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quarta-feira, junho 29, 2011

No dia em que Caio F. morreu

Hallina Beltrão

No dia em que Caio Fernando Abreu morreu, esqueci de colocar o despertador para acordar, sempre isso, atraso, alguma correria, um despertar sem jeito, apressado, um susto. Chão de cerâmica frio, pisei tateando o dia, o despertar seco de um fevereiro sem Carnaval. Corri para pegar o carro, ir para a faculdade, aula de Filosofia, mas antes tinha ela, a educação física, e eu pensei algo como “mente sã, corpo são”, uma certa raiva de forçarem a gente a fazer exercícios àquela hora da manhã, mas não havia tempo para questionar, um, dois, um, dois, segura o abdômem, segue fazendo, sim, você consegue, vai, vai, não fui. Talvez me animasse com uma partida de vôlei ao final, mas o corpo doía das flexões e, na hora do salto, a queda - que queda. Feriu? Feriu? Uns arranhões somente, passa merthiolate, tem mercúrio?, mercúrio cromo, band-aid, bandaid. Sangrou, mas, como tudo que arranha, sangra pouco, só arde. Assopra que passa. E mal cheguei na cantina para almoçar já tinha a casquinha da ferida se formando. Me orgulhei das defesas do meu corpo, tantos anticorpos, glóbulos vermelhos espartanos, armados até os dentes, ninguém passa, nenhuma dor, nenhuma perda. E mal acabei de almoçar, a ferida ali, toda-toda, a ferida, assim, me dizendo “me esquece”, e Tiago aparece. Eu tropeço, me segura senão eu caio, Carol me segurou, mas magoou a ferida, de leve, roçou num canto de parede, aquela camada de casca sobrou, assopra, assopra, e Fabíola assoprou, ninguém sabia, mas foi tudo culpa de Tiago, esse tropeço, esse empurrão, e chegaria o dia em que, sem muletas, eu iria encostar Tiago num canto escuro e dizer que nem Neusa Suely, “bate, mas bate legal”, com a voz rouca de Vera Fischer naquela adaptação xinfrim de Plínio Marcos feita pelo picareta do Neville D’Almeida. Aula de Filosofia mancando, mas o texto era da Marilena Chauí e, nessa época, eu pouco me importava se a Marilena Chauí era de direita, de esquerda, se era lulista, FHCista, o escambau, eu queria ouvir Bethânia dizer que eu-tenho-esse-jeito-meio-estúpido-de-sere- de-dizer-coisas-que-podem- magoar-e-ofender e ir para casa escrever algumas coisas para Tiago e dançar até amanhecer no Boato aquela música que dizia but I’m here to remind you of the mess you left when you went away, raivosa, e entrar na pista vazia do Guitarra’s ao som de Wonderwall para ver se, do nada, do nada, você aparecia e maybe you’re the one that saves me. E você sempre aparecia. Do nada. Do nada. Com ela. E tinha a coisa de me vangloriar que eu passava a noite inteira e gastava R$ 10, só na Coca, na água, para não me embriagar e perder de te ver. E foi Fabíola quem me disse “Caio morreu”, assim, seco, sem preparar terreno nem nada, o morango mofou, o dragão finalmente foi conhecer o paraíso, uma pequena – grande – epifania. Era o fim. Ou o começo. Porque a pressa do começo do dia tinha me feito esquecer. 25 de fevereiro, hoje, é o aniversário do meu pai. E Caio no Menino Deus, vezenquando gente, vezenquanto alma, indo embora, lá em casa, bolo, coxinha, strogonoff de carne, arroz branco, batata palha, meu pai, 57 anos, descobriu uma doença na coluna, era o primeiro aniversário dele sentado. Sentado hoje e para sempre. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Sentado, deitado. Ver meu pai naquela cadeira automóvel-conversível diante da vela, diante do bolo, só me lembrava Caio Fernando jardineiro, dizendo que “girassol quando abre em flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor”. Mas girassol não se entrega. E a espada que o jardineiro coloca para segurar a flor do girassol é essa cadeira-muleta que leva meu pai, esse nascido sob o signo de Peixes, para um lugar em que a palavra que deve aparecer é “durar”. E diante daquele bolo, diante da doença que faz meu pai, a cada dia, esquecer um pouco de mim, eu lembrei que “não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?”. Foi depois de meu pai, com algum esforço, cortar o pedaço do bolo e dar o primeiro pedaço à minha mãe, que lembrei daquela frase de Henry Miller e que, me parece, era tudo o que Caio parecia dizer ao pai dele, naquele dia, 25 de fevereiro, em que, depois de tantos suores, tantos medos, tantos agostos secos, Porto Alegre cinza, depois de ser um estranho estrangeiro e de inventariar essa coisa chamada Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, essa Síndrome do Irremediável Abandono, Síndrome da Ineficiência do Afeto, Síndrome do Inefável Acanhamento, finalmente, num sopro de vida, Caio Fernando dizia, citando Henry Miller: “Agora eu nunca estou sozinho, na pior das hipóteses estou com Deus!”.


SOBRE O AUTOR
Thiago Soares é professor da UFPB e autor da dissertação Loucura, chiclete & som: A prosa-videoclipe de Caio Fernando Abreu.


Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=368:no-dia-em-que-caio-f-morreu&catid=23:cronica&Itemid=4

terça-feira, junho 28, 2011

Queria ter um arco-íris para pintar em cenas, metáforas e narrativas em looping por aqui hoje. Alguma coisa que falasse de orgulho, de não querer voltar sozinho para casa, de ler em voz alta um conto para alguém. Escrever ou reescrever alguma coisa grande, limpa e bem diferente do que diriam por aí ser pura. Fico devendo. Hoje deixo só a vontade, o desejo, o tesão. Esse sentimento/sensação que tem muitos nomes, precisa de muitos deles porque nenhum encerra, mas mais do que nomes tem cheiros, gostos, toque, pa-la-dar para dissolver assim devagar na língua. Podia ter um poema também, não fazia tanta questão de uma história (embora ficasse mais feliz se fosse uma em versos). Já que não é nada disso - mas já é alguma coisa quando é uma ideia, mesmo que não possamos cheirar ou tocar uma. Já que também não posso deixar um perfume nisso que não é um papel. [Eu me lembro bem do tempo em que as cartas de amor podiam ser perfumadas, eu lembro de quando existiam papéis de carta e a gente escolhia o mais bonito imaginando a cara que a pessoa faria quando abrisse o envelope - o que nos leva a crer que eu sou de um tempo muito brega]. Eu também sou do tempo que existia envelope e nem faz tanto tempo assim, mas as rupturas nos fazem querer agarrar alguma coisa do antes para lidar com a mudança. Mudanças são difíceis e como disse hoje uma amiga, nosso tempo é de muitas lutas. E do orgulho da minha luta, deixo um trechinho só para vocês que também lutam, que também têm orgulho de:

"Eu também não sei direito, às vezes eu, Patrícia, você sabe. Mas é estranho não saber. Acho que ninguém sabe. Deve ser mais confortável fingir que sim ou que não, você delimita. Mas acho que aqueles que acham que são compreendem melhor essas coisas" (Onde andará Dulce Veiga, romance de Caio Fernando Abreu)[itálico no original].

domingo, junho 26, 2011

Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rodando por aí feito roda-gigante e eu aqui, parada, pateta, sentada no bar.

terça-feira, junho 21, 2011

Je suis Venu te Dire Que Je m'en Vais

Je suis venu te dir'que je m'en vais
Et tes larmes n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
Tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait
je suis venu te dir'que je m'en vais
Tes sanglots longs n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu d'te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours heureux et tu pleures
Tu sanglotes, tu gémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait
je suis venu te dir'que je m'en vais
Et tes larmes n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu d'te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
Tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait

sexta-feira, junho 17, 2011

‎Fechar as portas,
bater as portas,
trancar as portas.
Tragam-me chaves,
correntes, cadeados.
Dêem-me o claustro
que não suporto o outro. Ponham-me grades,
que não agüento o vivo!
(...)
O vômito.
Além do vômito,
a lágrima.
(...)
Além da lágrima, a prece,
Meu Deus.
Ou o cinismo.
(...)
Socorram-me
que me afogo em meu próprio sangue,
em minha própria mancha!


--------------------
Trecho da peça O homem e a Mancha, de Caio Fernando Abreu. [distribuição em versos minha]
Pouca disposição para as coisas pragmáticas. Mergulhada num êxtase estranho e completamente fictício. Ficção é bom. Mas fica faltando uma questão de honestidade básica, questão de não admitir os limites. O problema não está no que se quer comer, o problema está sempre na fome. Essa fome de vida que não cessa e não adianta tentar que não se traduz em palavras, não tem como simplificar, não tem como virar a cabeça para o outro lado ou lidar de outro jeito. A vida é agora, aprende.

