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domingo, fevereiro 05, 2012

Rascunho para uma Caroline: Pesquisar ou descobrir?

Eu tô cansada de tanta babaquice, tanta caretice... 
dessa eterna falta do que falar....

Para se ler ao som de Vida louca vida.

Para uma Caroline

O tempo passa a cada minuto. Meu cabelo não é mais o mesmo, a pele, os olhos, a extensão dos músculos - e a juventude é tanta ainda que nem parece. Olhando ninguém diz. Preces antigas aparecem num espelho estranho. Na sua idade eu já era assim e só tenho pra te dizer que mesmo depois que tudo mudar - e tudo vai mudar, e como vai com direito a exclamação seca - nada muda. As angústias, desesperos, vazios, loucuras não são diluíveis em álcool, fumaça, diplomas ou mesmo tintas de caneta. Não importa o quanto você pire ou encarete; não importa quantas vezes você vai se apaixonar ou quebrar a cara; não importa o quanto você pode ficar orgulhosa de si mesma ou o quanto pode se arrepender contemplando os próprios fracassos e olheiras no espelho. Não importa se você vai escolher certo ou errado, se nós já bem sabemos que apenas a tristeza consegue ser assim tão exata. No fim das contas é só a procura que vale. Não tem a ver com os cem caminhos versus os outros noventa e nove, a vida tem muito mais curvas, esquinas, estradas e, como você já deve ter percebido, ninguém dá nenhum mapa, tutorial, ma-nu-al.

Isso significa dizer que tudo o que eu queria te dizer é que vai sim, vai ser sempre assim - como dizem as músicas e os livros e os poetas: esse vazio ninguém preenche nem tem a obrigação de. A busca desencontrada é só sua, por isso, vá reunindo as poucas coisas e pessoas em que pode se agarrar.

Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve como borboletas que às vezes podem parecer e se transformar em anjos. Esse sangramento que ninguém estanca é o que vai te manter viva quando você achar que não é capaz de. O sangue é seu e ninguém pode ou sabe tocá-lo ou saber o que fazer com ele. Portanto, faça. E se descobrir me conte.

domingo, novembro 20, 2011

Se essa rua, se essa rua fosse minha...


Eu sei que não é fácil. Eu sei que você sabe que eu sei que não é fácil tanto quanto nós sabemos que vai passar mas nem por isso deixamos de repetir o máximo de vezes que dá para ver se passa mais rápido. Às vezes as coisas ficam muito à flor da pele e a gente deixa entrar um ventinho da janela que chega a doer nos poros todos. A dor parece tão funda e parece ainda mais funda porque a gente sabe que, se não tivesse assim tão sensível, não ia ter dor nenhuma. Seria até bom aquele ventinho no rosto.

Queria te dizer que estamos juntas, mas sei que às vezes você só quer ficar sozinha. Queria te dizer que eu queria que as minhas frases não te machucassem e que eu queria que pudéssemos dormir todas as noites. Que essas tais pedras que temos que botar na hora de construir o caminho às vezes são muito pesadas e que eu percebo quando elas machucam os seus dedos, doem nos seus braços e ombros e eu queria que não doessem nunca, ainda mais quando é uma pedra - mesmo uma pedrinha - que você só pega para me ajudar. Vai ver o bom dessas pedras grandes e pesadas é que ajudam a construir a estrada mais rápido, aí quem sabe chega logo a hora de podermos olhar o contorno e ver como há flores e cores e céu e nuvens em formatos estranhos e tantas outras coisas que não são essa estrada.

Eu quero ver e apontar deseducadamente e rir e sentir o sol das coisas com você. Mas enquanto isso, me dá essa pedra, deixa eu segurar desse lado de cá que a gente divide o peso.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Compromissos, birras e frases ríspidas


Não posso negar que tenho o defeito de me sentir injustiçada. Sabe aquela mania que a maioria dos seres humanos têm de se encerrarem dentro de seus casulos cinzas achando que os seus problemas são os maiores do mundo? Então... Acho que eu passo uma boa parte do meu tempo enxergando moinhos enormes que não me deixam dar sequer um passo de tanto medo. Eu posso até saber que existem sofrimentos muito mais graves, mas, por mais que eu me solidarize com a dor do outro, não tem jeito, é só a minha que dói na minha própria pele. E dói bastante, bem mais fundo que a pele até. Às vezes dói no estômago, noutras ardes nos olhos insones, nas pernas esticadas ou dobradas, a depender das circunstâncias, por mais tempo do que deviam e queriam. Há os momentos de doer nos braços e nos ombros o peso; além das mãos, a escrita infindável (quem falou que escrever não é trabalho braçal nunca teve de dar aula escrevendo no quadro por um dia inteiro). Da cabeça não se fala, a falta de sono, a visão que parece diminuir a cada dia ignorando a minha aparente juventude.

