Páginas

Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, maio 23, 2012

Peintre

 Uma conciliação necessária e estranha. O desprezo do indescritível se mostra em imagens, em profanações muito mais cortantes do que dramas mal contados. Uma questão de abrir-se, abrir espaço para o nu absoluto. Há quem tenha escolhido viver, contar, cortar a garganta e colocar na mesa o sangue, as linfas, obrigar os outros a viver com o desconforto que quiseram negar.

A arte pode ser pretexto, mas também pode ser o único meio de expurgar a dor que o ópio não resolve. Andar nas ruas pode ser uma maneira de filtrar o espanto, deixar que apenas o horror dos outros transmita o reflexo que não se quer de espelhos e fotografias caladas de pavor.
A ousadia de quem agoniza em praça pública, de quem vive exibindo a morte pulsante, quente, sorridente sem que ninguém tenha pedido para ver, a repulsa é maior, mas há armas. Há armas. Há armas. E há vida para além de histórias a serem contadas. Não que estas...

"Era um amor de uma tensão extraordinária que passava entre aqueles dois olhares, daquele que se concentrava pintando, e daquele que se concentrava sendo pintado. Era uma atividade física que teria tornado irrisória a atividade erótica, que ela compreendia sem exprimir, nem é preciso dizer. Mas a mesma coisa poderia ser contada de maneira bem diferente, poderia tomar dez páginas assim como algumas linhas luminosas que conseguiriam tudo relatar mas que eu não achei. É o acaso e o desespero da escritura que assim coagularam esse episódio, até que eu o rasgue e recomece, sem cessar, sempre o mesmo, até a loucura, até o silêncio" (GUIBERT, Hervé. O homem do chapéu vermelho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996. p. 80.)

quinta-feira, abril 12, 2012

Inteligir o mundo em palavras é muito difícil. Em silêncio também. Nem digo o mundo, porque o mundo é assim tão tão grande e desconhecido para se pensar em inteligibilidade. Quando digo mundo, não tem muito como ser algo muito extensível aos meus sentidos, o meu mundinho ou o eu-mesma. A própria caligrafia falha na insegurança da tentativa e se disfarça em letras já desenhadas que poderiam parecer mais seguras em teclas. Sei que não parecem, não adianta passar a limpo, fugir das linhas do caderno ou externar na esfera pública e inexistente.

A Literatura pode ser muito tocante, mas ela não define. E na frustração de não definir, também não alivia. Álcool também não, cigarro também não, mas às vezes trocar a angústia por uma tontura mais física, por uma onda mais solta... A Literatura não tem o poder de retirar uma angústia que não consegue definir, que não se sabe sequer se é singular. Eu não posso definir, eu não sei se sou singular. Não adianta nem mesmo buscar traduções em outras línguas. Ela não pode descrever um sentimento, ela talvez possa criar sensações que nos ajudem a esquecê-los. Ela não pode evitar a loucura, não pode sequer exprimi-la - ou espremê-la. Ela não consegue, no correr em curvas e linhas tingidas, no desdobrar-se em palavras que não gastam sangue nem papel, minorar o tremor das mãos. Eu também não posso.

quinta-feira, março 01, 2012

O que é isso, Fernando?

O começo do eterno retorno faz com que repita sem pensar um mesmo trajeto de anos antes. A sensação de um passado longínquo corresponde mais à falta de reais distâncias a percorrer do que a embaçamentos na memória fraca. Sempre foi boa - e, afinal, foi mesmo ontem, não haveria razão para. Fato é que o tal do novo tão temido, desnorteador, desestabilizador, que há não muito cegava, provocava suores, insônias, pesadelos e angústias. Estas últimas também mais por hábito, dependência, vício que realmente por reação a acontecimentos reais.

Nenhum acontecimento real. Nenhuma novidade maior que a de pegar de volta os mesmos caminhos, voltar aos mesmos lugares, olhar nos mesmos rostos. De um lado duros, cheios de obstáculos para perpetrar. De outro ansiosos para que eu traga-lhes também um caminho, alguma coisa perto de uma certeza, uma forma próxima de concreta. Nenhum dos dois lados sabe o quanto não posso oferecer nada disso. Não sabem que trago as mesmas perguntas, os mesmos desejos de achar respostas. Talvez para um dos lados eu seja ainda muito ingenuamente sonhadora e para o outro demasiado incrédulo, no sentido de uma desesperança no que concerne a achar as respostas.

