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domingo, fevereiro 17, 2013

Todo carnaval tem seu fim

É só uma questão de recobrar a saúde, recobrar as rédeas, recobrar a sanidade, o volume do rádio, a agenda de telefones, o formato do travesseiro. O relógio corre. Os dias idem. E não há tempo. Simplesmente não há tempo nem sanidade para criar de novo as próprias armadilhas. O segredo é desfazer o ponto à mesma proporção que teço. Difícil é saber medir e controlar a velocidade com que o sol bate nos olhos.

O tempo é necessário. A solidão é necessária. Qualquer tropeço me faz perder o rumo nesse caminho de quem não sabe aonde está indo. O sabor do passo, lembra? Uma hora ou outra esbarro num instante mais bonito que desvirtua, fragiliza.

Há mais cores e possibilidades e não há doença que Drummond não cure. Não há cabeça que o coração não ame e não há lembrança e rosto virado na rua que não faça lembrar o quanto o amor arde - mesmo quando a gente anda depressa demais tentando não rever os próprios passos. Vovó diria que tropeça, mas as pessoas da minha família nunca gostaram de alimentar estereótipos.

É preciso tempo e dedicação. É preciso convivência. É preciso não precisar e saborear devagar cada pequena folha de manjericão.

O carnaval acaba, sempre acaba. A coerência não, posto que ela nunca existiu.

Os vírus passam depois de determinado ciclo. Atos de um drama teatral: o momento da reflexão sempre chega. Ainda que seja a mais simplista, a mais cliché, a mais encerramento-birra de quem no fundo guarda o vestido estampado para o carnaval que vem.

Eu pinto o nariz quantas vezes for, mas o suor borra e a pintura se desfaz.

terça-feira, julho 31, 2012

Para se ler ao som de Mergulho.

Bicho ferido fere. Grita, guincha, esperneia e esparrama seu sangue enquanto se debate e lanha ainda mais a pele nas paredes das grades. Quem se debate é afogado, sussurra em seu ouvido uma voz distante, um dos muitos fantasmas que atormentam as madrugadas frias que não cabem nas horas infinitas e nascem em manhãs cálidas, frescas, às vezes até ensolaradas.

Bicho ferido quer arrancar sangue alheio. Ferve os olhos de vingança enquanto observa acuado e imóvel os dedos que mergulham fundo em tuas feridas hemorrágicas. É preciso tempo e solidão para lamber cada uma delas com o devido cuidado. É preciso cicatrizar e esquecer o quanto doeram antes de colocar a cara à tapa.

Bicho ferido quer mesmo é chafurdar na dor e mergulha em qualquer possibilidade de. Gosta de sentir as patas enlameadas em poça de sangue, chapinhadas da lama do poço. Bicho ferido sabe que, se for pra doer, sempre vale estender a outra face. Bicho ferido confraterniza versos bíblicos como se fossem poesia entre copos de cerveja às quatro da manhã de sábado - não sem mesclar o embasbacamento cristão com lembranças de sórdidos pecados.

Bicho ferido quer que lhe lambam o ego, já colocou há tempos tua jaula ensanguentada na vitrine e vez em quando um visitante do zoológico joga um pedaço de fruta. Ele faz piruetas enquanto deseja que não seja banana.

Bicho ferido pode demorar um pouco para perceber que abriram a jaula, pode achar mais confortável ficar um tempo sentado olhando como fica diferente a paisagem sem as grades no caminho. Lambe o sangue do chão antes de levantar para evitar novas quedas. Certifica-se de que aos poucos as feridas fundas, inflamadas, vão criando casca. Ainda dói se um desavisado tocar, isso ainda o fará guinchar de dor, mas já é possível vislumbrar cicatrizes charmosas em seu lugar. Por isso, aos poucos o bicho espreguiça o corpo, estica as patas, fareja a insegurança do terreno e dá os mais pequenos passos até ultrapassar os limites da porta. Dali, uma pequena esticada no pescoço faz com que o vento bata no rosto. Dá aquela ardência da pele ainda em carne viva e junto aquele frescor de saber que toda bofetada nos dá um rosto novo. A passos tímidos rompe as grades e se entrega ao galope veloz e inconsequente de quem só quer dar com a cara no primeiro muro.



sexta-feira, julho 27, 2012

É preciso fé cega e pé atrás

Para se ler ao som de Dois perdidos (Filipe Catto).


As citações antigas ajudam a povoar a entrega mais recente, o medo enorme de se jogar depois que já jogou e já caiu e já está tudo assim espalhado no chão. O silêncio é o medo de exteriorizar, de colocar em palavras, de ouvir em alto e bom som isso tudo o que a gente já sabe mas finge que pode minorar e controlar marcando prazos de distância. Dá para não interferir. Desde que não fira, desde que não atrapalhe, desde que mande um ou outro sinal de vida para sabermos que haverá uma tarde livre para. Desde que se saiba proteger as pessoas que devem ser protegidas.

