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quinta-feira, agosto 11, 2011

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Pânico de saber o que há do outro lado. Improvável que haja um outro lado, mas só há um jeito de descobrir e a cada dia mais inevitável. A coxia a cada hora mais distante e irreversível. Como um cerco se fechando, que fecha também mãos frias e cordas ásperas no pescoço. Pescoço fino, frágil, não deve ser difícil de. É tudo uma questão de oportunidade e jeito para.

Não tem mais como ficar apenas espiando do lado de cá. Espiar é feio. Ficar olhando de esguelha, a cara cheia de vontade, as mãos suando pavor e covardia. Não tem muito jeito, não tem mágica, só o abismo de sempre sob os pés. Medo de cair no poço. Maior ainda de fazer casa, costumar, aconchegar-se, como já está tão perto. Pânico completo. Um pouco de ocupação salvaria. Vontade zero de fazer o que precisa ser feito. Longe demais da cabeça a convicção de que algo precisa ser feito.

Uma ansiedade pousada na boca que os outros chamariam de natural. Uma vontade de um milagre, de que as coisas não dependessem de um grande gesto. Que não dependesse de pequenos, árduos, cotidianos e muitos gestos. Saber que não virá de lugar nenhum uma salvação não melhora a vontade de ficar esperando que venha. O chão vai subindo em raízes grossas pelos tornozelos finos, apertando aos poucos, bem aos poucos, de modo que quase não percebo o quanto será difícil se eu tentar me mover. Por via das dúvidas não faço. O corpo todo imóvel. A mente fingindo fazer mil viagens - parada na mesma estação cinzenta, mais ainda à noite. Uma espécie de bruma junto ao cenário confuso em que cabem portões, grades, locomotivas e cortinas de teatro.

O tremor que se alastra e domina seu corpo que nem parece um corpo transforma a imobilidade num paradoxo estranho. Não sei o que fazer, para onde ir, olhar, seguir. O que fazer quando a única coisa a fazer é o que menos é possível e desejável? Onde fica a modalidade de vida em que as perguntas têm respostas?

Dormir parece uma solução, mesmo que sem um veneno definitivo, há sempre a esperança de desinverter alguma coisa e que o lado contrário é que seja o real - isso que não existe. As fronteiras curtas e as frases longas de sintaxe incompreensível fazem pensar em borboletas, em cores, em labirintos onde não se sabe se surgirá uma figura mitológica e salvadora - Ítalo, fauno, chave de portal.

As coisas se misturam, reviram o estômago. A sensação de que tem algo que precisa ser expurgado de um lugar menos físico. Isso que chamamos de vida não cede aos meus pedidos de desaceleramento, não adianta pedir em tom religioso quando não se tem uma fé convincente. Retórica e humanidade demais. Se fosse o caso de ter engolido algo, mesmo sem querer, era só expelir, expurgar, vomitar. Mas a vida não se resolve mais com náuseas programadas. É maior, é mais fundo, é mais irreversível quando o reverso só pode vir de um lado.

E o que mais irrita é esse espécime muito estranho de consciência. Saber como falta ilusão pleonástica e necessária de poder.

Tão vazia e tão desejada de uma ilusão verdadeira.

Os prefixos de dissolução são apenas prefixos e segredos partilhados.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Antes de começar

Abri janela para o sol entrar
Mas era a chuva que estava por vir
Liguei o radio para disfarçar
Mas não tocou o que eu queria ouvir

Peguei um livro pra me distrair
Mas as palavras não estavam lá
Troquei de roupa pronto pra partir
Mas não consigo sair do lugar

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Tranquei a porta pra me esconder
Mas escutei batidas no portão
Desci a escada para atender
Mas era só minha imaginação

Fiquei num canto pra ninguém me ver
Mas ao meu lado estava a solidão
Fechei os olhos pra não perceber
Mas ela estava no meu coração

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Telefonei para um amigo qualquer
Mas do outro lado não encontrei ninguém
Pensei, ok, venha o que vier.
Mas não estava vindo nada bem

Tentei quebrar os santos no altar
Mas me senti um pouco Talibã
Eu quis mandar a casa pelo ar
Mas ela pode voltar amanhã

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar

quinta-feira, agosto 04, 2011

Eu deveria gritar, mas só queria uma resposta, um sinal de aprovação. Já perdi o lado artístico há muito e não sei se é possível encontrarem mais do que uma atualização de status onde se procura poesia. Não tem mais. Eu demorei a admitir, mas sei que não tem. Deixei perder, secar, verter, escorrer, foi-se. Foice afiada dos dramas longos, das metáforas bobas. Não adianta dizer que uma coisa é outra, a coisa não deixa de ser, nem fica menos incompreensível. Nem mais palpável. Continua tudo sem a menor possibilidade de toque, um passado que se busca na procura impossível, com a pureza que está sempre se pondo. Saber que não há onde chegar tira o tesão da viagem. E eu já nasci desacreditada. As graças do percurso só servem para os mais ingênuos, eles não sabem que vão morrer, eles não sabem que não é possível voltar e que não faz sentido buscar a reconstituição. Eles não sabem que eu sei e que saber não valeu de absolutamente nada. Eles não sentem a minha prisão incongruente.
O desespero de já não saber onde começou. Como se identificar o ponto exato de origem pudesse fazer diferença, como se pudesse existir origem, como se o grande e maior problema de todos não fosse justamente o oposto. Não de onde viera, mas para onde estava indo. Agora, parada na estação, tinha certeza de que para lugar nenhum. Todos os dias parava diante da bilheteria e ensaiava a compra. Sem nem mesmo ultrapassar as grades, já que não tinha um bilhete que lhe desse a permissão, via a velocidade ir ganhando aos poucos as locomotivas que se transformavam em borrões escuros. Imaginava quem estaria dentro remoendo a inveja e a própria incapacidade de escolha que pulava em seu estômago dolorosamente, todos os dias, à frente da estação.

Tinha medo da poeira que lhe sujaria a cara durante o trajeto, medo de que este fosse mais demorado do que poderia suportar, medo dos enjoos que o balanço dos vagões teria, medo de que não chegasse, afinal. Medo de que, se tentasse, se comprasse a tal passagem, se apostasse todas as suas fichas, aplicasse todo seu dinheiro e esforço, levasse toda a bagagem que passara a vida arrumando, mesmo assim não fosse capaz de chegar. Medo de que soubessem também os outros, como ela já sabia, que não poderia. Ela enxergava mais do que os outros de si mesma e sabia que a compra do passe seria apenas como atravessar as grades, a única diferença é que veria os trens sem os recortes de metal listrado, mas não mudaria o fato de que ficaria ali apenas os observando partir. Com o agravante de que perderia junto a liberdade da rua. Ficaria do lado de dentro das grades e do lado de fora do trem. Quase um limbo, a mais detestável das posições.

terça-feira, agosto 02, 2011

O doce e o amargo

O sol que veste o dia
O dia de vermelho
O homem de preguiça
O verde de poeira
Seca os rios, os sonhos
Seca o corpo a sede na indolência

Beber o suco de muitas frutas

O doce e o amargo
Indistintamente
Beber o possível
Sugar o seio
Da impossibilidade

Até que brote o sangue
Até que surja a alma
Dessa terra morta
Desse povo triste

Carece de perder o medo. Desamarrar os muitos fios de receio que vão cercando e embotando a ação, embotando a escrita, borrando as palavras em lágrimas, separando a literatura do sobre a literatura. E não fica nada, no final não sobrou nenhum algo além da garrafa. Contando as páginas, as palavras, mecânico, técnico, examinável. (A gata quer passar por cima do teclado)
São metáforas, não passam de metáforas. Dar a uma coisa o nome de outra. Metáfora-antítese. Dar a uma coisa o nome de uma oscilação de duas outras. Dar a uma coisa um nome. Saber que o nome tem significados. Dar vários nomes para não ser um único. Não existe singular. Contra a restrição. À guisa de manifesto. Querendo festa e fim. Difícil... Por hora só trocadilho.

domingo, julho 31, 2011

Para nós todas as palavras do mundo.

