terça-feira, setembro 14, 2010
Capítulo 1 - A menina má
Lúcia era uma menina doce até o dia em que ficou amarga. Saiu de casa aos quinze anos sem olhar para trás nem quando sua cabeça foi obrigada a voltar-se naquela direção com o impacto do tapa. Não chegou a saber se saiu expulsa ou em fuga. Dali em diante enfrentaria todos os clichês que uma Vida dura-e-amarga podia lhe oferecer. Ela estava pronta, sua pele jovem ansiava por todos os tipos de arrepio.
quarta-feira, setembro 08, 2010
Minha sinopse de Malu
Eu acho que as pessoas que escrevem sinopses normalmente viram o filme sobre o qual escrevem. Infelizmente ainda não vi Malu de Bicicleta (estou esperando ansiosamente pelo Festival do Rio, pois soube que vai passar), mas como li o livro me sinto capacitada para participar da promoção:
Fugindo de suas peripécias amorosas, um típico garanhão paulista é literalmente atropelado por uma sedutora carioca. Malu atropela Luiz com sua bicicleta no calçadão das praias do Rio de Janeiro e o clima de romance se instala. Até aí, tudo perfeito para os dois se apaixonarem e viverem felizes para sempre. O problema é que Luiz começa a provar do próprio veneno sedutor - fica difícil se entregar a um amor quando se está tão acostumado aos jogos e truques da conquista. Luiz começa a desconfiar que Malu o está traindo e, imerso nas artimanhas que costumava usar, encontra facilmente vestígios que considera ‘provas’ da traição.
Confiram o trailer:
Fugindo de suas peripécias amorosas, um típico garanhão paulista é literalmente atropelado por uma sedutora carioca. Malu atropela Luiz com sua bicicleta no calçadão das praias do Rio de Janeiro e o clima de romance se instala. Até aí, tudo perfeito para os dois se apaixonarem e viverem felizes para sempre. O problema é que Luiz começa a provar do próprio veneno sedutor - fica difícil se entregar a um amor quando se está tão acostumado aos jogos e truques da conquista. Luiz começa a desconfiar que Malu o está traindo e, imerso nas artimanhas que costumava usar, encontra facilmente vestígios que considera ‘provas’ da traição.
Confiram o trailer:
quarta-feira, setembro 01, 2010
Problemas numéricos
Problema número um: Isso aqui não é um blog. Não sei se é porque eu sou mesmo uma pseudo-intelectual que acha divertido problematizar e relativizar tudo, mas eu nem mesmo sei o que é um blog. O mais próximo de uma definição que eu tenho para blogs é uma espécie de diário público. Isso aqui nunca foi um diário. Não, eu não vou entrar no mérito de tentar descobrir o que é isso-aqui. Rótulos nunca adiantaram para explicar nada. Como já disse antes, o mais próximo que chego a dizer é que isso-aqui que é um repositório, que se diz despretencioso, de escrita. Ou mesmo uma boneca russa com faces múltiplas mas nem tão surpreendentes assim.
Pois bem, se isso não é um blog, não faz sentido nenhum falar do dia do blog, que ninguém sabe o que é, quem criou ou para quê serve. Mas poxa, mesmo com sei lá quantas camadas de cebola na explicação do que esse lugar imaterial representa, tá escrito ali em cima o domínio blogspot. Talvez escrever alguma coisa seja necessário para pelo menos agradecer a esse tal de blogger por me hospedar de graça por cinco anos.
Problema número dois: o blogday foi ontem, né? Então leiam fingindo que vocês não sabem que dia é hoje.
Problema número três: sem saber que dia hoje tudo perde totalmente o sentido, não é? Então deixa pra lá.
Fato é que o fato aconteceu (ó!) e não consegui não pensar no que me fez/faz ficar aqui falando pro além durante tanto tempo. Somos a primeira geração da internet democratizada e mesmo que não tenhamso muitos leitores, a possibilidade de escrever alguma coisa que está disponível para o mundo inteiro é fascinante.
Não sei se é possível registrar o espanto e continuar com a minha habitual pseudo-literariedade. Vai ver estou ficando menos literária mesmo. Será o tal do adultecimento? De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho - que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.
Pois bem, se isso não é um blog, não faz sentido nenhum falar do dia do blog, que ninguém sabe o que é, quem criou ou para quê serve. Mas poxa, mesmo com sei lá quantas camadas de cebola na explicação do que esse lugar imaterial representa, tá escrito ali em cima o domínio blogspot. Talvez escrever alguma coisa seja necessário para pelo menos agradecer a esse tal de blogger por me hospedar de graça por cinco anos.
Problema número dois: o blogday foi ontem, né? Então leiam fingindo que vocês não sabem que dia é hoje.
Problema número três: sem saber que dia hoje tudo perde totalmente o sentido, não é? Então deixa pra lá.
Fato é que o fato aconteceu (ó!) e não consegui não pensar no que me fez/faz ficar aqui falando pro além durante tanto tempo. Somos a primeira geração da internet democratizada e mesmo que não tenhamso muitos leitores, a possibilidade de escrever alguma coisa que está disponível para o mundo inteiro é fascinante.
Não sei se é possível registrar o espanto e continuar com a minha habitual pseudo-literariedade. Vai ver estou ficando menos literária mesmo. Será o tal do adultecimento? De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho - que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.
sábado, agosto 21, 2010
A primeira vez que fiquei sozinha em casa
Minha mãe sempre trabalhou muito e desde os meus quatro anos, minhas irmãs e eu ficávamos sozinhas em casa. É claro que não deve ter sido com quatro anos que fiquei completamente sozinha em casa, mas deve ter sido bem nova. Era uma coisa tão corriqueira que não consigo me lembrar quando foi a primeira vez. Pelo que me conheço, devo ter ficado com medo do escuro, mas sinceramente não lembro.
Uma coisa que lembro bem é que gostava de trancar a porta quando ficava sozinha. Me dava uma sensação de poder numa casa em que, por ser a caçula, eu era sempre a última opção de autoridade (eu nunca mandava em nada mesmo). Muitas vezes não fazia nada demais, mas sempre deixava a porta fechada para que quem chegasse fosse obrigado a tocar a campainha e dependesse da minha vontade abrir ou não. É claro que eu abria sem pestanejar muito pois as conseqüências podiam ser desastrosas – minha mãe nunca foi boazinha. Era quase totalmente imaginária a sensação de poder que eu sentia, mas eu gostava muito.
O poder de escolha. Escolher onde colocar os móveis, como ficaria arrumado o armário, a que horas a televisão seria desligada, essas pequenas coisas que se faz na própria casa, sabe? Eu nunca fiz nenhuma delas. Nunca me senti em casa na minha própria casa (que nem própria era, assim como não é agora). Dividir o quarto com duas irmãs mais velhas era um agravante significativo. Para o bem e para o mal, nunca tivemos fronteiras claras no guarda-roupa, no controle da televisão, no uso do computador – e, por essas e muitas outras coisas, eu sempre quis morar sozinha. Não exatamente assim, eu sempre quis um espaço meu.
Sempre quis ordenar os objetos do meu jeito, escutar a música que eu quisesse e, principalmente, não ter uma televisão ligada o dia inteiro! Já vão fazer cinco meses desde que tenho o meu quarto, os meus livros e roupas nos lugares que quero e PRINCIPALMENTE não tenho televisão.
Cinco meses depois e é a primeira vez que fico sozinha em casa e não invento um pretexto para sair. Eu até tinha inventado alguns, mas simplesmente decidi ficar em casa. Ia dizer que decidi enfrentar o meu medo, mas nem foi preciso. Acabei enfrentando o peso de ter uma vida que é minha porque minha casa me cativou. Apesar da pia de louça que me espera, minha casa é exatamente o que eu sempre quis – e isso vinha me assustando há alguns dias.
Estava com um medo enorme de admitir isso e lidar com o peso de um eu-sempre-quis. É sempre tão perigoso – ainda mais para alguém que muda tanto de idéia quanto eu. Fato é que percebi que não preciso ir ao cinema, não preciso estudar, nem mesmo arrumar a casa. Não preciso fingir para ninguém que estou fazendo alguma coisa de útil porque estou em casa – e posso fazer tudo isso depois.
Não preciso nem mesmo comer ou escrever minhas emoções travestidas em textos desconexos e extremamente emotivos como costumo fazer aqui. Hoje eu estou sozinha, sem conselhos e nenhuma vontade de pintar o cabelo. Só de continuar minha vida-que-eu-sempre-quis sem culpa, com minha música e minhas palavras. Eu, que sempre fugi dos pronomes possessivos, estou aqui com todos os que posso.
Quem chegar e quem já faz parte, é claro, é bem vindo, mas a porta está trancada sim, porque afinal estamos no Rio de Janeiro.
quinta-feira, agosto 19, 2010
Vênus em quadratura com saturno natal
Anéis perambulando entorno. Um polígono e minha falta de conhecimento crédulo. Não tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma.Uma fé estranha em coisas que não sou capaz de compreender.Um desgosto do tempo que passe e do verão que não chega. Vontade de outras paisagens e uma velha necessidade de sol e calor.
quarta-feira, agosto 11, 2010
Fenêtre

Caminhar paralelamente sempre. Andar de um lado da rua sempre sabendo que você caminha ali do lado. Continuamos caminhando. Outro lado de um vidro, uma garrafa, uma vitrine, um outro lugar e uma nova forma de ver a mesma coisa.
Era uma necessidade de atravessar a rua, subir no prédio em frente, atravessar o corredor, morar no apartamento em frente, atravessar a cidade, olhar para frente e ver uma árvore. Descer para tomar uma cerveja e subir para ver o mundo do lado de fora da ilha. Rodar junto com a garrafa vazia que faz perguntas e nos faz pagar patos caros. Rodar junto com a roda, brilhar junto com o brilho bêbado das noites perdidas. Olhar de fora, de dentro de um banho quente e com passarinhos passeando entre beija-flores.
É um processo e não um dia para o outro. A gente começa a historicizar tudo, a teorizar tudo, a idealizar e ideologizar tudo. As tais continuidades. As coisas que não mudam de um dia pro outro e a gente volta no dia seguinte e está tudo diferente.
Saber que as coisas mudam, a gente sempre muda. A roda não pára de rodar nunca: viva e gigante. As voltas do meu coração nunca souberam dizer uma coisa tipo 'bá!'.
Eu olhei em silêncio e não chorei quando cheguei aqui do outro lado e vi que não estava lá. Os móveis ainda são os mesmos e estamos do mesmo lado. Estamos lado a lado, de mãos dadas. É a mesma rua, mas eu vejo flores brotando no canteiro e não quero pensar que as flores morrem logo na hora em que elas estão brotando.
A temporalidade está sempre bagunçada. Onde nós (?) vemos um passado, ele vê um amontoado de experiências pobres e indizíveis. Pode ser que hoje eu não volte, mas as minhas mãos continuam coladas às suas. Não importa quantas rodas vivas e gigantes rodem e nos deixem tontas. Eu já sei que nos equilibramos mutuamente, num silêncio indisputável, que é compreensão - a simples desnecessidade de explicar o que se sente.
segunda-feira, agosto 09, 2010
quarta-feira, agosto 04, 2010
Reverência
Para ela, que estava excessivamente mais acostumada a engolir do que a vomitar, aquele momento não podia ter outro adjetivo que não o de difícil. Era muito difícil ajoelhar-se ali e pedir perdão a si mesma por tudo o que guardou dentro de si. Era um momento sagrado em que conversava com os deuses que habitavam seu corpo. Conversava com toda a fúria deles quando resolviam penalizá-la com a lembrança de que não era dona do corpo que habitava com ares de tão dona de si. Não era dona do espaço onde teimava pôr essas coisas todas que agora via sair.
Segurava os cabelos compridos fingindo completar o ritual da reverência - os deuses talvez não percebessem quanto o gesto tinha de tentativa máxima de distanciar-se de si mesma. Se pudesse arrancava as próprias mãos para evitar a náusea que sentia toda vez que se tocava. Uma espécie de culpa que se confunde com prazer. Os joelhos já doloridos de ficar ali debruçada esperando sua alma esvaziar-se. Era um esforço grande - e não só físico - reviver o gosto de cada coisa que engolira justo para evitar a convivência. Mas estava tudo ali, o tempo todo. Os fatos e formas e coisas e pessoas e momentos e sensações e sentidos e gritos e silêncios e malabarismos: todos estiveram indigestos no mesmo lugar esse tempo todo. Esperando a primeira oportunidade. Esperando transbordar, esperando explodir, esperando a hora inevitável (é só questão de tempo) de voltar à tona.
Tudo voltava sem uma sublime atmosfera de transe. De joelhos, o suor escorria pela testa, as coisas, pessoas e objetos caindo naquele recipiente branco e sagrado - todas paravam e encaravam-na com petulância. Diziam com todas as letras que nada tinha adiantado, que não adianta tentar esconder algo de si mesma dentro de si mesma. Não é justo guardar o que não é seu, ainda por cima num lugar que também não lhe pertence. Era um poço de injustiça e não se pertencia.
Aproveitava esses momentos em que o dentro (a alma?) se exteriorizava para mergulhar no mais íntimo de si. O mais sujo e íntimo. Essa parte que sabia fétida, viscosa, despedaçada. Essa parte que é também o mais precioso, o que pode ser talhado e moldado para virar alguma coisa que possa receber o nome de arte.
Mergulhava os dedos sentindo que aquilo era massa viva, era quente, pulsava ainda em sintonia com o seu coração. Ela, que sempre soube que o coração bate no estômago. Misturava a gosma entre os dedos, depositava toda a sua força, todas as suas crenças e descrenças. Era um espelho. Os pedaços aos poucos foram se tornando uma massa uniforme, as cores se fundindo numa só - dessas que não podem ter um nome.
Voltando o olhar para cima como quem diz 'amém', enxergou a parede branca como uma tela. Era isso. O objetivo fora sempre esse, desde o começo. Quando não sonhava, quando não sabia, quando não queria e só restava querer saber. É onde se completa. É onde está o sentido daquilo.
Amarrou os cabelos num nó e ergueu o corpo sentindo a dor do peso que ficara sobre os joelhos. Conseguiu perceber que já não estava lá - nem o peso nem ela mesma. Ela era a fusão entre a tinta, suas entranhas era apenas uma tinta!, e a parede.
Segurava os cabelos compridos fingindo completar o ritual da reverência - os deuses talvez não percebessem quanto o gesto tinha de tentativa máxima de distanciar-se de si mesma. Se pudesse arrancava as próprias mãos para evitar a náusea que sentia toda vez que se tocava. Uma espécie de culpa que se confunde com prazer. Os joelhos já doloridos de ficar ali debruçada esperando sua alma esvaziar-se. Era um esforço grande - e não só físico - reviver o gosto de cada coisa que engolira justo para evitar a convivência. Mas estava tudo ali, o tempo todo. Os fatos e formas e coisas e pessoas e momentos e sensações e sentidos e gritos e silêncios e malabarismos: todos estiveram indigestos no mesmo lugar esse tempo todo. Esperando a primeira oportunidade. Esperando transbordar, esperando explodir, esperando a hora inevitável (é só questão de tempo) de voltar à tona.
Tudo voltava sem uma sublime atmosfera de transe. De joelhos, o suor escorria pela testa, as coisas, pessoas e objetos caindo naquele recipiente branco e sagrado - todas paravam e encaravam-na com petulância. Diziam com todas as letras que nada tinha adiantado, que não adianta tentar esconder algo de si mesma dentro de si mesma. Não é justo guardar o que não é seu, ainda por cima num lugar que também não lhe pertence. Era um poço de injustiça e não se pertencia.
Aproveitava esses momentos em que o dentro (a alma?) se exteriorizava para mergulhar no mais íntimo de si. O mais sujo e íntimo. Essa parte que sabia fétida, viscosa, despedaçada. Essa parte que é também o mais precioso, o que pode ser talhado e moldado para virar alguma coisa que possa receber o nome de arte.
Mergulhava os dedos sentindo que aquilo era massa viva, era quente, pulsava ainda em sintonia com o seu coração. Ela, que sempre soube que o coração bate no estômago. Misturava a gosma entre os dedos, depositava toda a sua força, todas as suas crenças e descrenças. Era um espelho. Os pedaços aos poucos foram se tornando uma massa uniforme, as cores se fundindo numa só - dessas que não podem ter um nome.
Voltando o olhar para cima como quem diz 'amém', enxergou a parede branca como uma tela. Era isso. O objetivo fora sempre esse, desde o começo. Quando não sonhava, quando não sabia, quando não queria e só restava querer saber. É onde se completa. É onde está o sentido daquilo.
Amarrou os cabelos num nó e ergueu o corpo sentindo a dor do peso que ficara sobre os joelhos. Conseguiu perceber que já não estava lá - nem o peso nem ela mesma. Ela era a fusão entre a tinta, suas entranhas era apenas uma tinta!, e a parede.
quinta-feira, julho 22, 2010
Ainda membro
Alguma coisa, algum dia, teve que surgir do nada. Mas nada vai embora do nada. As tais das rupturas continuadas a que tanto nos apegamos. É um processo de mudanças e continuidades. Não adiantou dar todos os passos para frente de uma vez só. Correndo a gente cai e pode ter um abismo embaixo - que não se viu porque olhar só pra frente dá nisso.
