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terça-feira, novembro 15, 2011

Rejeição e histeria feminina da Música Popular Brasileira

Há alguns dias atrás, alguns de nós ficaram chocados com dois casos de violência contra a mulher: o da moça de Natal e a outra de Belo Horizonte. Para mim, o que não choca, mas enoja são os muitos argumentos que justificam ou diminuem a proporção da agressão numa hora dessas. Não são poucas as pessoas, homens e mulheres, que ouvi comentando que se elas tivessem sido menos duronas, ou tivessem topado conversar com os caras, as coisas não seriam tão graves. No caso da Dani, me incomoda mais a série de violências que ela sofreu quando solicitou ajuda do segurança e do dono da boate.

Ela deve sofrer de excesso de fragilidade nos ossos...


Como eu disse, essas coisas me enojam, incomodam, mas na real, não chocam. Por quê? Porque violência contra a mulher e a ideia de que todas as mulheres são presas esperando o-macho-alfa-que-não-pode-ser-recusado são pensamentos bastante legítimos em nossa sociedade. Uma evidência disso é uma música que eu venho ouvindo com muita frequência sendo veiculada por uma das rádios mais tocadas no núcleo cult bacaninha do Rio de Janeiro.

Trata-se da canção A Doida, de ninguém menos que Seu Jorge, um dos destaques recentes da mpb, cujas canções eu costumava gostar. O título já revela bastante da imagem feminina que se desenha, não? Não é de hoje que as mulheres fora do padrão são colocadas no saco da loucura, muitos estudos no campo da História da Loucura se debruçaram sobre a patologização do comportamento fora da norma da mulher.

Suponho que algumas pancadas devem "curar" esse tipo de coisa.
A música conta uma breve história que pode se passar em qualquer casa noturna por aí: uma mulher que dispensa um homem. Sim, a personagem feminina aparentemente seduz o pobre coitado do homem à noite toda. Ele, enganado e iludido, paga bebidas - porque, obviamente, aceitar uma bebida é aceitar ir pra cama, como eu não pensei nisso se eu sei, como todo mundo, que toda mulher é prostituta - e depois é abandonado ao relento, pois "a doida vazou" como diz a música.

O sucesso da música para mim está bastante relacionado àqueles argumentos que defenderam os agressores da Dani e da Rhana, já que uma mulher que dispensa um homem (porque um homem é a única coisa que uma mulher precisa na vida, certo?) só pode ser lésbica ou doida mesmo. Porque todas as mulheres devem dar graças a deus todos os dias de suas vidas por terem homens dispostos a "bancar a noite inteira" e os homens, bem eles estão certos de não aceitarem um não, porque, afinal, "eles não são de perder", quando perdem, é legítimo que fiquem p*tos e acabem quebrando alguma coisa - não será culpa deles se essa coisa acabar sendo o braço ou a cara daquela que o rejeitou.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Compromissos, birras e frases ríspidas


Não posso negar que tenho o defeito de me sentir injustiçada. Sabe aquela mania que a maioria dos seres humanos têm de se encerrarem dentro de seus casulos cinzas achando que os seus problemas são os maiores do mundo? Então... Acho que eu passo uma boa parte do meu tempo enxergando moinhos enormes que não me deixam dar sequer um passo de tanto medo. Eu posso até saber que existem sofrimentos muito mais graves, mas, por mais que eu me solidarize com a dor do outro, não tem jeito, é só a minha que dói na minha própria pele. E dói bastante, bem mais fundo que a pele até. Às vezes dói no estômago, noutras ardes nos olhos insones, nas pernas esticadas ou dobradas, a depender das circunstâncias, por mais tempo do que deviam e queriam. Há os momentos de doer nos braços e nos ombros o peso; além das mãos, a escrita infindável (quem falou que escrever não é trabalho braçal nunca teve de dar aula escrevendo no quadro por um dia inteiro). Da cabeça não se fala, a falta de sono, a visão que parece diminuir a cada dia ignorando a minha aparente juventude.

Doem as contas, os prazos, as cobranças, as datas, as horas que passam, os passarinhos que começam a cantar, desaforados e lindos, antes que eu durma, o sol que nasce agredindo, de novo, os pobres e exaustos olhos. Dói a minha ausência de mim, das pessoas que amo e que pouco vejo nascerem, crescerem, envelhecerem. São dores pequenas que se somam e que eu sei que são pequenas e minhas. Não saem das minhas paredes, não são despejadas em cima de ninguém. Não se convertem em lamúrias para amigos - dos quais prefiro mesmo me afastar para não ficar uma pessoa chata e lamurienta. Daí que vem a outra dor, a da incompreensão.

Uma das coisas de que não gosto na vida é quando colocam o lazer na esfera da obrigação. Sabe quando você marca de ir à praia num lindo domingo de janeiro e reclamam da sua meia hora de atraso? Este é só um exemplo, pois nunca tive o hábito de me atrasar. Me entristece que as pessoas criem ainda mais causos e sofrimentos pelas minhas ausências, transformem-nas em ainda mais cobranças como se fosse porque eu gosto que fico noites em claro trabalhando, como se eu amasse trabalhar aos sábados e ter ainda uma vida para resolver no domingo, antes que chegue a segunda-feira e atropele o tempo, criando mais bolas de neve insolúveis.

Dois mil e onze tem sido um ano difícil, de muitas (in)definições que eu espero que passem junto com o calendário. Muitos abismos e poços cujo limo já entranhou na minha pele de um jeito que eu nem sei quantas águas de janeiro serão necessárias para limpar. Mas tenho fé e boas esponjas de banho. O que eu não preciso é de pessoas que agravem mais do que eu os meus problemas. Pessoas que criem cobranças dentro das cobranças quando o papel de amigos poderia (poderia, apenas, pois não acho que ninguém deva nada a ninguém na vida) ser acompanhado de compreensão, apoio, afeto, sei lá, essas coisas que a gente diz em cartas da adolescência e depois ficam perdidas em gavetas antigas. Essas coisas que a gente vai deixando de ser e nem percebe. Quando vê sobram só compromissos, birras e frases ríspidas.


terça-feira, novembro 01, 2011

"Tudo quanto não seja literatura enjoa-me e torna-se detestável para mim porque me importuna ou entrava, mesmo que seja hipoteticamente" (Diários, Franz Kakfa)

Não sei onde quero chegar indo a lugar nenhum nem me pergunto mais se eu sei o que é bom para mim se eu sempre caio nas minhas próprias armadilhas.

Repetir repetir repetir até ficar diferente.

segunda-feira, outubro 31, 2011

A flor e a náusea (sempre ela)

As pessoas escrevem para serem lidas. Grande obviedade, grande verdade da vida, grande frase grande que todo mundo esquece. Algumas escrevem para uma pessoa em especial, umas em especial.

Lembro que, na época da escola, eu gostava muito de me gabar da minha incrível capacidade de perceber logo como era o meu principal público leitor e bem rápido cativá-lo. Um egoísmo estranho me fazia transferir o mérito (sim, ele existe para alguns) das minhas queridas professoras, que conseguiam me ensinar como escrever argumentos passáveis, para o meu imaginado talento retórico.

Também já achei que escrita era uma questão de imaginação. A história mais criativa, com alguma beleza de acréscimo venceria. Sim, a disputa tinha de estar em jogo. Depois eu descobri que podiam se danar os outros, que eu ia continuar amando as que fossem mais bregas, dolorosas, sofridas, que tocar era sinônimo de sangue, o mais quente e mais abundante. Hoje eu tendo a achar que foram as tais adoráveis professoras que me convenceram erroneamente de que eu tinha algum talento para brincar com as palavrinhas - será que um dia eu aprendo a deixar de culpar as pobres e assumo as minhas próprias contas e riscos? - e que os meus insucessos são fruto de uma falsa fé somada a um não talento.

Passei também pelo tempo de achar que o segredo das palavras está na intensidade com que você ama os musos e as musas, passaram alguns, ficaram outros, deixaram versos, contos, textos e uma preguiça emocional de reviver cada coisa para revisar cada texto. Também teve o tempo de amar os grandes e ler exaustivamente para ver se transpirava do papel algum talento que molhasse as minhas mãos. Se eu disser que não funcionou será mentira, porque amo ser "a última geração que sabe versos", como dizia Caio de um si mesmo que ele não era.

E nesse desabafo aqui que tinha o objetivo inicial de dizer que a gente escreve para si mesmo e para o outro e o outro lê a si mesmo e acha que te lê e ninguém nunca se entende, lembrei que hoje é dia de Drummond - e que é bem melhor falar dele do que o quer que seja.



"Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horasda tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

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Quanto às tão criticadas professoras de português, a elas a minha gratidão eterna pelo incômodo que me formiga a cabeça toda vez que leio um absurdo, seja maior ou menor que este aqui.


terça-feira, outubro 25, 2011

Fruta da estação

Sentia a proximidade das peles que não se tocavam, deveria existir um verbo para expressar apenas esse não toque, essa presença. Como quando a gente está em cômodos separados, mas se houve em ruídos, se vê em reflexões dos vidros dos móveis, se escuta nas pontas dos dedos que poderiam ser distantes, às vezes são, mas não sempre. Os pêlos que já não têm acento eriçam nessa indecisão provocante do semi-toque. Como quando você me liga para perguntar um caminho que tem plena certeza de que eu desconheço só para ouvir que não me importo de tentar descobrir junto com você. Como quando viramos noites em tarefas que passam a ser em dupla, trabalhos, relatórios, projetos, contos, aulas - porque as pessoas não sabem que a vida é em couple em tempo integral. E a gente se participa, confunde os temas e se pega gostando mais de uma coisa que nem é nossa - e nem existe para lado nenhum esse limite da possessividade.

Vamos ver um filme só para esquecer um pouco os problemas da vida? Vamos arrumar a casa só para esquecer um pouquinho os problemas de dentro? Vamos arrumar o cabelo, as unhas, as frases para esquecer um pouquinho que a vida é grande, grave e incerte? As roupas se misturam numa vaidade completamente perdoável. Nos misturamos e distanciamos numa oscilação de respiração ofegante de quando uma chega correndo para contar à outra que. Às vezes dormimos abraçadas e acordamos em disputa, às vezes a raiva pequena me faz querer olhar para a parede fingindo que nela não tem um espelho, mas quando acordo nada faz sentido antes de te olhar e ver que você ainda está aqui.

Adoro saber que o tempo vai passando e a gente vai construindo - assim, no gerúndio que indica ação em andamento e simultânea - coisas mais profundas. O erro foi acreditar que acharíamos as coisas todas prontas no caminho, talvez numa estrada de pedras coloridas. Quando abrimos a porta e vimos que não havia nada lá, não imaginávamos o quanto seria longo, intenso, saboroso, construir aos poucos, a cada dia, o nosso caminho.

Sabe aquele sentimento disforme que eu te mostrei num texto ainda escrito à lápis e você me falou em sussurros em outra língua? A gente foi falando, moldando, provando, vivendo, fazendo, definindo... E muda, como muda de planta, homonímia, cresce, tomba, muda de cor, brota, floresce, resseca, chega perto do céu, tomba no chão, vira adubo, vira jardim, desdobra em breguices, pieguices e originalidades.

Não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo de casa de vida de cabelo de roupa de comida de país de trabalho etc. etc. etc. etc. - as minhas mãos vão estar coladas às suas.

E hoje não é vinte e nove.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Não se incomode


O que nos faz gostar de um texto, um livro, uma música etc.? Depois de um debate de que participei semana passada, em que um autor de quem gosto muito foi severamente criticado (um doce para quem adivinhar qual é o autor) fiquei pensando nos motivos que me fazem gostar das coisas e conclui que geralmente é a identificação. Já vi e li algumas tentativas de descrição da arte que passavam pela frase "Quando alguma coisa toca". Do alto de meu egocentrismo, eu percebi que só costumo achar alguma coisa digna de nota quando ela "me toca", no sentido de proporcionar reconhecimento. Quando, em certo sentido, eu me vejo definida por um texto, uma música, um quadro etc.


Livro que eu aos 11 anos, acho.


Afora os meus problemas de formação identitária, percebi que existe um problema grande nesse tipo de relacionamento com a arte ou mesmo com o conhecimento - para colocar os textos acadêmicos no bojo. É que a identificação nos coloca numa situação de conforto que considero bastante perigosa.

Num movimento paradoxal se comparado a essa postura que acabei de mencionar, eu sempre tive como uma outra definição para a arte a de que é algo que transforma as coisas ou, mais pretensiosamente, a sociedade. Artistas são pessoas que questionam, mudam, nascem desconfortáveis no mundo.

Tem uma frase que sempre me vem na cabeça e nunca sei se é da Hannah Arendt ou da Clarice Lispector (não sei à qual das duas devo pedir desculpas, peço a você, leitor, pela imprudência da flata de precisão), é algo como a gente sempre fazer as coisas para tentar se sentir em casa no mundo. Tá aí o problema, se a gente está desconfortável, acha alguma poesia bonita de alguém que também já esteve e pronto, supostamente a angústia está saciada e podemos continuar a nossa marchinha de ovelhas.

Cartaz do movimento Maio de 68 na França

Tenho pensado que o desafio da arte - e aí eu me estendo para o conhecimento de modo geral - é lidar com o estranhamento, com o que não diz respeito a nós, para aí sim, construir o que é esse nós (que pode ser preferível, mas não exclui o construir um eu) e ao invés de tentar se sentir em casa no mundo, construir um mundo em que a gente se sinta em casa. Difícil? Deve dar um trabalhão, né? Como uma professora minha costuma dizer, o problema de desconstruir algo é ter de construir outra coisa para colocar no lugar.


segunda-feira, outubro 17, 2011

Tia Aila, tia Fátima, tia Deise, tia Val, Adriana, Vera, Danuza, Dona Ida, Elenice, Léa Anastassakis, Moema, Adriana de novo, Sônia, Luciene, Celso (ainda!), Lourdes, Rosa Maria, Mônica, Elza, Elba, Gilda Vermeule, Regina, Marcus, Ângela, Kaká, Jackie, Fabiana, Daniel, Alessandra, Jorge, Kátia, Celiza, Magda, Cristina, Gal, Patrícia, Fanny Pomp, Patrícia outra, Roberta, Zé Cláudio, Polyana, Marcelo Beauclair, Rinaldo (por que não?), Luiz Alfredo, Eunice, Adão, Maria Alice, Lúcia, Manoel Luiz Salgado Guimarães, Murilo Sebe, Jessie Jane, Pedro Duarte, Jacqueline Calazans, Andréia Frazão, José Ricardo Ramalho, Juliana Beatriz, Flávio Gomes, Denilson Botelho, José Murilo de Carvalho, Alcilene Cavalcante, João Fragoso, Flávia Guerra, Tatiana Poggi, Douglas Átila, André Lemos, Naiara Damas, Francisco Carlos, Marcella Estevez, Mariana, Thais, outra Mariana, Mônica Lima, Wagner Pinheiro, Giovana Xavier, Dilene Nascimento, Jussara Macedo e tantos outros que o nome talvez tenha escapado mas que participaram um pouquinho. Minha lembrança, ainda que atrasada, pelo dia dos mestres.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Quem é mais vulnerável ao preconceito?

Domingo passado teve Parada Gay em Copacabana, terceiro maior evento cultural do Rio de Janeiro, segundo o Grupo Arco-Íris. Não sei se isso é algum tipo de mérito, fico mais tentada a acreditar que esse é mais um argumento para os que criticam a participação que as boates têm nessa história. Não quero entrar nesse mérito da questão, para mim, a grande importância do evento consiste na visibilidade provocada pela avenida Atlântica pintada das cores do arco-íris e dizendo que uma grande parcela da população é privada de muitos direitos. Aliás, bato palmas para o destaque muito maior dado às frases de luta e, para os críticos de plantão, o menor espaço que as boates tiveram esse ano.

Milhares de pessoas já estão na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a expectativa da organização é de 1 milhão de participantes. Foto: Gabriel Macieira/Especial para Terra

Além de tudo isso, entre os objetivos da Parada estão a divulgação de informações consideradas importantes para a comunidade LGBT (perdoem se a sigla estiver errada, é que muda muito...). É aí que está a pergunta que está na minha cabeça desde domingo e que me leva a escrever isso aqui agora: consideradas por quem?

Durante o evento, sempre são distribuídos panfletos sobre assuntos como criminalização da homofobia, religião (ao contrário do que conservadores de plantão podem pensar, me refiro a panfletos de igrejas que acolhem homossexuais), união estável, propagandas de boates e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Até aí, tudo bem, informação nunca é demais. O problema está em um desses papeizinhos que fala da importância de prevenção devido à maior vulnerabilidade da população LGBT ao contágio de algumas doenças.

Reproduzo aqui o trecho pois não encontrei o folder inteiro no google (pasmem!) e estou com preguiça de scannear: "O Ministério da Saúde preconiza e disponibiliza a vacina [contra hepatite b] no Sistema Único de Saúde (SUS) para os grupos de maior vulnerabilidade, independente da faixa etária. Entre eles, destacamos: Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais; mulheres que fazem sexo com mulheres; homens que fazem sexo com homens".

Além das dúvidas que tenho quanto essas duas últimas "categorias" sexuais (quem sou eu para rotular se as pessoas querem criar mais uma?), fiquei me perguntando sobre o embasamento biológico dessa vulnerabilidade, já que a cartilha do Ministério da Saúde sobre o assunto descreve as formas de contágio sem apontar esses grupos de risco.

O mesmo folheto incentiva a realização do exame que diagnostica a presença do vírus HIV. Claro que realizar o teste é importante, mas... Eu não sou ingênua a ponto de perguntar quem foi que disse que homossexuais são as vítimas preferidas da Aids, porque eu sei que muita gente já disse isso. Não querendo me valer do órgão oficial da saúde como única verdade sobre doenças, mas no que diz respeito à Aids, o Ministério menciona sim os homossexuais. Entretanto, ao contrário do que muita gente ainda pensa, para dizer que os cuidados relativos à população LGBT nesse caso se deve ao estigma e ao preconceito imputados. Para o espanto de muitos, o portal destaca ações específicas de prevenção entre jovens, mulheres e presidiários.