Os olhos embaçados de sono, de falta de interposição entre mim e o mundo, desse vazio que fica aqui quando você não está.

As semanas também são ciclos e o ponto de revolução em que uma coisa deveria ter se tornado o que era antes nesse antes impossível chega diferente, como só podia ser. É sempre confuso, é sempre cifrado, metafórico, perdido, disfarçado e misterioso. Não é por má vontade, não é para construir-um-atmosfera-pessoal, é porque é. Como essas coisas que a gente questiona sabendo que não conhece. Continua questionando e desconhecendo. Um dia muda para uma outra coisa completamente diferente e igualmente misteriosa. Porque indizível. Sempre - e como eu insisto em dizer, fico repetindo: indizível, indizível, indizível. O faço porque sei que as palavras que procuro já não são só escritas nem só virtuais. As palavras têm sons. Você me ensinou que o que eu finjo dizer pode ser dito de verdade. E quando digo, quando escuto o som da minha voz te dizendo e escuto o som do seu silêncio me ouvindo ou o som do meu silêncio te dizendo para o som da sua voz me falando de você, eu sei que você está aqui. E não importa se a gente é assim tão diferente, não importa se a ausência é dolorida, não importa que a saudade vá sempre existir. De perto ou de longe, de passado ou de presente, de olhar demais para o outro lado quando você esteve aqui esse tempo todo.

Eu estou aqui também. Eu, saudade. Eu, ciclos rompidos. Eu, tantas e tantos. Eu-desejos. Eu-algo-menos-possessivo-e-egóico-que-esse-pronome-pessoal-reto. Aberta, presente, palavra, voz, abraço - e todos os outros sentidos que não se separam tanto assim.

quinta-feira, julho 21, 2011

Não fazer é mais fácil. Chafurdar na inércia, perder-se em caminhos cuja direção (sentido?) eu sei tanto quanto conheço a dificuldade em seguir. O problema é que dá um trabalho enorme e ninguém nem disse que seria fácil. Ninguém nunca disse que seria breve, nem que seria possível. Diante de todo esse silêncio do mundo, falo sozinha também. Com as paredes, com os papéis, com as virtualidades viscosas.

E também faço silêncio, também abdico. Ignoro. Aquieto.

Birro o quanto posso, mas no fundo sei que não há escolha, há que fazer.

terça-feira, julho 12, 2011

O quereres

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não

E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão

Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim
a loucura tá sempre aqui
a loucura tá sempre aqui
faz vinte e dois anos
talvez mais
os olhos que ficaram esperando
derretendo
envelhecendo
enverrugando
criando olheiras
todos os dias
todas as noites
todas as luas
todas as tonteiras
náuseas gozos fomes glórias fracassos imagens discursos fumaça trago papel teclado música palavra silêncio mágoa estrago sílaba sentimento companhia solidão boletim aula prova plano de responsabilidade mudança cozinha faxina lixo lá fora ônibus busca perda encontro etiqueta flerte fresta festa flecha cerca ponto ponta beco banco curso exercício filme livro disco chuva sol verão
a loucura tá sempre aqui
.

segunda-feira, julho 11, 2011

Não veio. Àquela altura da vida não era mais possível desobrigar-se. As amarrações, ai, as inúmeras, incontáveis amarrações. Todo mundo veria, todo mundo diria alguma coisa caso. E o mundo nem era mais tão grande assim. Fazia tempo os círculos tinham se estreitado, restringido, casca de ovo se aproximando, céu sufocante - de modo que quando dizia mundo, não se referia a mais que uma meia dúzia de pessoas. Ferinas, como só sabem ser as pessoas.

E da impossibilidade sempre surgia a loucura. A vontade-louca. O incontrolável, inadiável, irrecusável. Por isso mesmo não dito, não feito, não sentido.

Vivemos em um tempo em que a fome não mais muito possível. A saída é sempre o nojo do que se come não para matar a fome, mas para não morrer de inanição. Morte pudica, santa, cristã, abdicada. Depois de tantas voltas, discursos, protestos. Depois de explicar vagarosa e insistentemente para tantos ignorantes (mais felizes), subverter as ordens, as amarrações, as normatividades, não é que. Não é que se via agora pensando, mais do que pensando, se via dizendo em alto e bom som que não era mais possível. Assim, como se o tempo tivesse passado, como se fosse uma questão de tempo apenas. Como se o tempo em que parecia que ia dar (sabe quando parece que vai dar?) já tivesse passado, ou nem tivesse existido, ou tivesse passado antes de a gente ter consciência - o que dá na mesma.

Não mais desabafo, palavra só dita em sussurros, como segredo. Nunca mais drink no dance e nunca mais bis. Nem importava, não mudaria mais nada que não fossem apenas closes, não importava que lhe cortassem os pés se já não andava, se o tal tripé ainda estava ali, ainda, meu deus! Tudo no mesmo lugar, a mesma imobilidade - e saber desde sempre, saber que bastava um corte, um rasgo com qualquer pedaço de vidro na face, uma amputação, uma perna a menos. O chão continuava limpo, a tela ainda em branco, variando os planos de filmagem e montagem da mesma cena imóvel e branca. O vazio o vazio o vazio. Esse que às vezes ecoava na cabeça e levava à loucura, mas depois trazia de volta e não fazia muita diferença. Todos os lugares aonde tinha ido não valiam mais de muita coisa, já que voltara ao mesmo lugar.

sexta-feira, julho 08, 2011

Fechou. Ia dizer im-per-cep-tí-vel, assim pausado mesmo. Mas seria uma mentira deslavada demais até para mim. Podia dizer que fechou no mesmo ponto também, como um ciclo deve ser. Eu sei que não é, por isso não digo. Porque não foi.

Fechou diferente. Coisa completamente outra, assim como correr correr correr, correr por horas, subindo ladeira e chegar lá em cima sem fôlego, sem nem saber em que pensar, o que fazer. Não há o que fazer, nem mais para onde ir. Respiro fundo e olho para baixo com um orgulho inconfessável de mim mesma. Foi. Acabou - e nem é verdade ainda.

E parece que quando acaba a gente só pensa no começo. Nas expectativas que eram apenas expectativas e em tudo o que aconteceu depois. Aconteceu tanta coisa desde que eu só queria dormir tranquila. Aconteceu uma espécie de vida, história, estória, História. E não aconteceram tantas outras. Frustraram-se tantos planos, montanha-russa-viva. Tantas pessoas espaços, pensamentos - tantos pen-sa-men-tos.

Nem saberia dizer quem era aquela pessoa que chegou u9am dia tão certa de tudo o que queria querer pelos próximos tempos. Os quereres, os seres, os (a)fazeres e os víveres mudaram tanto. Eu mudei tanto - constatação estranha de cada dia. E fico pensando que se alguém me dissesse, quer dizer, se alguém dissesse praquela garotinha-esperando-o-ônibus-da-escola-e-rezando-baixo-pelos-cantos-por-ser-uma-menina-má. Se alguém dissesse a ela que seria assim... Fico pensando em todas essas coisas que não é possível saber, prever, dizer - eu fico sentindo um montão de coisas. E sabendo que ainda tem muito ainda o que querer e ser. Eu quero.

sexta-feira, julho 01, 2011

Martelo Bigorna (Lenine)

Muito do que eu faço
Não penso, me lanço sem compromisso.
Vou no meu compasso
Danço, não canso a ninguém cobiço.
Tudo o que eu te peço
É por tudo que fiz e sei que mereço
Posso, e te confesso.
Você não sabe da missa um terço

Tanto choro e pranto
A vida dando na cara
Não ofereço a face nem sorriso amarelo
Dentro do meu peito uma vontade bigorna
Um desejo martelo

