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domingo, abril 14, 2013

Um jogo

Ao som de Me liga (Paralamas do Sucesso)

Você me atira uma bolinha verde.
Eu a escondo em revanche
e penso que poderia ser azul
por pura falta do que pensar.

Você cola a bolinha na vitrine
Eu ponho na testa pra ver se gruda
Você coloca trilha sonora
e arremessa de volta.

Eu guardo.
Você guarda.
Poderia ser um jogo.
Poderia ser um conto.
Mas são só imagens.



A compra

Porque o verão começaria em poucos dias; porque a esposa faria uma longa viagem a trabalho; porque com o fim do semestre os dias ficariam folgados; porque desaprendera a divertir-se sozinho; porque a luz que entrava pela janela no final da tarde deixava tudo mole, deprimente, vazio. Por essas razões todas e por nenhuma delas em especial, naquele dia ensolarado de dezembro, decidira comprar um gato. Uma gata, para ser mais preciso. Que não estava disposto a disputar com ninguém o papel de macho dominante da casa.

Não sabia direito como funcionava isso. Cansara de ver contatos compartilhando imagens de animais abandonados nas redes sociais. Cogitou adotar um dos maltrapilhos com semblante amoroso, mas isso o desviaria do objetivo. Seu desejo era comprar uma felina.

Numa dessas  lojas especializadas de shopping, conseguiu a mais felpuda. Uma filhotinha da raça angorá que se divertia com qualquer pedaço de papel que caísse no chão, como faria qualquer gato vira-lata, mas ele não soube por falta de experiência.

Assim funcionava: a cada fim de tarde, quando o sol entrava ameaçador pela janela, enforcando a sala com aquela beleza ímpar, lotando o cômodo bem decorado de solidão, ele esfregava de leve os pés no dorso da gatinha e sentia em retribuição aquele ronronar gratuito de quem também sofre de falta de amor.

Como quem inventa um hobby pra ocupar o tempo, como quem contrata uma garota de programa, como quem escreve, ouve músicas, decora poemas etc. Como qualquer ser humano, ele sofria de falta de amor.

quinta-feira, abril 04, 2013

Saldo do dia...

 ..ou Drops de Eliza.

Ao som de Antes de começar (Moska).

Um belo dia você descobre que, ao contrário do que você sempre imaginou, o mundo não é dominado por um apocalipse zumbi antes das nove da manhã. Ele existe.
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Pode ser péssimo para a minha reputação (oi?) admitir isso, mas: eu gosto do bairrismo de Botafogo.
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Eu sei que estou na Zona Sul. Não porque Botafogo passa a ser subúrbio. Não por causa do trânsito infernal e intermitente do Jardim Botânico. Não pela praça que inaugurou (pelo menos acho que) essa mania de chamar os lugares de Baixo-Lugar-Descolado-da-Galera. Não pelo cheiro de batata frita que não é um cheiro de gordura velha, é cheiro de uma apetitosa batata frita. Eu sei que estou na Zona Sul quando me cobram 50 centavos por UMA cópia.
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Há momentos em que vejo alguma coisa e sinto uma vontade enorme de tirar uma foto para postar no feicebuque. Fosse um tempo atrás, eu me defenderia dizendo que não tenho um aparelho tecnológico o suficiente para fazer isso. Agora tenho. E vou resistir pelo menos até que as pessoas esqueçam a matéria sobre banalização da imagem que compartilhei outro dia. A hipocrisia vai bem, obrigada por perguntar.

O problema todo é que, como eu não fotografei, o mundo (aham...) nunca saberá a graça que foi a mãe e a funcionária tentando manter quieto um bebê de seis meses a fim de tirar a foto para o RG da criança. Acrobatas perdem.

A parte boa é que não veremos um comentário da minha irmã na foto dizendo que obviamente ela tem 3 meses ou dois anos.  Certeza mesmo só a minha inabilidade para reconhecer a idade dos pimpolhos.

