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domingo, maio 13, 2012

Je vais prendre ta douleur, Xuxu!

"Mãe é um papel social construído" é o que eu deveria te dizer hoje. E que algumas pessoas não aprenderam direito, não desenharam direito o que deveria ser ou aprenderam de outra forma. Mas não é isso o que vou te dizer hoje e agora.

O que eu quero te dizer é que outros papéis a gente também constrói diariamente. Construiu durante anos. Quando você achava que eu era sua boneca, quando me protegia do escuro ou das brigas constantes do conflito difícil que é a vida. Você me vestiu e me deu almoço tantas e tantas vezes. Lembra quando o tal papel faltava? Lembra quando eu chorava pedindo aquilo que eu achava que só podia ser personificado numa pessoa, mas era você que sempre estava ali antes das cinco da tarde. Era você que me abraçava e me dizia que eu não estava sozinha ou, às vezes raivosa, me dizia que não adiantava, que se eu queria o que faltava, você me traria em forma de autoridade.

A gente criava mundos, histórias, bonecas. A gente pintava cores, mudava moveis, transformava mobília em brinquedos. Hoje eu gosto de dizer pras pessoas que nós éramos uma quadrilha, mas a verdade é que nós éramos um mundo só nosso que se passava antes das cinco da tarde, um mundo regado a biscoito recheado hipopó comprado no Mundial, a cream cracker com misturas nojentas da Nani, a pão de queijo esquisito que a gente moldava também em brinquedo, a programas de tv, a brincadeiras barulhentas no corredor do prédio, a manhãs e tardes intermináveis em que a gente não sabia e nem podia saber, mas estava se formando. A gente fez e viveu um mundo só nosso.

Lembra quando você era a minha referência na escola? Eu lembro de quando você me ensinou a fazer conta de nariz e boquinha e as minhas divisões precoces me faziam sentir a pessoa mais inteligente do mundo. Você me levava pra escola e se eu de repente ficasse desesperada (ora, eu sempre senti um desespero tão grande de estar no mundo) você estava ali perto, a poucas salas de distância para me socorrer. Se alguém me batesse, brigasse comigo, se eu tirasse nota baixa ou achasse um trabalho impossível, era para você que eu pedia socorro. Por muito tempo eu quis ser como você. Eu criava antagonismos na nossa tríade e você era o meu modelo de pessoa bonita - e olha que você era meio gordinha, tinha uma sobrancelha esquisita, mas quando colocava aquele uniforme de escola importante, eu achava que aquilo era tudo o que uma criança podia querer na vida. Aí, um dia eu cheguei mais perto e passei a te admirar mais ainda porque aquele mundo novo era tão mais complexo, era tão mais difícil, mas se você tinha conseguido, eu também poderia.

E das brigas, você lembra? Não é fácil fazer três mulheres trancadas dentro de uma mesma forma, ou de uma mesma caixa. Roupas, frases, canais de TV, tudo virava faísca e toda faísca virava explosão intensa. E aí, algumas vezes você já não era aquela que sempre me defendia de tudo, nem eu era mais a sua bonequinha. O difícil de crescer foi que fomos nos tornando pessoas diferentes do que esperávamos uma da outra. E aceitar o outro é sempre difícil. E quando a gente vê que o outro ainda está se fazendo, a gente tem a ilusão de que pode interferir, fazer a nosso gosto, quando na verdade, não adianta, cada uma é de um jeito. Os conflitos também nos fizeram, a alteridade que até hoje é tão latente foi o que disse a cada uma de nós o quanto éramos completamente diferentes.

Cada uma a sua forma e a seu tempo, nos aceitamos, nos conhecemos e transformamos aquela relação que parecia ser uma obrigação de sangue numa saudade constante. Ter a nossa vida da adultas dá uma saudade de partilhar os momentos bobos, de comentar um programa de tv, de pedir pra você desenhar uma boneca de papel pra mim, de brincar de secretária. Ao mesmo tempo, dá um orgulho gigante de ver no espelho essas três mulheres lindas nas quais nos transformamos. Hoje eu acho maravilindo (como diziam os bebês daquele desenho "Os anjinhos", lembra?) olhar no espelho e ver as nossas tais diferenças, acho bonito que tenhamos conseguido.

Família também é uma construção social, cultural, histórica - para poder fazer valer a minha não profissão. Mas, caralho, família é uma construção afetiva. E afeto é uma coisa que a gente construiu e desconstruiu de mil formas ao longo de nossas vidas inteiras. E constrói diferente hoje. Constrói lindo, em três pilares que não são tripés, porque estes impedem que se ande. Somos três faces de um polígono impossível, mas que se equilibram e se tornam possíveis, mesmo com os rumos diferentes, mesmo agora que somos essas três mulheres completamente diferentes.

Fico pensando como seria se alguém chegasse pr'aquelas três meninas e dissesse no que elas se transformariam. Se dissessem pr'aquelas três adolescentes que chegaria um dia em que elas se amariam tanto que só teriam vontade de se abraçar no colo que é um abraço a três e dizer em silêncio que elas conhecem segredos que ninguém conhece, que elas estão conectadas por algo que não tem nada a ver com sangue, nada a ver com pai, mãe, casa ou datas comemorativas. Amor é uma construção que não se explica mas que se vive ao longo de uma vida inteira.

E quando eu digo vida inteira, moça, eu quero dizer todo o tempo que temos pela frente.

Sabe esse dia idiota de hoje? Sabe essa data construção do capitalismo? Sabe esse papel construção do moralismo? Eu quero te dizer que você é algo completamente diferente disso, mas você sempre foi minha irmã-mãe. E eu estou sempre aqui pra te abraçar e te proteger dos monstros e da escuridão quando eles cruzarem o seu caminho.

segunda-feira, maio 07, 2012

Porque há barulho ou público, porque há tesão ou oportunidade. Porque há vida e perguntas, perguntas sempre há, mesmo que a gente finja que são algo próximo de respostas. Há também músicas e barulhos que a gente faz com o corpo e sabe que não pode transformar em palavras. Há poemas, há versos leminskianos que a gente nunca decorou. Há versos n'autre langue que a gente não vai decorar porque a pronúncia, você sabe. Há dores e vontades.

Pedaços que a gente consegue pegar. Encostar com os dedos e saber que existem por conta de um dos sentidos cujo sentido a gente não só desconhece como tenta aproveitar pr'essa ambiguidade besta. A gente se aproveita do fato de que a vida passa. A gente faz desfeita só porque os fatos são poucos e nunca há mesmo muito em que se agarrar.

A gente faz versos. Relê versos de um passado já tão distante e que se queria presente a fim de que fosse uma prova de vida. A gente queria saber ainda usar palavras grandes como vida. A gente queria saber quem é essa tal gente que indetermina nossos sujeitos, que pluraliza nossas falas tão solitárias quanto vermes classificados e inúteis. Feito doenças ainda não descobertas. Livros não lidos. Frases em suspenso.

domingo, maio 06, 2012

Ta douleur (Camille Dalmais)

Lève toi c'est décidé
Laisse-moi te remplacer
Je vais prendre ta douleur

Doucement sans faire de bruit
Comme on réveille la pluie
Je vais prendre ta douleur

Elle lutte elle se débat
Mais ne résistera pas
Je vais bloquer l'ascenseur...
Saboter l'interrupteur

Mais c'est qui cette incrustée
Cet orage avant l'été
Sale chipie de petite soeur ?

Je vais tout lui confisquer
Ses fléchettes et son sifflet
Je vais lui donner la fessée...
La virer de la récrée

Mais c'est qui cette héritière
Qui se baigne qui se terre
Dans l'eau tiède de tes reins ?

Je vais la priver de dessert
Lui faire mordre la poussière
De tous ceux qui n'ont plus rien...
De tous ceux qui n'ont plus faim

Dites moi que fout la science
A quand ce pont entre nos panses ?
Si tu as mal là où t'as peur
Tu n'as pas mal là où je pense !

Qu'est-ce qu´elle veut cette conasse
Le beurre ou l'argent du beurre
Que tu vives ou que tu meurs ?