Tanto desencanto
A vida não te perdoa
Tendo tudo contra e nada me transtorna
Dentro do meu peito um desejo martelo
Uma vontade bigorna

Vou certo
De estar no caminho
Desperto.

quarta-feira, junho 29, 2011

No dia em que Caio F. morreu

Hallina Beltrão

No dia em que Caio Fernando Abreu morreu, esqueci de colocar o despertador para acordar, sempre isso, atraso, alguma correria, um despertar sem jeito, apressado, um susto. Chão de cerâmica frio, pisei tateando o dia, o despertar seco de um fevereiro sem Carnaval. Corri para pegar o carro, ir para a faculdade, aula de Filosofia, mas antes tinha ela, a educação física, e eu pensei algo como “mente sã, corpo são”, uma certa raiva de forçarem a gente a fazer exercícios àquela hora da manhã, mas não havia tempo para questionar, um, dois, um, dois, segura o abdômem, segue fazendo, sim, você consegue, vai, vai, não fui. Talvez me animasse com uma partida de vôlei ao final, mas o corpo doía das flexões e, na hora do salto, a queda - que queda. Feriu? Feriu? Uns arranhões somente, passa merthiolate, tem mercúrio?, mercúrio cromo, band-aid, bandaid. Sangrou, mas, como tudo que arranha, sangra pouco, só arde. Assopra que passa. E mal cheguei na cantina para almoçar já tinha a casquinha da ferida se formando. Me orgulhei das defesas do meu corpo, tantos anticorpos, glóbulos vermelhos espartanos, armados até os dentes, ninguém passa, nenhuma dor, nenhuma perda. E mal acabei de almoçar, a ferida ali, toda-toda, a ferida, assim, me dizendo “me esquece”, e Tiago aparece. Eu tropeço, me segura senão eu caio, Carol me segurou, mas magoou a ferida, de leve, roçou num canto de parede, aquela camada de casca sobrou, assopra, assopra, e Fabíola assoprou, ninguém sabia, mas foi tudo culpa de Tiago, esse tropeço, esse empurrão, e chegaria o dia em que, sem muletas, eu iria encostar Tiago num canto escuro e dizer que nem Neusa Suely, “bate, mas bate legal”, com a voz rouca de Vera Fischer naquela adaptação xinfrim de Plínio Marcos feita pelo picareta do Neville D’Almeida. Aula de Filosofia mancando, mas o texto era da Marilena Chauí e, nessa época, eu pouco me importava se a Marilena Chauí era de direita, de esquerda, se era lulista, FHCista, o escambau, eu queria ouvir Bethânia dizer que eu-tenho-esse-jeito-meio-estúpido-de-sere- de-dizer-coisas-que-podem- magoar-e-ofender e ir para casa escrever algumas coisas para Tiago e dançar até amanhecer no Boato aquela música que dizia but I’m here to remind you of the mess you left when you went away, raivosa, e entrar na pista vazia do Guitarra’s ao som de Wonderwall para ver se, do nada, do nada, você aparecia e maybe you’re the one that saves me. E você sempre aparecia. Do nada. Do nada. Com ela. E tinha a coisa de me vangloriar que eu passava a noite inteira e gastava R$ 10, só na Coca, na água, para não me embriagar e perder de te ver. E foi Fabíola quem me disse “Caio morreu”, assim, seco, sem preparar terreno nem nada, o morango mofou, o dragão finalmente foi conhecer o paraíso, uma pequena – grande – epifania. Era o fim. Ou o começo. Porque a pressa do começo do dia tinha me feito esquecer. 25 de fevereiro, hoje, é o aniversário do meu pai. E Caio no Menino Deus, vezenquando gente, vezenquanto alma, indo embora, lá em casa, bolo, coxinha, strogonoff de carne, arroz branco, batata palha, meu pai, 57 anos, descobriu uma doença na coluna, era o primeiro aniversário dele sentado. Sentado hoje e para sempre. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Sentado, deitado. Ver meu pai naquela cadeira automóvel-conversível diante da vela, diante do bolo, só me lembrava Caio Fernando jardineiro, dizendo que “girassol quando abre em flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor”. Mas girassol não se entrega. E a espada que o jardineiro coloca para segurar a flor do girassol é essa cadeira-muleta que leva meu pai, esse nascido sob o signo de Peixes, para um lugar em que a palavra que deve aparecer é “durar”. E diante daquele bolo, diante da doença que faz meu pai, a cada dia, esquecer um pouco de mim, eu lembrei que “não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?”. Foi depois de meu pai, com algum esforço, cortar o pedaço do bolo e dar o primeiro pedaço à minha mãe, que lembrei daquela frase de Henry Miller e que, me parece, era tudo o que Caio parecia dizer ao pai dele, naquele dia, 25 de fevereiro, em que, depois de tantos suores, tantos medos, tantos agostos secos, Porto Alegre cinza, depois de ser um estranho estrangeiro e de inventariar essa coisa chamada Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, essa Síndrome do Irremediável Abandono, Síndrome da Ineficiência do Afeto, Síndrome do Inefável Acanhamento, finalmente, num sopro de vida, Caio Fernando dizia, citando Henry Miller: “Agora eu nunca estou sozinho, na pior das hipóteses estou com Deus!”.


SOBRE O AUTOR
Thiago Soares é professor da UFPB e autor da dissertação Loucura, chiclete & som: A prosa-videoclipe de Caio Fernando Abreu.


Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=368:no-dia-em-que-caio-f-morreu&catid=23:cronica&Itemid=4

terça-feira, junho 28, 2011

Queria ter um arco-íris para pintar em cenas, metáforas e narrativas em looping por aqui hoje. Alguma coisa que falasse de orgulho, de não querer voltar sozinho para casa, de ler em voz alta um conto para alguém. Escrever ou reescrever alguma coisa grande, limpa e bem diferente do que diriam por aí ser pura. Fico devendo. Hoje deixo só a vontade, o desejo, o tesão. Esse sentimento/sensação que tem muitos nomes, precisa de muitos deles porque nenhum encerra, mas mais do que nomes tem cheiros, gostos, toque, pa-la-dar para dissolver assim devagar na língua. Podia ter um poema também, não fazia tanta questão de uma história (embora ficasse mais feliz se fosse uma em versos). Já que não é nada disso - mas já é alguma coisa quando é uma ideia, mesmo que não possamos cheirar ou tocar uma. Já que também não posso deixar um perfume nisso que não é um papel. [Eu me lembro bem do tempo em que as cartas de amor podiam ser perfumadas, eu lembro de quando existiam papéis de carta e a gente escolhia o mais bonito imaginando a cara que a pessoa faria quando abrisse o envelope - o que nos leva a crer que eu sou de um tempo muito brega]. Eu também sou do tempo que existia envelope e nem faz tanto tempo assim, mas as rupturas nos fazem querer agarrar alguma coisa do antes para lidar com a mudança. Mudanças são difíceis e como disse hoje uma amiga, nosso tempo é de muitas lutas. E do orgulho da minha luta, deixo um trechinho só para vocês que também lutam, que também têm orgulho de:

"Eu também não sei direito, às vezes eu, Patrícia, você sabe. Mas é estranho não saber. Acho que ninguém sabe. Deve ser mais confortável fingir que sim ou que não, você delimita. Mas acho que aqueles que acham que são compreendem melhor essas coisas" (Onde andará Dulce Veiga, romance de Caio Fernando Abreu)[itálico no original].

domingo, junho 26, 2011

Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rodando por aí feito roda-gigante e eu aqui, parada, pateta, sentada no bar.

terça-feira, junho 21, 2011

Je suis Venu te Dire Que Je m'en Vais

Je suis venu te dir'que je m'en vais
Et tes larmes n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
Tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait
je suis venu te dir'que je m'en vais
Tes sanglots longs n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu d'te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours heureux et tu pleures
Tu sanglotes, tu gémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait
je suis venu te dir'que je m'en vais
Et tes larmes n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu d'te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
Tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait

sexta-feira, junho 17, 2011

‎Fechar as portas,
bater as portas,
trancar as portas.
Tragam-me chaves,
correntes, cadeados.
Dêem-me o claustro
que não suporto o outro. Ponham-me grades,
que não agüento o vivo!
(...)
O vômito.
Além do vômito,
a lágrima.
(...)
Além da lágrima, a prece,
Meu Deus.
Ou o cinismo.
(...)
Socorram-me
que me afogo em meu próprio sangue,
em minha própria mancha!


