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quinta-feira, outubro 28, 2010

Anti-revisionismo

Antes eu escrevia no modo automático, achava que era algum tipo de áurea que se apossava de mim a escrita. Pensava que se eu deixasse fluir, de forma quase mística, inconscientemente, o texto - ou mais pretenciosamente, a arte - viriam naturalmente. A história com h maiúsculo me ensinou que até a natureza é uma construção datada e escrever hoje é quase um peso (além de não prometer nada próximo de uma redenção).

Escrever é disputar com o tempo que eu poderia ler, aprender alguma coisa mais próxima de útil, ainda que no sentido metafórico. Escrever não é mais de graça, não é mais fluido. É um custo físico das horas de sono que eu poderia ter para um dia mais agradável amanhã. Tem o gosto de culpa, que a tanto custo eu tento pregar que não existe, simbolizado pelo texto que me observa meio por baixo do teclado enquanto eu pseudo-abstraio e escrevo.

E as palavras perderam, com o tempo, qualquer possibilidade de sinônimo. Alguma distância da literatura transformaram a escrita em algum pragmatismo. Os julgamentos pegaram uma frequência difícil de mudar, não é uma questão de rolar o botão mais para o lado.

A escrita perdeu a possibilidade de um assunto para além de si mesma. O que poderia ser classificado com os velhos termos de "bloqueio criativo" se tornou uma cíclica confissão: eu não sei escrever.

A boneca anda carregando livros, fazendo ares de trabalhadora-honesta-que-ainda-tem-tempo-e-responsabilidade-para-estudar. Mergulhou num vazio no sentido mais pobre do termo. Uma vaidade sórdida ameniza até a culpa pelo abandono do que era para nunca ser perdido. A boneca descobriu que talento não existe e que toda vontade tem de ser regada com muito esforço para valer a pena - ou o toque do teclado.

Valer o esforço sabendo que a escrita é a única arte em que a marca física do artista não tem a menor importância é um peso grande na balança. A argamassa nunca aparece, a dor nas costas não transparece na inconcretude do produto final. A solidão e o turvamento das vistas é quase imperceptível para além das frases confusas. Parece que não vale o toque no teclado se a vaidade vai sair sempre ferida.

Ninguém vai cair no meu conto de menina sofredora...

terça-feira, outubro 26, 2010

Paredes amarelas

No meu último dia de aula do ensino médio eu senti toda a desproteção do mundo que me esperava do lado de fora das paredes amarelas. A frase é muito forte, mas não é nada disso. Eu não consigo me lembrar detalhes do meu exato último dia de aula - e acho que isso não tem muita importância, já que me lembro bem de muitos dos dias percorridos nos meus sete anos de Colégio Pedro II.

Uma coisa que me lembro bem é que o significado de proteção que o colégio tinha para mim sempre esteve simbolizado nas paredes amarelas e seus furinhos estranhos por onde alguns alunos teimavam passar. As pessoas sempre me diziam em tom apavorante que o mundo aqui de fora era muito maior e que eu ía sair amputada. Eu, como boa discípula da metáfora da terceira perna, adorava essa pinta de adolescente desprotegida e disposta a enfrentar um mundo grandão fazendo aquela cara de filhote de gato.

Sobre o tamanho do mundo não tinha nenhuma mentira, mas não me disseram que a ausência das paredes era uma espécie saborosa de algo parecido com liberdade. Que do lado de fora a gente podia tomar café na hora do recreio, usar meias coloridas e colocar um boné na cabeça se desse vontade. O mundo é mesmo enorme e as possibilidades da vida muito mais infinitas que uma prova de vestibular - só fui perceber isso depois de quase terminar a faculdade e conhecer mais de perto esse mundo dos cursinhos.

As paredes amarelas? Bem, elas continuaram sendo um recanto adocicado da minha memória, um travesseiro quente onde se agarrar nas noites de solidão e desespero do futuro - quando não resta outra saída senão (opa!) olhar pro passado.