O diabo dessa vida não é que entre cem caminhos diferentes nós temos de escolher um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. O diabo dessa vida é que há coisas sobre nós mesmos que a gente não escolhe. Há-que admitir que nem sempre a escolha é possível. Só podemos controlar a maneira como lidaremos com esse imutável. O desejo é inexorável. O não-desejo também. Há-que ter coragem para enfiar a unha na garganta. Angústia maior do que a de estar encruzilhado numa esquina sem rumo é admitir que não há rumo. Há uma questão de ser o que se é, pois abdicar da vida ainda não é opção. "Tem umas coisas que a gente vai deixando de ser, vai deixando de ser e nem percebe".

terça-feira, junho 07, 2011

Renovei os votos com a vida e combinamos que daqui para frente será assim: diariamente. Com direito a declarações toscas como sem-você-eu-não-vivo ou como-eu-pude-passar-tanto-tempo. Descobri que é hoje e pretendo descobrir diariamente. Então vamos?

domingo, junho 05, 2011

"De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem"

quinta-feira, junho 02, 2011

O tempo ainda nem passou e já se vão muitos anos percorridos numa temporalidade entrecortada. Ciclos, loopings de nostalgia de passado ou futuro - a vida aqui urgindo, rugindo, rangendo. As unhas que eu não rôo se desfazendo em falta de cuidado com o presente que passa. O mundo não pára para que eu conserte os pequenos cacos, o carpe diem não cabe nas necessidades de brigar pela sobrevivência todos os dias.

São muitos prazos e pânicos que me corroem, me batem, esfolam a pele de um jeito estranho e eu penso dividida no passado com ares de missão cumprida, toda Bem Resolvida & Madura esperando os sinais que vão aparecer aos poucos na pele e que já sempre estão aqui dentro: sinais de que o tempo não é algo que possa voltar atrás, a vida não se passa em mundos imaginários. Dito assim da maneira mais infantil, abismal e desesperadora.

É claro que eu já sabia. Eu sempre sei. Mas o saber não garante muita coisa.

Vai sim, vai ser sempre assim
A sua falta vai me incomodar,
E quando eu não agüentar mais
Vou chorar baixinho, pra ninguém ouvir.
Vai sim, vai ser sempre assim,
Um pra cada lado, como você quis
E eu vou me acostumar,
Quem sabe até gostar de mim.
Mesmo que eu tenha que mudar
Móveis e lembranças do lugar,
O meu olhar ainda vê o seu
Me devorando bem devagar.
Vem, que eu ainda quero, vem.
Quando menos espero a saudade vem
E me dá essa vontade, vem
Que eu ainda sinto frio
Sem você é tudo tão vazio
Vem me dar essa vontade,
Vem que esse amor ainda é meu.
Troco todos os meus planos por um beijo seu
E essa noite pode terminar bem.

terça-feira, maio 24, 2011

Oração da Banda mais bonita da cidade

Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor
Essa é a última oração pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe essa oração

quinta-feira, maio 19, 2011

Sonho de uma flauta (O Teatro Mágico)

Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz
Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa
Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá
A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração
A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum... E o mundo é perfeito
Hum... E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito
Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração
Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso
Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia
Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem aquele que parece feio
Mas o coração nos diz que é o mais bonito
Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

sexta-feira, maio 13, 2011

Estava fora do ar e as outras obrigações escrivocráticas trazem sérias tendências de uma grande produtividade nos próximos tempos. Tudo um lixo, é claro. Mas no fim, se peneirar exaustivamente, quem sabe.
Juntando letrinhas mesmo que seja assim nada his-to-rio-grá-fi-cas. Não que as outras tenham chance, menos ainda. Mas fica, sempre fica a vontade. O grande objetivo que na hora agá vem alguém e diz que não tem a menor importância qualquer coisa tá bom importante mesmo é. Eu sei bem, não me enganam, não adianta nada porque depois, bem depois, depois de tudo - todas as noites em claro, todas as frases sofridas, todo o esforço, leituras, releituras, problematizações e todo o resto - alguém vai dizer que ainda não é bem isso que, daqui a um tempo, algumas titulações, maturidade intelectual e sei lá mais o quê.
Enquanto isso escrevo. Uma página por dia. Meta inicial e já demasiado endividada.

segunda-feira, maio 09, 2011

"Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é?" (Trecho do conto Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu, presente no livro O ovo apunhalado).

sexta-feira, maio 06, 2011

Diário de um prisioneiro - parte II

Há também os períodos em que, sem nenhuma possibilidade de escolha, chega uma espécie de caminhonete fechada. É sempre à noite, reconhecemos pelo barulho do motor. Com uma batida ensurdecedora na grade, alguns de nós são acordados - a maioria não dorme quase nunca ou tem aquele sono-sonâmbulo de quem está sempre em alerta, para esses, a proximidade do motor faz as vezes de barulho-desesperador-no-meio-da-noite provando que não é mesmo seguro dormir - e convocados para entrar na parte traseira do automóvel.

Geralmente somos cerca de vinte num espaço onde não caberiam cinco pessoas bem acomodadas, mas o balanço da estrada chega a embalar um descanso para os que não são marinheiros de primeira viagem. Depois que você descobre que não vai morrer (e mesmo se morresse, não faria grande diferença) consegue aproveitar as golfadas de ar fresco que entra pela pequena janela. Os golpes de ar trazem uma proximidade com sensações prazerosas já há muito esquecidas.

O destino se revela quando o sol já está quase amanhecendo - e traz consigo alguns dias de trabalho forçado sob o sol quente.

quinta-feira, maio 05, 2011

"Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende?" (continuação do conto Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu, presente no livro O ovo apunhalado).

terça-feira, maio 03, 2011

Do meio de uma loucura estranha alguém surge e devassa a página límpida. Um timbre percorre por punição os ouvidos. A contradição dos olhos à espreita quando os dedos devem voltar-se em outra direção. Sentido. Idiomática. Círculos irônicos e concêntricos. Um certo fundamentalismo pasmo querendo aproveitar a deixa e despir-se em máscaras das mais floreadas. Toma: uma flor e uma prosa à guisa de poema:

"Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio?" (Caio Fernando Abreu, trecho do conto Para uma avenca partindo, presente no livro O ovo apunhalado).

terça-feira, abril 26, 2011

Diário de um prisioneiro

Às oito eles desligam o ar condicionado. Às luzes ficam acesas até no máximo 21h15. Já é difícil respirar o mesmo ar daqueles que vemos, perceber que eles têm a mesma cara de desespero do nosso rosto. A angústia de não ter um espelho revira-se de um jeito estranho, dá vontade de não ter nenhum tipo de reflexo, melhor o vazio do que o reconhecimento justo na parte que não queremos admitir de nós mesmos. Ser plural já é bem ruim.

Quando a luz se apaga a angústia maior é a de respirar o mesmo ar daqueles que não vemos. Imaginamos apenas os olhares desesperados uns dos outros. Procuramos o branco dos olhos, a referência de desenho animado sem encontrar nada além das respirações entrecortadas, ofegantes, passando entre si goles de ar feito brincadeira de telefone sem fio.

Enquanto ela não chegar

Quantas coisas eu ainda vou provar
E quantas vezes para a porta eu vou olhar
Quantos carros nessa rua vão passar
Enquanto ela não chegar
Quantos dias eu ainda vou lhe esperar
E quantas estrelas eu vou tentar contar
E quantas luzes na cidade vão se apagar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Quantas besteiras eu ainda vou pensar
E quantos sonhos no tempo vão se esfarelar
Quantas vezes eu vou me criticar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar

segunda-feira, abril 25, 2011

Medo de tragédias e de seguidores que surgem do nada (mas sejam bem vindos, é claro). Medo de ser vista, lida, exposta. Medo de gatos que destroem a casa. Medo de que a luz acabe, apague. Medo da solidão minha e outra, da distância, do frio da chuva da noite da saudade da repetição da falta de pontos e da explicação gramatical desenfreada. Complemento nominal, regência nominal que carece de preposição embora muitas vezes explicação falte.

Medo a gente espanta com preces e vela para São Jorge - eu tô só esperando, eu vim pra lhe ver. Mas nada vai nos separar daquilo pelo que lutamos nessa vida, nada vai nos separar da paz com que sonhamos tanto tempo.

terça-feira, abril 19, 2011

Como se fosse a primavera (Chico Buarque)

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril

Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
E eu morrendo
Eu morrendo

Lugar de memória

Perseguindo um passado estranho. Paredes que já não são amarelas. Cadeiras coloridas.
Algumas mesmas vozes, alguns mesmos rostos.
Mas alguma coisa mais abstrata, algo que se formou ali. Uma áurea de uma vontade enorme e errante de não se deixar perder.
Talvez eu esteja voltando para procurar. Pode ser que lá seja o terreno confortável onde é possível ter algumas certezas. Artificiais, superficiais. Era bom quando eu ali as ganhava. Só não sei como fazer para construí-las agora.
Vida cíclica, geograficamente cíclica. Trabalhosamente cíclica. Podia ter sido acaso, mas é vontade, esforço, muito esforço até.
Diziam tanto sobre o que seria no dia que fosse rompida a placenta amarela de concreto e grades azuis. Ninguém nunca disse que poderia ter volta. Nem tanto tempo depois, nem tanta vida depois. Volto de um mundo bem maior agora, maior do que imaginei nos melhores sonhos. Espero que lá me deem o direito de contar que.

terça-feira, abril 05, 2011

Sempre a crise do fim e a vontade de fim pela vontade de crise
o fim provocado em começo
o eixo feito de choro
o choro feito de saudade

domingo, março 27, 2011

Algumas palavras porque o silêncio desgasta a vida. Algumas palavras porque a vida dessignificada não faz sentido. Algumas palavras porque não tenho direção para substituí-las. Algumas palavras porque a vida urge, não para, porque a língua muda e me tira os traços habituais. O tempo não me lavrou a cara ainda, mas a alma vai de pouco em pouco ficando com esses sulcos esculpidos à navalha afiada – de tão finos, é preciso um olhar muito atento para perceber. Algumas palavras para provar que a vida é minha ainda, para tomar aquele tão falado lugar de sujeito. Palavras que esgarçam estradas no peito e viram rima boba da sujeira de uma cidade poema. Algumas palavras para que valha a pena.