--------------------
Trecho da peça O homem e a Mancha, de Caio Fernando Abreu. [distribuição em versos minha]
Pouca disposição para as coisas pragmáticas. Mergulhada num êxtase estranho e completamente fictício. Ficção é bom. Mas fica faltando uma questão de honestidade básica, questão de não admitir os limites. O problema não está no que se quer comer, o problema está sempre na fome. Essa fome de vida que não cessa e não adianta tentar que não se traduz em palavras, não tem como simplificar, não tem como virar a cabeça para o outro lado ou lidar de outro jeito. A vida é agora, aprende.

O diabo dessa vida não é que entre cem caminhos diferentes nós temos de escolher um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. O diabo dessa vida é que há coisas sobre nós mesmos que a gente não escolhe. Há-que admitir que nem sempre a escolha é possível. Só podemos controlar a maneira como lidaremos com esse imutável. O desejo é inexorável. O não-desejo também. Há-que ter coragem para enfiar a unha na garganta. Angústia maior do que a de estar encruzilhado numa esquina sem rumo é admitir que não há rumo. Há uma questão de ser o que se é, pois abdicar da vida ainda não é opção. "Tem umas coisas que a gente vai deixando de ser, vai deixando de ser e nem percebe".

terça-feira, junho 07, 2011

Renovei os votos com a vida e combinamos que daqui para frente será assim: diariamente. Com direito a declarações toscas como sem-você-eu-não-vivo ou como-eu-pude-passar-tanto-tempo. Descobri que é hoje e pretendo descobrir diariamente. Então vamos?

domingo, junho 05, 2011

"De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem"

quinta-feira, junho 02, 2011

O tempo ainda nem passou e já se vão muitos anos percorridos numa temporalidade entrecortada. Ciclos, loopings de nostalgia de passado ou futuro - a vida aqui urgindo, rugindo, rangendo. As unhas que eu não rôo se desfazendo em falta de cuidado com o presente que passa. O mundo não pára para que eu conserte os pequenos cacos, o carpe diem não cabe nas necessidades de brigar pela sobrevivência todos os dias.

São muitos prazos e pânicos que me corroem, me batem, esfolam a pele de um jeito estranho e eu penso dividida no passado com ares de missão cumprida, toda Bem Resolvida & Madura esperando os sinais que vão aparecer aos poucos na pele e que já sempre estão aqui dentro: sinais de que o tempo não é algo que possa voltar atrás, a vida não se passa em mundos imaginários. Dito assim da maneira mais infantil, abismal e desesperadora.

É claro que eu já sabia. Eu sempre sei. Mas o saber não garante muita coisa.

Vai sim, vai ser sempre assim
A sua falta vai me incomodar,
E quando eu não agüentar mais
Vou chorar baixinho, pra ninguém ouvir.
Vai sim, vai ser sempre assim,
Um pra cada lado, como você quis
E eu vou me acostumar,
Quem sabe até gostar de mim.
Mesmo que eu tenha que mudar
Móveis e lembranças do lugar,
O meu olhar ainda vê o seu
Me devorando bem devagar.
Vem, que eu ainda quero, vem.
Quando menos espero a saudade vem
E me dá essa vontade, vem
Que eu ainda sinto frio
Sem você é tudo tão vazio
Vem me dar essa vontade,
Vem que esse amor ainda é meu.
Troco todos os meus planos por um beijo seu
E essa noite pode terminar bem.

terça-feira, maio 24, 2011

Oração da Banda mais bonita da cidade

Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor
Essa é a última oração pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe essa oração

quinta-feira, maio 19, 2011

Sonho de uma flauta (O Teatro Mágico)

Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz
Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa
Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá
A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração
A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum... E o mundo é perfeito
Hum... E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito
Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração
Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso
Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia
Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem aquele que parece feio
Mas o coração nos diz que é o mais bonito
Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

sexta-feira, maio 13, 2011

Estava fora do ar e as outras obrigações escrivocráticas trazem sérias tendências de uma grande produtividade nos próximos tempos. Tudo um lixo, é claro. Mas no fim, se peneirar exaustivamente, quem sabe.
Juntando letrinhas mesmo que seja assim nada his-to-rio-grá-fi-cas. Não que as outras tenham chance, menos ainda. Mas fica, sempre fica a vontade. O grande objetivo que na hora agá vem alguém e diz que não tem a menor importância qualquer coisa tá bom importante mesmo é. Eu sei bem, não me enganam, não adianta nada porque depois, bem depois, depois de tudo - todas as noites em claro, todas as frases sofridas, todo o esforço, leituras, releituras, problematizações e todo o resto - alguém vai dizer que ainda não é bem isso que, daqui a um tempo, algumas titulações, maturidade intelectual e sei lá mais o quê.
Enquanto isso escrevo. Uma página por dia. Meta inicial e já demasiado endividada.

segunda-feira, maio 09, 2011

"Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é?" (Trecho do conto Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu, presente no livro O ovo apunhalado).

sexta-feira, maio 06, 2011

Diário de um prisioneiro - parte II

Há também os períodos em que, sem nenhuma possibilidade de escolha, chega uma espécie de caminhonete fechada. É sempre à noite, reconhecemos pelo barulho do motor. Com uma batida ensurdecedora na grade, alguns de nós são acordados - a maioria não dorme quase nunca ou tem aquele sono-sonâmbulo de quem está sempre em alerta, para esses, a proximidade do motor faz as vezes de barulho-desesperador-no-meio-da-noite provando que não é mesmo seguro dormir - e convocados para entrar na parte traseira do automóvel.

Geralmente somos cerca de vinte num espaço onde não caberiam cinco pessoas bem acomodadas, mas o balanço da estrada chega a embalar um descanso para os que não são marinheiros de primeira viagem. Depois que você descobre que não vai morrer (e mesmo se morresse, não faria grande diferença) consegue aproveitar as golfadas de ar fresco que entra pela pequena janela. Os golpes de ar trazem uma proximidade com sensações prazerosas já há muito esquecidas.

O destino se revela quando o sol já está quase amanhecendo - e traz consigo alguns dias de trabalho forçado sob o sol quente.

quinta-feira, maio 05, 2011

"Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende?" (continuação do conto Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu, presente no livro O ovo apunhalado).

terça-feira, maio 03, 2011

Do meio de uma loucura estranha alguém surge e devassa a página límpida. Um timbre percorre por punição os ouvidos. A contradição dos olhos à espreita quando os dedos devem voltar-se em outra direção. Sentido. Idiomática. Círculos irônicos e concêntricos. Um certo fundamentalismo pasmo querendo aproveitar a deixa e despir-se em máscaras das mais floreadas. Toma: uma flor e uma prosa à guisa de poema:

"Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio?" (Caio Fernando Abreu, trecho do conto Para uma avenca partindo, presente no livro O ovo apunhalado).

terça-feira, abril 26, 2011

Diário de um prisioneiro

Às oito eles desligam o ar condicionado. Às luzes ficam acesas até no máximo 21h15. Já é difícil respirar o mesmo ar daqueles que vemos, perceber que eles têm a mesma cara de desespero do nosso rosto. A angústia de não ter um espelho revira-se de um jeito estranho, dá vontade de não ter nenhum tipo de reflexo, melhor o vazio do que o reconhecimento justo na parte que não queremos admitir de nós mesmos. Ser plural já é bem ruim.

