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segunda-feira, outubro 29, 2012

Tecendo finos fios

Ao som de Assinado eu (Tiê).

Dispensa dedicatórias.

Tava nos fios dos cabelos. Não de um jeito bíblico, aquela baboseira de Sansão e Dalila, com vinganças e dramas - não que não tenham havido vinganças e dramas. Ambos abundaram, se é que pode-se dizer assim. Com profundidade, força e todo o sofrimento que se tem direito. Uma questão de proporção que talvez muitos não entendam, mas a dor precisava ser de uma forma equiparável à toda felicidade que foi. Foi. A distância precisava ser equiparável à toda proximidade que foi. Foi. - o tempo verbal fica só como mais uma ironia.

Era preciso percorrer no sentido inverso todo um caminho para construir outros tantos, remar com força contra a corrente, remar sozinha. Sentir a dureza do mar em cada braçada, o frescor das ondas em cada mergulho, o gosto salgado inundando a alma, a força das ondas batendo no corpo sem derrubar - e mostrando que do outro lado também havia uma espécie de força inimaginável, quem suporia? 

Do mesmo jeito que foi necessário e inevitável todo o antes. Mas agora, de um jeito imperceptível e improvável como sempre é, o presente virou passado, o passado virou passado mesmo e é até possível construir um presente - diante dos quais é sempre preciso fazer alguma coisa.

A gente faz, a gente vai minando aos poucos a defesa e a distância construídas com toda força e todo esforço possível. Era a única forma de ter alguma preservação, a única forma de construir algo com os cacos que ficaram - há quem diga que já é possível vislumbrar um vitral bonito.

Contudo e apesar de, os mais atentos observarão que nunca mais seria possível para uma cortar e para a outra lavar os cabelos.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Mar!

Ela encostou no meu corpo e disse 'mar'. Não, não foi isso. Ela tocou de leve a minha alma - porque ali, naquele momento, naquela nudez, naquele vento, naquele cenário, só era possível expor almas - e foi a minha que ela tocou quando me pediu que dissesse junto com ela. Eu disse 'mar' da forma mais atrapalhada. Não teve uníssono, nem timbres harmoniosos, teve a palavra nervosa pela fome de ouvir mais palavras.

Eu disse 'corpo' porque nunca saberia dizer qual a parte, posto que meu corpo inteiro estremeceu de um jeito estranho. Pode ter sido um pedaço de cotovelo ou antebraço, ou algumas dessas partes quaisquer que a gente esquece de erotizar - e nem imagina que podem despertar sensações tão gritantes. Meu corpo inteiro sentiu o calor que certamente também era de um corpo inteiro. Fiquei pensando se a alma se divide em partes e se há sensações diferentes quando se toca o dedão-do-pé-da-alma ou o-fundo-do-sexo-da-alma. Eu não sei se existem essas partes, porque, assim como o corpo, ela me tocou a alma inteira.

Me fez imaginar sóis e tardes de praia talhando feito escultura em madeira aquela temperatura que eu senti tão breve. Não só isso, a cor era de sol. Dia de verão em que a pele é assim elaborada durante todo o dia para, ao cair da tarde, refrescar-se em um banho que não diminui a temperatura da pele que já não é sol e sim fôlego de vida. Fôlego efêmero herdado do mergulho-gesto que lava e lavra as almas tão mais imorais do que os corpos. Meu corpo se desfez em ondas metafóricas do mar que você trazia na voz e na garganta. Toque fortuito que é inteiro mar e não só pela palavra que disse - dissemos - e continua gritando que só se abre depois da água no pescoço.

domingo, junho 03, 2012

Me perguntaram o que eu penso sobre a Marcha das Vadias... e eu me empolguei na resposta:




Acho que me converti ao feminismo pela linha teórica da História. Durante a faculdade eu tive a sorte de cursar uma eletiva sobre História das Mulheres que me chamou a atenção para os silêncios sobre o feminino na narrativa historiográfica. Me chamou a atenção por várias coisas para além dos textos, duas em especial: o fato de que ao todo só 4 pessoas se inscreveram para a disciplina e destas, só eu e mais uma a cursamos até o final (a outra pessoa, também mulher não por acaso, só precisava de mais uma matéria para se formar). A outra coisa que me chamou a atenção foram os comentários de colegas homens quando eu comentei sobre as aulas. Piadas como "O que vocês estudam? História dos eletrodomésticos?" e outras barbaridades das quais agora nem me lembro me deixaram enojada e com mais vontade de estudar o tema.

