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sexta-feira, junho 26, 2009

Dois patinhos na lagoa

Hoje eu acordei meio séria e ando com vontade, já faz algum tempo, de mudar a cara disso daqui. Romper com a minha hipocrisia que prega a liberdade de formatos para esse blog, quando, afinal, sempre escrevo as mesmas coisas, do mesmo jeito por sinal. Enfim, no meio de uma oscilação entre pólos que pode vir a me enlouquecer - os posicionamentos políticos, meu deus! - acho que preciso usar esse espaço para falar de algumas coisas que tem me incomodado.

Ontem à noite, eu estava deitada no sofá da minha casa, com febre e impossibilitada de levantar para pegar o controle remoto quando, no intervalo de um emocionante "TV Fama - especial Michael Jackson" vi uma propaganda assustadoramente imbecil. Tratava-se do PR, Partido da República. Não sei há quanto tempo isso existe, se era um outro que mudou de nome ou coisa parecida. Fato é que se a política brasileira já era uma palhaçada sem tamanho, ver esse comercial me provou que as coisas sempre podem piorar.

Consistia em dois jovens felizes e descolados num diálogo mais ou menos assim: "o que o número 22 te lembra?"; "Dois patinhos na lagoa"; "Mas o número 22 também é o número do Partido da República"(!!!!!!!!!!!). Aí, quando eu pensei que a coisa já estava ridícula o suficiente, o casal descolado anunciou um concurso de desenho para a escolha do novo mascote do partido, cuja premiação era algo em torno de 10 mil reais.

Nenhuma promessa para não cumprir, nenhuma difamação de adversários, nenhuma cena triste da realidade brasileira ou cenas positivas de grandes realizações (não saberia o que esperar, porque sinceramente não sei se esse tal partido está ou não no poder). Fiquei pensando que daqui a um tempo eles usarão o slogan de um partido limpo, que não joga baixo. Sim, porque realmente vivemos num mundo em que a política não passa de um jogo no qual o vencedor é aquele que possui o melhor marketeiro. Dentro dessa lógica, faz todo sentido ter um bom logotipo.

Gostaria de ter ficado assustada ou surpresa, mas acho que o pior de tudo é saber que isso não me surpreende. Não surpreende a nenhum de nós...
Não resisti à curiosidade e fui conferir o site do tal partido. Adivinhem? É o partido do Garotinho. Ia dizer que é um partido do qual ele faz parte, mas se alguém for conferir o site, descobrirá porque digo que é o partido do Garotinho.
Enfim, não dá mesmo para discutir política no Brasil, porque ela não deve existir.

Se alguém estiver interessado, segue o link do concurso: http://www.partidodarepublica.org.br/PR22/Noticias_Republicanas_2009/noticias_2009_0563.html

quinta-feira, junho 25, 2009

Sobre o amor

"Não falo do amor romântico,aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento. Relações de dependência e submissão, paixões tristes. Algumas pessoas confundem isso com amor. Chamam de amor esse querer escravo, e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida, explicada, entendida, julgada. Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro, antes de ser experimentado. Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta. A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.

O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. O amor é um móbile. Como fotografá-lo? Como percebê-lo? Como se deixar sê-lo? E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine? Minha resposta? O amor é o desconhecido. Mesmo depois de uma vida inteira de amores, o amor será sempre o desconhecido, a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão. A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação. O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante.

A vida do amor depende dessa interferência. A morte do amor é quando, diante do seu labirinto, decidimos caminhar pela estrada reta. Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos, e nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim. Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.

O amor não é orgânico. Não é meu coração que sente o amor. É a minha alma que o saboreia. Não é no meu sangue que ele ferve. O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito. Sua força se mistura com a minha e nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu como se fossem novas estrelas recém-nascidas.

O amor brilha. Como uma aurora colorida e misteriosa, como um crepúsculo inundado de beleza e despedida, o amor grita seu silêncio e nos dá sua música. Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor, se estivermos também a devorá-lo.

O amor, eu não conheço. E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo, me aventurando ao seu encontro. A vida só existe quando o amor a navega. Morrer de amor é a substância de que a vida é feita. Ou melhor, só se vive no amor. E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto".

[Paulinho Moska]

quinta-feira, junho 18, 2009

Desabafo (ou um trocadilho muito pessoal)

As tempestades vêm para que tenhamos certeza do que pode resistir a elas.

Confesso que duvidava. Ou pior, tinha mesmo certeza de que algum abismo desabaria e a queda seria fatal. A queda é dolorosa. Mas fatal não.

No meio da queda livre não há muito em que se agarrar, mas alguns elos embora pareçam frágeis continuam ligados enquanto você tiver força ao menos para segurá-los. Pode ser de leve, eles também são leves em meio a tudo que pesa e te puxa pra baixo.

Eu seguro até não aguentar e mesmo depois. Mesmo que a força não seja muita, a certeza é forte. Essa certeza indizível, invisível ao passo que tão palpável. Essa certeza indecifrável. A certeza me mantém aqui, apenas um pedaço de alguma coisa em que você pode se agarrar. Não precisa segurar com força que eu não vou soltar. Confie em mim.

