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terça-feira, dezembro 03, 2013

Exposição

Para ler ao som de Pra você dizer o nome (5 a seco).


Metade de mim é palavra.

Digo isso sem qualquer dimensão de medidas.
Como quem reparte um pedaço de comida
com desproporção inconsciente.
Minha metade-palavra
às vezes se cala.
Ou finge
e se escreve de outras formas.

Palavra-imagem,
palavra-comida,
palavra-sentimento,
palavra-masturbação,
palavra-gozo.

Mesmo quando eu digo
em vez de escrever
(e olha que eu venho aprendendo a dizer,
a olhar nos olhos e nomear sentimentos),
é sempre palavra.

Tenho aprendido que palavra tem gosto, cor, corpo, textura.
Palavra tem som, cadência, ritmo.
Palavra tem até maquiagem
e se entrava no alto das pernas.

Mas tem hora
que mesmo a palavra mais ensaiada
(da repetição e da saia)
não pode ser dita. 

Fica pairando na garganta
sem engolir de volta
por falta de lubrificante
ou simples medo de que machuque.

Fica boiando no copo
e desmantela sem derreter,

como esses gelos artificiais de hoje em dia.

quarta-feira, julho 17, 2013

Digestesia

Para Taynara Barcelos e Thiago Ortiz (Tropicália)

Lambo,
devoro,
mastigo
o mundo,
as carnes,
os gostos,
os cheiros

que me passam pela garganta
pouco depois.

Às vezes engasgo,
cuspo,
vomito.

Noutras passa direto.

As enzimas e sucos
me seguram no estômago
as rimas que engulo.
De um jeito ou de outro
sempre viram texto,
embora nunca repita as texturas
do que me tece as fibras,
as vísceras, as veias
e o sangue que corre
do sexo à boca
em segundos.

terça-feira, julho 02, 2013

Embriagai-vos de poesia!

Então,
Vamos encher a cara de poesia?

Poesia-licor,
poesia-cerveja,
poesia-uísque,
poesia-cachaça.
Vamos encher a vida
dessa poesia
que diariamente
nos embriaga!

Desce mais uma, garçom,
mas não conte as garrafas.
Que hoje o meu porre
vai até madrugada.

Eu quero beber poemas,
entornar palavras,
vomitar delírios,
brindar desgraças.

Pois a realidade é que costuma
deixar-me uma puta ressaca.

29/09/2008

Cela


Eu já quase te quis pra ficar,
mas aí você foi
e quem ficou fui eu.
No canto da cela,
você da cadeia
e eu de cavalo
que eu galopo
com a mesma vulgaridade
e a cara cheia de sempre.

Uma coisa é assumir a fome,

outra é a coragem para matá-la.

sexta-feira, junho 14, 2013

Incontrolado

O coração fica aflito
quando se fala em afeto
Me afeta
Me joga em anagramas,
rimas e trocadilhos
como se fosse certo.

O coração fica afobado,
afoito, inquieto
e sobretudo clichê.
A ponto de ficar assim
usando a palavra coração
des-te-mi-da-men-te.

O que agora afaga
Logo mais afoga
Hoje gozo,
amanhã lágrima,
Eu já tenho prova.

domingo, abril 14, 2013

Um jogo

Ao som de Me liga (Paralamas do Sucesso)

Você me atira uma bolinha verde.
Eu a escondo em revanche
e penso que poderia ser azul
por pura falta do que pensar.

Você cola a bolinha na vitrine
Eu ponho na testa pra ver se gruda
Você coloca trilha sonora
e arremessa de volta.

Eu guardo.
Você guarda.
Poderia ser um jogo.
Poderia ser um conto.
Mas são só imagens.



sexta-feira, janeiro 04, 2013

Cheiro de pele


Ao som de Num dia (Arnaldo Antunes)


Se o cheiro fica no corpo
depois de um abraço,
o jeito é lavar a pele.
Esfregar um por um os poros
e deixar escorrer
os cheiros, os suores, os plurais
mesmo se forem bons
até voltar pra minha solidão.

