Páginas

Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

terça-feira, maio 21, 2013

Castração

Para ler ao som de O doce e o amargo (Secos & Molhados).

O processo de descastração foi longo. Teve que matar os pais, comendo-os antes. Viveu o luto. Pôs roupa preta, depois a branca de quem reconcilia e busca paz. Podia ser só o luto de alguma cultura oriental que citava com propriedade forjada quando disparava a falar bobagens filosóficas e fundamentalistas nas praças públicas. Vomitou alguns clássicos da literatura, expeliu em diarreia boa parte da teorização sobre a humanidade enquanto sentia crescerem os pelos de seu corpo, as pontas dos caninos e os bigodes tão sensoriais.

O mundo se mede por onde é possível colocar a cabeça, pensava lambendo as próprias genitálias.

Foi necessário emagrecer toda a gordura que sobrava, pois vocês sabem que castração engorda porque não é possível fugir da fome, só transformá-la. Transformou tanto que não não podia simplesmente trocar uma coisa pela outra, elaborar um algo novo. Agora a fome a engolia ampla e a carne dos quadris guardava ao mesmo tempo o apetite do ventre, da boca e da alma, de modo que quando devorava, só sabia fazer inteira. Como um poema do Pessoa, mesmo que não soubesse de qual dos eles. Gozava com o corpo, trinchava a carne e sentia o regozijo da sua alma saciada. Acostumou a chamar de alma essa junção de estômago e vulva. Justo as partes menos humanas e, portanto, pouco passíveis de salvação.

Fato é que desfez e recosturou as trompas que o veterinário lhe arrancara sem dó e com meio comprimido de analgésico humano. Recobrou o vigor e a líbido. A razão não importava. Não era possível nem necessária.

segunda-feira, maio 20, 2013

Prazer

Ela mergulhou no balde de cloro porque queria ver o efeito nocivo que aquilo teria. Queria observar enquanto as roupas manchavam e a pele ressecava sob o líquido nocivo. Ela mergulhou no balde de cloro porque leu a obra completa de Clarice Lispector antes dos dezoito anos e desde então vivia aquela ânsia esquisita de vida. Sofria os sentires por ter escolhido errado na prateleira. Tinham oferecido Rubem Fonseca, Fernando Sabino, Machado e outros tantos e tantos, mas desde o primeiro instante lhe atraíra aquela mulher que devorava baratas, aquele assassino que segurava maçãs, aquela criança que depenava galinhas.

A paixão já era antiga, se é que pode existir paixão que dure, e agora experimentava ápices. Precisava de mergulhos mais fundos, golpes mais dolorosos, precisava desesperadamente sentir algo mais concreto que a libertasse de todo aquele sofrimento metafísico.

Nunca mais história, nunca mais personagem. Uma ou outra citação perdida das canções de Chico Buarque, a prisão da eterna cicatriz de Elis brilhava na pele. Já vivera lutos, mas não sabia viver coisas. Inventava o quanto podia. Como se ainda fosse a mesma criança que arriscava aventuras entre as prateleiras. Sempre e nunca era só sentimento. As palavras grandes a acompanhavam, as dores fundas eram velhas companheiras. Mas a vida, essa que dizem real, palpável, constante. Essa não chegava nunca e era só um sofrimento a mais a espera.

Podia ter tacado fogo nos livros. A opção foi bastante estudada. Contudo, percebeu logo que os trechos decorados ecoariam em sua cabeça até o fim dos dias, atrelados à insegurança de estarem ou não milimetricamente corretos. Só mais um gole do desespero que sabia inútil, sem falar na inabilidade para lidar com esse elemento tão desconhecido (apesar de atraente).

A solução foi mesmo aquele balde. A companheira de quarto tinha feito as compras para a faxina da semana seguinte. A garrafa apetitosa de cloro brilhava no seu verde feio. Cogitou beber, mas não era o simples envenenamento que queria. Ela queria a vida que só arde na pele, que desmancha imagens, mancha roupas e desfaz certezas. Despejou-a inteira de uma vez. Divertiu-se durante os breves instantes em que o líquido se libertou, trocando o verde-feio pelo vermelho-vivo-cliché do balde.

O primeiro pé divertiu-se com a temperatura baixa. O segundo sacolejou de um jeito que o cheiro de seu conteúdo acordou e se espalhou pelo ar. Os cabelos foram mudando de textura conforme a cabeça afundava. Era bom, pensava repetidas vezes enquanto se sentia incapaz de prender a respiração e sentia aos poucos que seu pulmão se enchia. Era bom.

domingo, abril 14, 2013

A compra

Porque o verão começaria em poucos dias; porque a esposa faria uma longa viagem a trabalho; porque com o fim do semestre os dias ficariam folgados; porque desaprendera a divertir-se sozinho; porque a luz que entrava pela janela no final da tarde deixava tudo mole, deprimente, vazio. Por essas razões todas e por nenhuma delas em especial, naquele dia ensolarado de dezembro, decidira comprar um gato. Uma gata, para ser mais preciso. Que não estava disposto a disputar com ninguém o papel de macho dominante da casa.

Não sabia direito como funcionava isso. Cansara de ver contatos compartilhando imagens de animais abandonados nas redes sociais. Cogitou adotar um dos maltrapilhos com semblante amoroso, mas isso o desviaria do objetivo. Seu desejo era comprar uma felina.

Numa dessas  lojas especializadas de shopping, conseguiu a mais felpuda. Uma filhotinha da raça angorá que se divertia com qualquer pedaço de papel que caísse no chão, como faria qualquer gato vira-lata, mas ele não soube por falta de experiência.