No meio da monstruosa tempestade, estou aqui com meu pequeno guarda-chuva aberto, que não vai conseguir te manter seca, mas vai te proteger um pouco mais.

Pena que não possa fazer cessar todo o resto e reabrir no horizonte aquela primavera bonita que bem conhecemos.

Mas por trás das nuvens, aquele ponto brilhante, está vendo? [Não é um ovni.] É um raio de sol de um céu que vai se abrir.

quarta-feira, junho 10, 2009

Mais um segredo

Eu quis cantar minha canção iluminada de sol, digo, quis contar ou vier um momento mágico, mas o relógio gritava e corria feito alice no país das maravilhas.

Então, pensei em ficar triste, chorar de saudade, dormir tristonha quando vi (como se ainda não tivesse visto o que já há tanto sabia) que até os mais mínimos momentos cintilam magia.

Ninguém é capaz de entender, é quase imperceptível a quem não tem os sentidos apurados pelo sentimento.

Mas eu vi o quanto cada relance de olhar, cada toque, ainda que breve, diz tudo e se eterniza tanto quanto as horas sem fim dos dias que a gente deixa perder nos nós dos lençóis.

"Espero que o tempo passe/Espero que a semana acabe/ Pra que eu possa te ver de novo"

domingo, maio 24, 2009

Sensorial

É que as palavras não dizem. Ainda que vastas, não bastam. Mesmo assim teimo e vou dizendo silêncios e silêncios, assim, em sussurro no ouvido - como verdades grandes.

Dizendo pelos poros, pelos pêlos. Pelos cílios que se encontram por acaso na luz branda da escuridão. Pelos olhos que brilham no encontro do espanto, no espanto do encontro, no deslumbre do encontro que é sempre o primeiro. Os silêncios gritam, quase como um velho cliché - mas um cliché único, novo, des-lum-bran-te. O encontro diário.

Daí que os olhos se lêem depois. Os olhos conversam, se entendem. Os olhos se sabem de um jeito, ainda que não se enxerguem direito, ainda que na escuridão profunda das madrugadas.

Então, os lábios conversam, trocam as mais indizíveis palavras.

Então, as almas se lêem à revelia do poeta - os corpos e as almas entrelaçados no gesto único.

As almas brilham à luz da manhã como o sexo no escuro. As palavras afinal são poucas, mas se desdobram em dizeres múltiplos pelos diferentes sentidos.

Pode sentir?

terça-feira, abril 28, 2009

Diálogo (de Caio Fernando Abreu)

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, voc~e não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)


(In Morangos Mofados)

Trecho da novela Dodecaedro

Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de lemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem nem conheço. Por um momento, cede. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.

(Do livro Triângulo das Águas, Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, março 23, 2009

"Se faltar o vento a gente inventa"

[Para ser lido ao som de "Pose (anos 90)"]

O horror não tem detalhe. Não tem minúcia. Não é cheio de explicações. O horror não tem explicação. Não adianta você vir me perguntar como foi e querer que eu fique horas aqui contando. É sempre rápido. O pânico é sempre muito rápido. Eu lembro bem do meu desespero na hora, se o senhor quer saber. Lembro nítido, como essas coisas que a gente dava tudo pra esquecer mas sabe que vai ficar pra sempre aqui martelando.

O senhor já levou uma martelada? Dessas que a gente dá no próprio dedo sem querer? Claro que já, todo mundo já fez isso alguma vez. Mas a dor que a gente provoca na gente mesmo passa rápido. Porque a gente percebe e pára de fazer. Quando é do outro não. O outro nunca sabe da gente e a gente nunca sabe do outro. Não tem essa de se colocar no lugar. Minha mãe dizia, muito certa como só ela, que ninguém sente a dor do outro. Por isso que as pessoas machucam umas às outras. Porque ferir não dói. Só dói na alma de alguns bons cristãos, coisa que pouco existe hoje em dia. Mas pra quem sofre sim, a alma fica doendo essa dor confusa que parece que é pra sempre. Não sei se passa quando morre porque nunca morri. Já pensei que ia morrer algumas vezes, mas deus foi bom. Ou ruim, porque às vezes penso que coisa pior que isso aqui não há de ter não.

E também já vi gente morrer assim bem do meu lado. É esquisito. Não é só a cor que a pessoa perde assim na hora não, ela perde... Sei lá... Vira outra coisa. Vai ver é isso mesmo: vira uma coisa ao invés de gente. Daí você pensa que é brincadeira, ou pesadelo, sei lá. Que vai soprar uma nuvem colorida como de filme e a pessoa volta, acorda como se tivesse só dormindo. Podia né?