Quando a luz se apaga a angústia maior é a de respirar o mesmo ar daqueles que não vemos. Imaginamos apenas os olhares desesperados uns dos outros. Procuramos o branco dos olhos, a referência de desenho animado sem encontrar nada além das respirações entrecortadas, ofegantes, passando entre si goles de ar feito brincadeira de telefone sem fio.

Enquanto ela não chegar

Quantas coisas eu ainda vou provar
E quantas vezes para a porta eu vou olhar
Quantos carros nessa rua vão passar
Enquanto ela não chegar
Quantos dias eu ainda vou lhe esperar
E quantas estrelas eu vou tentar contar
E quantas luzes na cidade vão se apagar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Quantas besteiras eu ainda vou pensar
E quantos sonhos no tempo vão se esfarelar
Quantas vezes eu vou me criticar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar

segunda-feira, abril 25, 2011

Medo de tragédias e de seguidores que surgem do nada (mas sejam bem vindos, é claro). Medo de ser vista, lida, exposta. Medo de gatos que destroem a casa. Medo de que a luz acabe, apague. Medo da solidão minha e outra, da distância, do frio da chuva da noite da saudade da repetição da falta de pontos e da explicação gramatical desenfreada. Complemento nominal, regência nominal que carece de preposição embora muitas vezes explicação falte.

Medo a gente espanta com preces e vela para São Jorge - eu tô só esperando, eu vim pra lhe ver. Mas nada vai nos separar daquilo pelo que lutamos nessa vida, nada vai nos separar da paz com que sonhamos tanto tempo.

terça-feira, abril 19, 2011

Como se fosse a primavera (Chico Buarque)

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril

Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
E eu morrendo
Eu morrendo

Lugar de memória

Perseguindo um passado estranho. Paredes que já não são amarelas. Cadeiras coloridas.
Algumas mesmas vozes, alguns mesmos rostos.
Mas alguma coisa mais abstrata, algo que se formou ali. Uma áurea de uma vontade enorme e errante de não se deixar perder.
Talvez eu esteja voltando para procurar. Pode ser que lá seja o terreno confortável onde é possível ter algumas certezas. Artificiais, superficiais. Era bom quando eu ali as ganhava. Só não sei como fazer para construí-las agora.
Vida cíclica, geograficamente cíclica. Trabalhosamente cíclica. Podia ter sido acaso, mas é vontade, esforço, muito esforço até.
Diziam tanto sobre o que seria no dia que fosse rompida a placenta amarela de concreto e grades azuis. Ninguém nunca disse que poderia ter volta. Nem tanto tempo depois, nem tanta vida depois. Volto de um mundo bem maior agora, maior do que imaginei nos melhores sonhos. Espero que lá me deem o direito de contar que.

terça-feira, abril 05, 2011

Sempre a crise do fim e a vontade de fim pela vontade de crise
o fim provocado em começo
o eixo feito de choro
o choro feito de saudade

domingo, março 27, 2011

Algumas palavras porque o silêncio desgasta a vida. Algumas palavras porque a vida dessignificada não faz sentido. Algumas palavras porque não tenho direção para substituí-las. Algumas palavras porque a vida urge, não para, porque a língua muda e me tira os traços habituais. O tempo não me lavrou a cara ainda, mas a alma vai de pouco em pouco ficando com esses sulcos esculpidos à navalha afiada – de tão finos, é preciso um olhar muito atento para perceber. Algumas palavras para provar que a vida é minha ainda, para tomar aquele tão falado lugar de sujeito. Palavras que esgarçam estradas no peito e viram rima boba da sujeira de uma cidade poema. Algumas palavras para que valha a pena.

Receita pra lavar palavra suja

(...)

Conviva com a palavra durante alguns dias.

Deixe que se misture em seus gestos, que passeie

pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,

não a seu lado mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,

prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar essa convivência até não mais

perceber a presença dela,

então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.

quarta-feira, março 09, 2011

Acabou
Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado

Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado


quinta-feira, março 03, 2011

"Descobri faz algum tempo que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas. Ocupo-as então, fazendo coisas que depois disponho pelos cantos".

(Trecho da novela O Marinheiro, em Triângulo das Águas)

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Preciso me encontrar

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Não há nenhuma razão clara para uma troca de ciclo e mesmo assim os círculos giram com força em torno da minha cabeça. Uma madrugada é só uma madrugada e - a essa altura da vida - botar a cara a tapa e escrever assim, ao vivo, a cores e em público é para exercitar a coragem que me falta na vida todos os dias, meses e anos que tão-de-repente-que-nem-sente vão passando.

Eu ainda não posso me colocar nem na crise dos vinte, Cora Rónai, mas posso dizer que nasci em crise nessa vida. (Como todo mundo deve tê-lo feito.) E com uma mania chatinha e birrenta de bater o pé e sempre fazer o que eu quero - esquecendo a volatidade que esse verbo tem. Ou mesmo efemeridade. Aí fica assim, oscilando numa detestável roda gigante, agora eu quero, agora eu não quero. Como uma criança a quem ficou faltando trabalhar o controle das pulsões, não é amigo freud?

O que falta eu sempre soube: falta alguma coisa transcendental que dê conta dessa angústia de estar viva - exatamente essa coisa clichê que no fundo significa que eu nasci sem o talento para o sucesso literário que eu tanto esperei.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Sinto encanto

Eu ouço sobre o amor e me calo
Eu não quero nem saber
O que me espera
Eu acelero
Tomo um gole do que eu não conheço
E meu primeiro porre
Será um mistério imenso
Eu vim do avesso
Reverso do que era aceito
Ninguém sabe tudo
Nada é perfeito

Eu escuto fora
Com o ouvido de dentro
Eu me alimento
Do meu silêncio
E canto
Porque sinto um encanto
Sinto e canto

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Funciona assim: eu me ponho de castigo e espero que algo aconteça por si. Não acontece. Eu me revolto como qualquer criança de castigo e a raivinha me faz improdutiva. Não faço nada, não vivo nada e fico com uma descrença contagiante de mim mesma. O desespero inerte.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Acho que vou imitar a Martha Medeiros e me dar um recesso até o Carnaval - também sou filha de deus e tenho alguns planos para as primeiras férias de verdade da minha vida! Se mudar de ideia eu volto.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

C.L. - Parte I

Para além daquele muro podia ver a estrada por onde as cartas que não havia mandado não circulavam. Uma insegurança enorme se interpunha no caminho do lápis temendo que não tivesse nada de tão grandioso para partilhar. Não tinha uma dor dessas enormes de que se pudesse ter inveja ou fingir pena.

Daqui de dentro do cinza podia fingir que o seu vazio era uma floresta densa e secreta, trancada à chave como num conto infantil. Era quase divertido imaginar-se especial, protegida por um invólucro de vidro – como esses que tem um cenário bonito e aquela adorável neve falsa – mesmo sabendo que esses muros nada tinham de transparentes.

A dor que tinha era só essa vontade seca e injustificável. Esse desejo infindo de mergulhar sempre mais na própria vertigem, no próprio silêncio, no êxtase introspectivo. Perdia horas de pensamento raivoso dizendo a si mesma que se produzisse de seus devaneios uma concretude qualquer, ou uma razão maior para ir além dos muros, perderia esse aspecto de animal enjaulado e ganharia uma golfada do ar que apenas as cartas provavam.

Não tinha o mesmo impacto de ser prisioneira. Não tinha nenhum tipo de charme nos remédios, choques e discursos religiosos. Era esse vazio que tinha vontade de pôr numa carta, mas só o faria mediante a certeza de que alguém perceberia o quão longos e compridos eram os troncos das árvores naquela floresta, de um jeito que não era possível saber se existia mesmo um sol que as alimentava de pois dali. O chão era lodoso e não conseguia nem mesmo saber se era vivo o verde que coloria as folhas.