Faut qu'elle crève de bonheur
Ou qu'elle change de godasses
Faut qu'elle croule sous les fleurs
Change de couleur...
Je vais jouer au docteur

Dites moi que fout la science
A quand ce pont entre nos panses ?
Si tu as mal là où t'as peur
Tu n'as pas mal là où je chante !

terça-feira, maio 01, 2012

Ainda sem

Para se ler ao som de O velho e o moço (Los Hermanos)

O mais novo de mim mesma é muito antigo.



São amontoados de meia dúzia de frases de livros mal lidos, outros apenas comprados que enfeitam estantes inexistentes, se espalham por mesas inutilizáveis e por pedaços de chão manchado por tintas desconhecidas cujas histórias me são bem mais atraentes do que as das capas nunca abertas.

O egoísmo é tanto que ficou gravado na pele tudo o que não é para fazer. A preocupação foi tanta que ficou tudo inacabado, desinteressante. Sempre me procurando, me procurando, me procurando em várias coisas já prontas e mal-feitas, por isso sempre vi um pouco de espelho do meu rabisco. São só rascunhos manchados, desabafos de coisa nenhuma e agora que precisava de algo pronto, ninguém fez. Todas as histórias boas estão fechadas nas estantes, no chão, nas livrarias. Não adiantou nada cortar o cabelo e decorar meia dúzia de contos se agora eles não dão conta - com o perdão do trocadilho besta - da profundidade necessária.

Repetir as mesmas frases, não ter aprendido nenhuma palavra, não ter escrito nenhuma história e não ter aprendido as formas corretas de usar o termo mesmo fazem perceber quanto tempo foi gasto à toa. Quanta lágrima desperdiçada, o choro inútil de não ter motivo para chorar.

O drama nasceu comigo. A intriga ficou faltando. Eu perdi a literatura em artigos pouco produtivos e também mal-lidos, já que nem a escrita mais mercadológica me é eficiente. Farsa intelectual. Metáfora comprada de quem roda na roda e roda fodidamente por não saber sequer dar nomes aos próprios bois. Por ter perdido a mão na hora de ser mais vaca, mais filha da puta.  São correntes historiográficas tão mal aprendidas quanto os fatos colocáveis em linha do tempo. Não dá para subverter o ensino quando não se sabe verter uma lágrima que valha a pena. Quando não se sabe a teoria clássica que pode ser desconstruída, quando uma preguiça enorme de aprender é o que mais tem espaço.

O mais novo de mim mesma é muito sem graça. Ele tem roupas novas. Ela agora mandou dizer que fuma só para poder simultaneamente esquecer mais um verso e eliminar uma tarefa do eterno dia seguinte. Ela agora diz que conhece o amor livre quando ainda repete o substantivo no singular e desconhece as adjetivações necessárias para se dar prazer. O gozo é pouco quando o dia seguinte pede o pragmatismo de um novelo de náilon do qual o felino mais idiota se desvencilharia com maestria.

O mais novo de mim não sabe ser mestre nem se convence de que possa ser algo entre chefe e alguém que pode se responsabilizar quando algo der errado. Não entendem? No meio de toda a minha frigidez, o que eu quero é que tudo se foda e se confunda e fique parecido com o que chamariam de errado só para conhecer alguma proximidade com o caos. O mais perto que eu teria de uma realização pro-fis-sio-nal em letras douradas e caligrafia de normalista seria o circo pegando fogo sem que eu pudesse assistir de fora, em que eu pudesse sentir o calor torturando a pele e participar dos gritos de desespero.

O mais velho de mim era mais dedicado intelectualmente e bem menos arrogante, mas isso eu sempre temi e previ que aconteceria. Hoje eu já não sei conjugar verbos e ainda me atrevo a me meter em oraçõezinhas com toda a minha ausência de insubordinação. Eu me escondo em linhas do tempo superficiais, finjo que tenho objetivos que não sejam um dia depois do outro enquanto penso como-quando-onde será o último e desejo como quem amarra uma fita no pulso que seja algo interessante.

Eu sei que o meu vazio é falta de empenho. Eu sei que existem histórias mais fascinantes, mais elaboradas, mais originais e, principalmente, mais bem escritas do que estas parcas que já há tanto tempo eu leio e releio. Sei que também que existem outros pronomes além da primeira pessoa do singular, mas falta um descentramento que me permita o mergulho. E falta, mais do que tudo, tomar vergonha na cara junto com o gelo do uísque que até agora sequer pode vir sem coca-cola ou guaraná.

domingo, abril 29, 2012

Dia de Laika

Acendeu o baseado pensando em aparelhos-ideológicos-estatais, em como tinha se transformado em algo completamente diferente de tudo o que já quisera - poderia dizer de tudo o que já sonhara, mas há tanto tempo não sabia o que era isso, há tanto tempo não dizia nada a ninguém e tudo isso não passava de pequenos pensamentos perdidos, mal formulados em meio à fumaça - por pura ausência de saber o que querer. Sentiu a onda batendo aos poucos, como um carro saindo de um longo engarrafamento, como um escritor que não tem referências além das suas próprias, como um ser humano que não sabe ser mais do que um reles humano.

Deixou as lágrimas caírem porque era preciso. Torrente de dor que desfaz qualquer tentativa de fingir que não existe todo esse desespero, tentativa de transformar sofrimento em poesia quando o caso é apenas deitar e chorar lágrimas que não lavam nada porque é tudo mistério, cores estranhas e mal sobrepostas, músicas a cada dia menos harmônicas, dor pura e simples. Simplicidade da desvontade, de saber que as palavras grandes são decorrentes do que se faz sem querer, de saber-se alimentando, perpetuando quando seria bem mais justo o caso de desfazer, bagunçar, reverter em vez de verter em lágrimas bestas toda a auto-repressão tão tão tão diariamente criticada.

Mais um. Mais dois. Mais três. Já não fazia diferença o quanto mais de dor viria se não sabia mesmo contar. Quanto mais obstáculos se sobreporiam, a pele acumulara cascos nos últimos tempos, mas ah! eles tinham sulcos e fendas em que passavam pequenas farpas que se acumulavam até atingirem níveis insuportáveis em que transbordavam risos, ondas e lágrimas.

quinta-feira, abril 12, 2012

Inteligir o mundo em palavras é muito difícil. Em silêncio também. Nem digo o mundo, porque o mundo é assim tão tão grande e desconhecido para se pensar em inteligibilidade. Quando digo mundo, não tem muito como ser algo muito extensível aos meus sentidos, o meu mundinho ou o eu-mesma. A própria caligrafia falha na insegurança da tentativa e se disfarça em letras já desenhadas que poderiam parecer mais seguras em teclas. Sei que não parecem, não adianta passar a limpo, fugir das linhas do caderno ou externar na esfera pública e inexistente.

A Literatura pode ser muito tocante, mas ela não define. E na frustração de não definir, também não alivia. Álcool também não, cigarro também não, mas às vezes trocar a angústia por uma tontura mais física, por uma onda mais solta... A Literatura não tem o poder de retirar uma angústia que não consegue definir, que não se sabe sequer se é singular. Eu não posso definir, eu não sei se sou singular. Não adianta nem mesmo buscar traduções em outras línguas. Ela não pode descrever um sentimento, ela talvez possa criar sensações que nos ajudem a esquecê-los. Ela não pode evitar a loucura, não pode sequer exprimi-la - ou espremê-la. Ela não consegue, no correr em curvas e linhas tingidas, no desdobrar-se em palavras que não gastam sangue nem papel, minorar o tremor das mãos. Eu também não posso.

