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sexta-feira, outubro 19, 2012

No tempo das cartas



Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2012.

Moças,
 
Ontem de madrugada eu fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas e na nostalgia-cliché e sem fundamento que eu sempre tive dele. Imagino que eu pertença à primeira geração que não escreveu cartas, por isso fica essa vontadezinha. Talvez nem seja a primeira, mas deixe-me construir artificialmente a minha importância no mundo. Nessa atitude cotidiana que é a construção da memória, tenho a sensação de que eu passei a infância inteira esperando a minha hora de fazer aquela coisa-de-gente-grande e aí, quando chegaria a minha vez, alguém danou de popularizar o computador e acabou com a minha festa. Quase como quando eu era mais nova, via as minhas irmãs vivenciando coisas e esperava ansiosa a minha vez para dar de cara no conhecido muro da frustração - como quando eu esperei que chegasse a minha vez de encenar Calabar na escola e aí veio a Gota d'água* no lugar...

Voltando às cartas, eu até tentei. Algumas pessoas tentaram comigo, fizemos projetos, planos, escrevemos algumas bem artificiais. Teve até o tempo de tentar adaptar essa vontade louca e anacrônica aos novos tempos, mas não adianta, emails são frios. E ontem à noite, quando fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas, teci algumas considerações definitivas sobre isso - dessas que a gente tem pouco antes de pegar no sono e que na hora dão uma certeza categórica de que está naquilo a solução para todos os problemas da humanidade.

Na hora, eu pensei que se fosse o tempo das cartas, eu levantaria e batucaria tudo isso na máquina de escrever. Serviu como desculpa para a minha preguiça, mas as constatações sobreviveram à luz da manhã. Fiquei pensando que o legal das cartas é você dizer uma coisa influenciado por uma determinada atmosfera de emoções e ter a certeza de que quando o destinatário ler, já se estará sentindo coisas completamente outras. E aí a pessoa responde de um jeito, porque aquela atmosfera a toca de um jeito e quando a resposta chega você pensa "caramba, eu tava assim tão mal nesse dia para o fulano ficar tão preocupado?", mas você não sabe, porque aquilo que você escreveu não está na sua pasta de enviados. Só a memória mesmo... essa memória que apaga as coisas difíceis de lidar e substitui por outras, coloca infinitas repetições que nos desviam daquilo que é realmente importante. E aí a gente responde que 'tá tudo bem, que não é o caso para tanta preocupação.

Ontem eu tinha destinatários, eu tinha coisas grandes e graves para dizer. Tinha também coisas bobas, comentários vagos e ingênuos sobre filmes e livros, conselhos categóricos sobre a vida, agradecimentos grandes para coisas miúdas e doces. Eu não levantei para escrever, mas eu confiei que um abraço e um beijo transmitido à distância pudesse dizer o valor que tem um pequeno gesto, uma pequena presença que nem é tanta quanto poderia, deveria, quanto a vontade quer. Eu escreveria a vocês que sinto muita falta de ter vocês mais perto, de conversar mais. Isso. Que eu gosto muito de conversar com vocês. Antes de qualquer coisa (não que o afeto seja uma coisa pequena), mas que a amizade pode ser inspirada por muitas coisas diferentes, nesse caso é muito pelas coisas que é possível dizer a vocês e as outras que eu ouço de volta. A escolha do verbo ouvir é pra dizer que se eu tivesse escrito uma carta ontem, ela diria que a sua voz fez falta, ainda mais quando eu soube que sua garganta não ia bem. Cartas têm isso, não é? Preocupações cotidianas, votos de boa saúde, porque a gente nunca sabe como a pessoa vai estar quando receber. Por isso - e por muito mais coisas - deixo os mais profundos desejos de todas as coisas boas.

Quando eu acordei, entendi que toda essa calma, toda essa gratidão e, principalmente, toda essa ludicez vinham da rara sensação de conforto que vocês deixaram ao sair [mesmo que não tenham vindo todos, vocês de alguma forma vieram todos]. Entendi que às vezes, tudo o que eu preciso é de uma boa refeição e um banho quente pra recomeçar a vida.

Obrigada por continuarem no recomeço.