E foi buscando esse refúgio que acordei no dia da festa setembrina do colégio pensando única e exclusivamente que veria as minhas paredes amarelas. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com uma tinta verde-meleca-depressiva. A mesma falta de chão - ou de parede - de quando tive de passar por aqueles portões com ares de definição. Ainda devo ter em algum lugar o papel que me diz que, além de bacharel em ciências e letras, eu também não sou mais uma criança com direito a chorar por qualquer tropeço.

Isso ficou na minha cabeça por algum tempo, até a data recente em que cheguei na faculdade e me deparei com um amarelo indeciso sobre as paredes antes de um branco habitualmente incardido. Entrei em paradoxo e comecei a repensar todos os meus simbolismos e dependências e amarras visuais.

Sem nenhuma conclusão, fico com esse meu medinho-gigante de perder as amarras de novo e ganhar o tal atestado de adulto, mas isso é papo para o ano que vem...

terça-feira, outubro 12, 2010

Um tempo andando no escuro

Impossível ensolarar quando a primavera não chega. O tempo não cabe no meio das nuvens cinzas. Tem uma neblina densa, espessa. Quando ameaça um azul, ele vem gelado. O frio não dissipa. O cinza não se espalha. As flores não desabrocham. Não chegam as tardes de sol a pino e meu melhor sorriso continua guardado na gaveta.

Um felino enlouquecido às vezes abre a gaveta à força e arranca de lá sorrisos, suspiros contidos, gozos acumulados.

Os botões de rosa não se abrem. Há muitas ervas corroendo os jardins. Eram pequenas e parecia que não sobreviveriam ao frio. Agosto passou, setembro passou e a boa-nova não entrou nos campos. Eles estão secos, com aquela cor de palha incendiada. Pela janela só adentra o orvalho frio, o sereno gélido. Não há sequer luares para além das nuvens. Há mais nuvens. Depois das brancas as cinzas, cada vez maiores, cada vez mais espessas, cada vez mais escuras, cada vez mais chuvosas.

Eu olho pela janela, me perco através dos galhos ressequidos das árvores procurando o dia em que choverão todas. Que desaguem, eu peço. (E que ainda exista um sol por trás delas).


segunda-feira, outubro 04, 2010

Meta-

Eu e muitas outras pessoas ficamos impactados com o trailer de "Do começo ao fim" e apostamos todas as nossas fichas de todas as cores nesse filme. Não vou dizer que foi uma decepção, até porque já decidi que não vou guardar recortes de produtos para vender ou pifar.

A eleição passou e talvez a paz volte a reinar em nossos corações - o caos habitual vai continuar por aí e a tendência é sempre piorar.

Eu digo frases sem sentido, mas sempre tive a impressão de que se acertasse o tom pareceria inteligente. Eu nunca fui muito inteligente e é a primeira vez na vida que preciso esperar a máquina de lavar para poder dormir. Gosto de primeiras vezes. Sei que ainda há muitas por aí pela frente.

Verborragia é uma palavra que me atrai, mas o tempo vai passando e o cansaço da escrita não é mais só por causa da dor que causa colocar o dedo na ferida, tem um nódulo no ombro, a coluna vai curvando e até os dedos doem quando fazem esse barulho já não tão rápido mas ainda um pouco firme. Nunca enxergo o que escrevo. Nunca leio o que escrevo. Não gosto. Causa uma vaidade concomitante à necessidade latente de reescrever e eu sou péssima em reescrever. Sou péssima em repetir qualquer coisa: frase, gesto. Toda vez que vou contar uma história, na segunda vez já não sei medir o que estou inventando. Sou péssima para refazer.

Característica imperdoável para um ser humano.

Outro motivo pelo qual não posso reler as coisas que escrevo é que decoro. Sim, em paralelo ao total destalento para repetir, tenho uma espécie de tara por decorar os trechos. Recitaria textos inteiros agora, mas vocês pensariam que é control-vê porque não tem como saber.

