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terça-feira, outubro 25, 2011

Fruta da estação

Sentia a proximidade das peles que não se tocavam, deveria existir um verbo para expressar apenas esse não toque, essa presença. Como quando a gente está em cômodos separados, mas se houve em ruídos, se vê em reflexões dos vidros dos móveis, se escuta nas pontas dos dedos que poderiam ser distantes, às vezes são, mas não sempre. Os pêlos que já não têm acento eriçam nessa indecisão provocante do semi-toque. Como quando você me liga para perguntar um caminho que tem plena certeza de que eu desconheço só para ouvir que não me importo de tentar descobrir junto com você. Como quando viramos noites em tarefas que passam a ser em dupla, trabalhos, relatórios, projetos, contos, aulas - porque as pessoas não sabem que a vida é em couple em tempo integral. E a gente se participa, confunde os temas e se pega gostando mais de uma coisa que nem é nossa - e nem existe para lado nenhum esse limite da possessividade.

Vamos ver um filme só para esquecer um pouco os problemas da vida? Vamos arrumar a casa só para esquecer um pouquinho os problemas de dentro? Vamos arrumar o cabelo, as unhas, as frases para esquecer um pouquinho que a vida é grande, grave e incerte? As roupas se misturam numa vaidade completamente perdoável. Nos misturamos e distanciamos numa oscilação de respiração ofegante de quando uma chega correndo para contar à outra que. Às vezes dormimos abraçadas e acordamos em disputa, às vezes a raiva pequena me faz querer olhar para a parede fingindo que nela não tem um espelho, mas quando acordo nada faz sentido antes de te olhar e ver que você ainda está aqui.

Adoro saber que o tempo vai passando e a gente vai construindo - assim, no gerúndio que indica ação em andamento e simultânea - coisas mais profundas. O erro foi acreditar que acharíamos as coisas todas prontas no caminho, talvez numa estrada de pedras coloridas. Quando abrimos a porta e vimos que não havia nada lá, não imaginávamos o quanto seria longo, intenso, saboroso, construir aos poucos, a cada dia, o nosso caminho.

Sabe aquele sentimento disforme que eu te mostrei num texto ainda escrito à lápis e você me falou em sussurros em outra língua? A gente foi falando, moldando, provando, vivendo, fazendo, definindo... E muda, como muda de planta, homonímia, cresce, tomba, muda de cor, brota, floresce, resseca, chega perto do céu, tomba no chão, vira adubo, vira jardim, desdobra em breguices, pieguices e originalidades.

Não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo de casa de vida de cabelo de roupa de comida de país de trabalho etc. etc. etc. etc. - as minhas mãos vão estar coladas às suas.

E hoje não é vinte e nove.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Não se incomode


O que nos faz gostar de um texto, um livro, uma música etc.? Depois de um debate de que participei semana passada, em que um autor de quem gosto muito foi severamente criticado (um doce para quem adivinhar qual é o autor) fiquei pensando nos motivos que me fazem gostar das coisas e conclui que geralmente é a identificação. Já vi e li algumas tentativas de descrição da arte que passavam pela frase "Quando alguma coisa toca". Do alto de meu egocentrismo, eu percebi que só costumo achar alguma coisa digna de nota quando ela "me toca", no sentido de proporcionar reconhecimento. Quando, em certo sentido, eu me vejo definida por um texto, uma música, um quadro etc.


Livro que eu aos 11 anos, acho.


Afora os meus problemas de formação identitária, percebi que existe um problema grande nesse tipo de relacionamento com a arte ou mesmo com o conhecimento - para colocar os textos acadêmicos no bojo. É que a identificação nos coloca numa situação de conforto que considero bastante perigosa.

Num movimento paradoxal se comparado a essa postura que acabei de mencionar, eu sempre tive como uma outra definição para a arte a de que é algo que transforma as coisas ou, mais pretensiosamente, a sociedade. Artistas são pessoas que questionam, mudam, nascem desconfortáveis no mundo.

