terça-feira, outubro 25, 2011
Fruta da estação
Vamos ver um filme só para esquecer um pouco os problemas da vida? Vamos arrumar a casa só para esquecer um pouquinho os problemas de dentro? Vamos arrumar o cabelo, as unhas, as frases para esquecer um pouquinho que a vida é grande, grave e incerte? As roupas se misturam numa vaidade completamente perdoável. Nos misturamos e distanciamos numa oscilação de respiração ofegante de quando uma chega correndo para contar à outra que. Às vezes dormimos abraçadas e acordamos em disputa, às vezes a raiva pequena me faz querer olhar para a parede fingindo que nela não tem um espelho, mas quando acordo nada faz sentido antes de te olhar e ver que você ainda está aqui.
Adoro saber que o tempo vai passando e a gente vai construindo - assim, no gerúndio que indica ação em andamento e simultânea - coisas mais profundas. O erro foi acreditar que acharíamos as coisas todas prontas no caminho, talvez numa estrada de pedras coloridas. Quando abrimos a porta e vimos que não havia nada lá, não imaginávamos o quanto seria longo, intenso, saboroso, construir aos poucos, a cada dia, o nosso caminho.
Sabe aquele sentimento disforme que eu te mostrei num texto ainda escrito à lápis e você me falou em sussurros em outra língua? A gente foi falando, moldando, provando, vivendo, fazendo, definindo... E muda, como muda de planta, homonímia, cresce, tomba, muda de cor, brota, floresce, resseca, chega perto do céu, tomba no chão, vira adubo, vira jardim, desdobra em breguices, pieguices e originalidades.
Não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo de casa de vida de cabelo de roupa de comida de país de trabalho etc. etc. etc. etc. - as minhas mãos vão estar coladas às suas.
E hoje não é vinte e nove.
quarta-feira, outubro 19, 2011
Não se incomode

segunda-feira, outubro 17, 2011
quinta-feira, outubro 13, 2011
Quem é mais vulnerável ao preconceito?

quarta-feira, outubro 12, 2011
terça-feira, outubro 11, 2011
quinta-feira, setembro 29, 2011
Escrevo só e ando só. Já faz tanto tempo que desaprendi a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. Principalmente a corpórea. Aí eu fico esperando um algo que aconteça dentro ou fora de mim, uma epifania que me dê algum caminho, já que eu não engano ninguém e nem quero enganar. Me afastei de gentes. Não sei mais o cheiro ou a textura que as pessoas têm. Não sei o que vou fazer nem amanhã nem no próximo mês ou no próximo ano. O mar aberto tem ondas revoltas, batem geladas no rosto toda hora, deixam mareada, com vontade de voltar para a terra firme.
Todo mundo odeia televisão

Durante toda a minha adolescência-tentativa-de-pseudo-intelectualidade eu dizia que quando tivesse minha própria casa nunca mais assistiria à televisão, que eu odiava aquilo, que atrapalhava a minha vida, que a culpa dos meus problemas de concentração era daquele aparelho ligado o dia todo etc.
terça-feira, setembro 13, 2011
segunda-feira, setembro 12, 2011
quinta-feira, setembro 08, 2011
Trilha sonora
quarta-feira, agosto 31, 2011
segunda-feira, agosto 22, 2011
Asas cortadas
Me transformando em um cisne e a dor é necessária. Tudo é necessário, perigoso, divino-maravilhoso - na música é claro. Na vida real é a pele se abrindo, a carne rasgando, os rasgos alastrando em dor insuportável. Valerá à pena? Perguntaram. Alguém respondeu com um verso escrito à caneta bic roubada e já falhando: Ritos de passagem passam; há-que passar. Parecia um provérbio antigo ou sorte de biscoito oriental. Desses que não faz sentido porque faz parecer que a nossa vida devia ser maior do que realmente é. Devia ser mais cifrável e dizível em provérbios.
quinta-feira, agosto 11, 2011
Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[538]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.