Assim funcionava: a cada fim de tarde, quando o sol entrava ameaçador pela janela, enforcando a sala com aquela beleza ímpar, lotando o cômodo bem decorado de solidão, ele esfregava de leve os pés no dorso da gatinha e sentia em retribuição aquele ronronar gratuito de quem também sofre de falta de amor.

Como quem inventa um hobby pra ocupar o tempo, como quem contrata uma garota de programa, como quem escreve, ouve músicas, decora poemas etc. Como qualquer ser humano, ele sofria de falta de amor.

terça-feira, dezembro 04, 2012

Sem Ana, blues

Sabia que um dia chegaria a hora de postar esse conto.

Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma correspondência, a vizinha de cima à procura da gata persa que costumava fugir pela escada, ou mesmo alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava pedir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar - então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés - ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarujá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, tão disponível & natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, irrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.

(em Os dragões não conhecem o paraíso de Caio Fernando Abreu).

sábado, novembro 03, 2012

O dia que não existe

Ao som de Ponto Cego (Cícero).

Na falta de decorar uma única palavra, achei que equivalia substituir por versos e mais versos, contos inteiros que a gente lê para qualquer um antes e depois de uma transa. Sempre o mesmo conto, sempre a mesma angústia na esperança de que alguém a entenda, pegue nas mãos ou simplesmente diga "eu também sinto".

Como isso não acontece, sobra sempre uma repetição a mais para o dia seguinte e a forma de a cada dia, a cada transa, a cada corpo, decorar um verso a mais desse pedaço que desbota os dias, acumula sobre as emoções fortes, oscilantes, bipolares, temerosas de que cheguem afinal a tão já próxima idade da esquizofrenia.

Enquanto fica só nessa ameaça, vou botando versos imperceptíveis, naco pouco de poesia rala misturada entre as trepadas. Nem sempre os elementos se combinam, n'algumas fica parecendo agressão à homogeneidade, quando o gosto nítido de cada elemento se interpõe e impede que saboreie nos cantos da boca o gosto.

Como se eu tivesse desaprendido a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. E eles não percebem os versos que eu uso à guisa de resposta às perguntas que eu não entendo e retribuo docemente com as respostas que eles sequer percebem. Nem você. Nem eu. Nem qualquer pessoa que procure ou ache possível encontrar nexo.


sexta-feira, outubro 19, 2012

No tempo das cartas



Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2012.

Moças,
 
Ontem de madrugada eu fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas e na nostalgia-cliché e sem fundamento que eu sempre tive dele. Imagino que eu pertença à primeira geração que não escreveu cartas, por isso fica essa vontadezinha. Talvez nem seja a primeira, mas deixe-me construir artificialmente a minha importância no mundo. Nessa atitude cotidiana que é a construção da memória, tenho a sensação de que eu passei a infância inteira esperando a minha hora de fazer aquela coisa-de-gente-grande e aí, quando chegaria a minha vez, alguém danou de popularizar o computador e acabou com a minha festa. Quase como quando eu era mais nova, via as minhas irmãs vivenciando coisas e esperava ansiosa a minha vez para dar de cara no conhecido muro da frustração - como quando eu esperei que chegasse a minha vez de encenar Calabar na escola e aí veio a Gota d'água* no lugar...

Voltando às cartas, eu até tentei. Algumas pessoas tentaram comigo, fizemos projetos, planos, escrevemos algumas bem artificiais. Teve até o tempo de tentar adaptar essa vontade louca e anacrônica aos novos tempos, mas não adianta, emails são frios. E ontem à noite, quando fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas, teci algumas considerações definitivas sobre isso - dessas que a gente tem pouco antes de pegar no sono e que na hora dão uma certeza categórica de que está naquilo a solução para todos os problemas da humanidade.

Na hora, eu pensei que se fosse o tempo das cartas, eu levantaria e batucaria tudo isso na máquina de escrever. Serviu como desculpa para a minha preguiça, mas as constatações sobreviveram à luz da manhã. Fiquei pensando que o legal das cartas é você dizer uma coisa influenciado por uma determinada atmosfera de emoções e ter a certeza de que quando o destinatário ler, já se estará sentindo coisas completamente outras. E aí a pessoa responde de um jeito, porque aquela atmosfera a toca de um jeito e quando a resposta chega você pensa "caramba, eu tava assim tão mal nesse dia para o fulano ficar tão preocupado?", mas você não sabe, porque aquilo que você escreveu não está na sua pasta de enviados. Só a memória mesmo... essa memória que apaga as coisas difíceis de lidar e substitui por outras, coloca infinitas repetições que nos desviam daquilo que é realmente importante. E aí a gente responde que 'tá tudo bem, que não é o caso para tanta preocupação.

Ontem eu tinha destinatários, eu tinha coisas grandes e graves para dizer. Tinha também coisas bobas, comentários vagos e ingênuos sobre filmes e livros, conselhos categóricos sobre a vida, agradecimentos grandes para coisas miúdas e doces. Eu não levantei para escrever, mas eu confiei que um abraço e um beijo transmitido à distância pudesse dizer o valor que tem um pequeno gesto, uma pequena presença que nem é tanta quanto poderia, deveria, quanto a vontade quer. Eu escreveria a vocês que sinto muita falta de ter vocês mais perto, de conversar mais. Isso. Que eu gosto muito de conversar com vocês. Antes de qualquer coisa (não que o afeto seja uma coisa pequena), mas que a amizade pode ser inspirada por muitas coisas diferentes, nesse caso é muito pelas coisas que é possível dizer a vocês e as outras que eu ouço de volta. A escolha do verbo ouvir é pra dizer que se eu tivesse escrito uma carta ontem, ela diria que a sua voz fez falta, ainda mais quando eu soube que sua garganta não ia bem. Cartas têm isso, não é? Preocupações cotidianas, votos de boa saúde, porque a gente nunca sabe como a pessoa vai estar quando receber. Por isso - e por muito mais coisas - deixo os mais profundos desejos de todas as coisas boas.