Eu ia dizer que não, porque o horror é preto e branco, mas acho que não é não. O horror tem cor até, embora em nada pareça com uma nuvem bonita. Tem várias cores, todas fazendo parte de um borrão confuso. Deve ter alguma explicação da psicanálise, eu acho. Do tipo que a mente apaga os detalhes porque a gente não quer lembrar. Porque é muito ruim lembrar. Eu não sei é que explicação que tem pro fato da cena embaçada ficar remoendo e remoendo dentro da cabeça. Eu não estou nem aí pra psicanálise, se o senhor quer saber. Não quero pensar, sei lá, num homem apático de óculos me hipnotizando pra fazer lembrar de tudo e curar o - trauma. Palavra esquisita. Uma coisa que quebra dentro ou fora da gente, alguém me explicou. Que pode quebrar lá no fundo mesmo. Onde 'tão as coisas em que a gente mais acredita.

Eu, como já não acredito em muita coisa nessa vida... E também, vai que eu lembro de alguma parte que eu esqueci porque era mesmo melhor esquecer? Como uma coisa pior ainda... Deus me livre!

Engraçado como a gente costuma falar em deus, né? Como se fosse uma coisa assim grande. Eu costumava acreditar, mas hoje em dia... Não sei, acho que se ele existiu, foi embora há muito tempo. Que nem uma amiga minha, uma vez ela cansou dos filhos dela, arrumou as malas e foi embora. Calma, todos grandes já. Nada de abandono de menor não. Disse que ou se matassem ou se virassem. Só que aqui no nosso caso com deus, a gente ficou foi na primeira opção mesmo. Deu no que deu.

Eu já me perguntei muitas vezes se seria capaz de matar alguém. Todas as vezes me respondi que não e até agora tenho provado que estou certa sem muito esforço. Não só não me vejo, como não entendo. Eu, que já vi ali do meu lado, tanto sangue... o senhor não calcula. Não entendo mesmo.

O pior é que se o senhor me perguntar tudo o que aconteceu antes, eu conto tim-tim por tim-tim. Quem tava sentado onde, como, com que roupa e que cabelo. Mas do momento em que o desgraçado. Desgraçado não, porque chamar assim parece querer dizer que é um pobre coitado que só passou desgraça na vida e por isso. Pois eu acho é que todo mundo passa por desgraça na vida e nem por isso. Mas do momento em que o maldito - porque estou maldizendo mesmo! - entrou lá. Fico parecendo testemunha jurada de morte que diz que não viu nada, não sabe de nada com medo de. Não é o caso não, o senhor fique sabendo. Que eu não tenho medo da morte não. Tenho medo é do sofrimento que esse tipo de gente causa nas pessoas. Penso na minha mãe, coitada. Vendo a cara da filha dela no jornal sem vida. Uma coisa estampada. Depois de tanto sacrifício, ela ia dizer. Também não foi o caso de não ver não. Mesmo que eu quisesse tampar o olho, o maldito não deixava, disse que era para todo mundo ver bem direitinho que é pra saber como as coisas são. Mesmo que fechasse também, ia ficar ouvindo os gritos e o sofrimento dos outros.

Pois eu vi foi tudo. Só que tem uns detalhes assim que. Parece que tá tudo embaralhado, de um jeito que dá pra saber como é, mas não como ajeita tudo no devido lugar. Não sei quem falou primeiro, quem atirou primeiro. Só sei que tava tudo lá. O circo armado e eu no meio sem ter pra onde correr. Até maldade falar assim, circo é uma coisa tão bonita, não é nada parecido com. Muito grito, muito desespero, eu não sei se na hora cheguei a sentir pena, acho que fiquei mais foi aliviada de não ser comigo.

Mas pensando depois. Agora ainda. Fico com tanta pena. Da menina, da família. Até de mim por ter visto tudo. É duro, né? Morrer assim, nessa idade. Tanto pela frente, ia dizer minha mãe. De graça. Assalto bobo. Estupro. Tiro. Jornal e tudo. E ficar na lembrança dos outros tão assim sem detalhe como ficou na minha. Quando vieram me contar que a pobre tinha marido, filho, trabalho, sonho etc. nem consegui acreditar. Não combina. Não encaixa na lembrança que eu tenho. Um borrão confuso de gritos e sangue. Mais que isso eu não sei dizer, o senhor me perdoe. O horror não tem detalhe.

Pequena fábula metropolitana

Era como se, mesmo depois de tanto tempo, ainda estivesse esperando por algo. Um telefonema inesperado, uma visita, um encontro casual com um velho amigo. Na verdade, apenas algum acontecimento que mudasse a ordem das coisas, que pareciam sempre ocorrer conforme uma programação prévia e meticulosa. Pensava essas coisas enquanto olhava o cinza-mil-tons das ruas. As pessoas sem cor, cujo brilho se reduzia ao suor provocado por aquele calor infernal.

Duas da tarde, centro da cidade. Entre um esbarrão e outro, olhava os prédios altos se perguntando por que diabos eles não produziam uma sombra maior. Chegava a sonhar com uma vida em que pudesse trabalhar na praia, barulho de mar etc. Sem saber que se lá as pessoas não teriam esse brilho cinza, também não seriam mais interessantes - apesar de certamente mais coloridas.