Receita pra lavar palavra suja

(...)

Conviva com a palavra durante alguns dias.

Deixe que se misture em seus gestos, que passeie

pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,

não a seu lado mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,

prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar essa convivência até não mais

perceber a presença dela,

então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.

quarta-feira, março 09, 2011

Acabou
Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado

Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado


quinta-feira, março 03, 2011

"Descobri faz algum tempo que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas. Ocupo-as então, fazendo coisas que depois disponho pelos cantos".

(Trecho da novela O Marinheiro, em Triângulo das Águas)

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Preciso me encontrar

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Não há nenhuma razão clara para uma troca de ciclo e mesmo assim os círculos giram com força em torno da minha cabeça. Uma madrugada é só uma madrugada e - a essa altura da vida - botar a cara a tapa e escrever assim, ao vivo, a cores e em público é para exercitar a coragem que me falta na vida todos os dias, meses e anos que tão-de-repente-que-nem-sente vão passando.

Eu ainda não posso me colocar nem na crise dos vinte, Cora Rónai, mas posso dizer que nasci em crise nessa vida. (Como todo mundo deve tê-lo feito.) E com uma mania chatinha e birrenta de bater o pé e sempre fazer o que eu quero - esquecendo a volatidade que esse verbo tem. Ou mesmo efemeridade. Aí fica assim, oscilando numa detestável roda gigante, agora eu quero, agora eu não quero. Como uma criança a quem ficou faltando trabalhar o controle das pulsões, não é amigo freud?

O que falta eu sempre soube: falta alguma coisa transcendental que dê conta dessa angústia de estar viva - exatamente essa coisa clichê que no fundo significa que eu nasci sem o talento para o sucesso literário que eu tanto esperei.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Sinto encanto

Eu ouço sobre o amor e me calo
Eu não quero nem saber
O que me espera
Eu acelero
Tomo um gole do que eu não conheço
E meu primeiro porre
Será um mistério imenso
Eu vim do avesso
Reverso do que era aceito
Ninguém sabe tudo
Nada é perfeito

Eu escuto fora
Com o ouvido de dentro
Eu me alimento
Do meu silêncio
E canto
Porque sinto um encanto
Sinto e canto

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Funciona assim: eu me ponho de castigo e espero que algo aconteça por si. Não acontece. Eu me revolto como qualquer criança de castigo e a raivinha me faz improdutiva. Não faço nada, não vivo nada e fico com uma descrença contagiante de mim mesma. O desespero inerte.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Acho que vou imitar a Martha Medeiros e me dar um recesso até o Carnaval - também sou filha de deus e tenho alguns planos para as primeiras férias de verdade da minha vida! Se mudar de ideia eu volto.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

C.L. - Parte I

Para além daquele muro podia ver a estrada por onde as cartas que não havia mandado não circulavam. Uma insegurança enorme se interpunha no caminho do lápis temendo que não tivesse nada de tão grandioso para partilhar. Não tinha uma dor dessas enormes de que se pudesse ter inveja ou fingir pena.

Daqui de dentro do cinza podia fingir que o seu vazio era uma floresta densa e secreta, trancada à chave como num conto infantil. Era quase divertido imaginar-se especial, protegida por um invólucro de vidro – como esses que tem um cenário bonito e aquela adorável neve falsa – mesmo sabendo que esses muros nada tinham de transparentes.

A dor que tinha era só essa vontade seca e injustificável. Esse desejo infindo de mergulhar sempre mais na própria vertigem, no próprio silêncio, no êxtase introspectivo. Perdia horas de pensamento raivoso dizendo a si mesma que se produzisse de seus devaneios uma concretude qualquer, ou uma razão maior para ir além dos muros, perderia esse aspecto de animal enjaulado e ganharia uma golfada do ar que apenas as cartas provavam.

Não tinha o mesmo impacto de ser prisioneira. Não tinha nenhum tipo de charme nos remédios, choques e discursos religiosos. Era esse vazio que tinha vontade de pôr numa carta, mas só o faria mediante a certeza de que alguém perceberia o quão longos e compridos eram os troncos das árvores naquela floresta, de um jeito que não era possível saber se existia mesmo um sol que as alimentava de pois dali. O chão era lodoso e não conseguia nem mesmo saber se era vivo o verde que coloria as folhas.

O frio ia subindo pelos pés durante a noite e era quando uma ânsia implacável tomava-lhe as rédeas. Vinha essa vontade prisioneira de fugir, de inalar fundo e sentir o alívio percorrendo as narinas e a garganta até que viesse aquele estalo na cabeça ruindo tudo: os muros, o vidro, a floresta. No meio do êxtase, alguma parte de si percebia enquanto o desespero de todas essas coisas se erguia sorrateiro esperando a onda passar. O desespero sempre vinha na hora em que esperava o conforto de uma lareira quente de algum lugar parecido com o que já chamou de casa – sem muros, sem cinza, sem lodo. Apenas um lago distante onde fosse possível de vez em quando ver o reflexo da lua.

domingo, janeiro 23, 2011

Treinando toda minha incompreensão. Eu sei o que vai acontecer. Eu sinto – é a resposta antes que você me pergunte. Sinto essa paranoia tomando ares de certeza, sinto a suspeita virando algo mais denso do que essa fumaça de desconfiança e ciúme. Eu já sei o que ela vai dizer e sei inclusive o que você vai me dizer depois. Sei que não será uma simples justificativa assim como percebo que o fim será simples, rápido e indolor como o começo. Ninguém chora à toa, por mais ensaiadas que sejam as lágrimas. Quando ela entrou por aquela porta, eu soube. Sequer me incomoda que eu não saiba o texto detalhado dessa vez. Eu sei a essência.

Sei que o dia inteiro termina antes de começar. Sei que o sol lá fora espera até eu me reerguer. Sei que eu vou chorar e vou me sentir traída mesmo que você volte com um sorriso nervoso e diga que prefere a mim. Sei que os seus dentes vão estar cheios de vontade, embora você não diga. Sei que os meus braços vão estar cheios de correntes, embora você não veja. Sei que eu também vou sorrir com meu sentimento de posse anulada e vou até ficar feliz porque você preferiu a mim, apesar de todo o desejo de ir, nem que fosse por algum tempo. Sei que vocês trocarão lembranças e recordarão confidências das quais nunca participarei. Sei que vocês não imaginam que a minha obsessão possa ir tão longe, sei que vocês não acreditam que a minha doença possa ser tão verdadeira a ponto de captar até o que vocês não dizem. Eu percebo os silêncios. Percebo quando os lábios de vocês não se tocam apenas devido ao grande respeito que nutrem por mim. Sei que você tem por mim um respeito enorme. Talvez bem maior do que o amor e o desejo que um dia teve. Também sei que esse respeito não é exatamente maior que o tesão que você sente agora.

Por isso, você vai chegar, me olhar com a maior ternura do mundo e se repetir quantas vezes puder que eu não mereço, que você não pode fazer isso comigo. Sei o quanto você tem medo da minha reação; não duvida que talvez eu me mate ou largue tudo e você nunca mais me veja; teme que eu coloque fogo em todas as coisas que foram nossas.

Nenhum desses pensamentos, por mais aterrorizadores, afasta o desejo que se instalou no meio das suas pernas. Eu percebo quando você se aproxima imaginando-se capaz de enganar seu corpo com o meu. Depois de algum tempo com os olhos fechados, você finge que goza e eu finjo que acredito para não dar na sua cara. Sei que se eu te batesse agora, você fingiria aceitar que faz parte da transa. Como eu não te bato, você dorme. Ou finge, pelo pouco tempo que seus olhos permanecem fechados. Você levanta, toma banho sem me convidar e sai daquele jeito de quem tenta fingir que não se arrumou meticulosamente. Sei que você vai encontrá-la.

Se você me conhecesse um pouco mais, saberia que eu não vou esperar para ver. Que não terei estômago para dizer que perdemos o rumo, desaguamos num rio seco ou qualquer coisa assim. Se me conhecesse como você a conhece, saberia que quando é sério eu não uso metáforas. Eu não faço cena nenhuma. Sem saber de nada disso, você vai ensaiar as frases mais doces para me dizer que não é mais como antes.