Depois de ter terminado a disciplina, comecei a acompanhar alguns blogs feministas que eu já conhecia de nome, mas que nunca tinha parado para ler. O Blogueiras Feministas e o Escreva Lola Escreva se transformaram em leituras obrigatórias para mim. 

Desculpe ir tão longe para responder algo que parece bem mais pontual, mas é que foi a partir dessas leituras que eu comecei a perceber que existe um mito ridículo de que o machismo não existe mais na nossa sociedade, que as mulheres já conquistaram tudo e que os homens coitados é que são as grandes vítimas hoje em dia. Um mito que está incrustado na cabeça da maioria das mulheres que eu conheço e que mascara a violência que todas nós sofremos todos os dias.

Acho que não corro o risco de generalização em excesso ao afirmar que toda mulher sofre violência misógina (ou seja, aquela que parte da premissa de que as mulheres são inferiores aos homens) todos os dias. Andar na rua, coisa que parece simples, mas não é porque o espaço da mulher na lógica machista é o espaço privado e controlado; é sempre um desafio enojador. Se você faz parte do padrão de beleza, você sofrerá com agressões de cunho sexual. Se você não faz, sofrerá com ofensas que te lembram que não cabe a mulher ser inteligente, trabalhar, pensar ou qualquer outra coisa - o que se espera é que seja bonita e reprodutora.

As tais cantadas na rua, quer fossem destinadas a mim ou a outras mulheres, sempre me incomodaram profundamente. E acho que aí que eu consigo entrar no tema da Marcha das Vadias. Nós não nos damos conta o tempo todo, mas estamos sempre sofrendo essas tais violências que são uma lembrança constante de que somos passíveis se estupro. O pensamento é simples e acho que percorre a cabeça de muitas mulheres, se você escuta uma frase asquerosa numa rua extremamente movimentada, o que aconteceria se a rua estivesse deserta?

Mudando um pouco a situação, podemos pensar em conversas entre amigos em mesas de bar. Surge um comentário sobre uma mulher que ficou com um cara e não transou com ele, foi embora de última hora ou algo assim. Qual é o comentário quase predominante? Que a mulher não pode "atiçar" o macho e depois ir embora, caso isso aconteça, é praticamente legítimo em nossa sociedade que o cara tem direito de forçar a barra e terminar o que começou. Porque? Porque vivemos numa lógica velada em que a mulher não é dona do próprio corpo.

É isso que me dizem as cantadas nas ruas e essas lógicas de acasalamento bizarras. Que as mulheres que andam nas ruas não são donas de si, elas são corpos que estão ali para serem observados e avaliados pelos homens e, caso sejam aprovados, é direito deles usufruir desses corpos.

A Marcha das Vadias, para mim, é um importante movimento de luta que denuncia e tenta modificar essa situação. É importante refletir sobre esse assunto tanto para mulheres que acham que precisam se vestir de uma determinada forma para se sentirem desejadas como para conquistar o direito das mulheres de se vestirem ou se despirem como bem quiserem sem serem violentadas por isso.

Infelizmente, eu não pude comparecer à Marcha no último dia 26 por estar trabalhando em outra cidade. Ainda assim, o que pude fazer para cumprir com meu dever de militante do feminismo e dos direitos sexuais foi explicar para os meus alunos o que era o movimento, como surgiu r para que serve. Não foi com espanto que ouvi de muitos deles o comentário "Marcha das Vadias, eu conheço várias que poderiam participar". O que para mim é uma evidência de tudo o isso que eu disse nos parágrafos acima.

Por fim, acho que vivemos uma época de neo-conservadorismo muito assustadora. A cidade do Rio de Janeiro me surpreende muito negativamente em relação a isso a cada eleição, a cada tema que ganha espaço para debate público. As pessoas constroem visões estereotipadas dos movimentos de luta com o claro objetivo de enfraquecê-lo e muitas pessoas compram fácil o discurso. Prova disso é que a Marcha não teve tantxs participantes como eu imaginei que teria. Mas ainda assim, acho que o resultado foi muito positivo na divulgação que teve, principalmente nas redes sociais. Qual não foi a minha alegria ao descobrir que a cidade de Campos dos Goytacazes também realizará uma Marcha no próximo mês, mesmo sem acompanhar a agenda mundial que originou as manifestações do sábado passado.

A Marcha das Vadias é um movimento que surgiu na internet e, felizmente, vem ganhando repercussão. Espalhemos e lutemos.






* A foto aí em cima é de uma grande amiga minha e foi feita na Marcha daqui do Rio de Janeiro.

quarta-feira, maio 30, 2012

O aprendizado difícil.