Agora imagina o bebê apresentando o RG na porta da buátchi!
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O Registro de ocorrência é bom o bastante para os bancos, para o plano de saúde, para a secretaria de pós-graduação, para o drama com os amigos, para conseguir dinheiro emprestado, para que as pessoas exerçam a atividade cotidiana e tão necessária para a humanidade que é me mimar, para justificar faltas, ausências e crises de choro. Entretanto, não é bom o suficiente para o Detran. Quem entenderá? Sem falar que eles podiam ter me dito isso antes que eu pagasse uma fortuna pela cópia do BO insuficiente. Até o bebê pode ter um RG, menos eu.
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Só a cafeína expulsa a madrugada das pessoas.
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Se a padaria estava fechada, a programação matinal foi dar com a cara na porta, o cartão não tinha chegado, o BO não servia e o cartucho da impressora estava em falta, por que cargas de ingenuidade e otimismo eu fui achar que meu diploma estaria pronto?
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A vida funciona assim: tem o caderno lilás fofinho, tem o vermelho charmoso, tem o de capa dura, tem o quadriculado... e tem o que custa cinco reais e trinta e cinco centavos. E já é um sofrimento me convencer de que isso é barato.
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Moral da história: comer dá fome e sempre há Oz no fim do túnel.

quarta-feira, abril 03, 2013

Deglutição.


Para Lia e Helaine.

Para ler ao som de Socorro.

Começou ensaiando pena. Sentimento que a gente inventa para se sentir superior quando a insegurança anda braba. Afinal, os pobres coitados... Tão pobres e tão coitados. Incapazes de ver e fazer o óbvio. Era tão óbvio, nítido, claro e evidente que. Só tinha um jeito. E o jeito era combater primeiro a insegurança, trocar o disco dessa oscilação estranha entre usar a tal da pena contra si ou ensaiar qualquer motivo para exibir o quanto se pode sentar na muretinha mais alta porque-é-superior. Ensaio fraco. Execução péssima.

Depois tateou pela indignação. Como podiam? Tanta falta de amor-próprio. Tanto desamor, desperdício, desatino, desvontade. Os prefixos de negação eram tantos que poderiam abastecer senhas pelo resto da vida. Tudo era absurdo e a palavra grande escondia muitas faltas miúdas.

Por último, ou em terceiro – tríade, trindade, perfeição divina, só poderia vir agora a grande revelação e explicação de tudo no mundo. Mas espera aí. O lugar de esbanjar egocentrismo não era a primeira opção?

Em terceiro lugar veio um sentimento simples, a que a gente não costuma dar muita atenção. A palavra não é imponente, nem tem cara de coisa grave, densa. Até porque não é, é simples como uma vida que não precisa de dicas de autoajuda porque não tem a pessoa que se acha boa o bastante para ajudar.

Enfim, veio a identificação. Não era como um reflexo, não me entendam mal. É muito diferente de se olhar no espelho, ver no outro um pedaço de você, ficar se procurando em cada pedaço das coisas para ter a sensação de que se é alguma coisa. Não é isso. Tem que tirar o narcisismo da história, que ele fica é para quem tem tanto orgulho de si mesmo que se sente capaz de ter pena. É aquela sensação estranha de saber como uma outra pessoa se sente. Aquele momento de conseguir sentir o que o outro sente – e, por isso, é que a gente acaba tendo menos importância, saindo da lista de prioridades, porque é o sangue do outro ali precisando ser estancado. Algo que não sei resumir com uma expressão diferente de ‘estar no mesmo barco’. Não sou só eu, aliás. Estamos todos. Basta olhar um pouquinho mais de perto e você vai ver que todo mundo. Os bares estão cheios, como diria Criolo. 

Isso que você chama de vazio, sabe? Eu sei como você se sente.

E ponto. Não tem receita depois disso. Não tem três tapas na cara, dieta, horóscopo, passe ou tarô. Não tem a revista certa com os conselhos certos, a música ideal, o filme que explica tudo, o livro que faz você entender o quanto é mais denso que imagina. Acho que é raso mesmo, esse vazio. Abismo que se permite as antíteses mais toscas.