Obviamente, nem tudo são flores no reino do Ministério da Saúde, já que até a campanha que critica o preconceito (acho muito legal o slogan "A Aids não tem preconceito, você também não deve ter") diz que as pessoas são corajosas por exporem sua soropositividade. Não sei se esses jovens-selecionados-de-acordo-com-o-padrão-de-beleza-vigente são realmente soropositivos, procurei o site indicado para ter maiores informações e - tcharam! - o link está corrompido (o que também explica essa imagem pela metade aí, desculpem). Acho importante que as pessoas desassociem a doença daquela imagem do doente terminal dos anos 1980, mas acho pouco provável que substituir pelo padrão de beleza dê conta de desconstruir preconceitos. Para mim, Aids não tem cara e ponto.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Tem algum tipo de incompatibilidade, desarmonia para além do desânimo. Sei que não tem cura. Sabemos que não. Não é doença. É só uma coisa que não sabemos o que é e vai ficando e neblinando as coisas, as pequenas coisas, as pequenas farpas que a gente já não faz questão de guardar, os pequenos cuidados e carinhos que a gente vai deixando pra lá. A vida anda sem literatura - e também sem vontade de ler. Anda silenciosa, sem vontade de ouvir, falar, escrever. Anda um dia atrás do outro, tentando não pensar nas coisas grandes, mas até as pequenas têm sido assim. E vão passando os dias, vários, sem que a gente saiba como vai ser.

terça-feira, outubro 11, 2011

Eu nasci bem depois do que eu gostaria, mas apesar da ausência de cartas que povoa o meu mundo, a greve dos correios ainda consegue parar muita coisa. Sinto saudades de um tempo de confissões graves, faz muito eu me fechei num casulo estranho, vazio, vazio. Por opção, eu acho (o vazio e o trancamento), apesar da minha cara de quem nunca escolheu nada na vida.

quinta-feira, setembro 29, 2011


Escrevo só e ando só. Já faz tanto tempo que desaprendi a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. Principalmente a corpórea. Aí eu fico esperando um algo que aconteça dentro ou fora de mim, uma epifania que me dê algum caminho, já que eu não engano ninguém e nem quero enganar. Me afastei de gentes. Não sei mais o cheiro ou a textura que as pessoas têm. Não sei o que vou fazer nem amanhã nem no próximo mês ou no próximo ano. O mar aberto tem ondas revoltas, batem geladas no rosto toda hora, deixam mareada, com vontade de voltar para a terra firme.

Voltar nunca é possível. As metáforas são frágeis. O momento presente é o pedaço frágil de patim cujas fraldas eu sempre esqueço de trocar, ou finjo que esqueço por falta de vontade. Queria uma rotina, uma prisão daquelas com cartão de ponto e tudo, contanto que acabasse bem na hora de ir embora, não fosse junto comigo para os momentos outros, não ficasse martelando o texto para revisar, a aula para terminar, a fonte para pesquisar, a greve para atrapalhar. Segurança e liberdade não podem ser simultâneas.

Todo mundo odeia televisão


Durante toda a minha adolescência-tentativa-de-pseudo-intelectualidade eu dizia que quando tivesse minha própria casa nunca mais assistiria à televisão, que eu odiava aquilo, que atrapalhava a minha vida, que a culpa dos meus problemas de concentração era daquele aparelho ligado o dia todo etc.

Bem, eu realmente posso contar nos dedos das mãos as vezes em que a tevê daqui de casa (que de própria não tem nada, aliás) foi ligada e não vou mudar a frase de que atrapalha a minha vida, mas não tenho como negar que todas as vezes em que vou visitar minha mãe eu assisto. Também não posso negar aquele argumento de que a mídia manipula as massas, nos diz quem devemos querer ser, quem somos, quem não somos e tal. Contudo, já faz algum tempo - graças a deus!? - que eu deixei de tomar explicações assim tão simplistas para as coisas e acredito que nada é tão homogêneo e perfeito assim.

Isso tudo só pode ser mesmo um preâmbulo para eu dizer que gosto de televisão (desde que apreciada com moderação e muito senso crítico). Não faz assim tanto tempo que eu saí da casa da minha mãe e parei de passar todo o tempo com a caixinha colorida sorrindo para mim, mas percebo hoje o quanto a minha memória e as minhas principais referências para várias coisas na vida estão relacionadas aos programas, às novelas e, principalmente, às propagandas. Perco a conta de quantos textos publicitários me vêm à mente em momentos variados do quotidiano.

Entretanto, eu estou aqui para falar bem desse instrumento adestrador de criancinhas, não é mesmo? Então, nessas minhas visitas vespertinas à casa da mamãe não raro o horário coincide com um seriado que eu adoro: Todo mundo odeia o Chris.

Sempre que eu vejo os percalços da vida do adolescente num perigoso e estereotipado bairro de periferia e numa escola onde é o único aluno negro, eu me lembro de um outro seriado que acompanhou a minha infância, pré-adolescência e adolescência (sim, nós sabemos que 1. esses seriados costumam ter muitas temporadas; 2. O sbt nunca teve pudores para repetir mil vezes a programação; 3. Nós também nunca ligamos de assistir ao mesmo episódio 50 vezes, até decorar todas as falas): Um maluco no pedaço.


Não precisa de grandes explicações para traçar paralelos entre os dois seriados, não é? Contudo, o recente sucesso do Chris entre os meus alunos - e a variedade de exemplos que consigo retirar dos episódios para abordar em sala temas como racismo, segregação racial, desigualdade e preconceitos em geral - me fez pensar na importância que esses seriados têm na construção da identidade de muitos jovens. E isso se dá pelo mecanismo simples da identificação, nos mesmos mecanismos da mídia - está lá um personagem (nesse sentido, mais o Chris, porque afinal o Will estuda numa escola particular caríssima em Bel Air) que é um garoto pobre, negro, estigmatizado e, diferente do que pretende a professora da escola, normal.

Além disso, o seriado aborda outras questões corriqueiras como a exploração do trabalho infantil, o subemprego, o bullying, este tão na moda, etc. Sem falar no divertimento que é assistir a tudo isso naquela dublagem super bem feita. Não vou fazer a propaganda completa (sim, o que eu estava fazendo era só um comentário crítico, entendeu? Eu não sou uma criança deslumbrada com a televisão, ouviu?) porque além de não gostar muito da emissora que transmite a série, não faço ideia dos dias e horários em que é transmitida, vou sempre na sorte.

terça-feira, setembro 13, 2011

De onde se conclui que nada vai dar certo. De onde se conclui que não há conclusão. De onde se conclui que não adianta ser uma das poucas pessoas do mundo que sabe a transitividade do verbo implicar ou o uso correto da crase. Não faz a menor diferença na página em branco. Eu quero trocar de mim. Eu sempre quis trocar de mim mas ninguém deixou. Eu não quero ir a lugar nenhum. Eu queria um pouco de apoio, mas as coisas sempre me parecem incongruentes e no fim das contas eu sempre sou a menina mimada. Isso não me ajuda em nada. Dizer isso não me ajuda em nada, continua a sensação de que ninguém se importa e nada faz sentido. Porque nada faz sentido e eu não faço nada a não ser construir essa minha escrita de si de desempregada e perdida na vida. Eu não tenho nenhum objetivo em estar viva e não tenho uma dose salvadora de digitalina nem uma janela convidativa. Eu não tenho coragem para nada. E continuo na minha eterna solidão. Não consigo manter um pensamento racional por tempo suficiente que me permita fazer algo. Eu não sei inglês, não sei ser submetida à análise, não quero dar o dinheiro que eu não tenho a psicólogos com cara de babaca. Vou enlouquecer sozinha, pobre e desempregada. Morrer de falta de amor e falta de motivação forte o bastante para renunciar à vida.
Eu tenho um plano. E se sair daqui agora e me arrebentar toda, tudo bem também, porque na verdade eu não vou mesmo a lugar nenhum. É que eu tô sozinho há tanto tempo que eu esqueci o que é mentira e o que é verdade em volta de mim - e o papel e o papel pra acabar.
Eu, tão farsa. Tão arquivos emprestados, entrecortados-que-nem-sei-se-têm-hífen. Eu, tão à flor da pele. Tão crise existencial. Tão sem destino, futuro, segurança, caminho, perspectiva. Eu, tão vaga, tão porra-nenhuma, poço de insegurança, página em branco, futuro incerto, horas perdidas no nada. Eu-improdutividade, concordância falha, farpas distribuídas, música repetida, ameaça viva. Eu, auto-destrutiva pela falta de fé. Falta de referências e sem nem mesmo as origens trágicas da erudição. Eu sem-destino. Eu desvio, mas sem conjugar o verbo e sabendo que não dá pra saber pelo que eu digo. Eu que nem escrevo nada, nem digo nada, sem sou capaz de enganar a mim mesma para empreender um esforço intelectual. Eu, que não nasci para ter essa palavra junto. Eu, que invejo a experiência limite, tiro onda com meu francês torto. Ensaio frases que não se concretizam. Orações longas sem nenhum período, simples ou composto. Eu, composta de meia-dúzia de argumentos diletantes. Eu, que nem sei usar essas palavras pernósticas, que nem tenho essas leituras, essa coragem, essa cara de pau. Eu, que nunca colocaria a cara a tapa, nem compraria o veneno, nem a briga, nem publicaria nos mais vendidos ou no jornal o que quer que fosse de grave. Eu não me esconderia atrás de ninguém e tampouco me exporia. Eu, com meu egocentrismo torpe que já não me aguenta já faz tanto tempo, e não tem paciência pra reinventar, inventar, fazer, simplesmente. O problema simples do sim na palavra. O elogio do sofrimento. Eu não sei me defender e fico fazendo cara de menina mimada, que arruma o cabelo e o vestido só para alguém dizer que está bem arrumado. Eu nem arrumei e também ninguém disse. Eu sei que ninguém vai dizer e o silêncio da solidão e da falta de tudo é só um desespero sem fim. Eu desaprendi a linguagem que os outros usam para se comunicar - se é que um dia eu soube. Eu perdi aquela coisa que alguém me deu para guardar e pediu que não perdesse de jeito maneira. Eu perdi a vocação para muitas coisas. Me perdi e não quero procurar num consultório de analista - e também sei que não tem mais onde chafurdar sozinha e não adianta esperar milagre e não adianta nada a não ser tentar. Coisa mais auto-destrutiva porque sem fé nenhuma. Nem tez azeitonada, nem niño pez. Os bons filmes e bons livros passam e deixam a sensação de impotência diante das coisas, da vida. Nada é tão grande quanto as minhas palavras - e eu nem nunca tive domínio de cena para um suicídio. Eu crio intrigas para me sentir viva. Preciso brigar e espernear diante do irrefreável da morte. Preciso sentir o que eu não posso viver. A experiência limite. A paixão injustificada que eu preciso justificar nos termos mais academicistas que conseguir. Mas não consigo mais cortar e colar frases velhas. Queria algo novo, algo vivo, algo intenso. Que fizesse e desse sentido. Que ardesse como faca cortando, como o desespero de se saber da morte. Eu não sei nada, eu não tenho nada, eu não escrevo nada.