A minha melhor vingança é que você não me conheça a ponto de saber onde estarei quando o porteiro entregar a chave sem o chaveiro que você me deu de presente porque sempre odiou o que eu usava. Eu sei exatamente a cara que você vai fazer quando vir o guarda-roupa vazio sem saber se eu queimei ou fugi com as suas coisas. Você vai chorar achando que eu quis ficar com a parte mais externa já que não poderia mais ter você inteira.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Eu fico sem ter para onde ir com essa cama vazia olhando para mim. Fica grande, sabe? É claro que você sabe, é o maior clichê da falta, não é? Dá um medo, parece que eu poderia me perder em pesadelos terríveis se os sonhos dela não estiverem ali, flutuando em paralelo. Ela nem despediu dessa vez. A certeza da volta às vezes faz isso com a pessoa, mas não deveria. Não deixou nem um cheiro num canto qualquer. As várias valsas ciumentas que escuto não dizem nada. O telefone em silêncio diz que talvez você já esteja dormindo. Eu tinha algumas coisas para dizer, algumas trivialidades para comentar, mas tenho também experimentado o silêncio da solidão – esse que nos faz falar sozinhos para ver se a voz ainda está por aqui. É que esse silêncio dá um medo desses que deixa uma música alta tocando até tarde para ver se fica parecendo presença. Não fica.

Quem canta seus males espanta - Zélia Duncan

Entro em transe se canto, desgraça vira encanto
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando
Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
`as vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mão meu rosto, sozinha no apartamento
Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto
Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina
Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento

terça-feira, janeiro 11, 2011

O que será que te anima?
O que será que te anima?
Bonecos de Vitalino
ou porcelanas da China?

O que será que te domina?
O que será que te domina?
Exércitos de Roma
ou a bomba de Hiroshima?

O que será que te balança?
O que será que te balança?
O xote de Don Quixote
ou o can-can (?) que a França dança?

O que será que te adormece?
O que será que te adormece?
Mágicas no cabelo
ou um abraço que te aquece?

O que será que te excita?
O que será que te excita?
A cachaça Ipióca
ou o tinto da Periquita?

O que será que te dá vida?
O que será que te dá vida?
A saudade da chegada
ou a certeza da partida?

----------------
Vai chover, vai secar
serão águas passadas

quarta-feira, janeiro 05, 2011

É tudo mentira porque quando você não está absolutamente nada faz sentido. Nada se move. Nenhuma folha de papel se vira. No pior dos clichês, eu sequer respiro. Eu fico com essa falta de ar, essa vida engasgada sem saber como transformar meu discurso super descolado em algo concreto. Se você fosse embora para sempre, eu sei que depois de um tempo eu ia me reerguer e aprender a viver sozinha como sem ana, aliás, se você fosse mais alta. Mas o que acontece é que mesmo o meu desespero, o meu vazio, qualquer coisa que eu pudesse chamar de minha porque produzida e elaborada por minha vontade perde o sentido quando me vejo sozinha e no máximo imagino que posso fazer alguma coisa para você. Pode ser algum tipo de doença estranha. As tais dependência e submissão de que eu tanto não queria falar. Entendo como é angustiante ter um momento de folga não planejado, apesar de todas as coisas que tenho para fazer por mim. Acaba sempre que não faço nada e fico admirando o tempo que roda num relógio que eu não sei decifrar.

Eu não sei decifrar esse meu desespero que só surge na sua ausência, essa insônia que você nem acredita que exista. Esses fatos que eu narro para o nada. Essas histórias que não desenho esperando que a gente as possa viver. As pessoas me leem e por isso não escrevo. Eu vejo séries e coisas que possam caber na minha obsessão que não pode ser interrompida. Preciso de tarefas longas e sem intervalo, pois do contrário o tempo vai passar assim mesmo e eu só vou ficar olhando o azulado de manchas das paredes, as janelas mais longas que eu que devem estar exibindo mais de mim do que qualquer um aprovaria. Eu fico sem provar nenhum gosto quando você não está perto e não é só questão de sinestesia. É questão dos sentidos mais básicos e das necessidades mais simples. Sem você eu não sei nem mesmo ler. O verbo mais fundamental se perde em algum silêncio solitário que surgiu quando eu não vi a placa que apontava a solidão medonha em meu caminho.

É por isso: razão simples. Eu não gosto de férias. Não gosto desse oco estranho que nos deixa sem hábitos em que agarrar. Eu preciso acordar, me dar um tapa no espelho como se eu fosse alguma personagem de filme de Almodóvar. Acontece que os meus dramas só me levaram a poços mais fundos, a chafurdar numa lama escura, num cenário nada colorido – e foi de lá que você me tirou. Por mais que eu gostasse, hoje eu sei que era ruim aquela umidade escura que me cercava.

Só que entre os meus muitos pontos de partida tem também essa confissão de dependência mais pura. De-pen-dên-cia. Quando a gente não consegue engolir alguma coisa, fica mastigando, repartindo, para ver se passa. Não, né? Não passa. Feito tatuagem que é para me dar coragem para seguir viagem quando a noite vem. Já tá chegando e eu sinto que vou ter que tirar sozinha alguma de algum lugar.

Eu não escrevo mais porque as pessoas leem. Troquei a cortina para ver se passa despercebido esse palco de madeira apodrecida. Morrer não dói. Viver é muito perigoso e eu já nem sei onde vão ou se ficam os acentos das coisas que escrevo. Não sei viver sem ser meta, o substantivo e o prefixo. Não sei ser sem ser esse gramatiquismo de quinta, esse pedantismo que só é possível aos de conhecimento nulo – ou quase. Eu sei que a terra gira, a vira gira, a cabeça gira sob efeito de nada. O vazio é uma droga pesada demais para mim, só vem a depressão quando deveria ser a onda.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Estrada aberta

Mais uma dose que alguém põe no copo sem eu perceber. Mais uma série de coisas que se anotam em listas sequenciais sem que eu tenha meios de cumprir. Mais uma ampulheta que alguém gira sem pedir permissão, a vida roda e eu aqui sendo a mesma-com-o-prazer-de-ser-o-mesmo-mas-mudar. De casa, de caso, de coisa, de trabalho, de roupa, de afeto, de família, de trilha – universo em expansão.

A estrada, o mar, a porta, a vida, tá tudo aberto esperando o novo entrar sem pedir a licença que já foi dada ao que vier pro bem. Meio macumbeira, meio supersticiosa pelo encontro de consoantes que amo e pelas vontades de ter algo em que me agarrar (sempre!).

Um descampado grande e verde para além das janelas. O calor dissipa as nuvens, o verão chove todas elas e é quando o sol se abre mais limpo, forte, intenso para quem puder aguentar e dele se alimenta.

Novos cenários. Novos horizontes. Novas pontes que vamos construindo, tijolo a tijolo, pedaço a pedaço. Com a calma e a pressa certas para ver surgir e poi passos firmes, um de casa vez, mãos coladas.

Desmanchar cenários, construir fronteiras borradas, borrar os batons, desarrumar a cama e os cabelos, esvaziar o copo em pequenos goles cheios de vontade prudente de ser um só. Entendi que não podemos atropelar os ventos nem esperar que eles mudem de direção. A gente busca o meio termo entre se deixar levar e leva-lo um pouco com a gente.

E nunca antes (h)ouve tanto mar aberto.

domingo, dezembro 26, 2010

Deixei a cama desforrada para ver se ela guarda por mais algum tempo o teu cheiro. Deixei a vida um pouco mais desarrumada esperando que venha ao menos reclamar das vezes que não preservo os segredos. Deixei mais longe as coisas que queria perto. Deixei tocando no rádio a poesia que espero que vá me dizer no ouvido. Está tudo planejado para a hora que você chegar de surpresa.

Guardo uma certa distância da qual fico olhando no emaranhado dos lençóis o desenho do teu corpo. A memória desdobra em expectativa. A canção em sussurro.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Tudo diferente na noite que antecede o fim

Agora - tão pouco tempo depois - o mais esperado seria aquela angústia com o cheiro ainda presente, aquele vazio na pele fervida, aquelas músicas grudadas em algum lugar da cabeça. Mas agora, tão pouco tempo depois, é só essa sensação de que ficou faltando alguma coisa. De que o dia seguinte se confunde com a véspera. Como pode o desespero converter-se em vazio assim fácil e não trazer nem perto de junto a sensação de alívio, dever cumprido ou coisa que o valha.

As borboletas se foram da sua cabeça, nem mais um tipo de cor amontoando as ideias.

Agora essa vontade de que fosse menos, de que o antes tivesse sido muito menos intenso para ter deixado alguma esperança maior.

domingo, dezembro 12, 2010

Inacabado

Era para não ter sobrevivido, mas com o tempo a gente aprende que dá para superar até a falta de tempo. Em algumas situações desistir é o que equivale a fazer o melhor possível. O mantra mais besta, a gente faz os maiores problemas, mas tem hora que uma boa música e uma contagem mais longa dão o saldo positivo do mar vermelho - ele não se abre e eu continuo sem aprender a nadar.

Um passo de cada vez até o cadafalso. Ainda que fique para o próximo inverno, se acelerar muito posso não conseguir pisar no freio depois - e sem nenhuma vontade de aprender a dirigir, vai que cai uma chuva daquelas um dia desses... Quando o desespero vira uma constante, a gente aprende a viver com ele também. Mas não é como um dragão que a gente alimenta com a nossa magia, é um moinho. E se ele triturar os meus sonhos mais mesquinhos, hão de ficar outros com algum valor a mais.

Que bom que ainda é cedo, por mais tarde que seja. Que bom que existem muitas temporalidades e pode ser uma opção de vida, além de teórico-metodológica escolher com a qual trabalhar. Esquece o curto, antes que exploda.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Insome

Olhar cego na maior parte do tempo.
Boca fechada na menor face das horas
Náusea engastada no buraco
mais fundo do estômago
O âmago amargo
O disfarce da origem
Origami se desdobra
para quem sabe ver
além da forma

Ainda que com olhar cego
Com ego agourento
e cadências flutuantes.