Não tenho resposta para além dessa fala velha de filme de sessão da tarde, mas é isso: eu-sei-como-você-se-sente. Claro que não deve ser completamente igual. Imagino que os abismos tenham profundidades, espessuras e tons diferentes para cada pessoa. Assim como imagino que no fim das contas, não sou só eu, mas todo mundo está meio perdido nesse naufrágio. Não deve ser à toa que tudo isso é tão cliché.

As pessoas parecem ter encontrado maneiras de deixar as coisas fluírem sem que a dor apareça. Eu também faço cara de quem não sabe de nada a maior parte do tempo. Mas sinto e sei esse vazio cliché. E é tão tão tão tão cliché que eu não sei preencher com nada diferente de um abraço. É bobo, mas é como eu sei.

Como nos parquinhos de infância, eu não solto se você prometer que também não vai soltar.

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Mesmo sem as tais receitas, a gente descobre que tem gente por aí que também sente – ou também não sente. Uma gente importante, que faz até vazio se transformar numa coisa mais nobre: angústia, alguns chamam. Eu me agarro e gosto de imaginar que eles são semi-deuses que me povoam de sentimento e poesia.

quarta-feira, março 13, 2013

"Meias verdades sempre à meia luz"

Para ler ao som de Cegos do Castelo (Nando Reis).

Ninguém percebia os olhos dele por trás da beleza. Não era 'por trás' como quem domina ou cobra dívida ou se esconde. Geograficamente, poderia ser ao lado. Ninguém perceberia os olhos dele ao lado da beleza dela. Como cantiga de infância em que os pronomes trocam e se fundem, e os gêneros já não fazem sentido. Porque nunca fizeram. Eram os olhos dele de bicho vivo e com fome olhando para os olhos dela de bicho vivo e sorridente e também faminto e refletindo essa fome que contagiaria outras fomes tantas fazendo valer o poema das facas e queijos colado na porta da geladeira. Como um mantra. Ninguém percebeu.

Também não poderiam, pois ela os tinha escondido propositalmente, os olhos. Não por maldade ou medo, é só que nos últimos tempos aprendera a guardar segredos. Sem o peso do que não pode ser dito, sem tabus, apenas alguma dose de preservação e um respeito estranho por sua própria solidão. Alguma dose do que não precisa ou não pode ser colocado em palavras. Jamais reconheceria, mas os escondia também por ciúmes - esse sentimento estranho que faz a gente querer só para a gente tendo a certeza de que não pode e não tem e nem faz sentido ter, posto que ninguém tem direito, mas deixa eu sonhar e brincar de ser feliz fingindo que a vida não é feita de quartas-feiras.

Acontece, porque a vida é cheia de paralelos e muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, que as pessoas confundem vitrine com capa de jornal. Ignoram que mesmo esta é demasiado manipulada. A realidade não existe, afirmo sob a chuva de pedras que recebo junto à acusação de pós-moderna. A realidade é intocável, respondo sob o meu próprio sangue derramado junto com a minha culpa cristã - essa companheira inseparável - e para o silêncio do cenário de uma guerra recém finda.

Meu jardim floresce aos poucos e eu sei cuidar bem das minhas metáforas toscas, obrigada por perguntar. Acontece de flores brotarem ou de eu me emputecer e jogar sal.

Fato é que há cercas e eu vejo - e ninguém mais, já disse - trepadeiras que ultrapassam os limites previamente desenhados. Eu continuo desenhando, ora desdenho por pura incapacidade de resistir a trocadilhos infames, ora deixo a folhagem envolver os arames frágeis.

segunda-feira, março 04, 2013

Incomunicável

Nem tudo deve virar palavra. Nem tudo pode virar também. Palavra é feita para dizer e a gente só diz o que não consegue expressar de outra forma. As línguas têm jeitos outros de mostrar o que o corpo sente. Com ou sem separação metafísica. O corpo, esse construto social com o qual se convive achando que dá para ter relação de posse. Nem com o próprio nem com outros. Isso em que a gente habita e separa da categoria 'mente' fingindo que é possível dominar algum dos dois. É um. E nunca é. Assim como não é caso de fazer escolhas.