segunda-feira, setembro 12, 2011

E se uma nova paixão surgir no último minuto? E se a angústia for maior do que se pensava? E se a coragem, a cara à tapa, o senso de realidade, o enfrentamento, a construção, e se tudo for ainda maior, mais denso, mais mergulhável do que se pensou? (Sujeito indeterminado: minha mente estreita, egocêntrica, limitada e com menos leituras do que poderia).

A gente sempre sabe que a vida é maior, que o horizonte de possibilidades é mesmo um horizonte inatingível. Mas continua buscando e descobrindo novas tonalidades de poente no meio da estrada.

Eu quero tentar.
Sonhei que a vida era um sanduíche que eu engolia com náusea.
Precisando rever minhas metáforas ou tomar um remédio pro estômago?

quinta-feira, setembro 08, 2011

Ninguém escreve aquilo de que se lembra. Talvez o que não sai da cabeça. Porta-esquecimento. Expurgação. Escrevo para não escrever. Preciso de objetividade. Simples-fazer. Simples-fazendo. Simples.

Trilha sonora

Um apelido que se desdobra em doença porque tinha de ser, porque as teorias se desdobram em coisas mais. Encontrar caminhos, procurar caminhos, perder caminhos, caminhar. Gradativamente. Cada passo. Repetitivamente. Falta gente, uma boa música e uma cerveja gelada no fim do dia. Quando não tem começo não termina e quando termina antes de começar todos os dias só porque tem trilha pronta. Sonora, porque as solas dos sapatos estão novas e tilintantes esperando que alguém lhe diga aonde ir.

Sim, porque saber apenas a transitividade do verbo nunca serviu de nada a ninguém. Espera sentada, olhando os pés que não tocam o chão no auge de seus cinco anos de idade. Sacudindo-os de expectativa, como quem sabe que vai receber um elogio. Sempre esperando uma veneração que lhe dê sentido. Um sorriso de aprovação, uma estrela no caderno.

O silêncio e a espera lhe sorriem de volta, mas um sorriso irônico dizendo que não há o que esperar, que caminho a gente trilha com os próprios pés. Observa-os inquietos e incapazes. Conclui que precisa de um novo par de sapatos que estes não estão condizentes com a situação. Desce da cadeira com esforço - é mesmo alta - enquanto grita com os pulmões cheios para alcançar a cozinha:

- Manhêê! Me compra um novo par de sapatos?

Antes que a resposta venha, substitui a expectativa por uma aflição fingida sobre a cor dos ditos.

quarta-feira, agosto 31, 2011

Deu vontade de escrever alguma coisa séria. Mas é que eu tenho preguiça. Tanta preguiça quanto se pode ter às duas e meia da manhã, depois de ter dado aulas durante toda a tarde e preparado aulas durante toda a noite. Pode ser que seja só cansaço misturado ao hábito de ser muito dura comigo mesma. Às vezes eu sou.

Sou quando acho que todas as coisas são grandes e eu não posso transformá-las em pequenas e simples. Sou quando me recuso a ser uma pessoa comum, que simplesmente faz as coisas e vive os dias - tento me convencer de que tudo precisa ter uma razão maior, um sentimento mais fundo. Um egocentrismo mal trabalhado? Talvez.

Mal trabalhado e mal resolvido porque me faz remoer por eras os pequenos detalhes e deixar sempre o mais importante para quando as forças - e o saco, a paciência - já se exauriram. Tudo termina capenga, pela metade, ou não termina mesmo. Transformo as coisas em grandes dramas, pinto de dramas épicos detalhes pelos quais todo mundo passa na vida. Todo mundo passa, sobrevive e parece que nem dói.

O problema pra mim é esse. Para mim sempre dói. Nunca é tão simples. E sempre é cheio de palavras como sempre, nunca. Como uma descrição de uma criança de quatro anos de idade.

Acontece que a paciência acabou até para a explicação cotidiana de que tudo (olha ela aí de novo) se resume ao fato de que eu sou uma criança mimada. Acontece que tudo não existe, nem fato - e se espremer muito, nem explicação, eu ou existir.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Asas cortadas


Me transformando em um cisne e a dor é necessária. Tudo é necessário, perigoso, divino-maravilhoso - na música é claro. Na vida real é a pele se abrindo, a carne rasgando, os rasgos alastrando em dor insuportável. Valerá à pena? Perguntaram. Alguém respondeu com um verso escrito à caneta bic roubada e já falhando: Ritos de passagem passam; há-que passar. Parecia um provérbio antigo ou sorte de biscoito oriental. Desses que não faz sentido porque faz parecer que a nossa vida devia ser maior do que realmente é. Devia ser mais cifrável e dizível em provérbios.

E a alma? Se perguntou de que tamanho estaria agora. Teria crescido ou encolhido nesses tempos todos? Essas coisas de penas, almas e valores eram muito para ela. Eram muito à essa altura da vida quando não se tinha quase nada. Só tinha uma meia dúzia de palavras que poderiam ter sido grandes num passado, mas já lhe tinham chegado gastas e desbotadas. Não tinha muita cor nem para onde correr.

Entrou no carro esperando estradas longas, noites frescas, ventos revigorantes. Faltava dar a partida. Não tinha carteira, gasolina, mapas. Não tinha nada além das asas que cresciam discretas ferindo as omoplatas. Tinha que matar uma parte - era o que pensava enquanto saía batendo portas pequenas demais para o tamanho de sua fúria. Quis correr por dentro de uma floresta densa ou um campo aberto até as pernas obrigarem a parar. Quis sentir o pulmão vivo, ofegando, pedindo para continuar vivo, mostrando que lutaria por mais um fôlego cada vez que fosse necessário.

Do lado de fora do carro o concreto lhe sorriu irônico. Muitos carros não lhe sorriram nem expressaram nenhum sentimento, parados sobre o asfalto. Uma viatura da PM à certa distância mostrou que não teria dado certo dar a partida no carro. Também não havia para onde correr. Nenhum precipício no final da floresta imaginária.

Os pés ainda agitavam-se pedindo passos firmes, fortes, ritmados e constantes. Ou que levassem a algum lugar apenas. Qualquer lugar. Que a levassem. Já não queria estar ali tão presa no desespero tão interminável, escuro, envolvente. Caiu de desespero no chão frio. Quando percebeu, tinha uma lama pegajosa em volta. Percebeu que era ali que devia estar e a opção era descobrir que um dia as asas terminariam de crescer. Doeria muito? Demoraria muito? Perguntaram. Ninguém respondeu.
Sempre uma tentativa de reconciliação. Sempre uma vontade de reencontrar o que nunca tive. a tal sensação impossível de estar em casa no mundo. Aceitar o passado, simples-fazer as coisas, o que é preciso, todo o tempo. Fazendo no automático? E o sentido, como faz? Vai pra onde? Eu já nem quero uma série de coisas e preciso sim de respostas externas porque de dentro parece que é tudo loucura. Sempre é e sempre tem palavras grandes na falta de achar o tom e a conciliação também com as coisas e palavras pequenas. Pequenos prazeres, pequenas coisas. E tudo deve passar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Falta a abdicação do ofício. O arregaçar as mangas e assumir o esforço - e depois o risco. Falta entender que escrever é reescrever, treescrever, talhar palavras num trabalho que não tem a beleza, a áurea que se imagina. A vida mesmo não tem. Não tem glamour no processo. Falta a conformação para encontrar a beleza pura, a beleza real de assumir as próprias imperfeições. Como olhar no espelho, como ver surgirem os calos nos dedos, as olheiras nos olhos.