Quando eu acordei, entendi que toda essa calma, toda essa gratidão e, principalmente, toda essa ludicez vinham da rara sensação de conforto que vocês deixaram ao sair [mesmo que não tenham vindo todos, vocês de alguma forma vieram todos]. Entendi que às vezes, tudo o que eu preciso é de uma boa refeição e um banho quente pra recomeçar a vida.

Obrigada por continuarem no recomeço.







* Calabar e Gota d'água são peças de teatro escritas por Chico Buarque, a primeira em parceria com Ruy Guerra e a segunda com Paulo Pontes.

terça-feira, outubro 16, 2012

As damas da noite recolhem o seu perfume com a luz do dia



"Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada".
(Trecho do conto Dama da noite, de Caio Fernando Abreu).



Podia ter acabado num convite para uma dança do qual ninguém lembraria já que a dança sequer aconteceu. Quer dizer, aconteceu. Aconteceram várias enquanto você observava de longe o movimento que faziam os cachos dos meus cabelos. Não, não era isso. Você observava os movimentos só, sem nem saber ou se importar com quem eu era. A pista rodando e eu rodando junto com uma depois outra e outras tantas de quem também não é possível lembrar. As moças e as músicas.

Você olhava de fora, à margem, a cara cheia de quem diz, "Olha, eu não sei" e oferece um sorriso perambulando entre a doçura e a educação. A vida segue e a roda continua rodando e toda a gente junto, dentro.

Quem olhasse sua cara de fora - digo assim 'quem olhasse', porque eu mesmo não olhei, eu estava dentro, como todo mundo - diria que a sua vontade era rodar junto também, mas as pessoas nunca sabem.


É que ninguém sabe - ou todos sabem e nunca é importante saber - que a vida é a polpa de onde se tira com custo, sangue, suor e pequenos gritos o substrato para a literatura. Essa coisa inútil, impalpável, essa coisa de quem não tem nada de concreto. Eu nunca disse que tinha. E também quem sou eu para me achar li-te-rá-ria? 

A pergunta não era para ser realmente respondida. A vida não era pra ser real. Não era pra ser, entende? Chega um dia em que a gente vira personagem da própria história e aí... e aí não tem jeito que dê jeito. Não tem vida que dê fim.

Quando eu fui atrás de você, no entanto, não era no intuito de encontrar uma brechinha e aprender a tal palavrinha secreta. O que eu queria era te tirar dessa roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar. Queria só quebrar, como se diz?, o pro-to-co-lo.

Eu disse que não sabia rodar misturando feito cachaça e cerveja essas minhas referências que no fim das contas ninguém entende. Enchi o copo e te disse que viver é melhor do que entender, que criticar pode ser melhor do que propor - ou alguma coisa parecida com ou completamente diferente disso. Dissemos coisas porque era preciso dizer, era preciso quebrar o silêncio que se formava com o recolher da música e com o fim dos pretextos e com o vazio que fica na mente quando o que se quer é só apresar as coisas. E falamos essas coisas vagas, vazias, essas frases que a gente encontra para preencher o tempo entre o primeiro copo e a primeira transa. Dissemos, andamos, fomos.

Eu acordei sem saber a que horas você teria saído. Poderia até pensar que foi tudo sonho, mas isso não chegaria a ser um pensamento e sim uma lembrança. Alguns vestígios pelo chão e alguns cheiros ainda presos ao lençol que você mal desforrou me diziam que não.

E não adiantava tudo o que me diziam, não adiantava a cena, não adiantava a música, as coisas no lugar e as tais coisas todas que você disse, que a gente disse. Eram só essas frases que a gente usa para preencher os tempos e espaços que separam a cama do primeiro copo. O meu primeiro havia sido cerveja e o último cachaça. Você parecia ter bebido outras coisas e vindo de outros mundos. Mundos que deixam as portas abertas quando saem e sabem que isso não é um aviso de volta.

Esse nunca mais ficou rodando na cabeça só o tempo que durou a ressaca, como uma melodia fina que se desmancha no ar durante a manhã de segunda-feira.

quinta-feira, outubro 11, 2012

"Por favor, me reconheça"

Ao som de Amor, meu grande amor (Frejat).

Às almas incomunicáveis.


Eu achei que se eu ficasse olhando para a porta você viria. Eu já não sabia dizer há quanto tempo esperava. Não saberia precisar coisas imprecisas como a cor do céu, talvez a tarde já tivesse caído, o sol tivesse baixado. Devia ter uma claridade bonita lá fora, a luz poderia bater como um tapa no meu rosto e desfazer essa expressão desesperada de olhos vidrados na porta.

Já fazia muito tempo que eu estava ali e eu sabia que você não vinha. Talvez tivesse ficado preso no trânsito, quem sabe um acidente ou apenas um desses imprevistos inescapáveis. O celular mudo em minhas mãos sugeria algo mais grave e impeditivo. Se não viesse, eu tinha alguma certeza rasa de que você ligaria, pensei abusando de minha própria credulidade.

Há imprevistos, obstáculos e outras coisas absolutamente contornáveis.