O corpo pede, manda, age por seus impulsos próprios e a gente segue num misto de obediência e rebeldia. Às vezes funciona para um lado, às vezes fracassa para o outro. Fato é que, mesmo que a gente finja não ouvir, os corpos dizem nitidamente o que querem.

Palavra não. Palavra a gente usa para dizer o que não quer, para ferir bruscamente as pessoas, para tentar desfazer erros, para destrançar textos decorados. Conversas servem para quando não se quer dizer, quando precisa amenizar, devolver objetos, resolver coisas. A voz é necessária quando existe a indiferença. Porque mesmo a raiva pode ser dita em gestos, expressões, portas batendo e choro, muito choro.

O que não é nada a gente tenta esquematizar, tenta dizer de um jeito que não pareça extremamente ofensivo, tenta desdobrar em mais frases o que deveria ser um simples e seco não.

O que se sente pode sempre ser silêncio, olhar, gemido, toque. Indecifrável, indescritível, incomunicável.

domingo, março 03, 2013

Às vezes preservo e suicido simultaneamente. Eu quero lambuzar e não ficar só lambendo as feridas. Sacrifício voluntário, lembra? Depois de subir no cadafalso não tem mais como voltar. Tem que deixar a corda envolver vagarosamente o pescoço e se deixar cair sem olhar o carrasco - ele não é outro que não o espelho.

(Ao contrário do que acreditava Susan Sontag, a vida só é possível com metáforas).

Escrever é como cozinhar. É preciso separar os ingredientes, lavar, descascar, cortar etc. etc. Só depois é que é possível misturar, fazer o molho e esperar que as coisas aos poucos ganhem outro gosto, consistência e virem, por fim, uma outra coisa. Uma coisa saborosa, esperemos.

O problema é que eu não sei cozinhar.

sexta-feira, março 01, 2013

"É urgente: eu ainda não fui feliz"

Ao som de Chá verde (Tiê).

A fome vem, afinal. Mesmo sem faca nas mãos. O apetite recobrado, os pequenos pedaços sorvidos na língua, mastigando, dissolvendo. Não tem como não perder o tom, não tem como não ser brega, cliché, estranho. Não tem como não ter essa sensação de que algo se perde. Um pouco da preservação sempre se perde, mas ganha novos meios de sentir a tal fome, novos jeitos de lambuzar os dedos, degustar as partes.

Nem precisa de proximidade. É possível manter preservação. É possível ficar perto com cortinas e telas no meio, desdobrar em imagens, frases, ir montando as peças do que pode ser bom sem ferir. Não precisa nem de voz. Pode ser tarde também - e pode ter certezas disfarçadas de hipóteses, pois, sabe-se lá quanto tempo depois, o fim é sempre o mesmo.

Enquanto não vem a dor de bater com a cara, resta o prazer de lidar com as pedras do muro. Arranhar de leve a pele, sentir o calor do concreto, o formato dos tijolos. Depois essa aflição desesperada vira ferida funda, mas deixa isso pra quando vier.

Agora é a hora de deixar o tempo correr, os dias passarem e os pequenos prazeres seguirem. A vida sempre segue.

domingo, fevereiro 17, 2013

Todo carnaval tem seu fim

É só uma questão de recobrar a saúde, recobrar as rédeas, recobrar a sanidade, o volume do rádio, a agenda de telefones, o formato do travesseiro. O relógio corre. Os dias idem. E não há tempo. Simplesmente não há tempo nem sanidade para criar de novo as próprias armadilhas. O segredo é desfazer o ponto à mesma proporção que teço. Difícil é saber medir e controlar a velocidade com que o sol bate nos olhos.

O tempo é necessário. A solidão é necessária. Qualquer tropeço me faz perder o rumo nesse caminho de quem não sabe aonde está indo. O sabor do passo, lembra? Uma hora ou outra esbarro num instante mais bonito que desvirtua, fragiliza.

Há mais cores e possibilidades e não há doença que Drummond não cure. Não há cabeça que o coração não ame e não há lembrança e rosto virado na rua que não faça lembrar o quanto o amor arde - mesmo quando a gente anda depressa demais tentando não rever os próprios passos. Vovó diria que tropeça, mas as pessoas da minha família nunca gostaram de alimentar estereótipos.