Você lê
Eu escrevo
Ponto.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Insônia involuntária e cansaço

Era para estar pronto e não para ter esse peso todo ainda aqui nos meus olhos. Sobre as bolsas arroxeadas e semi-cerradas, uma repetição ritmada - tomara que não venha ninguém. É tão denso, tão revirado, que dá vontade que tivesse tudo pronto, talvez mesmo um manual, uma citação pronta pra resumir. Faz parte de ser uma pessoa complexa não se traduzir com qualquer frase de efeito. Talvez seja essa a hora de tomar vergonha na cara e arregaçar as mangas que já estão maduras no pé.

Não vai ter cenário pronto, não tem texto. Pode ser melhor ficar em silêncio, me olhar com aquela ternura de quem já partilhou um sofrimento. Não vai estar em modos de pesquisa instantâneos e modernosos. Não vai estar em páginas amareladas ou virtuais. Não está em nenhuma trilha sonora. Não tem a ver com brigas banais ou em vontades de levantar bandeiras e brigar com o mundo, virar morais de ponta cabeça. Não se trata de nenhuma genialidade.

É mais simples, original e doloroso. Trata-se de viver cada dia. Acordar todas as manhãs. Saber lidar com casa pequeno obstáculo sem titubear. Disfarçar as lágrimas e entender que o mundo é para gentes grandes e o único jeito aceitável é crescer. A dor da alma se alargando um mílimetro que seja é mais intensa que o cubo daquela dor nos ossos de anos atrás. Minha alma tem estrias esbranquiçadas do último ano que se fecha com muito mais pânicos do que tinha no início.

Os ciclos inventados fazem a minha cabeça girar de ressaca das coisas que eu não li em todo esse tempo que passou voando. Não tem mais muito formato. Os meus gigantes ventam muito e o fracasso eu não sei se sou capaz de suportar nos ombros.

Uma improdutividade transbordante. Todas as angústias gritando para virarem palavras e eu ainda me escondendo atrás de umas bobas citações - "Eu deveria cantar"*.









* ABREU, Caio Fernando. Onde Andará Dulce Veiga? Algum lugar, alguma editora, última ou primeira página, não sei dizer.

Trecho da peça SARAU DAS 9 ÀS 11 (Caio F.)


BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de
desencanto? Quem, entre todos vocês, estenderá a mão para passar no
meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia?

DEBORAH — Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu.

MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha, a
poetisa Florbela Ortigão, tem agora que cozinhar a sua própria comida.
Não, eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. Nunca mais
retornarei a Taormina. Não quero ver as paredes brancas de suas
casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: “Abaixo a tirania”,
“Morram os opressores”.

MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte
de fogo lançar-se-á ao mar, e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue,
e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar, e um terço
dos navios irá a pique.

DEBORAH — E descansar os meus olhos no pasto, descarregar
esse mundo das costas.

BABY — Não espero nenhum olhar, não espero nenhum gesto, não
espero nenhuma cantiga de ninar. Por isso estou vivo. Pela minha absoluta
desesperança, meu coração bate ainda mais forte. Quando não se tem
mais nada a perder, só se tem a ganhar. Quando se pára de pedir, a gente
está pronto para começar a receber. O futuro é um abismo escuro, mas
pouco importa onde terminará a minha queda. De qualquer forma, um
dia seremos poeira. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos
no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus
jeitos de tentar. Eu tenho os meus. Não acredito nos seus, talvez também
não acredite nos meus próprios. Não lhe peço que acredite em mim.

MADAME — Tivemos todos que fugir em debandada. Muitos, na
pressa, deixaram para trás uma avozinha cega, um irmão entrevado,
uma tia louca. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo, nossos
iates e palacetes. Os industriais de Santa Lucia tiveram todos os seus
bens confiscados e as contas bancárias bloqueadas pelo governo rebelde.
Soube também que faliu a revista Grand-Monde, especializada na
crônica da vida mundana. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard,
cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como
“ossinhos de Santa Catarina” — a confeitaria, dizia, teve as suas instalações
transformadas num depósito de armamentos.

MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um
grande astro, luminoso como um archote, e virá tombar sobre a terça
parte dos rios e das fontes d’água. Chamar-se-á “absinto”, esse astro.
Converterá em absinto a terça parte das águas, e muitos homens morrerão
dessas águas, porque se tornarão amargas.

BABY — Quanto a mim, acredito nas plantas, nos animais. Acredito
nos astros, nas águas. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando
o sol acaba de se pôr. Acredito na pedra bruta, na areia seca.

DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal, e cantar o
tempo todo: shoobedoo-down-down, shoobedoo-down-down.

MADAME — Tudo mudou. Não me iludo. Tudo acabou.

MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta.

MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. Ainda hoje tive a
compreensão final.

MONGE — E será ferida a terça parte do Sol, a terça parte da Lua
e a terça parte das estrelas.

MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras,
Ciências e Artes foram todos mortos.

MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte do céu,
e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite.
MADAME — Fuzilados.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Teatro dos Vampiros

Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...

Nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
Sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...

Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...

Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
Esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...

Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito...

Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo
E não consegui dormir...

Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...

Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém...

As dores meio físicas e o tempo meio roto. As palavras se perderam em algum acontecimento perdido. A boneca caiu do salto, manchou as roupas e acostumou-se a manter uma cerveja na mão enquanto assiste aos jogos de futebol. Sempre precisei de um pouco de atenção. Acho que eu não sei quem sou. Só sei do que não gosto. Nesses dias tão estranhos...

domingo, novembro 07, 2010

De quem não conseguiu de explicar para si mesma:


Eu ainda não chorei tudo o que eu tinha para chorar. Ainda não olhei fundo nos olhos tudo o que eu tinha para olhar. Não bati a porta com a força exata que eu queria e você não entende porque não sabe o quanto mágoa é uma dor que me consome. Não sabe o rancor que fica por trás das minhas frases banais.


E toda parte mal resolvida da gente (quer dizer, de mim, porque das outras pessoas eu não tenho como saber) fica assim, vai ficando por dentro, vão passando os dias, a gente vive como se não fosse nada, mas quando não tem ninguém olhando, é nisso que a gente pensa.


A raiva vai passar e o botão do viver-automático e com cara de tudo-bem vai ficar aceso de novo. Mas agora eu preciso chorar. Agora eu preciso fazer birra em vez do que precisa ser feito. Eu só queria não ser imbecil a ponto de piorar mais as coisas. Queria ser capaz de impedir que o problema de eu não conseguir fazer o que eu gostaria de fazer num determinado momento me impedisse de fazer o que eu gostaria de fazer nos outros momentos em que eu não estou impedida em vez de perder tempo ficando emburrada pelo momento anterior, entendeu?


Eu também não. Então deixa pra lá. Vou estudar que é o melhor que eu faço.

Contas incontáveis

É sempre quando deveria mil coisas. Não tem jeito, se não parar e colocar para fora, aquilo tudo vai explodir dentro de você. Todo esse veneno vai corroer sua entranhas de um jeito que não terá valido a pena de forma alguma. É assim quando a gente tem um problema com o tempo: não tem como parar tudo e resolver, mas enquanto a gente não pára e resolve, aquilo fica remoendo e a gente não consegue fazer nada. Aprendi hoje que escrever na pessoa média é tentar fingir que não se está sozinho. A primeira pessoa pode ser mortal.


Acontece que eu não estou sozinha mesmo quando um veneno que bebi já há dois dias ameaça a me corroer por dentro. Algo ameaça explodir e a gente vai vivendo. O problema de ir vivendo é que eu nunca soube fazer algo sem vontade. Para mim sempre foi aprender a gostar ou deixar de lado. Só que desaprender a gostar de algo de que dependo põe abaixo toda a fórmula – nem a do dedo na garganta tá dando conta.


Aliás, o problema é mesmo e sempre a conta. Aquela que vence amanhã e ainda não está paga. Aquela venceu há sei lá quantos dias e aquela que nem quero saber quando vai vencer. A corrente que ainda está aberta e não devia. A de variação zero um que andou emagrecendo. Mas a pior mesmo é aquela que se perdeu e já não se paga. O problema é que eu nunca tive vocação para ser a última a sair.


Dorme, amor, nos meus braços como se eu fosse o primeiro.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Ciclos de transição

Tá certo que na teoria eu estava estudando, mas fiquei bastante surpreendida quando me dei conta de que ontem fiquei um bom tempo conectada e nem por um momento me lembrei de que tenho um blog - aliás, vários... Soou como mais um baque no meu diagnóstico de abstinência literária, ou na minha alma ressecada.

As rugas que ainda são invisíveis aos olhos se deixam mostrar despudoradas nos meus silêncios gráficos. Digo isto porque em paralelo à minha incomunicabilidade escrita, percebi que tenho aprendido a conversar. (E sem terapia! clap clap). A opção constante pelo assunto cíclico textual é um indício de que estou aprendendo a falar o que sinto. Encontrei alguns caminhos no que antes eram trilhas apagadas no meio da floresta densa e escura.