Tem uma frase que sempre me vem na cabeça e nunca sei se é da Hannah Arendt ou da Clarice Lispector (não sei à qual das duas devo pedir desculpas, peço a você, leitor, pela imprudência da flata de precisão), é algo como a gente sempre fazer as coisas para tentar se sentir em casa no mundo. Tá aí o problema, se a gente está desconfortável, acha alguma poesia bonita de alguém que também já esteve e pronto, supostamente a angústia está saciada e podemos continuar a nossa marchinha de ovelhas.

Cartaz do movimento Maio de 68 na França

Tenho pensado que o desafio da arte - e aí eu me estendo para o conhecimento de modo geral - é lidar com o estranhamento, com o que não diz respeito a nós, para aí sim, construir o que é esse nós (que pode ser preferível, mas não exclui o construir um eu) e ao invés de tentar se sentir em casa no mundo, construir um mundo em que a gente se sinta em casa. Difícil? Deve dar um trabalhão, né? Como uma professora minha costuma dizer, o problema de desconstruir algo é ter de construir outra coisa para colocar no lugar.


segunda-feira, outubro 17, 2011

Tia Aila, tia Fátima, tia Deise, tia Val, Adriana, Vera, Danuza, Dona Ida, Elenice, Léa Anastassakis, Moema, Adriana de novo, Sônia, Luciene, Celso (ainda!), Lourdes, Rosa Maria, Mônica, Elza, Elba, Gilda Vermeule, Regina, Marcus, Ângela, Kaká, Jackie, Fabiana, Daniel, Alessandra, Jorge, Kátia, Celiza, Magda, Cristina, Gal, Patrícia, Fanny Pomp, Patrícia outra, Roberta, Zé Cláudio, Polyana, Marcelo Beauclair, Rinaldo (por que não?), Luiz Alfredo, Eunice, Adão, Maria Alice, Lúcia, Manoel Luiz Salgado Guimarães, Murilo Sebe, Jessie Jane, Pedro Duarte, Jacqueline Calazans, Andréia Frazão, José Ricardo Ramalho, Juliana Beatriz, Flávio Gomes, Denilson Botelho, José Murilo de Carvalho, Alcilene Cavalcante, João Fragoso, Flávia Guerra, Tatiana Poggi, Douglas Átila, André Lemos, Naiara Damas, Francisco Carlos, Marcella Estevez, Mariana, Thais, outra Mariana, Mônica Lima, Wagner Pinheiro, Giovana Xavier, Dilene Nascimento, Jussara Macedo e tantos outros que o nome talvez tenha escapado mas que participaram um pouquinho. Minha lembrança, ainda que atrasada, pelo dia dos mestres.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Quem é mais vulnerável ao preconceito?

Domingo passado teve Parada Gay em Copacabana, terceiro maior evento cultural do Rio de Janeiro, segundo o Grupo Arco-Íris. Não sei se isso é algum tipo de mérito, fico mais tentada a acreditar que esse é mais um argumento para os que criticam a participação que as boates têm nessa história. Não quero entrar nesse mérito da questão, para mim, a grande importância do evento consiste na visibilidade provocada pela avenida Atlântica pintada das cores do arco-íris e dizendo que uma grande parcela da população é privada de muitos direitos. Aliás, bato palmas para o destaque muito maior dado às frases de luta e, para os críticos de plantão, o menor espaço que as boates tiveram esse ano.

Milhares de pessoas já estão na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a expectativa da organização é de 1 milhão de participantes. Foto: Gabriel Macieira/Especial para Terra

Além de tudo isso, entre os objetivos da Parada estão a divulgação de informações consideradas importantes para a comunidade LGBT (perdoem se a sigla estiver errada, é que muda muito...). É aí que está a pergunta que está na minha cabeça desde domingo e que me leva a escrever isso aqui agora: consideradas por quem?

Durante o evento, sempre são distribuídos panfletos sobre assuntos como criminalização da homofobia, religião (ao contrário do que conservadores de plantão podem pensar, me refiro a panfletos de igrejas que acolhem homossexuais), união estável, propagandas de boates e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Até aí, tudo bem, informação nunca é demais. O problema está em um desses papeizinhos que fala da importância de prevenção devido à maior vulnerabilidade da população LGBT ao contágio de algumas doenças.