Eu pensava - digo isto por pura força de expressão, posto que não havia uma ponta sequer de racionalidade ali. Se houvesse, eu piscaria lentamente as pálpebras cansadas e me libertaria da tarefa inútil. Repito que não havia nenhum tipo de racionalidade - que talvez você tivesse dificuldade de me ver quando entrasse por aquela mesma porta. Eu poderia parecer imperceptível em meio a tantas pessoas e mesas, por isso me posicionei estrategicamente próximo à porta, meio de frente, meio de lado, pronta para abrir um sorriso quando você chegasse e me visse. Eu queria que você chegasse e me visse. Queria que você visse que eu estava ali esperando durante todo esse tempo com a minha melhor cara de desespero.

Eu tinha um milhão de coisas para dizer e as coisas pareciam querer ser ditas a qualquer preço, mesmo sem você aqui. À essa altura, nem faz sentido dizer que você não apareceu, tamanha a obviedade disso.

Eu olhava aflita a calma das pessoas em volta, engolia em seco puxando de volta ao estômago as frases todas, imaginando se eles percebiam, se eles sentiam no ar ou se era possível ver nos meus olhos. Eu sequer sabia dizer quem eram os tais eles, mas tinha a sensação de que sim, todos viam, percebiam, sentiam no ar o cheiro. Recebia de volta algumas expressões de incompreensão, desprezo, perplexidade, medo. Expressões que não se convertiam em ações mais concretas do que aquele afastamento sutil do corpo ao passar perto da mesa.

Eu amaldiçoava os tempos pós-modernos, os cerceamentos e as repressões nossas de cada dia enquanto alternava o olhar entre a porta e o aviso de proibido fumar. Frases de bonitas paredes francesas percorriam minha mente numa velocidade que eu chamaria de superior à velocidade de luz por pura provocação no vazio. Fato é que eu não tinha meios de mensurá-la, a velocidade da luz.

A vertigem do pecado me percorria os poros e transformava a ansiedade desesperada em ódio. Levantei e saí com a mesma irracionalidade de antes. Cruzei rapidamente a portas dos fundos tentando passar despercebida enquanto você adentrava esbaforido o salão principal, os olhos também desesperados percorrendo as mesas à minha procura.

Na rua, o vento bagunçou meus cabelos, mas não me impediu de acender um cigarro.

sexta-feira, outubro 05, 2012

"Eu já nem sei se eu tô misturando"



Há cansaço. Há a vida que urge e se acumula em dias, em tarefas, em rotina - essa que chega, sempre chega de uma forma ou de outra para alguém dizer em tom controlador que a gente se acostuma a tudo na vida. A gente não se acostuma, mas a gente vai fazendo a vida que quer dentro do que as possibilidades permitem. Rema contra a corrente quando é preciso e deixa a maré carregar quando o balanço do mar é bom.

Caso é que o sono mesmo que chegue guarda na cabeça a lembrança de ontem que quer dizer que conquista é um processo. Que a gente ganha espaços - ou metafóricos e os territórios do corpo mesmo. Vai avançando aos poucos, alargando as fronteiras da pele e ergue uma bandeira. Pode ser uma bandeirinha pequena, uma bandeirinha do arco-íris, no pescoço. Claro, na-linha-em-que-se-encontram-o-pescoço-e-ombro-,-onde-o-cheiro-de-nenhuma-pessoa-é-igual-ao-de-outra. Isso a gente já sabe.

Sabe também que não é conquista no sentido militar do termo. Que no fim aquela bandeira não fica fincada ali. Que não é de ninguém e que também não é só uma curva de pele. Se fosse, já tinham se ido fronteiras infinitamente mais profundas. Tem gente do outro lado da lente e na metade de cá do espelho. Gente que se faz e que se mostra. Eu assisto. E caminho devagar.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Estátua de gesso

Para ler ao som de Não há cabeça.

"Essa tristeza que o amor me deu
É a coisa mais bonita dentro do meu eu".
(Marina Lima)


Em primeiro lugar, pega-se entre as mãos a massa disforme. Bloco sólido, neutro. Quase sem querer a gente esbarra e vê que é possível tocá-lo. Depois que encosta as pontas dos dedos, vê que sai uma eletricidade estranha. Há um tipo desconhecido de ímã que parece pedir que as linhas das mãos percorram toda a sua superfície.

De início ela é impenetrável. Há que lubrificar as mãos e umidificar aos pouquinhos a massa até que ela possa ser moldada, penetrada, modificada – até que vire alguma coisa. Mesmo que a gente não tenha sabido dar um nome, que não tenhamos conseguido transformar numa obra de arte, numa estátua, num enfeite de estante, num bibelô, nem nada disso, dava para ver que do misturar de mãos e massa, do magnetismo, da vontade de transformar dedos e corpos numa única explosão de gozo constante; dava pra ver que de tudo isso se poderia ter feito alguma coisa.

A gente fez a poesia palpável que se mostra em constelações da pele, no tom rosado sob a luz de fim de tarde. A gente até fingiu que tinha mais do que pele, misturou álcool no momento de moldar a massa; a gente colocou algumas cores de outros cenários; a gente tocou partes fundas, desejos irreveláveis, frustrações comuns. A gente viveu versos.

Numa segunda-feira qualquer veio um vento e quebrou a estátua de gesso.