É preciso tempo e dedicação. É preciso convivência. É preciso não precisar e saborear devagar cada pequena folha de manjericão.

O carnaval acaba, sempre acaba. A coerência não, posto que ela nunca existiu.

Os vírus passam depois de determinado ciclo. Atos de um drama teatral: o momento da reflexão sempre chega. Ainda que seja a mais simplista, a mais cliché, a mais encerramento-birra de quem no fundo guarda o vestido estampado para o carnaval que vem.

Eu pinto o nariz quantas vezes for, mas o suor borra e a pintura se desfaz.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Negras nuvens

Ao som de Canto de Ossanha.

"Que sonho é esse de que não se sai
E em que se vai trocando as pernas
E se cai e se levanta noutro sonho"
(Chico Buarque, Sonhos sonhos são)

Um pesadelo estranho em pleno carnaval. Como o retorno de um pavor infantil e inexplicável de pessoas fantasiadas. Rostos pintados, corpos vestidos, fantasiados, travestidos. Passados por todo o canto: acenando, virando a cara, escarneando. Uma eterna procura por quem se quer encontrar e ao redor apenas os monstros. E o controle, meu deus (?), onde foi que eu deixei cair o controle?

Eu tento acordar, tateio no escuro à procura das cortinas que me trarão a luz do sol e vejo que elas já não existem, que nunca existiram, que o dia brilha forte na cara, queima a pele, cega os olhos - assim, pleonasticamente. O dia nascendo antes do tempo, o acaso que brinca de achar e perder me canta risonho a trilha sonora desencontrada de uma letra esquecida: que quem diz muito não é. Que todo alarde é conversa fiada, seu moço, e você nem percebeu que eu não sou capaz de jogar por muito tempo os jogos, não aguento muito tempo a máscara nem quando é carnaval. Porque pesa, porque o sol é quente e porque é melhor ver o mundo de olhos bem abertos e sem nada que tampe. Porque em lugar de máscara eu quero a fantasia. E eu tenho muito mais delas do que supus. Essas mesmas que eu invento, mato e morro no drama intenso e canastrão que vira uma conjunção de passados travestidos e repetitivos sob o sol escandante. Feito miragem às avessas, delírio, teto preto e as tais verrugas na memória.

Minha eterna fuga rodeia os mesmos quarteirões repetidas vezes, recruza com mesmos des-rostos, desgostos. Clichés, mundos e mundos de clichés.

O que a gente faz com isso que aparece quando não há amor-próprio, bom senso ou o que quer que seja em quantidade suficiente para respeitar os jogos, as regras, os próprios discursos, as preservações quando tudo na vida (ui, palavra grande!) se resume a fazer ou não fazer o que se tem vontade. Quando a fome que não engole de tanto desespero cruza multidões e se disfarça de curiosidade simplória.

Talvez ainda haja tempo de pular do barco, do bloco, do bonde. Talvez venham manhãs, talvez não passe de cinzas.

Submerso em confetes, esvai-se como o corpo que se esparrama em suor, ficou por debaixo da maquiagem, das fantasias.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Como quem compra pão


Ao som de Sentidos (Zélia Duncan).

Paralelas que cruzam portais. Alguma preservação que pode ser censura. A sinceridade que nunca é desmedida, muito pelo contrário. Os turnos trocam. Os porteiros pensam sabe-deus-o-quê e eu vou levando os dias sem parar para poetizar. Não, não é que seja a tal poesia. Tem hora que não é dela mesmo que se carece. É algum tipo de balanço que é necessário às vezes, mas se permitem a repetitividade, ainda prefiro escolher o balanço de parquinho com seu ir e vir ambíguo em alta velocidade no meio da chuva.

Mas tem que contabilizar para seguir em frente. Transformar em palavras, dar significado, compreensão. Ajeitar para cada coisa seu lugarzinho devido na estante: o de lembranças-bibelôs sonhando com bonecos de gesso que conheçam o kama sutra.