A tal da maturidade abriu um clarão onde antes só haviam metáforas, as quais nem desapareceram por completo, como vocês podem ver. Há menos floreios e uma certa possibilidade de enxergar coisas antes embaçadas pela paisagem densa. Algum obstáculo que embotava a ação foi (cor)rompido e agora há em seu lugar o vislumbre, ainda que longínquo, de horizontes cujo descampado desperta essa vontade de decorar a alma que ficou um pouco ressequida pelo vento forte.
A ventania passou e é hora de aproveitar o terreno vazio. Além do que, como todos os anos acontece, as tardes de sol a pino já entram pela minha janela (essa sim diferente) e deixam um involuntário melhor-sorriso no meu rosto.


quinta-feira, outubro 28, 2010

Anti-revisionismo

Antes eu escrevia no modo automático, achava que era algum tipo de áurea que se apossava de mim a escrita. Pensava que se eu deixasse fluir, de forma quase mística, inconscientemente, o texto - ou mais pretenciosamente, a arte - viriam naturalmente. A história com h maiúsculo me ensinou que até a natureza é uma construção datada e escrever hoje é quase um peso (além de não prometer nada próximo de uma redenção).

Escrever é disputar com o tempo que eu poderia ler, aprender alguma coisa mais próxima de útil, ainda que no sentido metafórico. Escrever não é mais de graça, não é mais fluido. É um custo físico das horas de sono que eu poderia ter para um dia mais agradável amanhã. Tem o gosto de culpa, que a tanto custo eu tento pregar que não existe, simbolizado pelo texto que me observa meio por baixo do teclado enquanto eu pseudo-abstraio e escrevo.

E as palavras perderam, com o tempo, qualquer possibilidade de sinônimo. Alguma distância da literatura transformaram a escrita em algum pragmatismo. Os julgamentos pegaram uma frequência difícil de mudar, não é uma questão de rolar o botão mais para o lado.

A escrita perdeu a possibilidade de um assunto para além de si mesma. O que poderia ser classificado com os velhos termos de "bloqueio criativo" se tornou uma cíclica confissão: eu não sei escrever.

A boneca anda carregando livros, fazendo ares de trabalhadora-honesta-que-ainda-tem-tempo-e-responsabilidade-para-estudar. Mergulhou num vazio no sentido mais pobre do termo. Uma vaidade sórdida ameniza até a culpa pelo abandono do que era para nunca ser perdido. A boneca descobriu que talento não existe e que toda vontade tem de ser regada com muito esforço para valer a pena - ou o toque do teclado.

Valer o esforço sabendo que a escrita é a única arte em que a marca física do artista não tem a menor importância é um peso grande na balança. A argamassa nunca aparece, a dor nas costas não transparece na inconcretude do produto final. A solidão e o turvamento das vistas é quase imperceptível para além das frases confusas. Parece que não vale o toque no teclado se a vaidade vai sair sempre ferida.

Ninguém vai cair no meu conto de menina sofredora...

terça-feira, outubro 26, 2010

Paredes amarelas

No meu último dia de aula do ensino médio eu senti toda a desproteção do mundo que me esperava do lado de fora das paredes amarelas. A frase é muito forte, mas não é nada disso. Eu não consigo me lembrar detalhes do meu exato último dia de aula - e acho que isso não tem muita importância, já que me lembro bem de muitos dos dias percorridos nos meus sete anos de Colégio Pedro II.

Uma coisa que me lembro bem é que o significado de proteção que o colégio tinha para mim sempre esteve simbolizado nas paredes amarelas e seus furinhos estranhos por onde alguns alunos teimavam passar. As pessoas sempre me diziam em tom apavorante que o mundo aqui de fora era muito maior e que eu ía sair amputada. Eu, como boa discípula da metáfora da terceira perna, adorava essa pinta de adolescente desprotegida e disposta a enfrentar um mundo grandão fazendo aquela cara de filhote de gato.

Sobre o tamanho do mundo não tinha nenhuma mentira, mas não me disseram que a ausência das paredes era uma espécie saborosa de algo parecido com liberdade. Que do lado de fora a gente podia tomar café na hora do recreio, usar meias coloridas e colocar um boné na cabeça se desse vontade. O mundo é mesmo enorme e as possibilidades da vida muito mais infinitas que uma prova de vestibular - só fui perceber isso depois de quase terminar a faculdade e conhecer mais de perto esse mundo dos cursinhos.

As paredes amarelas? Bem, elas continuaram sendo um recanto adocicado da minha memória, um travesseiro quente onde se agarrar nas noites de solidão e desespero do futuro - quando não resta outra saída senão (opa!) olhar pro passado.

E foi buscando esse refúgio que acordei no dia da festa setembrina do colégio pensando única e exclusivamente que veria as minhas paredes amarelas. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com uma tinta verde-meleca-depressiva. A mesma falta de chão - ou de parede - de quando tive de passar por aqueles portões com ares de definição. Ainda devo ter em algum lugar o papel que me diz que, além de bacharel em ciências e letras, eu também não sou mais uma criança com direito a chorar por qualquer tropeço.

Isso ficou na minha cabeça por algum tempo, até a data recente em que cheguei na faculdade e me deparei com um amarelo indeciso sobre as paredes antes de um branco habitualmente incardido. Entrei em paradoxo e comecei a repensar todos os meus simbolismos e dependências e amarras visuais.

Sem nenhuma conclusão, fico com esse meu medinho-gigante de perder as amarras de novo e ganhar o tal atestado de adulto, mas isso é papo para o ano que vem...

terça-feira, outubro 12, 2010

Um tempo andando no escuro

Impossível ensolarar quando a primavera não chega. O tempo não cabe no meio das nuvens cinzas. Tem uma neblina densa, espessa. Quando ameaça um azul, ele vem gelado. O frio não dissipa. O cinza não se espalha. As flores não desabrocham. Não chegam as tardes de sol a pino e meu melhor sorriso continua guardado na gaveta.

Um felino enlouquecido às vezes abre a gaveta à força e arranca de lá sorrisos, suspiros contidos, gozos acumulados.

Os botões de rosa não se abrem. Há muitas ervas corroendo os jardins. Eram pequenas e parecia que não sobreviveriam ao frio. Agosto passou, setembro passou e a boa-nova não entrou nos campos. Eles estão secos, com aquela cor de palha incendiada. Pela janela só adentra o orvalho frio, o sereno gélido. Não há sequer luares para além das nuvens. Há mais nuvens. Depois das brancas as cinzas, cada vez maiores, cada vez mais espessas, cada vez mais escuras, cada vez mais chuvosas.

Eu olho pela janela, me perco através dos galhos ressequidos das árvores procurando o dia em que choverão todas. Que desaguem, eu peço. (E que ainda exista um sol por trás delas).


segunda-feira, outubro 04, 2010

Meta-

Eu e muitas outras pessoas ficamos impactados com o trailer de "Do começo ao fim" e apostamos todas as nossas fichas de todas as cores nesse filme. Não vou dizer que foi uma decepção, até porque já decidi que não vou guardar recortes de produtos para vender ou pifar.

A eleição passou e talvez a paz volte a reinar em nossos corações - o caos habitual vai continuar por aí e a tendência é sempre piorar.

Eu digo frases sem sentido, mas sempre tive a impressão de que se acertasse o tom pareceria inteligente. Eu nunca fui muito inteligente e é a primeira vez na vida que preciso esperar a máquina de lavar para poder dormir. Gosto de primeiras vezes. Sei que ainda há muitas por aí pela frente.

Verborragia é uma palavra que me atrai, mas o tempo vai passando e o cansaço da escrita não é mais só por causa da dor que causa colocar o dedo na ferida, tem um nódulo no ombro, a coluna vai curvando e até os dedos doem quando fazem esse barulho já não tão rápido mas ainda um pouco firme. Nunca enxergo o que escrevo. Nunca leio o que escrevo. Não gosto. Causa uma vaidade concomitante à necessidade latente de reescrever e eu sou péssima em reescrever. Sou péssima em repetir qualquer coisa: frase, gesto. Toda vez que vou contar uma história, na segunda vez já não sei medir o que estou inventando. Sou péssima para refazer.

Característica imperdoável para um ser humano.

Outro motivo pelo qual não posso reler as coisas que escrevo é que decoro. Sim, em paralelo ao total destalento para repetir, tenho uma espécie de tara por decorar os trechos. Recitaria textos inteiros agora, mas vocês pensariam que é control-vê porque não tem como saber.

Não faz sentido? Experimente decorar o texto que você acha mais bonito do mundo. Vai, chafurda, pode ser a citação mais profunda, inteligente, megalomaníaca. Escolheu? Agora decore e repita dez vezes todos os dias, module o tom e a voz de acordo com a necessidade.

Deixe passar vinte e um dias e me responda.

sábado, outubro 02, 2010

Capítulo Sete - Atrás da porta

Aguentou por algum tempo até perceber que dava na mesma. Acordar, fazer o café, lavar a louça do café, arrumar as camas, varrer o chão, passar pano, fazer o almoço, servir o almoço, lavar a louça do almoço, tirar o pó, lavar a roupa, estender a roupa, recolher a roupa, passar a roupa. Mas o pior de tudo era escutar os lamentos de uma esposa perfeita, com sua vida pequena de quem não tinha com o que ocupar o tempo já que tinha uma cunhada para fazer de escrava.

