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quinta-feira, setembro 06, 2012

Uma crônica paulistana

Para ler ao som de Concreto & Asfalto (Engenheiros do Hawaii).

É possível ir da Luz para a Liberdade desde que se saiba seguir as cores certas, contornar as linhas certas. Dá até para encontrar Consolação nos já conhecidos fundos de copo de cerveja ou fundo de garrafa verde-garrafa entre saltos, silicone, cílios postiços e neons convidativos da Rua Augusta.

São Paulo é cidade de que muito se ouve - e eu, do alto do meu habitual provincianismo de metrópole, nunca parei para prestar atenção. Paulista, Augusta, Anhangabaú, Bexiga, Ipiranga, Butantã, Vila Madalena, Pacaembu, Jabaquara, as pessoas diziam esses nomes engraçados, com seus fonemas tão bonitos - e eu cantarolava baixinho, às vezes sem nem mesmo emitir som, o binômio insosso "concreto e asfalto".

A minha ingenuidade arrogante teimava em confundir o bom e o belo, achando que este último só se podia encontrar nas 'belezas' construídas e naturalizadas das terras cariocas. Querendo ou não, no fim das contas a gente sempre carrega um montão de preconceitos e o trabalho da vida é ir querendo jogá-los fora pelas janelas de avião, pelos trilhos do metrô ou deixar a força do vento levar quando bate deliciosamente no rosto e bagunça cabelos coloridos no meio da Avenida Paulista.

Preconceito bobo, xenofobia boba, construção boba de identidade que a gente teima em fazer negando o outro para tentar ser alguma coisa sem saber que não podem ser além de sonhos, como diria o Álvaro de Campos saído de sua tabacaria para um chão escuro da terra-luz das pa-la-vras. São Paulo é terra de lavrar palavras, de ouvir sotaques da terra de ninguém. De se sentir em casa por ganhar tão fácil o direito de ser só mais um na multidão. São Paulo me engole em Avenidas, me perde em linhas de ônibus, São Paulo dos descaminhos do excêntrico, da moça que sai do metrô e deixa no ar poluído essa beleza do sujo, essa beleza de quem conhece a fundo tudo o que é feio.

São Paulo é terra de me apaixonar pelo movimento, pelo trem que cruza rápido a estação bonita de um progresso que já é passado. Terra em que o cinza espelhado das ruas esconde passados apagados, gritos abafados pela palavra progresso - dos quais a gente ouve ecos em nomes próprios que não se explicam, em amontoados de bairros e histórias que são só flashes, quebra-cabeças, pedaços de um isso que parece estar sempre se fazendo. E de que eu não conheci mais do que alguns pedacinhos.

São Paulo tem uma atmosfera, alguma coisa estranha que envolve e inebria, uma espécie de capa, num tom de cinza forte, bonito, marcante, opressivo e vivo - que os desavisados dirão ser apenas nuvem de poluição.

quarta-feira, março 07, 2012

Insatisfação de longa data


Reproduzo abaixo uma reportagem que nos ajuda a pensar que manifestação e vandalismo não são sinônimos.

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Aumento da passagem das barcas - que fazem trajeto Rio-Niterói - provoca indignação e mobiliza aparato de segurança, mas os problemas nos serviços e reação da população ao aumento das tarifas são muito antigos