Meço com fitas coloridas de senhor do Bonfim os cílios que se abrem em olhos tão famintos cuja lembrança desperta pensamentos vestidos sempre em vermelho sangue.

Contabilizo com tecidos de cortina a quantidade de pontos que pode ter um sorvete de flocos, embora tema o conforto das conchas mesmo distantes do barulho do mar.

Ensaio vinganças, ativismos, copio cenas de filmes que ninguém nunca viu.

Defino minha vida pelo sexo. Sexo que eu estudo. Sexo que eu desencavo nas pessoas cujas vidas já não me pertencem e eu bem sei que nunca pertenceram.

Conto meus dias pelas trepadas e ouso dizer estou na idade. Abro meus olhos pro mundo e encontro vez ou outra meu reflexo em outros pares diversos. Olhos que instigam. Olhos que investigam o prazer a fundo. Corpos não são mesmo vídeo games, afinal. Trepo para transformar em conto. Só sexo é escrita? Amor nunca? Paixão às vezes. Palavras encardidas e bobas, além de temporariamente fora do vocabulário. Fujo de qualquer coisa que me queira perto demais. Quero qualquer coisa que me queria longe. Procuro farpas, invento desculpas, provoco uma briga e digo que não estou.

Estou no reflexo dos seus olhos e nos meus que embaçam e fecham para sentir melhor as especificidades de cada pessoa. É muito mais que o cheiro da curva-do-pescoço com o ombro. A textura da pele nunca é igual, assim como o cheiro do sexo, o ritmo da língua.

A vulgaridade de sempre me cerca. Contudo, agora, creio-me com poros mais atentos ao que a experiência reserva. Percorro seus meandros, me deixo levar. Mais ainda exibo na janela os dentes e rosno para quem ousar passar da página quinze.

terça-feira, janeiro 15, 2013

Inclassificável

Ao som de Medo de Amar (Vinícius de Moraes)

Um desejo que é meio ocasião, meio discografia.

É a voz da Elis que você procura no cheiro do meu pescoço e só encontra um verso estranho, apesar de repetido à exaustão.

É a visceralidade do Ney Matogrosso que você quer no gosto do meu sexo, mas não sabe que é só esse-gosto-molhado-que-as-pessoas-têm-quando-tiram-a-roupa e que a sede de outro corpo é só essa sede-que-ninguém-mata.

Por maior que seja o tesão musical, não vão surgir nos arrepios da minha pele as palavras de Chico.

É só sexo.

Coisa de vagabundos perdidos no fim das noites de sexta que viram sábados quando a gente vira do avesso.

É só sexo.

Não transcende melodias, não estoura em metáforas, não explode em timbres - nem sequer mata a sede (apesar de subverter uma ou outra convicção).

Só vira a página, o disco e muda a roupa que não serve mais.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Cheiro de pele


Ao som de Num dia (Arnaldo Antunes)


Se o cheiro fica no corpo
depois de um abraço,
o jeito é lavar a pele.
Esfregar um por um os poros
e deixar escorrer
os cheiros, os suores, os plurais
mesmo se forem bons
até voltar pra minha solidão.

Até voltar pr'esse cheiro que eu finjo ser nenhum
e que esconde também meus pedaços de vida
que eu deixo escorrer em abraços,
misturar em odores,
refazer nos corpos que se trocam.

Até minha pele voltar assim:
(mesmo sem nunca ter ido a nenhuma parte)
pronta para dar e receber novos cheiros
que depois a água torna a levar
renova em novos ciclos
em rimas bobas
em poças
poços
mares
e torneirinhas.

A gente nega, esfrega e rega
a pele de outras vidas
que dá pra inventar.

Leva, lava e troca por sabão,
colônia, essência
e por fim
o cheiro limpinho de roupa de cama
(porque nem sempre é cheiro de gozo que povoa os dias)

Não é nos poros que eu levo os pedaços das gentes que me acompanham
Vale mais o contorno do abraço que meu corpo sabe e reaprende a cada um

segunda-feira, dezembro 31, 2012

Parece que o último dia do ano torna obrigatório fazer uma espécie de balanço. Traçar metas, planos. Vestir calcinha, pular onda, fazer pedidos. Assumindo o maior dos clichés, eu quero é agradecer por ter sobrevivido a esse ano que pareceu tão interminável. Ano intenso, necessário, dolorido, vivo. Ano de retomar rédeas, de galopar em alta velocidade e sozinha. Ano de preparar terreno, fazer a casa, lavrar a cara e a alma para a vida. Que venha.

