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quinta-feira, março 08, 2012

Mais um dia

Li muitos textos muito bons para pensar o machismo nosso de cada dia. Que pensemos hoje e sempre. Que repensemos os papéis dos gêneros em nossa sociedade. Fiquei meio sem saber o que escrever depois de ler A metáfora perfeita e 08 de março, dia de você repensar seu machismo, fica a recomendação e a tentativa de conto abaixo:

Acordar cedo como de costume. Levantar apressada disfarçando o inchaço dos olhos para o caso de o marido despertar com o barulho de seus passos. Prender o cabelo em um rabo de cavalo para espantar a aparência de quem acabou de acordar. Ir até a cozinha antes mesmo de escovar os dentes. Água para ferver, pó para passar o café, pães na torradeira para o marido, cereais para o do meio, iogurte para o caçula. Antes que tudo estivesse no lugar, as crianças chegam como pequenas tempestades pedindo coisas. O marido com um beijo burocrático, gritaria, correria, leite no chão. Pano e desinfetante no chão. Banho no mais novo, grito com o do meio para que vá logo tomar banho, nó na gravata do marido, uniformes e mochilas dos meninos, lancheiras, tchau com outro beijo burocrático no marido.

Ponto de ônibus cheio de manhã. Olhar tarado de um babaca próximo. Crianças na frente na hora de subir no ônibus. Um homem que dá a vez simulando gentileza e olha para a bunda dela quando sobe no veículo. Ônibus ainda mais lotado que o ponto. Equilibrar crianças, segurar mochilas, evitar contatos físicos indesejados. Descer do ônibus, tentar atravessar no sinal fechado, quase ser atropelada e receber um "quer morrer, vadia?". Dar tchau para as crianças, atravessar a rua de volta, pegar outro ônibus lotado, chegar atrasada no trabalho, receber um olhar de reprovação do chefe, perceber aquele aumento desejado e necessário cada vez mais longe, ligar o computador, acessar o email, receber várias mensagens com flores, imagens maternais e etc. irritantes. Receber um convite do chefe para almoçar, receber uma cantada do chefe, trabalhar o dia todo, ficar exausta, buscar as crianças no colégio, chegar em casa, fazer comida, colocar a roupa para lavar, passar o uniforme das crianças para o dia seguinte, tomar banho, receber uma lingerie do marido como presente e deitar antes que ele queira que ela vista.

Essa é a primeira imagem que aparece no google para a palavra "mulher".

sábado, dezembro 17, 2011

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Estou há uns seis meses com esse livro em minha companhia com as recomendações de que seria ótimo, uma das obras primas da literatura recente. Tanto que assim que a maré de mil coisas a fazer baixou (e passei para o mestrado! êh!) optei por descansar a minha cabeça lendo o tal livro do Marçal Aquino, cuja foto de capa vocês podem conferir abaixo:


O problema é que depois que se começa a ter senso crítico na vida, isso não se restringe ao que é do âmbito acadêmico, não dá para desligar o botão quando se entra de férias. É bom levantar problemas a respeito das coisas ao invés de tomar tudo como simples deleite descompromissado porque artístico. Aliás, foi isso o que sempre me incomodou no universo das Letras e contribuiu muito para que a balança pesasse mais para o lado da História, um certo ar excessivamente contemplativo e estético que às vezes deixa de lado o contexto e os compromissos inalienáveis que toda obra tem com seu próprio tempo.

Isso tudo para dizer que Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é um livro que até tem seus méritos, mas é extremamente machista. Sabe aquela velha, desgastada e muito difundida imagem da mulher simultaneamente boa esposa e piranha para satisfazer o homem? Pois então... Eu estava lendo com muita boa vontade e curiosidade a trama até uma das primeiras cenas de romance (caso não queira saber detalhes da trama, interrompa sua leitura exatamente aqui, pois vou começar a fazer essa coisa chata, porém, extremamente necessária para dizer o que eu preciso dizer) entre o casal Lavínia e Cauby. A personagem masculina, que narra a história, encaminha-se para abrir a porta para sua amada e no caminho olha desconsertado para a pia cheia de louça com que receberá a visita, "Lavei as mãos na torneira do tanque e, a caminho da sala, passei pela cozinha: louças e talheres sujos se amontoavam na pia" (AQUINO, 2005, p. 34). Até aí tudo bem, né?, o cara tem todo o direito de olhar a sua própria louça. O desagrado iniciou algumas linhas depois e tornou-se completo nas páginas seguintes. 