quarta-feira, abril 11, 2012

Trascurare

Para ler ao som de E poi? de Giorgia

E depois? Depois que aquele um já chegou, depois que já escarnecemos juntos tudo o que podíamos de uma roda em que a gente já entrou, já saiu, já rodopiou, já vomitou junto lá de cima, já entrou escondida sem pagar o ingresso, já deixou de ir porque não tinha dinheiro, já ficou olhando de cara cheia todo mundo que roda sem fim, já ficou olhando de cara feia, já escreveu artigos criticando quem roda, já ficou tonta e pensou que talvez as coisas não sejam tão cíclicas nem tão metafóricas nem tão literais assim. Faz o quê? Depois que nos conquistamos, nos vimos, nos perdemos, nos machucamos, nos confundimos entre objetos diretos, verbos pronominais ou reflexivos. Depois que já falamos outras línguas, já nos xingamos e nos amamos em dialetos incompreensíveis, já nos entendemos em silêncio, já nos desentendemos com um milhão de palavras. Depois que o gelo derreteu, que o disco já terminou e fica aquele barulho da agulha enganchada. Depois que você já cansou de me ouvir tentando criar referências de coisas que eu nunca vivi. Depois que eu já nem me lembro como funciona um vitrola e também ainda não sei como se mexe nos icoisas da vida. Depois que você já cansou de saber que eu sou perdida na vida, perdida no mundo às três da manhã ou às duas da tarde. Depois que esse ar de angústia perdeu a graça, depois que meu cigarro de não fumante já não passa de uma cena repetida, sem graça e incompatível com a saúde e com o bolso. Depois que a gente já mandou para a puta que pariu a saúde, o cheque especial, a moral burguesa, a roda, as cobranças, os rótulos. Depois que a gente aprendeu que o bom de fumar charuto é sim não precisar tragar. Depois que a gente descobriu a calma que dá um cigarro mentolado acompanhado de uma xícara de café correto. Depois que a gente já aprendeu um montão de pequenos prazeres e perdeu os grandes. Depois que a gente ficou assim meio dependente, que a gente não sabe andar na rua se não tiver uma mão em que segurar. Depois que a gente perdeu as medidas, as fronteiras, as etiquetas, a definição de onde se guardam as senhas e como se fecham as gavetas. Depois que o seu sapato não pisa no meu, mas os meus pés estão com suas meias, seu cabelo com meu corte, seu desespero com as minhas frases feitas. Depois que a gente já passou do tempo da crise, depois que as estruturas caíram em desuso, depois que os  rótulos das garrafas de cerveja-conhaque-uísque, depois que todos os rótulos já foram meio destruídos com aquele gesto besta de retirar o papel já sem cola e tentar usar para identificar um copo. Ainda assim, a gente troca os copos, mistura as bebidas para além dos brindes. Apesar de tudo, a gente sabe que não tem ninguém tentando envenenar ninguém.

Depois que você já decorou todas as frases que eu já esqueci. Depois que nenhum vizinho suporta mais ouvir as mesmas músicas, em madrugadas cada vez mais iguais - álcool, gelo, choro e uma tentativa de sentir alguma coisa, qualquer coisa que possa, antes de acordar alguém, nos ajudar a dormir tranquilas.

Depois passa o plural. Deixa de existir o "a gente" e perde-se o risco de equivocar alguma concordância. Depois eu vou dormir tranquila, você vai escrever tranquila. Depois que separar as roupas, os livros, as músicas, depois que soubermos o que há de indissolúvel na mistura, depois que eu descobrir enfim o que sobrou de mim que ainda me seduz. Depois que eu souber ser sem ser através de frases feitas. Depois que eu me reencontrar em palavras, em cores, em desabafos e angústias.

Depois que eu souber a função sintática da palavra depois. Que eu dominar a historiografia da saúde e da ciência. Depois que você souber definir seus conceitos. Quem sabe um dia eu te ligue para saber onde você está, quem sabe você estará disponível, quem sabe eu saberei te explicar o que eu queria mesmo em frases audíveis ou escrevíveis. Talvez você nem tenha mais tempo para ouvir, talvez você não queira mais ouvir. Talvez você simplesmente esteja em outra cidade, outro estado, outro país. Talvez a gente tenha que esperar um tempo para se reencontrar. Talvez seja amanhã, talvez demore muito tempo. Talvez a gente nunca saiba.

segunda-feira, abril 09, 2012

Os sapatinhos vermelhos


Dançarás - disse o anjo
Dançarás com teus sapatos vermelhos
Dançarás de porta em porta
Dançarás, dançarás sempre.
(Andersen: Os Sapatinhos Vermelhos)


1

Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina - ela repetiu olhando-se bem nos olhos em frente ao espelho. Ou quando começa: certos sustos na boca do estômago. Como carrinho de montanha-russa, naquele momento lá no alto, justo antes de despencar em direção. Em direção a quê? Depois de subidas e descidas, em direção àquele insuportável ponto seco de agora.

Restava acender outro cigarro, e foi o que fez. No momento de dar a primeira tragada, apoiou a face na mão e, sem querer, esticou a pele sob o olho direito. Melhor assim, muito melhor. Sem aquele ar desabado de cansaço indisfarçável de mulher sozinha com quase quarenta anos, mastigou sem pausa e sem piedade. Com os dedos da mão esquerda, esticou também a pele debaixo de outro olho. Não, nem tanto, que assim parece japonesa. Uma japa, uma gueixa, isso é que fui. A putinha submissa a coreografar jantares à luz de velas. - Glenn Miller ou Charles Aznavour?-, vertendo trêfegos os sais - camomila ou alfazema? - na sua água da banheira, preparando uísques - uma ou duas pedras hoje, meu bem?

Nenhuma pedra, decidiu. E virou a garrafa outra vez no copo. Aprendera com ele, nem gostava antes. Tempo perdido, pura perda de tempo. E não me venha dizer mas que teve bons momentos, não teve não? A cabeça dele abandonada em seus joelhos, você deslizando devagar entre os cabelos daquele homem. Pudesse ver seu próprio rosto: nesses momentos você ganhava luz e sorria sem sorrir, olhos fechados, toda plena. Isso não valeu Adelina?

Bebeu outro gole um pouco sofrêga. Precisava apressar-se, antes que a quinta virasse Sexta-Feira Santa e os pecados começassem a pulular na memória feito macacos engaiolados: não beba, não cante, não fale nome feio, não use vermelho, o diabo está solto, leva sua alma para o inferno. Ela já estava lá, no meio das chamas, pobre alminha, nem dez da noite, só filmes sacros na tevê, mantos sagrados, aquelas coisas, Sexta-Feira da Paixão e nem sexo, nem ao menos sexo, isso de meter, morder, gemer, gozar, dormir. Aquela coisas frouxa, aquela coisa gorda, aquela coisa sob os lençóis, aquela coisa no escuro, roçar molhado de pelos, baba e gemidos depois de - quantos mesmo? - cinco, cinco anos. Cinco anos são alguma coisa quando se tem quase quarenta, e nem apartamento próprio, nem marido, nem filhos, herança: nada. Ponto seco, ponto morto.

Ué, você não escolheu? Ele ficou parado à frente dela, muito digno e tão comportadamente um-senhor-de-família-da-Vila-Mariana dentro do terno suavemente cinza, gravata pouco mais clara, no tom exato das meias, sapato ligeiramente mais escuro. Absolutamente controlado. Nem um fio de cabelo fora do lugar enquanto repetia pausado, didático, convincente - mas Adelina, você sabe tão bem quanto eu, talvez até melhor, a que ponto de desgaste nosso relacionamento chegou. Devia falar desse jeito mesmo com os alunos, impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar esse rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato.

Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro&relacionamento&rompimento&afeto, teria dito também estima&consideração&mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado. Uma estalactite - estalactite ou estalagmite? merda, umas caíam de cima, outras subiam de baixo, mas que importa: aquela lança fininha de gelo afiado - cravada com extrema cordialidade no fundo do peito dela. Vampira, envelheceria séculos lentamente até desfazer-se em pó aos pés impassíveis dele. Mas ao contrário, tão desamparada e descalça, quase nua, sem maquilagem nem anjo da guarda, dentro de uma camisola velha de pelúcia, às vésperas da Sexta-Feira Santa, sozinha no apartamento e no planeta Terra.