Reproduzo aqui o trecho pois não encontrei o folder inteiro no google (pasmem!) e estou com preguiça de scannear: "O Ministério da Saúde preconiza e disponibiliza a vacina [contra hepatite b] no Sistema Único de Saúde (SUS) para os grupos de maior vulnerabilidade, independente da faixa etária. Entre eles, destacamos: Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais; mulheres que fazem sexo com mulheres; homens que fazem sexo com homens".

Além das dúvidas que tenho quanto essas duas últimas "categorias" sexuais (quem sou eu para rotular se as pessoas querem criar mais uma?), fiquei me perguntando sobre o embasamento biológico dessa vulnerabilidade, já que a cartilha do Ministério da Saúde sobre o assunto descreve as formas de contágio sem apontar esses grupos de risco.

O mesmo folheto incentiva a realização do exame que diagnostica a presença do vírus HIV. Claro que realizar o teste é importante, mas... Eu não sou ingênua a ponto de perguntar quem foi que disse que homossexuais são as vítimas preferidas da Aids, porque eu sei que muita gente já disse isso. Não querendo me valer do órgão oficial da saúde como única verdade sobre doenças, mas no que diz respeito à Aids, o Ministério menciona sim os homossexuais. Entretanto, ao contrário do que muita gente ainda pensa, para dizer que os cuidados relativos à população LGBT nesse caso se deve ao estigma e ao preconceito imputados. Para o espanto de muitos, o portal destaca ações específicas de prevenção entre jovens, mulheres e presidiários.


Obviamente, nem tudo são flores no reino do Ministério da Saúde, já que até a campanha que critica o preconceito (acho muito legal o slogan "A Aids não tem preconceito, você também não deve ter") diz que as pessoas são corajosas por exporem sua soropositividade. Não sei se esses jovens-selecionados-de-acordo-com-o-padrão-de-beleza-vigente são realmente soropositivos, procurei o site indicado para ter maiores informações e - tcharam! - o link está corrompido (o que também explica essa imagem pela metade aí, desculpem). Acho importante que as pessoas desassociem a doença daquela imagem do doente terminal dos anos 1980, mas acho pouco provável que substituir pelo padrão de beleza dê conta de desconstruir preconceitos. Para mim, Aids não tem cara e ponto.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Tem algum tipo de incompatibilidade, desarmonia para além do desânimo. Sei que não tem cura. Sabemos que não. Não é doença. É só uma coisa que não sabemos o que é e vai ficando e neblinando as coisas, as pequenas coisas, as pequenas farpas que a gente já não faz questão de guardar, os pequenos cuidados e carinhos que a gente vai deixando pra lá. A vida anda sem literatura - e também sem vontade de ler. Anda silenciosa, sem vontade de ouvir, falar, escrever. Anda um dia atrás do outro, tentando não pensar nas coisas grandes, mas até as pequenas têm sido assim. E vão passando os dias, vários, sem que a gente saiba como vai ser.

terça-feira, outubro 11, 2011

Eu nasci bem depois do que eu gostaria, mas apesar da ausência de cartas que povoa o meu mundo, a greve dos correios ainda consegue parar muita coisa. Sinto saudades de um tempo de confissões graves, faz muito eu me fechei num casulo estranho, vazio, vazio. Por opção, eu acho (o vazio e o trancamento), apesar da minha cara de quem nunca escolheu nada na vida.

quinta-feira, setembro 29, 2011


Escrevo só e ando só. Já faz tanto tempo que desaprendi a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. Principalmente a corpórea. Aí eu fico esperando um algo que aconteça dentro ou fora de mim, uma epifania que me dê algum caminho, já que eu não engano ninguém e nem quero enganar. Me afastei de gentes. Não sei mais o cheiro ou a textura que as pessoas têm. Não sei o que vou fazer nem amanhã nem no próximo mês ou no próximo ano. O mar aberto tem ondas revoltas, batem geladas no rosto toda hora, deixam mareada, com vontade de voltar para a terra firme.