O frio ia subindo pelos pés durante a noite e era quando uma ânsia implacável tomava-lhe as rédeas. Vinha essa vontade prisioneira de fugir, de inalar fundo e sentir o alívio percorrendo as narinas e a garganta até que viesse aquele estalo na cabeça ruindo tudo: os muros, o vidro, a floresta. No meio do êxtase, alguma parte de si percebia enquanto o desespero de todas essas coisas se erguia sorrateiro esperando a onda passar. O desespero sempre vinha na hora em que esperava o conforto de uma lareira quente de algum lugar parecido com o que já chamou de casa – sem muros, sem cinza, sem lodo. Apenas um lago distante onde fosse possível de vez em quando ver o reflexo da lua.

domingo, janeiro 23, 2011

Treinando toda minha incompreensão. Eu sei o que vai acontecer. Eu sinto – é a resposta antes que você me pergunte. Sinto essa paranoia tomando ares de certeza, sinto a suspeita virando algo mais denso do que essa fumaça de desconfiança e ciúme. Eu já sei o que ela vai dizer e sei inclusive o que você vai me dizer depois. Sei que não será uma simples justificativa assim como percebo que o fim será simples, rápido e indolor como o começo. Ninguém chora à toa, por mais ensaiadas que sejam as lágrimas. Quando ela entrou por aquela porta, eu soube. Sequer me incomoda que eu não saiba o texto detalhado dessa vez. Eu sei a essência.

Sei que o dia inteiro termina antes de começar. Sei que o sol lá fora espera até eu me reerguer. Sei que eu vou chorar e vou me sentir traída mesmo que você volte com um sorriso nervoso e diga que prefere a mim. Sei que os seus dentes vão estar cheios de vontade, embora você não diga. Sei que os meus braços vão estar cheios de correntes, embora você não veja. Sei que eu também vou sorrir com meu sentimento de posse anulada e vou até ficar feliz porque você preferiu a mim, apesar de todo o desejo de ir, nem que fosse por algum tempo. Sei que vocês trocarão lembranças e recordarão confidências das quais nunca participarei. Sei que vocês não imaginam que a minha obsessão possa ir tão longe, sei que vocês não acreditam que a minha doença possa ser tão verdadeira a ponto de captar até o que vocês não dizem. Eu percebo os silêncios. Percebo quando os lábios de vocês não se tocam apenas devido ao grande respeito que nutrem por mim. Sei que você tem por mim um respeito enorme. Talvez bem maior do que o amor e o desejo que um dia teve. Também sei que esse respeito não é exatamente maior que o tesão que você sente agora.

Por isso, você vai chegar, me olhar com a maior ternura do mundo e se repetir quantas vezes puder que eu não mereço, que você não pode fazer isso comigo. Sei o quanto você tem medo da minha reação; não duvida que talvez eu me mate ou largue tudo e você nunca mais me veja; teme que eu coloque fogo em todas as coisas que foram nossas.

Nenhum desses pensamentos, por mais aterrorizadores, afasta o desejo que se instalou no meio das suas pernas. Eu percebo quando você se aproxima imaginando-se capaz de enganar seu corpo com o meu. Depois de algum tempo com os olhos fechados, você finge que goza e eu finjo que acredito para não dar na sua cara. Sei que se eu te batesse agora, você fingiria aceitar que faz parte da transa. Como eu não te bato, você dorme. Ou finge, pelo pouco tempo que seus olhos permanecem fechados. Você levanta, toma banho sem me convidar e sai daquele jeito de quem tenta fingir que não se arrumou meticulosamente. Sei que você vai encontrá-la.

Se você me conhecesse um pouco mais, saberia que eu não vou esperar para ver. Que não terei estômago para dizer que perdemos o rumo, desaguamos num rio seco ou qualquer coisa assim. Se me conhecesse como você a conhece, saberia que quando é sério eu não uso metáforas. Eu não faço cena nenhuma. Sem saber de nada disso, você vai ensaiar as frases mais doces para me dizer que não é mais como antes.

A minha melhor vingança é que você não me conheça a ponto de saber onde estarei quando o porteiro entregar a chave sem o chaveiro que você me deu de presente porque sempre odiou o que eu usava. Eu sei exatamente a cara que você vai fazer quando vir o guarda-roupa vazio sem saber se eu queimei ou fugi com as suas coisas. Você vai chorar achando que eu quis ficar com a parte mais externa já que não poderia mais ter você inteira.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Eu fico sem ter para onde ir com essa cama vazia olhando para mim. Fica grande, sabe? É claro que você sabe, é o maior clichê da falta, não é? Dá um medo, parece que eu poderia me perder em pesadelos terríveis se os sonhos dela não estiverem ali, flutuando em paralelo. Ela nem despediu dessa vez. A certeza da volta às vezes faz isso com a pessoa, mas não deveria. Não deixou nem um cheiro num canto qualquer. As várias valsas ciumentas que escuto não dizem nada. O telefone em silêncio diz que talvez você já esteja dormindo. Eu tinha algumas coisas para dizer, algumas trivialidades para comentar, mas tenho também experimentado o silêncio da solidão – esse que nos faz falar sozinhos para ver se a voz ainda está por aqui. É que esse silêncio dá um medo desses que deixa uma música alta tocando até tarde para ver se fica parecendo presença. Não fica.

Quem canta seus males espanta - Zélia Duncan

Entro em transe se canto, desgraça vira encanto
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando
Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
`as vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mão meu rosto, sozinha no apartamento
Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto
Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina
Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento

terça-feira, janeiro 11, 2011

O que será que te anima?
O que será que te anima?
Bonecos de Vitalino
ou porcelanas da China?

O que será que te domina?
O que será que te domina?
Exércitos de Roma
ou a bomba de Hiroshima?

O que será que te balança?
O que será que te balança?
O xote de Don Quixote
ou o can-can (?) que a França dança?

O que será que te adormece?
O que será que te adormece?
Mágicas no cabelo
ou um abraço que te aquece?

O que será que te excita?
O que será que te excita?
A cachaça Ipióca
ou o tinto da Periquita?

O que será que te dá vida?
O que será que te dá vida?
A saudade da chegada
ou a certeza da partida?

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Vai chover, vai secar
serão águas passadas

quarta-feira, janeiro 05, 2011

É tudo mentira porque quando você não está absolutamente nada faz sentido. Nada se move. Nenhuma folha de papel se vira. No pior dos clichês, eu sequer respiro. Eu fico com essa falta de ar, essa vida engasgada sem saber como transformar meu discurso super descolado em algo concreto. Se você fosse embora para sempre, eu sei que depois de um tempo eu ia me reerguer e aprender a viver sozinha como sem ana, aliás, se você fosse mais alta. Mas o que acontece é que mesmo o meu desespero, o meu vazio, qualquer coisa que eu pudesse chamar de minha porque produzida e elaborada por minha vontade perde o sentido quando me vejo sozinha e no máximo imagino que posso fazer alguma coisa para você. Pode ser algum tipo de doença estranha. As tais dependência e submissão de que eu tanto não queria falar. Entendo como é angustiante ter um momento de folga não planejado, apesar de todas as coisas que tenho para fazer por mim. Acaba sempre que não faço nada e fico admirando o tempo que roda num relógio que eu não sei decifrar.

Eu não sei decifrar esse meu desespero que só surge na sua ausência, essa insônia que você nem acredita que exista. Esses fatos que eu narro para o nada. Essas histórias que não desenho esperando que a gente as possa viver. As pessoas me leem e por isso não escrevo. Eu vejo séries e coisas que possam caber na minha obsessão que não pode ser interrompida. Preciso de tarefas longas e sem intervalo, pois do contrário o tempo vai passar assim mesmo e eu só vou ficar olhando o azulado de manchas das paredes, as janelas mais longas que eu que devem estar exibindo mais de mim do que qualquer um aprovaria. Eu fico sem provar nenhum gosto quando você não está perto e não é só questão de sinestesia. É questão dos sentidos mais básicos e das necessidades mais simples. Sem você eu não sei nem mesmo ler. O verbo mais fundamental se perde em algum silêncio solitário que surgiu quando eu não vi a placa que apontava a solidão medonha em meu caminho.