Alexandre Leitão e Alice Melo

O protesto de clientes da Barcas S.A. – responsável pelo traslado aquático entre Niterói e Rio de Janeiro –, que aconteceu na manhã de hoje, supreendeu não só pela mobilização dos passageiros, mas pela tática adotada para conter a manifestação: um forte aparato de segurança, com direito a helicóptero, e o adiamento do aumento da passagem, que aconteceria hoje, para o próximo sábado. A tarifa passará de R$ 2,80 para R$ 4,50 para o usuário que não tem Bilhete Único, ou R$ 3,10 para aqueles cadastrados no programa. O aumento de mais de 60% é definitivo e foi autorizado em dezembro passado pela Alerj, pouco depois de um acidente na Baía de Guanabara com uma embarcação ter deixado mais de sessenta pessoas feridas. Os passageiros, revoltados, começaram a se mobilizar pela internet, e um professor chegou a ser intimado por publicar um vídeo no YouTube convocando a população.
A companhia de transportes alega que o reajuste no preço vem para ajudar a saldar uma dívida contraída com o Estado desde o fim da década de 1990. Segundo a Barcas SA, o transporte de passageiros a R$ 2,80 estava gerando prejuízos. E este prejuízo poderia influir no bom funcionamento dos serviços – que vem deixando a população cada vez mais insatisfeita: filas enormes e superlotação das embarcações já fazem parte do dia a dia do usuário.
“Acho que foi na quinta-feira antes do carnaval que peguei coisa de uma hora na fila, aqui na Praça XV”, conta Amanda Souza, moradora de Niterói que precisa ir todos os dias ao Centro do Rio para trabalhar. “Não dava para ver nem o fim. Às vezes chega na Rua da Assembleia. Fora que a gente fica como um gado lá dentro. Vinte minutos apertados na frente do vidro, depois mais vinte antes do outro portão, até entrar naquela carcaça que demora quarenta minutos para fazer a travessia”, conta. A Barcas S.A. e a Agência de Transportes do Rio de Janeiro (Agetransp) - empresa responsável pela fiscalização dos serviços transportes do estado - foram procuradas pela Revista de História, mas não se manifestaram a respeito.
Se o aumento nas passagens vai solucionar os problemas históricos nas barcas, só o tempo dirá. O que se sabe é que não é de hoje que as tarifas dos transportes urbanos sofrem acréscimos sem que a população seja consultada; ou que passageiros se envolvam em protestos e revoltas contra o governo ou entidades privadas que administram os serviços, por conta do mal funcionamento dos veículos. Essa história é quase tão antiga quanto a velha capital da República.
Outras revoltas
Na década de 1950, por exemplo, a União Nacional dos Estudantes, que vivia em um constante troca-troca entre direções lideradas pela juventude do PCB e da UDN lacerdista, encampou uma massiva manifestação contra o aumento das tarifas dos bondes no Rio de Janeiro. Contando com o apoio de vários sindicatos operários e a clara simpatia da população carioca, a revolta marcou o mês de maio, e forçou o presidente Juscelino Kubitscheck a convocar o Marechal Henrique Teixeira Lott para suprimi-la. O “marechal da Legalidade” - como era conhecido o oficial após sua participação decisiva na defesa da posse de Juscelino em 1955 - invadiu o Rio de Janeiro com tropas do I Exército e cercou o prédio da UNE. A tensão só foi acalmada quando JK chamou o presidente da entidade, Carlos Veloso de Oliveira, ao seu gabinete para uma negociação. Resultado: um morto.

Barcas no centro da confusão
Em 1959, o mesmo iria se repetir, só que em Niterói. O serviço de barcas, na época, era organizado pelo Grupo Carreteiro, responsável pelo aumento sucessivo da tarifa. Naquela época ainda não havia a ponte Artur da Costa e Silva, mais conhecida como Rio-Niterói, o que tornava o traslado em barcas o principal meio de transporte entre uma cidade e outra.  No dia 21 de maio daquele ano, o Sindicato dos Marítimos e Operários Navais declarou greve, inativando boa parte da frota aquaviária. Na manhã seguinte, quando fuzileiros navais tentavam organizar a multidão de passageiros em fila na mesma praça Araribóia, um dos guardas atirou uma rajada de metralhadora para o alto. Foi o estopim que detonou a frustração dos populares com o serviço.
Imediatamente, os usuários invadiram a estação e atearam fogo tanto na construção quanto nas embarcações atracadas naquele porto. Alguém teria dito, no meio da confusão: “Vamos queimar a casa desses ladrões!”. E os manifestantes rumaram aos gritos ao bairro Fonseca, onde ficava a mansão da família Carreteiro. As propriedades da família foram destruídas pelo fogo e, no dia seguinte, um bilhete foi encontrado escrito na parede: “Aqui jaz a fortuna do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”. Jornais locais chegaram a descrever Niterói como uma “Bastilha” e o número de mortos surpreendeu: seis no total, com mais de cem pessoas feridas. O governo estatizou o serviço, que só voltaria a ser privatizado nos anos 90.    
Ônibus em chamas
O principal meio de transporte público urbano do Rio de Janeiro também não poderia ficar fora dos atos contra aumento de tarifas ou problemas nos serviços. Os ônibus, desde seu aparecimento nas ruas e avenidas do estado, são os grandes protagonistas quando se fala em problemas no setor. Em 1987, por exemplo, quando a Fetranspor anunciou que haveria aumento na passagem dos coletivos - com Moreira Franco no governo estadual e Saturnino Braga na prefeitura do Rio de Janeiro -, revoltosos se concentraram na Cinelândia e acabaram entrando em confronto com a polícia. A cena teve direito a bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e pedradas. Não deixando a dever nada às manifestações de maio de 1968.


