Páginas

Mostrando postagens com marcador Giorgia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Giorgia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, outubro 16, 2012

Automodelação

Ao som de Girasole (Giorgia).

Na literatura é abolir o eu, na vida real é a medição. As datas nunca estão certas, mas desde que há essa vontade de poesia já se vão sete anos. Dizem que esse é o tempo necessário para que todas as células invisíveis do corpo já sejam outras (as visíveis também). Já são outros os cenários. É outra a pele que já escolheu outras datas para ser trocada; a voz, os cabelos e os amores já foram tantos nesse meio tempo. Acabou o colégio no meio desses versos desabafados e afobados. Foi uma faculdade inteira e agora um mestrado de palavras que fogem de outros papéis e de outras histórias para transbordar aqui no eterno refúgio das horas loucas. Não teria como percorrer hoje o percurso redundante de cada uma das células invisíveis, dá pra percorrer palavras - e mesmo os silêncios.

Alguns eternos retornos pegam assim pelo pé e me fazem ver que de repente alguma coisa transcende as tais células que se foram pelo ralo do banho ou na lâmina da faca. Há muitas promessas e muita vontade de vida que a gente vê em tantos textos mal feitos, tantos versos mal rimados e tantas palavras escolhidas na pressa. A boneca já mudou muito de corpo, cor e roupa. O nome já deixou e recobrou os sentidos algumas vezes.

Há fontes falidas de inspiração que se espalham por essas páginas. Alguns versos escritos pra um ou uma que foram depois canalhamente usados para outros e outras. Tem um monte de gente e um monte de personagens que eu invento pra me acompanhar. Vou enchendo a casa pra ver se me sinto. Mas como gente é essa coisa inventada e sem autorização que se transforma em comentários anônimos, em elogios abertos, em leitores atentos e naqueles que sempre querem se reconhecer de alguma maneira - o que fica são os fantasmas. Vão grudando no meu espelho e satisfazendo duplamente os egos, duplos cegos que desconhecem igualmente meus testes e minha cegueira. Vão povoando as horas, preenchendo as noites e, principalmente, as linhas. Desenham círculos frágeis no vento que a gente desmancha com os dedos e mostra no arco dos cílios que está com os olhos abertos para o que vier. 

São personagens de mim mesma que eu invento. Talho em madeira fina as máscaras que bem caberiam no meu próprio rosto. Coloco-lhes à força e depois não só não querem tirar, como também querem que as minhas mãos permaneçam ali coladas à madeira fria e fina, através da qual é possível sentir o calor da minha pele - e também da sua. No fim das contas, sendo boa ou ruim, o que eu quero é poesia.

quarta-feira, abril 11, 2012

Trascurare

Para ler ao som de E poi? de Giorgia

E depois? Depois que aquele um já chegou, depois que já escarnecemos juntos tudo o que podíamos de uma roda em que a gente já entrou, já saiu, já rodopiou, já vomitou junto lá de cima, já entrou escondida sem pagar o ingresso, já deixou de ir porque não tinha dinheiro, já ficou olhando de cara cheia todo mundo que roda sem fim, já ficou olhando de cara feia, já escreveu artigos criticando quem roda, já ficou tonta e pensou que talvez as coisas não sejam tão cíclicas nem tão metafóricas nem tão literais assim. Faz o quê? Depois que nos conquistamos, nos vimos, nos perdemos, nos machucamos, nos confundimos entre objetos diretos, verbos pronominais ou reflexivos. Depois que já falamos outras línguas, já nos xingamos e nos amamos em dialetos incompreensíveis, já nos entendemos em silêncio, já nos desentendemos com um milhão de palavras. Depois que o gelo derreteu, que o disco já terminou e fica aquele barulho da agulha enganchada. Depois que você já cansou de me ouvir tentando criar referências de coisas que eu nunca vivi. Depois que eu já nem me lembro como funciona um vitrola e também ainda não sei como se mexe nos icoisas da vida. Depois que você já cansou de saber que eu sou perdida na vida, perdida no mundo às três da manhã ou às duas da tarde. Depois que esse ar de angústia perdeu a graça, depois que meu cigarro de não fumante já não passa de uma cena repetida, sem graça e incompatível com a saúde e com o bolso. Depois que a gente já mandou para a puta que pariu a saúde, o cheque especial, a moral burguesa, a roda, as cobranças, os rótulos. Depois que a gente aprendeu que o bom de fumar charuto é sim não precisar tragar. Depois que a gente descobriu a calma que dá um cigarro mentolado acompanhado de uma xícara de café correto. Depois que a gente já aprendeu um montão de pequenos prazeres e perdeu os grandes. Depois que a gente ficou assim meio dependente, que a gente não sabe andar na rua se não tiver uma mão em que segurar. Depois que a gente perdeu as medidas, as fronteiras, as etiquetas, a definição de onde se guardam as senhas e como se fecham as gavetas. Depois que o seu sapato não pisa no meu, mas os meus pés estão com suas meias, seu cabelo com meu corte, seu desespero com as minhas frases feitas. Depois que a gente já passou do tempo da crise, depois que as estruturas caíram em desuso, depois que os  rótulos das garrafas de cerveja-conhaque-uísque, depois que todos os rótulos já foram meio destruídos com aquele gesto besta de retirar o papel já sem cola e tentar usar para identificar um copo. Ainda assim, a gente troca os copos, mistura as bebidas para além dos brindes. Apesar de tudo, a gente sabe que não tem ninguém tentando envenenar ninguém.

Depois que você já decorou todas as frases que eu já esqueci. Depois que nenhum vizinho suporta mais ouvir as mesmas músicas, em madrugadas cada vez mais iguais - álcool, gelo, choro e uma tentativa de sentir alguma coisa, qualquer coisa que possa, antes de acordar alguém, nos ajudar a dormir tranquilas.

Depois passa o plural. Deixa de existir o "a gente" e perde-se o risco de equivocar alguma concordância. Depois eu vou dormir tranquila, você vai escrever tranquila. Depois que separar as roupas, os livros, as músicas, depois que soubermos o que há de indissolúvel na mistura, depois que eu descobrir enfim o que sobrou de mim que ainda me seduz. Depois que eu souber ser sem ser através de frases feitas. Depois que eu me reencontrar em palavras, em cores, em desabafos e angústias.

Depois que eu souber a função sintática da palavra depois. Que eu dominar a historiografia da saúde e da ciência. Depois que você souber definir seus conceitos. Quem sabe um dia eu te ligue para saber onde você está, quem sabe você estará disponível, quem sabe eu saberei te explicar o que eu queria mesmo em frases audíveis ou escrevíveis. Talvez você nem tenha mais tempo para ouvir, talvez você não queira mais ouvir. Talvez você simplesmente esteja em outra cidade, outro estado, outro país. Talvez a gente tenha que esperar um tempo para se reencontrar. Talvez seja amanhã, talvez demore muito tempo. Talvez a gente nunca saiba.