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quarta-feira, agosto 31, 2011

Deu vontade de escrever alguma coisa séria. Mas é que eu tenho preguiça. Tanta preguiça quanto se pode ter às duas e meia da manhã, depois de ter dado aulas durante toda a tarde e preparado aulas durante toda a noite. Pode ser que seja só cansaço misturado ao hábito de ser muito dura comigo mesma. Às vezes eu sou.

Sou quando acho que todas as coisas são grandes e eu não posso transformá-las em pequenas e simples. Sou quando me recuso a ser uma pessoa comum, que simplesmente faz as coisas e vive os dias - tento me convencer de que tudo precisa ter uma razão maior, um sentimento mais fundo. Um egocentrismo mal trabalhado? Talvez.

Mal trabalhado e mal resolvido porque me faz remoer por eras os pequenos detalhes e deixar sempre o mais importante para quando as forças - e o saco, a paciência - já se exauriram. Tudo termina capenga, pela metade, ou não termina mesmo. Transformo as coisas em grandes dramas, pinto de dramas épicos detalhes pelos quais todo mundo passa na vida. Todo mundo passa, sobrevive e parece que nem dói.

O problema pra mim é esse. Para mim sempre dói. Nunca é tão simples. E sempre é cheio de palavras como sempre, nunca. Como uma descrição de uma criança de quatro anos de idade.

Acontece que a paciência acabou até para a explicação cotidiana de que tudo (olha ela aí de novo) se resume ao fato de que eu sou uma criança mimada. Acontece que tudo não existe, nem fato - e se espremer muito, nem explicação, eu ou existir.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Asas cortadas


Me transformando em um cisne e a dor é necessária. Tudo é necessário, perigoso, divino-maravilhoso - na música é claro. Na vida real é a pele se abrindo, a carne rasgando, os rasgos alastrando em dor insuportável. Valerá à pena? Perguntaram. Alguém respondeu com um verso escrito à caneta bic roubada e já falhando: Ritos de passagem passam; há-que passar. Parecia um provérbio antigo ou sorte de biscoito oriental. Desses que não faz sentido porque faz parecer que a nossa vida devia ser maior do que realmente é. Devia ser mais cifrável e dizível em provérbios.

E a alma? Se perguntou de que tamanho estaria agora. Teria crescido ou encolhido nesses tempos todos? Essas coisas de penas, almas e valores eram muito para ela. Eram muito à essa altura da vida quando não se tinha quase nada. Só tinha uma meia dúzia de palavras que poderiam ter sido grandes num passado, mas já lhe tinham chegado gastas e desbotadas. Não tinha muita cor nem para onde correr.

Entrou no carro esperando estradas longas, noites frescas, ventos revigorantes. Faltava dar a partida. Não tinha carteira, gasolina, mapas. Não tinha nada além das asas que cresciam discretas ferindo as omoplatas. Tinha que matar uma parte - era o que pensava enquanto saía batendo portas pequenas demais para o tamanho de sua fúria. Quis correr por dentro de uma floresta densa ou um campo aberto até as pernas obrigarem a parar. Quis sentir o pulmão vivo, ofegando, pedindo para continuar vivo, mostrando que lutaria por mais um fôlego cada vez que fosse necessário.

Do lado de fora do carro o concreto lhe sorriu irônico. Muitos carros não lhe sorriram nem expressaram nenhum sentimento, parados sobre o asfalto. Uma viatura da PM à certa distância mostrou que não teria dado certo dar a partida no carro. Também não havia para onde correr. Nenhum precipício no final da floresta imaginária.