Até voltar pr'esse cheiro que eu finjo ser nenhum
e que esconde também meus pedaços de vida
que eu deixo escorrer em abraços,
misturar em odores,
refazer nos corpos que se trocam.

Até minha pele voltar assim:
(mesmo sem nunca ter ido a nenhuma parte)
pronta para dar e receber novos cheiros
que depois a água torna a levar
renova em novos ciclos
em rimas bobas
em poças
poços
mares
e torneirinhas.

A gente nega, esfrega e rega
a pele de outras vidas
que dá pra inventar.

Leva, lava e troca por sabão,
colônia, essência
e por fim
o cheiro limpinho de roupa de cama
(porque nem sempre é cheiro de gozo que povoa os dias)

Não é nos poros que eu levo os pedaços das gentes que me acompanham
Vale mais o contorno do abraço que meu corpo sabe e reaprende a cada um

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Pá furada

A poesia grita em duelos nas ruas
povoadas de almas desertas
que se desconhecem
mas já se viram n'outras noites e carnavais

Não sei se tem mais poeta
ou vendedor de amendoim
no pouco espaço entre as mesas e corpos

Não sei se eles têm mais fome
de comida ou de voz
Não sei se eu tenho mais culpa
ou sede

Sei é que um pouco de arte passa
Aos borbotões
nas calçadas sujas de suor e solidão

Não sei se é mais fome ou angústia

Não sei se ele põe mais orégano
ou desenhos de capa
se faz promoção-três-por-cinco
ou declama alto pr'as menininhas
cheias de vontade que alguém lhes diga
qualquer coisa que pareça vida

e eles dizem
mesmo que seja essa vida parca,
esses dias consecutivos,
esses brindes aguados em copos vazios,
esse tesão forjado,
essa teatralidade canastrona,
essa chuva que cai dos olhos
no verso mais cliché
que se diz com lascívia.

com seus livretos curtos
de papel xerocado na gráfica da esquina
- aquela mesma dos balcões antigos -,

com seus cones de papéis coloridos
e higiene duvidosa

eles jogam uma pá de terra
na culpa
e uma pá de letra
na cara dura

terça-feira, dezembro 04, 2012

Cores



Há tanto tempo que as palavras
Não se sabem quebrar nas linhas.
Mesmo quando se escondem em
melodia fina,
dessas que povoam manhãs de sol,
preferem o desespero urgente
de quem não tem ponto
às vezes nem espaço
- como o que não existiu entre as gentes
enquanto foi-se formando entre os corpos.

As letras se somam e se separam
na mesma vontade
que é só um jeito de preencher
a desvontade de sempre.

Era para encher o mundo ao redor
Mas não se colore na primeira pessoa,
aprendi recentemente.

Resta preencher com timbres doces
e co-lo-ri-dos
as tais manhãs e tardes adjetiváveis
com o pincel na mão,
potes vazios
pros quais mal se olha

e a cara cheia
de quem sabe que a tela é espelho.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Memória


Amar o perdido
Deixa confundido
este coração

Nada pode o olvido
Contra o sem sentido
Apelo do não

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
Muito mais que lindas
Essas ficarão

(C.D.A.)

quarta-feira, novembro 14, 2012

Direito de corpo




"Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?"
(Amor, pois que é palavra essencial, Carlos Drummond de Andrade)





Quando você fala em conquista, eu penso em desbravadores espanhóis do século XVI: armados até os dentes com seus estandartes reais e sua generosa civilização a postos. Prontos a impor línguas, estuprar jovens nativas, escravizar povos, ensacar culturas. Eu penso em posseiros, em acampamentos do MST; fazendas pecuaristas improdutivas; grandes plantações de soja; agronegócio. Eu poderia até pensar em agricultura familiar, pequena propriedade, mas eu penso em latifúndio, eu penso nas contradições do capitalismo, nas contradições do termo pro-pri-e-da-de e me agarro a minha mais fajuta filosofia budista: não há posse, não há conquistas, não há direitos.

