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segunda-feira, outubro 29, 2012

Tecendo finos fios

Ao som de Assinado eu (Tiê).

Dispensa dedicatórias.

Tava nos fios dos cabelos. Não de um jeito bíblico, aquela baboseira de Sansão e Dalila, com vinganças e dramas - não que não tenham havido vinganças e dramas. Ambos abundaram, se é que pode-se dizer assim. Com profundidade, força e todo o sofrimento que se tem direito. Uma questão de proporção que talvez muitos não entendam, mas a dor precisava ser de uma forma equiparável à toda felicidade que foi. Foi. A distância precisava ser equiparável à toda proximidade que foi. Foi. - o tempo verbal fica só como mais uma ironia.

Era preciso percorrer no sentido inverso todo um caminho para construir outros tantos, remar com força contra a corrente, remar sozinha. Sentir a dureza do mar em cada braçada, o frescor das ondas em cada mergulho, o gosto salgado inundando a alma, a força das ondas batendo no corpo sem derrubar - e mostrando que do outro lado também havia uma espécie de força inimaginável, quem suporia? 

Do mesmo jeito que foi necessário e inevitável todo o antes. Mas agora, de um jeito imperceptível e improvável como sempre é, o presente virou passado, o passado virou passado mesmo e é até possível construir um presente - diante dos quais é sempre preciso fazer alguma coisa.

A gente faz, a gente vai minando aos poucos a defesa e a distância construídas com toda força e todo esforço possível. Era a única forma de ter alguma preservação, a única forma de construir algo com os cacos que ficaram - há quem diga que já é possível vislumbrar um vitral bonito.

Contudo e apesar de, os mais atentos observarão que nunca mais seria possível para uma cortar e para a outra lavar os cabelos.

sexta-feira, outubro 19, 2012

No tempo das cartas



Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2012.

Moças,
 
Ontem de madrugada eu fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas e na nostalgia-cliché e sem fundamento que eu sempre tive dele. Imagino que eu pertença à primeira geração que não escreveu cartas, por isso fica essa vontadezinha. Talvez nem seja a primeira, mas deixe-me construir artificialmente a minha importância no mundo. Nessa atitude cotidiana que é a construção da memória, tenho a sensação de que eu passei a infância inteira esperando a minha hora de fazer aquela coisa-de-gente-grande e aí, quando chegaria a minha vez, alguém danou de popularizar o computador e acabou com a minha festa. Quase como quando eu era mais nova, via as minhas irmãs vivenciando coisas e esperava ansiosa a minha vez para dar de cara no conhecido muro da frustração - como quando eu esperei que chegasse a minha vez de encenar Calabar na escola e aí veio a Gota d'água* no lugar...

Voltando às cartas, eu até tentei. Algumas pessoas tentaram comigo, fizemos projetos, planos, escrevemos algumas bem artificiais. Teve até o tempo de tentar adaptar essa vontade louca e anacrônica aos novos tempos, mas não adianta, emails são frios. E ontem à noite, quando fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas, teci algumas considerações definitivas sobre isso - dessas que a gente tem pouco antes de pegar no sono e que na hora dão uma certeza categórica de que está naquilo a solução para todos os problemas da humanidade.

Na hora, eu pensei que se fosse o tempo das cartas, eu levantaria e batucaria tudo isso na máquina de escrever. Serviu como desculpa para a minha preguiça, mas as constatações sobreviveram à luz da manhã. Fiquei pensando que o legal das cartas é você dizer uma coisa influenciado por uma determinada atmosfera de emoções e ter a certeza de que quando o destinatário ler, já se estará sentindo coisas completamente outras. E aí a pessoa responde de um jeito, porque aquela atmosfera a toca de um jeito e quando a resposta chega você pensa "caramba, eu tava assim tão mal nesse dia para o fulano ficar tão preocupado?", mas você não sabe, porque aquilo que você escreveu não está na sua pasta de enviados. Só a memória mesmo... essa memória que apaga as coisas difíceis de lidar e substitui por outras, coloca infinitas repetições que nos desviam daquilo que é realmente importante. E aí a gente responde que 'tá tudo bem, que não é o caso para tanta preocupação.