Doem as contas, os prazos, as cobranças, as datas, as horas que passam, os passarinhos que começam a cantar, desaforados e lindos, antes que eu durma, o sol que nasce agredindo, de novo, os pobres e exaustos olhos. Dói a minha ausência de mim, das pessoas que amo e que pouco vejo nascerem, crescerem, envelhecerem. São dores pequenas que se somam e que eu sei que são pequenas e minhas. Não saem das minhas paredes, não são despejadas em cima de ninguém. Não se convertem em lamúrias para amigos - dos quais prefiro mesmo me afastar para não ficar uma pessoa chata e lamurienta. Daí que vem a outra dor, a da incompreensão.

Uma das coisas de que não gosto na vida é quando colocam o lazer na esfera da obrigação. Sabe quando você marca de ir à praia num lindo domingo de janeiro e reclamam da sua meia hora de atraso? Este é só um exemplo, pois nunca tive o hábito de me atrasar. Me entristece que as pessoas criem ainda mais causos e sofrimentos pelas minhas ausências, transformem-nas em ainda mais cobranças como se fosse porque eu gosto que fico noites em claro trabalhando, como se eu amasse trabalhar aos sábados e ter ainda uma vida para resolver no domingo, antes que chegue a segunda-feira e atropele o tempo, criando mais bolas de neve insolúveis.

Dois mil e onze tem sido um ano difícil, de muitas (in)definições que eu espero que passem junto com o calendário. Muitos abismos e poços cujo limo já entranhou na minha pele de um jeito que eu nem sei quantas águas de janeiro serão necessárias para limpar. Mas tenho fé e boas esponjas de banho. O que eu não preciso é de pessoas que agravem mais do que eu os meus problemas. Pessoas que criem cobranças dentro das cobranças quando o papel de amigos poderia (poderia, apenas, pois não acho que ninguém deva nada a ninguém na vida) ser acompanhado de compreensão, apoio, afeto, sei lá, essas coisas que a gente diz em cartas da adolescência e depois ficam perdidas em gavetas antigas. Essas coisas que a gente vai deixando de ser e nem percebe. Quando vê sobram só compromissos, birras e frases ríspidas.


quinta-feira, setembro 29, 2011


Escrevo só e ando só. Já faz tanto tempo que desaprendi a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. Principalmente a corpórea. Aí eu fico esperando um algo que aconteça dentro ou fora de mim, uma epifania que me dê algum caminho, já que eu não engano ninguém e nem quero enganar. Me afastei de gentes. Não sei mais o cheiro ou a textura que as pessoas têm. Não sei o que vou fazer nem amanhã nem no próximo mês ou no próximo ano. O mar aberto tem ondas revoltas, batem geladas no rosto toda hora, deixam mareada, com vontade de voltar para a terra firme.

Voltar nunca é possível. As metáforas são frágeis. O momento presente é o pedaço frágil de patim cujas fraldas eu sempre esqueço de trocar, ou finjo que esqueço por falta de vontade. Queria uma rotina, uma prisão daquelas com cartão de ponto e tudo, contanto que acabasse bem na hora de ir embora, não fosse junto comigo para os momentos outros, não ficasse martelando o texto para revisar, a aula para terminar, a fonte para pesquisar, a greve para atrapalhar. Segurança e liberdade não podem ser simultâneas.

terça-feira, outubro 26, 2010

Paredes amarelas

No meu último dia de aula do ensino médio eu senti toda a desproteção do mundo que me esperava do lado de fora das paredes amarelas. A frase é muito forte, mas não é nada disso. Eu não consigo me lembrar detalhes do meu exato último dia de aula - e acho que isso não tem muita importância, já que me lembro bem de muitos dos dias percorridos nos meus sete anos de Colégio Pedro II.