Protesto no Império
Mas todas estas revoltas populares sempre deverão algo à virada de ano de 1879/1880, quando abolicionistas, republicanos e, principalmente, usuários do serviço de bondes da Corte Imperial, reuniram-se para protestar contra a lei que impunha um imposto sobre o preço das passagens, aprovada pela Assembléia Geral do Império, em outubro. A revolta localizada contra o aumento somou-se às causas e ideais que mais abalariam a década de 1880. Lopes Trovão, uma das mais renomadas lideranças do movimento republicano no Rio, discursou em uma manifestação marcada para o dia 28 de dezembro, que ocupou o campo de São Cristóvão, próximo ao Palácio Imperial. Os manifestantes tencionavam entregar um abaixo-assinado contra o imposto a Dom Pedro II, e foram impedidos em sua marcha por um grande contingente policial liderado pelo chefe de polícia Feliz José da Costa e Silva.
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN

O monarca comunicou depois a Trovão que receberia uma comissão para tratar do assunto, respondendo que o “povo não voltava, uma vez que lhe fecharam da primeira vez as portas do palácio”. No dia 1° de janeiro, nova manifestação foi marcada, agora no Largo do Paço, região central da cidade, com destino ao Largo de São Francisco. A reivindicação não era mais dirigida ao governo, mas ao próprio povo, pedindo simplesmente que este não obedecesse à determinação de aumento. No cruzamento entre as ruas Uruguaiana e Ouvidor um quebra-quebra generalizado irrompeu, com tiros disparados, trilhos arrancados e ataques aos condutores. Alguns dos burros que puxavam os bondes acabaram esfaqueados.
A rebelião, nomeada depois de Revolta do Vintém, terminou com três mortos e algo em torno de 15 feridos, sendo controlada com a chegada de 600 tropas do Exército. Marcante para a história do Segundo Reinado, seus efeitos concretos foram sentidos alguns meses depois, quando em abril os diretores da companhia de bondes reivindicaram junto ao governo a supressão do imposto sobre a tarifa, que foi definitivamente extinto em julho de 1880.



sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Insomnia Scriptum

Uma espécie de insônia resultante de uma espécie de cansaço que não se deixa vencer se for para ver você dormindo entregue. Como uma rima boba, como uma música já feita e um momento que por se repetir não perde o sabor de novo, o sabor do gesto, ainda que imóvel.

Todas as bobagens lidas ao longo do dia pairam um pouco na mente como uma saudade clichê e uma vontade de que possa ser um pouco mais outra coisa - e a tal não vocação ou falta de vontade se confunde. Depois de feito, depois de fato, não adianta lavar o hábito que já grudou no corpo - por menos santa que seja a lingerie por baixo.

domingo, fevereiro 05, 2012

Rascunho para uma Caroline: Pesquisar ou descobrir?

Eu tô cansada de tanta babaquice, tanta caretice... 
dessa eterna falta do que falar....