Os excessos fervilhavam por todos os lados. O tal formigueiro que gostava de imaginar quando criança. O lugar onde a vida pulsava de tantos modos, como supunha na adolescência. Hoje, sem imaginar nada, caminhava apressada sob um sol escaldante, com muito mais roupas do que gostaria.

Se alguém a observasse todos os dias, poderia pensar que ela seguia uma espécie de rastro do dia anterior. Sempre o mesmo lado da calçada, dobrando as mesmas esquinas, no mesmo semi-círculo, parando para atravessar sempre nos mesmos pontos. Isto, se alguém a observasse, pois se nem mesmo ela o fazia. Se algum dia, num estalo, percebesse, ao invés de mudar o caminho correria para o terapeuta.

Podia também ser uma fábula de auto-ajuda, na qual ela perceberia que um grande acontecimento em sua vida só dependeria de si mesma. Caso fosse uma história adulta, sairia de seu escritório sem graça, conheceria três caras bonitões e teria uma noite maravilhosa. Na fábula infantil, teria um nome parecido com Kika e descobriria que a verdadeira felicidade são os amigos ou coisa parecida. Mas personagens de fábulas costumavam ser animais. Entreteu-se algum tempo pensando em que bicho seria, talvez uma lebre cinzenta.

Na sua literatura, o mundo foi ficando pelo meio do caminho. O relógio rodando como sempre faz. O final do dia chegou como sempre chega. Kika voltou como sempre volta, pelo mesmo caminho por onde veio.

segunda-feira, março 16, 2009

Passo da Guanxuma

"Eu queria...outra coisa".

"Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por aí levando um violão debaixo do braço".

Alguns novos contos, mas todos ainda muito presos no papel. Um dia quem sabe se rendem, talvez em breve.

Às vezes tenho raiva por não poder amassar o monitor e jogar no lixo.

sábado, fevereiro 07, 2009

Conto de fadas


Acostumada ao sabor áspero e denso do álcool puro, chegava a ficar enjoada daquelas cores todas. Daquelas frutas todas. Daquelas nuances adocicadas estampando sorrisos tão artificiais quanto os corantes nas pessoas. Não por causa da embriaguez, mas pela combinação carnavalesca. Não condenava os sorrisos. Pelo contrário, chegava a ter vergonha de si mesma, de seus pensamentos arrogantes dentro da noite fresca de verão.

Dois rapazes de um tom moreno-avermelhado de sol tocavam umas músicas de três acordes em desafinados violões pretos tipo cult bacaninha. Fortes, suados e cantando fora do tom. A cena só não era mais deprimente porque graças a deus não havia ali uma fogueira. Mesmo assim, estavam todos sentados em roda, como se houvesse uma bem no centro. Lá menor, sol maior, ré menor. Deprimente.

Um rapaz novinho e bonitinho, cabelo raspado, bochechas rosadas pelo álcool, tirou do bolso uma gaita e interferiu desencontrado naquela cena de filminho de verão. Alice sorriu meio de alívio, meio de admiração pela ousadia do garoto. A situação cômica criada a fez pensar na possibilidade de guardar seu costumeiro ar amargo e não contaminar mais aquela noite. Apesar de tudo, bonita, lua cheia, barulho de mar e tal. Céu limpo. Vento morno soprando no rosto. O hálito quente de um grande deus que só aparecia nas noites de verão para derreter o espírito.

Levantou aliviada por se desvencilhar da roda patética. Olhando de fora, de cima, decidiu que não tornaria a fazer parte daquilo. Percebeu na estampa da canga onde estivera uma grande mandala vermelha desenhada. Sorriu irônica e querendo acreditar nesse prenúncio. Queria estar bêbada, pensou exatamente com essas palavras andando em direção ao toldo sob o qual um casal preparava aquelas coisas excessivamente doces e coloridas.

O rapaz de cabelo preto espetadinho com gel fazia lembrar as personagens de Caio Fernando Abreu. Roupa preta e tudo. Sua alocação nos anos dois mil só era denunciada pelos grandes alargadores de metal. Alice se distraiu olhando demorado o espaço vazio no meio destes.

A mulher ao seu lado parecia entretida nos malabarismos que fazia com a coqueteleira rosa fosforescente. Era mais velha que o garoto, com certeza era. Talvez perto de vinte e cinco. Olhos de um azul muito claro contrastando com o preto do excesso de delineador e rímel. Pele muito branca, criaturas da noite os dois. Cabelos pintados de preto, bastante lisos, presos num coque desfiado. Vários piercings desses com bolinhas coloridas na sobrancelha, nariz, orelha, língua, sabe-se lá mais onde. Camiseta branca muito justa, um pouco transparente. Ofereceu um Sex on the Beach que a princípio Alice entendeu como uma proposta. Riu da própria idiotice quando a outra estendeu o copo. Pareceu um sorriso educado. Líquido colorido e doce desceu enjoativo. Tomou apenas um gole prevendo o tempo que ficaria sem saber o que faria com aquilo.