Voltar nunca é possível. As metáforas são frágeis. O momento presente é o pedaço frágil de patim cujas fraldas eu sempre esqueço de trocar, ou finjo que esqueço por falta de vontade. Queria uma rotina, uma prisão daquelas com cartão de ponto e tudo, contanto que acabasse bem na hora de ir embora, não fosse junto comigo para os momentos outros, não ficasse martelando o texto para revisar, a aula para terminar, a fonte para pesquisar, a greve para atrapalhar. Segurança e liberdade não podem ser simultâneas.

Todo mundo odeia televisão


Durante toda a minha adolescência-tentativa-de-pseudo-intelectualidade eu dizia que quando tivesse minha própria casa nunca mais assistiria à televisão, que eu odiava aquilo, que atrapalhava a minha vida, que a culpa dos meus problemas de concentração era daquele aparelho ligado o dia todo etc.

Bem, eu realmente posso contar nos dedos das mãos as vezes em que a tevê daqui de casa (que de própria não tem nada, aliás) foi ligada e não vou mudar a frase de que atrapalha a minha vida, mas não tenho como negar que todas as vezes em que vou visitar minha mãe eu assisto. Também não posso negar aquele argumento de que a mídia manipula as massas, nos diz quem devemos querer ser, quem somos, quem não somos e tal. Contudo, já faz algum tempo - graças a deus!? - que eu deixei de tomar explicações assim tão simplistas para as coisas e acredito que nada é tão homogêneo e perfeito assim.

Isso tudo só pode ser mesmo um preâmbulo para eu dizer que gosto de televisão (desde que apreciada com moderação e muito senso crítico). Não faz assim tanto tempo que eu saí da casa da minha mãe e parei de passar todo o tempo com a caixinha colorida sorrindo para mim, mas percebo hoje o quanto a minha memória e as minhas principais referências para várias coisas na vida estão relacionadas aos programas, às novelas e, principalmente, às propagandas. Perco a conta de quantos textos publicitários me vêm à mente em momentos variados do quotidiano.

Entretanto, eu estou aqui para falar bem desse instrumento adestrador de criancinhas, não é mesmo? Então, nessas minhas visitas vespertinas à casa da mamãe não raro o horário coincide com um seriado que eu adoro: Todo mundo odeia o Chris.

Sempre que eu vejo os percalços da vida do adolescente num perigoso e estereotipado bairro de periferia e numa escola onde é o único aluno negro, eu me lembro de um outro seriado que acompanhou a minha infância, pré-adolescência e adolescência (sim, nós sabemos que 1. esses seriados costumam ter muitas temporadas; 2. O sbt nunca teve pudores para repetir mil vezes a programação; 3. Nós também nunca ligamos de assistir ao mesmo episódio 50 vezes, até decorar todas as falas): Um maluco no pedaço.


Não precisa de grandes explicações para traçar paralelos entre os dois seriados, não é? Contudo, o recente sucesso do Chris entre os meus alunos - e a variedade de exemplos que consigo retirar dos episódios para abordar em sala temas como racismo, segregação racial, desigualdade e preconceitos em geral - me fez pensar na importância que esses seriados têm na construção da identidade de muitos jovens. E isso se dá pelo mecanismo simples da identificação, nos mesmos mecanismos da mídia - está lá um personagem (nesse sentido, mais o Chris, porque afinal o Will estuda numa escola particular caríssima em Bel Air) que é um garoto pobre, negro, estigmatizado e, diferente do que pretende a professora da escola, normal.

Além disso, o seriado aborda outras questões corriqueiras como a exploração do trabalho infantil, o subemprego, o bullying, este tão na moda, etc. Sem falar no divertimento que é assistir a tudo isso naquela dublagem super bem feita. Não vou fazer a propaganda completa (sim, o que eu estava fazendo era só um comentário crítico, entendeu? Eu não sou uma criança deslumbrada com a televisão, ouviu?) porque além de não gostar muito da emissora que transmite a série, não faço ideia dos dias e horários em que é transmitida, vou sempre na sorte.