Um dia percebeu que sentia saudades de se vestir demoradamente para as noites de promiscuidade na pensão da Dona. Pegou as meias já meio desfiadas que guardara numa caixa, junto com aquela par de sapatos pretos, saltos finos e pontas já meio puídas. Um dia pegou aquele vestido florido, de tecido macio e que rodava ao redor do seu corpo quando andava. Lúcia lembrou como era sentir-se bonita. Alguém bateu na porta do seu quartinho nos fundos da cozinha. Era Joelmo pedindo que pegasse copos e uma garrafa de cachaça na venda, que a ocasião era para festa pois ele ia ter um filho.

Lúcia aproveitou que já estava vestida, deu uma resposta de consentimento e mais uma vez reuniu suas poucas coisas para mais uma empreitada sem rumo.


quarta-feira, setembro 22, 2010

Capítulo Seis - Revivências

Joelmo estava com uma expressão lívida que Lúcia não soube interpretar como felicidade. No fim das contas ele não viera trazer um grande sofrimento, apenas a notícia de que casara e que agora Lúcia podia morar com ele se quisesse. Seria bem-vinda e Maryara adoraria a presença dela, se viesse. Joelmo tinha um grande medo de que seu plano não desse certo e a presença de Lúcia era um tipo de segurança bastante peculiar naquele momento.

Lúcia não queria reviver os excessos de intimidade que experimentara com seu irmão, mas por outro lado, a companhia de Maryara lhe parecia um bom futuro a seguir. Dona Carmem lhe olhava mais feio a cada dia e não gostava nem confiava naqueles clientes tão cheios de pelos e manias. Uma casa onde se refugiar não pareceu má ideia.

Não conseguiu pensar se estaria atrapalhando a vida do recente casal. Enxergou uma maneira de se ver longe de suas habituais angústias. Não parecia possível um sofrimento maior. Foi. Joelmo sempre fora um bom irmão e lhe valia a esperança de ainda estar longe de tudo o que não queria ver - nem reviver.

terça-feira, setembro 21, 2010

Capítulo Cinco - Envelope lacrado

Depois de um tempo, Lúcia já não abria as cartas de seu irmão. Era suficiente para ela saber que as coisas e pessoas estavam no mesmo lugar, faziam as mesmas coisas, tinham os mesmos problemas. Uma espécie de conforto residia em ter sua solidão inteira para degustar junto com todos os seus problemas novos e insolúveis.

É claro que um grande bocado do motivo de ter acumulado aquele montante de envelopes lacrados tinha a ver com a recusa de possíveis novidades. Não suportaria nem mesmo saber que Dario pudesse ter um grande problema, não conseguiria aguentar uma compaixão por ele no estado em que se encontrava. Ademais, não tinha interesse nenhum em ler que se formava um rótulo de felicidade em volta dele e de Marliana, que planejavam um bebê para o próximo ano, que ela havia parado com as faxinas para se dedicar ao lar. Não precisava que essas coisas ficassem ainda mais reais e constantes em sua cabeça. Não lia nem telefonava. O irmão não tinha o número da pensão, não corria maiores riscos.

Ou assim imaginava até a noite de ventos gelados em que a Dona da pensão bateu na porta enquanto se maquiava para mais uma noite. A Dona disse que tinha um homem esperando lá embaixo, que não era hora ainda, onde ela pensava que estava. O coração de Lúcia bateu como se tivesse a mesma ingenuidade de antes e o corpo cansado desceu o mais rápido que pode sem atentar a nada no que dizia a velha senhora.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Capítulo Quatro

Lúcia não gostava das noites, não gostava quando uma certa penumbra a impedia de distinguir as pessoas, as cores, os lugares. Quando se vestia, escondida sob uma maquiagem pesada e colorida que não gostava nem de olhar no espelho, não tropeçava nem perdia o caminho de volta, mas ninguém imaginava a cegueira que tinha naquelas noites.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Capítulo 3 - Três

Poderia ser uma letra de tango com palavras totalizantes, mas o que Lúcia vivia embalada por músicas da jovem guarda e nos momentos de maior sofrimento repetia os versos "pobre menina, não tem ninguém". Naquele quarto pequeno da pensão de Dona Carmem, gostaria de ter versos buarqueanos para embalar suas lágrimas noturnas, mas quando os homens cuja soma não fizera gozavam de pressa e saíam cheirando a gim, não tinha nem mesmo essas palavras para narrar o momento para si. O costumeiro inenarrável era para ela um constante desespero.

Recebia cartas constantemente, de seu irmão e de outros tantos admiradores que já não podiam visitá-la. Guardava todas numa mesma caixa e quando a solidão parecia maior do que o suportável acostumava-se a ler nas entrelinhas uma paixão que não havia, um amor que ninguém jamais sentira por ela.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Capítulo 2 - "Concreto e asfalto"

Carregando umas poucas coisas numa sacola e muitas outras no estômago e até no ventre. A primeira porta em que ousou bater foi a segunda cujo estampido do fechar não quis ouvir. Dario nem mesmo estava em casa e, sua mãe, sempre tão amável e simpática, ofereceu um dinheiro suficiente para que Lúcia não esperasse para assistir à cerimônia do casamento dali a dois meses e se livrasse de pelo menos um dos pesos que carregava dentro de si. Quando a notícia do ma-tri-mô-nio enfim concretizado chegou - através de uma carta de seu irmão -, Lúcia já tinha até um casa onde receber uma carta. Tinha também um travesseiro onde esconder o rosto para chorar todas as habituais últimas lágrimas de sua vida. Na carta, seu irmão dizia que a festa tinha sido bonita e quase toda a cidade estivera presente. Lúcia sentiu uma ausência enorme naquela cidade de presença inestimável em que agora vivia. Respirou fundo para conter as lágrimas, sentindo a fumaça e a poeira inebriarem as partes do seu dentro cada dia mais pesado.

terça-feira, setembro 14, 2010

Capítulo 1 - A menina má

Lúcia era uma menina doce até o dia em que ficou amarga. Saiu de casa aos quinze anos sem olhar para trás nem quando sua cabeça foi obrigada a voltar-se naquela direção com o impacto do tapa. Não chegou a saber se saiu expulsa ou em fuga. Dali em diante enfrentaria todos os clichês que uma Vida dura-e-amarga podia lhe oferecer. Ela estava pronta, sua pele jovem ansiava por todos os tipos de arrepio.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Minha sinopse de Malu

Eu acho que as pessoas que escrevem sinopses normalmente viram o filme sobre o qual escrevem. Infelizmente ainda não vi Malu de Bicicleta (estou esperando ansiosamente pelo Festival do Rio, pois soube que vai passar), mas como li o livro me sinto capacitada para participar da promoção:

Fugindo de suas peripécias amorosas, um típico garanhão paulista é literalmente atropelado por uma sedutora carioca. Malu atropela Luiz com sua bicicleta no calçadão das praias do Rio de Janeiro e o clima de romance se instala. Até aí, tudo perfeito para os dois se apaixonarem e viverem felizes para sempre. O problema é que Luiz começa a provar do próprio veneno sedutor - fica difícil se entregar a um amor quando se está tão acostumado aos jogos e truques da conquista. Luiz começa a desconfiar que Malu o está traindo e, imerso nas artimanhas que costumava usar, encontra facilmente vestígios que considera ‘provas’ da traição.

Confiram o trailer:

quarta-feira, setembro 01, 2010

Problemas numéricos

Problema número um: Isso aqui não é um blog. Não sei se é porque eu sou mesmo uma pseudo-intelectual que acha divertido problematizar e relativizar tudo, mas eu nem mesmo sei o que é um blog. O mais próximo de uma definição que eu tenho para blogs é uma espécie de diário público. Isso aqui nunca foi um diário. Não, eu não vou entrar no mérito de tentar descobrir o que é isso-aqui. Rótulos nunca adiantaram para explicar nada. Como já disse antes, o mais próximo que chego a dizer é que isso-aqui que é um repositório, que se diz despretencioso, de escrita. Ou mesmo uma boneca russa com faces múltiplas mas nem tão surpreendentes assim.

Pois bem, se isso não é um blog, não faz sentido nenhum falar do dia do blog, que ninguém sabe o que é, quem criou ou para quê serve. Mas poxa, mesmo com sei lá quantas camadas de cebola na explicação do que esse lugar imaterial representa, tá escrito ali em cima o domínio blogspot. Talvez escrever alguma coisa seja necessário para pelo menos agradecer a esse tal de blogger por me hospedar de graça por cinco anos.

Problema número dois: o blogday foi ontem, né? Então leiam fingindo que vocês não sabem que dia é hoje.

Problema número três: sem saber que dia hoje tudo perde totalmente o sentido, não é? Então deixa pra lá.

Fato é que o fato aconteceu (ó!) e não consegui não pensar no que me fez/faz ficar aqui falando pro além durante tanto tempo. Somos a primeira geração da internet democratizada e mesmo que não tenhamso muitos leitores, a possibilidade de escrever alguma coisa que está disponível para o mundo inteiro é fascinante.