Quando pensava sem estímulo no copo e na roda e no quanto não queria nenhum dos dois, a viu. Na areia, bem perto do mar, distante daquela aglomeração ridícula, agachada quase como que de joelhos lá onde a água batia fraca, num encontro de marolas vindas de várias direções. Cabelos acastanhados, algumas mechas dourados pelo sol, bem compridos, caindo pelo ombro até a frente do corpo, cobrindo o contorno dos seios e deixando à mostra uma mandala muito colorida, tatuada logo abaixo do pescoço. Se crescessem asas exatamente daquele círculo, poderia ser uma fadas dessas de conto infantil.

Alice se aproximou com reserva e timidez. Parou de pá ao lado dela. A maré é suave a esta hora..., arriscou pensativa tentando disfarçar o nervosismo, que a outra logo percebeu pelos pés inquietos encostando alternadamente na areia. As unhas e os dedos se deixando afundar de leve, o calcanhar meio desequilibrado.

A fada estendeu a mão aberta sobre o espaço ao seu lado num gesto largo de convite. É bonito de ver, respondeu quando Alice sentou. A água toca na gente devagar, parece que com respeito.

As duas ficaram algum tempo em silêncio, sentindo as pequenas ondas geladas tocarem seus pés. Na noite abafada, o frescor do mar era um alívio. A conversa logo foi retomada no mesmo tom: bastante leve, como o marulho que reverenciava a escuridão branca sob a lua. O desejo pairava no ar junto com o vento morno e seco que as rodeava. O cheiro de sal libertava Alice do adocicado irritante dos drinks de antes. Enquanto inspirava fundo a maresia, sentiu o copo ainda cheio em sua mão. Apoiou-o na areia torcendo para que não derramasse. Nesse gesto, as mãos se esbarraram quase sem querer apesar da vontade muita. Antes que soasse uma cantada barata, Alice explicitou sua intenção percorrendo a tez branca daqueles braços com a ponta dos dedos. Quase sem tocá-la de fato, terminou no pescoço, apertando a nuca por dentro dos cabelos e trazendo-a para muito perto de si, a ponto de as respirações quentes e ofegantes confundirem-se no vento morno. O beijo também era morno, macio, longo e passível de vários adjetivos incapazes de definir a sinestesia daquilo.

O calor amolecia os pensamentos. Um risco maior do que se julgava capaz. Foi o máximo que conseguiu definir, mais com orgulho de si mesma do que com o medo que esperaria sentir se estivesse esperando algo. Aquela boca era doce como uma lembrança antiga, com a suavidade forte e marcante que a doçura deve ter, sem cores fortes, vodka ou nomes estadunidenses. A fada era doce da mesma forma que o mar era salgado. Aquela antítese lhe aprazia os sentidos. Não quis saber ao certo se era uma recordação, um sonho ou apenas uma saborosa noite de verão. Sabia do cheiro fresco de xampu e sal nos cabelos dela, do gosto rosado de carne fresca, da brisa suave sob o céu estrelado nas noites mágicas.

Sentiu que a outra permitia que tocasse não apenas o corpo quente, mas também sua alma. A mandala, que agora Alice via bem de perto e podia sentir com as mãos e os lábios, era uma espécie de marco. Tatuara após o término de um relacionamento. Melina, nome de fada mesmo. Libra com ascendente em câncer. A leveza do ar na profundidade da água, lembrava alguma música. Segundo a definição da própria, equilíbrio sujeito a fundo do poço. Soou patético, mas Alice achou meigo.

As peles, de um branco reluzente sob o luar, tocavam-se ávidas, num abraço terno. O barulho do mar embalava a sensualidade e o tesão de ambas. Melina tinha seios pequenos, róseos, quentes sob a brisa fresca. Alice sentia no arrepio da pele a vontade de ficar ali para sempre.

A essa altura já ignoravam que existisse mais alguém na praia, a música distante pouco se ouvia, a madrugada adentrava sem que sentissem. Os sentidos concentrados apenas no desejo do outro corpo, na vontade do prazer único que é o prazer do outro. Alcançado por aquela mescla inigualável de mãos, línguas, afagos, peles... Precisam de ajuda aí? A voz brusca cortou a magia da cena, como de abruptamente desligassem uma linda música. Gargalhadas certamente bêbadas, alguns comentários que, no susto, Alice não conseguiu entender. Alice abriu os olhos e viu que eram vários. Tentou amarrar de volta a blusa de Melina, mas já era tarde.

O gosto doce de carne fresca em sua boca tornou-se sangue no primeiro soco. Cheiro de suor sujo misturado com álcool. Alice se debatia tentando ao menos olhar para os lados, queria que houvesse algum modo de proteger Melina. Com o braços imobilizados por um ser asqueroso sobre si, o máximo que conseguiu foi encontrar uma das mãos dela, cravada na areia de desespero. Segurou com força, ou o que restava disso.

Uma outra mão, grande, áspera, suja do sangue que supunha seu, cobriu sua boca para abafar os gritos, impedindo que olhasse para Melina. Segurou com mais força a mão da fada, ouvindo os urros de dor e medo ainda que abafados. No desespero, fechou os olhos. Tentando acordar do pesadelo talvez. Em vão. Percebeu quando suas forças se esvaiam por completo e chegou a ansiar que desmaiasse. Sentiu sua própria mão afrouxando o toque na dela.