Você poderia argumentar que há quem faça uso da terra estando ciente de tudo isso. Há quem aproveite o que a terra oferece, sabendo que ela dá generosa, que não pede nada em troca e que, por isso, não cabe exigir nenhuma segurança. Quando a gente menos espera, estão aí os furacões, terremotos e outras combinações várias disso que convencionamos chamar natureza só pra dizer que não é nosso. Com a casa nos ares, as plantações alagadas e o trabalho destruído, nós fingimos não escutar.

Pois eu te digo que não é seu. Que meu corpo não é território a conquistar – e mesmo se. Que você não chega e coloca uma bandeira num pedaço e isso te dá direitos adquiridos, que você vai e volta, sei lá quanto tempo depois, e a bandeira está ali, exibindo o seu brasão. Também não é questão de tempo ou distância, posto que o mesmo vale para quem fica, coabita, compartilha pão, espaços e sonhos. Tenho pra mim que estes poucos chegaram a estudar a fundo a teoria, mas na prática ficou faltando quebrar as cercas.

Antes que soe grosseiro, acusação que já estou acostumada a receber, me defendo: meu corpo também não é meu. O rompimento dessa falsa relação de posse é tão difícil que na hora de colocar em palavras vem o pronome pos-ses-si-vo a tiracolo. É costume o pronome, mas nem por isso. Esse pedaço de pele, carne e sangue com o qual convivo tem suas próprias vontades e desvontades. Chora sem pedir licença, dorme ou mergulha em longas insônias. Come muito mais do que eu gostaria, tanto quanto descome. Igualmente bebe e desbebe. Sente calor e frio, tem sinapses angustiantes, arrepios fora de hora, focaliza no estômago as dores mais fundas que tampouco lhe pertencem. 

Isso que nem é uma coisa à parte, não depende de mim, não está sob meu domínio e a muito custo, nesses vinte e três anos de convivência, venho tentando aprender a lidar. Não digo que seja fácil nem que eu tenha sucesso constante na empreitada, mas se eu já aceitei que mesmo com a convivência íntima e cotidiana não posso falar em posse, não venha você.

Não desperdice suas técnicas de guerra aprendidas, pois não há louros no final. Não há espólios, nem haverá muralhas. Conquista é aquilo que se faz com uso de força militar para dominar algo que não nos pertence, a gente tenta exercer poder, mas a capilaridade felizmente nunca é tão ampla. Portanto, não transfira para mim sua ilusão.

Não existe nem existiriam contratos estabelecendo direitos de uso. Não houve mesmo para quem firmou acordo em praça pública, digo, praia pública, com testemunhas e tudo o mais que se tem direito. Não há direito que não seja o de viver. Todos vivem. E os corpos convivem – e se entendem melhor do que as almas, sempre sabemos.

terça-feira, outubro 16, 2012

Automodelação

Ao som de Girasole (Giorgia).

Na literatura é abolir o eu, na vida real é a medição. As datas nunca estão certas, mas desde que há essa vontade de poesia já se vão sete anos. Dizem que esse é o tempo necessário para que todas as células invisíveis do corpo já sejam outras (as visíveis também). Já são outros os cenários. É outra a pele que já escolheu outras datas para ser trocada; a voz, os cabelos e os amores já foram tantos nesse meio tempo. Acabou o colégio no meio desses versos desabafados e afobados. Foi uma faculdade inteira e agora um mestrado de palavras que fogem de outros papéis e de outras histórias para transbordar aqui no eterno refúgio das horas loucas. Não teria como percorrer hoje o percurso redundante de cada uma das células invisíveis, dá pra percorrer palavras - e mesmo os silêncios.