Não faz sentido? Experimente decorar o texto que você acha mais bonito do mundo. Vai, chafurda, pode ser a citação mais profunda, inteligente, megalomaníaca. Escolheu? Agora decore e repita dez vezes todos os dias, module o tom e a voz de acordo com a necessidade.

Deixe passar vinte e um dias e me responda.

sábado, outubro 02, 2010

Capítulo Sete - Atrás da porta

Aguentou por algum tempo até perceber que dava na mesma. Acordar, fazer o café, lavar a louça do café, arrumar as camas, varrer o chão, passar pano, fazer o almoço, servir o almoço, lavar a louça do almoço, tirar o pó, lavar a roupa, estender a roupa, recolher a roupa, passar a roupa. Mas o pior de tudo era escutar os lamentos de uma esposa perfeita, com sua vida pequena de quem não tinha com o que ocupar o tempo já que tinha uma cunhada para fazer de escrava.

Um dia percebeu que sentia saudades de se vestir demoradamente para as noites de promiscuidade na pensão da Dona. Pegou as meias já meio desfiadas que guardara numa caixa, junto com aquela par de sapatos pretos, saltos finos e pontas já meio puídas. Um dia pegou aquele vestido florido, de tecido macio e que rodava ao redor do seu corpo quando andava. Lúcia lembrou como era sentir-se bonita. Alguém bateu na porta do seu quartinho nos fundos da cozinha. Era Joelmo pedindo que pegasse copos e uma garrafa de cachaça na venda, que a ocasião era para festa pois ele ia ter um filho.

Lúcia aproveitou que já estava vestida, deu uma resposta de consentimento e mais uma vez reuniu suas poucas coisas para mais uma empreitada sem rumo.


quarta-feira, setembro 22, 2010

Capítulo Seis - Revivências

Joelmo estava com uma expressão lívida que Lúcia não soube interpretar como felicidade. No fim das contas ele não viera trazer um grande sofrimento, apenas a notícia de que casara e que agora Lúcia podia morar com ele se quisesse. Seria bem-vinda e Maryara adoraria a presença dela, se viesse. Joelmo tinha um grande medo de que seu plano não desse certo e a presença de Lúcia era um tipo de segurança bastante peculiar naquele momento.

Lúcia não queria reviver os excessos de intimidade que experimentara com seu irmão, mas por outro lado, a companhia de Maryara lhe parecia um bom futuro a seguir. Dona Carmem lhe olhava mais feio a cada dia e não gostava nem confiava naqueles clientes tão cheios de pelos e manias. Uma casa onde se refugiar não pareceu má ideia.

Não conseguiu pensar se estaria atrapalhando a vida do recente casal. Enxergou uma maneira de se ver longe de suas habituais angústias. Não parecia possível um sofrimento maior. Foi. Joelmo sempre fora um bom irmão e lhe valia a esperança de ainda estar longe de tudo o que não queria ver - nem reviver.

terça-feira, setembro 21, 2010

Capítulo Cinco - Envelope lacrado

Depois de um tempo, Lúcia já não abria as cartas de seu irmão. Era suficiente para ela saber que as coisas e pessoas estavam no mesmo lugar, faziam as mesmas coisas, tinham os mesmos problemas. Uma espécie de conforto residia em ter sua solidão inteira para degustar junto com todos os seus problemas novos e insolúveis.

É claro que um grande bocado do motivo de ter acumulado aquele montante de envelopes lacrados tinha a ver com a recusa de possíveis novidades. Não suportaria nem mesmo saber que Dario pudesse ter um grande problema, não conseguiria aguentar uma compaixão por ele no estado em que se encontrava. Ademais, não tinha interesse nenhum em ler que se formava um rótulo de felicidade em volta dele e de Marliana, que planejavam um bebê para o próximo ano, que ela havia parado com as faxinas para se dedicar ao lar. Não precisava que essas coisas ficassem ainda mais reais e constantes em sua cabeça. Não lia nem telefonava. O irmão não tinha o número da pensão, não corria maiores riscos.