Que nem era gesso, que nem tinha nome, mas que era algo mais maleável como faixas de gaze – espuma branca lavando os pés – que a gente enrola igual a um quase amor de promessas telefônicas. Todo quase amor tem um calcanhar de Aquiles que pode se quebrar de uma hora pra outra mesmo que não seja quebrável. Deixa meia dúzia de versos na cabeça. Ficam cheiros, gostos, gozo, a mesma incompreensão da pele na pele e aquela sensação de que um dia desses, num desses encontros casuais talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Poça d'água


É bom ter conselhos para dar do alto da minha completa falta de bom senso. É fácil dizer que a vida não precisa ser assim, que é claro que tem como, que basta um gesto, um sorriso, que é simples e fácil. Para quem?, mandam perguntar com os punhos cerrando os copos meio cheios de cerveja quente. A mesa é uma ilha cercada de outros passados, outras vidas estouram de diferentes lados sugerindo uma cena de surrealismo de quinta, com pipocas falantes fritando ao redor. Corte brusco, porque precisa produzir as idiotices atuais.

Quando tem tanta esquisitice para não se orgulhar se acumulando sobre as caixas de papelão e restos de isopor. O altruísmo da mais funda falsidade. Um desejo de dizer para quem não faz a menor diferença que, olha, dá sim para ser menos idiota que isso, para ter um pouquinho mais de amor-próprio. Ou pelo menos mais poesia - frase-sussurro para quem nem tem nem sabe onde compra esse dicionário.

Vai dar pra dizer quando a ressaca trouxer aquela amnésia fajuta. Ou quando a minha cara de pau já tiver polida o bastante para dizer deslavadamente que não, não lembro - com direito a despedidas teatrais, teatro de quinta, também não precisa dizer. Quando for possível não querer essas vergonhas de que se orgulhar. Os fracassos bonitos para botar na estante ou só distribuir como conselhos de gente experiente.

Mais uma dose. Mais um gosto. Mais uma página dessas que a gente amassa e joga fora. Uma história dessas que a gente não registra nem conta, mas que um dia alguém recupera para desfazer falsas tentativas de glória interior.

Eu gosto é do estrago. O insosso também vale. Quem disse que o diferente precisa ser bom? Quem disse que a parte boa de escrever pode ser algo além de juntar letras, formar frases, colocar vírgulas e pontos?

Às vezes a gente sai do poço para alçar poças. Afunda dos  pés no esgoto e finge pensar que isso é alguma espécie de evolução - posto que a teleologia acena sempre de algum canto. Saio do poço, piso na poça e sei que não é nada mais do que um cenário diferente.

[Não digo a ninguém que no fundo do poço e na superfície da poça sempre tem um pedaço de mar e um reflexo de céu]

segunda-feira, setembro 24, 2012

Sob esse prisma...

Para Carol e Lissandra.

Para ler ao som de Alívio imediato (Engenheiros do Hawaii).

Será que leitor vira personagem? É que não é qualquer coisa saber que de alguma forma a minha válvula de escape ajuda a escoar angústias outras, pensar que as minhas madrugadas insones povoam as manhãs atarefadas e sufocadas de quem fica longe-perto.

As coisas mudam, as pessoas mudam, átomos se dividem e se esfumaçam em desenhos feitos com a ponta dos dedos no pára-brisa do carro. Os ciclos começam e terminam, as bolhas fazem-se necessárias até o momento em que estouram. É difícil pensar em uma parte só, é difícil observar o quadrado da mesa distorcido em um triângulo, mas a gente precisa aprender a lidar com as novas formas que a vida desenha - que a gente rascunha, esboça e depois fica tentando ajeitar sem cair no cliché dos clichés de que a vida não tem borracha, comparação tão desnecessária para quem sempre se orgulhou de só saber usar caneta.

As lembranças ficam, o desconforto, o não-saber-lidar, as conjugações inapropriadas para os verbos, a curiosidade e a necessidade de entender são inevitáveis. Daqui a um tempo passa, cicatriza, vira piada e quem sabe a mesa não se preenche em risadas leves outra vez? É só uma questão de construir um mundo em que isso caiba.

Sentir-se em casa no mundo é sensação dos tolos, o desconforto - e por que não dizer, o desespero - existe naqueles que sabem que a vida pode ser mais, nos que viram e sentiram na ponta dos poros que a vida pode ser mais do que consentimento. A vida é vontade e a gente segue. Com carinho, respeito ao outro e a si mesmo para ir fazendo cada pedacinho de um mundo que possa ser chamado de nosso. Pode não ser possível implodir esse que nos atira bombas todas as manhãs, nos desampara.

--------------------------------------------------------------------------------------------



Não saberia dizer quanto tempo fazia que estava andando. Os saltos altos, ainda que não fossem muito finos, causavam um desconforto no calcanhar. Nada que parece motivo o suficiente para parar, os outros também não paravam, seguia. A roupa era apertada demais, parecia tornar os passos mais lentos, mas se todos andavam, devia mesmo ser preciso continuar. A maquiagem soava pesada demais àquela hora do dia, oleosa demais para o calor daquela cidade, mas, mais uma vez, ninguém parecia se importar com isso. A impressão que tinha era a de que todos acordavam todos os dias sem sentir todos os incômodos que povoavam sua cabeça com excesso de grampos e fios esticados por excessos de calor. Ninguém parecia perceber. Todos mantinham suas expressões impassíveis, sóbrias, eficientes, imutáveis - e caminhavam. Barulhos ritmados do atrito das solas no chão.

No meio da pressa e vigiada pelo relógio, todas as manhãs ela segue o protocolo, sente a maquiagem que lhe cobre o rosto, as roupas que lhe apertam as pulsações da pele, os saltos que parecem aprisionar seus passos invariavelmente destinados ao mesmo lugar. Ir vir, vestir, despir, bater o cartão, a continência, fazer a ronda, a guarda, a prova, sorrir, preencher, assinar, submeter, anular o que a gente nem sabe porque nunca viu que pode ser diferente até o dia que...