O aprendizado é sempre difícil. Há que aprender a juntar-se em partículas extremamente distintas. Misturas nada homogêneas que a gente vai formulando, mudando temperaturas, pressão e as condições normais se fazem até a hora em que fica imprescindível desfazer.

Aí? Aí tem que aprender a separar cada detalhe. Tem que saber ser nas coisas todas mais improváveis. Tem que acordar e abrir os dois olhos sozinha mesmo que a metonímia pareça dissimular a solidão. Há que esticar sem limites os braços sabendo que eles só esbarrarão em felinos ou paredes geladas. (O amor se desfaz um pouco cada vez que você não está perto e depois se refaz em cada pedaço de presença sua). Levantar o peso do corpo ainda quente, mas cuja temperatura acabo desconhecendo por não ter no seu toque um a partir do que medir. Os amigos mais frios recomendarão um termômetro sem saber que não é essa a febre, que não há febre nenhuma. Os passos na longa jornada até o chuveiro não receberão os bons agouros de teu beijo de bom dia, mas não faz diferença porque eu não sei se a palavra agouro pode ser usada para uma coisa boa. Depois de me expulsar de mim, eu posso até achar bom que a temperatura mude, a água um pouco mais fria promete alterar todas e começar um dia mais fresco.

O mais difícil promete vir a seguir, pois a água eu não saberia dizer se ferve sem ti. E aos poucos descubro que é tudo uma questão de a quantos graus se consegue chegar ou o quanto a ebulição consegue transpor filtros, o quanto chega espessa do outro lado. Não saberia dizer se precisaria de leite no meu café, talvez meu estômago procurasse a dor, como costumo fazer quando você não está.

Eu terei só um espelho que nem vai saber me dizer sobre as descombinações das cores ou da liberdade dos fios que você sempre preferiu assim, meticulosamente despenteados.

Eu vou encarar o vento e o ar das ruas e vou me ver ao longe andando sozinha e capaz. O cigarro que você reprova em uma das mãos. Segredos e cadernos possivelmente na outra. Você não vai ver quando eu deixar passar a hora de comer, não vai saber quando eu me sentir feliz de repente por uma música, uma imagem ou qualquer dessas coisas bobas que cruza os nossos descaminhos ao longo dos dias.

Mas e quando essas alegrias efêmeras se dissolverem numa batida de ônibus ou num engarrafamento? Quando a nossa casa ameaçar me engolir? Quando você souber que eu não durmo, não respiro, não acordo, não levanto e nada disso acontece. Que há apenas monstros voadores, coloridos e feras, felinos e dragões que esperam junto comigo a sua chegada. Que só a sua chegada ilumina, traz flores amarelas e uma beleza que não existe lá fora nem em lugar nenhum aqui dentro.

Papilas gustativas
Eu mentalizo mantras enquanto me mato e me arruíno no abismo controverso em que parecem não caber duas felicidades que por muito tempo pareceram ser uma. Você já ganhou o mundo e eu tento pegar caquinhos de vidro cortante para ver se construo o meu. Não quero olhar o seu de cara cheia nem emitir julgamentos caso você decida girar na roda de repente. Se a onda for boa, se não der náusea, torço para que seja bom.

Do meu canto, eu vou desligar o computador, tomar banho, deitar os olhos no teto e ver se faço amizade com os monstros que moram comigo. Eu sei que não é doce, mas é bom variar os sabores, explorar as papilas gustativas. A gente já provou tantos gostos que não imaginou que tivessem esses tantos outros aqui do outro lado. Não dava para exigir que tudo fosse jogado fora e seguíssemos apenas retas paralelas, os caminhos descrevem parábolas, curvas distintas e sempre se encontram, se cruzam, se entrelaçam. E tudo o que se aprende, constrói, experimenta, experiencia, todas as sensações são tipos de prazer.

quarta-feira, março 14, 2012

Outro lugar - Milton Nascimento


Cê sabe que as canções são todas feitas pra você
E vivo porque acredito nesse nosso doido amor
Não vê que tá errado, tá errado me querer quando convém
E se eu não tô enganado acho que você me ama também
O dia amanheceu chovendo e a saudade me contém
O céu já tá estrelado e tá cansado de zelar pelo meu bem
Vem logo que esse trem já tá na hora, tá na hora de partir
E eu já tô molhado, tô molhado de esperar você aqui
Amor eu gosto tanto, eu amo, amo tanto o seu olhar
Andei por esse mundo louco, doido, solto com sede de amar
Igual a um beija-flor, que beija-flor,
De flor em flor eu quis beijar
Por isso não demora que a história passa e pode me levar
E eu não quero ir, não posso ir pra lado algum
Enquanto não voltar
Não quero que isso aqui dentro de mim
Vá embora e tome outro lugar
Talvez a vida mude e nossa estrada pode se cruzar
Amor, meu grande amor, estou sentindo
Que está chegando a hora de dormir.