Ou assim imaginava até a noite de ventos gelados em que a Dona da pensão bateu na porta enquanto se maquiava para mais uma noite. A Dona disse que tinha um homem esperando lá embaixo, que não era hora ainda, onde ela pensava que estava. O coração de Lúcia bateu como se tivesse a mesma ingenuidade de antes e o corpo cansado desceu o mais rápido que pode sem atentar a nada no que dizia a velha senhora.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Capítulo Quatro

Lúcia não gostava das noites, não gostava quando uma certa penumbra a impedia de distinguir as pessoas, as cores, os lugares. Quando se vestia, escondida sob uma maquiagem pesada e colorida que não gostava nem de olhar no espelho, não tropeçava nem perdia o caminho de volta, mas ninguém imaginava a cegueira que tinha naquelas noites.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Capítulo 3 - Três

Poderia ser uma letra de tango com palavras totalizantes, mas o que Lúcia vivia embalada por músicas da jovem guarda e nos momentos de maior sofrimento repetia os versos "pobre menina, não tem ninguém". Naquele quarto pequeno da pensão de Dona Carmem, gostaria de ter versos buarqueanos para embalar suas lágrimas noturnas, mas quando os homens cuja soma não fizera gozavam de pressa e saíam cheirando a gim, não tinha nem mesmo essas palavras para narrar o momento para si. O costumeiro inenarrável era para ela um constante desespero.

Recebia cartas constantemente, de seu irmão e de outros tantos admiradores que já não podiam visitá-la. Guardava todas numa mesma caixa e quando a solidão parecia maior do que o suportável acostumava-se a ler nas entrelinhas uma paixão que não havia, um amor que ninguém jamais sentira por ela.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Capítulo 2 - "Concreto e asfalto"

Carregando umas poucas coisas numa sacola e muitas outras no estômago e até no ventre. A primeira porta em que ousou bater foi a segunda cujo estampido do fechar não quis ouvir. Dario nem mesmo estava em casa e, sua mãe, sempre tão amável e simpática, ofereceu um dinheiro suficiente para que Lúcia não esperasse para assistir à cerimônia do casamento dali a dois meses e se livrasse de pelo menos um dos pesos que carregava dentro de si. Quando a notícia do ma-tri-mô-nio enfim concretizado chegou - através de uma carta de seu irmão -, Lúcia já tinha até um casa onde receber uma carta. Tinha também um travesseiro onde esconder o rosto para chorar todas as habituais últimas lágrimas de sua vida. Na carta, seu irmão dizia que a festa tinha sido bonita e quase toda a cidade estivera presente. Lúcia sentiu uma ausência enorme naquela cidade de presença inestimável em que agora vivia. Respirou fundo para conter as lágrimas, sentindo a fumaça e a poeira inebriarem as partes do seu dentro cada dia mais pesado.

terça-feira, setembro 14, 2010

Capítulo 1 - A menina má

Lúcia era uma menina doce até o dia em que ficou amarga. Saiu de casa aos quinze anos sem olhar para trás nem quando sua cabeça foi obrigada a voltar-se naquela direção com o impacto do tapa. Não chegou a saber se saiu expulsa ou em fuga. Dali em diante enfrentaria todos os clichês que uma Vida dura-e-amarga podia lhe oferecer. Ela estava pronta, sua pele jovem ansiava por todos os tipos de arrepio.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Minha sinopse de Malu

Eu acho que as pessoas que escrevem sinopses normalmente viram o filme sobre o qual escrevem. Infelizmente ainda não vi Malu de Bicicleta (estou esperando ansiosamente pelo Festival do Rio, pois soube que vai passar), mas como li o livro me sinto capacitada para participar da promoção:

Fugindo de suas peripécias amorosas, um típico garanhão paulista é literalmente atropelado por uma sedutora carioca. Malu atropela Luiz com sua bicicleta no calçadão das praias do Rio de Janeiro e o clima de romance se instala. Até aí, tudo perfeito para os dois se apaixonarem e viverem felizes para sempre. O problema é que Luiz começa a provar do próprio veneno sedutor - fica difícil se entregar a um amor quando se está tão acostumado aos jogos e truques da conquista. Luiz começa a desconfiar que Malu o está traindo e, imerso nas artimanhas que costumava usar, encontra facilmente vestígios que considera ‘provas’ da traição.