* Calabar e Gota d'água são peças de teatro escritas por Chico Buarque, a primeira em parceria com Ruy Guerra e a segunda com Paulo Pontes.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Sob esse prisma...

Para Carol e Lissandra.

Para ler ao som de Alívio imediato (Engenheiros do Hawaii).

Será que leitor vira personagem? É que não é qualquer coisa saber que de alguma forma a minha válvula de escape ajuda a escoar angústias outras, pensar que as minhas madrugadas insones povoam as manhãs atarefadas e sufocadas de quem fica longe-perto.

As coisas mudam, as pessoas mudam, átomos se dividem e se esfumaçam em desenhos feitos com a ponta dos dedos no pára-brisa do carro. Os ciclos começam e terminam, as bolhas fazem-se necessárias até o momento em que estouram. É difícil pensar em uma parte só, é difícil observar o quadrado da mesa distorcido em um triângulo, mas a gente precisa aprender a lidar com as novas formas que a vida desenha - que a gente rascunha, esboça e depois fica tentando ajeitar sem cair no cliché dos clichés de que a vida não tem borracha, comparação tão desnecessária para quem sempre se orgulhou de só saber usar caneta.

As lembranças ficam, o desconforto, o não-saber-lidar, as conjugações inapropriadas para os verbos, a curiosidade e a necessidade de entender são inevitáveis. Daqui a um tempo passa, cicatriza, vira piada e quem sabe a mesa não se preenche em risadas leves outra vez? É só uma questão de construir um mundo em que isso caiba.

Sentir-se em casa no mundo é sensação dos tolos, o desconforto - e por que não dizer, o desespero - existe naqueles que sabem que a vida pode ser mais, nos que viram e sentiram na ponta dos poros que a vida pode ser mais do que consentimento. A vida é vontade e a gente segue. Com carinho, respeito ao outro e a si mesmo para ir fazendo cada pedacinho de um mundo que possa ser chamado de nosso. Pode não ser possível implodir esse que nos atira bombas todas as manhãs, nos desampara.

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Não saberia dizer quanto tempo fazia que estava andando. Os saltos altos, ainda que não fossem muito finos, causavam um desconforto no calcanhar. Nada que parece motivo o suficiente para parar, os outros também não paravam, seguia. A roupa era apertada demais, parecia tornar os passos mais lentos, mas se todos andavam, devia mesmo ser preciso continuar. A maquiagem soava pesada demais àquela hora do dia, oleosa demais para o calor daquela cidade, mas, mais uma vez, ninguém parecia se importar com isso. A impressão que tinha era a de que todos acordavam todos os dias sem sentir todos os incômodos que povoavam sua cabeça com excesso de grampos e fios esticados por excessos de calor. Ninguém parecia perceber. Todos mantinham suas expressões impassíveis, sóbrias, eficientes, imutáveis - e caminhavam. Barulhos ritmados do atrito das solas no chão.

No meio da pressa e vigiada pelo relógio, todas as manhãs ela segue o protocolo, sente a maquiagem que lhe cobre o rosto, as roupas que lhe apertam as pulsações da pele, os saltos que parecem aprisionar seus passos invariavelmente destinados ao mesmo lugar. Ir vir, vestir, despir, bater o cartão, a continência, fazer a ronda, a guarda, a prova, sorrir, preencher, assinar, submeter, anular o que a gente nem sabe porque nunca viu que pode ser diferente até o dia que...

Um dia acordou e repetiu todo o protocolo ensaiado de todos os dias, mas sem querer um grampo escapou dos cabelos, rodopiou fugitivo entre as mãos e foi sugado pela força gravitacional. Como seria o mais lógico a fazer, ela abaixou e olhou para baixo a fim de pegar o objeto. E foi assim: quando parou de andar, quando deixou escapar um detalhe de sua perfeição, quando não seguiu seus passos no mesmo trote de todos os outros, quando afrouxou de leve o pano da roupa para conseguir abaixar, quando pensou em levar a mão à testa para enxugar o suor que se formava da mistura de pós e tintas que lhe cobriam todos os dias o rosto. Ela olhou e descobriu que não havia chão.