Como um exercício escolar, diferenciar a estética do belo. Aprender a função que têm nas palavras e que função não se desprende do maior.

(E eu tão pequenininha...)

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Pânico de saber o que há do outro lado. Improvável que haja um outro lado, mas só há um jeito de descobrir e a cada dia mais inevitável. A coxia a cada hora mais distante e irreversível. Como um cerco se fechando, que fecha também mãos frias e cordas ásperas no pescoço. Pescoço fino, frágil, não deve ser difícil de. É tudo uma questão de oportunidade e jeito para.

Não tem mais como ficar apenas espiando do lado de cá. Espiar é feio. Ficar olhando de esguelha, a cara cheia de vontade, as mãos suando pavor e covardia. Não tem muito jeito, não tem mágica, só o abismo de sempre sob os pés. Medo de cair no poço. Maior ainda de fazer casa, costumar, aconchegar-se, como já está tão perto. Pânico completo. Um pouco de ocupação salvaria. Vontade zero de fazer o que precisa ser feito. Longe demais da cabeça a convicção de que algo precisa ser feito.

Uma ansiedade pousada na boca que os outros chamariam de natural. Uma vontade de um milagre, de que as coisas não dependessem de um grande gesto. Que não dependesse de pequenos, árduos, cotidianos e muitos gestos. Saber que não virá de lugar nenhum uma salvação não melhora a vontade de ficar esperando que venha. O chão vai subindo em raízes grossas pelos tornozelos finos, apertando aos poucos, bem aos poucos, de modo que quase não percebo o quanto será difícil se eu tentar me mover. Por via das dúvidas não faço. O corpo todo imóvel. A mente fingindo fazer mil viagens - parada na mesma estação cinzenta, mais ainda à noite. Uma espécie de bruma junto ao cenário confuso em que cabem portões, grades, locomotivas e cortinas de teatro.

O tremor que se alastra e domina seu corpo que nem parece um corpo transforma a imobilidade num paradoxo estranho. Não sei o que fazer, para onde ir, olhar, seguir. O que fazer quando a única coisa a fazer é o que menos é possível e desejável? Onde fica a modalidade de vida em que as perguntas têm respostas?

Dormir parece uma solução, mesmo que sem um veneno definitivo, há sempre a esperança de desinverter alguma coisa e que o lado contrário é que seja o real - isso que não existe. As fronteiras curtas e as frases longas de sintaxe incompreensível fazem pensar em borboletas, em cores, em labirintos onde não se sabe se surgirá uma figura mitológica e salvadora - Ítalo, fauno, chave de portal.

As coisas se misturam, reviram o estômago. A sensação de que tem algo que precisa ser expurgado de um lugar menos físico. Isso que chamamos de vida não cede aos meus pedidos de desaceleramento, não adianta pedir em tom religioso quando não se tem uma fé convincente. Retórica e humanidade demais. Se fosse o caso de ter engolido algo, mesmo sem querer, era só expelir, expurgar, vomitar. Mas a vida não se resolve mais com náuseas programadas. É maior, é mais fundo, é mais irreversível quando o reverso só pode vir de um lado.

E o que mais irrita é esse espécime muito estranho de consciência. Saber como falta ilusão pleonástica e necessária de poder.

Tão vazia e tão desejada de uma ilusão verdadeira.

Os prefixos de dissolução são apenas prefixos e segredos partilhados.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Antes de começar

Abri janela para o sol entrar
Mas era a chuva que estava por vir
Liguei o radio para disfarçar
Mas não tocou o que eu queria ouvir

Peguei um livro pra me distrair
Mas as palavras não estavam lá
Troquei de roupa pronto pra partir
Mas não consigo sair do lugar

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Tranquei a porta pra me esconder
Mas escutei batidas no portão
Desci a escada para atender
Mas era só minha imaginação

Fiquei num canto pra ninguém me ver
Mas ao meu lado estava a solidão
Fechei os olhos pra não perceber
Mas ela estava no meu coração

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Telefonei para um amigo qualquer
Mas do outro lado não encontrei ninguém
Pensei, ok, venha o que vier.
Mas não estava vindo nada bem

Tentei quebrar os santos no altar
Mas me senti um pouco Talibã
Eu quis mandar a casa pelo ar
Mas ela pode voltar amanhã

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar

quinta-feira, agosto 04, 2011

Eu deveria gritar, mas só queria uma resposta, um sinal de aprovação. Já perdi o lado artístico há muito e não sei se é possível encontrarem mais do que uma atualização de status onde se procura poesia. Não tem mais. Eu demorei a admitir, mas sei que não tem. Deixei perder, secar, verter, escorrer, foi-se. Foice afiada dos dramas longos, das metáforas bobas. Não adianta dizer que uma coisa é outra, a coisa não deixa de ser, nem fica menos incompreensível. Nem mais palpável. Continua tudo sem a menor possibilidade de toque, um passado que se busca na procura impossível, com a pureza que está sempre se pondo. Saber que não há onde chegar tira o tesão da viagem. E eu já nasci desacreditada. As graças do percurso só servem para os mais ingênuos, eles não sabem que vão morrer, eles não sabem que não é possível voltar e que não faz sentido buscar a reconstituição. Eles não sabem que eu sei e que saber não valeu de absolutamente nada. Eles não sentem a minha prisão incongruente.
O desespero de já não saber onde começou. Como se identificar o ponto exato de origem pudesse fazer diferença, como se pudesse existir origem, como se o grande e maior problema de todos não fosse justamente o oposto. Não de onde viera, mas para onde estava indo. Agora, parada na estação, tinha certeza de que para lugar nenhum. Todos os dias parava diante da bilheteria e ensaiava a compra. Sem nem mesmo ultrapassar as grades, já que não tinha um bilhete que lhe desse a permissão, via a velocidade ir ganhando aos poucos as locomotivas que se transformavam em borrões escuros. Imaginava quem estaria dentro remoendo a inveja e a própria incapacidade de escolha que pulava em seu estômago dolorosamente, todos os dias, à frente da estação.

Tinha medo da poeira que lhe sujaria a cara durante o trajeto, medo de que este fosse mais demorado do que poderia suportar, medo dos enjoos que o balanço dos vagões teria, medo de que não chegasse, afinal. Medo de que, se tentasse, se comprasse a tal passagem, se apostasse todas as suas fichas, aplicasse todo seu dinheiro e esforço, levasse toda a bagagem que passara a vida arrumando, mesmo assim não fosse capaz de chegar. Medo de que soubessem também os outros, como ela já sabia, que não poderia. Ela enxergava mais do que os outros de si mesma e sabia que a compra do passe seria apenas como atravessar as grades, a única diferença é que veria os trens sem os recortes de metal listrado, mas não mudaria o fato de que ficaria ali apenas os observando partir. Com o agravante de que perderia junto a liberdade da rua. Ficaria do lado de dentro das grades e do lado de fora do trem. Quase um limbo, a mais detestável das posições.

terça-feira, agosto 02, 2011

O doce e o amargo

O sol que veste o dia
O dia de vermelho
O homem de preguiça
O verde de poeira
Seca os rios, os sonhos
Seca o corpo a sede na indolência

Beber o suco de muitas frutas

O doce e o amargo
Indistintamente
Beber o possível
Sugar o seio
Da impossibilidade

Até que brote o sangue
Até que surja a alma
Dessa terra morta
Desse povo triste

Carece de perder o medo. Desamarrar os muitos fios de receio que vão cercando e embotando a ação, embotando a escrita, borrando as palavras em lágrimas, separando a literatura do sobre a literatura. E não fica nada, no final não sobrou nenhum algo além da garrafa. Contando as páginas, as palavras, mecânico, técnico, examinável. (A gata quer passar por cima do teclado)
São metáforas, não passam de metáforas. Dar a uma coisa o nome de outra. Metáfora-antítese. Dar a uma coisa o nome de uma oscilação de duas outras. Dar a uma coisa um nome. Saber que o nome tem significados. Dar vários nomes para não ser um único. Não existe singular. Contra a restrição. À guisa de manifesto. Querendo festa e fim. Difícil... Por hora só trocadilho.

domingo, julho 31, 2011

Para nós todas as palavras do mundo.

Os olhos embaçados de sono, de falta de interposição entre mim e o mundo, desse vazio que fica aqui quando você não está.