Confiram o trailer:

quarta-feira, setembro 01, 2010

Problemas numéricos

Problema número um: Isso aqui não é um blog. Não sei se é porque eu sou mesmo uma pseudo-intelectual que acha divertido problematizar e relativizar tudo, mas eu nem mesmo sei o que é um blog. O mais próximo de uma definição que eu tenho para blogs é uma espécie de diário público. Isso aqui nunca foi um diário. Não, eu não vou entrar no mérito de tentar descobrir o que é isso-aqui. Rótulos nunca adiantaram para explicar nada. Como já disse antes, o mais próximo que chego a dizer é que isso-aqui que é um repositório, que se diz despretencioso, de escrita. Ou mesmo uma boneca russa com faces múltiplas mas nem tão surpreendentes assim.

Pois bem, se isso não é um blog, não faz sentido nenhum falar do dia do blog, que ninguém sabe o que é, quem criou ou para quê serve. Mas poxa, mesmo com sei lá quantas camadas de cebola na explicação do que esse lugar imaterial representa, tá escrito ali em cima o domínio blogspot. Talvez escrever alguma coisa seja necessário para pelo menos agradecer a esse tal de blogger por me hospedar de graça por cinco anos.

Problema número dois: o blogday foi ontem, né? Então leiam fingindo que vocês não sabem que dia é hoje.

Problema número três: sem saber que dia hoje tudo perde totalmente o sentido, não é? Então deixa pra lá.

Fato é que o fato aconteceu (ó!) e não consegui não pensar no que me fez/faz ficar aqui falando pro além durante tanto tempo. Somos a primeira geração da internet democratizada e mesmo que não tenhamso muitos leitores, a possibilidade de escrever alguma coisa que está disponível para o mundo inteiro é fascinante.

Não sei se é possível registrar o espanto e continuar com a minha habitual pseudo-literariedade. Vai ver estou ficando menos literária mesmo. Será o tal do adultecimento? De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho - que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

