quarta-feira, dezembro 16, 2009

O meu escudo além dos olhos

Enquanto você não chega eu fico aqui inventando coisas que não dão para amassar depois e jogar longe. [Eu dou para amassar depois e me guardo perto, sempre perto]
Enquanto o vento corre seco nas flores da noite lá fora eu fico esperando que você vá, mas vá logo. Pra depois voltar mais logo ainda.
Enquanto essa sede de muito mais coisas do que você envelhece na boca e na pele como a vista que cansa dos mosaicos a cores, eu me coloco nesses mosaicos muitos mais estranhos e finjo que faz sentido apenas esperar de boca vazia e barriga cheia.
Você não veio nem vem e já passaram muitos anos desde o tempo que eu acreditava que a vida tanto fazia pra mim. Pois tanto faz que você não venha, porque eu espero você chegar do mesmo jeito. Tanto faz que você não queira, que eu espero a maré virar, o oceano ir e voltar, porque eu não nasci ontem, eu sei que volta. E seja em caravelas, barcas, balsas, aviões, foguetes ou bolhas de sabão, eu sei que você sempre vai e sempre volta. Como criança que espera a mãe trabalhar. Como os objetos que jogo nas paredes na raiva de ausência e que só voltam despedaçados. Não peço que volte inteira. Aliás, nunca pedi nada mesmo. Só quero o que me seja dado de graça. Você é uma graça! E o mundo uma casa aconchegante. Vence na vida quem diz sim.
Sim aos meus escudos além dos olhos, os meus apuros além dos poros. O meu seguro que já não precisa de prestações e dívidas velhas. Meus olhos sabem que você chega mesmo que não veja, que você deseja - e eu desejo - mesmo que não tenha. Que você receba, mesmo que não venha (mas venha!)...
Eu me desmorono toda, porque já entrei e não é o caso de ter ou não volta.