O que não sabem, ninguém sabe. É que todos fazem parte de uma mesma procura cíclica, cansativa e estimulante. Como uma escada, um medo, uma ponte ou um passo de dança. Sempre sem interrupção.

domingo, fevereiro 05, 2012

Rascunho para uma Caroline: Pesquisar ou descobrir?

Eu tô cansada de tanta babaquice, tanta caretice... 
dessa eterna falta do que falar....

Para se ler ao som de Vida louca vida.

Para uma Caroline

O tempo passa a cada minuto. Meu cabelo não é mais o mesmo, a pele, os olhos, a extensão dos músculos - e a juventude é tanta ainda que nem parece. Olhando ninguém diz. Preces antigas aparecem num espelho estranho. Na sua idade eu já era assim e só tenho pra te dizer que mesmo depois que tudo mudar - e tudo vai mudar, e como vai com direito a exclamação seca - nada muda. As angústias, desesperos, vazios, loucuras não são diluíveis em álcool, fumaça, diplomas ou mesmo tintas de caneta. Não importa o quanto você pire ou encarete; não importa quantas vezes você vai se apaixonar ou quebrar a cara; não importa o quanto você pode ficar orgulhosa de si mesma ou o quanto pode se arrepender contemplando os próprios fracassos e olheiras no espelho. Não importa se você vai escolher certo ou errado, se nós já bem sabemos que apenas a tristeza consegue ser assim tão exata. No fim das contas é só a procura que vale. Não tem a ver com os cem caminhos versus os outros noventa e nove, a vida tem muito mais curvas, esquinas, estradas e, como você já deve ter percebido, ninguém dá nenhum mapa, tutorial, ma-nu-al.

Isso significa dizer que tudo o que eu queria te dizer é que vai sim, vai ser sempre assim - como dizem as músicas e os livros e os poetas: esse vazio ninguém preenche nem tem a obrigação de. A busca desencontrada é só sua, por isso, vá reunindo as poucas coisas e pessoas em que pode se agarrar.

Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve como borboletas que às vezes podem parecer e se transformar em anjos. Esse sangramento que ninguém estanca é o que vai te manter viva quando você achar que não é capaz de. O sangue é seu e ninguém pode ou sabe tocá-lo ou saber o que fazer com ele. Portanto, faça. E se descobrir me conte.

sábado, dezembro 17, 2011

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Estou há uns seis meses com esse livro em minha companhia com as recomendações de que seria ótimo, uma das obras primas da literatura recente. Tanto que assim que a maré de mil coisas a fazer baixou (e passei para o mestrado! êh!) optei por descansar a minha cabeça lendo o tal livro do Marçal Aquino, cuja foto de capa vocês podem conferir abaixo:


O problema é que depois que se começa a ter senso crítico na vida, isso não se restringe ao que é do âmbito acadêmico, não dá para desligar o botão quando se entra de férias. É bom levantar problemas a respeito das coisas ao invés de tomar tudo como simples deleite descompromissado porque artístico. Aliás, foi isso o que sempre me incomodou no universo das Letras e contribuiu muito para que a balança pesasse mais para o lado da História, um certo ar excessivamente contemplativo e estético que às vezes deixa de lado o contexto e os compromissos inalienáveis que toda obra tem com seu próprio tempo.

Isso tudo para dizer que Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é um livro que até tem seus méritos, mas é extremamente machista. Sabe aquela velha, desgastada e muito difundida imagem da mulher simultaneamente boa esposa e piranha para satisfazer o homem? Pois então... Eu estava lendo com muita boa vontade e curiosidade a trama até uma das primeiras cenas de romance (caso não queira saber detalhes da trama, interrompa sua leitura exatamente aqui, pois vou começar a fazer essa coisa chata, porém, extremamente necessária para dizer o que eu preciso dizer) entre o casal Lavínia e Cauby. A personagem masculina, que narra a história, encaminha-se para abrir a porta para sua amada e no caminho olha desconsertado para a pia cheia de louça com que receberá a visita, "Lavei as mãos na torneira do tanque e, a caminho da sala, passei pela cozinha: louças e talheres sujos se amontoavam na pia" (AQUINO, 2005, p. 34). Até aí tudo bem, né?, o cara tem todo o direito de olhar a sua própria louça. O desagrado iniciou algumas linhas depois e tornou-se completo nas páginas seguintes. 