Esmagou o cigarro, baixou a cabeça como quem vai chorar. Mas não choraria mais uma gota sequer, decidiu brava, e contemplou os próprios pés nus. Uns pés pequenos, quase de criança, unhas sem pintura, afundados no tapetinho amarelo em frente à penteadeira. Foi então que lembrou dos sapatinhos. Na segunda-feira tentando reunir os fragmentos, não saberia dizer se teria mesmo precisado acender outro cigarro ou beber mais um gole de uísque para ajudar a idéia vaga a tomar forma. Talvez sim, pouco antes de começar a escancarar portas e gavetas de todos os armários e cômodas, à procura dos sapatos. Que tinham sido presente dele, meio embriagado e mais ardente depois de um daqueles fins de semana idiotas no Guarujá ou Campos do Jordão, tanto tempo atrás. Viu-se no espelho de má qualidade, meio deformada, uma mulher descabelada jogando caixas e roupas para os lados até encontrar, na terceira gaveta do armário, o embrulho em papel de seda azul-clarinho.

Desembrulhou cuidadosamente. Uma súbita calma. Quase bailarina em gestos precisos, medidos, elegantes. O silêncio completo do apartamento vazio quebrado apenas pelo leve farfalhar do papel de seda desdobrado sem pressa alguma. E eram lindos, mais lindos do que podia lembrar. Mais lindos do que tinha tentado expressar quando protestou, comedida e comovida - mas são tão... tão ousados, meu bem, não tem nada a ver comigo. Que evitava cores, saltos, pinturas, decotes, dourados ou qualquer outro detalhe capaz sequer de sugerir sua secreta identidade de mulher-solteira-e-independente-que-tem-um-amante-casado.

Vermelhos - mais que vermelhos: rubros, escarlates, sanguíneos - com saltos finos altíssimos, uma pulseira estreita na altura do tornozelo. Resplandeciam nas suas mãos. Quase cedeu ao impulso de calçá-los imediatamente, mas sabia instintiva que teria primeiro que cumprir o ritual. De alguma forma, tinha decorado aquele texto há tanto tempo que apenas o supunha esquecido. Como uma estréia adiada, anos. Bastavam as primeiras palavras, os primeiros movimentos, para que todas as marcas e inflexões se recompusessem em requintes de detalhes na memória. O que faria a seguir seria perfeito, como se encenado e aplaudido milhares de vezes.

Perfeitamente: Adelina colocou um disco - nem Charles Aznavour, nem Glenn Miller, mais uma úmida Billie Holiday, I’m glad, you’re bad, tomando o cuidado de acionar o botão para que a agulha voltasse e tornasse a voltar sempre, don’t explain, depois deixou a banheira encher aos poucos de suave água morna, salpicou os sais antes de mergulhar, com Billie gemendo rouca ao fundo, lover man, e lavou todos os orifícios, e também os cabelos, todos os cabelos, enfrentou o chuveiro frio, secou o corpo e cabelos enquanto esmaltava as unhas dos pés, das mãos, no mesmo tom de vermelho dos sapatos, mais tarde desenhou melhor a boca, já dentro do vestido preto justo, drapeado de crepe, preso ao ombro por um pequeno broche de brilhantes, escorregando pelo colo para revelar o início dos seios, acentuou com lápis o sinal na face direita, igualzinho ao de Liz Taylor, todos diziam, sublinhou os olhos de negro, escureceu os cílios, espalhou perfume no rego dos seios, nos pulsos, na jugular, atrás das orelhas, para exalar quando você arfar, minha filha, então as meias de seda negra transparente, costura atrás, tigresa noir, Lauren Bacall, e só depois de guardar na carteira, talão de cheques, documentos, chave do carro, cigarros e o isqueiro de prata que tirou da caixinha de veludo grená, presente de trinta e sete, só mesmo quando estava pronta dos pés à cabeça e desligara o toca-discos, porque eles exigiam silêncio - foi que sentou outra vez na penteadeira para calçar os sapatinhos vermelhos.

Apagou a luz do quarto, olhou-se no espelho de corpo inteiro do corredor. Gostou do que viu. Bebeu o último gole de uísque e, antes de sair, jogou na gota dourada do fundo do copo o filtro branco manchado de batom.

2

Eram três, estavam juntos, mas o negro foi o primeiro a pedir licença para sentar. A única mulher sozinha na boate. Tinha traços finos o negro, afilados como os de um branco, embora os lábios mais polpudos, meio molhados. Músculos que estavam dentro da camisa justa, dos jeans apertados. Leve cheiro de bicho limpo, bicho lavado, mas indisfarçavelmente bicho atrás do sabonete.

- E aí, passeando? - ele perguntou, ajeitando-se na cadeira à frente dela.

Curvou-se para que ele acendesse seu cigarro. A mão grande, quadrada, preta e forte não se moveu sobre a mesa. Ela mesma acendeu, com o isqueiro de prata. Depois jogou a cabeça para trás - a marcação era perfeita - tragou fundo e, entre a fumaça, soltou as palavras sobre os patéticos pratinhos de plástico com amendoim e pipocas:

- Você sabe, feriado. A cidade fica deserta, essas coisas. Precisa aproveitar, não?

Por baixo da mesa, o negro avançou o joelho entre as coxas dela. Cedeu um pouco, pelo menos até sentir o calor aumentando. Mas preferiu cruzar as pernas estudada. Que não assim, tão fácil, só porque sozinha. E quase quarentona, carne de segunda, coroa. Sorriu para o outro, encostado no balcão, o moço dourado com jeito de tenista. Não que fosse louro, mas tinha aquele dourado do pêssego quando mal começa a amadurecer espalhado na pele, nos cabelos, provavelmente nos olhos que ela não conseguia ver sem óculos, à distância. O negro acompanhou o seu olhar , virando a cabeça sobre o próprio ombro. De perfil - ela notou - o queixo era brusco, feito a machado. Mesmo recém-feita, a barba rascaria quando se passasse a mão. Antes que dissesse qualquer coisa, ela avançou com voz muito rouca:

- Por que não convida seus amigos para sentar com a gente? - Ele rodou um amendoim entre os dedos. Ela tomou o amendoim dos dedos dele. O crepe escorregou do ombro para revelar o vinco entre os dois seios - Acho que você não precisa disso.

O negro franziu a testa. Depois riu. Passou o indicador nas costas da mão dela, pressionando:

- Pode crer que não.

Soprou a fumaça na cara dele:

- Será?

- Garanto a você.

Descruzou as pernas. O joelho dele tornou a apertar o interior de suas coxas. Quero te jogar no solo a música dizia.

- Então chame seus amigos.

- Você não prefere que a gente fique só nós dois?

Tão escuro ali dentro que mal se podia ver o outro, ao lado do tenista dourado. Um pouco mais baixo, talvez. Mas os ombros largos. Qualquer coisa no porte, embora virado de costas para ela, de frente para o balcão, curvado sobre o copo de bebida, qualquer coisa na bunda firme desenhada, pelo pano da calça --- qualquer coisa ali prometia. Remexeu as pedras de gelo do uísque na ponta das unhas vermelhas.

- Uns rapazes simpáticos. Assim sozinhos. Não são seus amigos?

- Do peito - ele confirmou. E apertou mais o joelho. A calcinha dela ficou úmida - Tudo gente boa.

- Gente boa é sempre bem-vinda

Falava como a dublagem de um filme. Uma mulher movia o corpo e a boca: ela falava. Um filme preto e branco, bem contrastado, um filme que não tinha visto, embora conhecesse bem a história. Porque alguém contara, em hora de cafezinho, porque vira os cartazes ou lera qualquer coisa numa daquelas revistas femininas que tinha aos montes em casa. As mais recentes, na parte de baixo da mesinha de vidro da sala. As outras acumuladas no banheiro de empregada, emboloradas por um eterno vazamento no chuveiro, que a diarista depois levava. Para vender, dizia. E ela odiava contida a idéia das páginas coloridas das revistas dela embrulhando peixe na feira ou expostas naquelas bancas vagabundas do centro da cidade.

Se você quer mesmo - o negro disse. E esperou que ela dissesse alguma coisa, antes de erguer a mão chamando os outros dois.

- Não quero outra coisa - sussurrou.