É por isso: razão simples. Eu não gosto de férias. Não gosto desse oco estranho que nos deixa sem hábitos em que agarrar. Eu preciso acordar, me dar um tapa no espelho como se eu fosse alguma personagem de filme de Almodóvar. Acontece que os meus dramas só me levaram a poços mais fundos, a chafurdar numa lama escura, num cenário nada colorido – e foi de lá que você me tirou. Por mais que eu gostasse, hoje eu sei que era ruim aquela umidade escura que me cercava.

Só que entre os meus muitos pontos de partida tem também essa confissão de dependência mais pura. De-pen-dên-cia. Quando a gente não consegue engolir alguma coisa, fica mastigando, repartindo, para ver se passa. Não, né? Não passa. Feito tatuagem que é para me dar coragem para seguir viagem quando a noite vem. Já tá chegando e eu sinto que vou ter que tirar sozinha alguma de algum lugar.

Eu não escrevo mais porque as pessoas leem. Troquei a cortina para ver se passa despercebido esse palco de madeira apodrecida. Morrer não dói. Viver é muito perigoso e eu já nem sei onde vão ou se ficam os acentos das coisas que escrevo. Não sei viver sem ser meta, o substantivo e o prefixo. Não sei ser sem ser esse gramatiquismo de quinta, esse pedantismo que só é possível aos de conhecimento nulo – ou quase. Eu sei que a terra gira, a vira gira, a cabeça gira sob efeito de nada. O vazio é uma droga pesada demais para mim, só vem a depressão quando deveria ser a onda.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Estrada aberta

Mais uma dose que alguém põe no copo sem eu perceber. Mais uma série de coisas que se anotam em listas sequenciais sem que eu tenha meios de cumprir. Mais uma ampulheta que alguém gira sem pedir permissão, a vida roda e eu aqui sendo a mesma-com-o-prazer-de-ser-o-mesmo-mas-mudar. De casa, de caso, de coisa, de trabalho, de roupa, de afeto, de família, de trilha – universo em expansão.

A estrada, o mar, a porta, a vida, tá tudo aberto esperando o novo entrar sem pedir a licença que já foi dada ao que vier pro bem. Meio macumbeira, meio supersticiosa pelo encontro de consoantes que amo e pelas vontades de ter algo em que me agarrar (sempre!).

Um descampado grande e verde para além das janelas. O calor dissipa as nuvens, o verão chove todas elas e é quando o sol se abre mais limpo, forte, intenso para quem puder aguentar e dele se alimenta.

Novos cenários. Novos horizontes. Novas pontes que vamos construindo, tijolo a tijolo, pedaço a pedaço. Com a calma e a pressa certas para ver surgir e poi passos firmes, um de casa vez, mãos coladas.

Desmanchar cenários, construir fronteiras borradas, borrar os batons, desarrumar a cama e os cabelos, esvaziar o copo em pequenos goles cheios de vontade prudente de ser um só. Entendi que não podemos atropelar os ventos nem esperar que eles mudem de direção. A gente busca o meio termo entre se deixar levar e leva-lo um pouco com a gente.

E nunca antes (h)ouve tanto mar aberto.

domingo, dezembro 26, 2010

Deixei a cama desforrada para ver se ela guarda por mais algum tempo o teu cheiro. Deixei a vida um pouco mais desarrumada esperando que venha ao menos reclamar das vezes que não preservo os segredos. Deixei mais longe as coisas que queria perto. Deixei tocando no rádio a poesia que espero que vá me dizer no ouvido. Está tudo planejado para a hora que você chegar de surpresa.

Guardo uma certa distância da qual fico olhando no emaranhado dos lençóis o desenho do teu corpo. A memória desdobra em expectativa. A canção em sussurro.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Tudo diferente na noite que antecede o fim

Agora - tão pouco tempo depois - o mais esperado seria aquela angústia com o cheiro ainda presente, aquele vazio na pele fervida, aquelas músicas grudadas em algum lugar da cabeça. Mas agora, tão pouco tempo depois, é só essa sensação de que ficou faltando alguma coisa. De que o dia seguinte se confunde com a véspera. Como pode o desespero converter-se em vazio assim fácil e não trazer nem perto de junto a sensação de alívio, dever cumprido ou coisa que o valha.

As borboletas se foram da sua cabeça, nem mais um tipo de cor amontoando as ideias.

Agora essa vontade de que fosse menos, de que o antes tivesse sido muito menos intenso para ter deixado alguma esperança maior.

domingo, dezembro 12, 2010

Inacabado

Era para não ter sobrevivido, mas com o tempo a gente aprende que dá para superar até a falta de tempo. Em algumas situações desistir é o que equivale a fazer o melhor possível. O mantra mais besta, a gente faz os maiores problemas, mas tem hora que uma boa música e uma contagem mais longa dão o saldo positivo do mar vermelho - ele não se abre e eu continuo sem aprender a nadar.

Um passo de cada vez até o cadafalso. Ainda que fique para o próximo inverno, se acelerar muito posso não conseguir pisar no freio depois - e sem nenhuma vontade de aprender a dirigir, vai que cai uma chuva daquelas um dia desses... Quando o desespero vira uma constante, a gente aprende a viver com ele também. Mas não é como um dragão que a gente alimenta com a nossa magia, é um moinho. E se ele triturar os meus sonhos mais mesquinhos, hão de ficar outros com algum valor a mais.

Que bom que ainda é cedo, por mais tarde que seja. Que bom que existem muitas temporalidades e pode ser uma opção de vida, além de teórico-metodológica escolher com a qual trabalhar. Esquece o curto, antes que exploda.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Insome

Olhar cego na maior parte do tempo.
Boca fechada na menor face das horas
Náusea engastada no buraco
mais fundo do estômago
O âmago amargo
O disfarce da origem
Origami se desdobra
para quem sabe ver
além da forma

Ainda que com olhar cego
Com ego agourento
e cadências flutuantes.

Você lê
Eu escrevo
Ponto.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Insônia involuntária e cansaço

Era para estar pronto e não para ter esse peso todo ainda aqui nos meus olhos. Sobre as bolsas arroxeadas e semi-cerradas, uma repetição ritmada - tomara que não venha ninguém. É tão denso, tão revirado, que dá vontade que tivesse tudo pronto, talvez mesmo um manual, uma citação pronta pra resumir. Faz parte de ser uma pessoa complexa não se traduzir com qualquer frase de efeito. Talvez seja essa a hora de tomar vergonha na cara e arregaçar as mangas que já estão maduras no pé.

Não vai ter cenário pronto, não tem texto. Pode ser melhor ficar em silêncio, me olhar com aquela ternura de quem já partilhou um sofrimento. Não vai estar em modos de pesquisa instantâneos e modernosos. Não vai estar em páginas amareladas ou virtuais. Não está em nenhuma trilha sonora. Não tem a ver com brigas banais ou em vontades de levantar bandeiras e brigar com o mundo, virar morais de ponta cabeça. Não se trata de nenhuma genialidade.

É mais simples, original e doloroso. Trata-se de viver cada dia. Acordar todas as manhãs. Saber lidar com casa pequeno obstáculo sem titubear. Disfarçar as lágrimas e entender que o mundo é para gentes grandes e o único jeito aceitável é crescer. A dor da alma se alargando um mílimetro que seja é mais intensa que o cubo daquela dor nos ossos de anos atrás. Minha alma tem estrias esbranquiçadas do último ano que se fecha com muito mais pânicos do que tinha no início.

Os ciclos inventados fazem a minha cabeça girar de ressaca das coisas que eu não li em todo esse tempo que passou voando. Não tem mais muito formato. Os meus gigantes ventam muito e o fracasso eu não sei se sou capaz de suportar nos ombros.