Para se ler ao som de Vida louca vida.

Para uma Caroline

O tempo passa a cada minuto. Meu cabelo não é mais o mesmo, a pele, os olhos, a extensão dos músculos - e a juventude é tanta ainda que nem parece. Olhando ninguém diz. Preces antigas aparecem num espelho estranho. Na sua idade eu já era assim e só tenho pra te dizer que mesmo depois que tudo mudar - e tudo vai mudar, e como vai com direito a exclamação seca - nada muda. As angústias, desesperos, vazios, loucuras não são diluíveis em álcool, fumaça, diplomas ou mesmo tintas de caneta. Não importa o quanto você pire ou encarete; não importa quantas vezes você vai se apaixonar ou quebrar a cara; não importa o quanto você pode ficar orgulhosa de si mesma ou o quanto pode se arrepender contemplando os próprios fracassos e olheiras no espelho. Não importa se você vai escolher certo ou errado, se nós já bem sabemos que apenas a tristeza consegue ser assim tão exata. No fim das contas é só a procura que vale. Não tem a ver com os cem caminhos versus os outros noventa e nove, a vida tem muito mais curvas, esquinas, estradas e, como você já deve ter percebido, ninguém dá nenhum mapa, tutorial, ma-nu-al.

Isso significa dizer que tudo o que eu queria te dizer é que vai sim, vai ser sempre assim - como dizem as músicas e os livros e os poetas: esse vazio ninguém preenche nem tem a obrigação de. A busca desencontrada é só sua, por isso, vá reunindo as poucas coisas e pessoas em que pode se agarrar.

Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve como borboletas que às vezes podem parecer e se transformar em anjos. Esse sangramento que ninguém estanca é o que vai te manter viva quando você achar que não é capaz de. O sangue é seu e ninguém pode ou sabe tocá-lo ou saber o que fazer com ele. Portanto, faça. E se descobrir me conte.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Era para ser qualquer coisa e pode ser qualquer coisa. Podia parecer vertigem ou dia de sol no meio da chuva, no meio do tempo, no meio da carro. Era para ser inteiro mas ficou parecendo metade por alguma falta de calor e ficou parecendo uma dívida eterna, dessas boas de pagar em pequenas prestações para não se desvencilhar de nada.

Mas aí é outra coisa, como sempre inominável - e fica tudo sendo coisa e parecendo igual quando é completamente diferente e tem só no não nome uma semelhança. Tá tudo bem quando a gente não precisa mesmo de palavras para chamar, pois olhares, suspiros e melodias simples dão conta do recado. Poderia ser um bilhetinho (azul ou de todas as cores que existem) ou uma mensagem gravada em uma secretária eletrônica que já não existe. Não há problema se já somos de outro tempo, se o tempo é nossa ocupação.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

O sumiço é sinônimo de descanso. Um descanso cansativo como a vida sempre é, porque quase nunca dá pra descansar a cabeça e o corpo ao mesmo tempo, mas dá para ir somando os momentos alternados e ver que o resultado é aquela felicidade doce, uma certeza vaga de que eu não queria estar em nenhum outro lugar agora. Aquela felicidade completamente diferente das que prometem, vendem e alugam por aí - com direito a muitos sujeitos indeterminados que a essa altura do ano é melhor deixar para lá.

As marcas do corpo mudam um pouco. O corpo, a pele, os ouvidos são outros. Cada coisinha nos faz pessoas novas, ainda mais em épocas de renovação. Mesmo em meio a trabalho duro, o sol brilha, os dias brilham, as pessoas brilham, o sol nasce, se põe, a noite cresce bonita e venta luares doces, clichês deliciosos e momentos indescritíveis, irrepetíveis, maravilindos porque partilhados.

domingo, janeiro 08, 2012

Estradas, trilhos e muitos e variados caminhos

Eu quis ter feito um post de fim de ano, ainda no clima de natal, com agradecimentos a pessoas que tornaram a barra pesada que foi dois mil e onze um pouco mais leve. Mas aí o ano acabou e ficou fora de contexto. Depois eu quis fazer um de boas vindas pro ano, com promessas, energias vibrantes que inauguram coisas, mas aí passou também. Hoje já é dia oito, já tem mais de uma semana que o ano começou e, passado o deslumbre inicial, a vida vai continuando, plena e saltitante.