E muito de repente - porque depois do quarto ou quinto uísque tudo acontece sempre assim, sem que se possa determinar o ponto exato de transição, quando uma situação passa a ser outra situação - quase de repente, o tenista dourado estava ao lado direito dela, e o rapaz mais baixo à sua esquerda. Na cadeira em frente, o negro olhava tudo e com atentos olhos suspeitosos. Perguntou o que bebiam, eles disseram juntos e previsíveis: cerveja. Ela falou nossa, bebam algum drinque mais estimulante, vocês vão precisar, rapazes, um ar de Mae West. Todos os três explicaram que estavam duros, a crise, você sabe, mas de jeitos diferentes. O tenista dourado chegou a puxar o forro do bolso para fora e mostrou, pegando a mão dela, veja, veja só, pegue aqui, mas ela retirou a mão pouco antes de tocar. Tão próximo o calor latejante na beira dos dedos. Problema nenhum, ofereceu pródiga: eu pago. A fita da garrafa pela metade, serviu do uísque dela ao negro e ao tenista-dourado. Não ao mais baixo, que preferia vodca, natasha mesmo serve. Ela então atentou nele pela primeira vez. Todo pequeno e forte, cabelos muito crespos, contrastando com a pele branca, lábios vermelhos, barba de dois, três dias, quase emendada nos cabelos do peito fugidos da gola da camisa, mãos cruzadas um tanto tensas, unhas roídas, sobre o xadrez da toalha. Cabeça baixa, concentrado em sua pequenez repleta da vitalidade que certeira, ela adivinhava mesmo antes de provar.

Pacientes, divertidos, excitados: cumpriram os rituais necessários até chegar ao ponto. Que o negro era Áries, jogador de futebol, mês que vem passo ao primeiro escalão, ganhando uma grana. Sérgio ou Sílvio, qualquer coisa assim. O tenista-dourado, Ricardo, Roberto ou seria Rogério? Um bancário sagitariano, fazia musculação e os peitos que pediu que tocasse eram salientes e pétreos como os de um halterofilista, sonhava ser modelo, fiz até umas fotos, quiser um dia te mostro, peladinho, e ela pensou: vai acabar michê de viado rico. Do mais baixo só conseguiu arrancar o signo, Leão, isso mesmo porque adivinhou, não revelou nome nem disse o que fazia, estava por aí, vendo qual era, e não tinha saco de fazer de social.

Eu? Gil-da, ela mentiu retocando o batom. Mas mentia só em parte, contou para o espelhinho, porque de certa forma sempre fui inteiramente Gilda, Escorpião, e nisso dizia a verdade, atriz, e novamente mentia, só de certa forma, porque toda a minha vida.

Então dançaram, um de cada vez. O negro apoiou a mão pesada na cintura dela e, puxando-a para si, encaixou o ventre dos dois, quase como se a penetrasse assim. Ao som de Roberto Carlos daqueles de motel, o côncavo, o convexo, tão apertado e rijo que ela temeu que molhasse a calça. Mas de volta à mesa, ao acariciar disfarçada o volume, tranqüilizou-se antes de sair puxada pela mão dourada do tenista-dourado. Que a fez encostar a cabeça entre os dois peitos dele, cheiro de colônia, desodorante, suor limpo de homem embaixo da camisa pólo amarelinha, lambeu a orelha dela, mordiscou a curva do pescoço ao som duma dessas trilhas românticas em inglês de telenovela, até que ela gemesse, toda molhada, implorando que parasse. O mais baixo não quis dançar. Quero foder você, rosnou: pra que essa frescura toda?

Foi quando ela levantou a perna, apoiando o pé na borda da cadeira, que todos viram o sapato vermelho. Depois dos comentários exaltados, as meticulosas preparações estavam encerradas, a boate quase vazia, sexta-feira instalada, era da Paixão, cinza cru de amanhecer urbano entrando pelas frestas, o único garçom impaciente, cadeiras sobre as mesas. Tinham chegado ao ponto. O ponto vivo, o ponto quente.

- Pra onde? - perguntou o tenista-dourado.

- Meu apartamento, onde mais?- ela disse, terminando de assinar o cheque, três estrelas, caneta importada.

- Mas afinal, com quem você quer ir?- o negro quis saber.

Ela acariciou o rosto mais baixo:

- Com os três, ora.

Apesar do uísque, saiu pisando firme nos sapatos vermelhos, os três atrás. Lá fora, na luz da manhã, antes de entrarem no carro que o manobrista trouxe e o tenista-dourado fez questão de dirigir, os sapatos vermelhos eram a única coisa colorida daquela rua.

3

Que tirasse tudo, menos os sapatos - os três imploraram no quarto em desordem. Garrafa de uísque na penteadeira. Fafá de Belém antiga no toca-discos (escolha do tenista-dourado, o negro queria Alcione), cinzeiro transbordante na mesinha de cabeceira. Tirou tudo, jogando para os lados. Menos a meia de seda negra, com costura atrás, e os sapatinhos vermelhos. Nua, jogou-se na colcha de chenile rosa, as pernas abertas. Eles cercaram lentos, jogando as zorbas sobre o crepe negro.

O negro veio por trás, que gostava assim, tão apertadinho. Ela nunca tinha feito, mas ele jurou no ouvido que seria cuidadoso, depois mordeu-a nos ombros, enquanto a virava de perfil, muito suavemente, molhando-a de saliva com o dedo, para que o mais baixo pudesse continuar a lambê-la entre as coxas, enquanto o tenista-dourado, de joelhos, esfregava o pau pelo rosto dela, até encontrar a boca. Tinha certo gosto também de pêssego, mas verde demais, quase amargo, e passando as mãos pelas costas dele confirmou aquela suspeita anterior de uma penugem macia num triângulo pouco acima da bunda, igual ao peito, acinzentado pelo amanhecer varando persianas, mas certamente dourado à luz do sol. Foi quando o negro penetrou mais fundo que ela desvencilhou-se do tenista-dourado para puxar o mais baixo sobre si. Ele a preencheu toda, enquanto ela tinha a sensação estranha de que, ponto remoto dentro dela, dos dois lados de uma película roxa de plástico transparente, como num livro que lera, os membros dos dois se tocavam, cabeça contra cabeça. E ela primeiro gemeu, depois debateu-se, procurou a boca dourada do tenista-dourado e quase, quase chegou lá. Mas preferia servir mais um uísque, fumar mais um cigarro, sem pressa alguma, porque pedia mais, e eles davam, generosos, e absolutamente não se espantar quando então invertiam-se as posições, e o tenista-dourado vinha por trás ao mesmo tempo que o mais baixo introduzia-se em sua boca, e o negro metido dentro dela conseguia transformar os gemidos em gritos cada vez mais altos, fodam-se os vizinhos, depois cada vez mais baixo novamente, rosnandos, grunhindos, até não passarem de soluço miudinhos, sete galáxias atravessadas, o sol de Vegas no décimo quarto grau de Capricórnio e a cara afundada nos cabelos pretos encaracolados do negro peito largo dele. De outros jeitos, de todos os jeitos: quatro, cinco vezes. Em pé, no banheiro, tentando aplacar-se embaixo da água fria do chuveiro. Na sala, de quatro nas almofadas de cetim, sobre o sofá, depois no chão. Na cozinha, procurando engov e passando café, debruçada na pia. Em frente ao espelho de corpo inteiro do corredor, sem se chocar que o mais baixo de repente viesse também por trás do tenista-dourado dentro dela, que acariciava o pau do negro até que espirrasse em jatos sobre os sapatos vermelhos dela, que abraçava os três, e não era mais Gilda, nem Adelina nem nada. Era um corpo sem nome, varado de prazer, coberto de marcas de dentes e unhas, lanhados de tocos de barbas amanhecidas, lambuzadas de leite sem dono dos machos das ruas. Completamente satisfeita. E vingada.

Quando finalmente se foram, bem depois do meio-dia, antes de jogar-se na cama limpou devagar os sapatos com uma toalha de rosto que jogou no cesto de roupa suja. Foi o néon, repetiu andando pelo quarto, aquelas luzes verdes, violetas e vermelhas piscando em frente à boate, foi o néon maligno da Sexta-Feira Santa, quando o diabo se solta porque Cristo está morto, pregado na cruz. Quando apagou a luz, teve tempo de ver-se no espelho da penteadeira, maquilagem escorrida pelo rosto todo, mas um ar de triunfo escapando do meio dos cabelos soltos.