Uma improdutividade transbordante. Todas as angústias gritando para virarem palavras e eu ainda me escondendo atrás de umas bobas citações - "Eu deveria cantar"*.









* ABREU, Caio Fernando. Onde Andará Dulce Veiga? Algum lugar, alguma editora, última ou primeira página, não sei dizer.

Trecho da peça SARAU DAS 9 ÀS 11 (Caio F.)


BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de
desencanto? Quem, entre todos vocês, estenderá a mão para passar no
meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia?

DEBORAH — Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu.

MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha, a
poetisa Florbela Ortigão, tem agora que cozinhar a sua própria comida.
Não, eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. Nunca mais
retornarei a Taormina. Não quero ver as paredes brancas de suas
casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: “Abaixo a tirania”,
“Morram os opressores”.

MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte
de fogo lançar-se-á ao mar, e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue,
e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar, e um terço
dos navios irá a pique.

DEBORAH — E descansar os meus olhos no pasto, descarregar
esse mundo das costas.

BABY — Não espero nenhum olhar, não espero nenhum gesto, não
espero nenhuma cantiga de ninar. Por isso estou vivo. Pela minha absoluta
desesperança, meu coração bate ainda mais forte. Quando não se tem
mais nada a perder, só se tem a ganhar. Quando se pára de pedir, a gente
está pronto para começar a receber. O futuro é um abismo escuro, mas
pouco importa onde terminará a minha queda. De qualquer forma, um
dia seremos poeira. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos
no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus
jeitos de tentar. Eu tenho os meus. Não acredito nos seus, talvez também
não acredite nos meus próprios. Não lhe peço que acredite em mim.

MADAME — Tivemos todos que fugir em debandada. Muitos, na
pressa, deixaram para trás uma avozinha cega, um irmão entrevado,
uma tia louca. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo, nossos
iates e palacetes. Os industriais de Santa Lucia tiveram todos os seus
bens confiscados e as contas bancárias bloqueadas pelo governo rebelde.
Soube também que faliu a revista Grand-Monde, especializada na
crônica da vida mundana. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard,
cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como
“ossinhos de Santa Catarina” — a confeitaria, dizia, teve as suas instalações
transformadas num depósito de armamentos.

MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um
grande astro, luminoso como um archote, e virá tombar sobre a terça
parte dos rios e das fontes d’água. Chamar-se-á “absinto”, esse astro.
Converterá em absinto a terça parte das águas, e muitos homens morrerão
dessas águas, porque se tornarão amargas.

BABY — Quanto a mim, acredito nas plantas, nos animais. Acredito
nos astros, nas águas. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando
o sol acaba de se pôr. Acredito na pedra bruta, na areia seca.

DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal, e cantar o
tempo todo: shoobedoo-down-down, shoobedoo-down-down.

MADAME — Tudo mudou. Não me iludo. Tudo acabou.

MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta.

MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. Ainda hoje tive a
compreensão final.

MONGE — E será ferida a terça parte do Sol, a terça parte da Lua
e a terça parte das estrelas.

MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras,
Ciências e Artes foram todos mortos.

MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte do céu,
e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite.
MADAME — Fuzilados.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Teatro dos Vampiros

Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...

Nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
Sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...

Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...

Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
Esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...

Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito...

Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo
E não consegui dormir...

Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...

Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém...

As dores meio físicas e o tempo meio roto. As palavras se perderam em algum acontecimento perdido. A boneca caiu do salto, manchou as roupas e acostumou-se a manter uma cerveja na mão enquanto assiste aos jogos de futebol. Sempre precisei de um pouco de atenção. Acho que eu não sei quem sou. Só sei do que não gosto. Nesses dias tão estranhos...

domingo, novembro 07, 2010

De quem não conseguiu de explicar para si mesma:


Eu ainda não chorei tudo o que eu tinha para chorar. Ainda não olhei fundo nos olhos tudo o que eu tinha para olhar. Não bati a porta com a força exata que eu queria e você não entende porque não sabe o quanto mágoa é uma dor que me consome. Não sabe o rancor que fica por trás das minhas frases banais.


E toda parte mal resolvida da gente (quer dizer, de mim, porque das outras pessoas eu não tenho como saber) fica assim, vai ficando por dentro, vão passando os dias, a gente vive como se não fosse nada, mas quando não tem ninguém olhando, é nisso que a gente pensa.


A raiva vai passar e o botão do viver-automático e com cara de tudo-bem vai ficar aceso de novo. Mas agora eu preciso chorar. Agora eu preciso fazer birra em vez do que precisa ser feito. Eu só queria não ser imbecil a ponto de piorar mais as coisas. Queria ser capaz de impedir que o problema de eu não conseguir fazer o que eu gostaria de fazer num determinado momento me impedisse de fazer o que eu gostaria de fazer nos outros momentos em que eu não estou impedida em vez de perder tempo ficando emburrada pelo momento anterior, entendeu?


Eu também não. Então deixa pra lá. Vou estudar que é o melhor que eu faço.

Contas incontáveis

É sempre quando deveria mil coisas. Não tem jeito, se não parar e colocar para fora, aquilo tudo vai explodir dentro de você. Todo esse veneno vai corroer sua entranhas de um jeito que não terá valido a pena de forma alguma. É assim quando a gente tem um problema com o tempo: não tem como parar tudo e resolver, mas enquanto a gente não pára e resolve, aquilo fica remoendo e a gente não consegue fazer nada. Aprendi hoje que escrever na pessoa média é tentar fingir que não se está sozinho. A primeira pessoa pode ser mortal.


Acontece que eu não estou sozinha mesmo quando um veneno que bebi já há dois dias ameaça a me corroer por dentro. Algo ameaça explodir e a gente vai vivendo. O problema de ir vivendo é que eu nunca soube fazer algo sem vontade. Para mim sempre foi aprender a gostar ou deixar de lado. Só que desaprender a gostar de algo de que dependo põe abaixo toda a fórmula – nem a do dedo na garganta tá dando conta.


Aliás, o problema é mesmo e sempre a conta. Aquela que vence amanhã e ainda não está paga. Aquela venceu há sei lá quantos dias e aquela que nem quero saber quando vai vencer. A corrente que ainda está aberta e não devia. A de variação zero um que andou emagrecendo. Mas a pior mesmo é aquela que se perdeu e já não se paga. O problema é que eu nunca tive vocação para ser a última a sair.


Dorme, amor, nos meus braços como se eu fosse o primeiro.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Ciclos de transição

Tá certo que na teoria eu estava estudando, mas fiquei bastante surpreendida quando me dei conta de que ontem fiquei um bom tempo conectada e nem por um momento me lembrei de que tenho um blog - aliás, vários... Soou como mais um baque no meu diagnóstico de abstinência literária, ou na minha alma ressecada.

As rugas que ainda são invisíveis aos olhos se deixam mostrar despudoradas nos meus silêncios gráficos. Digo isto porque em paralelo à minha incomunicabilidade escrita, percebi que tenho aprendido a conversar. (E sem terapia! clap clap). A opção constante pelo assunto cíclico textual é um indício de que estou aprendendo a falar o que sinto. Encontrei alguns caminhos no que antes eram trilhas apagadas no meio da floresta densa e escura.

A tal da maturidade abriu um clarão onde antes só haviam metáforas, as quais nem desapareceram por completo, como vocês podem ver. Há menos floreios e uma certa possibilidade de enxergar coisas antes embaçadas pela paisagem densa. Algum obstáculo que embotava a ação foi (cor)rompido e agora há em seu lugar o vislumbre, ainda que longínquo, de horizontes cujo descampado desperta essa vontade de decorar a alma que ficou um pouco ressequida pelo vento forte.
A ventania passou e é hora de aproveitar o terreno vazio. Além do que, como todos os anos acontece, as tardes de sol a pino já entram pela minha janela (essa sim diferente) e deixam um involuntário melhor-sorriso no meu rosto.