quinta-feira, março 08, 2012

Mais um dia

Li muitos textos muito bons para pensar o machismo nosso de cada dia. Que pensemos hoje e sempre. Que repensemos os papéis dos gêneros em nossa sociedade. Fiquei meio sem saber o que escrever depois de ler A metáfora perfeita e 08 de março, dia de você repensar seu machismo, fica a recomendação e a tentativa de conto abaixo:

Acordar cedo como de costume. Levantar apressada disfarçando o inchaço dos olhos para o caso de o marido despertar com o barulho de seus passos. Prender o cabelo em um rabo de cavalo para espantar a aparência de quem acabou de acordar. Ir até a cozinha antes mesmo de escovar os dentes. Água para ferver, pó para passar o café, pães na torradeira para o marido, cereais para o do meio, iogurte para o caçula. Antes que tudo estivesse no lugar, as crianças chegam como pequenas tempestades pedindo coisas. O marido com um beijo burocrático, gritaria, correria, leite no chão. Pano e desinfetante no chão. Banho no mais novo, grito com o do meio para que vá logo tomar banho, nó na gravata do marido, uniformes e mochilas dos meninos, lancheiras, tchau com outro beijo burocrático no marido.

Ponto de ônibus cheio de manhã. Olhar tarado de um babaca próximo. Crianças na frente na hora de subir no ônibus. Um homem que dá a vez simulando gentileza e olha para a bunda dela quando sobe no veículo. Ônibus ainda mais lotado que o ponto. Equilibrar crianças, segurar mochilas, evitar contatos físicos indesejados. Descer do ônibus, tentar atravessar no sinal fechado, quase ser atropelada e receber um "quer morrer, vadia?". Dar tchau para as crianças, atravessar a rua de volta, pegar outro ônibus lotado, chegar atrasada no trabalho, receber um olhar de reprovação do chefe, perceber aquele aumento desejado e necessário cada vez mais longe, ligar o computador, acessar o email, receber várias mensagens com flores, imagens maternais e etc. irritantes. Receber um convite do chefe para almoçar, receber uma cantada do chefe, trabalhar o dia todo, ficar exausta, buscar as crianças no colégio, chegar em casa, fazer comida, colocar a roupa para lavar, passar o uniforme das crianças para o dia seguinte, tomar banho, receber uma lingerie do marido como presente e deitar antes que ele queira que ela vista.

Essa é a primeira imagem que aparece no google para a palavra "mulher".

domingo, novembro 20, 2011

Se essa rua, se essa rua fosse minha...


Eu sei que não é fácil. Eu sei que você sabe que eu sei que não é fácil tanto quanto nós sabemos que vai passar mas nem por isso deixamos de repetir o máximo de vezes que dá para ver se passa mais rápido. Às vezes as coisas ficam muito à flor da pele e a gente deixa entrar um ventinho da janela que chega a doer nos poros todos. A dor parece tão funda e parece ainda mais funda porque a gente sabe que, se não tivesse assim tão sensível, não ia ter dor nenhuma. Seria até bom aquele ventinho no rosto.

Queria te dizer que estamos juntas, mas sei que às vezes você só quer ficar sozinha. Queria te dizer que eu queria que as minhas frases não te machucassem e que eu queria que pudéssemos dormir todas as noites. Que essas tais pedras que temos que botar na hora de construir o caminho às vezes são muito pesadas e que eu percebo quando elas machucam os seus dedos, doem nos seus braços e ombros e eu queria que não doessem nunca, ainda mais quando é uma pedra - mesmo uma pedrinha - que você só pega para me ajudar. Vai ver o bom dessas pedras grandes e pesadas é que ajudam a construir a estrada mais rápido, aí quem sabe chega logo a hora de podermos olhar o contorno e ver como há flores e cores e céu e nuvens em formatos estranhos e tantas outras coisas que não são essa estrada.