Acordou no Sábado de Aleluia, manhã cedo, campainha furando a cabeça dolorida. Ele estava parado no corredor, dúzia de rosas vermelhas e um ovo de Páscoa nas mãos, sorriso nos lábios pálidos. Não era preciso dizer nada. Só sorrir também. Mas ela não sorria quando disse:

- Vai embora. Acabou.

Ele ainda tentou dizer alguma coisa, aquele ridículo terno cinza. Chegou mesmo a entrar um pouco na sala antes que ela o empurrasse aos gritos para fora, quase inteiramente nua, a não ser pelas meias de seda e os sapato vermelhos de saltos altíssimos. Havia um cheiro de cigarro e bebida e gozo entranhado pelos cantos do apartamento, a cara ressacada dela, manchas roxas de chupões no colo. Pela primeira, única e última vez ele a chamou muitas vezes de puta, puta vadia, puta escrota depravada e pervertida. Jogou o ovo e as rosas vermelhas na cara dela e foi embora para sempre.

Só então ela sentou para tirar os sapatos. Na carne dos tornozelos inchados, as pulseiras tinham deixado lanhos fundos. Havia ferimentos espalhados sobre os dedos. Tomou banho quente, arrumou a casa toda antes de deitar-se outra vez - o broche de brilhantes tinha desaparecido, mas que importava: era falso -, tomar dois comprimidos para dormir o resto do sábado e o domingo de Páscoa inteiros, acordando para comer pedaços de chocolate de ovo espatifado na sala.

Segunda-feira no escritório, quando a viram caminhando com dificuldade, cabelos presos, vestida de marrom, gola fechada, e quiseram saber o que era - um sapato novo, ela explicou muito simples, apertado demais, não é nada. Voltavam a doer, os ferimentos, quando ameaçava chuva. E ao abrir a terceira gaveta do armário para ver o papel de seda azul – clarinho guardando os sapatos, sentia um leve estremecimento. Tentava - tentava mesmo? - não ceder. Mas quase sempre o impulso de calçá-los era mais forte. Porque afinal, dizia-se, como num conto de Sonia Coutinho, há tantas sextas-feiras, tantos luminosos de néon, tantos rapazes solitários e gostosos perdidos nesta cidade suja... Só pensou em jogá-los fora quando as varizes começaram a engrossar, escalando as coxas, e o médico então apalpou-a nas virilhas e depois avisou quê.

ABREU, Caio Fernando. Os Sapatinhos Vermelhos. In: Os dragões não conhecem o paraíso. 1988.

quarta-feira, abril 04, 2012

Fica um monte de coisa que a gente não diz, não faz, não deixa sair, secar, sangrar, trancar. Faltam espaços onde antes queria espelhos quebrados. Falta gente e sobram frases de ódio. Falta viver mais o ódio que surge de vez em quando. Falta poder simplesmente abrir mão de quem se quer abrir mão, poder mais simplesmente não ser obrigada. As pequenas alegrias estão em extinção. O que era para ser o abismo desconhecido virou essa poça da mesma lama com mais venenos para afundar os pés.

Chega uma hora na vida que não dá para simplesmente ignorar, a paciência termina e até surge uma pequena vontade de violência junto com a imensa vontade de solidão. A perspectiva de que alguma coisa realmente boa aconteça é bem pequena. Também não há promessas de pequenas diversões, digressões epifanias. Demorei um certo tempo para saber algumas coisas que quero e outras que não quero no meio de tanta indefinição e parece excesso de ironia que eu seja tão constantemente obrigada a conviver com pessoas de quem não gosto, fazer coisas que não quero e manter alguma expressão amena, a tal cara de paisagem quando acaba o saco, a voz, o estômago para discutir cada pensamento, gesto, absurdo num mundo em que nem se discute, em que a realidade é algo tão impalpável, tão inatingível que.

Nem sei.

Eu queria uma coisa diferente de todo esse pó, nem que fosse algum veneno anti-monotonia.

Por aí (Cazuza)

Imagem retirada daqui


Se você me encontrar assim
Meio distante
Torcendo cacho
Roendo a mão
É que eu tô pensando
Num lugar melhor
Ou eu tô amando
E isso é bem pior, é
Se você me encontrar
Rodando pela casa
Fumando filtro
Roendo a mão
É que eu não tô sonhando
Eu tenho um plano
Que eu não sei achar
Ou eu tô ligado
E o papel, e o papel
E o papel pra acabar
Se você me encontrar
Num bar, desatinado
Falando alto coisas cruéis
É que eu tô querendo um cantinho ali
Ou então descolando
Alguém pra ir dormir
Mas se eu tiver nos olhos
Uma luz bonita
Fica comigo
E me faz feliz
É que eu tô sozinho
Há tanto tempo
Que eu me esqueci
O que é verdade
E o que é mentira em volta de mim

quarta-feira, março 28, 2012

Poema

Para ler ao som de Poema  (Cazuza)

à Bárbara Araújo, Lili Figueiredo e CEP 20 000

Houve um tempo em que a minha medida para as coisas na vida era a poesia. Era em versos a minha escala de observação. Fazer um poema hoje me fez lembrar de um tempo em que, bons ou ruins, os poemas afloravam de uma vontade imensa de um jeito poético de olhar a vida. Parece que já se passou muito tempo, parece que vidas e vidas rolaram enquanto os versos foram se lapidando em parágrafos pragmáticos. A vida ficou acadêmica. A escrita ficou sisuda, travada.

A literatura hoje é quase mais um dos objetos de consumo, uma espécie de droga que me mostra que, por trás de tanta vida real, ainda existe alguma coisa que independe de publicações, títulos, quadros brancos ou negros.



Hoje eu queria o tempo em que a gente ia lá, pegava o microfone e falava poesia. Há quem diga (eu?) que eram só versos bobos de uma adolescência em transbordamento. Não sei se era mesmo poesia, não sei o que faz com que uma coisa seja e a outra não. Não tenho mais a pretensão besta de definir qualquer coisa. Era alma o que a gente cuspia ali em perdigotos literais que ficavam no microfone em que tantos passavam.

E a gente trocava um pouco de cada alma no cuspe, no grito, na força que era tanta e tão grande que a gente não sabia o que fazer com ela. A gente fez alguma coisa com ela? Acho que fizemos várias e por isso mesmo que a alma foi ficando um pouco em cada jogo de cartas, em cada microfone, em cada clamor sem palco, em cada sala com rostinhos diversos.

A poesia é diferente agora e não só porque é em prosa. A poesia fica um pouco inscrita em tudo o que foi formando isso que a gente acostumou a chamar de "a gente". Algumas palavras continuam sendo as mesmas, não dá para substituir o assunto amor que tanto povoada os nossos versos, mas como a gente construiu amores ao longo desse caminho cheio de pedras que a gente também já sabia que iria encontrar - guiados por um outro poema.

Fazia tempo que eu não escrevia um poema e fazia tempo que eu não via que a vida ainda se dá na mesma medida. Ou que ela continua tão sem parâmetros quanto antes. Continua tão passional quanto. 

Fico me perdendo em uma ou outra estrofe que poderia ter sido minha, fico ouvindo aquelas frases que a gente gritava no escuro - o metafórico em que a gente ainda se encontra e o literal. O peito arde do mesmo jeito, os olhos ainda se esforçam tentando divisar qualquer coisa, tatear qualquer caminho.

E de repente eu vejo que aquela coisa morna e ingênua ainda está aqui.

("Hoje eu acordei com medo, mas não chorei nem reclamei abrigo")

Brinde



O sangue sempre escorre mais
Os fluidos misturam-se no espaço
mais espesso do silêncio

Alguém quebra
era vidro
copo
corpo
coisa
caso

Era dissílabo
de acentuação confusa
e atenuação precisa

Pedras de gelo
foram feitas para derreter
e aguar o líquido
que a gente bebe,
lambuza
e deixa evaporar

terça-feira, março 20, 2012

Espelhos paralelos

O cigarro aceso há alguns minutos se desmantela em filtro e apaga sozinho na forma velha de empada que faz as vias de cinzeiro para quem não fuma. A música repetida infinitas vezes deixa de ser composição da cena e revela traços da obsessão que não sabe desenhar nem lembra mais como se escreve. Algumas atividades burocráticas, alguns fundamentos ainda por fundar e já tão desgastados esperam em papéis virtuais ou calhamaços cujo peso oscila entre o peso metafórico e o literal.