sábado, agosto 21, 2010

A primeira vez que fiquei sozinha em casa

Minha mãe sempre trabalhou muito e desde os meus quatro anos, minhas irmãs e eu ficávamos sozinhas em casa. É claro que não deve ter sido com quatro anos que fiquei completamente sozinha em casa, mas deve ter sido bem nova. Era uma coisa tão corriqueira que não consigo me lembrar quando foi a primeira vez. Pelo que me conheço, devo ter ficado com medo do escuro, mas sinceramente não lembro.
Uma coisa que lembro bem é que gostava de trancar a porta quando ficava sozinha. Me dava uma sensação de poder numa casa em que, por ser a caçula, eu era sempre a última opção de autoridade (eu nunca mandava em nada mesmo). Muitas vezes não fazia nada demais, mas sempre deixava a porta fechada para que quem chegasse fosse obrigado a tocar a campainha e dependesse da minha vontade abrir ou não. É claro que eu abria sem pestanejar muito pois as conseqüências podiam ser desastrosas – minha mãe nunca foi boazinha. Era quase totalmente imaginária a sensação de poder que eu sentia, mas eu gostava muito.
O poder de escolha. Escolher onde colocar os móveis, como ficaria arrumado o armário, a que horas a televisão seria desligada, essas pequenas coisas que se faz na própria casa, sabe? Eu nunca fiz nenhuma delas. Nunca me senti em casa na minha própria casa (que nem própria era, assim como não é agora). Dividir o quarto com duas irmãs mais velhas era um agravante significativo. Para o bem e para o mal, nunca tivemos fronteiras claras no guarda-roupa, no controle da televisão, no uso do computador – e, por essas e muitas outras coisas, eu sempre quis morar sozinha. Não exatamente assim, eu sempre quis um espaço meu.
Sempre quis ordenar os objetos do meu jeito, escutar a música que eu quisesse e, principalmente, não ter uma televisão ligada o dia inteiro! Já vão fazer cinco meses desde que tenho o meu quarto, os meus livros e roupas nos lugares que quero e PRINCIPALMENTE não tenho televisão.
Cinco meses depois e é a primeira vez que fico sozinha em casa e não invento um pretexto para sair. Eu até tinha inventado alguns, mas simplesmente decidi ficar em casa. Ia dizer que decidi enfrentar o meu medo, mas nem foi preciso. Acabei enfrentando o peso de ter uma vida que é minha porque minha casa me cativou. Apesar da pia de louça que me espera, minha casa é exatamente o que eu sempre quis – e isso vinha me assustando há alguns dias.
Estava com um medo enorme de admitir isso e lidar com o peso de um eu-sempre-quis. É sempre tão perigoso – ainda mais para alguém que muda tanto de idéia quanto eu. Fato é que percebi que não preciso ir ao cinema, não preciso estudar, nem mesmo arrumar a casa. Não preciso fingir para ninguém que estou fazendo alguma coisa de útil porque estou em casa – e posso fazer tudo isso depois.
Não preciso nem mesmo comer ou escrever minhas emoções travestidas em textos desconexos e extremamente emotivos como costumo fazer aqui. Hoje eu estou sozinha, sem conselhos e nenhuma vontade de pintar o cabelo. Só de continuar minha vida-que-eu-sempre-quis sem culpa, com minha música e minhas palavras. Eu, que sempre fugi dos pronomes possessivos, estou aqui com todos os que posso.
Quem chegar e quem já faz parte, é claro, é bem vindo, mas a porta está trancada sim, porque afinal estamos no Rio de Janeiro.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Vênus em quadratura com saturno natal

Anéis perambulando entorno. Um polígono e minha falta de conhecimento crédulo. Não tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma.Uma fé estranha em coisas que não sou capaz de compreender.Um desgosto do tempo que passe e do verão que não chega. Vontade de outras paisagens e uma velha necessidade de sol e calor.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Fenêtre

























Caminhar paralelamente sempre. Andar de um lado da rua sempre sabendo que você caminha ali do lado. Continuamos caminhando. Outro lado de um vidro, uma garrafa, uma vitrine, um outro lugar e uma nova forma de ver a mesma coisa.
Era uma necessidade de atravessar a rua, subir no prédio em frente, atravessar o corredor, morar no apartamento em frente, atravessar a cidade, olhar para frente e ver uma árvore. Descer para tomar uma cerveja e subir para ver o mundo do lado de fora da ilha. Rodar junto com a garrafa vazia que faz perguntas e nos faz pagar patos caros. Rodar junto com a roda, brilhar junto com o brilho bêbado das noites perdidas. Olhar de fora, de dentro de um banho quente e com passarinhos passeando entre beija-flores.

É um processo e não um dia para o outro. A gente começa a historicizar tudo, a teorizar tudo, a idealizar e ideologizar tudo. As tais continuidades. As coisas que não mudam de um dia pro outro e a gente volta no dia seguinte e está tudo diferente.

Saber que as coisas mudam, a gente sempre muda. A roda não pára de rodar nunca: viva e gigante. As voltas do meu coração nunca souberam dizer uma coisa tipo 'bá!'.

Eu olhei em silêncio e não chorei quando cheguei aqui do outro lado e vi que não estava lá. Os móveis ainda são os mesmos e estamos do mesmo lado. Estamos lado a lado, de mãos dadas. É a mesma rua, mas eu vejo flores brotando no canteiro e não quero pensar que as flores morrem logo na hora em que elas estão brotando.