Acordou com o dia claro. Sol forte batendo no rosto. O mar batia fraco mas lancinante na pele lanhada, arranhada. Aos poucos foi percebendo os vários hematomas. Sentia todo o corpo como em carne viva. Enquanto a alma estava seca, rasgada, destroçada. Olhou em volta. Ninguém. A pergunta do que teria acontecido àquela fada ficaria arranhando imperdoavelmente sua alma ainda por muito tempo. Sem resposta.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Convive com as palavras antes de escrevê-las...

Vai ver as coisas tão maturando.
As mesmas expressões. Algumas obsessões-paranóias urbanóides. O pó espesso sobre qualquer espécie de sentir. Sentido?
Eu queria...outra coisa.
Em luto, um luto cinza esbranquiçado. Desbotado. As emoções desbotam também.
Sem estética.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Copo de vidro

Foi na hora em que você não viu. Sem ser muita novidade, posto que, não raro você não estava olhando. Por isso mesmo, há de ser um mistério para a vida inteira. Um vento bateu na hora. A força do espírito santo. Um mau agouro. Ou uma mão cheia de vontade pegou com força o copo e o fez espatifar-se com gosto, em mil caquinhos, no chão. Você não viu. Você não sabe. Nunca saberá.

Agora está assim: irremediável.

Copo de vidro não é cobra de vidro, eu bem já lhe havia dito. Mas você não conhece, nunca nem ouviu falar em cobra de vidro e julgava que o copo estivesse bem guardado. E eu, embora tenha na paciência uma das minhas grandes características na vida, não tive paciência - ou foi vontade mesmo - para explicar. É porque você, além de nunca querer ouvir, não entederia. Não é capaz de perceber que se você deixa por aí largado o copo, cheio ou vazio, pode mesmo acontecer dele cair e quebrar. Difícil? Não.

Copo quebrado todo mundo sabe que o remédio único é varrer e jogar fora os cacos. Minha mãe também me ensinou que, depois da tragédia feita, é bom andar calçado porque sempre ficam uns cacos e se pode cortar o pé. Eu aprendi.

Mas então, agora, depois do chão já limpo, você vem para catar os cacos e saber do que aconteceu. Caiu, quebrou, passou. É só o que eu lhe digo.

O chão já está limpo, já disse e odeio me repetir. Eu já estou pronta. Já tenho um jogo novinho de copos de cristal guardados numa charmosa cristaleira - "resiste ao tempo e às boladas que levou". Aliás, vai ver foi isso: umas crianças jogando bola, é assim mesmo... entra pela janela, bate e sempre quebra alguma coisa. A gente grita, reclama com os pais, mas no fundo não liga não. Acha até bonito, engraçado, coisa da idade.

Então pronto. Expliquei. E daí se não é verdade? Podia muito bem ser. Se o que você queria era entender está tudo certo. Agora eu preciso ir, atrasada para um compromisso importante. Você faça o favor de ir embora porque eu já disse - e era o mais importante que, como sempre, você nem se importou: era copo de vidro e não cobra de vidro. Porque cobra de vidro é uma espécie de lagarto que se você parte "dois, três, mil vezes, facilmente se refaz".

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Encontro das águas - Jorge Vercilo

Sem querer te perdi
tentando te encontrar
por te amar demais
sofri, amor
me senti traído e traidor
Fui cruel sem saber
que entre o bem e o mal
Deus criou um laço forte,
um nó
e quem viverá um lado só?
A paixão veio assim
afluente sem fim
rio que não deságua
Aprendi com a dor
nada mais é o amor
que o encontro das águas

Esse amor
hoje vai pra nunca mais voltar
como faz o velho pescador
quando sabe que é a vez do mar
Qual de nós foi buscar
o que já viu partir,
quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir?
Quem eu sou pra querer
Entender o amor

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Confesso (Ana Carolina)

Confesso acordei achando tudo indiferente
Verdade acabei sentindo cada dia igual
Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante
Quem sabe o amor tenha chegado ao final
Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero ou vaidade
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz

Não vou pedir a porta aberta é como olhar pra trás
Não vou mentir nem tudo que falei eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo eu já roubei demais

Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer
Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais

domingo, novembro 30, 2008

"toda mulher é um pouco puta e um pouco lésbica"

http://entrequatropalavras.blogspot.com/

...

O ano passou rápido, afinal...

“Depois que acaba a gente pensa que ele nunca existiu...”
(Para se ler ao som de Você se parece com todo mundo - do Cazuza).