Ninguém me vê fumando o filtro que é mesmo cena. Ninguém me vê usando os acordes que desconheço, cantarolando as melodias-fendas, pontiagudas, que abrem cortina para que verta em vertigem o sangue represado, contagoteado, que fica aqui por tanto tempo e, de quando em vez, não se aguenta e transborda no mais do mesmo.

Falta uma compreensão mais plena. Autoconhecimento. Esboço de entendimento de si. Falta que a crítica saia dessas mesmas palavras cifradas e toma mais coragem do que goles de erudição enrustida. Falta arrumar as roupas, o cabelo, falta lavrar, talhar com cuidado e respeito pelas próprias vontades a tal da alma. A questão é que não é por saber que se esmurra uma faca cega que não vai haver uma esperança de sair um machucadinho que seja.

A receita é falha e os ingredientes tão diferentes que nem valeria a pena começar a pensar em seguir recomendação nenhuma, mas a disposição que tem que ter para fazer algo novo e debater discutir legitimar etc. etc. etc. faz com que a gente perca um tipo de crença em si mesmo necessária para parar de ficar para sempre procurando do outro lado do vidro um reflexo inexistente enquanto assumo rompantes meio vampirescos de sugar-me ao fundo do raso.
Quando parti deixei muito mais do que levei comigo. As lembranças todas ficaram e junto o bilhete que poderia ter vindo com minhas poucas malas. Os objetos cheios daquele pó que se acumula todos os dias sobre as emoções ficaram espalhados pelos mesmos incontáveis cantos que eu deixo para você reorganizar. Deixo um bilhete e levo a minha roupa do corpo porque é preciso levar alguma, mas não duvide que bebo estas também com a primeira garrafa e depois volto despido para cobrir meu sexo com páginas rasgadas daqueles livros que te dei e você nunca leu.

domingo, março 18, 2012

Saga (Filipe Catto)


Andei depressa para não rever meus passos
Por uma noite tão fugaz que eu nem senti
Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora
Só me restam devaneios do que um dia eu vivi

Se eu soubesse que o amor é coisa aguda
Que tão brutal percorre início, meio e fim
Destrincha a alma, corta fundo na espinha
Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir

Enquanto andava, maldizendo a poesia
Eu contei a história minha pr´uma noite que rompeu
Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia
Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho com força, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer

E era de gozo, uma mentira, uma bobagem
Senti meu peito, atingido, se inflamar
E fui gostando do sabor daquela coisa
Viciando em cada verso que o amor veio trovar

Mas, de repente, uma farpa meio intrusa
Veio cegar minha emoção de suspirar
Se eu soubesse que o amor é coisa assim
Não pegava, não bebia, não deixava embebedar

E agora andando, encharcado de estrelas
Eu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar
Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito
E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho sorrindo, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer



quarta-feira, março 14, 2012

Outro lugar - Milton Nascimento


Cê sabe que as canções são todas feitas pra você
E vivo porque acredito nesse nosso doido amor
Não vê que tá errado, tá errado me querer quando convém
E se eu não tô enganado acho que você me ama também
O dia amanheceu chovendo e a saudade me contém
O céu já tá estrelado e tá cansado de zelar pelo meu bem
Vem logo que esse trem já tá na hora, tá na hora de partir
E eu já tô molhado, tô molhado de esperar você aqui
Amor eu gosto tanto, eu amo, amo tanto o seu olhar
Andei por esse mundo louco, doido, solto com sede de amar
Igual a um beija-flor, que beija-flor,
De flor em flor eu quis beijar
Por isso não demora que a história passa e pode me levar
E eu não quero ir, não posso ir pra lado algum
Enquanto não voltar
Não quero que isso aqui dentro de mim
Vá embora e tome outro lugar
Talvez a vida mude e nossa estrada pode se cruzar
Amor, meu grande amor, estou sentindo
Que está chegando a hora de dormir.

quinta-feira, março 08, 2012

Mais um dia

Li muitos textos muito bons para pensar o machismo nosso de cada dia. Que pensemos hoje e sempre. Que repensemos os papéis dos gêneros em nossa sociedade. Fiquei meio sem saber o que escrever depois de ler A metáfora perfeita e 08 de março, dia de você repensar seu machismo, fica a recomendação e a tentativa de conto abaixo:

Acordar cedo como de costume. Levantar apressada disfarçando o inchaço dos olhos para o caso de o marido despertar com o barulho de seus passos. Prender o cabelo em um rabo de cavalo para espantar a aparência de quem acabou de acordar. Ir até a cozinha antes mesmo de escovar os dentes. Água para ferver, pó para passar o café, pães na torradeira para o marido, cereais para o do meio, iogurte para o caçula. Antes que tudo estivesse no lugar, as crianças chegam como pequenas tempestades pedindo coisas. O marido com um beijo burocrático, gritaria, correria, leite no chão. Pano e desinfetante no chão. Banho no mais novo, grito com o do meio para que vá logo tomar banho, nó na gravata do marido, uniformes e mochilas dos meninos, lancheiras, tchau com outro beijo burocrático no marido.

Ponto de ônibus cheio de manhã. Olhar tarado de um babaca próximo. Crianças na frente na hora de subir no ônibus. Um homem que dá a vez simulando gentileza e olha para a bunda dela quando sobe no veículo. Ônibus ainda mais lotado que o ponto. Equilibrar crianças, segurar mochilas, evitar contatos físicos indesejados. Descer do ônibus, tentar atravessar no sinal fechado, quase ser atropelada e receber um "quer morrer, vadia?". Dar tchau para as crianças, atravessar a rua de volta, pegar outro ônibus lotado, chegar atrasada no trabalho, receber um olhar de reprovação do chefe, perceber aquele aumento desejado e necessário cada vez mais longe, ligar o computador, acessar o email, receber várias mensagens com flores, imagens maternais e etc. irritantes. Receber um convite do chefe para almoçar, receber uma cantada do chefe, trabalhar o dia todo, ficar exausta, buscar as crianças no colégio, chegar em casa, fazer comida, colocar a roupa para lavar, passar o uniforme das crianças para o dia seguinte, tomar banho, receber uma lingerie do marido como presente e deitar antes que ele queira que ela vista.

Essa é a primeira imagem que aparece no google para a palavra "mulher".

quarta-feira, março 07, 2012

Insatisfação de longa data


Reproduzo abaixo uma reportagem que nos ajuda a pensar que manifestação e vandalismo não são sinônimos.

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Aumento da passagem das barcas - que fazem trajeto Rio-Niterói - provoca indignação e mobiliza aparato de segurança, mas os problemas nos serviços e reação da população ao aumento das tarifas são muito antigos

Alexandre Leitão e Alice Melo

O protesto de clientes da Barcas S.A. – responsável pelo traslado aquático entre Niterói e Rio de Janeiro –, que aconteceu na manhã de hoje, supreendeu não só pela mobilização dos passageiros, mas pela tática adotada para conter a manifestação: um forte aparato de segurança, com direito a helicóptero, e o adiamento do aumento da passagem, que aconteceria hoje, para o próximo sábado. A tarifa passará de R$ 2,80 para R$ 4,50 para o usuário que não tem Bilhete Único, ou R$ 3,10 para aqueles cadastrados no programa. O aumento de mais de 60% é definitivo e foi autorizado em dezembro passado pela Alerj, pouco depois de um acidente na Baía de Guanabara com uma embarcação ter deixado mais de sessenta pessoas feridas. Os passageiros, revoltados, começaram a se mobilizar pela internet, e um professor chegou a ser intimado por publicar um vídeo no YouTube convocando a população.
A companhia de transportes alega que o reajuste no preço vem para ajudar a saldar uma dívida contraída com o Estado desde o fim da década de 1990. Segundo a Barcas SA, o transporte de passageiros a R$ 2,80 estava gerando prejuízos. E este prejuízo poderia influir no bom funcionamento dos serviços – que vem deixando a população cada vez mais insatisfeita: filas enormes e superlotação das embarcações já fazem parte do dia a dia do usuário.
“Acho que foi na quinta-feira antes do carnaval que peguei coisa de uma hora na fila, aqui na Praça XV”, conta Amanda Souza, moradora de Niterói que precisa ir todos os dias ao Centro do Rio para trabalhar. “Não dava para ver nem o fim. Às vezes chega na Rua da Assembleia. Fora que a gente fica como um gado lá dentro. Vinte minutos apertados na frente do vidro, depois mais vinte antes do outro portão, até entrar naquela carcaça que demora quarenta minutos para fazer a travessia”, conta. A Barcas S.A. e a Agência de Transportes do Rio de Janeiro (Agetransp) - empresa responsável pela fiscalização dos serviços transportes do estado - foram procuradas pela Revista de História, mas não se manifestaram a respeito.
Se o aumento nas passagens vai solucionar os problemas históricos nas barcas, só o tempo dirá. O que se sabe é que não é de hoje que as tarifas dos transportes urbanos sofrem acréscimos sem que a população seja consultada; ou que passageiros se envolvam em protestos e revoltas contra o governo ou entidades privadas que administram os serviços, por conta do mal funcionamento dos veículos. Essa história é quase tão antiga quanto a velha capital da República.
Outras revoltas
Na década de 1950, por exemplo, a União Nacional dos Estudantes, que vivia em um constante troca-troca entre direções lideradas pela juventude do PCB e da UDN lacerdista, encampou uma massiva manifestação contra o aumento das tarifas dos bondes no Rio de Janeiro. Contando com o apoio de vários sindicatos operários e a clara simpatia da população carioca, a revolta marcou o mês de maio, e forçou o presidente Juscelino Kubitscheck a convocar o Marechal Henrique Teixeira Lott para suprimi-la. O “marechal da Legalidade” - como era conhecido o oficial após sua participação decisiva na defesa da posse de Juscelino em 1955 - invadiu o Rio de Janeiro com tropas do I Exército e cercou o prédio da UNE. A tensão só foi acalmada quando JK chamou o presidente da entidade, Carlos Veloso de Oliveira, ao seu gabinete para uma negociação. Resultado: um morto.

Barcas no centro da confusão
Em 1959, o mesmo iria se repetir, só que em Niterói. O serviço de barcas, na época, era organizado pelo Grupo Carreteiro, responsável pelo aumento sucessivo da tarifa. Naquela época ainda não havia a ponte Artur da Costa e Silva, mais conhecida como Rio-Niterói, o que tornava o traslado em barcas o principal meio de transporte entre uma cidade e outra.  No dia 21 de maio daquele ano, o Sindicato dos Marítimos e Operários Navais declarou greve, inativando boa parte da frota aquaviária. Na manhã seguinte, quando fuzileiros navais tentavam organizar a multidão de passageiros em fila na mesma praça Araribóia, um dos guardas atirou uma rajada de metralhadora para o alto. Foi o estopim que detonou a frustração dos populares com o serviço.
Imediatamente, os usuários invadiram a estação e atearam fogo tanto na construção quanto nas embarcações atracadas naquele porto. Alguém teria dito, no meio da confusão: “Vamos queimar a casa desses ladrões!”. E os manifestantes rumaram aos gritos ao bairro Fonseca, onde ficava a mansão da família Carreteiro. As propriedades da família foram destruídas pelo fogo e, no dia seguinte, um bilhete foi encontrado escrito na parede: “Aqui jaz a fortuna do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”. Jornais locais chegaram a descrever Niterói como uma “Bastilha” e o número de mortos surpreendeu: seis no total, com mais de cem pessoas feridas. O governo estatizou o serviço, que só voltaria a ser privatizado nos anos 90.    
Ônibus em chamas
O principal meio de transporte público urbano do Rio de Janeiro também não poderia ficar fora dos atos contra aumento de tarifas ou problemas nos serviços. Os ônibus, desde seu aparecimento nas ruas e avenidas do estado, são os grandes protagonistas quando se fala em problemas no setor. Em 1987, por exemplo, quando a Fetranspor anunciou que haveria aumento na passagem dos coletivos - com Moreira Franco no governo estadual e Saturnino Braga na prefeitura do Rio de Janeiro -, revoltosos se concentraram na Cinelândia e acabaram entrando em confronto com a polícia. A cena teve direito a bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e pedradas. Não deixando a dever nada às manifestações de maio de 1968.


Protesto no Império
Mas todas estas revoltas populares sempre deverão algo à virada de ano de 1879/1880, quando abolicionistas, republicanos e, principalmente, usuários do serviço de bondes da Corte Imperial, reuniram-se para protestar contra a lei que impunha um imposto sobre o preço das passagens, aprovada pela Assembléia Geral do Império, em outubro. A revolta localizada contra o aumento somou-se às causas e ideais que mais abalariam a década de 1880. Lopes Trovão, uma das mais renomadas lideranças do movimento republicano no Rio, discursou em uma manifestação marcada para o dia 28 de dezembro, que ocupou o campo de São Cristóvão, próximo ao Palácio Imperial. Os manifestantes tencionavam entregar um abaixo-assinado contra o imposto a Dom Pedro II, e foram impedidos em sua marcha por um grande contingente policial liderado pelo chefe de polícia Feliz José da Costa e Silva.
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN

O monarca comunicou depois a Trovão que receberia uma comissão para tratar do assunto, respondendo que o “povo não voltava, uma vez que lhe fecharam da primeira vez as portas do palácio”. No dia 1° de janeiro, nova manifestação foi marcada, agora no Largo do Paço, região central da cidade, com destino ao Largo de São Francisco. A reivindicação não era mais dirigida ao governo, mas ao próprio povo, pedindo simplesmente que este não obedecesse à determinação de aumento. No cruzamento entre as ruas Uruguaiana e Ouvidor um quebra-quebra generalizado irrompeu, com tiros disparados, trilhos arrancados e ataques aos condutores. Alguns dos burros que puxavam os bondes acabaram esfaqueados.
A rebelião, nomeada depois de Revolta do Vintém, terminou com três mortos e algo em torno de 15 feridos, sendo controlada com a chegada de 600 tropas do Exército. Marcante para a história do Segundo Reinado, seus efeitos concretos foram sentidos alguns meses depois, quando em abril os diretores da companhia de bondes reivindicaram junto ao governo a supressão do imposto sobre a tarifa, que foi definitivamente extinto em julho de 1880.



quinta-feira, março 01, 2012

O que é isso, Fernando?

O começo do eterno retorno faz com que repita sem pensar um mesmo trajeto de anos antes. A sensação de um passado longínquo corresponde mais à falta de reais distâncias a percorrer do que a embaçamentos na memória fraca. Sempre foi boa - e, afinal, foi mesmo ontem, não haveria razão para. Fato é que o tal do novo tão temido, desnorteador, desestabilizador, que há não muito cegava, provocava suores, insônias, pesadelos e angústias. Estas últimas também mais por hábito, dependência, vício que realmente por reação a acontecimentos reais.

Nenhum acontecimento real. Nenhuma novidade maior que a de pegar de volta os mesmos caminhos, voltar aos mesmos lugares, olhar nos mesmos rostos. De um lado duros, cheios de obstáculos para perpetrar. De outro ansiosos para que eu traga-lhes também um caminho, alguma coisa perto de uma certeza, uma forma próxima de concreta. Nenhum dos dois lados sabe o quanto não posso oferecer nada disso. Não sabem que trago as mesmas perguntas, os mesmos desejos de achar respostas. Talvez para um dos lados eu seja ainda muito ingenuamente sonhadora e para o outro demasiado incrédulo, no sentido de uma desesperança no que concerne a achar as respostas.

O que não sabem, ninguém sabe. É que todos fazem parte de uma mesma procura cíclica, cansativa e estimulante. Como uma escada, um medo, uma ponte ou um passo de dança. Sempre sem interrupção.