Continuo com o spoiler: logo ao entrar, Lavínia "deu uma discreta avaliada no caos da pia ao passarmos pela cozinha" (Idem). Nesse momento as minhas sobrancelhas devem ter se retorcido um pouco pelo pressentimento ruim que se confirmou na página 36, quando "Depois de fotografar Zacarias, Lavínia entrou na cozinha e começou a lavar a louça acumulada na pia. Não, não faça isso [Cauby diz]. Eu gosto, ela disse" (AQUINO, 2005, p. 36, grifo, desespero e desgosto meus!!!!). Para fazer o trocadilho besta com o título, para mim, a pior notícia já estava dita.

Vocês vão me perguntar: "por que, então, continuar a leitura?". Não é porque eu gosto de sofrer, é porque eu não podia simplesmente tomar o livro todo por essa manifestação ridícula de misoginia com a clássica compreensão de que lugar de mulher é na cozinha. Não só isso, né?, tem o adendo que nós já ouvimos inúmeras vezes, de que modificar esse papel é ir contra a natureza da mulher, a prova cabal disso é que elas gostam de servir a seus homens, amam as atividades domésticas e nascem com vocação materna. Não larguei porque queria ver até onde isso iria e porque seria pouco justo julgar o livro apenas por essa cena. Vamos então.

Depois que o relacionamento entre Lavínia e Cauby começa a existir de fato, a personalidade da personagem feminina é construída, digo, as duas personalidades o são. O quê? Você não entendeu? Deixa eu explicar: lembra de Lucíola, aquele romance do José de Alencar, lá do século XIX (quando a gente até compreende, mas não aceita!, uma postura mais machista)? É, aquele livro em que a personagem feminina se desdobra em duas, uma casta e outra pervertida? Na verdade é a personagem pervertida que tem um passado triste que justifica ela ter sido desvirtuada do caminho justo de todas as mulheres. A impressão que eu tive é que a Lavínia-Shirley (jájá eu explico isso) é uma Lucíola-Lúcia do século XXI, tanto que no final ela até adquire um terceiro nome e, para a minha nula surpresa, passa a se chamar Lúcia!

Tá, mas deixa eu voltar um pouquinho para vocês entenderem. Lavínia na verdade é histérica, retomando aquela velha imagem de que quando a mulher foge dos padrões é literalmente rotulada como fora da norma, passa a ser considerada louca. Mais um chato cliché que Marçal Aquino nos traz. A diferença é que a 'loucura' de Lavínia é ter duas personalidades, o que para mim seria esquizofrenia, mas como eu não sou psiquiatra, eu vou fingir que não acho que ela dá o nome histeria porque é essa a doença normalmente atribuída às mulheres... Daí, Lavínia é a boa moça, casta, dona de casa, doce, dedicada e delicada. A outra é Shirley, a devassa (é, igualzinho à cerveja que fica reduzindo a imagem das mulheres à vulgaridade e sexo, como mostra esse anúncio em que o verbo pegar e a silhueta feminina, como de praxe, estão bem destacados), cujo apetite sexual é constante e está o tempo todo pronta para realizar todos os desejos de ambas as personagens masculinas, Cauby e Ernani. 

A pessoa que me emprestou o livro (uma grande amiga, porém, bastante sexista - a ponto de dizer isso com um quê de orgulho que me preocupa) disse para eu relevar esses detalhes e reparar na narrativa. Lembram do argumento estético meio vazio que eu falei no início, então... Mas eu não achei a narrativa nada demais. Algum dinamismo, mas não me prendeu. O que me fez continuar até o fim, como disse, foi querer saber até aonde aquilo iria.

Lembram que eu disse que o livro tinha seus méritos? No final, tem uma certa crítica a um protestantismo fanático que anda muito na moda. O problema (sempre há muitos, meu deus!) é que ela é um pouquinho mal construída, porque no fim das contas fica reduzida a um outro preconceito: com as cidades pequenas. A história se passa numa cidade de garimpo do Pará, que não recebe nome, sugerindo que cidade pequena é tudo igual mesmo. O desfecho pretende problematizar a classificação do que é e do que não é pecado, mostrando cristãos que apedrejam um suposto criminoso. Só que o que fica no ar é que a população do interior não tem muito discernimento, cai na conversa de qualquer um, pode chegar qualquer pastor ou empresário pilantra que leva todo mundo na lábia.


Por fim, o que era para ser a minha primeira leitura de férias acabou sendo uma decepção e mais uma constatação de que esse mundo precisa mudar. E que reforçar preconceitos, estereótipos e desigualdades não deve ser o papel de nenhuma arte.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Uma preciosa propaganda contra a assistência

Talvez fosse necessário algum tipo de desculpas por não falar de uma coisa atual - parece que a internet como grande expressão do mundo acelerado e presentista precisa falar do que aconteceu há dois segundos atrás ou vai acontecer daqui pra frente. Contudo, antes de internauta ou blogueira (nem sei se sou alguma dessas coisas), sou historiadora e o passado é uma preocupação porque nunca está morto, prova disso é o meu assunto de hoje ser uma pulguinha que está coçando os meus dedos há algum tempo pedindo para ser escrita. 

Ok, Preciosa não é tão antigo assim, o filme é de 2009 e, se não me engano, assisti a ele em algum momento desse conturbado 2011. Na ocasião, tive a reação que imagino ter sido semelhante à de muitas pessoas: fiquei super sensibilizada com a história triste da menina, achei um absurdo tudo o que ela passou, pensei "como tem gente ruim no mundo", me acabei de chorar e recomendei para todos os amigos que gostam de um bom drama. À época, elegi com meus botões os temas da desigualdade, exploração sexual, racismo, discriminação como os temas de maior relevância da trama. Não digo que não sejam importantes todas essas coisas e que não seja válido que a história suscite discussões ou ao menos nos obrigue a pensar, ainda que brevemente, o quanto tudo isso está presente no cotidiano da nossa sociedade "judaico-cristã-ocidental". 

Isso, é claro, se a gente considerar quantas pessoas conseguem pensar criticamente quando estão tomadas pela emoção de cenas violentas e angustiantes. Admiro muito quem o seja, mas o que eu fiz ao longo e depois do filme foi ficar com muita raiva daquela mãe desocupada dela, até mais do que do pai ou das outras pessoas que violentam de várias formas a personagem ao longo da trama. Aí, sei lá quantos meses depois, estava eu numa ótima aula discutindo as influências do neoliberalismo nas políticas públicas educacionais no Brasil e me lembrei de algumas cenas da personagem da mãe da Preciosa. 

Uma das cenas mais impactantes

Por quê? Porque reparei o quanto esse filme é uma propaganda do modelo de self made woman levado às últimas consequências. Porque, afinal, o que a trama nos ensina não é outra coisa que não "não importa o quanto te ferrem, não importa quantas desgraças você sofra, você precisa superar isso e dar a volta por cima" - e com o seu próprio suor, porque, como todos podem ver, políticas estatais assistencialistas só levam à acomodação. Precisei me distanciar do "calor dos acontecimentos", como dizia um professor muito querido, para perceber que a personalidade da mãe é construída com base numa ideologia neoliberal segundo a qual assistencialismo é atraso para a economia, estímulo ao ócio, gasto desnecessário, além de, é claro, atrapalhar a livre concorrência da mão de obra. As pessoas que realmente querem, as realmente talentosas, vão vencer todas as adversidades. Capaz até de se tornarem pessoas melhores e de darem mais valor ao que conquistarem.