir que não é possível romper consigo é quase heróico para quem precisa acreditar em heroísmo. Nunca acreditei em nada, mas nos últimos tempos tenho me agarrado a muitas coisas para não cair. Estava à beira do precipício mesmo e era a única coisa que enxergava como opção a fazer.
O problema é que quando a gente se segura por vários lados, é como se estivesse amarrado - e nem por isso deixa de estar sobre um tal abismo. Soltar uma das pontas foi quase como serrar a sangue frio a própria perna - a terceira, é claro, essa que a gente arranca, amputa, corta e sempre volta a nascer.
Eu já sabia que a gente nascia muitas vezes na vida. Mas assim em partes, assim tão esquartejada, assim brigando para não ter esse membro daninho, danoso ligado a mim. Cortei a tal da perna a sangue frio e sem anestesia. Enquanto via o sangue escorrendo e a carne se rasgando, esperei pacientemente a sensação de alívio chegar. Como quando a comida é pouca e você espera que sacie.
Respirei calmamente enquanto olhava. Era para ter outro rumo. Era para ser outra coisa, mas quando olhou o tornozelo amarrado por uma corrente escura, não era o da perna sangrenta e caída no chão. Estava presa por todos os lados. Era dessas pessoas que não tinham para onde fugir e por isso precisavam se esconder. Encarou a perna solta sem raiva, com uma certa resignação.