As semanas também são ciclos e o ponto de revolução em que uma coisa deveria ter se tornado o que era antes nesse antes impossível chega diferente, como só podia ser. É sempre confuso, é sempre cifrado, metafórico, perdido, disfarçado e misterioso. Não é por má vontade, não é para construir-um-atmosfera-pessoal, é porque é. Como essas coisas que a gente questiona sabendo que não conhece. Continua questionando e desconhecendo. Um dia muda para uma outra coisa completamente diferente e igualmente misteriosa. Porque indizível. Sempre - e como eu insisto em dizer, fico repetindo: indizível, indizível, indizível. O faço porque sei que as palavras que procuro já não são só escritas nem só virtuais. As palavras têm sons. Você me ensinou que o que eu finjo dizer pode ser dito de verdade. E quando digo, quando escuto o som da minha voz te dizendo e escuto o som do seu silêncio me ouvindo ou o som do meu silêncio te dizendo para o som da sua voz me falando de você, eu sei que você está aqui. E não importa se a gente é assim tão diferente, não importa se a ausência é dolorida, não importa que a saudade vá sempre existir. De perto ou de longe, de passado ou de presente, de olhar demais para o outro lado quando você esteve aqui esse tempo todo.

Eu estou aqui também. Eu, saudade. Eu, ciclos rompidos. Eu, tantas e tantos. Eu-desejos. Eu-algo-menos-possessivo-e-egóico-que-esse-pronome-pessoal-reto. Aberta, presente, palavra, voz, abraço - e todos os outros sentidos que não se separam tanto assim.

quinta-feira, julho 21, 2011

Não fazer é mais fácil. Chafurdar na inércia, perder-se em caminhos cuja direção (sentido?) eu sei tanto quanto conheço a dificuldade em seguir. O problema é que dá um trabalho enorme e ninguém nem disse que seria fácil. Ninguém nunca disse que seria breve, nem que seria possível. Diante de todo esse silêncio do mundo, falo sozinha também. Com as paredes, com os papéis, com as virtualidades viscosas.

E também faço silêncio, também abdico. Ignoro. Aquieto.

Birro o quanto posso, mas no fundo sei que não há escolha, há que fazer.

terça-feira, julho 12, 2011

O quereres

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não

E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão

Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim
a loucura tá sempre aqui
a loucura tá sempre aqui
faz vinte e dois anos
talvez mais
os olhos que ficaram esperando
derretendo
envelhecendo
enverrugando
criando olheiras
todos os dias
todas as noites
todas as luas
todas as tonteiras
náuseas gozos fomes glórias fracassos imagens discursos fumaça trago papel teclado música palavra silêncio mágoa estrago sílaba sentimento companhia solidão boletim aula prova plano de responsabilidade mudança cozinha faxina lixo lá fora ônibus busca perda encontro etiqueta flerte fresta festa flecha cerca ponto ponta beco banco curso exercício filme livro disco chuva sol verão
a loucura tá sempre aqui
.

segunda-feira, julho 11, 2011

Não veio. Àquela altura da vida não era mais possível desobrigar-se. As amarrações, ai, as inúmeras, incontáveis amarrações. Todo mundo veria, todo mundo diria alguma coisa caso. E o mundo nem era mais tão grande assim. Fazia tempo os círculos tinham se estreitado, restringido, casca de ovo se aproximando, céu sufocante - de modo que quando dizia mundo, não se referia a mais que uma meia dúzia de pessoas. Ferinas, como só sabem ser as pessoas.

E da impossibilidade sempre surgia a loucura. A vontade-louca. O incontrolável, inadiável, irrecusável. Por isso mesmo não dito, não feito, não sentido.

Vivemos em um tempo em que a fome não mais muito possível. A saída é sempre o nojo do que se come não para matar a fome, mas para não morrer de inanição. Morte pudica, santa, cristã, abdicada. Depois de tantas voltas, discursos, protestos. Depois de explicar vagarosa e insistentemente para tantos ignorantes (mais felizes), subverter as ordens, as amarrações, as normatividades, não é que. Não é que se via agora pensando, mais do que pensando, se via dizendo em alto e bom som que não era mais possível. Assim, como se o tempo tivesse passado, como se fosse uma questão de tempo apenas. Como se o tempo em que parecia que ia dar (sabe quando parece que vai dar?) já tivesse passado, ou nem tivesse existido, ou tivesse passado antes de a gente ter consciência - o que dá na mesma.

Não mais desabafo, palavra só dita em sussurros, como segredo. Nunca mais drink no dance e nunca mais bis. Nem importava, não mudaria mais nada que não fossem apenas closes, não importava que lhe cortassem os pés se já não andava, se o tal tripé ainda estava ali, ainda, meu deus! Tudo no mesmo lugar, a mesma imobilidade - e saber desde sempre, saber que bastava um corte, um rasgo com qualquer pedaço de vidro na face, uma amputação, uma perna a menos. O chão continuava limpo, a tela ainda em branco, variando os planos de filmagem e montagem da mesma cena imóvel e branca. O vazio o vazio o vazio. Esse que às vezes ecoava na cabeça e levava à loucura, mas depois trazia de volta e não fazia muita diferença. Todos os lugares aonde tinha ido não valiam mais de muita coisa, já que voltara ao mesmo lugar.

sexta-feira, julho 08, 2011

Fechou. Ia dizer im-per-cep-tí-vel, assim pausado mesmo. Mas seria uma mentira deslavada demais até para mim. Podia dizer que fechou no mesmo ponto também, como um ciclo deve ser. Eu sei que não é, por isso não digo. Porque não foi.

Fechou diferente. Coisa completamente outra, assim como correr correr correr, correr por horas, subindo ladeira e chegar lá em cima sem fôlego, sem nem saber em que pensar, o que fazer. Não há o que fazer, nem mais para onde ir. Respiro fundo e olho para baixo com um orgulho inconfessável de mim mesma. Foi. Acabou - e nem é verdade ainda.

E parece que quando acaba a gente só pensa no começo. Nas expectativas que eram apenas expectativas e em tudo o que aconteceu depois. Aconteceu tanta coisa desde que eu só queria dormir tranquila. Aconteceu uma espécie de vida, história, estória, História. E não aconteceram tantas outras. Frustraram-se tantos planos, montanha-russa-viva. Tantas pessoas espaços, pensamentos - tantos pen-sa-men-tos.

Nem saberia dizer quem era aquela pessoa que chegou u9am dia tão certa de tudo o que queria querer pelos próximos tempos. Os quereres, os seres, os (a)fazeres e os víveres mudaram tanto. Eu mudei tanto - constatação estranha de cada dia. E fico pensando que se alguém me dissesse, quer dizer, se alguém dissesse praquela garotinha-esperando-o-ônibus-da-escola-e-rezando-baixo-pelos-cantos-por-ser-uma-menina-má. Se alguém dissesse a ela que seria assim... Fico pensando em todas essas coisas que não é possível saber, prever, dizer - eu fico sentindo um montão de coisas. E sabendo que ainda tem muito ainda o que querer e ser. Eu quero.

sexta-feira, julho 01, 2011

Martelo Bigorna (Lenine)

Muito do que eu faço
Não penso, me lanço sem compromisso.
Vou no meu compasso
Danço, não canso a ninguém cobiço.
Tudo o que eu te peço
É por tudo que fiz e sei que mereço
Posso, e te confesso.
Você não sabe da missa um terço

Tanto choro e pranto
A vida dando na cara
Não ofereço a face nem sorriso amarelo
Dentro do meu peito uma vontade bigorna
Um desejo martelo

Tanto desencanto
A vida não te perdoa
Tendo tudo contra e nada me transtorna
Dentro do meu peito um desejo martelo
Uma vontade bigorna

Vou certo
De estar no caminho
Desperto.