Alguns eternos retornos pegam assim pelo pé e me fazem ver que de repente alguma coisa transcende as tais células que se foram pelo ralo do banho ou na lâmina da faca. Há muitas promessas e muita vontade de vida que a gente vê em tantos textos mal feitos, tantos versos mal rimados e tantas palavras escolhidas na pressa. A boneca já mudou muito de corpo, cor e roupa. O nome já deixou e recobrou os sentidos algumas vezes.

Há fontes falidas de inspiração que se espalham por essas páginas. Alguns versos escritos pra um ou uma que foram depois canalhamente usados para outros e outras. Tem um monte de gente e um monte de personagens que eu invento pra me acompanhar. Vou enchendo a casa pra ver se me sinto. Mas como gente é essa coisa inventada e sem autorização que se transforma em comentários anônimos, em elogios abertos, em leitores atentos e naqueles que sempre querem se reconhecer de alguma maneira - o que fica são os fantasmas. Vão grudando no meu espelho e satisfazendo duplamente os egos, duplos cegos que desconhecem igualmente meus testes e minha cegueira. Vão povoando as horas, preenchendo as noites e, principalmente, as linhas. Desenham círculos frágeis no vento que a gente desmancha com os dedos e mostra no arco dos cílios que está com os olhos abertos para o que vier. 

São personagens de mim mesma que eu invento. Talho em madeira fina as máscaras que bem caberiam no meu próprio rosto. Coloco-lhes à força e depois não só não querem tirar, como também querem que as minhas mãos permaneçam ali coladas à madeira fria e fina, através da qual é possível sentir o calor da minha pele - e também da sua. No fim das contas, sendo boa ou ruim, o que eu quero é poesia.

As damas da noite recolhem o seu perfume com a luz do dia



"Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada".
(Trecho do conto Dama da noite, de Caio Fernando Abreu).



Podia ter acabado num convite para uma dança do qual ninguém lembraria já que a dança sequer aconteceu. Quer dizer, aconteceu. Aconteceram várias enquanto você observava de longe o movimento que faziam os cachos dos meus cabelos. Não, não era isso. Você observava os movimentos só, sem nem saber ou se importar com quem eu era. A pista rodando e eu rodando junto com uma depois outra e outras tantas de quem também não é possível lembrar. As moças e as músicas.

Você olhava de fora, à margem, a cara cheia de quem diz, "Olha, eu não sei" e oferece um sorriso perambulando entre a doçura e a educação. A vida segue e a roda continua rodando e toda a gente junto, dentro.

Quem olhasse sua cara de fora - digo assim 'quem olhasse', porque eu mesmo não olhei, eu estava dentro, como todo mundo - diria que a sua vontade era rodar junto também, mas as pessoas nunca sabem.


É que ninguém sabe - ou todos sabem e nunca é importante saber - que a vida é a polpa de onde se tira com custo, sangue, suor e pequenos gritos o substrato para a literatura. Essa coisa inútil, impalpável, essa coisa de quem não tem nada de concreto. Eu nunca disse que tinha. E também quem sou eu para me achar li-te-rá-ria? 

A pergunta não era para ser realmente respondida. A vida não era pra ser real. Não era pra ser, entende? Chega um dia em que a gente vira personagem da própria história e aí... e aí não tem jeito que dê jeito. Não tem vida que dê fim.

Quando eu fui atrás de você, no entanto, não era no intuito de encontrar uma brechinha e aprender a tal palavrinha secreta. O que eu queria era te tirar dessa roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar. Queria só quebrar, como se diz?, o pro-to-co-lo.

Eu disse que não sabia rodar misturando feito cachaça e cerveja essas minhas referências que no fim das contas ninguém entende. Enchi o copo e te disse que viver é melhor do que entender, que criticar pode ser melhor do que propor - ou alguma coisa parecida com ou completamente diferente disso. Dissemos coisas porque era preciso dizer, era preciso quebrar o silêncio que se formava com o recolher da música e com o fim dos pretextos e com o vazio que fica na mente quando o que se quer é só apresar as coisas. E falamos essas coisas vagas, vazias, essas frases que a gente encontra para preencher o tempo entre o primeiro copo e a primeira transa. Dissemos, andamos, fomos.