Segurei antes de cair apenas. Abrir mão e admitir que não é possível romper consigo é quase heróico para quem precisa acreditar em heroísmo. Nunca acreditei em nada, mas nos últimos tempos tenho me agarrado a muitas coisas para não cair. Estava à beira do precipício mesmo e era a única coisa que enxergava como opção a fazer.
O problema é que quando a gente se segura por vários lados, é como se estivesse amarrado - e nem por isso deixa de estar sobre um tal abismo. Soltar uma das pontas foi quase como serrar a sangue frio a própria perna - a terceira, é claro, essa que a gente arranca, amputa, corta e sempre volta a nascer.
Eu já sabia que a gente nascia muitas vezes na vida. Mas assim em partes, assim tão esquartejada, assim brigando para não ter esse membro daninho, danoso ligado a mim. Cortei a tal da perna a sangue frio e sem anestesia. Enquanto via o sangue escorrendo e a carne se rasgando, esperei pacientemente a sensação de alívio chegar. Como quando a comida é pouca e você espera que sacie.
Respirei calmamente enquanto olhava. Era para ter outro rumo. Era para ser outra coisa, mas quando olhou o tornozelo amarrado por uma corrente escura, não era o da perna sangrenta e caída no chão. Estava presa por todos os lados. Era dessas pessoas que não tinham para onde fugir e por isso precisavam se esconder. Encarou a perna solta sem raiva, com uma certa resignação.
Segurei antes de cair apenas. Abrir mão e admitir que não é possível romper consigo é quase heróico para quem precisa acreditar em heroísmo. Nunca acreditei em nada, mas nos últimos tempos tenho me agarrado a muitas coisas para não cair. Estava à beira do precipício mesmo e era a única coisa que enxergava como opção a fazer.
O problema é que quando a gente se segura por vários lados, é como se estivesse amarrado - e nem por isso deixa de estar sobre um tal abismo. Soltar uma das pontas foi quase como serrar a sangue frio a própria perna - a terceira, é claro, essa que a gente arranca, amputa, corta e sempre volta a nascer.
Eu já sabia que a gente nascia muitas vezes na vida. Mas assim em partes, assim tão esquartejada, assim brigando para não ter esse membro daninho, danoso ligado a mim. Cortei a tal da perna a sangue frio e sem anestesia. Enquanto via o sangue escorrendo e a carne se rasgando, esperei pacientemente a sensação de alívio chegar. Como quando a comida é pouca e você espera que sacie.
Respirei calmamente enquanto olhava. Era para ter outro rumo. Era para ser outra coisa, mas quando olhou o tornozelo amarrado por uma corrente escura, não era o da perna sangrenta e caída no chão. Estava presa por todos os lados. Era dessas pessoas que não tinham para onde fugir e por isso precisavam se esconder. Encarou a perna solta sem raiva, com uma certa resignação.
segunda-feira, julho 12, 2010
Tudo o que não é
Muita coisa se fechando dentro de uma caixa. Uma caixa pequena e escura demais para tudo o que quer guardar. Uma vontade louca de não acordar, de deixar cair no chão. De não levar para casa o que não é seu, mas também não jogar em cima de ninguém o que não quer carregar.
(O corpo diz tudo. Os gestos, o jeito de olhar e a forma como aperta os lábios mostrando um desespero que quer gritar. Ela, que é tão acostumada a falar com voz de veludo. A voz também arranha, se perde. Perde os gestos, perde a medida e perde o ponto certo de tocar. Está a procura de um ponto uno, quando tem uma alma inteira. Tocar uma alma é muito difícil. É preciso uma delicadeza maior do que a frieza que escolhe entre o fio azul e o vermelho. Em caso de dúvida, sempre o vermelho. Em caso de desespero, sempre o grito. Em caso de silêncio, sempre o silêncio. Não há nada mais denso, mais turvo e mais grande que o silêncio. O silêncio está aquém da compreensão e da distância. O silêncio cria uma distância que a gente nem percebe. Não são roupas, essas a gente despe. É algo mais fundo que a gente não percebe e faltam as palavras. Estamos procurando por fora o que é bem mais fundo.)
Ela olhou vagamente a caixa preta em suas mãos. As janelas estavam todas fechadas. Não entrava vento nenhum e seus cabelos grudavam no pescoço por causa do suor. Era inverno e não sabia ao certo o que faria com aquilo, mas certa estava de não querer abrir. O peso que sentia sobre seus joelhos era bem maior do que a massa real daquele objeto. E como podia fazer tanto calor naquele vagão? As pessoas em volta pareciam não perceber. Ninguém percebia a gravidade em que viajavam. Ninguém percebia a velocidade assustadora em que o trem corria. Não imaginavam que se soltasse aquele pequeno volume, nada sobraria. Não podiam imaginar que dela mesma já não sobrava nada fazia muito. Mordeu os lábios apreensiva e continuou sentada, esperando para ver até onde aquele trem a levaria.
(O corpo diz tudo. Os gestos, o jeito de olhar e a forma como aperta os lábios mostrando um desespero que quer gritar. Ela, que é tão acostumada a falar com voz de veludo. A voz também arranha, se perde. Perde os gestos, perde a medida e perde o ponto certo de tocar. Está a procura de um ponto uno, quando tem uma alma inteira. Tocar uma alma é muito difícil. É preciso uma delicadeza maior do que a frieza que escolhe entre o fio azul e o vermelho. Em caso de dúvida, sempre o vermelho. Em caso de desespero, sempre o grito. Em caso de silêncio, sempre o silêncio. Não há nada mais denso, mais turvo e mais grande que o silêncio. O silêncio está aquém da compreensão e da distância. O silêncio cria uma distância que a gente nem percebe. Não são roupas, essas a gente despe. É algo mais fundo que a gente não percebe e faltam as palavras. Estamos procurando por fora o que é bem mais fundo.)
Ela olhou vagamente a caixa preta em suas mãos. As janelas estavam todas fechadas. Não entrava vento nenhum e seus cabelos grudavam no pescoço por causa do suor. Era inverno e não sabia ao certo o que faria com aquilo, mas certa estava de não querer abrir. O peso que sentia sobre seus joelhos era bem maior do que a massa real daquele objeto. E como podia fazer tanto calor naquele vagão? As pessoas em volta pareciam não perceber. Ninguém percebia a gravidade em que viajavam. Ninguém percebia a velocidade assustadora em que o trem corria. Não imaginavam que se soltasse aquele pequeno volume, nada sobraria. Não podiam imaginar que dela mesma já não sobrava nada fazia muito. Mordeu os lábios apreensiva e continuou sentada, esperando para ver até onde aquele trem a levaria.
quarta-feira, junho 30, 2010
Polissilábica
Uma sinestesia. Depois de mais vinte e nove dias que são trinta e um, uma sinestesia é que encontra as pessoas que não estão mesmo procurando nada. Sem procurar a gente encontra muita coisa no caminho. Se espanta, se assuta. Cai, tropeça, levanta, abraça, segura na mão da outra para se erguer. Sem procurar nada a gente ergue bem alto uma coisa muito grande. A gente procura e procura muito, procura o que já achou. Procura a cada dia não perder as rédeas, não perder o caminho, não perder as pedras bonitas que desenham as trilhas, procura não deixar que as migalhas marquem o caminho de volta. Não tem volta, tem vontade. Tem uma vontade imensa de ficar. Essa que nos fez construir esse refúgio tão perto do céu e das borboletas no meio da sala junto com o nosso retrato. É porque, mesmo que não soubéssemos antes, era um sonho junto. A mente aberta e o coração aquecido pelo conforto das paredes do penhasco. Aquela luz mansa metamorfoseou-se muitas vezes até virar esse nosso sol de noites de lua cheia que une olhares perdidos no infinito ao mar incansável. Nesse abraço se fez um ciclo que não tem fim - e é só mudar o jeito de ver. Criou raízes que se alastram e quebram o chão para se enroscar. A gente se transformou muito ao longo desse tempo - porque mudar é viver cada segundo - nos transformamos em luares, em ventanias, em arco-íris, em plurais, correntezas, em sóis a pino. Aprendi a vestir o meu melhor sorriso e ver o seu que faz tudo ficar bem e certo. No meio de tudo o que aprendi ainda não sei o jeito certo de tirar do seu olhar essa neblina, mas não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo, minhas mãos vão estar coladas às suas - eu juro que não vou soltar.
Casa no Céu (Isabella Taviani)
Eu vou comprar uma casa no céu
E mandar mobiliar como gostamos tanto
Tudo tão branco
Borboletas por todos os lados
Visitando um jardim perfumado
E no meio da sala
O nosso retrato
Tudo que sonhamos juntos vamos conquistar
Basta ter a mente aberta
E um coração bem quente pra acreditar
Meu anjo lindo
Bem no alto da montanha
Eu vou plantar nosso lugar
Nosso eterno lar
Onde as raízes vão pra sempre se enroscar
Não precisamos de luxo e riqueza
Tenho você meu tesouro
Que beleza!
Só por você eu insisto
Lá teremos os nossos dois filhos
E se não for possível abriremos as portas
Pros bons e velhos amigos
E mandar mobiliar como gostamos tanto
Tudo tão branco
Borboletas por todos os lados
Visitando um jardim perfumado
E no meio da sala
O nosso retrato
Tudo que sonhamos juntos vamos conquistar
Basta ter a mente aberta
E um coração bem quente pra acreditar
Meu anjo lindo
Bem no alto da montanha
Eu vou plantar nosso lugar
Nosso eterno lar
Onde as raízes vão pra sempre se enroscar
Não precisamos de luxo e riqueza
Tenho você meu tesouro
Que beleza!
Só por você eu insisto
Lá teremos os nossos dois filhos
E se não for possível abriremos as portas
Pros bons e velhos amigos
quarta-feira, junho 23, 2010
A última folha de papel
"Escorreu pela escada, não foi? Só quero que você me responda essa pergunta simples. Só quero saber como foi que acabou, quando foi embora. Em que momento que uma coisa - se é que se pode chamar de coisa - foi substituída pela outra. Sim, porque tem de haver um momento. Um instante em que você viu o céu fechar e no meio de uma cegueira enorme aquela ilha que julgávamos ter descoberto foi inundada. O inverno se mostra no espelho e é como se me tivessem tirado uma parte que eu não sabia mas nunca foi minha. A singularidade de tudo isso é o que mais choca. Porque o costume me diz um plural que eu não vejo mais quando acordo ou quando deito esperando um sono que nunca chega. É preciso ter sonhos para dormir em paz."
-------------
Não era nada daquilo. Rasgou o papel com uma raiva que era apenas do papel e de si mesmo, porque dela não conseguia sentir. Ou melhor, não conseguia era deixar de sentir tudo aquilo que até a véspera parecia ter significado e sentido. Agora tinha uma confusão de vazios, um papel com umas boas bobagens suicidas ou assassinas ou demasiado piegas, e uma caneta ameaçando falhar.
Pensou em muita auto-ajuda e em experiências passadas a que tinha sobrevivido. Pois é, não é que estava vivo para passar por aquilo tudo que já nem se imaginava capaz.
Depois de chorar como uma criança por duas noites e dois dias ininterruptos, tinha decidido usar um papel e caneta para tirar aqueles sentimentos disformes e sem nome de dentro de si.Nem que fosse uma escavadeira ou um bisturi, concluiu débil. O pior de sentir uma dor é saber que ela é só nossa.
Não tinha nada a fazer além de limpar com um pano incardido a tinta da caneta que acabava de estourar em suas mãos respingnado por todo o chão e manchando o papel sem endereço certo.
-------------
Não era nada daquilo. Rasgou o papel com uma raiva que era apenas do papel e de si mesmo, porque dela não conseguia sentir. Ou melhor, não conseguia era deixar de sentir tudo aquilo que até a véspera parecia ter significado e sentido. Agora tinha uma confusão de vazios, um papel com umas boas bobagens suicidas ou assassinas ou demasiado piegas, e uma caneta ameaçando falhar.
Pensou em muita auto-ajuda e em experiências passadas a que tinha sobrevivido. Pois é, não é que estava vivo para passar por aquilo tudo que já nem se imaginava capaz.
Depois de chorar como uma criança por duas noites e dois dias ininterruptos, tinha decidido usar um papel e caneta para tirar aqueles sentimentos disformes e sem nome de dentro de si.Nem que fosse uma escavadeira ou um bisturi, concluiu débil. O pior de sentir uma dor é saber que ela é só nossa.
Não tinha nada a fazer além de limpar com um pano incardido a tinta da caneta que acabava de estourar em suas mãos respingnado por todo o chão e manchando o papel sem endereço certo.
terça-feira, junho 22, 2010
Orgulho
Acordada sob um balde de água fria, ela não soube fazer nada diferente de buscar os esquecimentos de costume. A pele gelada de susto, os poros eriçados em alerta, os olhos ainda cambaleantes. Sacudiu o corpo todo num calafrio involuntário, tentativa de recobrar o ritmo. Piscou lentamente tentando entender o que lhe faziam.
Quis se encolher sob uma coberta já inexistente, aconchegar-se num colchão agora molhado e tão rápido! frio.
Ainda deitada, olhou para a madeira escura da porta imaginando o que estaria do outro lado. Não teve coragem de levantar e abrir.
Quis se encolher sob uma coberta já inexistente, aconchegar-se num colchão agora molhado e tão rápido! frio.
Ainda deitada, olhou para a madeira escura da porta imaginando o que estaria do outro lado. Não teve coragem de levantar e abrir.
segunda-feira, junho 21, 2010
É a impressão que ela dá
Me perguntaram outro dia - embora a pergunta não tenha sido diretamente para mim, tomei as dores - se eu mataria pelo que escrevo. A pergunta soa muito forte e fiquei sem saber o que a pessoa queria ouvir como resposta.
Eu nunca fui nada a ideologias nem nunca gostei muito de defender causas. Talvez nunca tenha encontrado uma grande o bastante que merecesse meu esforço todo. Fato é que no meio de todo o meu ceticismo, olhei para o meu caderninho (onde não escrevo lá grandes coisas) e percebi que eu queria que a resposta desejada fosse que sim, que eu mataria pelas minhas idéias.
Fiquei com uma séria indignação quando percebi que a conversa continuava no clima, o problema é matar pelas idéias. Não cheguei a entrar no mérito da violência ou do direito que uma pessoa possa ter ou não sobre a vida da outra.
Olhei para dentro com toda superficialidade que um momento público me permitia e não vi idéia nenhuma. O problema não era a minha gana assassina (que toda vez que eu vejo uma barata descubro que não tenho) o problema é a total falta de pelo quê lutar.
Nunca achei que as bandeiras que vejo por aí levantadas serviam para mim. O mais perto que já cheguei de levantar alguma, foi uma com um arco-íris bem bonito. Confesso que as cores pareceram me proteger com uma áurea brilhante e justificada, mas com o tempo estava eu bebendo do mesmo copo dos meus inimigos.
Não digo que me vi nua, pois essa seria uma situação confortável para mim. Me vi sem reflexo, sem ter o que pintar no rosto em tempo de festa. Sem ter o que defender.
Eu posso defender algumas pessoas, as que amo, principalmente. Mas as tais das idéias de que falam naquela cena inicial de V de Vingaça ficam faltando.
Quando o tal do professor (ops, denunciei...) perguntou se alguém ali mataria pelo que escreve, eu, com as poucas coisinhas que escrevo, tive vontade de dizer que sim. Mas no meu silêncio, cantarolei uma musiquinha pouco conhecida: "nem sempre faço o que é melhor pra mim, mas nunca faço o que eu não estou afim de fazer. Não viro vampiro, eu prefiro sangrar. Me obrigue a morrer, mas não me peça pra matar").
Eu nunca fui nada a ideologias nem nunca gostei muito de defender causas. Talvez nunca tenha encontrado uma grande o bastante que merecesse meu esforço todo. Fato é que no meio de todo o meu ceticismo, olhei para o meu caderninho (onde não escrevo lá grandes coisas) e percebi que eu queria que a resposta desejada fosse que sim, que eu mataria pelas minhas idéias.
Fiquei com uma séria indignação quando percebi que a conversa continuava no clima, o problema é matar pelas idéias. Não cheguei a entrar no mérito da violência ou do direito que uma pessoa possa ter ou não sobre a vida da outra.
Olhei para dentro com toda superficialidade que um momento público me permitia e não vi idéia nenhuma. O problema não era a minha gana assassina (que toda vez que eu vejo uma barata descubro que não tenho) o problema é a total falta de pelo quê lutar.
Nunca achei que as bandeiras que vejo por aí levantadas serviam para mim. O mais perto que já cheguei de levantar alguma, foi uma com um arco-íris bem bonito. Confesso que as cores pareceram me proteger com uma áurea brilhante e justificada, mas com o tempo estava eu bebendo do mesmo copo dos meus inimigos.
Não digo que me vi nua, pois essa seria uma situação confortável para mim. Me vi sem reflexo, sem ter o que pintar no rosto em tempo de festa. Sem ter o que defender.
Eu posso defender algumas pessoas, as que amo, principalmente. Mas as tais das idéias de que falam naquela cena inicial de V de Vingaça ficam faltando.
Quando o tal do professor (ops, denunciei...) perguntou se alguém ali mataria pelo que escreve, eu, com as poucas coisinhas que escrevo, tive vontade de dizer que sim. Mas no meu silêncio, cantarolei uma musiquinha pouco conhecida: "nem sempre faço o que é melhor pra mim, mas nunca faço o que eu não estou afim de fazer. Não viro vampiro, eu prefiro sangrar. Me obrigue a morrer, mas não me peça pra matar").
quarta-feira, junho 16, 2010
De bicicleta
Não é uma questão de sentimento. É orgânico. É um (des)equilíbrio químico. É a onda cíclica (?) que assombra em períodos eventuais e vem dizer que vontade não é uma questão de escolha. É a pulsão freudiana no sentido de que pode ser resolvida com pílulas mágicas - vai depender da dosagem o veneno-remédio.
Ela faz a revolução sem saber que sentido usa para a palavra. Muda tudo sem saber que volta para um mesmo lugar - a cada volta aperta mais. Um mesmo ponto e pela mesma razão. Alguns sabem que não é ela que determina a tal da humanidade, nenhuma outra coisa que não aquela habilidade de pegar um objeto com os dedos em oposição.
O que isso significa? Que talvez não dê mesmo para pegar nas mãos o tal do controle da própria vida. Não dá mesmo para achar que é só escrever o roteiro - é outra pessoa quem vai filmar, são outros os que vão cuidar da fotografia, da iluminação, da trilha sonora, da atuação e até mesmo da escalação do elenco.
Não é só o tempo a areia seca que escorre por entre os nosso magníficos polegares opositores.
Pequenas faltas de sentido e a gente vai para onde tiver espaço, para onde nos levam os meios de transporte.
Querendo viver sempre em alta velocidade só para ter o vento no rosto. O perigo é não saber medir os perigos na hora certa. A velha história da altura do tombo.
Mas para quem crê que não há caminhos, esse é o único caminho.
Ela faz a revolução sem saber que sentido usa para a palavra. Muda tudo sem saber que volta para um mesmo lugar - a cada volta aperta mais. Um mesmo ponto e pela mesma razão. Alguns sabem que não é ela que determina a tal da humanidade, nenhuma outra coisa que não aquela habilidade de pegar um objeto com os dedos em oposição.
O que isso significa? Que talvez não dê mesmo para pegar nas mãos o tal do controle da própria vida. Não dá mesmo para achar que é só escrever o roteiro - é outra pessoa quem vai filmar, são outros os que vão cuidar da fotografia, da iluminação, da trilha sonora, da atuação e até mesmo da escalação do elenco.
Não é só o tempo a areia seca que escorre por entre os nosso magníficos polegares opositores.
Pequenas faltas de sentido e a gente vai para onde tiver espaço, para onde nos levam os meios de transporte.
Querendo viver sempre em alta velocidade só para ter o vento no rosto. O perigo é não saber medir os perigos na hora certa. A velha história da altura do tombo.
Mas para quem crê que não há caminhos, esse é o único caminho.
segunda-feira, junho 14, 2010
Um ciclo
Não adianta esperar que venha alguma coisa. Nunca acreditei em culpa, por que passaria tanto tempo esperando a redenção? Os dias passam, os anos passam e na falta de em que se apoiar, a gente vai conquistando pequenas crenças. Adquirindo alguma fé para manter a esperança. Criticando toda a velha moral cristã, não passamos de pobres perdidos esperando alguma salvação. Procuramos algum caminho mesmo com essa certeza aguda de que não há caminho nenhum, não há salvação nenhuma. Ítaca nunca existiu e cabe a nós escolhermos se queremos olhar pela janelinha ao longo do caminho. Houve tempo em que eu preferia o vento nos olhos. Falta disposição para engolir - e as coisas sempre ficam estacionadas no estômago. Falta uma disposição bem maior para peneirar a gosma. Fazer a escolha definitiva entre o querer e o não querer. Ter a coragem de enfiar o dedo na garganta. Escrever não dói. (Peneirar a gosma sim).
segunda-feira, junho 07, 2010
Cultivo do desenlouquecimento ou Cinco anos, muleque!
Há 21 anos estou tentando me sentir em casa no mundo e há cinco construí esse meu mundinho daqui - que já mudou de cor e de cara muitas vezes. Era um jeito de tentar pôr ordem em alguma coisa dentro de mim. Criar uma espécie de disciplina para escrever, mas nunca deu certo. A idéia inicial era conseguir transformar os meus desabafos em coisas compreensíveis para outras pessoas (a pretensão mais vã e ingênua de todas). Fato é que tenho conseguido descobrir aqui muito mais do que na terapia, por exemplo - não contem a ninguém, mas acho que não sobrevivi nem dois meses a ela, comecei a faltar às consultas e a simplesmente não atender aos telefonemas do tal do psicólogo (será que ele se achou fracassado por isso? será que ele insistiu tanto porque queria me internar?). Pois é, são cinco anos...
Sei que algumas pessoas devem ter a esperança de que este post seja, afinal, uma tomada de consciência: se nada funcionou em cinco anos, ela finalmente vai dizer que o blog vai sair do ar. Sinto decepcionar, mas não é o caso ainda. Olha, que ao longo desse tempo eu pensei muitas vezes em apagar, excluir do mapa esse lugar que nunca existiu. Mas nunca consegui. Essa boneca confusa que às vezes vos escreve se tornou uma parte imprescindível de mim. Já tentei matá-la muitas vezes, mas acho que isso seria cruel demais. Logo agora que aprendemos a conviver tão bem. Essas bonecas, que sempre se mostram mais e mais russas - acabam sendo o desdobramento das coisas que vou descobrindo sobre mim. É um livro aberto muito do particular esse aqui, e acho que faz parte do charme e das minhas loucuras não ter muitos leitores (será que ainda tenho algum?). Sempre escrevi muito mais para mim mesma do que para um leitor imaginário. Não quero me fingir de desvaidecida e dizer que criei um blog (quatro!) para ninguém ler. A escrita é uma arte que só se completa na leitura - é assim que sempre pensei: "a verdade das palavras está na alma de quem as lê". É claro que com o passar dos anos deixei de acreditar em verdade, mas descobri muitas coisas mais pelo caminho. E uma parte do caminho vai continuar sendo traçada e testemunhada aqui. Não sei a quem devo agradecer ou parabenizar por esses cinco anos, mas não podia deixar de fazer um registro (talvez ao blogspot que nunca me tirou do ar...).
As loucuras brotaram e deram alguns frutos bonitos até, as velhas e novas partes continuam coexistindo - assim como o convite para quem quiser entrar e opinar.
Sei que algumas pessoas devem ter a esperança de que este post seja, afinal, uma tomada de consciência: se nada funcionou em cinco anos, ela finalmente vai dizer que o blog vai sair do ar. Sinto decepcionar, mas não é o caso ainda. Olha, que ao longo desse tempo eu pensei muitas vezes em apagar, excluir do mapa esse lugar que nunca existiu. Mas nunca consegui. Essa boneca confusa que às vezes vos escreve se tornou uma parte imprescindível de mim. Já tentei matá-la muitas vezes, mas acho que isso seria cruel demais. Logo agora que aprendemos a conviver tão bem. Essas bonecas, que sempre se mostram mais e mais russas - acabam sendo o desdobramento das coisas que vou descobrindo sobre mim. É um livro aberto muito do particular esse aqui, e acho que faz parte do charme e das minhas loucuras não ter muitos leitores (será que ainda tenho algum?). Sempre escrevi muito mais para mim mesma do que para um leitor imaginário. Não quero me fingir de desvaidecida e dizer que criei um blog (quatro!) para ninguém ler. A escrita é uma arte que só se completa na leitura - é assim que sempre pensei: "a verdade das palavras está na alma de quem as lê". É claro que com o passar dos anos deixei de acreditar em verdade, mas descobri muitas coisas mais pelo caminho. E uma parte do caminho vai continuar sendo traçada e testemunhada aqui. Não sei a quem devo agradecer ou parabenizar por esses cinco anos, mas não podia deixar de fazer um registro (talvez ao blogspot que nunca me tirou do ar...).
As loucuras brotaram e deram alguns frutos bonitos até, as velhas e novas partes continuam coexistindo - assim como o convite para quem quiser entrar e opinar.
quinta-feira, maio 27, 2010
Memoração da existência
É sempre tão sintomático.
Explode pelo mesmo ponto,
espirra pelo mesmo poro.
Todas as coisas
às quais não se pode dar nome
corroem as paredes das vísceras,
formam um bolo estacionado.
É também sintomático,
as membranas se alargam
para um parto difícil.
Algo que se rompe,
uma lagarta que enfim se transforma.
Uma volta se completa
e transmuta de estação.
Os ciclos se rompem:
transformam-se
(em espirais novas e coloridas).
Explode pelo mesmo ponto,
espirra pelo mesmo poro.
Todas as coisas
às quais não se pode dar nome
corroem as paredes das vísceras,
formam um bolo estacionado.
É também sintomático,
as membranas se alargam
para um parto difícil.
Algo que se rompe,
uma lagarta que enfim se transforma.
Uma volta se completa
e transmuta de estação.
Os ciclos se rompem:
transformam-se
(em espirais novas e coloridas).
quinta-feira, maio 20, 2010
Reencontro
Andando apressada, como todos os dias, atrasada daquele jeito que já não se olha no relógio porque nem vale a pena. Era fim de tarde e o tempo esfriava aos poucos, a temperatura ia caindo a cada baforada de vento nos cabelos. Aquele mesmo viaduto, lembranças rápidas vieram de um outro tempo, um dia agora quase distante. Apertou o passo evitando olhar a paisagem. Inevitável. Olhos abertos e acelerados focaram na imagem assustadora: era ele.
A trilha sonora interrompida voltou à mente sem pedir nenhuma licença. Ele tinha o mesmo olhar penetrante, o mesmo ar despojado. Segurou o próprio corpo com a respiração que faltou. Olhou em volta, talvez viesse alguém, talvez alguém pudesse perceber o que se passava ali. As pessoas passando impassíveis responderam que não, que não viam, não percebiam, não queriam perceber. Uma solidão medonha apareceu ressignificada.
Nos instantes em que o corpo e a mente ficaram retidos naqueles olhos secos e sem nenhuma lembrança em que pudesse se reconhecer, suas sinapses congelaram naquela mesma música interrompida sem pudor. O mesmo medo voltou reciclado, ressignificado. Teve uma vontade incontrolável de ter coragem, de poder fazer alguma coisa, de gritar ou perguntar em tom seco como seus olhos se ele lembrava dela.
Bobagem. Ele nunca lembraria, era só mais uma. Uma manhã qualquer de verão, sem nenhum significado pa-ra e-le - essas duas palavras repetiam-se pausadamente com rancor.
Não conseguiu outra atitude que não tornar a mover os pés, retomar os passos e a pressa.
Só mais uma, só mais um. Um assalto, um assaltante, um momento banal.
A trilha sonora interrompida voltou à mente sem pedir nenhuma licença. Ele tinha o mesmo olhar penetrante, o mesmo ar despojado. Segurou o próprio corpo com a respiração que faltou. Olhou em volta, talvez viesse alguém, talvez alguém pudesse perceber o que se passava ali. As pessoas passando impassíveis responderam que não, que não viam, não percebiam, não queriam perceber. Uma solidão medonha apareceu ressignificada.
Nos instantes em que o corpo e a mente ficaram retidos naqueles olhos secos e sem nenhuma lembrança em que pudesse se reconhecer, suas sinapses congelaram naquela mesma música interrompida sem pudor. O mesmo medo voltou reciclado, ressignificado. Teve uma vontade incontrolável de ter coragem, de poder fazer alguma coisa, de gritar ou perguntar em tom seco como seus olhos se ele lembrava dela.
Bobagem. Ele nunca lembraria, era só mais uma. Uma manhã qualquer de verão, sem nenhum significado pa-ra e-le - essas duas palavras repetiam-se pausadamente com rancor.
Não conseguiu outra atitude que não tornar a mover os pés, retomar os passos e a pressa.
Só mais uma, só mais um. Um assalto, um assaltante, um momento banal.
terça-feira, maio 18, 2010
Trocando de roupa
Para ficar no mesmo lugar, coisa outra. Para parar e deixar a roda rodar troco outra vez de roupa e fico sempre aqui (sem ter bem pra onde ir, por medo ou preguiça). Acrescendo coisas e restando em casa, cada ciclo uma casa nova, novas cores dessas que fazem o mundo explodir e ficar a sensação de que não podia ter sido melhor.
Escrevo uns versos, depois dobro tudo num origami desconexo. Me guardo em algumas caixas e declamo rimas antigas ao vento. As mesmas paixões velhas, angústias serenas já quase amigas.
Era para ser sério ou ao menos um pouco coerente, mas devo ter nascido sem. É só deixar correr, deixar secar, deixar sair,
e continuar...
Escrevo uns versos, depois dobro tudo num origami desconexo. Me guardo em algumas caixas e declamo rimas antigas ao vento. As mesmas paixões velhas, angústias serenas já quase amigas.
Era para ser sério ou ao menos um pouco coerente, mas devo ter nascido sem. É só deixar correr, deixar secar, deixar sair,
e continuar...
Adulteci.
É porque lua tem fase, é porque decorar versos tem cor e deslizes acontecem mais vezes do que nós gostaríamos. É porque retorna no meio do excesso e eu me vejo sozinha além de sabendo andar só. Passei do tempo de andar em bando. Ando em dois, ando em nós - os das cordas que nos prendem de vontade, os dos lençóis, os dos plurais.
As rodas param e a gente desce mesmo se ninguém deixar. Vejo você parada e sorrindo com um algodão doce nas mãos, ciente de que estão mesmo nas coisas mais pequenas as coisas grandes que a gente procura-encontra por acaso.
As rodas param e a gente desce mesmo se ninguém deixar. Vejo você parada e sorrindo com um algodão doce nas mãos, ciente de que estão mesmo nas coisas mais pequenas as coisas grandes que a gente procura-encontra por acaso.
sábado, maio 15, 2010
Alguns luares depois

Morto. Parece tudo morto. Como se o dia já nascesse morto lá em cima. A gente faz tudo sem fazer nada. A cabeça dói, os olhos secos doem, o sono interrompido dói. Não é tempo de muitos sorrisos. O céu "abril-se" fechando o mês e levando alguém querido com ele. Como ele atravessou aquela nuvem tão espessa e fria? Ah... ele devia saber das Ítacas, devia estar tranquilo também sabendo que lá, depois do arco-íris invisível metastaseado por aquele cinza da nuvem deve estar um céu bem azul.
Os sustos foram grandes. Sabe quando o banco balança e parece que a gente vai despencar lá embaixo? Não sabe? Claro. Você nunca foi a um parque de diversões. Você devia ir, vai acabar descobrindo que mesmo quando o aparelho está chato e as pessoas fazendo cara de assustadas, ou de medo, a tortura acaba. O moço sempre vira a manivela e bah! Acaba tudo.
A gente não caiu, nem vai cair. Os sustos foram apenas pedagógicos. A roda parece parada enquanto a morte ronda, mas a gente muda o final do filme. A gente até esqueceu um pouco o que ficou logo atrás dos ombros. Aqueles sorrisos, a-que-les sor-ri-sos! Lembra? Silenciosos comovem, barulhentos fazem a barriga doer e bagunçam os lençois. Bagunça boa... lembra tempo.
É, daqui de cima, pensando bem, não dá para ver direito. As pessos sumiram e só se vê o que é concreto, os borrões do asfalto, as luzes do carro passando rádido. Dentro deles imagino pessoas falando ou pensando freneticamente em tudo o que têm para fazer até virar o mês. Mesmo quando a gente se esforça, se concentrando em abrir bem os olhos não dá pra ver. Não dá pra achar nada que valha a pena contar, descrever animadamente, esculpindo a imagem à palavras, expulsando o mau humor com uma divertida história. Não, não vale a pena insitir naquele tumulto... não se salva nada. Só fica essa angustia... no fundo é bom, não falo da roda, falo da angustia. Alguém me dizia: não deixa água parada aqui dentro. Tão poucopra quem queria dizer coisas grandes, meio patético até, mas bem verdadeiro.
Sobra dentro, a gente começa a se questionar sobre coisas tão banais... Às vezes essa brincadeira de passar o tempo procurando o que fazer, o que escrever, acaba desencadeando uma mania de achar problema onde não tem. Já dizia a mamãe. É... o tédio e a impaciência. A gente não percebe, mas isso vai se enraizando tanto na rotina que depois é pior que erva-daninha pra matar. Xô pra lá! Entra no mar porque a coisa tá feia. Toma um banho de sal grosso, bate na madeira.
Faz uma respiração bem funda, tenta ultrapassar os limites da epiderme da alma, superfície calma? Esqueço sempre as letras...
Enfim, voltam os luares na história. Passaram-se vários, 10, 11... 12! A roda deve ter dado algumas voltas, a gente é que se perdendo em absurdos, não conseguiu anotar nada para contar nas horas de trânsito lento. Eu nem levei caderno... mas você pode sempre escrever em mim. "Me continua..."
Mas tiveram coisas bonitas no caminho, né? Conseguimos quase decorar as faixas de um ou dois shows inteiros. Acabou a pilha, mas hoje tem mais. Carne e osso, à cores e ao vivo. Chega desse papo de morte. Hoje tem 'mais do mesmo', que sendo da gente, não é monótono, é doce. É quase sempre doce. (Preciso encontrar um jeito de riscar o quase). É nosso e transforma a gente em luar.
"Coisas que eu sei - pensou - se eu for eu vou assim não vou trocar de roupa".
Eu vou, mas eu volto. E chego já.
quinta-feira, maio 06, 2010
Sem dizer
Só a loucura. Apesar de e somando tudo, só a loucura. Sempre a um passo do desespero, sempre vestindo e encenando os dramalhões, sofrendo mais do que devo cada coisa. E não fazendo. Não fazer me toma um tempo, um esforço. Dá um trabalho negar tanta coisa e me manter imóvel no meio desse mundo que se movimenta tanto.
O peso de uma verdade, uma conversa - e alguém virá me dizer que não é o caso nem há motivo, já que a verdade não existe. Se preferirem, eu posso mesmo fingir que não existe e posso até dizer que assim será mais confortável.
Mas viver sempre me foi um desconforto tão grande. Porque é preciso viver dentro das engrenagens. A vida só é possivel em relação a outras pessoas. É um rede, ou uma cama de gato para quem preferir. Eu, que nunca soube desvencilhar com talento dos fios, fiquei enroscada de um jeito difícil de sair.
Invento desculpas, provoca uma briga e digo que não estou. Não tenho paciência para pagar a conta do analista.
As tais escolhas que é preciso fazer.
Eu que não peço mais força me pergunto se já tenho mesmo toda de que preciso.
O peso de uma verdade, uma conversa - e alguém virá me dizer que não é o caso nem há motivo, já que a verdade não existe. Se preferirem, eu posso mesmo fingir que não existe e posso até dizer que assim será mais confortável.
Mas viver sempre me foi um desconforto tão grande. Porque é preciso viver dentro das engrenagens. A vida só é possivel em relação a outras pessoas. É um rede, ou uma cama de gato para quem preferir. Eu, que nunca soube desvencilhar com talento dos fios, fiquei enroscada de um jeito difícil de sair.
Invento desculpas, provoca uma briga e digo que não estou. Não tenho paciência para pagar a conta do analista.
As tais escolhas que é preciso fazer.
Eu que não peço mais força me pergunto se já tenho mesmo toda de que preciso.
segunda-feira, maio 03, 2010
Sonolento
A semana começa meio sem pedir licença. Os olhos abrem sem força nem vontade e encontram uns borrões opacos pelo caminho que não querem seguir. Aliás, caminhos não faltam, estradas escuras e desertas pelas quais a mulher-que-escreve-um-poema-no-banco-de-trás passa sem nada pensar. O grafite passeia por papéis imaginários que ela representa com a força e a superficialidade que talhou só para a ocasião. Os caminhos são tantos e o sentido - aff - nenhum. Os dias passam voando com o vento no rosto, vendo taxímetros e ponteiros marcarem velocidades que não se julga capaz de percorrer. O corpo se deixa ir pesado para lugares cada vez mais distantes e indecifráveis. O caminho para Aeda é só o caminho. Escovando a contrapelo esse relógio estranho que na verdade se tenta parar mas, quando toca o objeto, a mão submerge na penugem esquisita e predadora.
Aquele homem ainda está sentado à beira da praia sentindo os suspiros da morte lhe fazerem rodopios no estômago. Aquela velha mulher ainda briga com a fobia de dirigir e vê que os dias são círculos concêntricos de raio decrescente fechando-se ao redor de alguma parte do corpo que sempre dói a mesma dor aguda de todos os dias e não sabe precisar onde fica de tanto que parece funda. Um menino brinca de estourar bolhas de sabão sem saber da violência com que destrói os próprios sonhos. Uma adolescente catastrófica acende um cigarro e contempla a fumaça pelo prazer de ter as rédeas de sua própria morte - uma parte de si pensa no homem à beira da praia, já há tantos anos congelado no mesmo tormento.
Nenhum deles sobreviveu a nada ainda. Nem se julgam capazes por circunstância de não mais que meros reflexos de uma página encardida e sublinhada numa estante. A menina fecha os olhos e ainda dança com as garras de seu falcão presas ao bracinho frágil. São só espirais de angústias vagas e, de tão fundas, superficiais. Não quero ir muito longe, nunca quis ir rápido e também nunca saí do lugar. Não preciso chegar ao final para saber o quão perigoso é viver - nem a carência de abrir mão de minhas palavras grandes e neologismos infantis.
Tem uma doçura. Eu sei, embora não possa provar o paladar alheio, que existe uma doçura quase palpável nos sobrevoando. E sei todas as velhas histórias sobre o caminho, a estrada e a distração. Sei da urgência que se imprime na pele enegrecida pelo tempo, calor e esforço.
Aquele homem ainda está sentado à beira da praia sentindo os suspiros da morte lhe fazerem rodopios no estômago. Aquela velha mulher ainda briga com a fobia de dirigir e vê que os dias são círculos concêntricos de raio decrescente fechando-se ao redor de alguma parte do corpo que sempre dói a mesma dor aguda de todos os dias e não sabe precisar onde fica de tanto que parece funda. Um menino brinca de estourar bolhas de sabão sem saber da violência com que destrói os próprios sonhos. Uma adolescente catastrófica acende um cigarro e contempla a fumaça pelo prazer de ter as rédeas de sua própria morte - uma parte de si pensa no homem à beira da praia, já há tantos anos congelado no mesmo tormento.
Nenhum deles sobreviveu a nada ainda. Nem se julgam capazes por circunstância de não mais que meros reflexos de uma página encardida e sublinhada numa estante. A menina fecha os olhos e ainda dança com as garras de seu falcão presas ao bracinho frágil. São só espirais de angústias vagas e, de tão fundas, superficiais. Não quero ir muito longe, nunca quis ir rápido e também nunca saí do lugar. Não preciso chegar ao final para saber o quão perigoso é viver - nem a carência de abrir mão de minhas palavras grandes e neologismos infantis.
Tem uma doçura. Eu sei, embora não possa provar o paladar alheio, que existe uma doçura quase palpável nos sobrevoando. E sei todas as velhas histórias sobre o caminho, a estrada e a distração. Sei da urgência que se imprime na pele enegrecida pelo tempo, calor e esforço.
A senha da roda gigante
Fissura de quem segura muita coisa. Vertigem germinando num mundo que não pára de rodar. Tentando ir junto e fazendo cara de feliz enquanto a náusea da roda me toma. Decorei a palavrinha, mas toda vez que repito, há uma dor funda e estranha na garganta. Parece que até para entrar na roda e rodar (ah, eu não sei como se dança, eu não sei dançar) preciso abdicar dos cem. As coisas se montam sozinhas, sem que eu veja - e muito menos tenha algum controle. Tá lá. Tá tudo lá. Tudo pronto. Mas nem que eu tenha que desfazer tudo, jogar tudo no chão e refazer em cada pedaço o nosso mosaico colorido, não vou me deixar acreditar que a vida vai por si e a gente só vai vivendo. Minha teimosia em ter as tais rédeas na mão que nunca cavalgou me faz desmanchar tudo com a mão e refazer cada grãozinho.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
Algo que pode ser uma despedida
Sem fé nem coragem, mas com alguma pressa, piscou os olhos como quem sabe o que faz e foi para o outro lado.
O lado de quem sabe o que faz. Chegando lá, sentou e esperou pacientemente o momento de saber, de agir e viver como se fosse a coisa mais natural - afinal, se nascemos, é o que resta. Ficou pensando nos restos de si que deixara pelo caminho e nada parecia muito natural.
Continuou sem saber se algum grande momento viria, se era dor do tamanho ou do peso aquilo que sentia; se os outros não sentiam nada ou sabiam era fingir muito bem.
Fechou os olhos como quem não tem fé nenhuma.
O lado de quem sabe o que faz. Chegando lá, sentou e esperou pacientemente o momento de saber, de agir e viver como se fosse a coisa mais natural - afinal, se nascemos, é o que resta. Ficou pensando nos restos de si que deixara pelo caminho e nada parecia muito natural.
Continuou sem saber se algum grande momento viria, se era dor do tamanho ou do peso aquilo que sentia; se os outros não sentiam nada ou sabiam era fingir muito bem.
Fechou os olhos como quem não tem fé nenhuma.
quarta-feira, dezembro 16, 2009
O meu escudo além dos olhos
Enquanto você não chega eu fico aqui inventando coisas que não dão para amassar depois e jogar longe. [Eu dou para amassar depois e me guardo perto, sempre perto]
Enquanto o vento corre seco nas flores da noite lá fora eu fico esperando que você vá, mas vá logo. Pra depois voltar mais logo ainda.
Enquanto essa sede de muito mais coisas do que você envelhece na boca e na pele como a vista que cansa dos mosaicos a cores, eu me coloco nesses mosaicos muitos mais estranhos e finjo que faz sentido apenas esperar de boca vazia e barriga cheia.
Você não veio nem vem e já passaram muitos anos desde o tempo que eu acreditava que a vida tanto fazia pra mim. Pois tanto faz que você não venha, porque eu espero você chegar do mesmo jeito. Tanto faz que você não queira, que eu espero a maré virar, o oceano ir e voltar, porque eu não nasci ontem, eu sei que volta. E seja em caravelas, barcas, balsas, aviões, foguetes ou bolhas de sabão, eu sei que você sempre vai e sempre volta. Como criança que espera a mãe trabalhar. Como os objetos que jogo nas paredes na raiva de ausência e que só voltam despedaçados. Não peço que volte inteira. Aliás, nunca pedi nada mesmo. Só quero o que me seja dado de graça. Você é uma graça! E o mundo uma casa aconchegante. Vence na vida quem diz sim.
Sim aos meus escudos além dos olhos, os meus apuros além dos poros. O meu seguro que já não precisa de prestações e dívidas velhas. Meus olhos sabem que você chega mesmo que não veja, que você deseja - e eu desejo - mesmo que não tenha. Que você receba, mesmo que não venha (mas venha!)...
Eu me desmorono toda, porque já entrei e não é o caso de ter ou não volta.
Enquanto o vento corre seco nas flores da noite lá fora eu fico esperando que você vá, mas vá logo. Pra depois voltar mais logo ainda.
Enquanto essa sede de muito mais coisas do que você envelhece na boca e na pele como a vista que cansa dos mosaicos a cores, eu me coloco nesses mosaicos muitos mais estranhos e finjo que faz sentido apenas esperar de boca vazia e barriga cheia.
Você não veio nem vem e já passaram muitos anos desde o tempo que eu acreditava que a vida tanto fazia pra mim. Pois tanto faz que você não venha, porque eu espero você chegar do mesmo jeito. Tanto faz que você não queira, que eu espero a maré virar, o oceano ir e voltar, porque eu não nasci ontem, eu sei que volta. E seja em caravelas, barcas, balsas, aviões, foguetes ou bolhas de sabão, eu sei que você sempre vai e sempre volta. Como criança que espera a mãe trabalhar. Como os objetos que jogo nas paredes na raiva de ausência e que só voltam despedaçados. Não peço que volte inteira. Aliás, nunca pedi nada mesmo. Só quero o que me seja dado de graça. Você é uma graça! E o mundo uma casa aconchegante. Vence na vida quem diz sim.
Sim aos meus escudos além dos olhos, os meus apuros além dos poros. O meu seguro que já não precisa de prestações e dívidas velhas. Meus olhos sabem que você chega mesmo que não veja, que você deseja - e eu desejo - mesmo que não tenha. Que você receba, mesmo que não venha (mas venha!)...
Eu me desmorono toda, porque já entrei e não é o caso de ter ou não volta.
terça-feira, novembro 24, 2009
Iguais (Isabela Taviani)
No dia em que ela se declarou a cidade inteira
silenciou
Todos queriam ouvir a resposta
Águias com seus vôos razantes, urubus a espreita
de um pobre instante
Rezando pelo não nas suas costas
E ela cantava o seu amor
Com a sua garganta bran-ca
E ela jurava o seu amor
Com sua garganta San-ta
No dia em que a outra decidiu enfrentar o mundo
por aquele amor
Sentiu o peso sobre seus ombros
Pai, mãe, filho, irmãos, amigos e um casamento
antigo
Julgamentos e seus escombros
Mas elas se amavam tanto
Que já não cabia engano
Mas elas se desejavam tanto
Mesmo o futuro uma tela em branco
Nunca foi tarde demais
O medo, a verdade desfaz
Águias, urubus, julgamentos, fobias, força bruta
Tudo é pouco demais
Código civil, onde se viu, nêgo que enrustiu não
separa os iguais!
silenciou
Todos queriam ouvir a resposta
Águias com seus vôos razantes, urubus a espreita
de um pobre instante
Rezando pelo não nas suas costas
E ela cantava o seu amor
Com a sua garganta bran-ca
E ela jurava o seu amor
Com sua garganta San-ta
No dia em que a outra decidiu enfrentar o mundo
por aquele amor
Sentiu o peso sobre seus ombros
Pai, mãe, filho, irmãos, amigos e um casamento
antigo
Julgamentos e seus escombros
Mas elas se amavam tanto
Que já não cabia engano
Mas elas se desejavam tanto
Mesmo o futuro uma tela em branco
Nunca foi tarde demais
O medo, a verdade desfaz
Águias, urubus, julgamentos, fobias, força bruta
Tudo é pouco demais
Código civil, onde se viu, nêgo que enrustiu não
separa os iguais!
quinta-feira, outubro 22, 2009
Sabe o que me cansa? São essas suas palavras que eu tenho que arrancar do meio da tua garganta, criança! Que eu tenho que trazer de dentro do teu peito perfeito...
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo.
Mas eu aqui, eu aqui morrendo - desaparecendo como uma foto de Polaroid, eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo.
Sabe o que me mata? São os teus olhos de vidraça fosca embaçada à jato de areia de onde não mina uma lágrima, teu olho turmalina, pedra muito negra como esse tal amor por mim.
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo. Mas eu aqui, eu aqui morrendo, desaparecendo, como uma foto de Polaroid: eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo.
Sabe, eu odeio, odeio adorar teu jeito simples de viver. Ver você sorrindo assim loucamente quando estou aqui presente. Sentir as tuas pernas trêmulas depois do prazer satisfeito. E é por isso que eu não aceito, eu não aceito não, ver você assim retrocedendo, abrindo mão dos sonhos, fantasias por essa covarde covardia. Muito menos pagando o preço dos nossos pecados nem se fosse dez centavos.
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo. Mas eu aqui, eu aqui morrendo, desaparecendo, como uma foto de Polaroid. Eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo. Não veio...
--------------------------------------------
Eu tava aqui tentando não pensar no seu sorriso, mas me peguei sonhando com sua voz ao pé do ouvido e te liguei. Me encontro tão ferida, mas te vejo ai também em carne viva. Será que não tem jeito? Esse amor ainda nem nasceu direito, pra morrer assim.
Se você pudesse ter me ouvido um pouco mais. Se você tivesse tido calma pra esperar. Se você quisesse poderia reverter. Se você crescesse e então se desculpasse.
Mas se você soubesse o quanto eu ainda te amo! É que eu não posso mais...
Não vou voltar atrás, raspe dos teus dedos minhas digitais. Eu não vou voltar atrás!
Apague da cabeça o meu nome, telefone e endereço...
Eu não vou, eu não vou voltar atrás, arranque do teu peito o meu amor cheio de defeitos...
Me mata essa vontade de querer tomar você num gole só. Me dói essa lembrança das suas mãos em minhas costas sob o sol da manhã. Você já me dizia: conheço bem as suas expressões. Você já me sorria ao final de todas as minhas canções. Então por que?
(Foto Polaroid/Digitais - Isabella Taviani)
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo.
Mas eu aqui, eu aqui morrendo - desaparecendo como uma foto de Polaroid, eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo.
Sabe o que me mata? São os teus olhos de vidraça fosca embaçada à jato de areia de onde não mina uma lágrima, teu olho turmalina, pedra muito negra como esse tal amor por mim.
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo. Mas eu aqui, eu aqui morrendo, desaparecendo, como uma foto de Polaroid: eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo.
Sabe, eu odeio, odeio adorar teu jeito simples de viver. Ver você sorrindo assim loucamente quando estou aqui presente. Sentir as tuas pernas trêmulas depois do prazer satisfeito. E é por isso que eu não aceito, eu não aceito não, ver você assim retrocedendo, abrindo mão dos sonhos, fantasias por essa covarde covardia. Muito menos pagando o preço dos nossos pecados nem se fosse dez centavos.
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo. Mas eu aqui, eu aqui morrendo, desaparecendo, como uma foto de Polaroid. Eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo. Não veio...
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Eu tava aqui tentando não pensar no seu sorriso, mas me peguei sonhando com sua voz ao pé do ouvido e te liguei. Me encontro tão ferida, mas te vejo ai também em carne viva. Será que não tem jeito? Esse amor ainda nem nasceu direito, pra morrer assim.
Se você pudesse ter me ouvido um pouco mais. Se você tivesse tido calma pra esperar. Se você quisesse poderia reverter. Se você crescesse e então se desculpasse.
Mas se você soubesse o quanto eu ainda te amo! É que eu não posso mais...
Não vou voltar atrás, raspe dos teus dedos minhas digitais. Eu não vou voltar atrás!
Apague da cabeça o meu nome, telefone e endereço...
Eu não vou, eu não vou voltar atrás, arranque do teu peito o meu amor cheio de defeitos...
Me mata essa vontade de querer tomar você num gole só. Me dói essa lembrança das suas mãos em minhas costas sob o sol da manhã. Você já me dizia: conheço bem as suas expressões. Você já me sorria ao final de todas as minhas canções. Então por que?
(Foto Polaroid/Digitais - Isabella Taviani)
terça-feira, setembro 08, 2009
Carta
"Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre.(...)
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. (...)
Remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.
Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido".
(Caio Fernando Abreu)
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. (...)
Remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.
Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido".
(Caio Fernando Abreu)
segunda-feira, agosto 24, 2009
E agora, o que eu vou fazer?
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus?
E as lágrimas não secaram com o sol que fez?
E agora como posso te esquecer?
Se o seu cheiro ainda está no travesseiro?
E o seu cabelo está enrolado no meu peito?
Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo
Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo
E agora, como eu passo sem te ver?
Se o seu nome está gravado no
Meu braço como um selo?
Nossos nomes que tem o "N"
Como um elo
E agora como posso te perder?
Se o teu corpo ainda guarda o
Meu prazer?
E o meu corpo está moldado com o teu?
Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo
Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo
Espero que o tempo voe
E que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo
De novo...de novo...de novo...
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus?
E as lágrimas não secaram com o sol que fez?
E agora como posso te esquecer?
Se o seu cheiro ainda está no travesseiro?
E o seu cabelo está enrolado no meu peito?
Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo
Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo
E agora, como eu passo sem te ver?
Se o seu nome está gravado no
Meu braço como um selo?
Nossos nomes que tem o "N"
Como um elo
E agora como posso te perder?
Se o teu corpo ainda guarda o
Meu prazer?
E o meu corpo está moldado com o teu?
Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo
Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo
Espero que o tempo voe
E que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo
De novo...de novo...de novo...
segunda-feira, agosto 03, 2009
Tudo sobre você
Zélia Duncan
Composição: John Ulhoa - Zélia Duncan
Queria descobrir
Em 24hs tudo que você adora
Tudo que te faz sorrir
E num fim de semana
Tudo que você mais ama
E no prazo de um mês
Tudo que você já fez
É tanta coisa que eu não sei
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você
E até saber de cor
No fim desse semestre
O que mais te apetece
O que te cai melhor
Enfim eu saberia
365 noites bastariam
Pra me explicar por que
Como isso foi acontecer
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você
Por que em tão pouco tempo
Faz tanto tempo que eu te queria
Composição: John Ulhoa - Zélia Duncan
Queria descobrir
Em 24hs tudo que você adora
Tudo que te faz sorrir
E num fim de semana
Tudo que você mais ama
E no prazo de um mês
Tudo que você já fez
É tanta coisa que eu não sei
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você
E até saber de cor
No fim desse semestre
O que mais te apetece
O que te cai melhor
Enfim eu saberia
365 noites bastariam
Pra me explicar por que
Como isso foi acontecer
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você
Por que em tão pouco tempo
Faz tanto tempo que eu te queria
quarta-feira, julho 29, 2009
Tra dire e fare (Giorgia)
Tra dire e fare
tra terra e mare
tra tutto quello che avrei da dire sto qua
a parlare d'amore
tra dire e fare
tra bene e male
con tutto quello che avrei da fare sto qua
che penso solo a te
e tu lasciami fare
a me basta restare un po'
un po' di tempo a parlare insieme a te
solo a parlare
non voglio fare l'amore
a me basta guardarti un po'
guardare i tuoi movimenti così lenti
che mi fai sentire che
fammi sentire che
che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà
tra te e me
tra dire e fare
tra miele e sale
resto a sentire
i tuoi pensieri per me
che fanno rumore
e tu lasciami fare
a me basta restare un po'
un po' di tempo a parlare insieme a te
solo a parlare
non voglio fare l'amore
a me basta guardarti un po'
guardare i tuoi movimenti così lenti
che mi fai sentire che
fammi sentire che
che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà tra te e me
tu dimmi che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà
tra te e me
tra terra e mare
tra tutto quello che avrei da dire sto qua
a parlare d'amore
tra dire e fare
tra bene e male
con tutto quello che avrei da fare sto qua
che penso solo a te
e tu lasciami fare
a me basta restare un po'
un po' di tempo a parlare insieme a te
solo a parlare
non voglio fare l'amore
a me basta guardarti un po'
guardare i tuoi movimenti così lenti
che mi fai sentire che
fammi sentire che
che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà
tra te e me
tra dire e fare
tra miele e sale
resto a sentire
i tuoi pensieri per me
che fanno rumore
e tu lasciami fare
a me basta restare un po'
un po' di tempo a parlare insieme a te
solo a parlare
non voglio fare l'amore
a me basta guardarti un po'
guardare i tuoi movimenti così lenti
che mi fai sentire che
fammi sentire che
che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà tra te e me
tu dimmi che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà
tra te e me
segunda-feira, julho 27, 2009
Aperte o interruptor por mim
Não era pra ser vermelho. Mas quando viu já estava na rua e não tinha volta. Quer dizer, ter até tinha. Ela que não queria voltar. Foi com a cara de quem sabe que o que vai por fora não tem lá muita importância quando a gente quer entrar e apagar a luz.
Foi o que fez.
Sozinha em casa, sem nenhuma vontade de encarar aquele vermelho impetuoso que a invadia até pelos reflexos do armário da cozinha, o único sossego era a escuridão. No seu mundo, seu quarto. Onde não haviam espelhos nem cores.
Decidiu que ficaria só.
Foi o que fez.
Sozinha em casa, sem nenhuma vontade de encarar aquele vermelho impetuoso que a invadia até pelos reflexos do armário da cozinha, o único sossego era a escuridão. No seu mundo, seu quarto. Onde não haviam espelhos nem cores.
Decidiu que ficaria só.
quinta-feira, julho 09, 2009
Pelas ruas flores e amigos me encontram vestindo meu melhor sorriso...
"Ele perguntou:
– Procura margaridas?
Ela respondeu:
– Já era.
Ele perguntou:
– Avencas?
Ela respondeu:
– Falou".
(Caio Fernando Abreu - "A margarida enlatada" in: O Ovo apunhalado).
– Procura margaridas?
Ela respondeu:
– Já era.
Ele perguntou:
– Avencas?
Ela respondeu:
– Falou".
(Caio Fernando Abreu - "A margarida enlatada" in: O Ovo apunhalado).
quinta-feira, julho 02, 2009
sexta-feira, junho 26, 2009
Dois patinhos na lagoa
Hoje eu acordei meio séria e ando com vontade, já faz algum tempo, de mudar a cara disso daqui. Romper com a minha hipocrisia que prega a liberdade de formatos para esse blog, quando, afinal, sempre escrevo as mesmas coisas, do mesmo jeito por sinal. Enfim, no meio de uma oscilação entre pólos que pode vir a me enlouquecer - os posicionamentos políticos, meu deus! - acho que preciso usar esse espaço para falar de algumas coisas que tem me incomodado.
Ontem à noite, eu estava deitada no sofá da minha casa, com febre e impossibilitada de levantar para pegar o controle remoto quando, no intervalo de um emocionante "TV Fama - especial Michael Jackson" vi uma propaganda assustadoramente imbecil. Tratava-se do PR, Partido da República. Não sei há quanto tempo isso existe, se era um outro que mudou de nome ou coisa parecida. Fato é que se a política brasileira já era uma palhaçada sem tamanho, ver esse comercial me provou que as coisas sempre podem piorar.
Consistia em dois jovens felizes e descolados num diálogo mais ou menos assim: "o que o número 22 te lembra?"; "Dois patinhos na lagoa"; "Mas o número 22 também é o número do Partido da República"(!!!!!!!!!!!). Aí, quando eu pensei que a coisa já estava ridícula o suficiente, o casal descolado anunciou um concurso de desenho para a escolha do novo mascote do partido, cuja premiação era algo em torno de 10 mil reais.
Nenhuma promessa para não cumprir, nenhuma difamação de adversários, nenhuma cena triste da realidade brasileira ou cenas positivas de grandes realizações (não saberia o que esperar, porque sinceramente não sei se esse tal partido está ou não no poder). Fiquei pensando que daqui a um tempo eles usarão o slogan de um partido limpo, que não joga baixo. Sim, porque realmente vivemos num mundo em que a política não passa de um jogo no qual o vencedor é aquele que possui o melhor marketeiro. Dentro dessa lógica, faz todo sentido ter um bom logotipo.
Gostaria de ter ficado assustada ou surpresa, mas acho que o pior de tudo é saber que isso não me surpreende. Não surpreende a nenhum de nós...
Não resisti à curiosidade e fui conferir o site do tal partido. Adivinhem? É o partido do Garotinho. Ia dizer que é um partido do qual ele faz parte, mas se alguém for conferir o site, descobrirá porque digo que é o partido do Garotinho.
Enfim, não dá mesmo para discutir política no Brasil, porque ela não deve existir.
Se alguém estiver interessado, segue o link do concurso: http://www.partidodarepublica.org.br/PR22/Noticias_Republicanas_2009/noticias_2009_0563.html
Ontem à noite, eu estava deitada no sofá da minha casa, com febre e impossibilitada de levantar para pegar o controle remoto quando, no intervalo de um emocionante "TV Fama - especial Michael Jackson" vi uma propaganda assustadoramente imbecil. Tratava-se do PR, Partido da República. Não sei há quanto tempo isso existe, se era um outro que mudou de nome ou coisa parecida. Fato é que se a política brasileira já era uma palhaçada sem tamanho, ver esse comercial me provou que as coisas sempre podem piorar.
Consistia em dois jovens felizes e descolados num diálogo mais ou menos assim: "o que o número 22 te lembra?"; "Dois patinhos na lagoa"; "Mas o número 22 também é o número do Partido da República"(!!!!!!!!!!!). Aí, quando eu pensei que a coisa já estava ridícula o suficiente, o casal descolado anunciou um concurso de desenho para a escolha do novo mascote do partido, cuja premiação era algo em torno de 10 mil reais.
Nenhuma promessa para não cumprir, nenhuma difamação de adversários, nenhuma cena triste da realidade brasileira ou cenas positivas de grandes realizações (não saberia o que esperar, porque sinceramente não sei se esse tal partido está ou não no poder). Fiquei pensando que daqui a um tempo eles usarão o slogan de um partido limpo, que não joga baixo. Sim, porque realmente vivemos num mundo em que a política não passa de um jogo no qual o vencedor é aquele que possui o melhor marketeiro. Dentro dessa lógica, faz todo sentido ter um bom logotipo.
Gostaria de ter ficado assustada ou surpresa, mas acho que o pior de tudo é saber que isso não me surpreende. Não surpreende a nenhum de nós...
Não resisti à curiosidade e fui conferir o site do tal partido. Adivinhem? É o partido do Garotinho. Ia dizer que é um partido do qual ele faz parte, mas se alguém for conferir o site, descobrirá porque digo que é o partido do Garotinho.
Enfim, não dá mesmo para discutir política no Brasil, porque ela não deve existir.
Se alguém estiver interessado, segue o link do concurso: http://www.partidodarepublica.org.br/PR22/Noticias_Republicanas_2009/noticias_2009_0563.html
quinta-feira, junho 25, 2009
Sobre o amor
"Não falo do amor romântico,aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento. Relações de dependência e submissão, paixões tristes. Algumas pessoas confundem isso com amor. Chamam de amor esse querer escravo, e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida, explicada, entendida, julgada. Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro, antes de ser experimentado. Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta. A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. O amor é um móbile. Como fotografá-lo? Como percebê-lo? Como se deixar sê-lo? E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine? Minha resposta? O amor é o desconhecido. Mesmo depois de uma vida inteira de amores, o amor será sempre o desconhecido, a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão. A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação. O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante.
A vida do amor depende dessa interferência. A morte do amor é quando, diante do seu labirinto, decidimos caminhar pela estrada reta. Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos, e nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim. Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.
O amor não é orgânico. Não é meu coração que sente o amor. É a minha alma que o saboreia. Não é no meu sangue que ele ferve. O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito. Sua força se mistura com a minha e nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha. Como uma aurora colorida e misteriosa, como um crepúsculo inundado de beleza e despedida, o amor grita seu silêncio e nos dá sua música. Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor, se estivermos também a devorá-lo.
O amor, eu não conheço. E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo, me aventurando ao seu encontro. A vida só existe quando o amor a navega. Morrer de amor é a substância de que a vida é feita. Ou melhor, só se vive no amor. E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto".
[Paulinho Moska]
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. O amor é um móbile. Como fotografá-lo? Como percebê-lo? Como se deixar sê-lo? E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine? Minha resposta? O amor é o desconhecido. Mesmo depois de uma vida inteira de amores, o amor será sempre o desconhecido, a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão. A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação. O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante.
A vida do amor depende dessa interferência. A morte do amor é quando, diante do seu labirinto, decidimos caminhar pela estrada reta. Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos, e nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim. Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.
O amor não é orgânico. Não é meu coração que sente o amor. É a minha alma que o saboreia. Não é no meu sangue que ele ferve. O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito. Sua força se mistura com a minha e nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha. Como uma aurora colorida e misteriosa, como um crepúsculo inundado de beleza e despedida, o amor grita seu silêncio e nos dá sua música. Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor, se estivermos também a devorá-lo.
O amor, eu não conheço. E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo, me aventurando ao seu encontro. A vida só existe quando o amor a navega. Morrer de amor é a substância de que a vida é feita. Ou melhor, só se vive no amor. E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto".
[Paulinho Moska]
quinta-feira, junho 18, 2009
Desabafo (ou um trocadilho muito pessoal)
As tempestades vêm para que tenhamos certeza do que pode resistir a elas.
Confesso que duvidava. Ou pior, tinha mesmo certeza de que algum abismo desabaria e a queda seria fatal. A queda é dolorosa. Mas fatal não.
No meio da queda livre não há muito em que se agarrar, mas alguns elos embora pareçam frágeis continuam ligados enquanto você tiver força ao menos para segurá-los. Pode ser de leve, eles também são leves em meio a tudo que pesa e te puxa pra baixo.
Eu seguro até não aguentar e mesmo depois. Mesmo que a força não seja muita, a certeza é forte. Essa certeza indizível, invisível ao passo que tão palpável. Essa certeza indecifrável. A certeza me mantém aqui, apenas um pedaço de alguma coisa em que você pode se agarrar. Não precisa segurar com força que eu não vou soltar. Confie em mim.
No meio da monstruosa tempestade, estou aqui com meu pequeno guarda-chuva aberto, que não vai conseguir te manter seca, mas vai te proteger um pouco mais.
Pena que não possa fazer cessar todo o resto e reabrir no horizonte aquela primavera bonita que bem conhecemos.
Mas por trás das nuvens, aquele ponto brilhante, está vendo? [Não é um ovni.] É um raio de sol de um céu que vai se abrir.
Confesso que duvidava. Ou pior, tinha mesmo certeza de que algum abismo desabaria e a queda seria fatal. A queda é dolorosa. Mas fatal não.
No meio da queda livre não há muito em que se agarrar, mas alguns elos embora pareçam frágeis continuam ligados enquanto você tiver força ao menos para segurá-los. Pode ser de leve, eles também são leves em meio a tudo que pesa e te puxa pra baixo.
Eu seguro até não aguentar e mesmo depois. Mesmo que a força não seja muita, a certeza é forte. Essa certeza indizível, invisível ao passo que tão palpável. Essa certeza indecifrável. A certeza me mantém aqui, apenas um pedaço de alguma coisa em que você pode se agarrar. Não precisa segurar com força que eu não vou soltar. Confie em mim.
No meio da monstruosa tempestade, estou aqui com meu pequeno guarda-chuva aberto, que não vai conseguir te manter seca, mas vai te proteger um pouco mais.
Pena que não possa fazer cessar todo o resto e reabrir no horizonte aquela primavera bonita que bem conhecemos.
Mas por trás das nuvens, aquele ponto brilhante, está vendo? [Não é um ovni.] É um raio de sol de um céu que vai se abrir.
quarta-feira, junho 10, 2009
Mais um segredo
Eu quis cantar minha canção iluminada de sol, digo, quis contar ou vier um momento mágico, mas o relógio gritava e corria feito alice no país das maravilhas.
Então, pensei em ficar triste, chorar de saudade, dormir tristonha quando vi (como se ainda não tivesse visto o que já há tanto sabia) que até os mais mínimos momentos cintilam magia.
Ninguém é capaz de entender, é quase imperceptível a quem não tem os sentidos apurados pelo sentimento.
Mas eu vi o quanto cada relance de olhar, cada toque, ainda que breve, diz tudo e se eterniza tanto quanto as horas sem fim dos dias que a gente deixa perder nos nós dos lençóis.
"Espero que o tempo passe/Espero que a semana acabe/ Pra que eu possa te ver de novo"
Então, pensei em ficar triste, chorar de saudade, dormir tristonha quando vi (como se ainda não tivesse visto o que já há tanto sabia) que até os mais mínimos momentos cintilam magia.
Ninguém é capaz de entender, é quase imperceptível a quem não tem os sentidos apurados pelo sentimento.
Mas eu vi o quanto cada relance de olhar, cada toque, ainda que breve, diz tudo e se eterniza tanto quanto as horas sem fim dos dias que a gente deixa perder nos nós dos lençóis.
"Espero que o tempo passe/Espero que a semana acabe/ Pra que eu possa te ver de novo"
domingo, maio 24, 2009
Sensorial
É que as palavras não dizem. Ainda que vastas, não bastam. Mesmo assim teimo e vou dizendo silêncios e silêncios, assim, em sussurro no ouvido - como verdades grandes.
Dizendo pelos poros, pelos pêlos. Pelos cílios que se encontram por acaso na luz branda da escuridão. Pelos olhos que brilham no encontro do espanto, no espanto do encontro, no deslumbre do encontro que é sempre o primeiro. Os silêncios gritam, quase como um velho cliché - mas um cliché único, novo, des-lum-bran-te. O encontro diário.
Daí que os olhos se lêem depois. Os olhos conversam, se entendem. Os olhos se sabem de um jeito, ainda que não se enxerguem direito, ainda que na escuridão profunda das madrugadas.
Então, os lábios conversam, trocam as mais indizíveis palavras.
Então, as almas se lêem à revelia do poeta - os corpos e as almas entrelaçados no gesto único.
As almas brilham à luz da manhã como o sexo no escuro. As palavras afinal são poucas, mas se desdobram em dizeres múltiplos pelos diferentes sentidos.
Pode sentir?
Dizendo pelos poros, pelos pêlos. Pelos cílios que se encontram por acaso na luz branda da escuridão. Pelos olhos que brilham no encontro do espanto, no espanto do encontro, no deslumbre do encontro que é sempre o primeiro. Os silêncios gritam, quase como um velho cliché - mas um cliché único, novo, des-lum-bran-te. O encontro diário.
Daí que os olhos se lêem depois. Os olhos conversam, se entendem. Os olhos se sabem de um jeito, ainda que não se enxerguem direito, ainda que na escuridão profunda das madrugadas.
Então, os lábios conversam, trocam as mais indizíveis palavras.
Então, as almas se lêem à revelia do poeta - os corpos e as almas entrelaçados no gesto único.
As almas brilham à luz da manhã como o sexo no escuro. As palavras afinal são poucas, mas se desdobram em dizeres múltiplos pelos diferentes sentidos.
Pode sentir?
terça-feira, abril 28, 2009
Diálogo (de Caio Fernando Abreu)
A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, voc~e não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)
(In Morangos Mofados)
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, voc~e não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)
(In Morangos Mofados)
Trecho da novela Dodecaedro
Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de lemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem nem conheço. Por um momento, cede. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.
(Do livro Triângulo das Águas, Caio Fernando Abreu)
(Do livro Triângulo das Águas, Caio Fernando Abreu)
segunda-feira, março 23, 2009
"Se faltar o vento a gente inventa"
[Para ser lido ao som de "Pose (anos 90)"]
O horror não tem detalhe. Não tem minúcia. Não é cheio de explicações. O horror não tem explicação. Não adianta você vir me perguntar como foi e querer que eu fique horas aqui contando. É sempre rápido. O pânico é sempre muito rápido. Eu lembro bem do meu desespero na hora, se o senhor quer saber. Lembro nítido, como essas coisas que a gente dava tudo pra esquecer mas sabe que vai ficar pra sempre aqui martelando.
O senhor já levou uma martelada? Dessas que a gente dá no próprio dedo sem querer? Claro que já, todo mundo já fez isso alguma vez. Mas a dor que a gente provoca na gente mesmo passa rápido. Porque a gente percebe e pára de fazer. Quando é do outro não. O outro nunca sabe da gente e a gente nunca sabe do outro. Não tem essa de se colocar no lugar. Minha mãe dizia, muito certa como só ela, que ninguém sente a dor do outro. Por isso que as pessoas machucam umas às outras. Porque ferir não dói. Só dói na alma de alguns bons cristãos, coisa que pouco existe hoje em dia. Mas pra quem sofre sim, a alma fica doendo essa dor confusa que parece que é pra sempre. Não sei se passa quando morre porque nunca morri. Já pensei que ia morrer algumas vezes, mas deus foi bom. Ou ruim, porque às vezes penso que coisa pior que isso aqui não há de ter não.
E também já vi gente morrer assim bem do meu lado. É esquisito. Não é só a cor que a pessoa perde assim na hora não, ela perde... Sei lá... Vira outra coisa. Vai ver é isso mesmo: vira uma coisa ao invés de gente. Daí você pensa que é brincadeira, ou pesadelo, sei lá. Que vai soprar uma nuvem colorida como de filme e a pessoa volta, acorda como se tivesse só dormindo. Podia né?
Eu ia dizer que não, porque o horror é preto e branco, mas acho que não é não. O horror tem cor até, embora em nada pareça com uma nuvem bonita. Tem várias cores, todas fazendo parte de um borrão confuso. Deve ter alguma explicação da psicanálise, eu acho. Do tipo que a mente apaga os detalhes porque a gente não quer lembrar. Porque é muito ruim lembrar. Eu não sei é que explicação que tem pro fato da cena embaçada ficar remoendo e remoendo dentro da cabeça. Eu não estou nem aí pra psicanálise, se o senhor quer saber. Não quero pensar, sei lá, num homem apático de óculos me hipnotizando pra fazer lembrar de tudo e curar o - trauma. Palavra esquisita. Uma coisa que quebra dentro ou fora da gente, alguém me explicou. Que pode quebrar lá no fundo mesmo. Onde 'tão as coisas em que a gente mais acredita.
Eu, como já não acredito em muita coisa nessa vida... E também, vai que eu lembro de alguma parte que eu esqueci porque era mesmo melhor esquecer? Como uma coisa pior ainda... Deus me livre!
Engraçado como a gente costuma falar em deus, né? Como se fosse uma coisa assim grande. Eu costumava acreditar, mas hoje em dia... Não sei, acho que se ele existiu, foi embora há muito tempo. Que nem uma amiga minha, uma vez ela cansou dos filhos dela, arrumou as malas e foi embora. Calma, todos grandes já. Nada de abandono de menor não. Disse que ou se matassem ou se virassem. Só que aqui no nosso caso com deus, a gente ficou foi na primeira opção mesmo. Deu no que deu.
Eu já me perguntei muitas vezes se seria capaz de matar alguém. Todas as vezes me respondi que não e até agora tenho provado que estou certa sem muito esforço. Não só não me vejo, como não entendo. Eu, que já vi ali do meu lado, tanto sangue... o senhor não calcula. Não entendo mesmo.
O pior é que se o senhor me perguntar tudo o que aconteceu antes, eu conto tim-tim por tim-tim. Quem tava sentado onde, como, com que roupa e que cabelo. Mas do momento em que o desgraçado. Desgraçado não, porque chamar assim parece querer dizer que é um pobre coitado que só passou desgraça na vida e por isso. Pois eu acho é que todo mundo passa por desgraça na vida e nem por isso. Mas do momento em que o maldito - porque estou maldizendo mesmo! - entrou lá. Fico parecendo testemunha jurada de morte que diz que não viu nada, não sabe de nada com medo de. Não é o caso não, o senhor fique sabendo. Que eu não tenho medo da morte não. Tenho medo é do sofrimento que esse tipo de gente causa nas pessoas. Penso na minha mãe, coitada. Vendo a cara da filha dela no jornal sem vida. Uma coisa estampada. Depois de tanto sacrifício, ela ia dizer. Também não foi o caso de não ver não. Mesmo que eu quisesse tampar o olho, o maldito não deixava, disse que era para todo mundo ver bem direitinho que é pra saber como as coisas são. Mesmo que fechasse também, ia ficar ouvindo os gritos e o sofrimento dos outros.
Pois eu vi foi tudo. Só que tem uns detalhes assim que. Parece que tá tudo embaralhado, de um jeito que dá pra saber como é, mas não como ajeita tudo no devido lugar. Não sei quem falou primeiro, quem atirou primeiro. Só sei que tava tudo lá. O circo armado e eu no meio sem ter pra onde correr. Até maldade falar assim, circo é uma coisa tão bonita, não é nada parecido com. Muito grito, muito desespero, eu não sei se na hora cheguei a sentir pena, acho que fiquei mais foi aliviada de não ser comigo.
Mas pensando depois. Agora ainda. Fico com tanta pena. Da menina, da família. Até de mim por ter visto tudo. É duro, né? Morrer assim, nessa idade. Tanto pela frente, ia dizer minha mãe. De graça. Assalto bobo. Estupro. Tiro. Jornal e tudo. E ficar na lembrança dos outros tão assim sem detalhe como ficou na minha. Quando vieram me contar que a pobre tinha marido, filho, trabalho, sonho etc. nem consegui acreditar. Não combina. Não encaixa na lembrança que eu tenho. Um borrão confuso de gritos e sangue. Mais que isso eu não sei dizer, o senhor me perdoe. O horror não tem detalhe.
O horror não tem detalhe. Não tem minúcia. Não é cheio de explicações. O horror não tem explicação. Não adianta você vir me perguntar como foi e querer que eu fique horas aqui contando. É sempre rápido. O pânico é sempre muito rápido. Eu lembro bem do meu desespero na hora, se o senhor quer saber. Lembro nítido, como essas coisas que a gente dava tudo pra esquecer mas sabe que vai ficar pra sempre aqui martelando.
O senhor já levou uma martelada? Dessas que a gente dá no próprio dedo sem querer? Claro que já, todo mundo já fez isso alguma vez. Mas a dor que a gente provoca na gente mesmo passa rápido. Porque a gente percebe e pára de fazer. Quando é do outro não. O outro nunca sabe da gente e a gente nunca sabe do outro. Não tem essa de se colocar no lugar. Minha mãe dizia, muito certa como só ela, que ninguém sente a dor do outro. Por isso que as pessoas machucam umas às outras. Porque ferir não dói. Só dói na alma de alguns bons cristãos, coisa que pouco existe hoje em dia. Mas pra quem sofre sim, a alma fica doendo essa dor confusa que parece que é pra sempre. Não sei se passa quando morre porque nunca morri. Já pensei que ia morrer algumas vezes, mas deus foi bom. Ou ruim, porque às vezes penso que coisa pior que isso aqui não há de ter não.
E também já vi gente morrer assim bem do meu lado. É esquisito. Não é só a cor que a pessoa perde assim na hora não, ela perde... Sei lá... Vira outra coisa. Vai ver é isso mesmo: vira uma coisa ao invés de gente. Daí você pensa que é brincadeira, ou pesadelo, sei lá. Que vai soprar uma nuvem colorida como de filme e a pessoa volta, acorda como se tivesse só dormindo. Podia né?
Eu ia dizer que não, porque o horror é preto e branco, mas acho que não é não. O horror tem cor até, embora em nada pareça com uma nuvem bonita. Tem várias cores, todas fazendo parte de um borrão confuso. Deve ter alguma explicação da psicanálise, eu acho. Do tipo que a mente apaga os detalhes porque a gente não quer lembrar. Porque é muito ruim lembrar. Eu não sei é que explicação que tem pro fato da cena embaçada ficar remoendo e remoendo dentro da cabeça. Eu não estou nem aí pra psicanálise, se o senhor quer saber. Não quero pensar, sei lá, num homem apático de óculos me hipnotizando pra fazer lembrar de tudo e curar o - trauma. Palavra esquisita. Uma coisa que quebra dentro ou fora da gente, alguém me explicou. Que pode quebrar lá no fundo mesmo. Onde 'tão as coisas em que a gente mais acredita.
Eu, como já não acredito em muita coisa nessa vida... E também, vai que eu lembro de alguma parte que eu esqueci porque era mesmo melhor esquecer? Como uma coisa pior ainda... Deus me livre!
Engraçado como a gente costuma falar em deus, né? Como se fosse uma coisa assim grande. Eu costumava acreditar, mas hoje em dia... Não sei, acho que se ele existiu, foi embora há muito tempo. Que nem uma amiga minha, uma vez ela cansou dos filhos dela, arrumou as malas e foi embora. Calma, todos grandes já. Nada de abandono de menor não. Disse que ou se matassem ou se virassem. Só que aqui no nosso caso com deus, a gente ficou foi na primeira opção mesmo. Deu no que deu.
Eu já me perguntei muitas vezes se seria capaz de matar alguém. Todas as vezes me respondi que não e até agora tenho provado que estou certa sem muito esforço. Não só não me vejo, como não entendo. Eu, que já vi ali do meu lado, tanto sangue... o senhor não calcula. Não entendo mesmo.
O pior é que se o senhor me perguntar tudo o que aconteceu antes, eu conto tim-tim por tim-tim. Quem tava sentado onde, como, com que roupa e que cabelo. Mas do momento em que o desgraçado. Desgraçado não, porque chamar assim parece querer dizer que é um pobre coitado que só passou desgraça na vida e por isso. Pois eu acho é que todo mundo passa por desgraça na vida e nem por isso. Mas do momento em que o maldito - porque estou maldizendo mesmo! - entrou lá. Fico parecendo testemunha jurada de morte que diz que não viu nada, não sabe de nada com medo de. Não é o caso não, o senhor fique sabendo. Que eu não tenho medo da morte não. Tenho medo é do sofrimento que esse tipo de gente causa nas pessoas. Penso na minha mãe, coitada. Vendo a cara da filha dela no jornal sem vida. Uma coisa estampada. Depois de tanto sacrifício, ela ia dizer. Também não foi o caso de não ver não. Mesmo que eu quisesse tampar o olho, o maldito não deixava, disse que era para todo mundo ver bem direitinho que é pra saber como as coisas são. Mesmo que fechasse também, ia ficar ouvindo os gritos e o sofrimento dos outros.
Pois eu vi foi tudo. Só que tem uns detalhes assim que. Parece que tá tudo embaralhado, de um jeito que dá pra saber como é, mas não como ajeita tudo no devido lugar. Não sei quem falou primeiro, quem atirou primeiro. Só sei que tava tudo lá. O circo armado e eu no meio sem ter pra onde correr. Até maldade falar assim, circo é uma coisa tão bonita, não é nada parecido com. Muito grito, muito desespero, eu não sei se na hora cheguei a sentir pena, acho que fiquei mais foi aliviada de não ser comigo.
Mas pensando depois. Agora ainda. Fico com tanta pena. Da menina, da família. Até de mim por ter visto tudo. É duro, né? Morrer assim, nessa idade. Tanto pela frente, ia dizer minha mãe. De graça. Assalto bobo. Estupro. Tiro. Jornal e tudo. E ficar na lembrança dos outros tão assim sem detalhe como ficou na minha. Quando vieram me contar que a pobre tinha marido, filho, trabalho, sonho etc. nem consegui acreditar. Não combina. Não encaixa na lembrança que eu tenho. Um borrão confuso de gritos e sangue. Mais que isso eu não sei dizer, o senhor me perdoe. O horror não tem detalhe.
Pequena fábula metropolitana
Era como se, mesmo depois de tanto tempo, ainda estivesse esperando por algo. Um telefonema inesperado, uma visita, um encontro casual com um velho amigo. Na verdade, apenas algum acontecimento que mudasse a ordem das coisas, que pareciam sempre ocorrer conforme uma programação prévia e meticulosa. Pensava essas coisas enquanto olhava o cinza-mil-tons das ruas. As pessoas sem cor, cujo brilho se reduzia ao suor provocado por aquele calor infernal.
Duas da tarde, centro da cidade. Entre um esbarrão e outro, olhava os prédios altos se perguntando por que diabos eles não produziam uma sombra maior. Chegava a sonhar com uma vida em que pudesse trabalhar na praia, barulho de mar etc. Sem saber que se lá as pessoas não teriam esse brilho cinza, também não seriam mais interessantes - apesar de certamente mais coloridas.
Os excessos fervilhavam por todos os lados. O tal formigueiro que gostava de imaginar quando criança. O lugar onde a vida pulsava de tantos modos, como supunha na adolescência. Hoje, sem imaginar nada, caminhava apressada sob um sol escaldante, com muito mais roupas do que gostaria.
Se alguém a observasse todos os dias, poderia pensar que ela seguia uma espécie de rastro do dia anterior. Sempre o mesmo lado da calçada, dobrando as mesmas esquinas, no mesmo semi-círculo, parando para atravessar sempre nos mesmos pontos. Isto, se alguém a observasse, pois se nem mesmo ela o fazia. Se algum dia, num estalo, percebesse, ao invés de mudar o caminho correria para o terapeuta.
Podia também ser uma fábula de auto-ajuda, na qual ela perceberia que um grande acontecimento em sua vida só dependeria de si mesma. Caso fosse uma história adulta, sairia de seu escritório sem graça, conheceria três caras bonitões e teria uma noite maravilhosa. Na fábula infantil, teria um nome parecido com Kika e descobriria que a verdadeira felicidade são os amigos ou coisa parecida. Mas personagens de fábulas costumavam ser animais. Entreteu-se algum tempo pensando em que bicho seria, talvez uma lebre cinzenta.
Na sua literatura, o mundo foi ficando pelo meio do caminho. O relógio rodando como sempre faz. O final do dia chegou como sempre chega. Kika voltou como sempre volta, pelo mesmo caminho por onde veio.
Duas da tarde, centro da cidade. Entre um esbarrão e outro, olhava os prédios altos se perguntando por que diabos eles não produziam uma sombra maior. Chegava a sonhar com uma vida em que pudesse trabalhar na praia, barulho de mar etc. Sem saber que se lá as pessoas não teriam esse brilho cinza, também não seriam mais interessantes - apesar de certamente mais coloridas.
Os excessos fervilhavam por todos os lados. O tal formigueiro que gostava de imaginar quando criança. O lugar onde a vida pulsava de tantos modos, como supunha na adolescência. Hoje, sem imaginar nada, caminhava apressada sob um sol escaldante, com muito mais roupas do que gostaria.
Se alguém a observasse todos os dias, poderia pensar que ela seguia uma espécie de rastro do dia anterior. Sempre o mesmo lado da calçada, dobrando as mesmas esquinas, no mesmo semi-círculo, parando para atravessar sempre nos mesmos pontos. Isto, se alguém a observasse, pois se nem mesmo ela o fazia. Se algum dia, num estalo, percebesse, ao invés de mudar o caminho correria para o terapeuta.
Podia também ser uma fábula de auto-ajuda, na qual ela perceberia que um grande acontecimento em sua vida só dependeria de si mesma. Caso fosse uma história adulta, sairia de seu escritório sem graça, conheceria três caras bonitões e teria uma noite maravilhosa. Na fábula infantil, teria um nome parecido com Kika e descobriria que a verdadeira felicidade são os amigos ou coisa parecida. Mas personagens de fábulas costumavam ser animais. Entreteu-se algum tempo pensando em que bicho seria, talvez uma lebre cinzenta.
Na sua literatura, o mundo foi ficando pelo meio do caminho. O relógio rodando como sempre faz. O final do dia chegou como sempre chega. Kika voltou como sempre volta, pelo mesmo caminho por onde veio.
segunda-feira, março 16, 2009
Passo da Guanxuma
"Eu queria...outra coisa".
"Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por aí levando um violão debaixo do braço".
Alguns novos contos, mas todos ainda muito presos no papel. Um dia quem sabe se rendem, talvez em breve.
Às vezes tenho raiva por não poder amassar o monitor e jogar no lixo.
"Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por aí levando um violão debaixo do braço".
Alguns novos contos, mas todos ainda muito presos no papel. Um dia quem sabe se rendem, talvez em breve.
Às vezes tenho raiva por não poder amassar o monitor e jogar no lixo.
sábado, fevereiro 07, 2009
Conto de fadas
Acostumada ao sabor áspero e denso do álcool puro, chegava a ficar enjoada daquelas cores todas. Daquelas frutas todas. Daquelas nuances adocicadas estampando sorrisos tão artificiais quanto os corantes nas pessoas. Não por causa da embriaguez, mas pela combinação carnavalesca. Não condenava os sorrisos. Pelo contrário, chegava a ter vergonha de si mesma, de seus pensamentos arrogantes dentro da noite fresca de verão.
Dois rapazes de um tom moreno-avermelhado de sol tocavam umas músicas de três acordes em desafinados violões pretos tipo cult bacaninha. Fortes, suados e cantando fora do tom. A cena só não era mais deprimente porque graças a deus não havia ali uma fogueira. Mesmo assim, estavam todos sentados em roda, como se houvesse uma bem no centro. Lá menor, sol maior, ré menor. Deprimente.
Um rapaz novinho e bonitinho, cabelo raspado, bochechas rosadas pelo álcool, tirou do bolso uma gaita e interferiu desencontrado naquela cena de filminho de verão. Alice sorriu meio de alívio, meio de admiração pela ousadia do garoto. A situação cômica criada a fez pensar na possibilidade de guardar seu costumeiro ar amargo e não contaminar mais aquela noite. Apesar de tudo, bonita, lua cheia, barulho de mar e tal. Céu limpo. Vento morno soprando no rosto. O hálito quente de um grande deus que só aparecia nas noites de verão para derreter o espírito.
Levantou aliviada por se desvencilhar da roda patética. Olhando de fora, de cima, decidiu que não tornaria a fazer parte daquilo. Percebeu na estampa da canga onde estivera uma grande mandala vermelha desenhada. Sorriu irônica e querendo acreditar nesse prenúncio. Queria estar bêbada, pensou exatamente com essas palavras andando em direção ao toldo sob o qual um casal preparava aquelas coisas excessivamente doces e coloridas.
O rapaz de cabelo preto espetadinho com gel fazia lembrar as personagens de Caio Fernando Abreu. Roupa preta e tudo. Sua alocação nos anos dois mil só era denunciada pelos grandes alargadores de metal. Alice se distraiu olhando demorado o espaço vazio no meio destes.
A mulher ao seu lado parecia entretida nos malabarismos que fazia com a coqueteleira rosa fosforescente. Era mais velha que o garoto, com certeza era. Talvez perto de vinte e cinco. Olhos de um azul muito claro contrastando com o preto do excesso de delineador e rímel. Pele muito branca, criaturas da noite os dois. Cabelos pintados de preto, bastante lisos, presos num coque desfiado. Vários piercings desses com bolinhas coloridas na sobrancelha, nariz, orelha, língua, sabe-se lá mais onde. Camiseta branca muito justa, um pouco transparente. Ofereceu um Sex on the Beach que a princípio Alice entendeu como uma proposta. Riu da própria idiotice quando a outra estendeu o copo. Pareceu um sorriso educado. Líquido colorido e doce desceu enjoativo. Tomou apenas um gole prevendo o tempo que ficaria sem saber o que faria com aquilo.
Quando pensava sem estímulo no copo e na roda e no quanto não queria nenhum dos dois, a viu. Na areia, bem perto do mar, distante daquela aglomeração ridícula, agachada quase como que de joelhos lá onde a água batia fraca, num encontro de marolas vindas de várias direções. Cabelos acastanhados, algumas mechas dourados pelo sol, bem compridos, caindo pelo ombro até a frente do corpo, cobrindo o contorno dos seios e deixando à mostra uma mandala muito colorida, tatuada logo abaixo do pescoço. Se crescessem asas exatamente daquele círculo, poderia ser uma fadas dessas de conto infantil.
Alice se aproximou com reserva e timidez. Parou de pá ao lado dela. A maré é suave a esta hora..., arriscou pensativa tentando disfarçar o nervosismo, que a outra logo percebeu pelos pés inquietos encostando alternadamente na areia. As unhas e os dedos se deixando afundar de leve, o calcanhar meio desequilibrado.
A fada estendeu a mão aberta sobre o espaço ao seu lado num gesto largo de convite. É bonito de ver, respondeu quando Alice sentou. A água toca na gente devagar, parece que com respeito.
As duas ficaram algum tempo em silêncio, sentindo as pequenas ondas geladas tocarem seus pés. Na noite abafada, o frescor do mar era um alívio. A conversa logo foi retomada no mesmo tom: bastante leve, como o marulho que reverenciava a escuridão branca sob a lua. O desejo pairava no ar junto com o vento morno e seco que as rodeava. O cheiro de sal libertava Alice do adocicado irritante dos drinks de antes. Enquanto inspirava fundo a maresia, sentiu o copo ainda cheio em sua mão. Apoiou-o na areia torcendo para que não derramasse. Nesse gesto, as mãos se esbarraram quase sem querer apesar da vontade muita. Antes que soasse uma cantada barata, Alice explicitou sua intenção percorrendo a tez branca daqueles braços com a ponta dos dedos. Quase sem tocá-la de fato, terminou no pescoço, apertando a nuca por dentro dos cabelos e trazendo-a para muito perto de si, a ponto de as respirações quentes e ofegantes confundirem-se no vento morno. O beijo também era morno, macio, longo e passível de vários adjetivos incapazes de definir a sinestesia daquilo.
O calor amolecia os pensamentos. Um risco maior do que se julgava capaz. Foi o máximo que conseguiu definir, mais com orgulho de si mesma do que com o medo que esperaria sentir se estivesse esperando algo. Aquela boca era doce como uma lembrança antiga, com a suavidade forte e marcante que a doçura deve ter, sem cores fortes, vodka ou nomes estadunidenses. A fada era doce da mesma forma que o mar era salgado. Aquela antítese lhe aprazia os sentidos. Não quis saber ao certo se era uma recordação, um sonho ou apenas uma saborosa noite de verão. Sabia do cheiro fresco de xampu e sal nos cabelos dela, do gosto rosado de carne fresca, da brisa suave sob o céu estrelado nas noites mágicas.
Sentiu que a outra permitia que tocasse não apenas o corpo quente, mas também sua alma. A mandala, que agora Alice via bem de perto e podia sentir com as mãos e os lábios, era uma espécie de marco. Tatuara após o término de um relacionamento. Melina, nome de fada mesmo. Libra com ascendente em câncer. A leveza do ar na profundidade da água, lembrava alguma música. Segundo a definição da própria, equilíbrio sujeito a fundo do poço. Soou patético, mas Alice achou meigo.
As peles, de um branco reluzente sob o luar, tocavam-se ávidas, num abraço terno. O barulho do mar embalava a sensualidade e o tesão de ambas. Melina tinha seios pequenos, róseos, quentes sob a brisa fresca. Alice sentia no arrepio da pele a vontade de ficar ali para sempre.
A essa altura já ignoravam que existisse mais alguém na praia, a música distante pouco se ouvia, a madrugada adentrava sem que sentissem. Os sentidos concentrados apenas no desejo do outro corpo, na vontade do prazer único que é o prazer do outro. Alcançado por aquela mescla inigualável de mãos, línguas, afagos, peles... Precisam de ajuda aí? A voz brusca cortou a magia da cena, como de abruptamente desligassem uma linda música. Gargalhadas certamente bêbadas, alguns comentários que, no susto, Alice não conseguiu entender. Alice abriu os olhos e viu que eram vários. Tentou amarrar de volta a blusa de Melina, mas já era tarde.
O gosto doce de carne fresca em sua boca tornou-se sangue no primeiro soco. Cheiro de suor sujo misturado com álcool. Alice se debatia tentando ao menos olhar para os lados, queria que houvesse algum modo de proteger Melina. Com o braços imobilizados por um ser asqueroso sobre si, o máximo que conseguiu foi encontrar uma das mãos dela, cravada na areia de desespero. Segurou com força, ou o que restava disso.
Uma outra mão, grande, áspera, suja do sangue que supunha seu, cobriu sua boca para abafar os gritos, impedindo que olhasse para Melina. Segurou com mais força a mão da fada, ouvindo os urros de dor e medo ainda que abafados. No desespero, fechou os olhos. Tentando acordar do pesadelo talvez. Em vão. Percebeu quando suas forças se esvaiam por completo e chegou a ansiar que desmaiasse. Sentiu sua própria mão afrouxando o toque na dela.
Acordou com o dia claro. Sol forte batendo no rosto. O mar batia fraco mas lancinante na pele lanhada, arranhada. Aos poucos foi percebendo os vários hematomas. Sentia todo o corpo como em carne viva. Enquanto a alma estava seca, rasgada, destroçada. Olhou em volta. Ninguém. A pergunta do que teria acontecido àquela fada ficaria arranhando imperdoavelmente sua alma ainda por muito tempo. Sem resposta.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Convive com as palavras antes de escrevê-las...
Vai ver as coisas tão maturando.
As mesmas expressões. Algumas obsessões-paranóias urbanóides. O pó espesso sobre qualquer espécie de sentir. Sentido?
Eu queria...outra coisa.
Em luto, um luto cinza esbranquiçado. Desbotado. As emoções desbotam também.
Sem estética.
As mesmas expressões. Algumas obsessões-paranóias urbanóides. O pó espesso sobre qualquer espécie de sentir. Sentido?
Eu queria...outra coisa.
Em luto, um luto cinza esbranquiçado. Desbotado. As emoções desbotam também.
Sem estética.
quinta-feira, dezembro 11, 2008
Copo de vidro
Foi na hora em que você não viu. Sem ser muita novidade, posto que, não raro você não estava olhando. Por isso mesmo, há de ser um mistério para a vida inteira. Um vento bateu na hora. A força do espírito santo. Um mau agouro. Ou uma mão cheia de vontade pegou com força o copo e o fez espatifar-se com gosto, em mil caquinhos, no chão. Você não viu. Você não sabe. Nunca saberá.
Agora está assim: irremediável.
Copo de vidro não é cobra de vidro, eu bem já lhe havia dito. Mas você não conhece, nunca nem ouviu falar em cobra de vidro e julgava que o copo estivesse bem guardado. E eu, embora tenha na paciência uma das minhas grandes características na vida, não tive paciência - ou foi vontade mesmo - para explicar. É porque você, além de nunca querer ouvir, não entederia. Não é capaz de perceber que se você deixa por aí largado o copo, cheio ou vazio, pode mesmo acontecer dele cair e quebrar. Difícil? Não.
Copo quebrado todo mundo sabe que o remédio único é varrer e jogar fora os cacos. Minha mãe também me ensinou que, depois da tragédia feita, é bom andar calçado porque sempre ficam uns cacos e se pode cortar o pé. Eu aprendi.
Mas então, agora, depois do chão já limpo, você vem para catar os cacos e saber do que aconteceu. Caiu, quebrou, passou. É só o que eu lhe digo.
O chão já está limpo, já disse e odeio me repetir. Eu já estou pronta. Já tenho um jogo novinho de copos de cristal guardados numa charmosa cristaleira - "resiste ao tempo e às boladas que levou". Aliás, vai ver foi isso: umas crianças jogando bola, é assim mesmo... entra pela janela, bate e sempre quebra alguma coisa. A gente grita, reclama com os pais, mas no fundo não liga não. Acha até bonito, engraçado, coisa da idade.
Então pronto. Expliquei. E daí se não é verdade? Podia muito bem ser. Se o que você queria era entender está tudo certo. Agora eu preciso ir, atrasada para um compromisso importante. Você faça o favor de ir embora porque eu já disse - e era o mais importante que, como sempre, você nem se importou: era copo de vidro e não cobra de vidro. Porque cobra de vidro é uma espécie de lagarto que se você parte "dois, três, mil vezes, facilmente se refaz".
Agora está assim: irremediável.
Copo de vidro não é cobra de vidro, eu bem já lhe havia dito. Mas você não conhece, nunca nem ouviu falar em cobra de vidro e julgava que o copo estivesse bem guardado. E eu, embora tenha na paciência uma das minhas grandes características na vida, não tive paciência - ou foi vontade mesmo - para explicar. É porque você, além de nunca querer ouvir, não entederia. Não é capaz de perceber que se você deixa por aí largado o copo, cheio ou vazio, pode mesmo acontecer dele cair e quebrar. Difícil? Não.
Copo quebrado todo mundo sabe que o remédio único é varrer e jogar fora os cacos. Minha mãe também me ensinou que, depois da tragédia feita, é bom andar calçado porque sempre ficam uns cacos e se pode cortar o pé. Eu aprendi.
Mas então, agora, depois do chão já limpo, você vem para catar os cacos e saber do que aconteceu. Caiu, quebrou, passou. É só o que eu lhe digo.
O chão já está limpo, já disse e odeio me repetir. Eu já estou pronta. Já tenho um jogo novinho de copos de cristal guardados numa charmosa cristaleira - "resiste ao tempo e às boladas que levou". Aliás, vai ver foi isso: umas crianças jogando bola, é assim mesmo... entra pela janela, bate e sempre quebra alguma coisa. A gente grita, reclama com os pais, mas no fundo não liga não. Acha até bonito, engraçado, coisa da idade.
Então pronto. Expliquei. E daí se não é verdade? Podia muito bem ser. Se o que você queria era entender está tudo certo. Agora eu preciso ir, atrasada para um compromisso importante. Você faça o favor de ir embora porque eu já disse - e era o mais importante que, como sempre, você nem se importou: era copo de vidro e não cobra de vidro. Porque cobra de vidro é uma espécie de lagarto que se você parte "dois, três, mil vezes, facilmente se refaz".
quarta-feira, dezembro 10, 2008
Encontro das águas - Jorge Vercilo
Sem querer te perdi
tentando te encontrar
por te amar demais
sofri, amor
me senti traído e traidor
Fui cruel sem saber
que entre o bem e o mal
Deus criou um laço forte,
um nó
e quem viverá um lado só?
A paixão veio assim
afluente sem fim
rio que não deságua
Aprendi com a dor
nada mais é o amor
que o encontro das águas
Esse amor
hoje vai pra nunca mais voltar
como faz o velho pescador
quando sabe que é a vez do mar
Qual de nós foi buscar
o que já viu partir,
quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir?
Quem eu sou pra querer
Entender o amor
tentando te encontrar
por te amar demais
sofri, amor
me senti traído e traidor
Fui cruel sem saber
que entre o bem e o mal
Deus criou um laço forte,
um nó
e quem viverá um lado só?
A paixão veio assim
afluente sem fim
rio que não deságua
Aprendi com a dor
nada mais é o amor
que o encontro das águas
Esse amor
hoje vai pra nunca mais voltar
como faz o velho pescador
quando sabe que é a vez do mar
Qual de nós foi buscar
o que já viu partir,
quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir?
Quem eu sou pra querer
Entender o amor
segunda-feira, dezembro 01, 2008
Confesso (Ana Carolina)
Confesso acordei achando tudo indiferente
Verdade acabei sentindo cada dia igual
Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante
Quem sabe o amor tenha chegado ao final
Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero ou vaidade
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz
Não vou pedir a porta aberta é como olhar pra trás
Não vou mentir nem tudo que falei eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo eu já roubei demais
Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer
Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais
Verdade acabei sentindo cada dia igual
Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante
Quem sabe o amor tenha chegado ao final
Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero ou vaidade
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz
Não vou pedir a porta aberta é como olhar pra trás
Não vou mentir nem tudo que falei eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo eu já roubei demais
Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer
Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais
domingo, novembro 30, 2008
O ano passou rápido, afinal...
“Depois que acaba a gente pensa que ele nunca existiu...”
(Para se ler ao som de Você se parece com todo mundo - do Cazuza).
Amor, quando morre, deixa uma cicatriz feia na camada mais funda da parte da alma que fica sob a pele. Uma cicatriz feia, disforme – que às vezes dói ainda mais pelo fato de simplesmente não doer. Dói por não ser possível engolir de volta todo o sangue que dela um dia jorrou. Dói por estar ali, pela pele que nunca mais voltará a ter seu esplendor inocente. Um amor morto nos tira a ingenuidade e nos dá um ar blasé de quem já teve um amor e sabe como é. Um ar de quem sobreviveu não a um naufrágio, mas a uma doença grave e secreta que todo mundo já teve e não diz. Deixa na cara a vontade de esculpir no reflexo a força de continuar, não mais como continuar após o abismo do amor, ao abismo é fácil: todo mundo sobrevive. O difícil é sobreviver ao outro lado, depois do resgate, saudando todo dia no espelho aquela cicatriz de arrependimento.
Um amor quando morre deixa os pés fincados na terra de um jeito. Morre e deixa umas músicas arquivadas na HD, umas cartas rasgadas no lixo, outras queimadas no desespero da raiva e mais umas guardadinhas num canto do armário para serem vistas quando a cicatriz já não for a única e se puder lembrar das coisas com menos mágoa e mais nostalgia.
Um amor quando morre sem atestado de óbito deixa milhões de gritos, palavrões e batidas de porta presos na garganta. Deixa um arrependimento das coisas sem perdão. Deixa uma saudade da cama cheia. Da inocência de se dormir acreditando. Um amor quando morre cria insônia, aumenta o tamanho da cama, o tamanho do quarto, a intensidade da escuridão, até a noite fica mais longa.
Um amor quando morre faz descobrir o gostoso de dormir esparramada, sozinha. Faz descobrir o afago do fundo do copo. A beleza da iluminação disforme da madrugada. Da alegria decadente que as noites não dormidas na rua têm. Morre e um dia a vida ganha cores fortes como não se pensou quando as coisas eram o preto-no-branco de um amor.
Um amor quando morre deixa no rádio aquela música do Cazuza, você se parece com todo mundo... Um amor quando morre, mata. Abre ferida grave, sangra jorra, alaga a cama de saudade e lágrimas, dá ao travesseiro forma de corpo. O sangue um dia estanca. A lágrima seca. A ferida fecha, cria casca, vira cicatriz charmosa que a gente veste no rosto quando vira mais um sobrevivente na vida. Amor quando morre nos faz olhar o céu à noite e ver mais estrelas do que o céu poluído de um amor nos permitia.
Amor morre e deixa a vontade do café forte, do uísque amargo, da noite menos amena. Amor quando morre deixa mais funda é a vontade de amores, que nos amem, que nos matem. O amor não pode ser um*.
*Referência ao verso de Romã Neptune.
quarta-feira, novembro 19, 2008
Ferrugem
Nas mãos a caneca grande demais para o café. Na boca, o café já meio morno. No pensamento o pensamento de ontem tentando se re-traduzir como quem requenta um café sabendo que, ao prová-lo, desistirá de tomar. Sobre a mesa, uma folha de caderno já meio amassada de tanto lida – no tempo em que já não se escreve a mão, já não se passa a limpo, já não se relê muito as coisas porque o tempo é curto.
No coração (palavra boba mas insubstituível), algumas angústias repetitivas e copiadas sobre o tempo, sobre a temperatura, sobre o vermelho-velho do cabelo. Algumas frases de fato por dizer, alguma sensação de ter ido longe demais, de ter feito um bolo em forno alto. Alguns erros na vida são irreparáveis, imperceptivelmente irreparáveis. Algumas cicatrizes pequenas só a gente mesmo vê. Alguns perdões são impossíveis – se é que existe perdão nessa vida.
O café melancólico, frio e melancólico, da cena melancólica que ela mesma criara sem perceber que a cortina de tanto tempo fechada já sustentava um tom poeirento de vermelho-velho, como seu cabelo.
O que não sabia era lidar com a vontade incoerente, persistente, contrastante com a sensação ora de fim, ora de eterna primeira impressão.
Denise já não era a mesma. Chegava a falar de si na terceira pessoa para minorar a dor dessa constatação. Olhava de longe. Dava-se somente em frases curtas, não mais em gestos arrebatadores.
Denise parada num bar tomando café frio numa caneca grande. Já não queimava a garganta com a pressa de viver. Já não fazia questão de efemeridades.
Envelhecera com a cor do cabelo. O furor intenso que antes a movia parecia estacionado numa vontade de deixar-se opaca, de deixar a vida vir a si ao invés de correr atrás e forçá-la como uma inversão de papéis. As rédeas ficavam pesadas às vezes e a melhor – talvez não a melhor, mas a mais confortável – coisa a se fazer era ficar e esperar. Não como quem toma um táxi na rua, mas como uma estudante que escolhe o ônibus pela cor.
No coração (palavra boba mas insubstituível), algumas angústias repetitivas e copiadas sobre o tempo, sobre a temperatura, sobre o vermelho-velho do cabelo. Algumas frases de fato por dizer, alguma sensação de ter ido longe demais, de ter feito um bolo em forno alto. Alguns erros na vida são irreparáveis, imperceptivelmente irreparáveis. Algumas cicatrizes pequenas só a gente mesmo vê. Alguns perdões são impossíveis – se é que existe perdão nessa vida.
O café melancólico, frio e melancólico, da cena melancólica que ela mesma criara sem perceber que a cortina de tanto tempo fechada já sustentava um tom poeirento de vermelho-velho, como seu cabelo.
O que não sabia era lidar com a vontade incoerente, persistente, contrastante com a sensação ora de fim, ora de eterna primeira impressão.
Denise já não era a mesma. Chegava a falar de si na terceira pessoa para minorar a dor dessa constatação. Olhava de longe. Dava-se somente em frases curtas, não mais em gestos arrebatadores.
Denise parada num bar tomando café frio numa caneca grande. Já não queimava a garganta com a pressa de viver. Já não fazia questão de efemeridades.
Envelhecera com a cor do cabelo. O furor intenso que antes a movia parecia estacionado numa vontade de deixar-se opaca, de deixar a vida vir a si ao invés de correr atrás e forçá-la como uma inversão de papéis. As rédeas ficavam pesadas às vezes e a melhor – talvez não a melhor, mas a mais confortável – coisa a se fazer era ficar e esperar. Não como quem toma um táxi na rua, mas como uma estudante que escolhe o ônibus pela cor.
terça-feira, novembro 11, 2008
Ainda no Banco de trás
A mulher escrevia poemas no banco de trás do carro como quem pára e espera o instante em que a água começa a ferver. Caderno e caneta nas mãos, olhar no horizonte e vento nos olhos fazendo-a lacrimejar bonito e sentir-se mais emocionalmente ligada ao fato de estar viva. Esperava um poema como uma primeira bolha da ebulição de seus pensamentos sempre vagos. Nunca importara-se muito em vagar por aí, protegia-se com uma antiga máxima segundo a qual "para quem não sabe aonde está indo, qualquer lugar serve"...
E por isso se deixava fingindo não saber nem se importar com o destino do veículo - apenas o trajeto lhe era indispensável. Acostumara-se a ser levada, acostumara-se a achar saboroso o gosto das estradas, às vezes surpreendentes, noutras reconhecíveis. O que nunca sabia era se a familiaridade se dava por de fato estar num lugar onde já estivera, ou se depois de um tempo começava a achar as paisagens parecidas. Mas isso não fazia lá muita diferença; era como uma fórmula: bastava acender o fogo e ficar esperando, logo a água entraria em ebulição. Uma semi-certeza. Como uma verdade maior que todos sabem mas ninguém diz: a poesia estava no caminho. Não. Nenhuma verdade secreta, subjetiva ou teleológica. Estava no caminho porque estava no caminho. Em cada árvore que passava e não num suposto destino final. Até porque este não existia, era como aquele sonho de "ser em si". Pronto.
Do barulho da chave girando, o tremor do carro acordando, o solavanco natural que invertia a ordem do mundo fazendo todas as coisas andarem para trás só porque ela estava era andando para frente.
Na velocidade, era certo, sempre se chegava aos cem graus e as moléculas-sinapses entregavam-se àquela festa silenciosa e íntima. As linhas preenchiam-se como um coração acalentado. Contudo, o conforto que a inundava quase sempre se parecia mais com o que se tem quando se chega em casa debaixo de uma tempestade - o alívio após o furacão.
Mas uma vez (quase como "era uma vez..."), houve uma enchente grave e não foi possível entrar em casa, o furacão não passou, a água estacionou nos noventa e cinco graus: o papel ficou em branco. O desespero não foi seguido de alívio e a lágrima que caiu - e sequer se deu ao trabalho de pingar no papel para soar mais bonito - não foi por causa do vento nos olhos.
A dor, afinal, era como a de um matemático que após anos e anos de trabalho descobre uma equação ridiculamente irresolúvel. A mulher acabara de perceber o vazio de vagar sem rumo e a falta do que quer que fosse a tragou dolorosamente como se Deus, arrependido de tê-la criado uma vez, ao invés de matá-la resolve-se deglutí-la. Mastigá-la vagarosa e impiedosamente, mas com um apetite genuíno e, portanto, incontestável.
Ali, vendo sua carne amolecer entre os dentes de uma divindade para ela sequer conceituada, a única saída era um ato heróico. Salvar a si mesmo era um imperativo irremediável e inadiável, como qualquer coisa o é quando enfim acontece.
GRITOU.
O carro parou mostrando que não se conduzia sozinho, mas que havia um homem ali. Meu Deus, havia um homem ali! A constatação da humanidade óbvia de outrem afundou sua cabeça torturada num barril cheio d'água. Esse tempo todo se deixara cegar pela idéia de um caminho, de uma paisagem, de umas drogas de móléculas fazendo festa, de umas palavras bobas num papel que jamais seria lido! Como pudera se deixar afundar por essas tolices se todo o tempo estivera diante do milagre maior da existência?
Milagre este que, apesar de milagroso, em sua realidade aparentemente intangível estava era bastante aturdido com aquela história de grito, "pare o carro!" etc. Enquanto ela aturdia-se era do caso de ser de repente tão mais vivo o mundo real e tão latente a necessidade de estar no mundo real quando se está diante de um homem.
Como se de novo a temperatura da água subisse um grau, só por charme, dando a entender que um dia ferveria, mas não agora. Ela saiu do carro. Pois se só encararia se fosse a última saída, que fosse. Ela iria.
Para quem gostava tanto do caminho do vento, o sol penetrou doído nos poros. Tudo bem, pensou, doer faz parte. Com medo de parte ainda ser apenas um pedaço do caminho, espantou o pensamento com as mãos no ar, como fossem mosquitos, de um jeito doce de personagem de desenho animado.
Quase pensou que se fosse uma personagem de desenho animado jamais precisaria enfrentar a humanidade de um homem, mas teve medo de que esse pensamento a acovardasse.
Por um instante, pensou se teria coragem de beijá-lo. Depois, viu o quanto soaria bobo. Tendo a chance única na vida de um gesto grande não seria burra a ponto de encolhê-lo num gesto bobo. Pensou na doçura que têm as impulsividades bobas. Pensou na redução. Sentiu-se menor como quando a lágrima poderia ter caído no papel mas fez questão de cair sabe-se lá onde.
Sorriu ao mesmo tempo vencida e triunfante: troca. Ele trocou com ressalvas. Apesar de um homem, não era fraco. Foi para o banco do carona. Ela assumiu a direção. Seguiram assim o resto do caminho (?!). Ele sendo um homem e ela sendo uma mulher. Não pela obrigação de o serem, mas pela ocasião natural de serem homem e mulher. O vidro da janela fechado quase até em cima. O caderno vazio caído inerte - sozinho - no banco de trás. A água fervente, evaporando.
E por isso se deixava fingindo não saber nem se importar com o destino do veículo - apenas o trajeto lhe era indispensável. Acostumara-se a ser levada, acostumara-se a achar saboroso o gosto das estradas, às vezes surpreendentes, noutras reconhecíveis. O que nunca sabia era se a familiaridade se dava por de fato estar num lugar onde já estivera, ou se depois de um tempo começava a achar as paisagens parecidas. Mas isso não fazia lá muita diferença; era como uma fórmula: bastava acender o fogo e ficar esperando, logo a água entraria em ebulição. Uma semi-certeza. Como uma verdade maior que todos sabem mas ninguém diz: a poesia estava no caminho. Não. Nenhuma verdade secreta, subjetiva ou teleológica. Estava no caminho porque estava no caminho. Em cada árvore que passava e não num suposto destino final. Até porque este não existia, era como aquele sonho de "ser em si". Pronto.
Do barulho da chave girando, o tremor do carro acordando, o solavanco natural que invertia a ordem do mundo fazendo todas as coisas andarem para trás só porque ela estava era andando para frente.
Na velocidade, era certo, sempre se chegava aos cem graus e as moléculas-sinapses entregavam-se àquela festa silenciosa e íntima. As linhas preenchiam-se como um coração acalentado. Contudo, o conforto que a inundava quase sempre se parecia mais com o que se tem quando se chega em casa debaixo de uma tempestade - o alívio após o furacão.
Mas uma vez (quase como "era uma vez..."), houve uma enchente grave e não foi possível entrar em casa, o furacão não passou, a água estacionou nos noventa e cinco graus: o papel ficou em branco. O desespero não foi seguido de alívio e a lágrima que caiu - e sequer se deu ao trabalho de pingar no papel para soar mais bonito - não foi por causa do vento nos olhos.
A dor, afinal, era como a de um matemático que após anos e anos de trabalho descobre uma equação ridiculamente irresolúvel. A mulher acabara de perceber o vazio de vagar sem rumo e a falta do que quer que fosse a tragou dolorosamente como se Deus, arrependido de tê-la criado uma vez, ao invés de matá-la resolve-se deglutí-la. Mastigá-la vagarosa e impiedosamente, mas com um apetite genuíno e, portanto, incontestável.
Ali, vendo sua carne amolecer entre os dentes de uma divindade para ela sequer conceituada, a única saída era um ato heróico. Salvar a si mesmo era um imperativo irremediável e inadiável, como qualquer coisa o é quando enfim acontece.
GRITOU.
O carro parou mostrando que não se conduzia sozinho, mas que havia um homem ali. Meu Deus, havia um homem ali! A constatação da humanidade óbvia de outrem afundou sua cabeça torturada num barril cheio d'água. Esse tempo todo se deixara cegar pela idéia de um caminho, de uma paisagem, de umas drogas de móléculas fazendo festa, de umas palavras bobas num papel que jamais seria lido! Como pudera se deixar afundar por essas tolices se todo o tempo estivera diante do milagre maior da existência?
Milagre este que, apesar de milagroso, em sua realidade aparentemente intangível estava era bastante aturdido com aquela história de grito, "pare o carro!" etc. Enquanto ela aturdia-se era do caso de ser de repente tão mais vivo o mundo real e tão latente a necessidade de estar no mundo real quando se está diante de um homem.
Como se de novo a temperatura da água subisse um grau, só por charme, dando a entender que um dia ferveria, mas não agora. Ela saiu do carro. Pois se só encararia se fosse a última saída, que fosse. Ela iria.
Para quem gostava tanto do caminho do vento, o sol penetrou doído nos poros. Tudo bem, pensou, doer faz parte. Com medo de parte ainda ser apenas um pedaço do caminho, espantou o pensamento com as mãos no ar, como fossem mosquitos, de um jeito doce de personagem de desenho animado.
Quase pensou que se fosse uma personagem de desenho animado jamais precisaria enfrentar a humanidade de um homem, mas teve medo de que esse pensamento a acovardasse.
Por um instante, pensou se teria coragem de beijá-lo. Depois, viu o quanto soaria bobo. Tendo a chance única na vida de um gesto grande não seria burra a ponto de encolhê-lo num gesto bobo. Pensou na doçura que têm as impulsividades bobas. Pensou na redução. Sentiu-se menor como quando a lágrima poderia ter caído no papel mas fez questão de cair sabe-se lá onde.
Sorriu ao mesmo tempo vencida e triunfante: troca. Ele trocou com ressalvas. Apesar de um homem, não era fraco. Foi para o banco do carona. Ela assumiu a direção. Seguiram assim o resto do caminho (?!). Ele sendo um homem e ela sendo uma mulher. Não pela obrigação de o serem, mas pela ocasião natural de serem homem e mulher. O vidro da janela fechado quase até em cima. O caderno vazio caído inerte - sozinho - no banco de trás. A água fervente, evaporando.
sexta-feira, novembro 07, 2008
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