quarta-feira, junho 29, 2011

No dia em que Caio F. morreu

Hallina Beltrão

No dia em que Caio Fernando Abreu morreu, esqueci de colocar o despertador para acordar, sempre isso, atraso, alguma correria, um despertar sem jeito, apressado, um susto. Chão de cerâmica frio, pisei tateando o dia, o despertar seco de um fevereiro sem Carnaval. Corri para pegar o carro, ir para a faculdade, aula de Filosofia, mas antes tinha ela, a educação física, e eu pensei algo como “mente sã, corpo são”, uma certa raiva de forçarem a gente a fazer exercícios àquela hora da manhã, mas não havia tempo para questionar, um, dois, um, dois, segura o abdômem, segue fazendo, sim, você consegue, vai, vai, não fui. Talvez me animasse com uma partida de vôlei ao final, mas o corpo doía das flexões e, na hora do salto, a queda - que queda. Feriu? Feriu? Uns arranhões somente, passa merthiolate, tem mercúrio?, mercúrio cromo, band-aid, bandaid. Sangrou, mas, como tudo que arranha, sangra pouco, só arde. Assopra que passa. E mal cheguei na cantina para almoçar já tinha a casquinha da ferida se formando. Me orgulhei das defesas do meu corpo, tantos anticorpos, glóbulos vermelhos espartanos, armados até os dentes, ninguém passa, nenhuma dor, nenhuma perda. E mal acabei de almoçar, a ferida ali, toda-toda, a ferida, assim, me dizendo “me esquece”, e Tiago aparece. Eu tropeço, me segura senão eu caio, Carol me segurou, mas magoou a ferida, de leve, roçou num canto de parede, aquela camada de casca sobrou, assopra, assopra, e Fabíola assoprou, ninguém sabia, mas foi tudo culpa de Tiago, esse tropeço, esse empurrão, e chegaria o dia em que, sem muletas, eu iria encostar Tiago num canto escuro e dizer que nem Neusa Suely, “bate, mas bate legal”, com a voz rouca de Vera Fischer naquela adaptação xinfrim de Plínio Marcos feita pelo picareta do Neville D’Almeida. Aula de Filosofia mancando, mas o texto era da Marilena Chauí e, nessa época, eu pouco me importava se a Marilena Chauí era de direita, de esquerda, se era lulista, FHCista, o escambau, eu queria ouvir Bethânia dizer que eu-tenho-esse-jeito-meio-estúpido-de-sere- de-dizer-coisas-que-podem- magoar-e-ofender e ir para casa escrever algumas coisas para Tiago e dançar até amanhecer no Boato aquela música que dizia but I’m here to remind you of the mess you left when you went away, raivosa, e entrar na pista vazia do Guitarra’s ao som de Wonderwall para ver se, do nada, do nada, você aparecia e maybe you’re the one that saves me. E você sempre aparecia. Do nada. Do nada. Com ela. E tinha a coisa de me vangloriar que eu passava a noite inteira e gastava R$ 10, só na Coca, na água, para não me embriagar e perder de te ver. E foi Fabíola quem me disse “Caio morreu”, assim, seco, sem preparar terreno nem nada, o morango mofou, o dragão finalmente foi conhecer o paraíso, uma pequena – grande – epifania. Era o fim. Ou o começo. Porque a pressa do começo do dia tinha me feito esquecer. 25 de fevereiro, hoje, é o aniversário do meu pai. E Caio no Menino Deus, vezenquando gente, vezenquanto alma, indo embora, lá em casa, bolo, coxinha, strogonoff de carne, arroz branco, batata palha, meu pai, 57 anos, descobriu uma doença na coluna, era o primeiro aniversário dele sentado. Sentado hoje e para sempre. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Sentado, deitado. Ver meu pai naquela cadeira automóvel-conversível diante da vela, diante do bolo, só me lembrava Caio Fernando jardineiro, dizendo que “girassol quando abre em flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor”. Mas girassol não se entrega. E a espada que o jardineiro coloca para segurar a flor do girassol é essa cadeira-muleta que leva meu pai, esse nascido sob o signo de Peixes, para um lugar em que a palavra que deve aparecer é “durar”. E diante daquele bolo, diante da doença que faz meu pai, a cada dia, esquecer um pouco de mim, eu lembrei que “não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?”. Foi depois de meu pai, com algum esforço, cortar o pedaço do bolo e dar o primeiro pedaço à minha mãe, que lembrei daquela frase de Henry Miller e que, me parece, era tudo o que Caio parecia dizer ao pai dele, naquele dia, 25 de fevereiro, em que, depois de tantos suores, tantos medos, tantos agostos secos, Porto Alegre cinza, depois de ser um estranho estrangeiro e de inventariar essa coisa chamada Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, essa Síndrome do Irremediável Abandono, Síndrome da Ineficiência do Afeto, Síndrome do Inefável Acanhamento, finalmente, num sopro de vida, Caio Fernando dizia, citando Henry Miller: “Agora eu nunca estou sozinho, na pior das hipóteses estou com Deus!”.


SOBRE O AUTOR
Thiago Soares é professor da UFPB e autor da dissertação Loucura, chiclete & som: A prosa-videoclipe de Caio Fernando Abreu.


Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=368:no-dia-em-que-caio-f-morreu&catid=23:cronica&Itemid=4

terça-feira, junho 28, 2011

Queria ter um arco-íris para pintar em cenas, metáforas e narrativas em looping por aqui hoje. Alguma coisa que falasse de orgulho, de não querer voltar sozinho para casa, de ler em voz alta um conto para alguém. Escrever ou reescrever alguma coisa grande, limpa e bem diferente do que diriam por aí ser pura. Fico devendo. Hoje deixo só a vontade, o desejo, o tesão. Esse sentimento/sensação que tem muitos nomes, precisa de muitos deles porque nenhum encerra, mas mais do que nomes tem cheiros, gostos, toque, pa-la-dar para dissolver assim devagar na língua. Podia ter um poema também, não fazia tanta questão de uma história (embora ficasse mais feliz se fosse uma em versos). Já que não é nada disso - mas já é alguma coisa quando é uma ideia, mesmo que não possamos cheirar ou tocar uma. Já que também não posso deixar um perfume nisso que não é um papel. [Eu me lembro bem do tempo em que as cartas de amor podiam ser perfumadas, eu lembro de quando existiam papéis de carta e a gente escolhia o mais bonito imaginando a cara que a pessoa faria quando abrisse o envelope - o que nos leva a crer que eu sou de um tempo muito brega]. Eu também sou do tempo que existia envelope e nem faz tanto tempo assim, mas as rupturas nos fazem querer agarrar alguma coisa do antes para lidar com a mudança. Mudanças são difíceis e como disse hoje uma amiga, nosso tempo é de muitas lutas. E do orgulho da minha luta, deixo um trechinho só para vocês que também lutam, que também têm orgulho de:

"Eu também não sei direito, às vezes eu, Patrícia, você sabe. Mas é estranho não saber. Acho que ninguém sabe. Deve ser mais confortável fingir que sim ou que não, você delimita. Mas acho que aqueles que acham que são compreendem melhor essas coisas" (Onde andará Dulce Veiga, romance de Caio Fernando Abreu)[itálico no original].

domingo, junho 26, 2011

Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rodando por aí feito roda-gigante e eu aqui, parada, pateta, sentada no bar.

terça-feira, junho 21, 2011

Je suis Venu te Dire Que Je m'en Vais

Je suis venu te dir'que je m'en vais
Et tes larmes n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
Tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait
je suis venu te dir'que je m'en vais
Tes sanglots longs n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu d'te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours heureux et tu pleures
Tu sanglotes, tu gémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait
je suis venu te dir'que je m'en vais
Et tes larmes n'y pourront rien changer
Comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
Je suis venu d'te dir'que je m'en vais
Tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
Tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
Des adieux à jamais
Oui je suis au regret
D'te dir'que je m'en vais
Car tu m'en as trop fait

sexta-feira, junho 17, 2011

‎Fechar as portas,
bater as portas,
trancar as portas.
Tragam-me chaves,
correntes, cadeados.
Dêem-me o claustro
que não suporto o outro. Ponham-me grades,
que não agüento o vivo!
(...)
O vômito.
Além do vômito,
a lágrima.
(...)
Além da lágrima, a prece,
Meu Deus.
Ou o cinismo.
(...)
Socorram-me
que me afogo em meu próprio sangue,
em minha própria mancha!


--------------------
Trecho da peça O homem e a Mancha, de Caio Fernando Abreu. [distribuição em versos minha]
Pouca disposição para as coisas pragmáticas. Mergulhada num êxtase estranho e completamente fictício. Ficção é bom. Mas fica faltando uma questão de honestidade básica, questão de não admitir os limites. O problema não está no que se quer comer, o problema está sempre na fome. Essa fome de vida que não cessa e não adianta tentar que não se traduz em palavras, não tem como simplificar, não tem como virar a cabeça para o outro lado ou lidar de outro jeito. A vida é agora, aprende.

O diabo dessa vida não é que entre cem caminhos diferentes nós temos de escolher um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. O diabo dessa vida é que há coisas sobre nós mesmos que a gente não escolhe. Há-que admitir que nem sempre a escolha é possível. Só podemos controlar a maneira como lidaremos com esse imutável. O desejo é inexorável. O não-desejo também. Há-que ter coragem para enfiar a unha na garganta. Angústia maior do que a de estar encruzilhado numa esquina sem rumo é admitir que não há rumo. Há uma questão de ser o que se é, pois abdicar da vida ainda não é opção. "Tem umas coisas que a gente vai deixando de ser, vai deixando de ser e nem percebe".

terça-feira, junho 07, 2011

Renovei os votos com a vida e combinamos que daqui para frente será assim: diariamente. Com direito a declarações toscas como sem-você-eu-não-vivo ou como-eu-pude-passar-tanto-tempo. Descobri que é hoje e pretendo descobrir diariamente. Então vamos?

domingo, junho 05, 2011

"De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem"

quinta-feira, junho 02, 2011

O tempo ainda nem passou e já se vão muitos anos percorridos numa temporalidade entrecortada. Ciclos, loopings de nostalgia de passado ou futuro - a vida aqui urgindo, rugindo, rangendo. As unhas que eu não rôo se desfazendo em falta de cuidado com o presente que passa. O mundo não pára para que eu conserte os pequenos cacos, o carpe diem não cabe nas necessidades de brigar pela sobrevivência todos os dias.

São muitos prazos e pânicos que me corroem, me batem, esfolam a pele de um jeito estranho e eu penso dividida no passado com ares de missão cumprida, toda Bem Resolvida & Madura esperando os sinais que vão aparecer aos poucos na pele e que já sempre estão aqui dentro: sinais de que o tempo não é algo que possa voltar atrás, a vida não se passa em mundos imaginários. Dito assim da maneira mais infantil, abismal e desesperadora.