Eu acordei sem saber a que horas você teria saído. Poderia até pensar que foi tudo sonho, mas isso não chegaria a ser um pensamento e sim uma lembrança. Alguns vestígios pelo chão e alguns cheiros ainda presos ao lençol que você mal desforrou me diziam que não.

E não adiantava tudo o que me diziam, não adiantava a cena, não adiantava a música, as coisas no lugar e as tais coisas todas que você disse, que a gente disse. Eram só essas frases que a gente usa para preencher os tempos e espaços que separam a cama do primeiro copo. O meu primeiro havia sido cerveja e o último cachaça. Você parecia ter bebido outras coisas e vindo de outros mundos. Mundos que deixam as portas abertas quando saem e sabem que isso não é um aviso de volta.

Esse nunca mais ficou rodando na cabeça só o tempo que durou a ressaca, como uma melodia fina que se desmancha no ar durante a manhã de segunda-feira.

quinta-feira, outubro 11, 2012

ARTE DE AMAR


Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

terça-feira, setembro 18, 2012


Surge tímida e quase imperceptível aos olhos desatentos. Há que parar, olhar para fora e ver que dali do outro lado existe uma beleza outra. Singela e veloz.

terça-feira, setembro 11, 2012

Entrelaçado

Para ler ao som de Tempo de pipa (Cícero).

"Vamos nos espalhar sem linhas".

Eu não sei como faz para desatar nós e nem sei se é necessário - ou se vale a pena. Há nós apertados, há pronomes pessoais retos tão pessoais e tão plurais que não dá para desfazer assim por qualquer bobagem. Não que futuro seja bobagem, não que projetos completamente diferentes também o sejam, mas é que alguém sempre sai machucado das coisas e preservar tudo no seu devido lugar é sempre a minha maneira de evitar que o sangue respingue em mim quando ainda tem as nem-tão-velhas feridas assim tão mal fechadas.

Quando o nó fica assim muito preso, a gente machuca as unhas e não consegue. Às vezes usa os dentes e parece que só fica tudo mais amarrado.

Sei não... Enquanto os nós não se desmancham, nada impede que nos deixemos levar pelos laços que nossos corpos fazem sozinhos, sem que a gente queira e porque a gente quer.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Mais um brinde

Mais uma dose? 
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Por que quê a gente é assim?
(Cazuza)

A vida oferece.
Um sorriso,
um pedaço de bolo,
um livro,
um abraço.

A vida vai oferecendo
coisinhas pequenas-grandes,
jeitos minúsculos de lidar
com o lobo-mau e a tal medonha.
A escolha consiste em aceitar ou recusar.

Transformar o brinde em porre,
sorver em pequenos goles.
Fazer de um jeito que não seja impune,
não seja ameno.

Fazer alguma coisa
que aqueça a água
antes que seja tarde.

A gente só sente o gosto se colocar na boca.

domingo, julho 22, 2012

Dedicatória

"Para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".
 (Paulo Mendes Campos)

Na falta de coragem de tirar de mim o sangue, me perco no seu olhar-abraço-voz. Nem sei se é quente, rápido que foi. Devo admitir que não deu tempo de planejar perdições. Daria tempo de despertar sonhos, se eu ainda soubesse. Qualquer distração parece que serve. Dito assim parece que te desprezo. Saiba que não é o caso. O caso é que as frases curtas, re-pe-ti-tivas, mal conectadas, escondem uma admiração distante. Uma inveja funda que se confunde em desejo. Um desejo que não é só do teu corpo. É da tua vida que quero em posse e quero em vida. Quero vampirizar tua ânsia de paixões, sua desenvoltura para pedir de mim mais do que posso dar e menos do que gostaria.