Ontem eu tinha destinatários, eu tinha coisas grandes e graves para dizer. Tinha também coisas bobas, comentários vagos e ingênuos sobre filmes e livros, conselhos categóricos sobre a vida, agradecimentos grandes para coisas miúdas e doces. Eu não levantei para escrever, mas eu confiei que um abraço e um beijo transmitido à distância pudesse dizer o valor que tem um pequeno gesto, uma pequena presença que nem é tanta quanto poderia, deveria, quanto a vontade quer. Eu escreveria a vocês que sinto muita falta de ter vocês mais perto, de conversar mais. Isso. Que eu gosto muito de conversar com vocês. Antes de qualquer coisa (não que o afeto seja uma coisa pequena), mas que a amizade pode ser inspirada por muitas coisas diferentes, nesse caso é muito pelas coisas que é possível dizer a vocês e as outras que eu ouço de volta. A escolha do verbo ouvir é pra dizer que se eu tivesse escrito uma carta ontem, ela diria que a sua voz fez falta, ainda mais quando eu soube que sua garganta não ia bem. Cartas têm isso, não é? Preocupações cotidianas, votos de boa saúde, porque a gente nunca sabe como a pessoa vai estar quando receber. Por isso - e por muito mais coisas - deixo os mais profundos desejos de todas as coisas boas.

Quando eu acordei, entendi que toda essa calma, toda essa gratidão e, principalmente, toda essa ludicez vinham da rara sensação de conforto que vocês deixaram ao sair [mesmo que não tenham vindo todos, vocês de alguma forma vieram todos]. Entendi que às vezes, tudo o que eu preciso é de uma boa refeição e um banho quente pra recomeçar a vida.

Obrigada por continuarem no recomeço.







* Calabar e Gota d'água são peças de teatro escritas por Chico Buarque, a primeira em parceria com Ruy Guerra e a segunda com Paulo Pontes.

domingo, maio 13, 2012

Je vais prendre ta douleur, Xuxu!

"Mãe é um papel social construído" é o que eu deveria te dizer hoje. E que algumas pessoas não aprenderam direito, não desenharam direito o que deveria ser ou aprenderam de outra forma. Mas não é isso o que vou te dizer hoje e agora.

O que eu quero te dizer é que outros papéis a gente também constrói diariamente. Construiu durante anos. Quando você achava que eu era sua boneca, quando me protegia do escuro ou das brigas constantes do conflito difícil que é a vida. Você me vestiu e me deu almoço tantas e tantas vezes. Lembra quando o tal papel faltava? Lembra quando eu chorava pedindo aquilo que eu achava que só podia ser personificado numa pessoa, mas era você que sempre estava ali antes das cinco da tarde. Era você que me abraçava e me dizia que eu não estava sozinha ou, às vezes raivosa, me dizia que não adiantava, que se eu queria o que faltava, você me traria em forma de autoridade.

A gente criava mundos, histórias, bonecas. A gente pintava cores, mudava moveis, transformava mobília em brinquedos. Hoje eu gosto de dizer pras pessoas que nós éramos uma quadrilha, mas a verdade é que nós éramos um mundo só nosso que se passava antes das cinco da tarde, um mundo regado a biscoito recheado hipopó comprado no Mundial, a cream cracker com misturas nojentas da Nani, a pão de queijo esquisito que a gente moldava também em brinquedo, a programas de tv, a brincadeiras barulhentas no corredor do prédio, a manhãs e tardes intermináveis em que a gente não sabia e nem podia saber, mas estava se formando. A gente fez e viveu um mundo só nosso.