Um dia acordou e repetiu todo o protocolo ensaiado de todos os dias, mas sem querer um grampo escapou dos cabelos, rodopiou fugitivo entre as mãos e foi sugado pela força gravitacional. Como seria o mais lógico a fazer, ela abaixou e olhou para baixo a fim de pegar o objeto. E foi assim: quando parou de andar, quando deixou escapar um detalhe de sua perfeição, quando não seguiu seus passos no mesmo trote de todos os outros, quando afrouxou de leve o pano da roupa para conseguir abaixar, quando pensou em levar a mão à testa para enxugar o suor que se formava da mistura de pós e tintas que lhe cobriam todos os dias o rosto. Ela olhou e descobriu que não havia chão.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Mar!

Ela encostou no meu corpo e disse 'mar'. Não, não foi isso. Ela tocou de leve a minha alma - porque ali, naquele momento, naquela nudez, naquele vento, naquele cenário, só era possível expor almas - e foi a minha que ela tocou quando me pediu que dissesse junto com ela. Eu disse 'mar' da forma mais atrapalhada. Não teve uníssono, nem timbres harmoniosos, teve a palavra nervosa pela fome de ouvir mais palavras.

Eu disse 'corpo' porque nunca saberia dizer qual a parte, posto que meu corpo inteiro estremeceu de um jeito estranho. Pode ter sido um pedaço de cotovelo ou antebraço, ou algumas dessas partes quaisquer que a gente esquece de erotizar - e nem imagina que podem despertar sensações tão gritantes. Meu corpo inteiro sentiu o calor que certamente também era de um corpo inteiro. Fiquei pensando se a alma se divide em partes e se há sensações diferentes quando se toca o dedão-do-pé-da-alma ou o-fundo-do-sexo-da-alma. Eu não sei se existem essas partes, porque, assim como o corpo, ela me tocou a alma inteira.

Me fez imaginar sóis e tardes de praia talhando feito escultura em madeira aquela temperatura que eu senti tão breve. Não só isso, a cor era de sol. Dia de verão em que a pele é assim elaborada durante todo o dia para, ao cair da tarde, refrescar-se em um banho que não diminui a temperatura da pele que já não é sol e sim fôlego de vida. Fôlego efêmero herdado do mergulho-gesto que lava e lavra as almas tão mais imorais do que os corpos. Meu corpo se desfez em ondas metafóricas do mar que você trazia na voz e na garganta. Toque fortuito que é inteiro mar e não só pela palavra que disse - dissemos - e continua gritando que só se abre depois da água no pescoço.

terça-feira, setembro 11, 2012

Entrelaçado

Para ler ao som de Tempo de pipa (Cícero).

"Vamos nos espalhar sem linhas".

Eu não sei como faz para desatar nós e nem sei se é necessário - ou se vale a pena. Há nós apertados, há pronomes pessoais retos tão pessoais e tão plurais que não dá para desfazer assim por qualquer bobagem. Não que futuro seja bobagem, não que projetos completamente diferentes também o sejam, mas é que alguém sempre sai machucado das coisas e preservar tudo no seu devido lugar é sempre a minha maneira de evitar que o sangue respingue em mim quando ainda tem as nem-tão-velhas feridas assim tão mal fechadas.

Quando o nó fica assim muito preso, a gente machuca as unhas e não consegue. Às vezes usa os dentes e parece que só fica tudo mais amarrado.

Sei não... Enquanto os nós não se desmancham, nada impede que nos deixemos levar pelos laços que nossos corpos fazem sozinhos, sem que a gente queira e porque a gente quer.

terça-feira, agosto 28, 2012

Sinal

Para ler ao som de Alazão (Filipe Catto).


Uma questão de colocar o ponto final. Alinhavar com força e precisão o que falta. Tirar do lugar o que juntou poeira por tanto e tanto tempo e que nunca teria se resolvido com o afago de uma flanela umedecida. Linha e agulha em mãos e o medo de furar o dedo guardadinho no peito palpitante que há pouco sangrava. Ele eu também costurei. Fica essa carne vedada e ainda com cheiro de ferida aberta. Dá pra sentir o cheiro de carne fresca no ar, a vermelhidão da pele exibe o quanto ainda é sensível ao toque - despertando uma vontade enorme de encostar com a delicadeza mais firme a ponta dos dedos quentes, de mergulhar nessa dor que na verdade é sen-si-bi-li-da-de.

É que me puxaram a máscara com brutalidade, à guisa de construção narrativa, diria que de-forma-abrupta-e-inesperada. Redundante e falso, como as frases feitas usadas para cumprir o script mais cliché entre os que imaginei que seria o nosso fim. Mas passou, passaram as minhas cenas de drama mexicano e as suas falas de revista de auto-ajuda, passou mais rápido do que pareceria o tempo de rosto lívido depois da máscara que você arrancou e foi junto uma camada inteira de pele. Ficou a descoberta de que existe outra camada de pele debaixo da pele e que quando a gente arranca a primeira, fica aquela segunda que é mais fininha e sente tudo muito mais intenso, muito mais real. O frio e o calor alternam em suores, febres, tremores. É vida o que se desenha na nova volta de círculos descentrados.