A temporalidade está sempre bagunçada. Onde nós (?) vemos um passado, ele vê um amontoado de experiências pobres e indizíveis. Pode ser que hoje eu não volte, mas as minhas mãos continuam coladas às suas. Não importa quantas rodas vivas e gigantes rodem e nos deixem tontas. Eu já sei que nos equilibramos mutuamente, num silêncio indisputável, que é compreensão - a simples desnecessidade de explicar o que se sente.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Tentando juntar tudo numa coisa só e gritar alguma coisa que acabe com o espaço que existe entre mim e o outro lado do vidro. É gelado e parece vitrine de shopping, mas ninguém fica me vendo passar e não há mais galerias, apenas corredores de filme de terror.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Reverência

Para ela, que estava excessivamente mais acostumada a engolir do que a vomitar, aquele momento não podia ter outro adjetivo que não o de difícil. Era muito difícil ajoelhar-se ali e pedir perdão a si mesma por tudo o que guardou dentro de si. Era um momento sagrado em que conversava com os deuses que habitavam seu corpo. Conversava com toda a fúria deles quando resolviam penalizá-la com a lembrança de que não era dona do corpo que habitava com ares de tão dona de si. Não era dona do espaço onde teimava pôr essas coisas todas que agora via sair.

Segurava os cabelos compridos fingindo completar o ritual da reverência - os deuses talvez não percebessem quanto o gesto tinha de tentativa máxima de distanciar-se de si mesma. Se pudesse arrancava as próprias mãos para evitar a náusea que sentia toda vez que se tocava. Uma espécie de culpa que se confunde com prazer. Os joelhos já doloridos de ficar ali debruçada esperando sua alma esvaziar-se. Era um esforço grande - e não só físico - reviver o gosto de cada coisa que engolira justo para evitar a convivência. Mas estava tudo ali, o tempo todo. Os fatos e formas e coisas e pessoas e momentos e sensações e sentidos e gritos e silêncios e malabarismos: todos estiveram indigestos no mesmo lugar esse tempo todo. Esperando a primeira oportunidade. Esperando transbordar, esperando explodir, esperando a hora inevitável (é só questão de tempo) de voltar à tona.

Tudo voltava sem uma sublime atmosfera de transe. De joelhos, o suor escorria pela testa, as coisas, pessoas e objetos caindo naquele recipiente branco e sagrado - todas paravam e encaravam-na com petulância. Diziam com todas as letras que nada tinha adiantado, que não adianta tentar esconder algo de si mesma dentro de si mesma. Não é justo guardar o que não é seu, ainda por cima num lugar que também não lhe pertence. Era um poço de injustiça e não se pertencia.

Aproveitava esses momentos em que o dentro (a alma?) se exteriorizava para mergulhar no mais íntimo de si. O mais sujo e íntimo. Essa parte que sabia fétida, viscosa, despedaçada. Essa parte que é também o mais precioso, o que pode ser talhado e moldado para virar alguma coisa que possa receber o nome de arte.

Mergulhava os dedos sentindo que aquilo era massa viva, era quente, pulsava ainda em sintonia com o seu coração. Ela, que sempre soube que o coração bate no estômago. Misturava a gosma entre os dedos, depositava toda a sua força, todas as suas crenças e descrenças. Era um espelho. Os pedaços aos poucos foram se tornando uma massa uniforme, as cores se fundindo numa só - dessas que não podem ter um nome.

Voltando o olhar para cima como quem diz 'amém', enxergou a parede branca como uma tela. Era isso. O objetivo fora sempre esse, desde o começo. Quando não sonhava, quando não sabia, quando não queria e só restava querer saber. É onde se completa. É onde está o sentido daquilo.

