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segunda-feira, dezembro 12, 2011

A morte dos girassóis


(Caio Fernando Abreu)

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: "Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira." Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: "É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo,e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral."

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa. Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei
uma fera. Gritei com o pintor: "Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?" O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então,como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra,exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para quecaíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?

Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.


quinta-feira, outubro 13, 2011

Quem é mais vulnerável ao preconceito?

Domingo passado teve Parada Gay em Copacabana, terceiro maior evento cultural do Rio de Janeiro, segundo o Grupo Arco-Íris. Não sei se isso é algum tipo de mérito, fico mais tentada a acreditar que esse é mais um argumento para os que criticam a participação que as boates têm nessa história. Não quero entrar nesse mérito da questão, para mim, a grande importância do evento consiste na visibilidade provocada pela avenida Atlântica pintada das cores do arco-íris e dizendo que uma grande parcela da população é privada de muitos direitos. Aliás, bato palmas para o destaque muito maior dado às frases de luta e, para os críticos de plantão, o menor espaço que as boates tiveram esse ano.

Milhares de pessoas já estão na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a expectativa da organização é de 1 milhão de participantes. Foto: Gabriel Macieira/Especial para Terra

Além de tudo isso, entre os objetivos da Parada estão a divulgação de informações consideradas importantes para a comunidade LGBT (perdoem se a sigla estiver errada, é que muda muito...). É aí que está a pergunta que está na minha cabeça desde domingo e que me leva a escrever isso aqui agora: consideradas por quem?

Durante o evento, sempre são distribuídos panfletos sobre assuntos como criminalização da homofobia, religião (ao contrário do que conservadores de plantão podem pensar, me refiro a panfletos de igrejas que acolhem homossexuais), união estável, propagandas de boates e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Até aí, tudo bem, informação nunca é demais. O problema está em um desses papeizinhos que fala da importância de prevenção devido à maior vulnerabilidade da população LGBT ao contágio de algumas doenças.

Reproduzo aqui o trecho pois não encontrei o folder inteiro no google (pasmem!) e estou com preguiça de scannear: "O Ministério da Saúde preconiza e disponibiliza a vacina [contra hepatite b] no Sistema Único de Saúde (SUS) para os grupos de maior vulnerabilidade, independente da faixa etária. Entre eles, destacamos: Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais; mulheres que fazem sexo com mulheres; homens que fazem sexo com homens".

Além das dúvidas que tenho quanto essas duas últimas "categorias" sexuais (quem sou eu para rotular se as pessoas querem criar mais uma?), fiquei me perguntando sobre o embasamento biológico dessa vulnerabilidade, já que a cartilha do Ministério da Saúde sobre o assunto descreve as formas de contágio sem apontar esses grupos de risco.

O mesmo folheto incentiva a realização do exame que diagnostica a presença do vírus HIV. Claro que realizar o teste é importante, mas... Eu não sou ingênua a ponto de perguntar quem foi que disse que homossexuais são as vítimas preferidas da Aids, porque eu sei que muita gente já disse isso. Não querendo me valer do órgão oficial da saúde como única verdade sobre doenças, mas no que diz respeito à Aids, o Ministério menciona sim os homossexuais. Entretanto, ao contrário do que muita gente ainda pensa, para dizer que os cuidados relativos à população LGBT nesse caso se deve ao estigma e ao preconceito imputados. Para o espanto de muitos, o portal destaca ações específicas de prevenção entre jovens, mulheres e presidiários.


Obviamente, nem tudo são flores no reino do Ministério da Saúde, já que até a campanha que critica o preconceito (acho muito legal o slogan "A Aids não tem preconceito, você também não deve ter") diz que as pessoas são corajosas por exporem sua soropositividade. Não sei se esses jovens-selecionados-de-acordo-com-o-padrão-de-beleza-vigente são realmente soropositivos, procurei o site indicado para ter maiores informações e - tcharam! - o link está corrompido (o que também explica essa imagem pela metade aí, desculpem). Acho importante que as pessoas desassociem a doença daquela imagem do doente terminal dos anos 1980, mas acho pouco provável que substituir pelo padrão de beleza dê conta de desconstruir preconceitos. Para mim, Aids não tem cara e ponto.