Os pés ainda agitavam-se pedindo passos firmes, fortes, ritmados e constantes. Ou que levassem a algum lugar apenas. Qualquer lugar. Que a levassem. Já não queria estar ali tão presa no desespero tão interminável, escuro, envolvente. Caiu de desespero no chão frio. Quando percebeu, tinha uma lama pegajosa em volta. Percebeu que era ali que devia estar e a opção era descobrir que um dia as asas terminariam de crescer. Doeria muito? Demoraria muito? Perguntaram. Ninguém respondeu.
Sempre uma tentativa de reconciliação. Sempre uma vontade de reencontrar o que nunca tive. a tal sensação impossível de estar em casa no mundo. Aceitar o passado, simples-fazer as coisas, o que é preciso, todo o tempo. Fazendo no automático? E o sentido, como faz? Vai pra onde? Eu já nem quero uma série de coisas e preciso sim de respostas externas porque de dentro parece que é tudo loucura. Sempre é e sempre tem palavras grandes na falta de achar o tom e a conciliação também com as coisas e palavras pequenas. Pequenos prazeres, pequenas coisas. E tudo deve passar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Falta a abdicação do ofício. O arregaçar as mangas e assumir o esforço - e depois o risco. Falta entender que escrever é reescrever, treescrever, talhar palavras num trabalho que não tem a beleza, a áurea que se imagina. A vida mesmo não tem. Não tem glamour no processo. Falta a conformação para encontrar a beleza pura, a beleza real de assumir as próprias imperfeições. Como olhar no espelho, como ver surgirem os calos nos dedos, as olheiras nos olhos.

Como um exercício escolar, diferenciar a estética do belo. Aprender a função que têm nas palavras e que função não se desprende do maior.

(E eu tão pequenininha...)

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Pânico de saber o que há do outro lado. Improvável que haja um outro lado, mas só há um jeito de descobrir e a cada dia mais inevitável. A coxia a cada hora mais distante e irreversível. Como um cerco se fechando, que fecha também mãos frias e cordas ásperas no pescoço. Pescoço fino, frágil, não deve ser difícil de. É tudo uma questão de oportunidade e jeito para.

Não tem mais como ficar apenas espiando do lado de cá. Espiar é feio. Ficar olhando de esguelha, a cara cheia de vontade, as mãos suando pavor e covardia. Não tem muito jeito, não tem mágica, só o abismo de sempre sob os pés. Medo de cair no poço. Maior ainda de fazer casa, costumar, aconchegar-se, como já está tão perto. Pânico completo. Um pouco de ocupação salvaria. Vontade zero de fazer o que precisa ser feito. Longe demais da cabeça a convicção de que algo precisa ser feito.

Uma ansiedade pousada na boca que os outros chamariam de natural. Uma vontade de um milagre, de que as coisas não dependessem de um grande gesto. Que não dependesse de pequenos, árduos, cotidianos e muitos gestos. Saber que não virá de lugar nenhum uma salvação não melhora a vontade de ficar esperando que venha. O chão vai subindo em raízes grossas pelos tornozelos finos, apertando aos poucos, bem aos poucos, de modo que quase não percebo o quanto será difícil se eu tentar me mover. Por via das dúvidas não faço. O corpo todo imóvel. A mente fingindo fazer mil viagens - parada na mesma estação cinzenta, mais ainda à noite. Uma espécie de bruma junto ao cenário confuso em que cabem portões, grades, locomotivas e cortinas de teatro.

O tremor que se alastra e domina seu corpo que nem parece um corpo transforma a imobilidade num paradoxo estranho. Não sei o que fazer, para onde ir, olhar, seguir. O que fazer quando a única coisa a fazer é o que menos é possível e desejável? Onde fica a modalidade de vida em que as perguntas têm respostas?

Dormir parece uma solução, mesmo que sem um veneno definitivo, há sempre a esperança de desinverter alguma coisa e que o lado contrário é que seja o real - isso que não existe. As fronteiras curtas e as frases longas de sintaxe incompreensível fazem pensar em borboletas, em cores, em labirintos onde não se sabe se surgirá uma figura mitológica e salvadora - Ítalo, fauno, chave de portal.

As coisas se misturam, reviram o estômago. A sensação de que tem algo que precisa ser expurgado de um lugar menos físico. Isso que chamamos de vida não cede aos meus pedidos de desaceleramento, não adianta pedir em tom religioso quando não se tem uma fé convincente. Retórica e humanidade demais. Se fosse o caso de ter engolido algo, mesmo sem querer, era só expelir, expurgar, vomitar. Mas a vida não se resolve mais com náuseas programadas. É maior, é mais fundo, é mais irreversível quando o reverso só pode vir de um lado.