Dois mil e doze já teve tanta reflexão, tanto refazer, tantas metas, projetos, planos que hoje o balanço que eu quero é o de parque infantil, bem alto e bem forte para sentir o vento no rosto.

É isso, que o próximo ciclo traga bons ventos e acima de tudo vontade para viver cada um dos dias do melhor jeito.

O saldo sempre é bom.
a fome.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Pá furada

A poesia grita em duelos nas ruas
povoadas de almas desertas
que se desconhecem
mas já se viram n'outras noites e carnavais

Não sei se tem mais poeta
ou vendedor de amendoim
no pouco espaço entre as mesas e corpos

Não sei se eles têm mais fome
de comida ou de voz
Não sei se eu tenho mais culpa
ou sede

Sei é que um pouco de arte passa
Aos borbotões
nas calçadas sujas de suor e solidão

Não sei se é mais fome ou angústia

Não sei se ele põe mais orégano
ou desenhos de capa
se faz promoção-três-por-cinco
ou declama alto pr'as menininhas
cheias de vontade que alguém lhes diga
qualquer coisa que pareça vida

e eles dizem
mesmo que seja essa vida parca,
esses dias consecutivos,
esses brindes aguados em copos vazios,
esse tesão forjado,
essa teatralidade canastrona,
essa chuva que cai dos olhos
no verso mais cliché
que se diz com lascívia.

com seus livretos curtos
de papel xerocado na gráfica da esquina
- aquela mesma dos balcões antigos -,

com seus cones de papéis coloridos
e higiene duvidosa

eles jogam uma pá de terra
na culpa
e uma pá de letra
na cara dura

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Dez mil destinos

"Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria, pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu"
Escândalo (Caetano Veloso).

Comprei minha virgindade por nove reais e noventa e nove centavos nas Lojas Americanas. Ok, a história não é assim. Comprei a trilha sonora do dia em que perdi a minha virgindade. Não sei se as pessoas têm isso. Parece coisa de gente psicótica lembrar a música que estava tocando quando aquela pelezinha sem importância do seu corpo deixou de existir. Mas o caso não é exatamente esse, não é o pedacinho de pele assim como não é a música que estava tocando no momento exato em que. É do início da minha vida sexual que estou falando - desde então já se vão alguns anos - e de um disco que fez parte desse processo.

Eu ouvia sempre o mesmo disco e transava sempre com a mesma pessoa - coisa que só se faz mesmo quando começa a vida sexual. Tava ali, entre um livro de receitas e um filme da Audrey Hepburn, enquanto eu tentava fugir o mais rápido possível das musiquinhas irritantes de natal: a capinha laranja e preta querendo combinar com esse período - que deve ter uma explicação astrológica - de reconciliação com todos os passados possíveis.

Esse momento de andar na rua achando que posso tropeçar numa lembrança em qualquer esquina que vem acompanhado dessa certeza serena de que, em caso de tropeço, vou pegar nas mãos a lembrança, tirar o pó e colocar em alguma prateleira da memória. Assim arrumadinho, limpinho, como deve ser.

Como se pode imaginar, comprar o disco não é só comprar o disco. É chegar em casa e colocá-lo para tocar num cenário totalmente diferente do que ele conheceu - do que eu conhecia. E parar agora para ouvir tentando lembrar sem conseguir daquela menina que sonhava com novos horizontes e com uma vida sem medidas. Posso não lembrar da menina, mas a sequência das músicas ainda é familiar. Daquele jeito anterior ao modo 'aleatório', sabe? Quando as notas finais de uma música parecem pedir e anunciar a seguinte. É assim.