terça-feira, setembro 13, 2011

De onde se conclui que nada vai dar certo. De onde se conclui que não há conclusão. De onde se conclui que não adianta ser uma das poucas pessoas do mundo que sabe a transitividade do verbo implicar ou o uso correto da crase. Não faz a menor diferença na página em branco. Eu quero trocar de mim. Eu sempre quis trocar de mim mas ninguém deixou. Eu não quero ir a lugar nenhum. Eu queria um pouco de apoio, mas as coisas sempre me parecem incongruentes e no fim das contas eu sempre sou a menina mimada. Isso não me ajuda em nada. Dizer isso não me ajuda em nada, continua a sensação de que ninguém se importa e nada faz sentido. Porque nada faz sentido e eu não faço nada a não ser construir essa minha escrita de si de desempregada e perdida na vida. Eu não tenho nenhum objetivo em estar viva e não tenho uma dose salvadora de digitalina nem uma janela convidativa. Eu não tenho coragem para nada. E continuo na minha eterna solidão. Não consigo manter um pensamento racional por tempo suficiente que me permita fazer algo. Eu não sei inglês, não sei ser submetida à análise, não quero dar o dinheiro que eu não tenho a psicólogos com cara de babaca. Vou enlouquecer sozinha, pobre e desempregada. Morrer de falta de amor e falta de motivação forte o bastante para renunciar à vida.
Eu tenho um plano. E se sair daqui agora e me arrebentar toda, tudo bem também, porque na verdade eu não vou mesmo a lugar nenhum. É que eu tô sozinho há tanto tempo que eu esqueci o que é mentira e o que é verdade em volta de mim - e o papel e o papel pra acabar.
Eu, tão farsa. Tão arquivos emprestados, entrecortados-que-nem-sei-se-têm-hífen. Eu, tão à flor da pele. Tão crise existencial. Tão sem destino, futuro, segurança, caminho, perspectiva. Eu, tão vaga, tão porra-nenhuma, poço de insegurança, página em branco, futuro incerto, horas perdidas no nada. Eu-improdutividade, concordância falha, farpas distribuídas, música repetida, ameaça viva. Eu, auto-destrutiva pela falta de fé. Falta de referências e sem nem mesmo as origens trágicas da erudição. Eu sem-destino. Eu desvio, mas sem conjugar o verbo e sabendo que não dá pra saber pelo que eu digo. Eu que nem escrevo nada, nem digo nada, sem sou capaz de enganar a mim mesma para empreender um esforço intelectual. Eu, que não nasci para ter essa palavra junto. Eu, que invejo a experiência limite, tiro onda com meu francês torto. Ensaio frases que não se concretizam. Orações longas sem nenhum período, simples ou composto. Eu, composta de meia-dúzia de argumentos diletantes. Eu, que nem sei usar essas palavras pernósticas, que nem tenho essas leituras, essa coragem, essa cara de pau. Eu, que nunca colocaria a cara a tapa, nem compraria o veneno, nem a briga, nem publicaria nos mais vendidos ou no jornal o que quer que fosse de grave. Eu não me esconderia atrás de ninguém e tampouco me exporia. Eu, com meu egocentrismo torpe que já não me aguenta já faz tanto tempo, e não tem paciência pra reinventar, inventar, fazer, simplesmente. O problema simples do sim na palavra. O elogio do sofrimento. Eu não sei me defender e fico fazendo cara de menina mimada, que arruma o cabelo e o vestido só para alguém dizer que está bem arrumado. Eu nem arrumei e também ninguém disse. Eu sei que ninguém vai dizer e o silêncio da solidão e da falta de tudo é só um desespero sem fim. Eu desaprendi a linguagem que os outros usam para se comunicar - se é que um dia eu soube. Eu perdi aquela coisa que alguém me deu para guardar e pediu que não perdesse de jeito maneira. Eu perdi a vocação para muitas coisas. Me perdi e não quero procurar num consultório de analista - e também sei que não tem mais onde chafurdar sozinha e não adianta esperar milagre e não adianta nada a não ser tentar. Coisa mais auto-destrutiva porque sem fé nenhuma. Nem tez azeitonada, nem niño pez. Os bons filmes e bons livros passam e deixam a sensação de impotência diante das coisas, da vida. Nada é tão grande quanto as minhas palavras - e eu nem nunca tive domínio de cena para um suicídio. Eu crio intrigas para me sentir viva. Preciso brigar e espernear diante do irrefreável da morte. Preciso sentir o que eu não posso viver. A experiência limite. A paixão injustificada que eu preciso justificar nos termos mais academicistas que conseguir. Mas não consigo mais cortar e colar frases velhas. Queria algo novo, algo vivo, algo intenso. Que fizesse e desse sentido. Que ardesse como faca cortando, como o desespero de se saber da morte. Eu não sei nada, eu não tenho nada, eu não escrevo nada.