Não sei se é possível registrar o espanto e continuar com a minha habitual pseudo-literariedade. Vai ver estou ficando menos literária mesmo. Será o tal do adultecimento? De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho - que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

sábado, agosto 21, 2010

A primeira vez que fiquei sozinha em casa

Minha mãe sempre trabalhou muito e desde os meus quatro anos, minhas irmãs e eu ficávamos sozinhas em casa. É claro que não deve ter sido com quatro anos que fiquei completamente sozinha em casa, mas deve ter sido bem nova. Era uma coisa tão corriqueira que não consigo me lembrar quando foi a primeira vez. Pelo que me conheço, devo ter ficado com medo do escuro, mas sinceramente não lembro.
Uma coisa que lembro bem é que gostava de trancar a porta quando ficava sozinha. Me dava uma sensação de poder numa casa em que, por ser a caçula, eu era sempre a última opção de autoridade (eu nunca mandava em nada mesmo). Muitas vezes não fazia nada demais, mas sempre deixava a porta fechada para que quem chegasse fosse obrigado a tocar a campainha e dependesse da minha vontade abrir ou não. É claro que eu abria sem pestanejar muito pois as conseqüências podiam ser desastrosas – minha mãe nunca foi boazinha. Era quase totalmente imaginária a sensação de poder que eu sentia, mas eu gostava muito.
O poder de escolha. Escolher onde colocar os móveis, como ficaria arrumado o armário, a que horas a televisão seria desligada, essas pequenas coisas que se faz na própria casa, sabe? Eu nunca fiz nenhuma delas. Nunca me senti em casa na minha própria casa (que nem própria era, assim como não é agora). Dividir o quarto com duas irmãs mais velhas era um agravante significativo. Para o bem e para o mal, nunca tivemos fronteiras claras no guarda-roupa, no controle da televisão, no uso do computador – e, por essas e muitas outras coisas, eu sempre quis morar sozinha. Não exatamente assim, eu sempre quis um espaço meu.
Sempre quis ordenar os objetos do meu jeito, escutar a música que eu quisesse e, principalmente, não ter uma televisão ligada o dia inteiro! Já vão fazer cinco meses desde que tenho o meu quarto, os meus livros e roupas nos lugares que quero e PRINCIPALMENTE não tenho televisão.
Cinco meses depois e é a primeira vez que fico sozinha em casa e não invento um pretexto para sair. Eu até tinha inventado alguns, mas simplesmente decidi ficar em casa. Ia dizer que decidi enfrentar o meu medo, mas nem foi preciso. Acabei enfrentando o peso de ter uma vida que é minha porque minha casa me cativou. Apesar da pia de louça que me espera, minha casa é exatamente o que eu sempre quis – e isso vinha me assustando há alguns dias.
Estava com um medo enorme de admitir isso e lidar com o peso de um eu-sempre-quis. É sempre tão perigoso – ainda mais para alguém que muda tanto de idéia quanto eu. Fato é que percebi que não preciso ir ao cinema, não preciso estudar, nem mesmo arrumar a casa. Não preciso fingir para ninguém que estou fazendo alguma coisa de útil porque estou em casa – e posso fazer tudo isso depois.
Não preciso nem mesmo comer ou escrever minhas emoções travestidas em textos desconexos e extremamente emotivos como costumo fazer aqui. Hoje eu estou sozinha, sem conselhos e nenhuma vontade de pintar o cabelo. Só de continuar minha vida-que-eu-sempre-quis sem culpa, com minha música e minhas palavras. Eu, que sempre fugi dos pronomes possessivos, estou aqui com todos os que posso.
Quem chegar e quem já faz parte, é claro, é bem vindo, mas a porta está trancada sim, porque afinal estamos no Rio de Janeiro.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Vênus em quadratura com saturno natal

Anéis perambulando entorno. Um polígono e minha falta de conhecimento crédulo. Não tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma.Uma fé estranha em coisas que não sou capaz de compreender.Um desgosto do tempo que passe e do verão que não chega. Vontade de outras paisagens e uma velha necessidade de sol e calor.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Fenêtre

























Caminhar paralelamente sempre. Andar de um lado da rua sempre sabendo que você caminha ali do lado. Continuamos caminhando. Outro lado de um vidro, uma garrafa, uma vitrine, um outro lugar e uma nova forma de ver a mesma coisa.
Era uma necessidade de atravessar a rua, subir no prédio em frente, atravessar o corredor, morar no apartamento em frente, atravessar a cidade, olhar para frente e ver uma árvore. Descer para tomar uma cerveja e subir para ver o mundo do lado de fora da ilha. Rodar junto com a garrafa vazia que faz perguntas e nos faz pagar patos caros. Rodar junto com a roda, brilhar junto com o brilho bêbado das noites perdidas. Olhar de fora, de dentro de um banho quente e com passarinhos passeando entre beija-flores.

É um processo e não um dia para o outro. A gente começa a historicizar tudo, a teorizar tudo, a idealizar e ideologizar tudo. As tais continuidades. As coisas que não mudam de um dia pro outro e a gente volta no dia seguinte e está tudo diferente.

Saber que as coisas mudam, a gente sempre muda. A roda não pára de rodar nunca: viva e gigante. As voltas do meu coração nunca souberam dizer uma coisa tipo 'bá!'.

Eu olhei em silêncio e não chorei quando cheguei aqui do outro lado e vi que não estava lá. Os móveis ainda são os mesmos e estamos do mesmo lado. Estamos lado a lado, de mãos dadas. É a mesma rua, mas eu vejo flores brotando no canteiro e não quero pensar que as flores morrem logo na hora em que elas estão brotando.

A temporalidade está sempre bagunçada. Onde nós (?) vemos um passado, ele vê um amontoado de experiências pobres e indizíveis. Pode ser que hoje eu não volte, mas as minhas mãos continuam coladas às suas. Não importa quantas rodas vivas e gigantes rodem e nos deixem tontas. Eu já sei que nos equilibramos mutuamente, num silêncio indisputável, que é compreensão - a simples desnecessidade de explicar o que se sente.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Tentando juntar tudo numa coisa só e gritar alguma coisa que acabe com o espaço que existe entre mim e o outro lado do vidro. É gelado e parece vitrine de shopping, mas ninguém fica me vendo passar e não há mais galerias, apenas corredores de filme de terror.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Reverência

Para ela, que estava excessivamente mais acostumada a engolir do que a vomitar, aquele momento não podia ter outro adjetivo que não o de difícil. Era muito difícil ajoelhar-se ali e pedir perdão a si mesma por tudo o que guardou dentro de si. Era um momento sagrado em que conversava com os deuses que habitavam seu corpo. Conversava com toda a fúria deles quando resolviam penalizá-la com a lembrança de que não era dona do corpo que habitava com ares de tão dona de si. Não era dona do espaço onde teimava pôr essas coisas todas que agora via sair.

Segurava os cabelos compridos fingindo completar o ritual da reverência - os deuses talvez não percebessem quanto o gesto tinha de tentativa máxima de distanciar-se de si mesma. Se pudesse arrancava as próprias mãos para evitar a náusea que sentia toda vez que se tocava. Uma espécie de culpa que se confunde com prazer. Os joelhos já doloridos de ficar ali debruçada esperando sua alma esvaziar-se. Era um esforço grande - e não só físico - reviver o gosto de cada coisa que engolira justo para evitar a convivência. Mas estava tudo ali, o tempo todo. Os fatos e formas e coisas e pessoas e momentos e sensações e sentidos e gritos e silêncios e malabarismos: todos estiveram indigestos no mesmo lugar esse tempo todo. Esperando a primeira oportunidade. Esperando transbordar, esperando explodir, esperando a hora inevitável (é só questão de tempo) de voltar à tona.

Tudo voltava sem uma sublime atmosfera de transe. De joelhos, o suor escorria pela testa, as coisas, pessoas e objetos caindo naquele recipiente branco e sagrado - todas paravam e encaravam-na com petulância. Diziam com todas as letras que nada tinha adiantado, que não adianta tentar esconder algo de si mesma dentro de si mesma. Não é justo guardar o que não é seu, ainda por cima num lugar que também não lhe pertence. Era um poço de injustiça e não se pertencia.

Aproveitava esses momentos em que o dentro (a alma?) se exteriorizava para mergulhar no mais íntimo de si. O mais sujo e íntimo. Essa parte que sabia fétida, viscosa, despedaçada. Essa parte que é também o mais precioso, o que pode ser talhado e moldado para virar alguma coisa que possa receber o nome de arte.

Mergulhava os dedos sentindo que aquilo era massa viva, era quente, pulsava ainda em sintonia com o seu coração. Ela, que sempre soube que o coração bate no estômago. Misturava a gosma entre os dedos, depositava toda a sua força, todas as suas crenças e descrenças. Era um espelho. Os pedaços aos poucos foram se tornando uma massa uniforme, as cores se fundindo numa só - dessas que não podem ter um nome.

Voltando o olhar para cima como quem diz 'amém', enxergou a parede branca como uma tela. Era isso. O objetivo fora sempre esse, desde o começo. Quando não sonhava, quando não sabia, quando não queria e só restava querer saber. É onde se completa. É onde está o sentido daquilo.

Amarrou os cabelos num nó e ergueu o corpo sentindo a dor do peso que ficara sobre os joelhos. Conseguiu perceber que já não estava lá - nem o peso nem ela mesma. Ela era a fusão entre a tinta, suas entranhas era apenas uma tinta!, e a parede.