Uma coisa que me lembro bem é que o significado de proteção que o colégio tinha para mim sempre esteve simbolizado nas paredes amarelas e seus furinhos estranhos por onde alguns alunos teimavam passar. As pessoas sempre me diziam em tom apavorante que o mundo aqui de fora era muito maior e que eu ía sair amputada. Eu, como boa discípula da metáfora da terceira perna, adorava essa pinta de adolescente desprotegida e disposta a enfrentar um mundo grandão fazendo aquela cara de filhote de gato.

Sobre o tamanho do mundo não tinha nenhuma mentira, mas não me disseram que a ausência das paredes era uma espécie saborosa de algo parecido com liberdade. Que do lado de fora a gente podia tomar café na hora do recreio, usar meias coloridas e colocar um boné na cabeça se desse vontade. O mundo é mesmo enorme e as possibilidades da vida muito mais infinitas que uma prova de vestibular - só fui perceber isso depois de quase terminar a faculdade e conhecer mais de perto esse mundo dos cursinhos.

As paredes amarelas? Bem, elas continuaram sendo um recanto adocicado da minha memória, um travesseiro quente onde se agarrar nas noites de solidão e desespero do futuro - quando não resta outra saída senão (opa!) olhar pro passado.

E foi buscando esse refúgio que acordei no dia da festa setembrina do colégio pensando única e exclusivamente que veria as minhas paredes amarelas. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com uma tinta verde-meleca-depressiva. A mesma falta de chão - ou de parede - de quando tive de passar por aqueles portões com ares de definição. Ainda devo ter em algum lugar o papel que me diz que, além de bacharel em ciências e letras, eu também não sou mais uma criança com direito a chorar por qualquer tropeço.

Isso ficou na minha cabeça por algum tempo, até a data recente em que cheguei na faculdade e me deparei com um amarelo indeciso sobre as paredes antes de um branco habitualmente incardido. Entrei em paradoxo e comecei a repensar todos os meus simbolismos e dependências e amarras visuais.

Sem nenhuma conclusão, fico com esse meu medinho-gigante de perder as amarras de novo e ganhar o tal atestado de adulto, mas isso é papo para o ano que vem...

quarta-feira, setembro 01, 2010

Problemas numéricos

Problema número um: Isso aqui não é um blog. Não sei se é porque eu sou mesmo uma pseudo-intelectual que acha divertido problematizar e relativizar tudo, mas eu nem mesmo sei o que é um blog. O mais próximo de uma definição que eu tenho para blogs é uma espécie de diário público. Isso aqui nunca foi um diário. Não, eu não vou entrar no mérito de tentar descobrir o que é isso-aqui. Rótulos nunca adiantaram para explicar nada. Como já disse antes, o mais próximo que chego a dizer é que isso-aqui que é um repositório, que se diz despretencioso, de escrita. Ou mesmo uma boneca russa com faces múltiplas mas nem tão surpreendentes assim.

Pois bem, se isso não é um blog, não faz sentido nenhum falar do dia do blog, que ninguém sabe o que é, quem criou ou para quê serve. Mas poxa, mesmo com sei lá quantas camadas de cebola na explicação do que esse lugar imaterial representa, tá escrito ali em cima o domínio blogspot. Talvez escrever alguma coisa seja necessário para pelo menos agradecer a esse tal de blogger por me hospedar de graça por cinco anos.

Problema número dois: o blogday foi ontem, né? Então leiam fingindo que vocês não sabem que dia é hoje.

Problema número três: sem saber que dia hoje tudo perde totalmente o sentido, não é? Então deixa pra lá.

Fato é que o fato aconteceu (ó!) e não consegui não pensar no que me fez/faz ficar aqui falando pro além durante tanto tempo. Somos a primeira geração da internet democratizada e mesmo que não tenhamso muitos leitores, a possibilidade de escrever alguma coisa que está disponível para o mundo inteiro é fascinante.

Não sei se é possível registrar o espanto e continuar com a minha habitual pseudo-literariedade. Vai ver estou ficando menos literária mesmo. Será o tal do adultecimento? De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho - que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.