Eu me abro demais. Sempre me abro demais e perco completamente os limites do senso. Eu me publico. Eu sempre faço manchetes dos meus sentimentos para ver se os crio. Pra ver se alguém compra o que fica ali exposto na banca. Às vezes funciona, às vezes vira caso de polícia. Minhas letras são garrafais, mais finjo fingir que não. Dissimulam escrúpulos num gesto tão falso como quando eu acendo um cigarro.

Você olha e pede um abraço em agradecimento por eu ter feito exatamente o que você pediu. Pode ter pedido com o inconsciente até, mas eu sou boa a esse ponto em interpretação. Te dou um livro, te leio uma página, te abro minha alma que, mesmo sem ser grande coisa, é o que de mais fundo tenho para te oferecer. Quero te oferecer mundos que você desconhece, quero te dar um leque de sabores de vida pra você provar e depois escolher feito sabor de sorvete. Quero te dizer que o mundo é grande, que as melhores sensações não estão só nas páginas dos livros, que você pode pegar a estrada e sentir o vento no rosto afastando seu corpo das raízes empoeiradas, dos julgamentos prontos, das pessoas de alma tão pequena remoendo pequenos problemas. Não tenho sequer a pretensão de pertencer a esse mundo grande que você merece, acho que você tem todo direito de provar muito mais corpos, muito mais cheiros, muito mais gostos, muito mais curvas do que as que você já conhece, do que as que imagina conhecer e do que as que te serão completamente inesperadas. Se couber minha opinião, apenas direi que adoraria.

Mas se você também é só uma coisa que eu quero porque não tenho, porque não posso ter e querer o que não posso ter é um outro jeito de aprender a aceitar que a gente nunca tem mesmo. A gente ocupa espaços, representa papéis, finge que pode preencher vazios mais fundos que o imaginado, matar as sedes que ninguém mata. A gente se deixa cair confortável em qualquer vida que soe como uma luva, que cubra com panos quentes as feridas e os abismos, que faça parecer que é possível fingir que a solidão medonha não existe. Quando a gente se deixa cair mais confortável é que puxam de repente a luva, o tapete, o chão e a queda livre tem essa mistura de poeira, nada e vômito que gruda na boca, na garganta, nos lábios que se ressecam e parece impossível sentir outro gosto mesmo sabendo e forçando o corpo a saber que há muitos.

As cortinas fecham de quando em vez e a gente é obrigado a trocar a maquiagem, o figurino, troca cenários pra garantir. O mais difícil é escrever um texto novo. Mas pra quê? Se posso por em suas mãos, em sua cabeceira, em seus lábios aquele roteiro já tão pronto e bonito. Posso fingir na minha imaginação bem menos fértil do que imagino, que não há hierarquias nem relações de poder. Porque na verdade, nem é um mundo meu que quero te apresentar, quero é me jogar nessa trilha sonora que você me prepara, quero debater as angústias tão certas e petulantes que você tem apesar de e por causa da juventude, quero sorver tuas palavras, degustar embasbacada a forma displicente como você solta a fumaça do cigarro, quero me deixar embalar pela tua voz crítica, firme e perdida. Quero alimentar teu interesse na verdade tão mais fundo que o meu. Quero roubar um pouco da paixão que ainda tens nos olhos, te convencer que a direcionas pelos caminhos errados, quero te dar mapas.

Quero te prometer esse milhão de mentiras só para mergulhar fundo nas coisas inomináveis que esse abraço curto desperta. Quero me deixar levar pelo desconcerto, pelo não saber onde colocar as mãos quando você me oferece um cigarro. Quero ficar horas ouvindo seu jeitinho calmo de falar, te chamar pra tomar um café enquanto te falo as bobagens mais amenas para ver se do outro lado da mesa enxergo uma lasca do sangue da tua ferida que sei que também é aberta e incurável. Eu quero te dizer que conheço unguentos que aguçam as sensações.

Quero é jogar esse quebra-cabeças bagunçado no colo de qualquer pessoa que apareça - qualquer não, desculpe! Quero jogar essa bagunça mal ajambrada de mim em cima de quem tenha apreço literário o bastante para juntar os versos, os fios de barbante, os cacos de vidro, as noites de frio, os pincéis espalhados, os pelos de gato, a luminária, as bolinhas, as listras, o cabelo preto, os planetas em capricórnio, os graus de astigmatismo, o gosto por capuccinos, os timbres perdidos na mente, as citações decoradas e repetidas em voz alta, as birras de criança, a resolvicência de adulta, a petulância, o ar professoral e mandão, os segredos que moram em pedras-quentes-que-encostam-na-sola-dos-pés, as palavras, embaralhadas, perdidas, as peças, pedaços, fragmentos bonitinhos, sujos, gosmentos, doces, quentes, ferventes, gelados - desde que jogue fora tudo o que estiver em temperatura ambiente.

quarta-feira, março 28, 2012

Poema

Para ler ao som de Poema  (Cazuza)

à Bárbara Araújo, Lili Figueiredo e CEP 20 000

Houve um tempo em que a minha medida para as coisas na vida era a poesia. Era em versos a minha escala de observação. Fazer um poema hoje me fez lembrar de um tempo em que, bons ou ruins, os poemas afloravam de uma vontade imensa de um jeito poético de olhar a vida. Parece que já se passou muito tempo, parece que vidas e vidas rolaram enquanto os versos foram se lapidando em parágrafos pragmáticos. A vida ficou acadêmica. A escrita ficou sisuda, travada.

A literatura hoje é quase mais um dos objetos de consumo, uma espécie de droga que me mostra que, por trás de tanta vida real, ainda existe alguma coisa que independe de publicações, títulos, quadros brancos ou negros.



Hoje eu queria o tempo em que a gente ia lá, pegava o microfone e falava poesia. Há quem diga (eu?) que eram só versos bobos de uma adolescência em transbordamento. Não sei se era mesmo poesia, não sei o que faz com que uma coisa seja e a outra não. Não tenho mais a pretensão besta de definir qualquer coisa. Era alma o que a gente cuspia ali em perdigotos literais que ficavam no microfone em que tantos passavam.

E a gente trocava um pouco de cada alma no cuspe, no grito, na força que era tanta e tão grande que a gente não sabia o que fazer com ela. A gente fez alguma coisa com ela? Acho que fizemos várias e por isso mesmo que a alma foi ficando um pouco em cada jogo de cartas, em cada microfone, em cada clamor sem palco, em cada sala com rostinhos diversos.

A poesia é diferente agora e não só porque é em prosa. A poesia fica um pouco inscrita em tudo o que foi formando isso que a gente acostumou a chamar de "a gente". Algumas palavras continuam sendo as mesmas, não dá para substituir o assunto amor que tanto povoada os nossos versos, mas como a gente construiu amores ao longo desse caminho cheio de pedras que a gente também já sabia que iria encontrar - guiados por um outro poema.

Fazia tempo que eu não escrevia um poema e fazia tempo que eu não via que a vida ainda se dá na mesma medida. Ou que ela continua tão sem parâmetros quanto antes. Continua tão passional quanto. 

Fico me perdendo em uma ou outra estrofe que poderia ter sido minha, fico ouvindo aquelas frases que a gente gritava no escuro - o metafórico em que a gente ainda se encontra e o literal. O peito arde do mesmo jeito, os olhos ainda se esforçam tentando divisar qualquer coisa, tatear qualquer caminho.

E de repente eu vejo que aquela coisa morna e ingênua ainda está aqui.

("Hoje eu acordei com medo, mas não chorei nem reclamei abrigo")

Brinde



O sangue sempre escorre mais
Os fluidos misturam-se no espaço
mais espesso do silêncio

Alguém quebra
era vidro
copo
corpo
coisa
caso

Era dissílabo
de acentuação confusa
e atenuação precisa

Pedras de gelo
foram feitas para derreter
e aguar o líquido
que a gente bebe,
lambuza
e deixa evaporar