Continuo com o spoiler: logo ao entrar, Lavínia "deu uma discreta avaliada no caos da pia ao passarmos pela cozinha" (Idem). Nesse momento as minhas sobrancelhas devem ter se retorcido um pouco pelo pressentimento ruim que se confirmou na página 36, quando "Depois de fotografar Zacarias, Lavínia entrou na cozinha e começou a lavar a louça acumulada na pia. Não, não faça isso [Cauby diz]. Eu gosto, ela disse" (AQUINO, 2005, p. 36, grifo, desespero e desgosto meus!!!!). Para fazer o trocadilho besta com o título, para mim, a pior notícia já estava dita.

Vocês vão me perguntar: "por que, então, continuar a leitura?". Não é porque eu gosto de sofrer, é porque eu não podia simplesmente tomar o livro todo por essa manifestação ridícula de misoginia com a clássica compreensão de que lugar de mulher é na cozinha. Não só isso, né?, tem o adendo que nós já ouvimos inúmeras vezes, de que modificar esse papel é ir contra a natureza da mulher, a prova cabal disso é que elas gostam de servir a seus homens, amam as atividades domésticas e nascem com vocação materna. Não larguei porque queria ver até onde isso iria e porque seria pouco justo julgar o livro apenas por essa cena. Vamos então.

Depois que o relacionamento entre Lavínia e Cauby começa a existir de fato, a personalidade da personagem feminina é construída, digo, as duas personalidades o são. O quê? Você não entendeu? Deixa eu explicar: lembra de Lucíola, aquele romance do José de Alencar, lá do século XIX (quando a gente até compreende, mas não aceita!, uma postura mais machista)? É, aquele livro em que a personagem feminina se desdobra em duas, uma casta e outra pervertida? Na verdade é a personagem pervertida que tem um passado triste que justifica ela ter sido desvirtuada do caminho justo de todas as mulheres. A impressão que eu tive é que a Lavínia-Shirley (jájá eu explico isso) é uma Lucíola-Lúcia do século XXI, tanto que no final ela até adquire um terceiro nome e, para a minha nula surpresa, passa a se chamar Lúcia!

Tá, mas deixa eu voltar um pouquinho para vocês entenderem. Lavínia na verdade é histérica, retomando aquela velha imagem de que quando a mulher foge dos padrões é literalmente rotulada como fora da norma, passa a ser considerada louca. Mais um chato cliché que Marçal Aquino nos traz. A diferença é que a 'loucura' de Lavínia é ter duas personalidades, o que para mim seria esquizofrenia, mas como eu não sou psiquiatra, eu vou fingir que não acho que ela dá o nome histeria porque é essa a doença normalmente atribuída às mulheres... Daí, Lavínia é a boa moça, casta, dona de casa, doce, dedicada e delicada. A outra é Shirley, a devassa (é, igualzinho à cerveja que fica reduzindo a imagem das mulheres à vulgaridade e sexo, como mostra esse anúncio em que o verbo pegar e a silhueta feminina, como de praxe, estão bem destacados), cujo apetite sexual é constante e está o tempo todo pronta para realizar todos os desejos de ambas as personagens masculinas, Cauby e Ernani. 

A pessoa que me emprestou o livro (uma grande amiga, porém, bastante sexista - a ponto de dizer isso com um quê de orgulho que me preocupa) disse para eu relevar esses detalhes e reparar na narrativa. Lembram do argumento estético meio vazio que eu falei no início, então... Mas eu não achei a narrativa nada demais. Algum dinamismo, mas não me prendeu. O que me fez continuar até o fim, como disse, foi querer saber até aonde aquilo iria.

