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terça-feira, maio 21, 2013

Castração

Para ler ao som de O doce e o amargo (Secos & Molhados).

O processo de descastração foi longo. Teve que matar os pais, comendo-os antes. Viveu o luto. Pôs roupa preta, depois a branca de quem reconcilia e busca paz. Podia ser só o luto de alguma cultura oriental que citava com propriedade forjada quando disparava a falar bobagens filosóficas e fundamentalistas nas praças públicas. Vomitou alguns clássicos da literatura, expeliu em diarreia boa parte da teorização sobre a humanidade enquanto sentia crescerem os pelos de seu corpo, as pontas dos caninos e os bigodes tão sensoriais.

O mundo se mede por onde é possível colocar a cabeça, pensava lambendo as próprias genitálias.

Foi necessário emagrecer toda a gordura que sobrava, pois vocês sabem que castração engorda porque não é possível fugir da fome, só transformá-la. Transformou tanto que não não podia simplesmente trocar uma coisa pela outra, elaborar um algo novo. Agora a fome a engolia ampla e a carne dos quadris guardava ao mesmo tempo o apetite do ventre, da boca e da alma, de modo que quando devorava, só sabia fazer inteira. Como um poema do Pessoa, mesmo que não soubesse de qual dos eles. Gozava com o corpo, trinchava a carne e sentia o regozijo da sua alma saciada. Acostumou a chamar de alma essa junção de estômago e vulva. Justo as partes menos humanas e, portanto, pouco passíveis de salvação.

Fato é que desfez e recosturou as trompas que o veterinário lhe arrancara sem dó e com meio comprimido de analgésico humano. Recobrou o vigor e a líbido. A razão não importava. Não era possível nem necessária.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Uma crônica paulistana

Para ler ao som de Concreto & Asfalto (Engenheiros do Hawaii).

É possível ir da Luz para a Liberdade desde que se saiba seguir as cores certas, contornar as linhas certas. Dá até para encontrar Consolação nos já conhecidos fundos de copo de cerveja ou fundo de garrafa verde-garrafa entre saltos, silicone, cílios postiços e neons convidativos da Rua Augusta.

São Paulo é cidade de que muito se ouve - e eu, do alto do meu habitual provincianismo de metrópole, nunca parei para prestar atenção. Paulista, Augusta, Anhangabaú, Bexiga, Ipiranga, Butantã, Vila Madalena, Pacaembu, Jabaquara, as pessoas diziam esses nomes engraçados, com seus fonemas tão bonitos - e eu cantarolava baixinho, às vezes sem nem mesmo emitir som, o binômio insosso "concreto e asfalto".

A minha ingenuidade arrogante teimava em confundir o bom e o belo, achando que este último só se podia encontrar nas 'belezas' construídas e naturalizadas das terras cariocas. Querendo ou não, no fim das contas a gente sempre carrega um montão de preconceitos e o trabalho da vida é ir querendo jogá-los fora pelas janelas de avião, pelos trilhos do metrô ou deixar a força do vento levar quando bate deliciosamente no rosto e bagunça cabelos coloridos no meio da Avenida Paulista.

Preconceito bobo, xenofobia boba, construção boba de identidade que a gente teima em fazer negando o outro para tentar ser alguma coisa sem saber que não podem ser além de sonhos, como diria o Álvaro de Campos saído de sua tabacaria para um chão escuro da terra-luz das pa-la-vras. São Paulo é terra de lavrar palavras, de ouvir sotaques da terra de ninguém. De se sentir em casa por ganhar tão fácil o direito de ser só mais um na multidão. São Paulo me engole em Avenidas, me perde em linhas de ônibus, São Paulo dos descaminhos do excêntrico, da moça que sai do metrô e deixa no ar poluído essa beleza do sujo, essa beleza de quem conhece a fundo tudo o que é feio.

São Paulo é terra de me apaixonar pelo movimento, pelo trem que cruza rápido a estação bonita de um progresso que já é passado. Terra em que o cinza espelhado das ruas esconde passados apagados, gritos abafados pela palavra progresso - dos quais a gente ouve ecos em nomes próprios que não se explicam, em amontoados de bairros e histórias que são só flashes, quebra-cabeças, pedaços de um isso que parece estar sempre se fazendo. E de que eu não conheci mais do que alguns pedacinhos.

São Paulo tem uma atmosfera, alguma coisa estranha que envolve e inebria, uma espécie de capa, num tom de cinza forte, bonito, marcante, opressivo e vivo - que os desavisados dirão ser apenas nuvem de poluição.

domingo, junho 24, 2012

Riso, preces e paixão

Chega a hora de mudar a trilha sonora. Reconstruir detalhes mais fortes que as cores do cabelo que nem podem ser tantas assim. Faz a casa com a tal solidão-liberdade. Buscar dentro de si os meios de retirar o pó, dar brilho, lustrar emoções novas-velhas-outras, descobrir que a gente se ilude em frases antigas nos dizendo que já não há mais quando ainda há tanto e de tantos jeitos e formas.

Quem se deixava vencer pelo cansaço da alma que minava o corpo agora desperta seu sono na exaustão que é só vontade de um algo a mais, uma foda a mais, uma noite a mais, uma vida a mais, porque eu sei que você tem muitas, que nós temos tantas e que ainda é cedo para decorar tantas frases. Ainda há muito o que escrever, muita coisa para arrumar, nem que seja para poder contar depois.

Deitar no velho travesseiro pensando em novas roupas de cama, novas peles, novas camas. Acordar no velho travesseiro ancorando em novas vidas, em novos planos e sonhos. Acordar no meio da noite, no meio da tarde, no meio do dia, no meio do desespero de saber que você não resolveu nem poderia nem ninguém poderia tirar do peito essa angústia, era muito exigir essa responsabilidade.

Na falta de uma ingenuidade essencialista, na falta de crença antiga de que é possível encontrar a gosma pronta. Eu tiro os dedos da garganta e vou é tateando outras coisas, texturas, peles, cheiros, gostos que deem prazer e façam sentir que no caminho a gente sempre vai encontrando uma ou outra coisa de mais ou menos valor.

No mundo sem canetas, ninguém mais perguntaria sobre valer a pena. Ninguém conhece ou pretende medir o tamanho das almas.

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A depender de mim
Os psicanalistas estão fritos
Eu mesmo é que resolvo os meus conflitos
Com aspirina, amor ou com cachaça
Os gritos todos virarão fumaça
A dor é coisa que dói e que passa
Curar feridas só o tempo há de
Toda regra para o bem da humanidade
É certo necessita de uma exceção

A depender de mim
Os publicitários viram bolhas
Eu sei como fazer minhas escolhas
E assumir os erros que lá vem
Se a alma finca pé os medos somem
Menino nunca deixe que te domem
Meu pai dizia o verdadeiro homem
Sabe o que quer ainda que não queira
Besteira é não seguir o coração

A depender de mim
Os padres e pastores serão tristes
Eu penso mesmo que deus não existe
E ainda assim quem sabe eu creia em deus
Se deus é o outro nome da verdade
Deste momento até a eternidade
Eu levo entre mentiras e trapaças
Besta felicidade frágil farsa
do que preciso riso, preces e paixão



segunda-feira, agosto 22, 2011

Asas cortadas


Me transformando em um cisne e a dor é necessária. Tudo é necessário, perigoso, divino-maravilhoso - na música é claro. Na vida real é a pele se abrindo, a carne rasgando, os rasgos alastrando em dor insuportável. Valerá à pena? Perguntaram. Alguém respondeu com um verso escrito à caneta bic roubada e já falhando: Ritos de passagem passam; há-que passar. Parecia um provérbio antigo ou sorte de biscoito oriental. Desses que não faz sentido porque faz parecer que a nossa vida devia ser maior do que realmente é. Devia ser mais cifrável e dizível em provérbios.

E a alma? Se perguntou de que tamanho estaria agora. Teria crescido ou encolhido nesses tempos todos? Essas coisas de penas, almas e valores eram muito para ela. Eram muito à essa altura da vida quando não se tinha quase nada. Só tinha uma meia dúzia de palavras que poderiam ter sido grandes num passado, mas já lhe tinham chegado gastas e desbotadas. Não tinha muita cor nem para onde correr.

Entrou no carro esperando estradas longas, noites frescas, ventos revigorantes. Faltava dar a partida. Não tinha carteira, gasolina, mapas. Não tinha nada além das asas que cresciam discretas ferindo as omoplatas. Tinha que matar uma parte - era o que pensava enquanto saía batendo portas pequenas demais para o tamanho de sua fúria. Quis correr por dentro de uma floresta densa ou um campo aberto até as pernas obrigarem a parar. Quis sentir o pulmão vivo, ofegando, pedindo para continuar vivo, mostrando que lutaria por mais um fôlego cada vez que fosse necessário.

Do lado de fora do carro o concreto lhe sorriu irônico. Muitos carros não lhe sorriram nem expressaram nenhum sentimento, parados sobre o asfalto. Uma viatura da PM à certa distância mostrou que não teria dado certo dar a partida no carro. Também não havia para onde correr. Nenhum precipício no final da floresta imaginária.

Os pés ainda agitavam-se pedindo passos firmes, fortes, ritmados e constantes. Ou que levassem a algum lugar apenas. Qualquer lugar. Que a levassem. Já não queria estar ali tão presa no desespero tão interminável, escuro, envolvente. Caiu de desespero no chão frio. Quando percebeu, tinha uma lama pegajosa em volta. Percebeu que era ali que devia estar e a opção era descobrir que um dia as asas terminariam de crescer. Doeria muito? Demoraria muito? Perguntaram. Ninguém respondeu.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.