Nem tão longe que eu não possa ver, nem tão perto que eu possa tocar, depois de uma vida mais confusa do que a América Central, depois da pressa que liberta e leva a outras tantas direções, depois de saber que ninguém é igual a ninguém e de ficar parada olhando-me para nada e nunca ter ido ao Paraná, depois de saber que tudo passa e as pessoas realmente acabam passando por aqui, depois de saber que o dia desses dos encontros casuais sempre chega; de acordar cedo e tarde, de aquecer a água sem querer que ela ferva; de comprar e entulhar instrumentos que poderiam ter sido uma guitarra elétrica; depois de saber que sempre há novos horizontes e que o carnaval, afinal sempre chega. E saber que mesmo que eu seja uma pessoa completamente diferente agora, o disco ainda é o mesmo, com suas letras rasas, óbvias e som sujo.

Os anos passaram e os sonhos também. As trilhas sonoras foram outras tantas (e as mesmas músicas já embalaram outros amores também), as melodias, harmonias e letras mais doces, a vida tão mais real e saborosa, mas fica ali na memória, uma memória barata, mas que não se encontra todo dia. E deixa transparecer essas metáforas envelhecidas e graves. Minha pele teve tantos outros pedaços em que se descobriu ao longo do tempo...

terça-feira, dezembro 04, 2012

Sem Ana, blues

Sabia que um dia chegaria a hora de postar esse conto.

Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma correspondência, a vizinha de cima à procura da gata persa que costumava fugir pela escada, ou mesmo alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava pedir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar - então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés - ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarujá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, tão disponível & natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, irrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.

(em Os dragões não conhecem o paraíso de Caio Fernando Abreu).

Cores



Há tanto tempo que as palavras
Não se sabem quebrar nas linhas.
Mesmo quando se escondem em
melodia fina,
dessas que povoam manhãs de sol,
preferem o desespero urgente
de quem não tem ponto
às vezes nem espaço
- como o que não existiu entre as gentes
enquanto foi-se formando entre os corpos.

As letras se somam e se separam
na mesma vontade
que é só um jeito de preencher
a desvontade de sempre.

Era para encher o mundo ao redor
Mas não se colore na primeira pessoa,
aprendi recentemente.

Resta preencher com timbres doces
e co-lo-ri-dos
as tais manhãs e tardes adjetiváveis
com o pincel na mão,
potes vazios
pros quais mal se olha

e a cara cheia
de quem sabe que a tela é espelho.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Enrubrescendo

Qualquer coisa que povoe e sinta. Que possa colorir lábios, faces, cotidianos. Que faça sentir, mesmo que não seja real. Aliás, sempre melhor que não seja. A verdade é que "num deserto de almas, uma alma especial reconhece de imediato a outra". Ou não reconhece. Ou não é alma se não tem corpo. Tem aquele problema de entendimento, lembra? Não tem importância... É só uma história que não se escreve mas que fica povoando a mente, desviando daquilo que é importante, colocando a poesia no caminho. Às vezes é preciso um pouco menos de poesia pra conseguir viver, disseram. Não sei se deu pra reparar minha cara estarrecida.

Overdose de versos de um filme que eu já vi. Já sei como acaba. Já sei que depois não tem graça e sei também que eu estou sempre me expondo e que esse também é um jeito de preservar, como tudo agora é. Os dias são somatórios de engolir tudo e depois cuspir. Na cara se for possível. Escrever versos que depois rasgo, como na música. É preciso ter um a-partir-do-quê para construir. Espalho-me em versos ao redor e presto toda atenção no que eles me dizem para mergulhar nesses misticismos bobos, nessa ilusão falha de quem sabe que no fim das contas não adianta. São outros universos, corpos incompatíveis com esse falso e cliché de entendimento de almas.

Não há entendimento para além do teatro. As cortinas fecham, tornam a abrir e vira sempre o mesmo engodo. A mesma falta de vontade que não se rompe nem parece corruptível pelas minhas falsas promessas. Um dia cumpro e tudo volta a se perder nos eternos ciclos ou cílios.

(Não se destina a nada, mas se eu disser isso eu bem sei o que acontece)