O corpo fica mareado, sentindo o ritmo do teu corpo no meu mesmo depois que você se afasta. A surpresa não é uma questão de gênero, é uma questão de surpresa. É sentir na ponta dos poros um desejo já tão inimaginável, um desejo que não se vê nos olhos - e nem poderia - mas que encosta a ponta dos pelos e pasma e gruda e sua e soa e toca e geme e treme e suga e queima e revira e insinua e veste e despe e cantarola e relembra frases antigas e se perde e gruda na voz e soma outras mil conjunções aditivas que perambulam pelo ar inebriado do prazer mais simples.

Deixa marcas que qualquer um, qualquer outro, qualquer tempo viraria raiva. Mas fica, cobre de maquiagem e lenço travestido dessa elegância que a gente compra barato nos camelôs do centro. Vou construindo imagens do que quero de mim, só que perdi a decência, o time, o pudor, o bom senso. Perdi o pé atrás que me sabia nos objetivos claros. Perdi a noção do auto-conhecimento e me deixei cair nas armadilhas mais previsíveis. Achei de volta o caminho de casa e uma cesta bonita de pães. Fico me permitindo prazeres e tédios alternados. Incorporo esse gesto sublime e blasé de quem já sabe em que pé finca e em que fim dá. Começou com a cena perfeita, a porta aberta, teu cheiro no vento parado e teu gozo no corpo. Deixou de ser só mais um conto pra virar essa vontade que não tem outra palavra. É corpo, é físico. Por isso há-que respeitar. Há-que mergulhar de cabeça, tronco, membros - deixar sentir a pele que estremece e revira e entrega em lágrima imperceptível que denuncia.

Agora espero e fico desesperada de tanto esperar. Percebo os mesmos erros já cometidos e me pego achando tudo assim diminutivo, me vejo vendo beleza nas árvores da estrada e me perco horas a fio nas pontas das folhas que nunca tornarei a ver. É fio d'água.

segunda-feira, junho 18, 2012

Aos poucos, eu vou aprendendo a molhar a rosa. Aos poucos, acerto as doses diárias de água. Percebo os dias em que ela prefere uma boa dose de uísque ou mesmo uma cervejinha gelada. Ela vai ganhando pétalas novas, vai abrindo a cada dia. Percebo que sou capaz de garantir que ela não morra. Sei adubar a terra, podar os espinhos mais traiçoeiros e deixar os que são necessários para que ela se defenda.

Aos poucos eu entendo que uma roseira não é uma margarida. Não é uma avenca. Vejo todos os dias que ela é apenas uma roseira. Vejo todos os dias que ela não quer ser nenhuma outra. Vou percebendo que sua finitude não é displicência, não é excesso de água, falta de uísque, de espaço, de terra. Percebo que ela precisa de mim para se alimentar e vejo em seus olhos a gratidão pelos meus cuidados assim tão insistentes, tão diários.

Todos os dias eu acordo cedo e não tardo a pegar o meu regador. Sinto um orgulho enorme de mim mesma ao ver, todas as manhãs, que ela está ali, vivíssima, ávida pelos líquidos que eu puder oferecer no seu tipo preferido de copo. Ela está lá, todas as manhãs. E se morre um pouco por dia é porque morrer de amor é a substância de que a vida é feita.

sexta-feira, junho 15, 2012


Quando partiste
sem mala ou bilhete
Quando negou-me
teu colo e teu perdão
Deixou no canteiro
do quintal desesperado
Uma rosa vermelha
cravada aqui no chão
Desse dia em diante
Para te deixar lembrada
De manhã bem cedinho
molho a rosa, molho a flor
Rosa que és tão linda
Rosa-flor imaculada
Rosa sejas tão linda
Como foi a minha amada

Desse dia em diante
Para te deixar lembrada
De manhã bem cedinho
molho a rosa, molho a flor
Rosa que és tão linda
Rosa-flor imaculada
Rosa sejas tão linda
como foi a minha amada

domingo, março 18, 2012

Saga (Filipe Catto)


Andei depressa para não rever meus passos
Por uma noite tão fugaz que eu nem senti
Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora
Só me restam devaneios do que um dia eu vivi

Se eu soubesse que o amor é coisa aguda
Que tão brutal percorre início, meio e fim
Destrincha a alma, corta fundo na espinha
Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir

Enquanto andava, maldizendo a poesia
Eu contei a história minha pr´uma noite que rompeu
Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia
Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho com força, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer

E era de gozo, uma mentira, uma bobagem
Senti meu peito, atingido, se inflamar
E fui gostando do sabor daquela coisa
Viciando em cada verso que o amor veio trovar

Mas, de repente, uma farpa meio intrusa
Veio cegar minha emoção de suspirar
Se eu soubesse que o amor é coisa assim
Não pegava, não bebia, não deixava embebedar

E agora andando, encharcado de estrelas
Eu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar
Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito
E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho sorrindo, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer