quarta-feira, março 09, 2011
Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado
Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado
quinta-feira, março 03, 2011
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Preciso me encontrar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
Sinto encanto
Eu não quero nem saber
O que me espera
Eu acelero
Tomo um gole do que eu não conheço
E meu primeiro porre
Será um mistério imenso
Eu vim do avesso
Reverso do que era aceito
Ninguém sabe tudo
Nada é perfeito
Eu escuto fora
Com o ouvido de dentro
Eu me alimento
Do meu silêncio
E canto
Porque sinto um encanto
Sinto e canto
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
quarta-feira, fevereiro 09, 2011
segunda-feira, janeiro 24, 2011
C.L. - Parte I
Para além daquele muro podia ver a estrada por onde as cartas que não havia mandado não circulavam. Uma insegurança enorme se interpunha no caminho do lápis temendo que não tivesse nada de tão grandioso para partilhar. Não tinha uma dor dessas enormes de que se pudesse ter inveja ou fingir pena.
Daqui de dentro do cinza podia fingir que o seu vazio era uma floresta densa e secreta, trancada à chave como num conto infantil. Era quase divertido imaginar-se especial, protegida por um invólucro de vidro – como esses que tem um cenário bonito e aquela adorável neve falsa – mesmo sabendo que esses muros nada tinham de transparentes.
A dor que tinha era só essa vontade seca e injustificável. Esse desejo infindo de mergulhar sempre mais na própria vertigem, no próprio silêncio, no êxtase introspectivo. Perdia horas de pensamento raivoso dizendo a si mesma que se produzisse de seus devaneios uma concretude qualquer, ou uma razão maior para ir além dos muros, perderia esse aspecto de animal enjaulado e ganharia uma golfada do ar que apenas as cartas provavam.
Não tinha o mesmo impacto de ser prisioneira. Não tinha nenhum tipo de charme nos remédios, choques e discursos religiosos. Era esse vazio que tinha vontade de pôr numa carta, mas só o faria mediante a certeza de que alguém perceberia o quão longos e compridos eram os troncos das árvores naquela floresta, de um jeito que não era possível saber se existia mesmo um sol que as alimentava de pois dali. O chão era lodoso e não conseguia nem mesmo saber se era vivo o verde que coloria as folhas.
O frio ia subindo pelos pés durante a noite e era quando uma ânsia implacável tomava-lhe as rédeas. Vinha essa vontade prisioneira de fugir, de inalar fundo e sentir o alívio percorrendo as narinas e a garganta até que viesse aquele estalo na cabeça ruindo tudo: os muros, o vidro, a floresta. No meio do êxtase, alguma parte de si percebia enquanto o desespero de todas essas coisas se erguia sorrateiro esperando a onda passar. O desespero sempre vinha na hora em que esperava o conforto de uma lareira quente de algum lugar parecido com o que já chamou de casa – sem muros, sem cinza, sem lodo. Apenas um lago distante onde fosse possível de vez em quando ver o reflexo da lua.
domingo, janeiro 23, 2011
Treinando toda minha incompreensão. Eu sei o que vai acontecer. Eu sinto – é a resposta antes que você me pergunte. Sinto essa paranoia tomando ares de certeza, sinto a suspeita virando algo mais denso do que essa fumaça de desconfiança e ciúme. Eu já sei o que ela vai dizer e sei inclusive o que você vai me dizer depois. Sei que não será uma simples justificativa assim como percebo que o fim será simples, rápido e indolor como o começo. Ninguém chora à toa, por mais ensaiadas que sejam as lágrimas. Quando ela entrou por aquela porta, eu soube. Sequer me incomoda que eu não saiba o texto detalhado dessa vez. Eu sei a essência.
Sei que o dia inteiro termina antes de começar. Sei que o sol lá fora espera até eu me reerguer. Sei que eu vou chorar e vou me sentir traída mesmo que você volte com um sorriso nervoso e diga que prefere a mim. Sei que os seus dentes vão estar cheios de vontade, embora você não diga. Sei que os meus braços vão estar cheios de correntes, embora você não veja. Sei que eu também vou sorrir com meu sentimento de posse anulada e vou até ficar feliz porque você preferiu a mim, apesar de todo o desejo de ir, nem que fosse por algum tempo. Sei que vocês trocarão lembranças e recordarão confidências das quais nunca participarei. Sei que vocês não imaginam que a minha obsessão possa ir tão longe, sei que vocês não acreditam que a minha doença possa ser tão verdadeira a ponto de captar até o que vocês não dizem. Eu percebo os silêncios. Percebo quando os lábios de vocês não se tocam apenas devido ao grande respeito que nutrem por mim. Sei que você tem por mim um respeito enorme. Talvez bem maior do que o amor e o desejo que um dia teve. Também sei que esse respeito não é exatamente maior que o tesão que você sente agora.
Por isso, você vai chegar, me olhar com a maior ternura do mundo e se repetir quantas vezes puder que eu não mereço, que você não pode fazer isso comigo. Sei o quanto você tem medo da minha reação; não duvida que talvez eu me mate ou largue tudo e você nunca mais me veja; teme que eu coloque fogo em todas as coisas que foram nossas.
Nenhum desses pensamentos, por mais aterrorizadores, afasta o desejo que se instalou no meio das suas pernas. Eu percebo quando você se aproxima imaginando-se capaz de enganar seu corpo com o meu. Depois de algum tempo com os olhos fechados, você finge que goza e eu finjo que acredito para não dar na sua cara. Sei que se eu te batesse agora, você fingiria aceitar que faz parte da transa. Como eu não te bato, você dorme. Ou finge, pelo pouco tempo que seus olhos permanecem fechados. Você levanta, toma banho sem me convidar e sai daquele jeito de quem tenta fingir que não se arrumou meticulosamente. Sei que você vai encontrá-la.