Lembram que eu disse que o livro tinha seus méritos? No final, tem uma certa crítica a um protestantismo fanático que anda muito na moda. O problema (sempre há muitos, meu deus!) é que ela é um pouquinho mal construída, porque no fim das contas fica reduzida a um outro preconceito: com as cidades pequenas. A história se passa numa cidade de garimpo do Pará, que não recebe nome, sugerindo que cidade pequena é tudo igual mesmo. O desfecho pretende problematizar a classificação do que é e do que não é pecado, mostrando cristãos que apedrejam um suposto criminoso. Só que o que fica no ar é que a população do interior não tem muito discernimento, cai na conversa de qualquer um, pode chegar qualquer pastor ou empresário pilantra que leva todo mundo na lábia.


Por fim, o que era para ser a minha primeira leitura de férias acabou sendo uma decepção e mais uma constatação de que esse mundo precisa mudar. E que reforçar preconceitos, estereótipos e desigualdades não deve ser o papel de nenhuma arte.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

A morte dos girassóis


(Caio Fernando Abreu)

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: "Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira." Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: "É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo,e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral."

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa. Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei
uma fera. Gritei com o pintor: "Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?" O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então,como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra,exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para quecaíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?

Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.


terça-feira, novembro 01, 2011

"Tudo quanto não seja literatura enjoa-me e torna-se detestável para mim porque me importuna ou entrava, mesmo que seja hipoteticamente" (Diários, Franz Kakfa)

Não sei onde quero chegar indo a lugar nenhum nem me pergunto mais se eu sei o que é bom para mim se eu sempre caio nas minhas próprias armadilhas.

Repetir repetir repetir até ficar diferente.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Não se incomode


O que nos faz gostar de um texto, um livro, uma música etc.? Depois de um debate de que participei semana passada, em que um autor de quem gosto muito foi severamente criticado (um doce para quem adivinhar qual é o autor) fiquei pensando nos motivos que me fazem gostar das coisas e conclui que geralmente é a identificação. Já vi e li algumas tentativas de descrição da arte que passavam pela frase "Quando alguma coisa toca". Do alto de meu egocentrismo, eu percebi que só costumo achar alguma coisa digna de nota quando ela "me toca", no sentido de proporcionar reconhecimento. Quando, em certo sentido, eu me vejo definida por um texto, uma música, um quadro etc.


Livro que eu aos 11 anos, acho.


Afora os meus problemas de formação identitária, percebi que existe um problema grande nesse tipo de relacionamento com a arte ou mesmo com o conhecimento - para colocar os textos acadêmicos no bojo. É que a identificação nos coloca numa situação de conforto que considero bastante perigosa.

Num movimento paradoxal se comparado a essa postura que acabei de mencionar, eu sempre tive como uma outra definição para a arte a de que é algo que transforma as coisas ou, mais pretensiosamente, a sociedade. Artistas são pessoas que questionam, mudam, nascem desconfortáveis no mundo.

Tem uma frase que sempre me vem na cabeça e nunca sei se é da Hannah Arendt ou da Clarice Lispector (não sei à qual das duas devo pedir desculpas, peço a você, leitor, pela imprudência da flata de precisão), é algo como a gente sempre fazer as coisas para tentar se sentir em casa no mundo. Tá aí o problema, se a gente está desconfortável, acha alguma poesia bonita de alguém que também já esteve e pronto, supostamente a angústia está saciada e podemos continuar a nossa marchinha de ovelhas.

Cartaz do movimento Maio de 68 na França

Tenho pensado que o desafio da arte - e aí eu me estendo para o conhecimento de modo geral - é lidar com o estranhamento, com o que não diz respeito a nós, para aí sim, construir o que é esse nós (que pode ser preferível, mas não exclui o construir um eu) e ao invés de tentar se sentir em casa no mundo, construir um mundo em que a gente se sinta em casa. Difícil? Deve dar um trabalhão, né? Como uma professora minha costuma dizer, o problema de desconstruir algo é ter de construir outra coisa para colocar no lugar.


terça-feira, abril 28, 2009

Trecho da novela Dodecaedro

Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de lemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem nem conheço. Por um momento, cede. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.

(Do livro Triângulo das Águas, Caio Fernando Abreu)