E o que mais irrita é esse espécime muito estranho de consciência. Saber como falta ilusão pleonástica e necessária de poder.

Tão vazia e tão desejada de uma ilusão verdadeira.

Os prefixos de dissolução são apenas prefixos e segredos partilhados.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Antes de começar

Abri janela para o sol entrar
Mas era a chuva que estava por vir
Liguei o radio para disfarçar
Mas não tocou o que eu queria ouvir

Peguei um livro pra me distrair
Mas as palavras não estavam lá
Troquei de roupa pronto pra partir
Mas não consigo sair do lugar

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Tranquei a porta pra me esconder
Mas escutei batidas no portão
Desci a escada para atender
Mas era só minha imaginação

Fiquei num canto pra ninguém me ver
Mas ao meu lado estava a solidão
Fechei os olhos pra não perceber
Mas ela estava no meu coração

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Telefonei para um amigo qualquer
Mas do outro lado não encontrei ninguém
Pensei, ok, venha o que vier.
Mas não estava vindo nada bem

Tentei quebrar os santos no altar
Mas me senti um pouco Talibã
Eu quis mandar a casa pelo ar
Mas ela pode voltar amanhã

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar

quinta-feira, agosto 04, 2011

Eu deveria gritar, mas só queria uma resposta, um sinal de aprovação. Já perdi o lado artístico há muito e não sei se é possível encontrarem mais do que uma atualização de status onde se procura poesia. Não tem mais. Eu demorei a admitir, mas sei que não tem. Deixei perder, secar, verter, escorrer, foi-se. Foice afiada dos dramas longos, das metáforas bobas. Não adianta dizer que uma coisa é outra, a coisa não deixa de ser, nem fica menos incompreensível. Nem mais palpável. Continua tudo sem a menor possibilidade de toque, um passado que se busca na procura impossível, com a pureza que está sempre se pondo. Saber que não há onde chegar tira o tesão da viagem. E eu já nasci desacreditada. As graças do percurso só servem para os mais ingênuos, eles não sabem que vão morrer, eles não sabem que não é possível voltar e que não faz sentido buscar a reconstituição. Eles não sabem que eu sei e que saber não valeu de absolutamente nada. Eles não sentem a minha prisão incongruente.
O desespero de já não saber onde começou. Como se identificar o ponto exato de origem pudesse fazer diferença, como se pudesse existir origem, como se o grande e maior problema de todos não fosse justamente o oposto. Não de onde viera, mas para onde estava indo. Agora, parada na estação, tinha certeza de que para lugar nenhum. Todos os dias parava diante da bilheteria e ensaiava a compra. Sem nem mesmo ultrapassar as grades, já que não tinha um bilhete que lhe desse a permissão, via a velocidade ir ganhando aos poucos as locomotivas que se transformavam em borrões escuros. Imaginava quem estaria dentro remoendo a inveja e a própria incapacidade de escolha que pulava em seu estômago dolorosamente, todos os dias, à frente da estação.

Tinha medo da poeira que lhe sujaria a cara durante o trajeto, medo de que este fosse mais demorado do que poderia suportar, medo dos enjoos que o balanço dos vagões teria, medo de que não chegasse, afinal. Medo de que, se tentasse, se comprasse a tal passagem, se apostasse todas as suas fichas, aplicasse todo seu dinheiro e esforço, levasse toda a bagagem que passara a vida arrumando, mesmo assim não fosse capaz de chegar. Medo de que soubessem também os outros, como ela já sabia, que não poderia. Ela enxergava mais do que os outros de si mesma e sabia que a compra do passe seria apenas como atravessar as grades, a única diferença é que veria os trens sem os recortes de metal listrado, mas não mudaria o fato de que ficaria ali apenas os observando partir. Com o agravante de que perderia junto a liberdade da rua. Ficaria do lado de dentro das grades e do lado de fora do trem. Quase um limbo, a mais detestável das posições.

terça-feira, agosto 02, 2011

O doce e o amargo

O sol que veste o dia
O dia de vermelho
O homem de preguiça
O verde de poeira
Seca os rios, os sonhos
Seca o corpo a sede na indolência

Beber o suco de muitas frutas

O doce e o amargo
Indistintamente
Beber o possível
Sugar o seio
Da impossibilidade

Até que brote o sangue
Até que surja a alma
Dessa terra morta
Desse povo triste

Carece de perder o medo. Desamarrar os muitos fios de receio que vão cercando e embotando a ação, embotando a escrita, borrando as palavras em lágrimas, separando a literatura do sobre a literatura. E não fica nada, no final não sobrou nenhum algo além da garrafa. Contando as páginas, as palavras, mecânico, técnico, examinável. (A gata quer passar por cima do teclado)
São metáforas, não passam de metáforas. Dar a uma coisa o nome de outra. Metáfora-antítese. Dar a uma coisa o nome de uma oscilação de duas outras. Dar a uma coisa um nome. Saber que o nome tem significados. Dar vários nomes para não ser um único. Não existe singular. Contra a restrição. À guisa de manifesto. Querendo festa e fim. Difícil... Por hora só trocadilho.

domingo, julho 31, 2011

Para nós todas as palavras do mundo.

Os olhos embaçados de sono, de falta de interposição entre mim e o mundo, desse vazio que fica aqui quando você não está.

As semanas também são ciclos e o ponto de revolução em que uma coisa deveria ter se tornado o que era antes nesse antes impossível chega diferente, como só podia ser. É sempre confuso, é sempre cifrado, metafórico, perdido, disfarçado e misterioso. Não é por má vontade, não é para construir-um-atmosfera-pessoal, é porque é. Como essas coisas que a gente questiona sabendo que não conhece. Continua questionando e desconhecendo. Um dia muda para uma outra coisa completamente diferente e igualmente misteriosa. Porque indizível. Sempre - e como eu insisto em dizer, fico repetindo: indizível, indizível, indizível. O faço porque sei que as palavras que procuro já não são só escritas nem só virtuais. As palavras têm sons. Você me ensinou que o que eu finjo dizer pode ser dito de verdade. E quando digo, quando escuto o som da minha voz te dizendo e escuto o som do seu silêncio me ouvindo ou o som do meu silêncio te dizendo para o som da sua voz me falando de você, eu sei que você está aqui. E não importa se a gente é assim tão diferente, não importa se a ausência é dolorida, não importa que a saudade vá sempre existir. De perto ou de longe, de passado ou de presente, de olhar demais para o outro lado quando você esteve aqui esse tempo todo.

Eu estou aqui também. Eu, saudade. Eu, ciclos rompidos. Eu, tantas e tantos. Eu-desejos. Eu-algo-menos-possessivo-e-egóico-que-esse-pronome-pessoal-reto. Aberta, presente, palavra, voz, abraço - e todos os outros sentidos que não se separam tanto assim.

quinta-feira, julho 21, 2011

Não fazer é mais fácil. Chafurdar na inércia, perder-se em caminhos cuja direção (sentido?) eu sei tanto quanto conheço a dificuldade em seguir. O problema é que dá um trabalho enorme e ninguém nem disse que seria fácil. Ninguém nunca disse que seria breve, nem que seria possível. Diante de todo esse silêncio do mundo, falo sozinha também. Com as paredes, com os papéis, com as virtualidades viscosas.

E também faço silêncio, também abdico. Ignoro. Aquieto.

Birro o quanto posso, mas no fundo sei que não há escolha, há que fazer.

terça-feira, julho 12, 2011

O quereres

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não

E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão

Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim
a loucura tá sempre aqui
a loucura tá sempre aqui
faz vinte e dois anos
talvez mais
os olhos que ficaram esperando
derretendo
envelhecendo
enverrugando
criando olheiras
todos os dias
todas as noites
todas as luas
todas as tonteiras
náuseas gozos fomes glórias fracassos imagens discursos fumaça trago papel teclado música palavra silêncio mágoa estrago sílaba sentimento companhia solidão boletim aula prova plano de responsabilidade mudança cozinha faxina lixo lá fora ônibus busca perda encontro etiqueta flerte fresta festa flecha cerca ponto ponta beco banco curso exercício filme livro disco chuva sol verão
a loucura tá sempre aqui
.

segunda-feira, julho 11, 2011

Não veio. Àquela altura da vida não era mais possível desobrigar-se. As amarrações, ai, as inúmeras, incontáveis amarrações. Todo mundo veria, todo mundo diria alguma coisa caso. E o mundo nem era mais tão grande assim. Fazia tempo os círculos tinham se estreitado, restringido, casca de ovo se aproximando, céu sufocante - de modo que quando dizia mundo, não se referia a mais que uma meia dúzia de pessoas. Ferinas, como só sabem ser as pessoas.

E da impossibilidade sempre surgia a loucura. A vontade-louca. O incontrolável, inadiável, irrecusável. Por isso mesmo não dito, não feito, não sentido.

Vivemos em um tempo em que a fome não mais muito possível. A saída é sempre o nojo do que se come não para matar a fome, mas para não morrer de inanição. Morte pudica, santa, cristã, abdicada. Depois de tantas voltas, discursos, protestos. Depois de explicar vagarosa e insistentemente para tantos ignorantes (mais felizes), subverter as ordens, as amarrações, as normatividades, não é que. Não é que se via agora pensando, mais do que pensando, se via dizendo em alto e bom som que não era mais possível. Assim, como se o tempo tivesse passado, como se fosse uma questão de tempo apenas. Como se o tempo em que parecia que ia dar (sabe quando parece que vai dar?) já tivesse passado, ou nem tivesse existido, ou tivesse passado antes de a gente ter consciência - o que dá na mesma.

Não mais desabafo, palavra só dita em sussurros, como segredo. Nunca mais drink no dance e nunca mais bis. Nem importava, não mudaria mais nada que não fossem apenas closes, não importava que lhe cortassem os pés se já não andava, se o tal tripé ainda estava ali, ainda, meu deus! Tudo no mesmo lugar, a mesma imobilidade - e saber desde sempre, saber que bastava um corte, um rasgo com qualquer pedaço de vidro na face, uma amputação, uma perna a menos. O chão continuava limpo, a tela ainda em branco, variando os planos de filmagem e montagem da mesma cena imóvel e branca. O vazio o vazio o vazio. Esse que às vezes ecoava na cabeça e levava à loucura, mas depois trazia de volta e não fazia muita diferença. Todos os lugares aonde tinha ido não valiam mais de muita coisa, já que voltara ao mesmo lugar.

sexta-feira, julho 08, 2011

Fechou. Ia dizer im-per-cep-tí-vel, assim pausado mesmo. Mas seria uma mentira deslavada demais até para mim. Podia dizer que fechou no mesmo ponto também, como um ciclo deve ser. Eu sei que não é, por isso não digo. Porque não foi.

Fechou diferente. Coisa completamente outra, assim como correr correr correr, correr por horas, subindo ladeira e chegar lá em cima sem fôlego, sem nem saber em que pensar, o que fazer. Não há o que fazer, nem mais para onde ir. Respiro fundo e olho para baixo com um orgulho inconfessável de mim mesma. Foi. Acabou - e nem é verdade ainda.

E parece que quando acaba a gente só pensa no começo. Nas expectativas que eram apenas expectativas e em tudo o que aconteceu depois. Aconteceu tanta coisa desde que eu só queria dormir tranquila. Aconteceu uma espécie de vida, história, estória, História. E não aconteceram tantas outras. Frustraram-se tantos planos, montanha-russa-viva. Tantas pessoas espaços, pensamentos - tantos pen-sa-men-tos.

Nem saberia dizer quem era aquela pessoa que chegou u9am dia tão certa de tudo o que queria querer pelos próximos tempos. Os quereres, os seres, os (a)fazeres e os víveres mudaram tanto. Eu mudei tanto - constatação estranha de cada dia. E fico pensando que se alguém me dissesse, quer dizer, se alguém dissesse praquela garotinha-esperando-o-ônibus-da-escola-e-rezando-baixo-pelos-cantos-por-ser-uma-menina-má. Se alguém dissesse a ela que seria assim... Fico pensando em todas essas coisas que não é possível saber, prever, dizer - eu fico sentindo um montão de coisas. E sabendo que ainda tem muito ainda o que querer e ser. Eu quero.

sexta-feira, julho 01, 2011

Martelo Bigorna (Lenine)

Muito do que eu faço
Não penso, me lanço sem compromisso.
Vou no meu compasso
Danço, não canso a ninguém cobiço.
Tudo o que eu te peço
É por tudo que fiz e sei que mereço
Posso, e te confesso.
Você não sabe da missa um terço

Tanto choro e pranto
A vida dando na cara
Não ofereço a face nem sorriso amarelo
Dentro do meu peito uma vontade bigorna
Um desejo martelo

Tanto desencanto
A vida não te perdoa
Tendo tudo contra e nada me transtorna
Dentro do meu peito um desejo martelo
Uma vontade bigorna

Vou certo
De estar no caminho
Desperto.

quarta-feira, junho 29, 2011

No dia em que Caio F. morreu

Hallina Beltrão

No dia em que Caio Fernando Abreu morreu, esqueci de colocar o despertador para acordar, sempre isso, atraso, alguma correria, um despertar sem jeito, apressado, um susto. Chão de cerâmica frio, pisei tateando o dia, o despertar seco de um fevereiro sem Carnaval. Corri para pegar o carro, ir para a faculdade, aula de Filosofia, mas antes tinha ela, a educação física, e eu pensei algo como “mente sã, corpo são”, uma certa raiva de forçarem a gente a fazer exercícios àquela hora da manhã, mas não havia tempo para questionar, um, dois, um, dois, segura o abdômem, segue fazendo, sim, você consegue, vai, vai, não fui. Talvez me animasse com uma partida de vôlei ao final, mas o corpo doía das flexões e, na hora do salto, a queda - que queda. Feriu? Feriu? Uns arranhões somente, passa merthiolate, tem mercúrio?, mercúrio cromo, band-aid, bandaid. Sangrou, mas, como tudo que arranha, sangra pouco, só arde. Assopra que passa. E mal cheguei na cantina para almoçar já tinha a casquinha da ferida se formando. Me orgulhei das defesas do meu corpo, tantos anticorpos, glóbulos vermelhos espartanos, armados até os dentes, ninguém passa, nenhuma dor, nenhuma perda. E mal acabei de almoçar, a ferida ali, toda-toda, a ferida, assim, me dizendo “me esquece”, e Tiago aparece. Eu tropeço, me segura senão eu caio, Carol me segurou, mas magoou a ferida, de leve, roçou num canto de parede, aquela camada de casca sobrou, assopra, assopra, e Fabíola assoprou, ninguém sabia, mas foi tudo culpa de Tiago, esse tropeço, esse empurrão, e chegaria o dia em que, sem muletas, eu iria encostar Tiago num canto escuro e dizer que nem Neusa Suely, “bate, mas bate legal”, com a voz rouca de Vera Fischer naquela adaptação xinfrim de Plínio Marcos feita pelo picareta do Neville D’Almeida. Aula de Filosofia mancando, mas o texto era da Marilena Chauí e, nessa época, eu pouco me importava se a Marilena Chauí era de direita, de esquerda, se era lulista, FHCista, o escambau, eu queria ouvir Bethânia dizer que eu-tenho-esse-jeito-meio-estúpido-de-sere- de-dizer-coisas-que-podem- magoar-e-ofender e ir para casa escrever algumas coisas para Tiago e dançar até amanhecer no Boato aquela música que dizia but I’m here to remind you of the mess you left when you went away, raivosa, e entrar na pista vazia do Guitarra’s ao som de Wonderwall para ver se, do nada, do nada, você aparecia e maybe you’re the one that saves me. E você sempre aparecia. Do nada. Do nada. Com ela. E tinha a coisa de me vangloriar que eu passava a noite inteira e gastava R$ 10, só na Coca, na água, para não me embriagar e perder de te ver. E foi Fabíola quem me disse “Caio morreu”, assim, seco, sem preparar terreno nem nada, o morango mofou, o dragão finalmente foi conhecer o paraíso, uma pequena – grande – epifania. Era o fim. Ou o começo. Porque a pressa do começo do dia tinha me feito esquecer. 25 de fevereiro, hoje, é o aniversário do meu pai. E Caio no Menino Deus, vezenquando gente, vezenquanto alma, indo embora, lá em casa, bolo, coxinha, strogonoff de carne, arroz branco, batata palha, meu pai, 57 anos, descobriu uma doença na coluna, era o primeiro aniversário dele sentado. Sentado hoje e para sempre. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Sentado, deitado. Ver meu pai naquela cadeira automóvel-conversível diante da vela, diante do bolo, só me lembrava Caio Fernando jardineiro, dizendo que “girassol quando abre em flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor”. Mas girassol não se entrega. E a espada que o jardineiro coloca para segurar a flor do girassol é essa cadeira-muleta que leva meu pai, esse nascido sob o signo de Peixes, para um lugar em que a palavra que deve aparecer é “durar”. E diante daquele bolo, diante da doença que faz meu pai, a cada dia, esquecer um pouco de mim, eu lembrei que “não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?”. Foi depois de meu pai, com algum esforço, cortar o pedaço do bolo e dar o primeiro pedaço à minha mãe, que lembrei daquela frase de Henry Miller e que, me parece, era tudo o que Caio parecia dizer ao pai dele, naquele dia, 25 de fevereiro, em que, depois de tantos suores, tantos medos, tantos agostos secos, Porto Alegre cinza, depois de ser um estranho estrangeiro e de inventariar essa coisa chamada Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, essa Síndrome do Irremediável Abandono, Síndrome da Ineficiência do Afeto, Síndrome do Inefável Acanhamento, finalmente, num sopro de vida, Caio Fernando dizia, citando Henry Miller: “Agora eu nunca estou sozinho, na pior das hipóteses estou com Deus!”.


SOBRE O AUTOR
Thiago Soares é professor da UFPB e autor da dissertação Loucura, chiclete & som: A prosa-videoclipe de Caio Fernando Abreu.


Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=368:no-dia-em-que-caio-f-morreu&catid=23:cronica&Itemid=4

terça-feira, junho 28, 2011

Queria ter um arco-íris para pintar em cenas, metáforas e narrativas em looping por aqui hoje. Alguma coisa que falasse de orgulho, de não querer voltar sozinho para casa, de ler em voz alta um conto para alguém. Escrever ou reescrever alguma coisa grande, limpa e bem diferente do que diriam por aí ser pura. Fico devendo. Hoje deixo só a vontade, o desejo, o tesão. Esse sentimento/sensação que tem muitos nomes, precisa de muitos deles porque nenhum encerra, mas mais do que nomes tem cheiros, gostos, toque, pa-la-dar para dissolver assim devagar na língua. Podia ter um poema também, não fazia tanta questão de uma história (embora ficasse mais feliz se fosse uma em versos). Já que não é nada disso - mas já é alguma coisa quando é uma ideia, mesmo que não possamos cheirar ou tocar uma. Já que também não posso deixar um perfume nisso que não é um papel. [Eu me lembro bem do tempo em que as cartas de amor podiam ser perfumadas, eu lembro de quando existiam papéis de carta e a gente escolhia o mais bonito imaginando a cara que a pessoa faria quando abrisse o envelope - o que nos leva a crer que eu sou de um tempo muito brega]. Eu também sou do tempo que existia envelope e nem faz tanto tempo assim, mas as rupturas nos fazem querer agarrar alguma coisa do antes para lidar com a mudança. Mudanças são difíceis e como disse hoje uma amiga, nosso tempo é de muitas lutas. E do orgulho da minha luta, deixo um trechinho só para vocês que também lutam, que também têm orgulho de:

"Eu também não sei direito, às vezes eu, Patrícia, você sabe. Mas é estranho não saber. Acho que ninguém sabe. Deve ser mais confortável fingir que sim ou que não, você delimita. Mas acho que aqueles que acham que são compreendem melhor essas coisas" (Onde andará Dulce Veiga, romance de Caio Fernando Abreu)[itálico no original].