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terça-feira, novembro 27, 2012

"A única coisa que posso fazer é escrever"

Um livro não lido do Sartre nas mãos, trilhas e mais trilhas de passado decorando muros que dividem e separam. Não sei como digere, não sei como tirar essa antiga vontade de vomitar que se prende em algum momento do peito. Acho que no passado eu confundia com borboletas, mas não é possível pensar que foi possível tanta idiotice. Eu lembro que havia e aí de-uma-hora-pra-outra-quatro-anos-depois. Se for pra fazer a conta certa.

Não foi ontem, eu sei que não foi ontem.

Não havia verdade a dizer. As verdades mudam, são demasiado pessoais. As verdades crescem, se alastram por jardins escuros, misturam-se a outras coisas tantas e deixam de valer a pena, o teclado, o esforço. Não dá mesmo para depositar em ninguém tanta responsabilidade só porque a gente não quer, porque é grande, porque é insuportável e vem com a certeza do impossível. O que resta é essa obrigação de seguir em frente, seja lá qual direção.

A gente mexe, abre os poros pra localizar a cicatriz. Você pode rasgar a pele que ela continua ali, não é fazendo um novo ferimento que. Vou me fazendo desse acúmulo de passados que sei que são meus mesmo que não sejam exatamente memórias - que deixam confundido, ah, deixa pra lá...

Mas acaba sendo boa a sensação de reconciliar com o passado. Admitir que ele existiu, por mais que a gente recalque as memórias, traumatize as lembranças. Fica um amontoado de sangue, de carne viva que apodreceu e não adianta insistir, não cabe.

No fim, tudo se divide e todos se separam, como células em processos biológicos misteriosos. Mas é bom saber que o dia desses chegou, passou e não, nunca haverá explicação. Houve passado apenas. Houve o que dava para fazer e agora eu rodo nos dedos as chaves que domino - por mais que nunca saiba a partir de que lado da porta.

Alguma coisa fica. Amor nunca deixa mesmo de existir, vira essas mil outras coisas, sentimentos, sensações, que a gente molda nas mãos e nos abraços de quem tem os corações abertos.

sábado, outubro 06, 2012

Instantâneo

Então nem toda poesia é palavra. Nem todo prazer é instantâneo. Nem tudo é hoje e agora. Não se afobe não, que nada é pra já. O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio. Mas quando a gente tem a certeza bruta de que não é amor, espera pra quê? Quando a gente se vê fazendo e se vê não fazendo o que já foi tão simples...

A gente se monta em imagens que só virão depois. Desenha cenas e se confunde na brincadeira do querer não querer. É que tem tanta coisa envolvida, tem tanto sangue escondido nas entregas mais pequenininhas que tirar o olhar de diante do espelho já parece algo impossível.

Eu poderia te dizer se valesse a pena, mas não vale. Você não quer ouvir e também não tem nada com isso. E eu também não quero dizer. E esse não querer é que se desdobra nesse marasmo que não avança espaços, que estanca o gesto ao perceber que, afinal, teu cheiro é conhecido.

Acontece que não dá para dizer assim fácil que não vai haver ninguém para me machucar se for necessário me tirar uma grande dor. Ninguém parece disposto e a dor tá aqui. A dor é outra. É aquela mesma de antes e é tantas mais que você colocou junto apesar de ter prometido que retiraria a outra. E no fim ficou tudo tão sem sentido quanto as frases mal escritas que me rodeiam, me rondam como feras famintas à espreita.

Não vai aparecer ninguém para me obrigar a tirar as mãos da lama do poço, me obrigar a lavar as mãos e ir jantar antes de pensar em suicídio. Os pensamentos sendo todos falsos, ninguém vai entrar na onda, partilhar o desespero e desfazer as maiores angústias com um único abraço. Não há sequer felinos que distribuam amor e esperem amor de volta. Não há amor. Simplesmente não há amor nenhum, ainda que hajam tantas outras coisas. Há esse oco, essa descrença que povoa os dias.

terça-feira, setembro 11, 2012

Entrelaçado

Para ler ao som de Tempo de pipa (Cícero).

"Vamos nos espalhar sem linhas".

Eu não sei como faz para desatar nós e nem sei se é necessário - ou se vale a pena. Há nós apertados, há pronomes pessoais retos tão pessoais e tão plurais que não dá para desfazer assim por qualquer bobagem. Não que futuro seja bobagem, não que projetos completamente diferentes também o sejam, mas é que alguém sempre sai machucado das coisas e preservar tudo no seu devido lugar é sempre a minha maneira de evitar que o sangue respingue em mim quando ainda tem as nem-tão-velhas feridas assim tão mal fechadas.

Quando o nó fica assim muito preso, a gente machuca as unhas e não consegue. Às vezes usa os dentes e parece que só fica tudo mais amarrado.

Sei não... Enquanto os nós não se desmancham, nada impede que nos deixemos levar pelos laços que nossos corpos fazem sozinhos, sem que a gente queira e porque a gente quer.

segunda-feira, junho 18, 2012

Aos poucos, eu vou aprendendo a molhar a rosa. Aos poucos, acerto as doses diárias de água. Percebo os dias em que ela prefere uma boa dose de uísque ou mesmo uma cervejinha gelada. Ela vai ganhando pétalas novas, vai abrindo a cada dia. Percebo que sou capaz de garantir que ela não morra. Sei adubar a terra, podar os espinhos mais traiçoeiros e deixar os que são necessários para que ela se defenda.

Aos poucos eu entendo que uma roseira não é uma margarida. Não é uma avenca. Vejo todos os dias que ela é apenas uma roseira. Vejo todos os dias que ela não quer ser nenhuma outra. Vou percebendo que sua finitude não é displicência, não é excesso de água, falta de uísque, de espaço, de terra. Percebo que ela precisa de mim para se alimentar e vejo em seus olhos a gratidão pelos meus cuidados assim tão insistentes, tão diários.

Todos os dias eu acordo cedo e não tardo a pegar o meu regador. Sinto um orgulho enorme de mim mesma ao ver, todas as manhãs, que ela está ali, vivíssima, ávida pelos líquidos que eu puder oferecer no seu tipo preferido de copo. Ela está lá, todas as manhãs. E se morre um pouco por dia é porque morrer de amor é a substância de que a vida é feita.