É claro que eu já sabia. Eu sempre sei. Mas o saber não garante muita coisa.

Vai sim, vai ser sempre assim
A sua falta vai me incomodar,
E quando eu não agüentar mais
Vou chorar baixinho, pra ninguém ouvir.
Vai sim, vai ser sempre assim,
Um pra cada lado, como você quis
E eu vou me acostumar,
Quem sabe até gostar de mim.
Mesmo que eu tenha que mudar
Móveis e lembranças do lugar,
O meu olhar ainda vê o seu
Me devorando bem devagar.
Vem, que eu ainda quero, vem.
Quando menos espero a saudade vem
E me dá essa vontade, vem
Que eu ainda sinto frio
Sem você é tudo tão vazio
Vem me dar essa vontade,
Vem que esse amor ainda é meu.
Troco todos os meus planos por um beijo seu
E essa noite pode terminar bem.

terça-feira, maio 24, 2011

Oração da Banda mais bonita da cidade

Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor
Essa é a última oração pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe essa oração

quinta-feira, maio 19, 2011

Sonho de uma flauta (O Teatro Mágico)

Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz
Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa
Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá
A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração
A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum... E o mundo é perfeito
Hum... E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito
Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração
Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso
Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia
Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem aquele que parece feio
Mas o coração nos diz que é o mais bonito
Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

sexta-feira, maio 13, 2011

Estava fora do ar e as outras obrigações escrivocráticas trazem sérias tendências de uma grande produtividade nos próximos tempos. Tudo um lixo, é claro. Mas no fim, se peneirar exaustivamente, quem sabe.
Juntando letrinhas mesmo que seja assim nada his-to-rio-grá-fi-cas. Não que as outras tenham chance, menos ainda. Mas fica, sempre fica a vontade. O grande objetivo que na hora agá vem alguém e diz que não tem a menor importância qualquer coisa tá bom importante mesmo é. Eu sei bem, não me enganam, não adianta nada porque depois, bem depois, depois de tudo - todas as noites em claro, todas as frases sofridas, todo o esforço, leituras, releituras, problematizações e todo o resto - alguém vai dizer que ainda não é bem isso que, daqui a um tempo, algumas titulações, maturidade intelectual e sei lá mais o quê.
Enquanto isso escrevo. Uma página por dia. Meta inicial e já demasiado endividada.

segunda-feira, maio 09, 2011

"Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é?" (Trecho do conto Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu, presente no livro O ovo apunhalado).

sexta-feira, maio 06, 2011

Diário de um prisioneiro - parte II

Há também os períodos em que, sem nenhuma possibilidade de escolha, chega uma espécie de caminhonete fechada. É sempre à noite, reconhecemos pelo barulho do motor. Com uma batida ensurdecedora na grade, alguns de nós são acordados - a maioria não dorme quase nunca ou tem aquele sono-sonâmbulo de quem está sempre em alerta, para esses, a proximidade do motor faz as vezes de barulho-desesperador-no-meio-da-noite provando que não é mesmo seguro dormir - e convocados para entrar na parte traseira do automóvel.

Geralmente somos cerca de vinte num espaço onde não caberiam cinco pessoas bem acomodadas, mas o balanço da estrada chega a embalar um descanso para os que não são marinheiros de primeira viagem. Depois que você descobre que não vai morrer (e mesmo se morresse, não faria grande diferença) consegue aproveitar as golfadas de ar fresco que entra pela pequena janela. Os golpes de ar trazem uma proximidade com sensações prazerosas já há muito esquecidas.

O destino se revela quando o sol já está quase amanhecendo - e traz consigo alguns dias de trabalho forçado sob o sol quente.

quinta-feira, maio 05, 2011

"Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende?" (continuação do conto Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu, presente no livro O ovo apunhalado).

terça-feira, maio 03, 2011

Do meio de uma loucura estranha alguém surge e devassa a página límpida. Um timbre percorre por punição os ouvidos. A contradição dos olhos à espreita quando os dedos devem voltar-se em outra direção. Sentido. Idiomática. Círculos irônicos e concêntricos. Um certo fundamentalismo pasmo querendo aproveitar a deixa e despir-se em máscaras das mais floreadas. Toma: uma flor e uma prosa à guisa de poema:

"Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio?" (Caio Fernando Abreu, trecho do conto Para uma avenca partindo, presente no livro O ovo apunhalado).

terça-feira, abril 26, 2011

Diário de um prisioneiro

Às oito eles desligam o ar condicionado. Às luzes ficam acesas até no máximo 21h15. Já é difícil respirar o mesmo ar daqueles que vemos, perceber que eles têm a mesma cara de desespero do nosso rosto. A angústia de não ter um espelho revira-se de um jeito estranho, dá vontade de não ter nenhum tipo de reflexo, melhor o vazio do que o reconhecimento justo na parte que não queremos admitir de nós mesmos. Ser plural já é bem ruim.

Quando a luz se apaga a angústia maior é a de respirar o mesmo ar daqueles que não vemos. Imaginamos apenas os olhares desesperados uns dos outros. Procuramos o branco dos olhos, a referência de desenho animado sem encontrar nada além das respirações entrecortadas, ofegantes, passando entre si goles de ar feito brincadeira de telefone sem fio.

Enquanto ela não chegar

Quantas coisas eu ainda vou provar
E quantas vezes para a porta eu vou olhar
Quantos carros nessa rua vão passar
Enquanto ela não chegar
Quantos dias eu ainda vou lhe esperar
E quantas estrelas eu vou tentar contar
E quantas luzes na cidade vão se apagar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Quantas besteiras eu ainda vou pensar
E quantos sonhos no tempo vão se esfarelar
Quantas vezes eu vou me criticar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar

segunda-feira, abril 25, 2011

Medo de tragédias e de seguidores que surgem do nada (mas sejam bem vindos, é claro). Medo de ser vista, lida, exposta. Medo de gatos que destroem a casa. Medo de que a luz acabe, apague. Medo da solidão minha e outra, da distância, do frio da chuva da noite da saudade da repetição da falta de pontos e da explicação gramatical desenfreada. Complemento nominal, regência nominal que carece de preposição embora muitas vezes explicação falte.

Medo a gente espanta com preces e vela para São Jorge - eu tô só esperando, eu vim pra lhe ver. Mas nada vai nos separar daquilo pelo que lutamos nessa vida, nada vai nos separar da paz com que sonhamos tanto tempo.

terça-feira, abril 19, 2011

Como se fosse a primavera (Chico Buarque)

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril

Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
E eu morrendo
Eu morrendo

Lugar de memória

Perseguindo um passado estranho. Paredes que já não são amarelas. Cadeiras coloridas.
Algumas mesmas vozes, alguns mesmos rostos.
Mas alguma coisa mais abstrata, algo que se formou ali. Uma áurea de uma vontade enorme e errante de não se deixar perder.
Talvez eu esteja voltando para procurar. Pode ser que lá seja o terreno confortável onde é possível ter algumas certezas. Artificiais, superficiais. Era bom quando eu ali as ganhava. Só não sei como fazer para construí-las agora.
Vida cíclica, geograficamente cíclica. Trabalhosamente cíclica. Podia ter sido acaso, mas é vontade, esforço, muito esforço até.
Diziam tanto sobre o que seria no dia que fosse rompida a placenta amarela de concreto e grades azuis. Ninguém nunca disse que poderia ter volta. Nem tanto tempo depois, nem tanta vida depois. Volto de um mundo bem maior agora, maior do que imaginei nos melhores sonhos. Espero que lá me deem o direito de contar que.

terça-feira, abril 05, 2011

Sempre a crise do fim e a vontade de fim pela vontade de crise
o fim provocado em começo
o eixo feito de choro
o choro feito de saudade

domingo, março 27, 2011

Algumas palavras porque o silêncio desgasta a vida. Algumas palavras porque a vida dessignificada não faz sentido. Algumas palavras porque não tenho direção para substituí-las. Algumas palavras porque a vida urge, não para, porque a língua muda e me tira os traços habituais. O tempo não me lavrou a cara ainda, mas a alma vai de pouco em pouco ficando com esses sulcos esculpidos à navalha afiada – de tão finos, é preciso um olhar muito atento para perceber. Algumas palavras para provar que a vida é minha ainda, para tomar aquele tão falado lugar de sujeito. Palavras que esgarçam estradas no peito e viram rima boba da sujeira de uma cidade poema. Algumas palavras para que valha a pena.

Receita pra lavar palavra suja

(...)

Conviva com a palavra durante alguns dias.

Deixe que se misture em seus gestos, que passeie

pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,

não a seu lado mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,

prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar essa convivência até não mais

perceber a presença dela,

então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.

quarta-feira, março 09, 2011

Acabou
Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado

Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado


quinta-feira, março 03, 2011

"Descobri faz algum tempo que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas. Ocupo-as então, fazendo coisas que depois disponho pelos cantos".

(Trecho da novela O Marinheiro, em Triângulo das Águas)