Eu quero ver e apontar deseducadamente e rir e sentir o sol das coisas com você. Mas enquanto isso, me dá essa pedra, deixa eu segurar desse lado de cá que a gente divide o peso.

terça-feira, outubro 25, 2011

Fruta da estação

Sentia a proximidade das peles que não se tocavam, deveria existir um verbo para expressar apenas esse não toque, essa presença. Como quando a gente está em cômodos separados, mas se houve em ruídos, se vê em reflexões dos vidros dos móveis, se escuta nas pontas dos dedos que poderiam ser distantes, às vezes são, mas não sempre. Os pêlos que já não têm acento eriçam nessa indecisão provocante do semi-toque. Como quando você me liga para perguntar um caminho que tem plena certeza de que eu desconheço só para ouvir que não me importo de tentar descobrir junto com você. Como quando viramos noites em tarefas que passam a ser em dupla, trabalhos, relatórios, projetos, contos, aulas - porque as pessoas não sabem que a vida é em couple em tempo integral. E a gente se participa, confunde os temas e se pega gostando mais de uma coisa que nem é nossa - e nem existe para lado nenhum esse limite da possessividade.

Vamos ver um filme só para esquecer um pouco os problemas da vida? Vamos arrumar a casa só para esquecer um pouquinho os problemas de dentro? Vamos arrumar o cabelo, as unhas, as frases para esquecer um pouquinho que a vida é grande, grave e incerte? As roupas se misturam numa vaidade completamente perdoável. Nos misturamos e distanciamos numa oscilação de respiração ofegante de quando uma chega correndo para contar à outra que. Às vezes dormimos abraçadas e acordamos em disputa, às vezes a raiva pequena me faz querer olhar para a parede fingindo que nela não tem um espelho, mas quando acordo nada faz sentido antes de te olhar e ver que você ainda está aqui.

Adoro saber que o tempo vai passando e a gente vai construindo - assim, no gerúndio que indica ação em andamento e simultânea - coisas mais profundas. O erro foi acreditar que acharíamos as coisas todas prontas no caminho, talvez numa estrada de pedras coloridas. Quando abrimos a porta e vimos que não havia nada lá, não imaginávamos o quanto seria longo, intenso, saboroso, construir aos poucos, a cada dia, o nosso caminho.

Sabe aquele sentimento disforme que eu te mostrei num texto ainda escrito à lápis e você me falou em sussurros em outra língua? A gente foi falando, moldando, provando, vivendo, fazendo, definindo... E muda, como muda de planta, homonímia, cresce, tomba, muda de cor, brota, floresce, resseca, chega perto do céu, tomba no chão, vira adubo, vira jardim, desdobra em breguices, pieguices e originalidades.

Não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo de casa de vida de cabelo de roupa de comida de país de trabalho etc. etc. etc. etc. - as minhas mãos vão estar coladas às suas.

E hoje não é vinte e nove.

domingo, julho 31, 2011

Para nós todas as palavras do mundo.

Os olhos embaçados de sono, de falta de interposição entre mim e o mundo, desse vazio que fica aqui quando você não está.

As semanas também são ciclos e o ponto de revolução em que uma coisa deveria ter se tornado o que era antes nesse antes impossível chega diferente, como só podia ser. É sempre confuso, é sempre cifrado, metafórico, perdido, disfarçado e misterioso. Não é por má vontade, não é para construir-um-atmosfera-pessoal, é porque é. Como essas coisas que a gente questiona sabendo que não conhece. Continua questionando e desconhecendo. Um dia muda para uma outra coisa completamente diferente e igualmente misteriosa. Porque indizível. Sempre - e como eu insisto em dizer, fico repetindo: indizível, indizível, indizível. O faço porque sei que as palavras que procuro já não são só escritas nem só virtuais. As palavras têm sons. Você me ensinou que o que eu finjo dizer pode ser dito de verdade. E quando digo, quando escuto o som da minha voz te dizendo e escuto o som do seu silêncio me ouvindo ou o som do meu silêncio te dizendo para o som da sua voz me falando de você, eu sei que você está aqui. E não importa se a gente é assim tão diferente, não importa se a ausência é dolorida, não importa que a saudade vá sempre existir. De perto ou de longe, de passado ou de presente, de olhar demais para o outro lado quando você esteve aqui esse tempo todo.

Eu estou aqui também. Eu, saudade. Eu, ciclos rompidos. Eu, tantas e tantos. Eu-desejos. Eu-algo-menos-possessivo-e-egóico-que-esse-pronome-pessoal-reto. Aberta, presente, palavra, voz, abraço - e todos os outros sentidos que não se separam tanto assim.

terça-feira, abril 26, 2011

Enquanto ela não chegar

Quantas coisas eu ainda vou provar
E quantas vezes para a porta eu vou olhar
Quantos carros nessa rua vão passar
Enquanto ela não chegar
Quantos dias eu ainda vou lhe esperar
E quantas estrelas eu vou tentar contar
E quantas luzes na cidade vão se apagar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Quantas besteiras eu ainda vou pensar
E quantos sonhos no tempo vão se esfarelar
Quantas vezes eu vou me criticar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar