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sexta-feira, setembro 28, 2012

Estátua de gesso

Para ler ao som de Não há cabeça.

"Essa tristeza que o amor me deu
É a coisa mais bonita dentro do meu eu".
(Marina Lima)


Em primeiro lugar, pega-se entre as mãos a massa disforme. Bloco sólido, neutro. Quase sem querer a gente esbarra e vê que é possível tocá-lo. Depois que encosta as pontas dos dedos, vê que sai uma eletricidade estranha. Há um tipo desconhecido de ímã que parece pedir que as linhas das mãos percorram toda a sua superfície.

De início ela é impenetrável. Há que lubrificar as mãos e umidificar aos pouquinhos a massa até que ela possa ser moldada, penetrada, modificada – até que vire alguma coisa. Mesmo que a gente não tenha sabido dar um nome, que não tenhamos conseguido transformar numa obra de arte, numa estátua, num enfeite de estante, num bibelô, nem nada disso, dava para ver que do misturar de mãos e massa, do magnetismo, da vontade de transformar dedos e corpos numa única explosão de gozo constante; dava pra ver que de tudo isso se poderia ter feito alguma coisa.

A gente fez a poesia palpável que se mostra em constelações da pele, no tom rosado sob a luz de fim de tarde. A gente até fingiu que tinha mais do que pele, misturou álcool no momento de moldar a massa; a gente colocou algumas cores de outros cenários; a gente tocou partes fundas, desejos irreveláveis, frustrações comuns. A gente viveu versos.

Numa segunda-feira qualquer veio um vento e quebrou a estátua de gesso.


Que nem era gesso, que nem tinha nome, mas que era algo mais maleável como faixas de gaze – espuma branca lavando os pés – que a gente enrola igual a um quase amor de promessas telefônicas. Todo quase amor tem um calcanhar de Aquiles que pode se quebrar de uma hora pra outra mesmo que não seja quebrável. Deixa meia dúzia de versos na cabeça. Ficam cheiros, gostos, gozo, a mesma incompreensão da pele na pele e aquela sensação de que um dia desses, num desses encontros casuais talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Poça d'água


É bom ter conselhos para dar do alto da minha completa falta de bom senso. É fácil dizer que a vida não precisa ser assim, que é claro que tem como, que basta um gesto, um sorriso, que é simples e fácil. Para quem?, mandam perguntar com os punhos cerrando os copos meio cheios de cerveja quente. A mesa é uma ilha cercada de outros passados, outras vidas estouram de diferentes lados sugerindo uma cena de surrealismo de quinta, com pipocas falantes fritando ao redor. Corte brusco, porque precisa produzir as idiotices atuais.

Quando tem tanta esquisitice para não se orgulhar se acumulando sobre as caixas de papelão e restos de isopor. O altruísmo da mais funda falsidade. Um desejo de dizer para quem não faz a menor diferença que, olha, dá sim para ser menos idiota que isso, para ter um pouquinho mais de amor-próprio. Ou pelo menos mais poesia - frase-sussurro para quem nem tem nem sabe onde compra esse dicionário.

Vai dar pra dizer quando a ressaca trouxer aquela amnésia fajuta. Ou quando a minha cara de pau já tiver polida o bastante para dizer deslavadamente que não, não lembro - com direito a despedidas teatrais, teatro de quinta, também não precisa dizer. Quando for possível não querer essas vergonhas de que se orgulhar. Os fracassos bonitos para botar na estante ou só distribuir como conselhos de gente experiente.

Mais uma dose. Mais um gosto. Mais uma página dessas que a gente amassa e joga fora. Uma história dessas que a gente não registra nem conta, mas que um dia alguém recupera para desfazer falsas tentativas de glória interior.

Eu gosto é do estrago. O insosso também vale. Quem disse que o diferente precisa ser bom? Quem disse que a parte boa de escrever pode ser algo além de juntar letras, formar frases, colocar vírgulas e pontos?

Às vezes a gente sai do poço para alçar poças. Afunda dos  pés no esgoto e finge pensar que isso é alguma espécie de evolução - posto que a teleologia acena sempre de algum canto. Saio do poço, piso na poça e sei que não é nada mais do que um cenário diferente.

[Não digo a ninguém que no fundo do poço e na superfície da poça sempre tem um pedaço de mar e um reflexo de céu]

segunda-feira, setembro 24, 2012

Sob esse prisma...

Para Carol e Lissandra.

Para ler ao som de Alívio imediato (Engenheiros do Hawaii).

Será que leitor vira personagem? É que não é qualquer coisa saber que de alguma forma a minha válvula de escape ajuda a escoar angústias outras, pensar que as minhas madrugadas insones povoam as manhãs atarefadas e sufocadas de quem fica longe-perto.

As coisas mudam, as pessoas mudam, átomos se dividem e se esfumaçam em desenhos feitos com a ponta dos dedos no pára-brisa do carro. Os ciclos começam e terminam, as bolhas fazem-se necessárias até o momento em que estouram. É difícil pensar em uma parte só, é difícil observar o quadrado da mesa distorcido em um triângulo, mas a gente precisa aprender a lidar com as novas formas que a vida desenha - que a gente rascunha, esboça e depois fica tentando ajeitar sem cair no cliché dos clichés de que a vida não tem borracha, comparação tão desnecessária para quem sempre se orgulhou de só saber usar caneta.

As lembranças ficam, o desconforto, o não-saber-lidar, as conjugações inapropriadas para os verbos, a curiosidade e a necessidade de entender são inevitáveis. Daqui a um tempo passa, cicatriza, vira piada e quem sabe a mesa não se preenche em risadas leves outra vez? É só uma questão de construir um mundo em que isso caiba.

Sentir-se em casa no mundo é sensação dos tolos, o desconforto - e por que não dizer, o desespero - existe naqueles que sabem que a vida pode ser mais, nos que viram e sentiram na ponta dos poros que a vida pode ser mais do que consentimento. A vida é vontade e a gente segue. Com carinho, respeito ao outro e a si mesmo para ir fazendo cada pedacinho de um mundo que possa ser chamado de nosso. Pode não ser possível implodir esse que nos atira bombas todas as manhãs, nos desampara.

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Não saberia dizer quanto tempo fazia que estava andando. Os saltos altos, ainda que não fossem muito finos, causavam um desconforto no calcanhar. Nada que parece motivo o suficiente para parar, os outros também não paravam, seguia. A roupa era apertada demais, parecia tornar os passos mais lentos, mas se todos andavam, devia mesmo ser preciso continuar. A maquiagem soava pesada demais àquela hora do dia, oleosa demais para o calor daquela cidade, mas, mais uma vez, ninguém parecia se importar com isso. A impressão que tinha era a de que todos acordavam todos os dias sem sentir todos os incômodos que povoavam sua cabeça com excesso de grampos e fios esticados por excessos de calor. Ninguém parecia perceber. Todos mantinham suas expressões impassíveis, sóbrias, eficientes, imutáveis - e caminhavam. Barulhos ritmados do atrito das solas no chão.

No meio da pressa e vigiada pelo relógio, todas as manhãs ela segue o protocolo, sente a maquiagem que lhe cobre o rosto, as roupas que lhe apertam as pulsações da pele, os saltos que parecem aprisionar seus passos invariavelmente destinados ao mesmo lugar. Ir vir, vestir, despir, bater o cartão, a continência, fazer a ronda, a guarda, a prova, sorrir, preencher, assinar, submeter, anular o que a gente nem sabe porque nunca viu que pode ser diferente até o dia que...

Um dia acordou e repetiu todo o protocolo ensaiado de todos os dias, mas sem querer um grampo escapou dos cabelos, rodopiou fugitivo entre as mãos e foi sugado pela força gravitacional. Como seria o mais lógico a fazer, ela abaixou e olhou para baixo a fim de pegar o objeto. E foi assim: quando parou de andar, quando deixou escapar um detalhe de sua perfeição, quando não seguiu seus passos no mesmo trote de todos os outros, quando afrouxou de leve o pano da roupa para conseguir abaixar, quando pensou em levar a mão à testa para enxugar o suor que se formava da mistura de pós e tintas que lhe cobriam todos os dias o rosto. Ela olhou e descobriu que não havia chão.

sexta-feira, setembro 21, 2012

E depois de tanto e tanto tempo é vinte e um de setembro de novo, depois de tantas outras datas que se passaram, tanta coisa que a gente finge que ressignifica pra ver se pára de doer. Um dia a dor se convence ou o calendário passa, sempre passa. Os dias correm rápidos, as estações mudam, o sol abre e mesmo os dias nublados vão mostrando sua beleza leve, fresca por traz do tom de cinza.

Não dá mesmo para exigir que o sol nasça deliberadamente no meio do inverno, mas quando vem, do jeito mais cliché, mais ultrapassado, mais adolescente e mais tosco, as lágrimas evaporam. Mas algumas músicas ainda tocam em alguma parte da cabeça...

Corpos em movimento
Universo em expansão
O apartamento que era tão pequeno
Não acaba mais
Vamos dar um tempo
Não sei quem deu a sugestão
Aquele sentimento que era passageiro
Não acaba mais
Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Novos horizontes
Se não for isso, o que será?
Quem constrói a ponte
Não conhece o lado de lá
Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Suspender a queda livre
Libertar
O que não tem fim sempre acaba assim

terça-feira, setembro 18, 2012


Surge tímida e quase imperceptível aos olhos desatentos. Há que parar, olhar para fora e ver que dali do outro lado existe uma beleza outra. Singela e veloz.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Mar!

Ela encostou no meu corpo e disse 'mar'. Não, não foi isso. Ela tocou de leve a minha alma - porque ali, naquele momento, naquela nudez, naquele vento, naquele cenário, só era possível expor almas - e foi a minha que ela tocou quando me pediu que dissesse junto com ela. Eu disse 'mar' da forma mais atrapalhada. Não teve uníssono, nem timbres harmoniosos, teve a palavra nervosa pela fome de ouvir mais palavras.

Eu disse 'corpo' porque nunca saberia dizer qual a parte, posto que meu corpo inteiro estremeceu de um jeito estranho. Pode ter sido um pedaço de cotovelo ou antebraço, ou algumas dessas partes quaisquer que a gente esquece de erotizar - e nem imagina que podem despertar sensações tão gritantes. Meu corpo inteiro sentiu o calor que certamente também era de um corpo inteiro. Fiquei pensando se a alma se divide em partes e se há sensações diferentes quando se toca o dedão-do-pé-da-alma ou o-fundo-do-sexo-da-alma. Eu não sei se existem essas partes, porque, assim como o corpo, ela me tocou a alma inteira.

Me fez imaginar sóis e tardes de praia talhando feito escultura em madeira aquela temperatura que eu senti tão breve. Não só isso, a cor era de sol. Dia de verão em que a pele é assim elaborada durante todo o dia para, ao cair da tarde, refrescar-se em um banho que não diminui a temperatura da pele que já não é sol e sim fôlego de vida. Fôlego efêmero herdado do mergulho-gesto que lava e lavra as almas tão mais imorais do que os corpos. Meu corpo se desfez em ondas metafóricas do mar que você trazia na voz e na garganta. Toque fortuito que é inteiro mar e não só pela palavra que disse - dissemos - e continua gritando que só se abre depois da água no pescoço.

terça-feira, setembro 11, 2012

Entrelaçado

Para ler ao som de Tempo de pipa (Cícero).

"Vamos nos espalhar sem linhas".

Eu não sei como faz para desatar nós e nem sei se é necessário - ou se vale a pena. Há nós apertados, há pronomes pessoais retos tão pessoais e tão plurais que não dá para desfazer assim por qualquer bobagem. Não que futuro seja bobagem, não que projetos completamente diferentes também o sejam, mas é que alguém sempre sai machucado das coisas e preservar tudo no seu devido lugar é sempre a minha maneira de evitar que o sangue respingue em mim quando ainda tem as nem-tão-velhas feridas assim tão mal fechadas.

Quando o nó fica assim muito preso, a gente machuca as unhas e não consegue. Às vezes usa os dentes e parece que só fica tudo mais amarrado.

Sei não... Enquanto os nós não se desmancham, nada impede que nos deixemos levar pelos laços que nossos corpos fazem sozinhos, sem que a gente queira e porque a gente quer.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Uma crônica paulistana

Para ler ao som de Concreto & Asfalto (Engenheiros do Hawaii).

É possível ir da Luz para a Liberdade desde que se saiba seguir as cores certas, contornar as linhas certas. Dá até para encontrar Consolação nos já conhecidos fundos de copo de cerveja ou fundo de garrafa verde-garrafa entre saltos, silicone, cílios postiços e neons convidativos da Rua Augusta.

São Paulo é cidade de que muito se ouve - e eu, do alto do meu habitual provincianismo de metrópole, nunca parei para prestar atenção. Paulista, Augusta, Anhangabaú, Bexiga, Ipiranga, Butantã, Vila Madalena, Pacaembu, Jabaquara, as pessoas diziam esses nomes engraçados, com seus fonemas tão bonitos - e eu cantarolava baixinho, às vezes sem nem mesmo emitir som, o binômio insosso "concreto e asfalto".

A minha ingenuidade arrogante teimava em confundir o bom e o belo, achando que este último só se podia encontrar nas 'belezas' construídas e naturalizadas das terras cariocas. Querendo ou não, no fim das contas a gente sempre carrega um montão de preconceitos e o trabalho da vida é ir querendo jogá-los fora pelas janelas de avião, pelos trilhos do metrô ou deixar a força do vento levar quando bate deliciosamente no rosto e bagunça cabelos coloridos no meio da Avenida Paulista.

Preconceito bobo, xenofobia boba, construção boba de identidade que a gente teima em fazer negando o outro para tentar ser alguma coisa sem saber que não podem ser além de sonhos, como diria o Álvaro de Campos saído de sua tabacaria para um chão escuro da terra-luz das pa-la-vras. São Paulo é terra de lavrar palavras, de ouvir sotaques da terra de ninguém. De se sentir em casa por ganhar tão fácil o direito de ser só mais um na multidão. São Paulo me engole em Avenidas, me perde em linhas de ônibus, São Paulo dos descaminhos do excêntrico, da moça que sai do metrô e deixa no ar poluído essa beleza do sujo, essa beleza de quem conhece a fundo tudo o que é feio.

São Paulo é terra de me apaixonar pelo movimento, pelo trem que cruza rápido a estação bonita de um progresso que já é passado. Terra em que o cinza espelhado das ruas esconde passados apagados, gritos abafados pela palavra progresso - dos quais a gente ouve ecos em nomes próprios que não se explicam, em amontoados de bairros e histórias que são só flashes, quebra-cabeças, pedaços de um isso que parece estar sempre se fazendo. E de que eu não conheci mais do que alguns pedacinhos.

São Paulo tem uma atmosfera, alguma coisa estranha que envolve e inebria, uma espécie de capa, num tom de cinza forte, bonito, marcante, opressivo e vivo - que os desavisados dirão ser apenas nuvem de poluição.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Ao momento presente

Para ler ao som de Ta Douleur (Camille Dalmais).

É preciso fazer alguma coisa quando se ganha um presente. É preciso, em primeiro lugar, segurar a caixa que colocam em nossas mãos para que ela não caia no chão. Depois, tirar os laços, caso eles existam, romper o lacre com a calma educada de quem sabe o que fazer ou com a pressa voraz de uma criança faminta por vida, rasgando o papel, espalhando seus pedaços pelo chão com ansiedade. Quando o presente está ali, finalmente aberto, a gente sempre imprime alguma expressão no rosto. Logo no primeiro olhar o presenteador atento consegue ver se é alegria, desgosto, desconforto, desagrado, carinho, surpresa, alegria, felicidade, ou cara-de-quem-estava-esperando-apenas-isso. Independente do que pensa e do que veste no rosto - posto que existem os presenteados mais atores - a pessoa pega o conteúdo do pacote. Segura com os dedos, agradece entusiasmada ou burocrática. Aquilo que foi escolhido, comprado ou feito com carinho, embalado, protegido, transportado etc. - aquilo foi dado e agora pertence à outra pessoa.

Não é seu aniversário, não é Natal na Leader Magazine, não é nem mesmo Páscoa - a data dos melhores presentes. Era para ser um dia comum, com uma aflição disfarçada de um saudade antecipada, uma agonia da distância, mas aí os ventos de um agosto que já era para ter-se ido trazem um assovio sombrio e rimado de uma angústia sua. E aí, você nem sabe que sua angústia colocou numa gaveta imaginária o meu medo de acreditar, dobrou o guardanapo com cara de quem rejeita os rótulos mais verdadeiros e quis, quis com força, quis com a voracidade de criança que rasga a embalagem do presente, te dizer de dentro de um abraço que passa, que há tempestades nos mares abertos, mas o melhor de tudo é perceber os músculos movendo-se seguros em cada braçada. São gelados e salgados os primeiros golpes que a gente leva no rosto, mas lavam a alma.

E por mais que por fora a gente espere sorriso, abraço etc., quem dá um presente não espera absolutamente nada além de dar o presente, além de que a pessoa presenteada ganhe uma coisa bonita e tenha alguns momentos de alegria. Toma, é seu, pode pegar (se quiser).

domingo, setembro 02, 2012

Tudo novo de novo (Paulinho Moska)


Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

quarta-feira, agosto 29, 2012

29 de agosto: Dia da Visibilidade Lésbica

O dia quase no fim, cheio de problemas, preocupações, coisas martelando na cabeça e a internet (que sempre me avisa das coisas) me diz que hoje é dia da visibilidade lésbica. E eu me sentindo tão invisível - e até bastante hétero nos últimos tempos... É claro que este tem sido apenas um comentário com amigos que explicita o fato de que eu tenho me relacionado muito mais com homens nos últimos tempos, mas quem sou eu para julgar e condenar a minha própria sexualidade se eu procuro tanto não fazer isso com a de mais ninguém?

Eu costumo dizer, costumo mais do que dizer, costumo levantar a bandeira (e olha que essa é uma das poucas bandeiras busco levantar com todas as minhas forças) de que sexualidade é uma coisa muito mais ampla do que querem nossas classificações. Como já disse Caio Fernando Abreu, em frase que eu também repito constantemente, "homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade — voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe"*. Então, fica a pergunta: por que um dia da Visibilidade Lésbica? Por que um dia do Orgulho Gay?

Enxergo os caminhos das respostas para essas questões na própria nomenclatura das datas - e hoje, por razões óbvias, opto por dar destaque à questão da (in)visibilidade. A conversa pode começar naqueles clichés de que lésbicas são aquelas mulheres que ainda não encontraram um homem capaz de comê-las direito, mas eu prefiro enveredar por um caminho diferente. Não faz muito tempo, ouvi de um amigo que é muito mais fácil para uma lésbica "sair do armário", que a sociedade tem menos preconceito, que a aceitação é muito mais fácil.

Imagino que por trás dessa formulação esteja um pensamento do tipo "Ué, mas tem um monte de filme pornô com lésbicas, existe uma cultura erótica do sexo entre mulheres". Sim, existe. E nos leva àquele outro cliché de que o sexo entre mulheres existe para o deleite masculino - construção baseada naquela velha e tão presente lógica machista segundo a qual as mulheres, afinal, só existem para o deleite masculino, são inclusive uma mera parte dos homens ou vocês esqueceram da historinha da costela do Adão? Não, eu não esqueci. E não esqueci porque nunca me deixaram esquecer. Porque ser lésbica e lutar pela visibilidade não é necessariamente lutar para sair nas ruas e não ser fisicamente agredida. Ser lésbica e lutar pela visibilidade é ouvir gracejos, "elogios", gente "querendo participar", é enxergar nos olhares alheios aquela agressão da cultura do estupro - e, ouso dizer, com a ameaça do estupro mais exacerbada pelo argumento de que as lésbicas precisam disso para corrigirem a sua sexualidade.

Como disse no começo do texto, após três anos casada com uma mulher, nos últimos tempos tenho me relacionado com homens e me peguei em alguns momentos constatando como a gente acaba criando mecanismos de defesa para a homofobia. Um gesto bastante corriqueiro e inconsciente para um casal heterossexual como andar de mãos dadas nas ruas foi o que me surpreendeu um dia desses. O que era para ser um gesto de carinho, ter as minhas mãos entre as de outra pessoa, depois de um certo tempo, depois dos percalços e inseguranças de uma separação, depois da alma machucada por muitas coisas, o que era para ser um gesto de carinho me sobressaltou. Tentei disfarçar o susto e me vi automaticamente observando minuciosamente o local em que estávamos, como costumava fazer a fim de precaver a mim e a minha companheira de possíveis demonstrações de homofobia. A gente se acostuma com o preconceito? A gente acostuma a sentir medo... Esse medo invisível para muita gente, esse medo intangível para os que abrem a boca para dizer que direitos para minorias servem para construir privilégios.

Me surpreender nesse "momento heterossexual" me fez sentir exatamente assim, uma pessoa privilegiada. Uma pessoa que vive em circunstâncias mais confortáveis do que uma quantidade enorme de pessoas e essa sensação não foi nada legal, porque se eu estivesse com uma mulher ao meu lado, talvez nós não déssemos as mãos, talvez ficasse entre as duas a áurea de medo que nesse caso passou só por mim. E é isso o que acontece muitas vezes e o que eu não canso de ver (graças a deus e com muito orgulho, quero ver muito mais!) é gente vencendo esse medo, unindo as mãos, os lábios e mostrando que uma demonstração de afeto é uma demonstração de afeto independente de qualquer coisa. O que eu queria ver mais é que as outras pessoas entendam que essa demonstração de afeto não altera em nada a vida heterossexual delas e que não há motivo para responder a isso com xingamentos, comentários estúpidos, agressões, assassinatos e outras formas de violência.





* Trecho da crônica A mais justa das saias publicada no jornal O Estado de São Paulo em 23 de julho de 1987 e presente no livro Pequenas Epifanias (2007).

terça-feira, agosto 28, 2012

Sinal

Para ler ao som de Alazão (Filipe Catto).


Uma questão de colocar o ponto final. Alinhavar com força e precisão o que falta. Tirar do lugar o que juntou poeira por tanto e tanto tempo e que nunca teria se resolvido com o afago de uma flanela umedecida. Linha e agulha em mãos e o medo de furar o dedo guardadinho no peito palpitante que há pouco sangrava. Ele eu também costurei. Fica essa carne vedada e ainda com cheiro de ferida aberta. Dá pra sentir o cheiro de carne fresca no ar, a vermelhidão da pele exibe o quanto ainda é sensível ao toque - despertando uma vontade enorme de encostar com a delicadeza mais firme a ponta dos dedos quentes, de mergulhar nessa dor que na verdade é sen-si-bi-li-da-de.

É que me puxaram a máscara com brutalidade, à guisa de construção narrativa, diria que de-forma-abrupta-e-inesperada. Redundante e falso, como as frases feitas usadas para cumprir o script mais cliché entre os que imaginei que seria o nosso fim. Mas passou, passaram as minhas cenas de drama mexicano e as suas falas de revista de auto-ajuda, passou mais rápido do que pareceria o tempo de rosto lívido depois da máscara que você arrancou e foi junto uma camada inteira de pele. Ficou a descoberta de que existe outra camada de pele debaixo da pele e que quando a gente arranca a primeira, fica aquela segunda que é mais fininha e sente tudo muito mais intenso, muito mais real. O frio e o calor alternam em suores, febres, tremores. É vida o que se desenha na nova volta de círculos descentrados.

A palavra despedida tem rostos de anjos, os cenários que farão falta (e ainda assim estarão perto) têm outros personagens, roteiros mais contundentes e têm aquilo... aquilo que faltava e eu não via, eu tinha esquecido o que era, coisa simples, pequena e tão desejada: ficam espalhadas pelas ruas santas gotas de poesia que derrama de copos, corpos, vozes, sorrisos e palavras.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Laço de fita

Abro pontas que talvez alguém ate. Talvez alguém faça laços, leques. Espalho migalhas que talvez alguém recolha e siga como um conto infantil sem saber que são tirinhas de no máximo quatro quadros. Desenho em nanquim os contornos do cenário, pequenos quadros, curta sequência - assim do jeito ideal para caber nos meus sonhos e na minha capacidade de elaboração literária, que todos sabem que é do tamanho do meu estômago. Faço os limites dos quadros, restrições torpes baseadas em metas rasas, e depois chamo carinhosa e forçosamente de mol-du-ra. Há quem compre a ideia, elogie o trabalho do marceneiro e há os mais prosaicos que, como deve ser, nem reparam nesses detalhes desinteressantes que rodeiam as obras de arte. Vou colocando as minhas próprias dentro. Passando os dedos de olhos fechados para melhor sentir a textura, chegando o rosto bem perto para procurar ainda um cheiro das cores - sabendo que é isso o que importa. Tirando o limo para escorregar mais fácil, mais rápido no caminho desembestado que sempre leva ao chão.

Chão que eu decoro com pedrinhas, que eu povoo com sonhos, livros e poucas coisas cuja graça consiste em escolher junto com meus botões onde cada coisa fica. Por fim, ato sozinha as pontas, faço laços, origamis e junto minhas próprias migalhas com as pontas dos dedos - que bem conhecem os caminhos da boca.

quarta-feira, agosto 22, 2012

As asas batem devagar quando se aprende a voar

Para ler ao som de Entregue-se  (Tiê).

Aos muitos anjos.

Um dia de cada vez e tudo se ajeita. Vez em quando, posto que ninguém é assim tão auto-suficiente, há que recorrer a frases feitas, motores de fôlego e mantras que deem razões para abrir os olhos a cada manhã - e a fechá-los a cada noite sabendo que sim, é possível. Aos poucos, os dias se redesenham e eu descubro que há muitos anjos no caminho. Descubro que eles se escondem nos lugares mais improváveis, em caixas de papelão, pares de meia, pedaço de papel ou mesmo em um isqueiro. Escondem-se nos meios das páginas de alguns livros, no fundo de alguns pratos e copos, nas mesas, eles se escondem. Alguns relampeiam coisas bonitas, dessas que a gente só diz depois de muito uísque, e logo logo tornam a desaparecer. Outros vêm justo para encher de novo o copo, acender poeticamente o cigarro e representar cenas mal feitas de filmes nunca feitos, quadros nunca pintados, livros... ah, estes ficam sempre suspensos para o dia em que serão escritos. Há os mais inusitados - e também os mais intuitivos - que surgem justo para montar a trilha sonora dessas coisas todas nunca feitas nem vistas. E deixam a imaginação correr solta sem saber que se tornam a paisagem, o quadro, a companhia das melodias que deixam antes de ir.

Os anjos aparecem para me dizer que não adianta colocar prefixo de negação se eu nunca tive dono. Dizem essas coisas assim grandiloquentes ou não dizem nada, apenas estendem a mão, matam o frio dos meus pés quando estou dormindo, falam de sabores quando estou comendo, brindam aos bons fluidos quando estou bebendo. Anjos podem aparecer de manhã no ônibus para anunciar um dia ensolarado, aparecem distraídos e dizem de um jeito suave que o fardo pode ser mais leve, fazendo com que eu nem precise estender um pedaço.

Eles mandam dicas de filmes, se oferecem para planejar futuros, ajudam a escolher as cores das coisas, dão pitacos nos detalhes que ainda estão na minha imaginação, minoram o desespero dessa não realidade e dizem onde encontrar a tinta quando tudo for real. Anjos passam e apenas dão um beijo de boa noite, oferecem um chá ou um pano de chão. Às vezes, ninguém sabe, colocam tudo a perder, mas depois, ajudam a trancar portas sorrateiramente, resolvem problemas com mais uma traquinagem infantil para alimentarem os estereótipos. Há uma espécie deles que não tem asas nem penas brancas, um tipo peludinho e doce, que conversa do seu jeito e dá o seu jeito de dizer que existem os amores eternos.

Anjos ajudam a criar histórias, empinam as orelhas para saciar minha vontade de declamar. Anjos me tratam como a criança mimada de sempre e me dizem verdades dolorosas que só se diz a um adulto quando é preciso dizer. Anjos estendem as mãos e arregaçam as asas esperando o voo em que eu possa levá-los todos. Podem vir!

sexta-feira, agosto 17, 2012

Damas grátis: pra quem?

Dia desses, conversava com uma amiga sobre a mercantilização do corpo feminino que está por trás das programações noturnas que não cobram entrada para as mulheres. Como assim?, você deve estar se perguntando. Que mal há em deixar as mulheres entrarem de graça nas boates - e às vezes ganharem bebida liberada também? Fiquei com isso na cabeça durante alguns dias, pensando que muitas mulheres não atentam para esse tipo de violência e acham super legal entrar de graça nos lugares. Ouso dizer que muitas amigas minhas gostam e escolhem seus momentos de lazer enfatizando esse tipo de lugar para economizar dinheiro. O desconforto ficou martelando até o dia em que recebi um convite de aniversário cuja programação traz no flyer não só a entrada VIP (?) das mulheres, mas também o tal do Open Bar.


Não vejo problema nenhum em não pagar entrada, aliás, acho caro e sem sentido gastar uma fortuna para ficar num lugar escuro, abafado e com música alta. Mas não é sobre o meu espírito velho que quero falar. O probleminha invisível no 'damas grátis' é que normalmente a mesma filipeta sinaliza um valor bastante alto para a entrada dos homens, como é o caso desta que recebi.

Eu passo para vocês a mesma pergunta que minha amiga fez: por que os homens pagam valores (às vezes bem exorbitantes) para entrar numa casa noturna em que as mulheres entraram de graça algumas horas antes e estão ganhando drinks? Eles não estão pagando pela entrada, eles estão comprando um produto - foi a resposta que ela me deu e com a qual concordo plenamente. Eles estão pagando caro justamente pelas mulheres que entraram antes e já estarão bêbadas e fáceis na hora em que eles chegarem. E aí, se eles estão comprando esse produto, nada mais legítimo que ele o receba. Lógica capitalista. E nessa lógica assustadora, o cara ganha o direito de reclamar em caso de valor pago e produto não recebido.

Sei que não sou a melhor pessoa para relatar experiências nesses lugares, mas nas poucas vezes em que fui, me recordo das abordagens super agressivas, mãos no cabelo (imagino que isto seja até sorte), homens puxando pelo braço etc. Até onde me lembro, aliás, é por isso que não frequento esses lugares. O que não percebemos é que essa modalidade de violência - entre tantas outras sofridas pelas mulheres todos os dias - não está partindo apenas de meia dúzia de caras babacas. Essa violência é estimulada, alimentada, acalentada pelas casas noturnas. De vez em quando a gente vê consequências mais complicadas, uma agressão mais explícita como o caso da mulher que teve o braço quebrado ao recusar um homem numa boate em Natal. O que não vemos é que toda a lógica de funcionamento dessas casas noturnas, do ingresso às músicas tocadas, tratam as mulheres como objetos do desejo masculino - e se há alguma agência atribuída a elas, é a de satisfazer esses desejos, tornando legítimas as reações com violência física caso isto não ocorra. O que está sendo vendido não é um espaço com música e diversão, é um abatedouro em que, desculpem, eu não quero ser mais um pedaço de carne.

Mais um brinde

Mais uma dose? 
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Por que quê a gente é assim?
(Cazuza)

A vida oferece.
Um sorriso,
um pedaço de bolo,
um livro,
um abraço.

A vida vai oferecendo
coisinhas pequenas-grandes,
jeitos minúsculos de lidar
com o lobo-mau e a tal medonha.
A escolha consiste em aceitar ou recusar.

Transformar o brinde em porre,
sorver em pequenos goles.
Fazer de um jeito que não seja impune,
não seja ameno.

Fazer alguma coisa
que aqueça a água
antes que seja tarde.

A gente só sente o gosto se colocar na boca.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Para se ler ao som de Mapas do Acaso (Engenheiros do Hawaii).

A mão finalmente alcança o disco e põe na vitrola com a convicção de já ter tocado outras coisas. O riso que se fecha para tragar mistura vaidade e a sensação boba que só as felicidades simples trazem. As defesas vão sendo minadas a cada pequeno gesto, cada palavra doce no meio da tempestade. Depois de ter perdido o chão e o teto, a gente não espera muita coisa da vida, acha que dá pra viver na tristeza de um poema. Um poema-guarda-chuva, que alguém abre e eu me deixo envolver por qualquer pequena proteção.

Liberdade é quando diante do mar aberto a gente se agarra a uma única gota. Se agarra com toda força que tem, sabendo que não tem quase nenhuma, não tem quase nada além desse medo enorme de que doa ainda mais. Era para mergulhar nas coisas todas, nas cores todas, mas aí uma gota faz perder o caminho, uma gota dá conforto, paz, uma gota faz com que esse vazio de estar vivo seja esquecido por algumas horas, que esse sangue que escorre das feridas inflamadas estanque por alguns minutos. Gota pequena que deixa no ar alguma ilusão de não estar tão sozinha no mundo - mesmo sabendo que é só ilusão, fica essa vontade de mais. Sorvendo na boca uma única gota e pensando em porres homéricos e mergulhos intensos.


terça-feira, agosto 14, 2012

Resíduo


Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ―  de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

domingo, agosto 05, 2012

Fragmentos entrecortados na pauta do dia



O desafio é sempre sair do canto espectante, saber que as mãos servem para mais que aplausos, que o corpo não tem lugar marcado em assentos desconfortáveis. Mas hoje não é de mim, tenho que aceitar e entender (e se de fato o fizesse, abria mão por um dia que fosse da tentativa, da eterna tentativa). Se não há desespero, não há ânsia nem náusea. Há essa cara boba de quem não entende nada e não quer entender, não quer tampouco dar a torcer o braço de argila moldável.

O domingo frio me dá uma vontade enorme de mim. Uma paixão que vai virando mais que amor próprio, uma constatação de não querer outro corpo que não seja o meu, de não querer percorrer outras linhas que não sejam as do meu corpo, dos meus livros estrategicamente organizados na cabeceira. Não sei se tranquilidade é sinônimo de indiferença, não sei se autoconhecimento é sinônimo de ostracismo, sei que tenho ao meu redor as minhas paredes e sempre me pego demasiadamente apegada aos pronomes possessivos só para desmoronar meus próprios discursos libertários. Elas me protegem e não perguntam. Elas vão formando uma espécie de ninho quente, um regozijo para o agosto que espera - eu encaro desafiadora as nuvens carregadas no meu horizonte estreito e digo "Venha!".

Eu espero pouco e opto sempre por me respeitar. Uma página por dia, como quem começa um novo livro para ter com quem conviver. A vida não é feita de contos, mandam dizer em bilhetes escritos em guardanapos. Não é para essas pessoas que escrevo, respondo sabendo que não percebem meus plágios. Eu costuro. Uma frase na parede, uma música no rádio, uma paisagem. As coisas mais pequenas são as que fazem algo e nem importa que o conto acabe se desdobrando em crônica mal ajambrada.