A palavra despedida tem rostos de anjos, os cenários que farão falta (e ainda assim estarão perto) têm outros personagens, roteiros mais contundentes e têm aquilo... aquilo que faltava e eu não via, eu tinha esquecido o que era, coisa simples, pequena e tão desejada: ficam espalhadas pelas ruas santas gotas de poesia que derrama de copos, corpos, vozes, sorrisos e palavras.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Laço de fita

Abro pontas que talvez alguém ate. Talvez alguém faça laços, leques. Espalho migalhas que talvez alguém recolha e siga como um conto infantil sem saber que são tirinhas de no máximo quatro quadros. Desenho em nanquim os contornos do cenário, pequenos quadros, curta sequência - assim do jeito ideal para caber nos meus sonhos e na minha capacidade de elaboração literária, que todos sabem que é do tamanho do meu estômago. Faço os limites dos quadros, restrições torpes baseadas em metas rasas, e depois chamo carinhosa e forçosamente de mol-du-ra. Há quem compre a ideia, elogie o trabalho do marceneiro e há os mais prosaicos que, como deve ser, nem reparam nesses detalhes desinteressantes que rodeiam as obras de arte. Vou colocando as minhas próprias dentro. Passando os dedos de olhos fechados para melhor sentir a textura, chegando o rosto bem perto para procurar ainda um cheiro das cores - sabendo que é isso o que importa. Tirando o limo para escorregar mais fácil, mais rápido no caminho desembestado que sempre leva ao chão.

Chão que eu decoro com pedrinhas, que eu povoo com sonhos, livros e poucas coisas cuja graça consiste em escolher junto com meus botões onde cada coisa fica. Por fim, ato sozinha as pontas, faço laços, origamis e junto minhas próprias migalhas com as pontas dos dedos - que bem conhecem os caminhos da boca.

terça-feira, julho 31, 2012

Para se ler ao som de Mergulho.

Bicho ferido fere. Grita, guincha, esperneia e esparrama seu sangue enquanto se debate e lanha ainda mais a pele nas paredes das grades. Quem se debate é afogado, sussurra em seu ouvido uma voz distante, um dos muitos fantasmas que atormentam as madrugadas frias que não cabem nas horas infinitas e nascem em manhãs cálidas, frescas, às vezes até ensolaradas.

Bicho ferido quer arrancar sangue alheio. Ferve os olhos de vingança enquanto observa acuado e imóvel os dedos que mergulham fundo em tuas feridas hemorrágicas. É preciso tempo e solidão para lamber cada uma delas com o devido cuidado. É preciso cicatrizar e esquecer o quanto doeram antes de colocar a cara à tapa.

Bicho ferido quer mesmo é chafurdar na dor e mergulha em qualquer possibilidade de. Gosta de sentir as patas enlameadas em poça de sangue, chapinhadas da lama do poço. Bicho ferido sabe que, se for pra doer, sempre vale estender a outra face. Bicho ferido confraterniza versos bíblicos como se fossem poesia entre copos de cerveja às quatro da manhã de sábado - não sem mesclar o embasbacamento cristão com lembranças de sórdidos pecados.

Bicho ferido quer que lhe lambam o ego, já colocou há tempos tua jaula ensanguentada na vitrine e vez em quando um visitante do zoológico joga um pedaço de fruta. Ele faz piruetas enquanto deseja que não seja banana.

Bicho ferido pode demorar um pouco para perceber que abriram a jaula, pode achar mais confortável ficar um tempo sentado olhando como fica diferente a paisagem sem as grades no caminho. Lambe o sangue do chão antes de levantar para evitar novas quedas. Certifica-se de que aos poucos as feridas fundas, inflamadas, vão criando casca. Ainda dói se um desavisado tocar, isso ainda o fará guinchar de dor, mas já é possível vislumbrar cicatrizes charmosas em seu lugar. Por isso, aos poucos o bicho espreguiça o corpo, estica as patas, fareja a insegurança do terreno e dá os mais pequenos passos até ultrapassar os limites da porta. Dali, uma pequena esticada no pescoço faz com que o vento bata no rosto. Dá aquela ardência da pele ainda em carne viva e junto aquele frescor de saber que toda bofetada nos dá um rosto novo. A passos tímidos rompe as grades e se entrega ao galope veloz e inconsequente de quem só quer dar com a cara no primeiro muro.



quarta-feira, maio 30, 2012

O aprendizado difícil.

O aprendizado é sempre difícil. Há que aprender a juntar-se em partículas extremamente distintas. Misturas nada homogêneas que a gente vai formulando, mudando temperaturas, pressão e as condições normais se fazem até a hora em que fica imprescindível desfazer.

Aí? Aí tem que aprender a separar cada detalhe. Tem que saber ser nas coisas todas mais improváveis. Tem que acordar e abrir os dois olhos sozinha mesmo que a metonímia pareça dissimular a solidão. Há que esticar sem limites os braços sabendo que eles só esbarrarão em felinos ou paredes geladas. (O amor se desfaz um pouco cada vez que você não está perto e depois se refaz em cada pedaço de presença sua). Levantar o peso do corpo ainda quente, mas cuja temperatura acabo desconhecendo por não ter no seu toque um a partir do que medir. Os amigos mais frios recomendarão um termômetro sem saber que não é essa a febre, que não há febre nenhuma. Os passos na longa jornada até o chuveiro não receberão os bons agouros de teu beijo de bom dia, mas não faz diferença porque eu não sei se a palavra agouro pode ser usada para uma coisa boa. Depois de me expulsar de mim, eu posso até achar bom que a temperatura mude, a água um pouco mais fria promete alterar todas e começar um dia mais fresco.

O mais difícil promete vir a seguir, pois a água eu não saberia dizer se ferve sem ti. E aos poucos descubro que é tudo uma questão de a quantos graus se consegue chegar ou o quanto a ebulição consegue transpor filtros, o quanto chega espessa do outro lado. Não saberia dizer se precisaria de leite no meu café, talvez meu estômago procurasse a dor, como costumo fazer quando você não está.