Se você me conhecesse um pouco mais, saberia que eu não vou esperar para ver. Que não terei estômago para dizer que perdemos o rumo, desaguamos num rio seco ou qualquer coisa assim. Se me conhecesse como você a conhece, saberia que quando é sério eu não uso metáforas. Eu não faço cena nenhuma. Sem saber de nada disso, você vai ensaiar as frases mais doces para me dizer que não é mais como antes.
A minha melhor vingança é que você não me conheça a ponto de saber onde estarei quando o porteiro entregar a chave sem o chaveiro que você me deu de presente porque sempre odiou o que eu usava. Eu sei exatamente a cara que você vai fazer quando vir o guarda-roupa vazio sem saber se eu queimei ou fugi com as suas coisas. Você vai chorar achando que eu quis ficar com a parte mais externa já que não poderia mais ter você inteira.
quarta-feira, janeiro 19, 2011
Eu fico sem ter para onde ir com essa cama vazia olhando para mim. Fica grande, sabe? É claro que você sabe, é o maior clichê da falta, não é? Dá um medo, parece que eu poderia me perder em pesadelos terríveis se os sonhos dela não estiverem ali, flutuando em paralelo. Ela nem despediu dessa vez. A certeza da volta às vezes faz isso com a pessoa, mas não deveria. Não deixou nem um cheiro num canto qualquer. As várias valsas ciumentas que escuto não dizem nada. O telefone em silêncio diz que talvez você já esteja dormindo. Eu tinha algumas coisas para dizer, algumas trivialidades para comentar, mas tenho também experimentado o silêncio da solidão – esse que nos faz falar sozinhos para ver se a voz ainda está por aqui. É que esse silêncio dá um medo desses que deixa uma música alta tocando até tarde para ver se fica parecendo presença. Não fica.
Quem canta seus males espanta - Zélia Duncan
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando
Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
`as vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mão meu rosto, sozinha no apartamento
Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto
Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina
Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
terça-feira, janeiro 11, 2011
O que será que te anima?
O que será que te anima?
Bonecos de Vitalino
ou porcelanas da China?
O que será que te domina?
O que será que te domina?
Exércitos de Roma
ou a bomba de Hiroshima?
O que será que te balança?
O que será que te balança?
O xote de Don Quixote
ou o can-can (?) que a França dança?
O que será que te adormece?
O que será que te adormece?
Mágicas no cabelo
ou um abraço que te aquece?
O que será que te excita?
O que será que te excita?
A cachaça Ipióca
ou o tinto da Periquita?
O que será que te dá vida?
O que será que te dá vida?
A saudade da chegada
ou a certeza da partida?
quarta-feira, janeiro 05, 2011
É tudo mentira porque quando você não está absolutamente nada faz sentido. Nada se move. Nenhuma folha de papel se vira. No pior dos clichês, eu sequer respiro. Eu fico com essa falta de ar, essa vida engasgada sem saber como transformar meu discurso super descolado em algo concreto. Se você fosse embora para sempre, eu sei que depois de um tempo eu ia me reerguer e aprender a viver sozinha como sem ana, aliás, se você fosse mais alta. Mas o que acontece é que mesmo o meu desespero, o meu vazio, qualquer coisa que eu pudesse chamar de minha porque produzida e elaborada por minha vontade perde o sentido quando me vejo sozinha e no máximo imagino que posso fazer alguma coisa para você. Pode ser algum tipo de doença estranha. As tais dependência e submissão de que eu tanto não queria falar. Entendo como é angustiante ter um momento de folga não planejado, apesar de todas as coisas que tenho para fazer por mim. Acaba sempre que não faço nada e fico admirando o tempo que roda num relógio que eu não sei decifrar.
Eu não sei decifrar esse meu desespero que só surge na sua ausência, essa insônia que você nem acredita que exista. Esses fatos que eu narro para o nada. Essas histórias que não desenho esperando que a gente as possa viver. As pessoas me leem e por isso não escrevo. Eu vejo séries e coisas que possam caber na minha obsessão que não pode ser interrompida. Preciso de tarefas longas e sem intervalo, pois do contrário o tempo vai passar assim mesmo e eu só vou ficar olhando o azulado de manchas das paredes, as janelas mais longas que eu que devem estar exibindo mais de mim do que qualquer um aprovaria. Eu fico sem provar nenhum gosto quando você não está perto e não é só questão de sinestesia. É questão dos sentidos mais básicos e das necessidades mais simples. Sem você eu não sei nem mesmo ler. O verbo mais fundamental se perde em algum silêncio solitário que surgiu quando eu não vi a placa que apontava a solidão medonha em meu caminho.
É por isso: razão simples. Eu não gosto de férias. Não gosto desse oco estranho que nos deixa sem hábitos em que agarrar. Eu preciso acordar, me dar um tapa no espelho como se eu fosse alguma personagem de filme de Almodóvar. Acontece que os meus dramas só me levaram a poços mais fundos, a chafurdar numa lama escura, num cenário nada colorido – e foi de lá que você me tirou. Por mais que eu gostasse, hoje eu sei que era ruim aquela umidade escura que me cercava.
Só que entre os meus muitos pontos de partida tem também essa confissão de dependência mais pura. De-pen-dên-cia. Quando a gente não consegue engolir alguma coisa, fica mastigando, repartindo, para ver se passa. Não, né? Não passa. Feito tatuagem que é para me dar coragem para seguir viagem quando a noite vem. Já tá chegando e eu sinto que vou ter que tirar sozinha alguma de algum lugar.
Eu não escrevo mais porque as pessoas leem. Troquei a cortina para ver se passa despercebido esse palco de madeira apodrecida. Morrer não dói. Viver é muito perigoso e eu já nem sei onde vão ou se ficam os acentos das coisas que escrevo. Não sei viver sem ser meta, o substantivo e o prefixo. Não sei ser sem ser esse gramatiquismo de quinta, esse pedantismo que só é possível aos de conhecimento nulo – ou quase. Eu sei que a terra gira, a vira gira, a cabeça gira sob efeito de nada. O vazio é uma droga pesada demais para mim, só vem a depressão quando deveria ser a onda.
terça-feira, dezembro 28, 2010
Estrada aberta
Mais uma dose que alguém põe no copo sem eu perceber. Mais uma série de coisas que se anotam em listas sequenciais sem que eu tenha meios de cumprir. Mais uma ampulheta que alguém gira sem pedir permissão, a vida roda e eu aqui sendo a mesma-com-o-prazer-de-ser-o-mesmo-mas-mudar. De casa, de caso, de coisa, de trabalho, de roupa, de afeto, de família, de trilha – universo em expansão.
A estrada, o mar, a porta, a vida, tá tudo aberto esperando o novo entrar sem pedir a licença que já foi dada ao que vier pro bem. Meio macumbeira, meio supersticiosa pelo encontro de consoantes que amo e pelas vontades de ter algo em que me agarrar (sempre!).
Um descampado grande e verde para além das janelas. O calor dissipa as nuvens, o verão chove todas elas e é quando o sol se abre mais limpo, forte, intenso para quem puder aguentar e dele se alimenta.
Novos cenários. Novos horizontes. Novas pontes que vamos construindo, tijolo a tijolo, pedaço a pedaço. Com a calma e a pressa certas para ver surgir e poi passos firmes, um de casa vez, mãos coladas.
Desmanchar cenários, construir fronteiras borradas, borrar os batons, desarrumar a cama e os cabelos, esvaziar o copo em pequenos goles cheios de vontade prudente de ser um só. Entendi que não podemos atropelar os ventos nem esperar que eles mudem de direção. A gente busca o meio termo entre se deixar levar e leva-lo um pouco com a gente.
E nunca antes (h)ouve tanto mar aberto.
domingo, dezembro 26, 2010
quinta-feira, dezembro 23, 2010
Tudo diferente na noite que antecede o fim
domingo, dezembro 12, 2010
Inacabado
quarta-feira, dezembro 08, 2010
Insome
segunda-feira, dezembro 06, 2010
Insônia involuntária e cansaço
Não vai ter cenário pronto, não tem texto. Pode ser melhor ficar em silêncio, me olhar com aquela ternura de quem já partilhou um sofrimento. Não vai estar em modos de pesquisa instantâneos e modernosos. Não vai estar em páginas amareladas ou virtuais. Não está em nenhuma trilha sonora. Não tem a ver com brigas banais ou em vontades de levantar bandeiras e brigar com o mundo, virar morais de ponta cabeça. Não se trata de nenhuma genialidade.
É mais simples, original e doloroso. Trata-se de viver cada dia. Acordar todas as manhãs. Saber lidar com casa pequeno obstáculo sem titubear. Disfarçar as lágrimas e entender que o mundo é para gentes grandes e o único jeito aceitável é crescer. A dor da alma se alargando um mílimetro que seja é mais intensa que o cubo daquela dor nos ossos de anos atrás. Minha alma tem estrias esbranquiçadas do último ano que se fecha com muito mais pânicos do que tinha no início.
Os ciclos inventados fazem a minha cabeça girar de ressaca das coisas que eu não li em todo esse tempo que passou voando. Não tem mais muito formato. Os meus gigantes ventam muito e o fracasso eu não sei se sou capaz de suportar nos ombros.
Uma improdutividade transbordante. Todas as angústias gritando para virarem palavras e eu ainda me escondendo atrás de umas bobas citações - "Eu deveria cantar"*.
* ABREU, Caio Fernando. Onde Andará Dulce Veiga? Algum lugar, alguma editora, última ou primeira página, não sei dizer.
Trecho da peça SARAU DAS 9 ÀS 11 (Caio F.)
BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de
desencanto? Quem, entre todos vocês, estenderá a mão para passar no
meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia?
DEBORAH — Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu.
MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha, a
poetisa Florbela Ortigão, tem agora que cozinhar a sua própria comida.
Não, eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. Nunca mais
retornarei a Taormina. Não quero ver as paredes brancas de suas
casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: “Abaixo a tirania”,
“Morram os opressores”.
MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte
de fogo lançar-se-á ao mar, e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue,
e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar, e um terço
dos navios irá a pique.
DEBORAH — E descansar os meus olhos no pasto, descarregar
esse mundo das costas.
BABY — Não espero nenhum olhar, não espero nenhum gesto, não
espero nenhuma cantiga de ninar. Por isso estou vivo. Pela minha absoluta
desesperança, meu coração bate ainda mais forte. Quando não se tem
mais nada a perder, só se tem a ganhar. Quando se pára de pedir, a gente
está pronto para começar a receber. O futuro é um abismo escuro, mas
pouco importa onde terminará a minha queda. De qualquer forma, um
dia seremos poeira. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos
no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus
jeitos de tentar. Eu tenho os meus. Não acredito nos seus, talvez também
não acredite nos meus próprios. Não lhe peço que acredite em mim.
MADAME — Tivemos todos que fugir em debandada. Muitos, na
pressa, deixaram para trás uma avozinha cega, um irmão entrevado,
uma tia louca. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo, nossos
iates e palacetes. Os industriais de Santa Lucia tiveram todos os seus
bens confiscados e as contas bancárias bloqueadas pelo governo rebelde.
Soube também que faliu a revista Grand-Monde, especializada na
crônica da vida mundana. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard,
cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como
“ossinhos de Santa Catarina” — a confeitaria, dizia, teve as suas instalações
transformadas num depósito de armamentos.
MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um
grande astro, luminoso como um archote, e virá tombar sobre a terça
parte dos rios e das fontes d’água. Chamar-se-á “absinto”, esse astro.
Converterá em absinto a terça parte das águas, e muitos homens morrerão
dessas águas, porque se tornarão amargas.
BABY — Quanto a mim, acredito nas plantas, nos animais. Acredito
nos astros, nas águas. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando
o sol acaba de se pôr. Acredito na pedra bruta, na areia seca.
DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal, e cantar o
tempo todo: shoobedoo-down-down, shoobedoo-down-down.
MADAME — Tudo mudou. Não me iludo. Tudo acabou.
MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta.
MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. Ainda hoje tive a
compreensão final.
MONGE — E será ferida a terça parte do Sol, a terça parte da Lua
e a terça parte das estrelas.
MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras,
Ciências e Artes foram todos mortos.
MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte do céu,
e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite.
quarta-feira, novembro 24, 2010
Teatro dos Vampiros
Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...
Nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
Sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...
Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...
Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...
Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...
Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
Esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...
Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito...
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo
E não consegui dormir...
Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...
Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...
Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...
Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém...
domingo, novembro 07, 2010
De quem não conseguiu de explicar para si mesma:
Eu ainda não chorei tudo o que eu tinha para chorar. Ainda não olhei fundo nos olhos tudo o que eu tinha para olhar. Não bati a porta com a força exata que eu queria e você não entende porque não sabe o quanto mágoa é uma dor que me consome. Não sabe o rancor que fica por trás das minhas frases banais.
E toda parte mal resolvida da gente (quer dizer, de mim, porque das outras pessoas eu não tenho como saber) fica assim, vai ficando por dentro, vão passando os dias, a gente vive como se não fosse nada, mas quando não tem ninguém olhando, é nisso que a gente pensa.
A raiva vai passar e o botão do viver-automático e com cara de tudo-bem vai ficar aceso de novo. Mas agora eu preciso chorar. Agora eu preciso fazer birra em vez do que precisa ser feito. Eu só queria não ser imbecil a ponto de piorar mais as coisas. Queria ser capaz de impedir que o problema de eu não conseguir fazer o que eu gostaria de fazer num determinado momento me impedisse de fazer o que eu gostaria de fazer nos outros momentos em que eu não estou impedida em vez de perder tempo ficando emburrada pelo momento anterior, entendeu?
Eu também não. Então deixa pra lá. Vou estudar que é o melhor que eu faço.
Contas incontáveis
Acontece que eu não estou sozinha mesmo quando um veneno que bebi já há dois dias ameaça a me corroer por dentro. Algo ameaça explodir e a gente vai vivendo. O problema de ir vivendo é que eu nunca soube fazer algo sem vontade. Para mim sempre foi aprender a gostar ou deixar de lado. Só que desaprender a gostar de algo de que dependo põe abaixo toda a fórmula – nem a do dedo na garganta tá dando conta.
Aliás, o problema é mesmo e sempre a conta. Aquela que vence amanhã e ainda não está paga. Aquela venceu há sei lá quantos dias e aquela que nem quero saber quando vai vencer. A corrente que ainda está aberta e não devia. A de variação zero um que andou emagrecendo. Mas a pior mesmo é aquela que se perdeu e já não se paga. O problema é que eu nunca tive vocação para ser a última a sair.
Dorme, amor, nos meus braços como se eu fosse o primeiro.
quarta-feira, novembro 03, 2010
Ciclos de transição
quinta-feira, outubro 28, 2010
Anti-revisionismo
terça-feira, outubro 26, 2010
Paredes amarelas
terça-feira, outubro 12, 2010
Um tempo andando no escuro
segunda-feira, outubro 04, 2010
Meta-
sábado, outubro 02, 2010
Capítulo Sete - Atrás da porta
quarta-feira, setembro 22, 2010
Capítulo Seis - Revivências
terça-feira, setembro 21, 2010
Capítulo Cinco - Envelope lacrado
É claro que um grande bocado do motivo de ter acumulado aquele montante de envelopes lacrados tinha a ver com a recusa de possíveis novidades. Não suportaria nem mesmo saber que Dario pudesse ter um grande problema, não conseguiria aguentar uma compaixão por ele no estado em que se encontrava. Ademais, não tinha interesse nenhum em ler que se formava um rótulo de felicidade em volta dele e de Marliana, que planejavam um bebê para o próximo ano, que ela havia parado com as faxinas para se dedicar ao lar. Não precisava que essas coisas ficassem ainda mais reais e constantes em sua cabeça. Não lia nem telefonava. O irmão não tinha o número da pensão, não corria maiores riscos.
Ou assim imaginava até a noite de ventos gelados em que a Dona da pensão bateu na porta enquanto se maquiava para mais uma noite. A Dona disse que tinha um homem esperando lá embaixo, que não era hora ainda, onde ela pensava que estava. O coração de Lúcia bateu como se tivesse a mesma ingenuidade de antes e o corpo cansado desceu o mais rápido que pode sem atentar a nada no que dizia a velha senhora.
sexta-feira, setembro 17, 2010
Capítulo Quatro
quinta-feira, setembro 16, 2010
Capítulo 3 - Três
quarta-feira, setembro 15, 2010
Capítulo 2 - "Concreto e asfalto"
terça-feira, setembro 14, 2010
Capítulo 1 - A menina má
quarta-feira, setembro 08, 2010
Minha sinopse de Malu
Fugindo de suas peripécias amorosas, um típico garanhão paulista é literalmente atropelado por uma sedutora carioca. Malu atropela Luiz com sua bicicleta no calçadão das praias do Rio de Janeiro e o clima de romance se instala. Até aí, tudo perfeito para os dois se apaixonarem e viverem felizes para sempre. O problema é que Luiz começa a provar do próprio veneno sedutor - fica difícil se entregar a um amor quando se está tão acostumado aos jogos e truques da conquista. Luiz começa a desconfiar que Malu o está traindo e, imerso nas artimanhas que costumava usar, encontra facilmente vestígios que considera ‘provas’ da traição.
Confiram o trailer:
quarta-feira, setembro 01, 2010
Problemas numéricos
Pois bem, se isso não é um blog, não faz sentido nenhum falar do dia do blog, que ninguém sabe o que é, quem criou ou para quê serve. Mas poxa, mesmo com sei lá quantas camadas de cebola na explicação do que esse lugar imaterial representa, tá escrito ali em cima o domínio blogspot. Talvez escrever alguma coisa seja necessário para pelo menos agradecer a esse tal de blogger por me hospedar de graça por cinco anos.
Problema número dois: o blogday foi ontem, né? Então leiam fingindo que vocês não sabem que dia é hoje.
Problema número três: sem saber que dia hoje tudo perde totalmente o sentido, não é? Então deixa pra lá.
Fato é que o fato aconteceu (ó!) e não consegui não pensar no que me fez/faz ficar aqui falando pro além durante tanto tempo. Somos a primeira geração da internet democratizada e mesmo que não tenhamso muitos leitores, a possibilidade de escrever alguma coisa que está disponível para o mundo inteiro é fascinante.
Não sei se é possível registrar o espanto e continuar com a minha habitual pseudo-literariedade. Vai ver estou ficando menos literária mesmo. Será o tal do adultecimento? De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho - que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.
sábado, agosto 21, 2010
A primeira vez que fiquei sozinha em casa
quinta-feira, agosto 19, 2010
Vênus em quadratura com saturno natal
quarta-feira, agosto 11, 2010
Fenêtre

segunda-feira, agosto 09, 2010
quarta-feira, agosto 04, 2010
Reverência
Segurava os cabelos compridos fingindo completar o ritual da reverência - os deuses talvez não percebessem quanto o gesto tinha de tentativa máxima de distanciar-se de si mesma. Se pudesse arrancava as próprias mãos para evitar a náusea que sentia toda vez que se tocava. Uma espécie de culpa que se confunde com prazer. Os joelhos já doloridos de ficar ali debruçada esperando sua alma esvaziar-se. Era um esforço grande - e não só físico - reviver o gosto de cada coisa que engolira justo para evitar a convivência. Mas estava tudo ali, o tempo todo. Os fatos e formas e coisas e pessoas e momentos e sensações e sentidos e gritos e silêncios e malabarismos: todos estiveram indigestos no mesmo lugar esse tempo todo. Esperando a primeira oportunidade. Esperando transbordar, esperando explodir, esperando a hora inevitável (é só questão de tempo) de voltar à tona.
Tudo voltava sem uma sublime atmosfera de transe. De joelhos, o suor escorria pela testa, as coisas, pessoas e objetos caindo naquele recipiente branco e sagrado - todas paravam e encaravam-na com petulância. Diziam com todas as letras que nada tinha adiantado, que não adianta tentar esconder algo de si mesma dentro de si mesma. Não é justo guardar o que não é seu, ainda por cima num lugar que também não lhe pertence. Era um poço de injustiça e não se pertencia.
Aproveitava esses momentos em que o dentro (a alma?) se exteriorizava para mergulhar no mais íntimo de si. O mais sujo e íntimo. Essa parte que sabia fétida, viscosa, despedaçada. Essa parte que é também o mais precioso, o que pode ser talhado e moldado para virar alguma coisa que possa receber o nome de arte.
Mergulhava os dedos sentindo que aquilo era massa viva, era quente, pulsava ainda em sintonia com o seu coração. Ela, que sempre soube que o coração bate no estômago. Misturava a gosma entre os dedos, depositava toda a sua força, todas as suas crenças e descrenças. Era um espelho. Os pedaços aos poucos foram se tornando uma massa uniforme, as cores se fundindo numa só - dessas que não podem ter um nome.
Voltando o olhar para cima como quem diz 'amém', enxergou a parede branca como uma tela. Era isso. O objetivo fora sempre esse, desde o começo. Quando não sonhava, quando não sabia, quando não queria e só restava querer saber. É onde se completa. É onde está o sentido daquilo.
Amarrou os cabelos num nó e ergueu o corpo sentindo a dor do peso que ficara sobre os joelhos. Conseguiu perceber que já não estava lá - nem o peso nem ela mesma. Ela era a fusão entre a tinta, suas entranhas era apenas uma tinta!, e a parede.
quinta-feira, julho 22, 2010
Ainda membro
Segurei antes de cair apenas. Abrir mão e admitir que não é possível romper consigo é quase heróico para quem precisa acreditar em heroísmo. Nunca acreditei em nada, mas nos últimos tempos tenho me agarrado a muitas coisas para não cair. Estava à beira do precipício mesmo e era a única coisa que enxergava como opção a fazer.
O problema é que quando a gente se segura por vários lados, é como se estivesse amarrado - e nem por isso deixa de estar sobre um tal abismo. Soltar uma das pontas foi quase como serrar a sangue frio a própria perna - a terceira, é claro, essa que a gente arranca, amputa, corta e sempre volta a nascer.
Eu já sabia que a gente nascia muitas vezes na vida. Mas assim em partes, assim tão esquartejada, assim brigando para não ter esse membro daninho, danoso ligado a mim. Cortei a tal da perna a sangue frio e sem anestesia. Enquanto via o sangue escorrendo e a carne se rasgando, esperei pacientemente a sensação de alívio chegar. Como quando a comida é pouca e você espera que sacie.
Respirei calmamente enquanto olhava. Era para ter outro rumo. Era para ser outra coisa, mas quando olhou o tornozelo amarrado por uma corrente escura, não era o da perna sangrenta e caída no chão. Estava presa por todos os lados. Era dessas pessoas que não tinham para onde fugir e por isso precisavam se esconder. Encarou a perna solta sem raiva, com uma certa resignação.
segunda-feira, julho 12, 2010
Tudo o que não é
(O corpo diz tudo. Os gestos, o jeito de olhar e a forma como aperta os lábios mostrando um desespero que quer gritar. Ela, que é tão acostumada a falar com voz de veludo. A voz também arranha, se perde. Perde os gestos, perde a medida e perde o ponto certo de tocar. Está a procura de um ponto uno, quando tem uma alma inteira. Tocar uma alma é muito difícil. É preciso uma delicadeza maior do que a frieza que escolhe entre o fio azul e o vermelho. Em caso de dúvida, sempre o vermelho. Em caso de desespero, sempre o grito. Em caso de silêncio, sempre o silêncio. Não há nada mais denso, mais turvo e mais grande que o silêncio. O silêncio está aquém da compreensão e da distância. O silêncio cria uma distância que a gente nem percebe. Não são roupas, essas a gente despe. É algo mais fundo que a gente não percebe e faltam as palavras. Estamos procurando por fora o que é bem mais fundo.)
Ela olhou vagamente a caixa preta em suas mãos. As janelas estavam todas fechadas. Não entrava vento nenhum e seus cabelos grudavam no pescoço por causa do suor. Era inverno e não sabia ao certo o que faria com aquilo, mas certa estava de não querer abrir. O peso que sentia sobre seus joelhos era bem maior do que a massa real daquele objeto. E como podia fazer tanto calor naquele vagão? As pessoas em volta pareciam não perceber. Ninguém percebia a gravidade em que viajavam. Ninguém percebia a velocidade assustadora em que o trem corria. Não imaginavam que se soltasse aquele pequeno volume, nada sobraria. Não podiam imaginar que dela mesma já não sobrava nada fazia muito. Mordeu os lábios apreensiva e continuou sentada, esperando para ver até onde aquele trem a levaria.
quarta-feira, junho 30, 2010
Polissilábica
Casa no Céu (Isabella Taviani)
E mandar mobiliar como gostamos tanto
Tudo tão branco
Borboletas por todos os lados
Visitando um jardim perfumado
E no meio da sala
O nosso retrato
Tudo que sonhamos juntos vamos conquistar
Basta ter a mente aberta
E um coração bem quente pra acreditar
Meu anjo lindo
Bem no alto da montanha
Eu vou plantar nosso lugar
Nosso eterno lar
Onde as raízes vão pra sempre se enroscar
Não precisamos de luxo e riqueza
Tenho você meu tesouro
Que beleza!
Só por você eu insisto
Lá teremos os nossos dois filhos
E se não for possível abriremos as portas
Pros bons e velhos amigos
quarta-feira, junho 23, 2010
A última folha de papel
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Não era nada daquilo. Rasgou o papel com uma raiva que era apenas do papel e de si mesmo, porque dela não conseguia sentir. Ou melhor, não conseguia era deixar de sentir tudo aquilo que até a véspera parecia ter significado e sentido. Agora tinha uma confusão de vazios, um papel com umas boas bobagens suicidas ou assassinas ou demasiado piegas, e uma caneta ameaçando falhar.
Pensou em muita auto-ajuda e em experiências passadas a que tinha sobrevivido. Pois é, não é que estava vivo para passar por aquilo tudo que já nem se imaginava capaz.
Depois de chorar como uma criança por duas noites e dois dias ininterruptos, tinha decidido usar um papel e caneta para tirar aqueles sentimentos disformes e sem nome de dentro de si.Nem que fosse uma escavadeira ou um bisturi, concluiu débil. O pior de sentir uma dor é saber que ela é só nossa.
Não tinha nada a fazer além de limpar com um pano incardido a tinta da caneta que acabava de estourar em suas mãos respingnado por todo o chão e manchando o papel sem endereço certo.
terça-feira, junho 22, 2010
Orgulho
Quis se encolher sob uma coberta já inexistente, aconchegar-se num colchão agora molhado e tão rápido! frio.
Ainda deitada, olhou para a madeira escura da porta imaginando o que estaria do outro lado. Não teve coragem de levantar e abrir.
segunda-feira, junho 21, 2010
É a impressão que ela dá
Eu nunca fui nada a ideologias nem nunca gostei muito de defender causas. Talvez nunca tenha encontrado uma grande o bastante que merecesse meu esforço todo. Fato é que no meio de todo o meu ceticismo, olhei para o meu caderninho (onde não escrevo lá grandes coisas) e percebi que eu queria que a resposta desejada fosse que sim, que eu mataria pelas minhas idéias.
Fiquei com uma séria indignação quando percebi que a conversa continuava no clima, o problema é matar pelas idéias. Não cheguei a entrar no mérito da violência ou do direito que uma pessoa possa ter ou não sobre a vida da outra.
Olhei para dentro com toda superficialidade que um momento público me permitia e não vi idéia nenhuma. O problema não era a minha gana assassina (que toda vez que eu vejo uma barata descubro que não tenho) o problema é a total falta de pelo quê lutar.
Nunca achei que as bandeiras que vejo por aí levantadas serviam para mim. O mais perto que já cheguei de levantar alguma, foi uma com um arco-íris bem bonito. Confesso que as cores pareceram me proteger com uma áurea brilhante e justificada, mas com o tempo estava eu bebendo do mesmo copo dos meus inimigos.
Não digo que me vi nua, pois essa seria uma situação confortável para mim. Me vi sem reflexo, sem ter o que pintar no rosto em tempo de festa. Sem ter o que defender.
Eu posso defender algumas pessoas, as que amo, principalmente. Mas as tais das idéias de que falam naquela cena inicial de V de Vingaça ficam faltando.
Quando o tal do professor (ops, denunciei...) perguntou se alguém ali mataria pelo que escreve, eu, com as poucas coisinhas que escrevo, tive vontade de dizer que sim. Mas no meu silêncio, cantarolei uma musiquinha pouco conhecida: "nem sempre faço o que é melhor pra mim, mas nunca faço o que eu não estou afim de fazer. Não viro vampiro, eu prefiro sangrar. Me obrigue a morrer, mas não me peça pra matar").
quarta-feira, junho 16, 2010
De bicicleta
Ela faz a revolução sem saber que sentido usa para a palavra. Muda tudo sem saber que volta para um mesmo lugar - a cada volta aperta mais. Um mesmo ponto e pela mesma razão. Alguns sabem que não é ela que determina a tal da humanidade, nenhuma outra coisa que não aquela habilidade de pegar um objeto com os dedos em oposição.
O que isso significa? Que talvez não dê mesmo para pegar nas mãos o tal do controle da própria vida. Não dá mesmo para achar que é só escrever o roteiro - é outra pessoa quem vai filmar, são outros os que vão cuidar da fotografia, da iluminação, da trilha sonora, da atuação e até mesmo da escalação do elenco.
Não é só o tempo a areia seca que escorre por entre os nosso magníficos polegares opositores.
Pequenas faltas de sentido e a gente vai para onde tiver espaço, para onde nos levam os meios de transporte.
Querendo viver sempre em alta velocidade só para ter o vento no rosto. O perigo é não saber medir os perigos na hora certa. A velha história da altura do tombo.
Mas para quem crê que não há caminhos, esse é o único caminho.
segunda-feira, junho 14, 2010
Um ciclo
segunda-feira, junho 07, 2010
Cultivo do desenlouquecimento ou Cinco anos, muleque!
Sei que algumas pessoas devem ter a esperança de que este post seja, afinal, uma tomada de consciência: se nada funcionou em cinco anos, ela finalmente vai dizer que o blog vai sair do ar. Sinto decepcionar, mas não é o caso ainda. Olha, que ao longo desse tempo eu pensei muitas vezes em apagar, excluir do mapa esse lugar que nunca existiu. Mas nunca consegui. Essa boneca confusa que às vezes vos escreve se tornou uma parte imprescindível de mim. Já tentei matá-la muitas vezes, mas acho que isso seria cruel demais. Logo agora que aprendemos a conviver tão bem. Essas bonecas, que sempre se mostram mais e mais russas - acabam sendo o desdobramento das coisas que vou descobrindo sobre mim. É um livro aberto muito do particular esse aqui, e acho que faz parte do charme e das minhas loucuras não ter muitos leitores (será que ainda tenho algum?). Sempre escrevi muito mais para mim mesma do que para um leitor imaginário. Não quero me fingir de desvaidecida e dizer que criei um blog (quatro!) para ninguém ler. A escrita é uma arte que só se completa na leitura - é assim que sempre pensei: "a verdade das palavras está na alma de quem as lê". É claro que com o passar dos anos deixei de acreditar em verdade, mas descobri muitas coisas mais pelo caminho. E uma parte do caminho vai continuar sendo traçada e testemunhada aqui. Não sei a quem devo agradecer ou parabenizar por esses cinco anos, mas não podia deixar de fazer um registro (talvez ao blogspot que nunca me tirou do ar...).
As loucuras brotaram e deram alguns frutos bonitos até, as velhas e novas partes continuam coexistindo - assim como o convite para quem quiser entrar e opinar.
quinta-feira, maio 27, 2010
Memoração da existência
Explode pelo mesmo ponto,
espirra pelo mesmo poro.
Todas as coisas
às quais não se pode dar nome
corroem as paredes das vísceras,
formam um bolo estacionado.
É também sintomático,
as membranas se alargam
para um parto difícil.
Algo que se rompe,
uma lagarta que enfim se transforma.
Uma volta se completa
e transmuta de estação.
Os ciclos se rompem:
transformam-se
(em espirais novas e coloridas).
quinta-feira, maio 20, 2010
Reencontro
A trilha sonora interrompida voltou à mente sem pedir nenhuma licença. Ele tinha o mesmo olhar penetrante, o mesmo ar despojado. Segurou o próprio corpo com a respiração que faltou. Olhou em volta, talvez viesse alguém, talvez alguém pudesse perceber o que se passava ali. As pessoas passando impassíveis responderam que não, que não viam, não percebiam, não queriam perceber. Uma solidão medonha apareceu ressignificada.
Nos instantes em que o corpo e a mente ficaram retidos naqueles olhos secos e sem nenhuma lembrança em que pudesse se reconhecer, suas sinapses congelaram naquela mesma música interrompida sem pudor. O mesmo medo voltou reciclado, ressignificado. Teve uma vontade incontrolável de ter coragem, de poder fazer alguma coisa, de gritar ou perguntar em tom seco como seus olhos se ele lembrava dela.
Bobagem. Ele nunca lembraria, era só mais uma. Uma manhã qualquer de verão, sem nenhum significado pa-ra e-le - essas duas palavras repetiam-se pausadamente com rancor.
Não conseguiu outra atitude que não tornar a mover os pés, retomar os passos e a pressa.
Só mais uma, só mais um. Um assalto, um assaltante, um momento banal.
terça-feira, maio 18, 2010
Trocando de roupa
Escrevo uns versos, depois dobro tudo num origami desconexo. Me guardo em algumas caixas e declamo rimas antigas ao vento. As mesmas paixões velhas, angústias serenas já quase amigas.
Era para ser sério ou ao menos um pouco coerente, mas devo ter nascido sem. É só deixar correr, deixar secar, deixar sair,
e continuar...
Adulteci.
As rodas param e a gente desce mesmo se ninguém deixar. Vejo você parada e sorrindo com um algodão doce nas mãos, ciente de que estão mesmo nas coisas mais pequenas as coisas grandes que a gente procura-encontra por acaso.
sábado, maio 15, 2010
Alguns luares depois

Morto. Parece tudo morto. Como se o dia já nascesse morto lá em cima. A gente faz tudo sem fazer nada. A cabeça dói, os olhos secos doem, o sono interrompido dói. Não é tempo de muitos sorrisos. O céu "abril-se" fechando o mês e levando alguém querido com ele. Como ele atravessou aquela nuvem tão espessa e fria? Ah... ele devia saber das Ítacas, devia estar tranquilo também sabendo que lá, depois do arco-íris invisível metastaseado por aquele cinza da nuvem deve estar um céu bem azul.
Os sustos foram grandes. Sabe quando o banco balança e parece que a gente vai despencar lá embaixo? Não sabe? Claro. Você nunca foi a um parque de diversões. Você devia ir, vai acabar descobrindo que mesmo quando o aparelho está chato e as pessoas fazendo cara de assustadas, ou de medo, a tortura acaba. O moço sempre vira a manivela e bah! Acaba tudo.
A gente não caiu, nem vai cair. Os sustos foram apenas pedagógicos. A roda parece parada enquanto a morte ronda, mas a gente muda o final do filme. A gente até esqueceu um pouco o que ficou logo atrás dos ombros. Aqueles sorrisos, a-que-les sor-ri-sos! Lembra? Silenciosos comovem, barulhentos fazem a barriga doer e bagunçam os lençois. Bagunça boa... lembra tempo.
É, daqui de cima, pensando bem, não dá para ver direito. As pessos sumiram e só se vê o que é concreto, os borrões do asfalto, as luzes do carro passando rádido. Dentro deles imagino pessoas falando ou pensando freneticamente em tudo o que têm para fazer até virar o mês. Mesmo quando a gente se esforça, se concentrando em abrir bem os olhos não dá pra ver. Não dá pra achar nada que valha a pena contar, descrever animadamente, esculpindo a imagem à palavras, expulsando o mau humor com uma divertida história. Não, não vale a pena insitir naquele tumulto... não se salva nada. Só fica essa angustia... no fundo é bom, não falo da roda, falo da angustia. Alguém me dizia: não deixa água parada aqui dentro. Tão poucopra quem queria dizer coisas grandes, meio patético até, mas bem verdadeiro.
Sobra dentro, a gente começa a se questionar sobre coisas tão banais... Às vezes essa brincadeira de passar o tempo procurando o que fazer, o que escrever, acaba desencadeando uma mania de achar problema onde não tem. Já dizia a mamãe. É... o tédio e a impaciência. A gente não percebe, mas isso vai se enraizando tanto na rotina que depois é pior que erva-daninha pra matar. Xô pra lá! Entra no mar porque a coisa tá feia. Toma um banho de sal grosso, bate na madeira.
Faz uma respiração bem funda, tenta ultrapassar os limites da epiderme da alma, superfície calma? Esqueço sempre as letras...
Enfim, voltam os luares na história. Passaram-se vários, 10, 11... 12! A roda deve ter dado algumas voltas, a gente é que se perdendo em absurdos, não conseguiu anotar nada para contar nas horas de trânsito lento. Eu nem levei caderno... mas você pode sempre escrever em mim. "Me continua..."
Mas tiveram coisas bonitas no caminho, né? Conseguimos quase decorar as faixas de um ou dois shows inteiros. Acabou a pilha, mas hoje tem mais. Carne e osso, à cores e ao vivo. Chega desse papo de morte. Hoje tem 'mais do mesmo', que sendo da gente, não é monótono, é doce. É quase sempre doce. (Preciso encontrar um jeito de riscar o quase). É nosso e transforma a gente em luar.
"Coisas que eu sei - pensou - se eu for eu vou assim não vou trocar de roupa".
Eu vou, mas eu volto. E chego já.
quinta-feira, maio 06, 2010
Sem dizer
O peso de uma verdade, uma conversa - e alguém virá me dizer que não é o caso nem há motivo, já que a verdade não existe. Se preferirem, eu posso mesmo fingir que não existe e posso até dizer que assim será mais confortável.
Mas viver sempre me foi um desconforto tão grande. Porque é preciso viver dentro das engrenagens. A vida só é possivel em relação a outras pessoas. É um rede, ou uma cama de gato para quem preferir. Eu, que nunca soube desvencilhar com talento dos fios, fiquei enroscada de um jeito difícil de sair.
Invento desculpas, provoca uma briga e digo que não estou. Não tenho paciência para pagar a conta do analista.
As tais escolhas que é preciso fazer.
Eu que não peço mais força me pergunto se já tenho mesmo toda de que preciso.
segunda-feira, maio 03, 2010
Sonolento
Aquele homem ainda está sentado à beira da praia sentindo os suspiros da morte lhe fazerem rodopios no estômago. Aquela velha mulher ainda briga com a fobia de dirigir e vê que os dias são círculos concêntricos de raio decrescente fechando-se ao redor de alguma parte do corpo que sempre dói a mesma dor aguda de todos os dias e não sabe precisar onde fica de tanto que parece funda. Um menino brinca de estourar bolhas de sabão sem saber da violência com que destrói os próprios sonhos. Uma adolescente catastrófica acende um cigarro e contempla a fumaça pelo prazer de ter as rédeas de sua própria morte - uma parte de si pensa no homem à beira da praia, já há tantos anos congelado no mesmo tormento.
Nenhum deles sobreviveu a nada ainda. Nem se julgam capazes por circunstância de não mais que meros reflexos de uma página encardida e sublinhada numa estante. A menina fecha os olhos e ainda dança com as garras de seu falcão presas ao bracinho frágil. São só espirais de angústias vagas e, de tão fundas, superficiais. Não quero ir muito longe, nunca quis ir rápido e também nunca saí do lugar. Não preciso chegar ao final para saber o quão perigoso é viver - nem a carência de abrir mão de minhas palavras grandes e neologismos infantis.
Tem uma doçura. Eu sei, embora não possa provar o paladar alheio, que existe uma doçura quase palpável nos sobrevoando. E sei todas as velhas histórias sobre o caminho, a estrada e a distração. Sei da urgência que se imprime na pele enegrecida pelo tempo, calor e esforço.