Dois mil e onze foi um ano que demorou muito a passar, tanto que merece ser escrito assim, bem por extenso. Dias longos, dores longas, trabalhos árduos e intermináveis, momentos de desespero - uma das partes boas foi uma espécie de reconciliação com esse espaço aqui. Recapitular o blog esse ano é passar um pouco por tudo o que passou. Vai passar, disseram dado momento. E não era mentira. Que bom. São sempre moinhos os monstros gigantescos, mas a gente só percebe isso depois de sair em migalhas. E eu me pergunto se monstros gigantes não seriam mais amenos, mais leves...

A sensação que eu tenho (acho que até já disse isso aqui alguma vez, sou sempre muito repetitiva) é que a cada ano - poderia dizer a cada dia, não fosse a época de ciclos outros - as coisas, digo, a vida fica mais densa e mais intensa. Nos problemas e nas sensações maravilhosas pelas quais passo. Dores indescritíveis, alegrias mais indescritíveis ainda é o que deixa o tal do doismileonze. Deixa também uma vida completamente diferente e inimaginável há uns meses atrás. Os abismos foram fundos a ponto de usar essa metáfora clichê - e os voos estão sendo altos.


segunda-feira, dezembro 05, 2011

Agora falta pouco para o mundo mudar de cor -  e ele já tem muitas cores. Tem coisas que a gente não diz, as mais difíceis de engolir. Há coisas que é preciso gritar, lutar contra. Um gosto amargo e pastoso na boca, é isso que depois se converte em sulcos que gritam nas horas difíceis. É difícil se posicionar o tempo todo, ter força e voz o tempo todo. Mas a gente vai tentando com a certeza de que não ser fácil não é motivo bom o bastante para não fazer. Vez ou outra a gente até é surpreendido positivamente. Outras vezes não - e aí vale a pena chorar, gritar, xingar desde que depois passe e a gente saiba olhar o sol que nasce todos os dias. Depois passa, sempre passa.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Compromissos, birras e frases ríspidas


Não posso negar que tenho o defeito de me sentir injustiçada. Sabe aquela mania que a maioria dos seres humanos têm de se encerrarem dentro de seus casulos cinzas achando que os seus problemas são os maiores do mundo? Então... Acho que eu passo uma boa parte do meu tempo enxergando moinhos enormes que não me deixam dar sequer um passo de tanto medo. Eu posso até saber que existem sofrimentos muito mais graves, mas, por mais que eu me solidarize com a dor do outro, não tem jeito, é só a minha que dói na minha própria pele. E dói bastante, bem mais fundo que a pele até. Às vezes dói no estômago, noutras ardes nos olhos insones, nas pernas esticadas ou dobradas, a depender das circunstâncias, por mais tempo do que deviam e queriam. Há os momentos de doer nos braços e nos ombros o peso; além das mãos, a escrita infindável (quem falou que escrever não é trabalho braçal nunca teve de dar aula escrevendo no quadro por um dia inteiro). Da cabeça não se fala, a falta de sono, a visão que parece diminuir a cada dia ignorando a minha aparente juventude.

Doem as contas, os prazos, as cobranças, as datas, as horas que passam, os passarinhos que começam a cantar, desaforados e lindos, antes que eu durma, o sol que nasce agredindo, de novo, os pobres e exaustos olhos. Dói a minha ausência de mim, das pessoas que amo e que pouco vejo nascerem, crescerem, envelhecerem. São dores pequenas que se somam e que eu sei que são pequenas e minhas. Não saem das minhas paredes, não são despejadas em cima de ninguém. Não se convertem em lamúrias para amigos - dos quais prefiro mesmo me afastar para não ficar uma pessoa chata e lamurienta. Daí que vem a outra dor, a da incompreensão.

Uma das coisas de que não gosto na vida é quando colocam o lazer na esfera da obrigação. Sabe quando você marca de ir à praia num lindo domingo de janeiro e reclamam da sua meia hora de atraso? Este é só um exemplo, pois nunca tive o hábito de me atrasar. Me entristece que as pessoas criem ainda mais causos e sofrimentos pelas minhas ausências, transformem-nas em ainda mais cobranças como se fosse porque eu gosto que fico noites em claro trabalhando, como se eu amasse trabalhar aos sábados e ter ainda uma vida para resolver no domingo, antes que chegue a segunda-feira e atropele o tempo, criando mais bolas de neve insolúveis.

Dois mil e onze tem sido um ano difícil, de muitas (in)definições que eu espero que passem junto com o calendário. Muitos abismos e poços cujo limo já entranhou na minha pele de um jeito que eu nem sei quantas águas de janeiro serão necessárias para limpar. Mas tenho fé e boas esponjas de banho. O que eu não preciso é de pessoas que agravem mais do que eu os meus problemas. Pessoas que criem cobranças dentro das cobranças quando o papel de amigos poderia (poderia, apenas, pois não acho que ninguém deva nada a ninguém na vida) ser acompanhado de compreensão, apoio, afeto, sei lá, essas coisas que a gente diz em cartas da adolescência e depois ficam perdidas em gavetas antigas. Essas coisas que a gente vai deixando de ser e nem percebe. Quando vê sobram só compromissos, birras e frases ríspidas.


segunda-feira, outubro 31, 2011

A flor e a náusea (sempre ela)

As pessoas escrevem para serem lidas. Grande obviedade, grande verdade da vida, grande frase grande que todo mundo esquece. Algumas escrevem para uma pessoa em especial, umas em especial.

Lembro que, na época da escola, eu gostava muito de me gabar da minha incrível capacidade de perceber logo como era o meu principal público leitor e bem rápido cativá-lo. Um egoísmo estranho me fazia transferir o mérito (sim, ele existe para alguns) das minhas queridas professoras, que conseguiam me ensinar como escrever argumentos passáveis, para o meu imaginado talento retórico.

Também já achei que escrita era uma questão de imaginação. A história mais criativa, com alguma beleza de acréscimo venceria. Sim, a disputa tinha de estar em jogo. Depois eu descobri que podiam se danar os outros, que eu ia continuar amando as que fossem mais bregas, dolorosas, sofridas, que tocar era sinônimo de sangue, o mais quente e mais abundante. Hoje eu tendo a achar que foram as tais adoráveis professoras que me convenceram erroneamente de que eu tinha algum talento para brincar com as palavrinhas - será que um dia eu aprendo a deixar de culpar as pobres e assumo as minhas próprias contas e riscos? - e que os meus insucessos são fruto de uma falsa fé somada a um não talento.

Passei também pelo tempo de achar que o segredo das palavras está na intensidade com que você ama os musos e as musas, passaram alguns, ficaram outros, deixaram versos, contos, textos e uma preguiça emocional de reviver cada coisa para revisar cada texto. Também teve o tempo de amar os grandes e ler exaustivamente para ver se transpirava do papel algum talento que molhasse as minhas mãos. Se eu disser que não funcionou será mentira, porque amo ser "a última geração que sabe versos", como dizia Caio de um si mesmo que ele não era.

E nesse desabafo aqui que tinha o objetivo inicial de dizer que a gente escreve para si mesmo e para o outro e o outro lê a si mesmo e acha que te lê e ninguém nunca se entende, lembrei que hoje é dia de Drummond - e que é bem melhor falar dele do que o quer que seja.



"Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horasda tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

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Quanto às tão criticadas professoras de português, a elas a minha gratidão eterna pelo incômodo que me formiga a cabeça toda vez que leio um absurdo, seja maior ou menor que este aqui.


quinta-feira, outubro 13, 2011

Quem é mais vulnerável ao preconceito?