Lembra quando você era a minha referência na escola? Eu lembro de quando você me ensinou a fazer conta de nariz e boquinha e as minhas divisões precoces me faziam sentir a pessoa mais inteligente do mundo. Você me levava pra escola e se eu de repente ficasse desesperada (ora, eu sempre senti um desespero tão grande de estar no mundo) você estava ali perto, a poucas salas de distância para me socorrer. Se alguém me batesse, brigasse comigo, se eu tirasse nota baixa ou achasse um trabalho impossível, era para você que eu pedia socorro. Por muito tempo eu quis ser como você. Eu criava antagonismos na nossa tríade e você era o meu modelo de pessoa bonita - e olha que você era meio gordinha, tinha uma sobrancelha esquisita, mas quando colocava aquele uniforme de escola importante, eu achava que aquilo era tudo o que uma criança podia querer na vida. Aí, um dia eu cheguei mais perto e passei a te admirar mais ainda porque aquele mundo novo era tão mais complexo, era tão mais difícil, mas se você tinha conseguido, eu também poderia.

E das brigas, você lembra? Não é fácil fazer três mulheres trancadas dentro de uma mesma forma, ou de uma mesma caixa. Roupas, frases, canais de TV, tudo virava faísca e toda faísca virava explosão intensa. E aí, algumas vezes você já não era aquela que sempre me defendia de tudo, nem eu era mais a sua bonequinha. O difícil de crescer foi que fomos nos tornando pessoas diferentes do que esperávamos uma da outra. E aceitar o outro é sempre difícil. E quando a gente vê que o outro ainda está se fazendo, a gente tem a ilusão de que pode interferir, fazer a nosso gosto, quando na verdade, não adianta, cada uma é de um jeito. Os conflitos também nos fizeram, a alteridade que até hoje é tão latente foi o que disse a cada uma de nós o quanto éramos completamente diferentes.

Cada uma a sua forma e a seu tempo, nos aceitamos, nos conhecemos e transformamos aquela relação que parecia ser uma obrigação de sangue numa saudade constante. Ter a nossa vida da adultas dá uma saudade de partilhar os momentos bobos, de comentar um programa de tv, de pedir pra você desenhar uma boneca de papel pra mim, de brincar de secretária. Ao mesmo tempo, dá um orgulho gigante de ver no espelho essas três mulheres lindas nas quais nos transformamos. Hoje eu acho maravilindo (como diziam os bebês daquele desenho "Os anjinhos", lembra?) olhar no espelho e ver as nossas tais diferenças, acho bonito que tenhamos conseguido.

Família também é uma construção social, cultural, histórica - para poder fazer valer a minha não profissão. Mas, caralho, família é uma construção afetiva. E afeto é uma coisa que a gente construiu e desconstruiu de mil formas ao longo de nossas vidas inteiras. E constrói diferente hoje. Constrói lindo, em três pilares que não são tripés, porque estes impedem que se ande. Somos três faces de um polígono impossível, mas que se equilibram e se tornam possíveis, mesmo com os rumos diferentes, mesmo agora que somos essas três mulheres completamente diferentes.

Fico pensando como seria se alguém chegasse pr'aquelas três meninas e dissesse no que elas se transformariam. Se dissessem pr'aquelas três adolescentes que chegaria um dia em que elas se amariam tanto que só teriam vontade de se abraçar no colo que é um abraço a três e dizer em silêncio que elas conhecem segredos que ninguém conhece, que elas estão conectadas por algo que não tem nada a ver com sangue, nada a ver com pai, mãe, casa ou datas comemorativas. Amor é uma construção que não se explica mas que se vive ao longo de uma vida inteira.

E quando eu digo vida inteira, moça, eu quero dizer todo o tempo que temos pela frente.

Sabe esse dia idiota de hoje? Sabe essa data construção do capitalismo? Sabe esse papel construção do moralismo? Eu quero te dizer que você é algo completamente diferente disso, mas você sempre foi minha irmã-mãe. E eu estou sempre aqui pra te abraçar e te proteger dos monstros e da escuridão quando eles cruzarem o seu caminho.