Amor, quando morre, deixa uma cicatriz feia na camada mais funda da parte da alma que fica sob a pele. Uma cicatriz feia, disforme – que às vezes dói ainda mais pelo fato de simplesmente não doer. Dói por não ser possível engolir de volta todo o sangue que dela um dia jorrou. Dói por estar ali, pela pele que nunca mais voltará a ter seu esplendor inocente. Um amor morto nos tira a ingenuidade e nos dá um ar blasé de quem já teve um amor e sabe como é. Um ar de quem sobreviveu não a um naufrágio, mas a uma doença grave e secreta que todo mundo já teve e não diz. Deixa na cara a vontade de esculpir no reflexo a força de continuar, não mais como continuar após o abismo do amor, ao abismo é fácil: todo mundo sobrevive. O difícil é sobreviver ao outro lado, depois do resgate, saudando todo dia no espelho aquela cicatriz de arrependimento.
Um amor quando morre deixa os pés fincados na terra de um jeito. Morre e deixa umas músicas arquivadas na HD, umas cartas rasgadas no lixo, outras queimadas no desespero da raiva e mais umas guardadinhas num canto do armário para serem vistas quando a cicatriz já não for a única e se puder lembrar das coisas com menos mágoa e mais nostalgia.
Um amor quando morre sem atestado de óbito deixa milhões de gritos, palavrões e batidas de porta presos na garganta. Deixa um arrependimento das coisas sem perdão. Deixa uma saudade da cama cheia. Da inocência de se dormir acreditando. Um amor quando morre cria insônia, aumenta o tamanho da cama, o tamanho do quarto, a intensidade da escuridão, até a noite fica mais longa.
Um amor quando morre faz descobrir o gostoso de dormir esparramada, sozinha. Faz descobrir o afago do fundo do copo. A beleza da iluminação disforme da madrugada. Da alegria decadente que as noites não dormidas na rua têm. Morre e um dia a vida ganha cores fortes como não se pensou quando as coisas eram o preto-no-branco de um amor.
Um amor quando morre deixa no rádio aquela música do Cazuza, você se parece com todo mundo... Um amor quando morre, mata. Abre ferida grave, sangra jorra, alaga a cama de saudade e lágrimas, dá ao travesseiro forma de corpo. O sangue um dia estanca. A lágrima seca. A ferida fecha, cria casca, vira cicatriz charmosa que a gente veste no rosto quando vira mais um sobrevivente na vida. Amor quando morre nos faz olhar o céu à noite e ver mais estrelas do que o céu poluído de um amor nos permitia.
Amor morre e deixa a vontade do café forte, do uísque amargo, da noite menos amena. Amor quando morre deixa mais funda é a vontade de amores, que nos amem, que nos matem. O amor não pode ser um*.
*Referência ao verso de Romã Neptune.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Ferrugem

Nas mãos a caneca grande demais para o café. Na boca, o café já meio morno. No pensamento o pensamento de ontem tentando se re-traduzir como quem requenta um café sabendo que, ao prová-lo, desistirá de tomar. Sobre a mesa, uma folha de caderno já meio amassada de tanto lida – no tempo em que já não se escreve a mão, já não se passa a limpo, já não se relê muito as coisas porque o tempo é curto.
No coração (palavra boba mas insubstituível), algumas angústias repetitivas e copiadas sobre o tempo, sobre a temperatura, sobre o vermelho-velho do cabelo. Algumas frases de fato por dizer, alguma sensação de ter ido longe demais, de ter feito um bolo em forno alto. Alguns erros na vida são irreparáveis, imperceptivelmente irreparáveis. Algumas cicatrizes pequenas só a gente mesmo vê. Alguns perdões são impossíveis – se é que existe perdão nessa vida.
O café melancólico, frio e melancólico, da cena melancólica que ela mesma criara sem perceber que a cortina de tanto tempo fechada já sustentava um tom poeirento de vermelho-velho, como seu cabelo.
O que não sabia era lidar com a vontade incoerente, persistente, contrastante com a sensação ora de fim, ora de eterna primeira impressão.
Denise já não era a mesma. Chegava a falar de si na terceira pessoa para minorar a dor dessa constatação. Olhava de longe. Dava-se somente em frases curtas, não mais em gestos arrebatadores.
Denise parada num bar tomando café frio numa caneca grande. Já não queimava a garganta com a pressa de viver. Já não fazia questão de efemeridades.
Envelhecera com a cor do cabelo. O furor intenso que antes a movia parecia estacionado numa vontade de deixar-se opaca, de deixar a vida vir a si ao invés de correr atrás e forçá-la como uma inversão de papéis. As rédeas ficavam pesadas às vezes e a melhor – talvez não a melhor, mas a mais confortável – coisa a se fazer era ficar e esperar. Não como quem toma um táxi na rua, mas como uma estudante que escolhe o ônibus pela cor.

terça-feira, novembro 11, 2008

Ainda no Banco de trás

A mulher escrevia poemas no banco de trás do carro como quem pára e espera o instante em que a água começa a ferver. Caderno e caneta nas mãos, olhar no horizonte e vento nos olhos fazendo-a lacrimejar bonito e sentir-se mais emocionalmente ligada ao fato de estar viva. Esperava um poema como uma primeira bolha da ebulição de seus pensamentos sempre vagos. Nunca importara-se muito em vagar por aí, protegia-se com uma antiga máxima segundo a qual "para quem não sabe aonde está indo, qualquer lugar serve"...

E por isso se deixava fingindo não saber nem se importar com o destino do veículo - apenas o trajeto lhe era indispensável. Acostumara-se a ser levada, acostumara-se a achar saboroso o gosto das estradas, às vezes surpreendentes, noutras reconhecíveis. O que nunca sabia era se a familiaridade se dava por de fato estar num lugar onde já estivera, ou se depois de um tempo começava a achar as paisagens parecidas. Mas isso não fazia lá muita diferença; era como uma fórmula: bastava acender o fogo e ficar esperando, logo a água entraria em ebulição. Uma semi-certeza. Como uma verdade maior que todos sabem mas ninguém diz: a poesia estava no caminho. Não. Nenhuma verdade secreta, subjetiva ou teleológica. Estava no caminho porque estava no caminho. Em cada árvore que passava e não num suposto destino final. Até porque este não existia, era como aquele sonho de "ser em si". Pronto.

Do barulho da chave girando, o tremor do carro acordando, o solavanco natural que invertia a ordem do mundo fazendo todas as coisas andarem para trás só porque ela estava era andando para frente.

Na velocidade, era certo, sempre se chegava aos cem graus e as moléculas-sinapses entregavam-se àquela festa silenciosa e íntima. As linhas preenchiam-se como um coração acalentado. Contudo, o conforto que a inundava quase sempre se parecia mais com o que se tem quando se chega em casa debaixo de uma tempestade - o alívio após o furacão.

Mas uma vez (quase como "era uma vez..."), houve uma enchente grave e não foi possível entrar em casa, o furacão não passou, a água estacionou nos noventa e cinco graus: o papel ficou em branco. O desespero não foi seguido de alívio e a lágrima que caiu - e sequer se deu ao trabalho de pingar no papel para soar mais bonito - não foi por causa do vento nos olhos.

A dor, afinal, era como a de um matemático que após anos e anos de trabalho descobre uma equação ridiculamente irresolúvel. A mulher acabara de perceber o vazio de vagar sem rumo e a falta do que quer que fosse a tragou dolorosamente como se Deus, arrependido de tê-la criado uma vez, ao invés de matá-la resolve-se deglutí-la. Mastigá-la vagarosa e impiedosamente, mas com um apetite genuíno e, portanto, incontestável.

Ali, vendo sua carne amolecer entre os dentes de uma divindade para ela sequer conceituada, a única saída era um ato heróico. Salvar a si mesmo era um imperativo irremediável e inadiável, como qualquer coisa o é quando enfim acontece.

GRITOU.

O carro parou mostrando que não se conduzia sozinho, mas que havia um homem ali. Meu Deus, havia um homem ali! A constatação da humanidade óbvia de outrem afundou sua cabeça torturada num barril cheio d'água. Esse tempo todo se deixara cegar pela idéia de um caminho, de uma paisagem, de umas drogas de móléculas fazendo festa, de umas palavras bobas num papel que jamais seria lido! Como pudera se deixar afundar por essas tolices se todo o tempo estivera diante do milagre maior da existência?

Milagre este que, apesar de milagroso, em sua realidade aparentemente intangível estava era bastante aturdido com aquela história de grito, "pare o carro!" etc. Enquanto ela aturdia-se era do caso de ser de repente tão mais vivo o mundo real e tão latente a necessidade de estar no mundo real quando se está diante de um homem.

Como se de novo a temperatura da água subisse um grau, só por charme, dando a entender que um dia ferveria, mas não agora. Ela saiu do carro. Pois se só encararia se fosse a última saída, que fosse. Ela iria.

Para quem gostava tanto do caminho do vento, o sol penetrou doído nos poros. Tudo bem, pensou, doer faz parte. Com medo de parte ainda ser apenas um pedaço do caminho, espantou o pensamento com as mãos no ar, como fossem mosquitos, de um jeito doce de personagem de desenho animado.

Quase pensou que se fosse uma personagem de desenho animado jamais precisaria enfrentar a humanidade de um homem, mas teve medo de que esse pensamento a acovardasse.

Por um instante, pensou se teria coragem de beijá-lo. Depois, viu o quanto soaria bobo. Tendo a chance única na vida de um gesto grande não seria burra a ponto de encolhê-lo num gesto bobo. Pensou na doçura que têm as impulsividades bobas. Pensou na redução. Sentiu-se menor como quando a lágrima poderia ter caído no papel mas fez questão de cair sabe-se lá onde.

Sorriu ao mesmo tempo vencida e triunfante: troca. Ele trocou com ressalvas. Apesar de um homem, não era fraco. Foi para o banco do carona. Ela assumiu a direção. Seguiram assim o resto do caminho (?!). Ele sendo um homem e ela sendo uma mulher. Não pela obrigação de o serem, mas pela ocasião natural de serem homem e mulher. O vidro da janela fechado quase até em cima. O caderno vazio caído inerte - sozinho - no banco de trás. A água fervente, evaporando.