Domingo passado teve Parada Gay em Copacabana, terceiro maior evento cultural do Rio de Janeiro, segundo o Grupo Arco-Íris. Não sei se isso é algum tipo de mérito, fico mais tentada a acreditar que esse é mais um argumento para os que criticam a participação que as boates têm nessa história. Não quero entrar nesse mérito da questão, para mim, a grande importância do evento consiste na visibilidade provocada pela avenida Atlântica pintada das cores do arco-íris e dizendo que uma grande parcela da população é privada de muitos direitos. Aliás, bato palmas para o destaque muito maior dado às frases de luta e, para os críticos de plantão, o menor espaço que as boates tiveram esse ano.

Milhares de pessoas já estão na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a expectativa da organização é de 1 milhão de participantes. Foto: Gabriel Macieira/Especial para Terra

Além de tudo isso, entre os objetivos da Parada estão a divulgação de informações consideradas importantes para a comunidade LGBT (perdoem se a sigla estiver errada, é que muda muito...). É aí que está a pergunta que está na minha cabeça desde domingo e que me leva a escrever isso aqui agora: consideradas por quem?

Durante o evento, sempre são distribuídos panfletos sobre assuntos como criminalização da homofobia, religião (ao contrário do que conservadores de plantão podem pensar, me refiro a panfletos de igrejas que acolhem homossexuais), união estável, propagandas de boates e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Até aí, tudo bem, informação nunca é demais. O problema está em um desses papeizinhos que fala da importância de prevenção devido à maior vulnerabilidade da população LGBT ao contágio de algumas doenças.

Reproduzo aqui o trecho pois não encontrei o folder inteiro no google (pasmem!) e estou com preguiça de scannear: "O Ministério da Saúde preconiza e disponibiliza a vacina [contra hepatite b] no Sistema Único de Saúde (SUS) para os grupos de maior vulnerabilidade, independente da faixa etária. Entre eles, destacamos: Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais; mulheres que fazem sexo com mulheres; homens que fazem sexo com homens".

Além das dúvidas que tenho quanto essas duas últimas "categorias" sexuais (quem sou eu para rotular se as pessoas querem criar mais uma?), fiquei me perguntando sobre o embasamento biológico dessa vulnerabilidade, já que a cartilha do Ministério da Saúde sobre o assunto descreve as formas de contágio sem apontar esses grupos de risco.

O mesmo folheto incentiva a realização do exame que diagnostica a presença do vírus HIV. Claro que realizar o teste é importante, mas... Eu não sou ingênua a ponto de perguntar quem foi que disse que homossexuais são as vítimas preferidas da Aids, porque eu sei que muita gente já disse isso. Não querendo me valer do órgão oficial da saúde como única verdade sobre doenças, mas no que diz respeito à Aids, o Ministério menciona sim os homossexuais. Entretanto, ao contrário do que muita gente ainda pensa, para dizer que os cuidados relativos à população LGBT nesse caso se deve ao estigma e ao preconceito imputados. Para o espanto de muitos, o portal destaca ações específicas de prevenção entre jovens, mulheres e presidiários.


Obviamente, nem tudo são flores no reino do Ministério da Saúde, já que até a campanha que critica o preconceito (acho muito legal o slogan "A Aids não tem preconceito, você também não deve ter") diz que as pessoas são corajosas por exporem sua soropositividade. Não sei se esses jovens-selecionados-de-acordo-com-o-padrão-de-beleza-vigente são realmente soropositivos, procurei o site indicado para ter maiores informações e - tcharam! - o link está corrompido (o que também explica essa imagem pela metade aí, desculpem). Acho importante que as pessoas desassociem a doença daquela imagem do doente terminal dos anos 1980, mas acho pouco provável que substituir pelo padrão de beleza dê conta de desconstruir preconceitos. Para mim, Aids não tem cara e ponto.

terça-feira, maio 24, 2011

Oração da Banda mais bonita da cidade

Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor
Essa é a última oração pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe essa oração

quarta-feira, setembro 15, 2010

Capítulo 2 - "Concreto e asfalto"

Carregando umas poucas coisas numa sacola e muitas outras no estômago e até no ventre. A primeira porta em que ousou bater foi a segunda cujo estampido do fechar não quis ouvir. Dario nem mesmo estava em casa e, sua mãe, sempre tão amável e simpática, ofereceu um dinheiro suficiente para que Lúcia não esperasse para assistir à cerimônia do casamento dali a dois meses e se livrasse de pelo menos um dos pesos que carregava dentro de si. Quando a notícia do ma-tri-mô-nio enfim concretizado chegou - através de uma carta de seu irmão -, Lúcia já tinha até um casa onde receber uma carta. Tinha também um travesseiro onde esconder o rosto para chorar todas as habituais últimas lágrimas de sua vida. Na carta, seu irmão dizia que a festa tinha sido bonita e quase toda a cidade estivera presente. Lúcia sentiu uma ausência enorme naquela cidade de presença inestimável em que agora vivia. Respirou fundo para conter as lágrimas, sentindo a fumaça e a poeira inebriarem as partes do seu dentro cada dia mais pesado.

domingo, maio 24, 2009

Sensorial

É que as palavras não dizem. Ainda que vastas, não bastam. Mesmo assim teimo e vou dizendo silêncios e silêncios, assim, em sussurro no ouvido - como verdades grandes.

Dizendo pelos poros, pelos pêlos. Pelos cílios que se encontram por acaso na luz branda da escuridão. Pelos olhos que brilham no encontro do espanto, no espanto do encontro, no deslumbre do encontro que é sempre o primeiro. Os silêncios gritam, quase como um velho cliché - mas um cliché único, novo, des-lum-bran-te. O encontro diário.

Daí que os olhos se lêem depois. Os olhos conversam, se entendem. Os olhos se sabem de um jeito, ainda que não se enxerguem direito, ainda que na escuridão profunda das madrugadas.

Então, os lábios conversam, trocam as mais indizíveis palavras.

Então, as almas se lêem à revelia do poeta - os corpos e as almas entrelaçados no gesto único.

As almas brilham à luz da manhã como o sexo no escuro. As palavras afinal são poucas, mas se desdobram em dizeres múltiplos pelos diferentes sentidos.

Pode sentir?

terça-feira, setembro 23, 2008

Poema medíocre

Eu estou com vontade
de me reescrever inteira.
Reinscrever-me
num molde de areia
pra esperar o mar
vir desfazer.

Remoldar tudo.
Reviver tudo.
E me entrego à pena,
a duras penas
- a trocadilhos infames -,
mas não sai nada.

Tudo o que eu digo
parece piada.
O que escrevo
me soa desejo
de ficar deitada na pedra
esperando
a Vida vir e me dar
de presente
uma nova personagem.

Mas todas as que me vêm
parecem já antes forjadas
ou desbotadas.

Toda minha poesia
de repente
me soa forçada.
Meu caderno
parece vitrine,
minha vitrine,
um caderno guardado.

Até minha psedo-meta-poesia
sobre a vontade de ser
se foi sem final -
me deixou vazia.

Hoje eu não sou é nada.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Perigoso

Porque a fé é azul,
o amor é cinza
e a raiva amarela.
Porque todas as coisas
só existem quando e porque
a gente precisa delas.
E principalmente porque o desejo...
Ah, o desejo tem várias cores,
o desejo tem várias horas.
O desejo é vermelho,
um puxão de cabelo,
uma cicatriz no tórax.
O desejo é branco,
pratos limpos,
termos claros,
versos tantos.
O desejo é róseo, rígido e calado,
o desejo é até meio azulado
- como bem o são as segundas-feiras -
O desejo oscila entre claro e escuro,
conforme a luz: apagada ou acesa.
O desejo é chuva, é ponto de ônibus,
é banco de carro, rede, chuveiro e chão de quarto.
O desejo chupa, cospe, ou só roça a mão de leve
e depois me põe no colo
e diz o quanto me merece.