segunda-feira, setembro 12, 2011

E se uma nova paixão surgir no último minuto? E se a angústia for maior do que se pensava? E se a coragem, a cara à tapa, o senso de realidade, o enfrentamento, a construção, e se tudo for ainda maior, mais denso, mais mergulhável do que se pensou? (Sujeito indeterminado: minha mente estreita, egocêntrica, limitada e com menos leituras do que poderia).

A gente sempre sabe que a vida é maior, que o horizonte de possibilidades é mesmo um horizonte inatingível. Mas continua buscando e descobrindo novas tonalidades de poente no meio da estrada.

Eu quero tentar.
Sonhei que a vida era um sanduíche que eu engolia com náusea.
Precisando rever minhas metáforas ou tomar um remédio pro estômago?

quinta-feira, setembro 08, 2011

Ninguém escreve aquilo de que se lembra. Talvez o que não sai da cabeça. Porta-esquecimento. Expurgação. Escrevo para não escrever. Preciso de objetividade. Simples-fazer. Simples-fazendo. Simples.

Trilha sonora

Um apelido que se desdobra em doença porque tinha de ser, porque as teorias se desdobram em coisas mais. Encontrar caminhos, procurar caminhos, perder caminhos, caminhar. Gradativamente. Cada passo. Repetitivamente. Falta gente, uma boa música e uma cerveja gelada no fim do dia. Quando não tem começo não termina e quando termina antes de começar todos os dias só porque tem trilha pronta. Sonora, porque as solas dos sapatos estão novas e tilintantes esperando que alguém lhe diga aonde ir.

Sim, porque saber apenas a transitividade do verbo nunca serviu de nada a ninguém. Espera sentada, olhando os pés que não tocam o chão no auge de seus cinco anos de idade. Sacudindo-os de expectativa, como quem sabe que vai receber um elogio. Sempre esperando uma veneração que lhe dê sentido. Um sorriso de aprovação, uma estrela no caderno.

O silêncio e a espera lhe sorriem de volta, mas um sorriso irônico dizendo que não há o que esperar, que caminho a gente trilha com os próprios pés. Observa-os inquietos e incapazes. Conclui que precisa de um novo par de sapatos que estes não estão condizentes com a situação. Desce da cadeira com esforço - é mesmo alta - enquanto grita com os pulmões cheios para alcançar a cozinha:

- Manhêê! Me compra um novo par de sapatos?

Antes que a resposta venha, substitui a expectativa por uma aflição fingida sobre a cor dos ditos.

quarta-feira, agosto 31, 2011

Deu vontade de escrever alguma coisa séria. Mas é que eu tenho preguiça. Tanta preguiça quanto se pode ter às duas e meia da manhã, depois de ter dado aulas durante toda a tarde e preparado aulas durante toda a noite. Pode ser que seja só cansaço misturado ao hábito de ser muito dura comigo mesma. Às vezes eu sou.

Sou quando acho que todas as coisas são grandes e eu não posso transformá-las em pequenas e simples. Sou quando me recuso a ser uma pessoa comum, que simplesmente faz as coisas e vive os dias - tento me convencer de que tudo precisa ter uma razão maior, um sentimento mais fundo. Um egocentrismo mal trabalhado? Talvez.

Mal trabalhado e mal resolvido porque me faz remoer por eras os pequenos detalhes e deixar sempre o mais importante para quando as forças - e o saco, a paciência - já se exauriram. Tudo termina capenga, pela metade, ou não termina mesmo. Transformo as coisas em grandes dramas, pinto de dramas épicos detalhes pelos quais todo mundo passa na vida. Todo mundo passa, sobrevive e parece que nem dói.

O problema pra mim é esse. Para mim sempre dói. Nunca é tão simples. E sempre é cheio de palavras como sempre, nunca. Como uma descrição de uma criança de quatro anos de idade.

Acontece que a paciência acabou até para a explicação cotidiana de que tudo (olha ela aí de novo) se resume ao fato de que eu sou uma criança mimada. Acontece que tudo não existe, nem fato - e se espremer muito, nem explicação, eu ou existir.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Asas cortadas


Me transformando em um cisne e a dor é necessária. Tudo é necessário, perigoso, divino-maravilhoso - na música é claro. Na vida real é a pele se abrindo, a carne rasgando, os rasgos alastrando em dor insuportável. Valerá à pena? Perguntaram. Alguém respondeu com um verso escrito à caneta bic roubada e já falhando: Ritos de passagem passam; há-que passar. Parecia um provérbio antigo ou sorte de biscoito oriental. Desses que não faz sentido porque faz parecer que a nossa vida devia ser maior do que realmente é. Devia ser mais cifrável e dizível em provérbios.

E a alma? Se perguntou de que tamanho estaria agora. Teria crescido ou encolhido nesses tempos todos? Essas coisas de penas, almas e valores eram muito para ela. Eram muito à essa altura da vida quando não se tinha quase nada. Só tinha uma meia dúzia de palavras que poderiam ter sido grandes num passado, mas já lhe tinham chegado gastas e desbotadas. Não tinha muita cor nem para onde correr.

Entrou no carro esperando estradas longas, noites frescas, ventos revigorantes. Faltava dar a partida. Não tinha carteira, gasolina, mapas. Não tinha nada além das asas que cresciam discretas ferindo as omoplatas. Tinha que matar uma parte - era o que pensava enquanto saía batendo portas pequenas demais para o tamanho de sua fúria. Quis correr por dentro de uma floresta densa ou um campo aberto até as pernas obrigarem a parar. Quis sentir o pulmão vivo, ofegando, pedindo para continuar vivo, mostrando que lutaria por mais um fôlego cada vez que fosse necessário.

Do lado de fora do carro o concreto lhe sorriu irônico. Muitos carros não lhe sorriram nem expressaram nenhum sentimento, parados sobre o asfalto. Uma viatura da PM à certa distância mostrou que não teria dado certo dar a partida no carro. Também não havia para onde correr. Nenhum precipício no final da floresta imaginária.

Os pés ainda agitavam-se pedindo passos firmes, fortes, ritmados e constantes. Ou que levassem a algum lugar apenas. Qualquer lugar. Que a levassem. Já não queria estar ali tão presa no desespero tão interminável, escuro, envolvente. Caiu de desespero no chão frio. Quando percebeu, tinha uma lama pegajosa em volta. Percebeu que era ali que devia estar e a opção era descobrir que um dia as asas terminariam de crescer. Doeria muito? Demoraria muito? Perguntaram. Ninguém respondeu.
Sempre uma tentativa de reconciliação. Sempre uma vontade de reencontrar o que nunca tive. a tal sensação impossível de estar em casa no mundo. Aceitar o passado, simples-fazer as coisas, o que é preciso, todo o tempo. Fazendo no automático? E o sentido, como faz? Vai pra onde? Eu já nem quero uma série de coisas e preciso sim de respostas externas porque de dentro parece que é tudo loucura. Sempre é e sempre tem palavras grandes na falta de achar o tom e a conciliação também com as coisas e palavras pequenas. Pequenos prazeres, pequenas coisas. E tudo deve passar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Falta a abdicação do ofício. O arregaçar as mangas e assumir o esforço - e depois o risco. Falta entender que escrever é reescrever, treescrever, talhar palavras num trabalho que não tem a beleza, a áurea que se imagina. A vida mesmo não tem. Não tem glamour no processo. Falta a conformação para encontrar a beleza pura, a beleza real de assumir as próprias imperfeições. Como olhar no espelho, como ver surgirem os calos nos dedos, as olheiras nos olhos.

Como um exercício escolar, diferenciar a estética do belo. Aprender a função que têm nas palavras e que função não se desprende do maior.

(E eu tão pequenininha...)

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.