Eu terei só um espelho que nem vai saber me dizer sobre as descombinações das cores ou da liberdade dos fios que você sempre preferiu assim, meticulosamente despenteados.

Eu vou encarar o vento e o ar das ruas e vou me ver ao longe andando sozinha e capaz. O cigarro que você reprova em uma das mãos. Segredos e cadernos possivelmente na outra. Você não vai ver quando eu deixar passar a hora de comer, não vai saber quando eu me sentir feliz de repente por uma música, uma imagem ou qualquer dessas coisas bobas que cruza os nossos descaminhos ao longo dos dias.

Mas e quando essas alegrias efêmeras se dissolverem numa batida de ônibus ou num engarrafamento? Quando a nossa casa ameaçar me engolir? Quando você souber que eu não durmo, não respiro, não acordo, não levanto e nada disso acontece. Que há apenas monstros voadores, coloridos e feras, felinos e dragões que esperam junto comigo a sua chegada. Que só a sua chegada ilumina, traz flores amarelas e uma beleza que não existe lá fora nem em lugar nenhum aqui dentro.

Papilas gustativas
Eu mentalizo mantras enquanto me mato e me arruíno no abismo controverso em que parecem não caber duas felicidades que por muito tempo pareceram ser uma. Você já ganhou o mundo e eu tento pegar caquinhos de vidro cortante para ver se construo o meu. Não quero olhar o seu de cara cheia nem emitir julgamentos caso você decida girar na roda de repente. Se a onda for boa, se não der náusea, torço para que seja bom.

Do meu canto, eu vou desligar o computador, tomar banho, deitar os olhos no teto e ver se faço amizade com os monstros que moram comigo. Eu sei que não é doce, mas é bom variar os sabores, explorar as papilas gustativas. A gente já provou tantos gostos que não imaginou que tivessem esses tantos outros aqui do outro lado. Não dava para exigir que tudo fosse jogado fora e seguíssemos apenas retas paralelas, os caminhos descrevem parábolas, curvas distintas e sempre se encontram, se cruzam, se entrelaçam. E tudo o que se aprende, constrói, experimenta, experiencia, todas as sensações são tipos de prazer.

quinta-feira, março 08, 2012

Mais um dia

Li muitos textos muito bons para pensar o machismo nosso de cada dia. Que pensemos hoje e sempre. Que repensemos os papéis dos gêneros em nossa sociedade. Fiquei meio sem saber o que escrever depois de ler A metáfora perfeita e 08 de março, dia de você repensar seu machismo, fica a recomendação e a tentativa de conto abaixo:

Acordar cedo como de costume. Levantar apressada disfarçando o inchaço dos olhos para o caso de o marido despertar com o barulho de seus passos. Prender o cabelo em um rabo de cavalo para espantar a aparência de quem acabou de acordar. Ir até a cozinha antes mesmo de escovar os dentes. Água para ferver, pó para passar o café, pães na torradeira para o marido, cereais para o do meio, iogurte para o caçula. Antes que tudo estivesse no lugar, as crianças chegam como pequenas tempestades pedindo coisas. O marido com um beijo burocrático, gritaria, correria, leite no chão. Pano e desinfetante no chão. Banho no mais novo, grito com o do meio para que vá logo tomar banho, nó na gravata do marido, uniformes e mochilas dos meninos, lancheiras, tchau com outro beijo burocrático no marido.

Ponto de ônibus cheio de manhã. Olhar tarado de um babaca próximo. Crianças na frente na hora de subir no ônibus. Um homem que dá a vez simulando gentileza e olha para a bunda dela quando sobe no veículo. Ônibus ainda mais lotado que o ponto. Equilibrar crianças, segurar mochilas, evitar contatos físicos indesejados. Descer do ônibus, tentar atravessar no sinal fechado, quase ser atropelada e receber um "quer morrer, vadia?". Dar tchau para as crianças, atravessar a rua de volta, pegar outro ônibus lotado, chegar atrasada no trabalho, receber um olhar de reprovação do chefe, perceber aquele aumento desejado e necessário cada vez mais longe, ligar o computador, acessar o email, receber várias mensagens com flores, imagens maternais e etc. irritantes. Receber um convite do chefe para almoçar, receber uma cantada do chefe, trabalhar o dia todo, ficar exausta, buscar as crianças no colégio, chegar em casa, fazer comida, colocar a roupa para lavar, passar o uniforme das crianças para o dia seguinte, tomar banho, receber uma lingerie do marido como presente e deitar antes que ele queira que ela vista.

Essa é a primeira imagem que aparece no google para a palavra "mulher".

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Conto de verão nº 2: Bandeira Branca (Luis Fernando Veríssimo)

Não é Natal, é Carnaval... e Carnaval sempre me lembra esse conto - ou melhor, me lembra um programa que existia na TVE chamado "Contos da Meia-Noite", se não me engano, era Maria Luiza Mendonça (ou uma atriz que eu confundo com ela) quem lia esse que, sim, é realmente do Veríssimo (o filho):



Ele: tirolês. Ela: odalisca; Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
- Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
- Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse - Até o Carnaval que vem - e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
- O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.


***


No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?
- Você vomitou a alma - disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.

Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse -Píndaro?! - e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi - pelo menos o meu tirolês era autêntico - e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo - não vale, você cresceu mais do que eu - e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.


***


Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse - quase não reconheci você sem fantasias -. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora - preciso te dizer uma coisa -, e ela dissera - no Carnaval que vem, no Carnaval que vem - e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara -
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil - E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...