Amarrou os cabelos num nó e ergueu o corpo sentindo a dor do peso que ficara sobre os joelhos. Conseguiu perceber que já não estava lá - nem o peso nem ela mesma. Ela era a fusão entre a tinta, suas entranhas era apenas uma tinta!, e a parede.

quinta-feira, julho 22, 2010

Ainda membro

Alguma coisa, algum dia, teve que surgir do nada. Mas nada vai embora do nada. As tais das rupturas continuadas a que tanto nos apegamos. É um processo de mudanças e continuidades. Não adiantou dar todos os passos para frente de uma vez só. Correndo a gente cai e pode ter um abismo embaixo - que não se viu porque olhar só pra frente dá nisso.
Segurei antes de cair apenas. Abrir mão e admitir que não é possível romper consigo é quase heróico para quem precisa acreditar em heroísmo. Nunca acreditei em nada, mas nos últimos tempos tenho me agarrado a muitas coisas para não cair. Estava à beira do precipício mesmo e era a única coisa que enxergava como opção a fazer.
O problema é que quando a gente se segura por vários lados, é como se estivesse amarrado - e nem por isso deixa de estar sobre um tal abismo. Soltar uma das pontas foi quase como serrar a sangue frio a própria perna - a terceira, é claro, essa que a gente arranca, amputa, corta e sempre volta a nascer.
Eu já sabia que a gente nascia muitas vezes na vida. Mas assim em partes, assim tão esquartejada, assim brigando para não ter esse membro daninho, danoso ligado a mim. Cortei a tal da perna a sangue frio e sem anestesia. Enquanto via o sangue escorrendo e a carne se rasgando, esperei pacientemente a sensação de alívio chegar. Como quando a comida é pouca e você espera que sacie.
Respirei calmamente enquanto olhava. Era para ter outro rumo. Era para ser outra coisa, mas quando olhou o tornozelo amarrado por uma corrente escura, não era o da perna sangrenta e caída no chão. Estava presa por todos os lados. Era dessas pessoas que não tinham para onde fugir e por isso precisavam se esconder. Encarou a perna solta sem raiva, com uma certa resignação.

segunda-feira, julho 12, 2010

Tudo o que não é

Muita coisa se fechando dentro de uma caixa. Uma caixa pequena e escura demais para tudo o que quer guardar. Uma vontade louca de não acordar, de deixar cair no chão. De não levar para casa o que não é seu, mas também não jogar em cima de ninguém o que não quer carregar.


(O corpo diz tudo. Os gestos, o jeito de olhar e a forma como aperta os lábios mostrando um desespero que quer gritar. Ela, que é tão acostumada a falar com voz de veludo. A voz também arranha, se perde. Perde os gestos, perde a medida e perde o ponto certo de tocar. Está a procura de um ponto uno, quando tem uma alma inteira. Tocar uma alma é muito difícil. É preciso uma delicadeza maior do que a frieza que escolhe entre o fio azul e o vermelho. Em caso de dúvida, sempre o vermelho. Em caso de desespero, sempre o grito. Em caso de silêncio, sempre o silêncio. Não há nada mais denso, mais turvo e mais grande que o silêncio. O silêncio está aquém da compreensão e da distância. O silêncio cria uma distância que a gente nem percebe. Não são roupas, essas a gente despe. É algo mais fundo que a gente não percebe e faltam as palavras. Estamos procurando por fora o que é bem mais fundo.)


Ela olhou vagamente a caixa preta em suas mãos. As janelas estavam todas fechadas. Não entrava vento nenhum e seus cabelos grudavam no pescoço por causa do suor. Era inverno e não sabia ao certo o que faria com aquilo, mas certa estava de não querer abrir. O peso que sentia sobre seus joelhos era bem maior do que a massa real daquele objeto. E como podia fazer tanto calor naquele vagão? As pessoas em volta pareciam não perceber. Ninguém percebia a gravidade em que viajavam. Ninguém percebia a velocidade assustadora em que o trem corria. Não imaginavam que se soltasse aquele pequeno volume, nada sobraria. Não podiam imaginar que dela mesma já não sobrava nada fazia muito. Mordeu os lábios apreensiva e continuou sentada, esperando para ver até onde aquele trem a levaria.