segunda-feira, dezembro 31, 2012

Parece que o último dia do ano torna obrigatório fazer uma espécie de balanço. Traçar metas, planos. Vestir calcinha, pular onda, fazer pedidos. Assumindo o maior dos clichés, eu quero é agradecer por ter sobrevivido a esse ano que pareceu tão interminável. Ano intenso, necessário, dolorido, vivo. Ano de retomar rédeas, de galopar em alta velocidade e sozinha. Ano de preparar terreno, fazer a casa, lavrar a cara e a alma para a vida. Que venha.

Dois mil e doze já teve tanta reflexão, tanto refazer, tantas metas, projetos, planos que hoje o balanço que eu quero é o de parque infantil, bem alto e bem forte para sentir o vento no rosto.

É isso, que o próximo ciclo traga bons ventos e acima de tudo vontade para viver cada um dos dias do melhor jeito.

O saldo sempre é bom.
a fome.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Pá furada

A poesia grita em duelos nas ruas
povoadas de almas desertas
que se desconhecem
mas já se viram n'outras noites e carnavais

Não sei se tem mais poeta
ou vendedor de amendoim
no pouco espaço entre as mesas e corpos

Não sei se eles têm mais fome
de comida ou de voz
Não sei se eu tenho mais culpa
ou sede

Sei é que um pouco de arte passa
Aos borbotões
nas calçadas sujas de suor e solidão

Não sei se é mais fome ou angústia

Não sei se ele põe mais orégano
ou desenhos de capa
se faz promoção-três-por-cinco
ou declama alto pr'as menininhas
cheias de vontade que alguém lhes diga
qualquer coisa que pareça vida

e eles dizem
mesmo que seja essa vida parca,
esses dias consecutivos,
esses brindes aguados em copos vazios,
esse tesão forjado,
essa teatralidade canastrona,
essa chuva que cai dos olhos
no verso mais cliché
que se diz com lascívia.

com seus livretos curtos
de papel xerocado na gráfica da esquina
- aquela mesma dos balcões antigos -,

com seus cones de papéis coloridos
e higiene duvidosa

eles jogam uma pá de terra
na culpa
e uma pá de letra
na cara dura

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Dez mil destinos

"Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria, pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu"
Escândalo (Caetano Veloso).

Comprei minha virgindade por nove reais e noventa e nove centavos nas Lojas Americanas. Ok, a história não é assim. Comprei a trilha sonora do dia em que perdi a minha virgindade. Não sei se as pessoas têm isso. Parece coisa de gente psicótica lembrar a música que estava tocando quando aquela pelezinha sem importância do seu corpo deixou de existir. Mas o caso não é exatamente esse, não é o pedacinho de pele assim como não é a música que estava tocando no momento exato em que. É do início da minha vida sexual que estou falando - desde então já se vão alguns anos - e de um disco que fez parte desse processo.

Eu ouvia sempre o mesmo disco e transava sempre com a mesma pessoa - coisa que só se faz mesmo quando começa a vida sexual. Tava ali, entre um livro de receitas e um filme da Audrey Hepburn, enquanto eu tentava fugir o mais rápido possível das musiquinhas irritantes de natal: a capinha laranja e preta querendo combinar com esse período - que deve ter uma explicação astrológica - de reconciliação com todos os passados possíveis.

Esse momento de andar na rua achando que posso tropeçar numa lembrança em qualquer esquina que vem acompanhado dessa certeza serena de que, em caso de tropeço, vou pegar nas mãos a lembrança, tirar o pó e colocar em alguma prateleira da memória. Assim arrumadinho, limpinho, como deve ser.

Como se pode imaginar, comprar o disco não é só comprar o disco. É chegar em casa e colocá-lo para tocar num cenário totalmente diferente do que ele conheceu - do que eu conhecia. E parar agora para ouvir tentando lembrar sem conseguir daquela menina que sonhava com novos horizontes e com uma vida sem medidas. Posso não lembrar da menina, mas a sequência das músicas ainda é familiar. Daquele jeito anterior ao modo 'aleatório', sabe? Quando as notas finais de uma música parecem pedir e anunciar a seguinte. É assim.

Nem tão longe que eu não possa ver, nem tão perto que eu possa tocar, depois de uma vida mais confusa do que a América Central, depois da pressa que liberta e leva a outras tantas direções, depois de saber que ninguém é igual a ninguém e de ficar parada olhando-me para nada e nunca ter ido ao Paraná, depois de saber que tudo passa e as pessoas realmente acabam passando por aqui, depois de saber que o dia desses dos encontros casuais sempre chega; de acordar cedo e tarde, de aquecer a água sem querer que ela ferva; de comprar e entulhar instrumentos que poderiam ter sido uma guitarra elétrica; depois de saber que sempre há novos horizontes e que o carnaval, afinal sempre chega. E saber que mesmo que eu seja uma pessoa completamente diferente agora, o disco ainda é o mesmo, com suas letras rasas, óbvias e som sujo.

Os anos passaram e os sonhos também. As trilhas sonoras foram outras tantas (e as mesmas músicas já embalaram outros amores também), as melodias, harmonias e letras mais doces, a vida tão mais real e saborosa, mas fica ali na memória, uma memória barata, mas que não se encontra todo dia. E deixa transparecer essas metáforas envelhecidas e graves. Minha pele teve tantos outros pedaços em que se descobriu ao longo do tempo...

terça-feira, dezembro 04, 2012

Sem Ana, blues

Sabia que um dia chegaria a hora de postar esse conto.

Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma correspondência, a vizinha de cima à procura da gata persa que costumava fugir pela escada, ou mesmo alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava pedir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar - então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés - ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarujá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, tão disponível & natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, irrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.

(em Os dragões não conhecem o paraíso de Caio Fernando Abreu).

Cores



Há tanto tempo que as palavras
Não se sabem quebrar nas linhas.
Mesmo quando se escondem em
melodia fina,
dessas que povoam manhãs de sol,
preferem o desespero urgente
de quem não tem ponto
às vezes nem espaço
- como o que não existiu entre as gentes
enquanto foi-se formando entre os corpos.

As letras se somam e se separam
na mesma vontade
que é só um jeito de preencher
a desvontade de sempre.

Era para encher o mundo ao redor
Mas não se colore na primeira pessoa,
aprendi recentemente.

Resta preencher com timbres doces
e co-lo-ri-dos
as tais manhãs e tardes adjetiváveis
com o pincel na mão,
potes vazios
pros quais mal se olha

e a cara cheia
de quem sabe que a tela é espelho.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Enrubrescendo

Qualquer coisa que povoe e sinta. Que possa colorir lábios, faces, cotidianos. Que faça sentir, mesmo que não seja real. Aliás, sempre melhor que não seja. A verdade é que "num deserto de almas, uma alma especial reconhece de imediato a outra". Ou não reconhece. Ou não é alma se não tem corpo. Tem aquele problema de entendimento, lembra? Não tem importância... É só uma história que não se escreve mas que fica povoando a mente, desviando daquilo que é importante, colocando a poesia no caminho. Às vezes é preciso um pouco menos de poesia pra conseguir viver, disseram. Não sei se deu pra reparar minha cara estarrecida.

Overdose de versos de um filme que eu já vi. Já sei como acaba. Já sei que depois não tem graça e sei também que eu estou sempre me expondo e que esse também é um jeito de preservar, como tudo agora é. Os dias são somatórios de engolir tudo e depois cuspir. Na cara se for possível. Escrever versos que depois rasgo, como na música. É preciso ter um a-partir-do-quê para construir. Espalho-me em versos ao redor e presto toda atenção no que eles me dizem para mergulhar nesses misticismos bobos, nessa ilusão falha de quem sabe que no fim das contas não adianta. São outros universos, corpos incompatíveis com esse falso e cliché de entendimento de almas.

Não há entendimento para além do teatro. As cortinas fecham, tornam a abrir e vira sempre o mesmo engodo. A mesma falta de vontade que não se rompe nem parece corruptível pelas minhas falsas promessas. Um dia cumpro e tudo volta a se perder nos eternos ciclos ou cílios.

(Não se destina a nada, mas se eu disser isso eu bem sei o que acontece)

sexta-feira, novembro 30, 2012

Quem se importa se ela não é polonesa?

Para Natassja.

Ao som de Sentimental (Chico Buarque).

Caiu a ficha da saudade. Sabe quando é isso? Sabe quando você simplesmente percebe que, daqui a muito pouco tempo, não vai poder fazer o que está fazendo exatamente agora? Esse brinde essa cerveja, esse telefonema de desespero inventado no meio do engarrafamento, essa visita inesperada no meio da manhã, esse encontro que pode ser apenas uma atualização de novidades, mas também pode ser uma abertura funda nisso que nos acostumamos a chamar de vida ou alma ou deus, enfim, acho que ainda não nos acostumamos a chamar por nenhum nome específico.

Mentira, porque eu já sei há muito colocar no lugar certo esse j que ninguém fala, que minha mãe nunca aprendeu. Eu sei o quanto muda a vida também. Eu sei que você já foi, já voltou, que eu também já fui, mesmo estando perto e que também voltei. Sei, acima de tudo, que de um jeito ou de outro, a gente sempre esteve aqui. Mas saber às vezes não adianta de nada. O conhecimento pode ser inútil, pode ser arrogância, estratégia de sedução, trivialidade ou uma vontade estranha de entender o mundo, de se sentir em casa nele, de transformá-lo em um lugar mais confortável. Mas tudo isso não muda o fato de que, mesmo sabendo que você volta, que o tempo é curto perto desses quase treze anos, mesmo com certezas grandes e pequenas na vida, fato é que eu vou sentir saudades.

Ou melhor, eu comecei a senti-la hoje quando de repente me lembrei como era ruim quando você não estava ao alcance de um telefonema, quando não tinha esse abraço compreensivo de quem discorda de absolutamente tudo o que eu estou dizendo, mas que me diz com os olhos que isso não tem a menor importância. Assim como não tem importância o fato de que já perdi o fio das frases, o sentido das coisas e tudo bem, porque esse texto vai ficar chato e você não vai querer ler.

Mas caso você mude de ideia e resolva passar por aqui, saiba que uma das coisas melhores da vida é ver o sorriso de felicidade nos olhos de quem a gente quer ver feliz. E mesmo que eu só vá vê-los virtualmente durante algum tempo, a certeza de que eles sorriem me faz feliz também.

E a saudade a gente transforma em copos que esperarão para ser novamente enchidos, de água, guaraná, cerveja, vinho, mate - enchidos de histórias e palavras, enchidos de troca. Essa troca que percorre os anos, os continentes e que mantém o mesmo imediatismo, o mesmo conforto, a mesma sensação gostosa de poder percorrer na mesma frase o leite ninho e sociologia musical.

terça-feira, novembro 27, 2012

Trecho da novela "Pela noite"

"Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido".

(em Triângulo das águas, Caio Fernando Abreu)

"A única coisa que posso fazer é escrever"

Um livro não lido do Sartre nas mãos, trilhas e mais trilhas de passado decorando muros que dividem e separam. Não sei como digere, não sei como tirar essa antiga vontade de vomitar que se prende em algum momento do peito. Acho que no passado eu confundia com borboletas, mas não é possível pensar que foi possível tanta idiotice. Eu lembro que havia e aí de-uma-hora-pra-outra-quatro-anos-depois. Se for pra fazer a conta certa.

Não foi ontem, eu sei que não foi ontem.

Não havia verdade a dizer. As verdades mudam, são demasiado pessoais. As verdades crescem, se alastram por jardins escuros, misturam-se a outras coisas tantas e deixam de valer a pena, o teclado, o esforço. Não dá mesmo para depositar em ninguém tanta responsabilidade só porque a gente não quer, porque é grande, porque é insuportável e vem com a certeza do impossível. O que resta é essa obrigação de seguir em frente, seja lá qual direção.

A gente mexe, abre os poros pra localizar a cicatriz. Você pode rasgar a pele que ela continua ali, não é fazendo um novo ferimento que. Vou me fazendo desse acúmulo de passados que sei que são meus mesmo que não sejam exatamente memórias - que deixam confundido, ah, deixa pra lá...

Mas acaba sendo boa a sensação de reconciliar com o passado. Admitir que ele existiu, por mais que a gente recalque as memórias, traumatize as lembranças. Fica um amontoado de sangue, de carne viva que apodreceu e não adianta insistir, não cabe.

No fim, tudo se divide e todos se separam, como células em processos biológicos misteriosos. Mas é bom saber que o dia desses chegou, passou e não, nunca haverá explicação. Houve passado apenas. Houve o que dava para fazer e agora eu rodo nos dedos as chaves que domino - por mais que nunca saiba a partir de que lado da porta.

Alguma coisa fica. Amor nunca deixa mesmo de existir, vira essas mil outras coisas, sentimentos, sensações, que a gente molda nas mãos e nos abraços de quem tem os corações abertos.

quarta-feira, novembro 21, 2012

"Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor"

Para ler ao som de Flor da Idade (Chico Buarque)

Uma gaveta antiga, um baú antigo, uma casa antiga em que a gente achou que nunca mais pisaria, mas aí tem uma coisa de que se precisa e as teias de aranha, o amarelado do tempo e as traças se tornam o caminho necessário para encontrar.

Procurar as funduras, as nesgas, os rasgos, os envelhecimentos das bordas dos papéis que, com o tempo, deixaram essa imagem bonita. A gente nunca coloca luvas porque nunca sabe quão fundo terá que mergulhar, quantas gavetas é preciso abrir para vasculhar minuciosamente à procura. E a certeza de que não está lá.

A tentação de desistir ao primeiro espirro é grande. Algo diz que a tal paz interior nem é assim tão bonita. Que eu não me torno um ser humano melhor - o diabinho do ombro fica repetindo incansavelmente que eu nem quero isso, que melhor nem existe, mas eu sigo.

Como quem se jogou no mar aberto não faz muito e agora se aventura em remadas largas, agora abro gavetas e me arrisco com insetos, poeira e traças. Me arrisco com o tempo e todo o pó que se acumulou todos esses anos sobre as emoções.

Podia ser um risco num papel, obra de arte ou sinalização de feito numa lista de tarefas, mas no fundo não seria mais do que uma rima óbvia - e o caminho é sempre escolher o óbvio por medo de encarar o difícil, colocar as mãos na terra, sentir a carne entrando por debaixo das unhas. Descosturar a ferida que acabou cicatrizando mesmo sem curativo. Tá lá a cicatriz bonita e eu resolvo que vale a pena abrir e tentar recosturar direito - pro diabinho relembrar as posições esquerdistas da vida com sua melhor expressão de incompreensão.

Medo de mexer nas funduras, reabrir feridas. Apatia e preguiça convivem com o esforço de reconciliar passado, arrumar a vida junto com as coisas. Limpar a consciência junto com o chão. Quase obrigação de ofício, não adianta apagar o passado e fingir que não existiu. Se a gente sabe que não tem mesmo jeito de 'aprender com os erros', resta aceitar, aprender a conviver com ele, tentar entendê-lo.

Vivendo com a tal danação de tentar compreender a compreensão. E a sensação de orgulho interior por estar fazendo, por estar tentando os gerúndios que são mesmo a ação em movimento, ainda que o barco pareça parado, ainda que tenha que remar com toda força pr'ele se locomover e às vezes pareça que a força se perdeu em metáforas bobas com cara de texto de auto-ajuda. Uma vez aprendi que se deve viver apesar de.

E a gente vive.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Memória


Amar o perdido
Deixa confundido
este coração

Nada pode o olvido
Contra o sem sentido
Apelo do não

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
Muito mais que lindas
Essas ficarão

(C.D.A.)

quarta-feira, novembro 14, 2012

Direito de corpo




"Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?"
(Amor, pois que é palavra essencial, Carlos Drummond de Andrade)





Quando você fala em conquista, eu penso em desbravadores espanhóis do século XVI: armados até os dentes com seus estandartes reais e sua generosa civilização a postos. Prontos a impor línguas, estuprar jovens nativas, escravizar povos, ensacar culturas. Eu penso em posseiros, em acampamentos do MST; fazendas pecuaristas improdutivas; grandes plantações de soja; agronegócio. Eu poderia até pensar em agricultura familiar, pequena propriedade, mas eu penso em latifúndio, eu penso nas contradições do capitalismo, nas contradições do termo pro-pri-e-da-de e me agarro a minha mais fajuta filosofia budista: não há posse, não há conquistas, não há direitos.

Você poderia argumentar que há quem faça uso da terra estando ciente de tudo isso. Há quem aproveite o que a terra oferece, sabendo que ela dá generosa, que não pede nada em troca e que, por isso, não cabe exigir nenhuma segurança. Quando a gente menos espera, estão aí os furacões, terremotos e outras combinações várias disso que convencionamos chamar natureza só pra dizer que não é nosso. Com a casa nos ares, as plantações alagadas e o trabalho destruído, nós fingimos não escutar.

Pois eu te digo que não é seu. Que meu corpo não é território a conquistar – e mesmo se. Que você não chega e coloca uma bandeira num pedaço e isso te dá direitos adquiridos, que você vai e volta, sei lá quanto tempo depois, e a bandeira está ali, exibindo o seu brasão. Também não é questão de tempo ou distância, posto que o mesmo vale para quem fica, coabita, compartilha pão, espaços e sonhos. Tenho pra mim que estes poucos chegaram a estudar a fundo a teoria, mas na prática ficou faltando quebrar as cercas.

Antes que soe grosseiro, acusação que já estou acostumada a receber, me defendo: meu corpo também não é meu. O rompimento dessa falsa relação de posse é tão difícil que na hora de colocar em palavras vem o pronome pos-ses-si-vo a tiracolo. É costume o pronome, mas nem por isso. Esse pedaço de pele, carne e sangue com o qual convivo tem suas próprias vontades e desvontades. Chora sem pedir licença, dorme ou mergulha em longas insônias. Come muito mais do que eu gostaria, tanto quanto descome. Igualmente bebe e desbebe. Sente calor e frio, tem sinapses angustiantes, arrepios fora de hora, focaliza no estômago as dores mais fundas que tampouco lhe pertencem. 

Isso que nem é uma coisa à parte, não depende de mim, não está sob meu domínio e a muito custo, nesses vinte e três anos de convivência, venho tentando aprender a lidar. Não digo que seja fácil nem que eu tenha sucesso constante na empreitada, mas se eu já aceitei que mesmo com a convivência íntima e cotidiana não posso falar em posse, não venha você.

Não desperdice suas técnicas de guerra aprendidas, pois não há louros no final. Não há espólios, nem haverá muralhas. Conquista é aquilo que se faz com uso de força militar para dominar algo que não nos pertence, a gente tenta exercer poder, mas a capilaridade felizmente nunca é tão ampla. Portanto, não transfira para mim sua ilusão.

Não existe nem existiriam contratos estabelecendo direitos de uso. Não houve mesmo para quem firmou acordo em praça pública, digo, praia pública, com testemunhas e tudo o mais que se tem direito. Não há direito que não seja o de viver. Todos vivem. E os corpos convivem – e se entendem melhor do que as almas, sempre sabemos.

sábado, novembro 03, 2012

O dia que não existe

Ao som de Ponto Cego (Cícero).

Na falta de decorar uma única palavra, achei que equivalia substituir por versos e mais versos, contos inteiros que a gente lê para qualquer um antes e depois de uma transa. Sempre o mesmo conto, sempre a mesma angústia na esperança de que alguém a entenda, pegue nas mãos ou simplesmente diga "eu também sinto".

Como isso não acontece, sobra sempre uma repetição a mais para o dia seguinte e a forma de a cada dia, a cada transa, a cada corpo, decorar um verso a mais desse pedaço que desbota os dias, acumula sobre as emoções fortes, oscilantes, bipolares, temerosas de que cheguem afinal a tão já próxima idade da esquizofrenia.

Enquanto fica só nessa ameaça, vou botando versos imperceptíveis, naco pouco de poesia rala misturada entre as trepadas. Nem sempre os elementos se combinam, n'algumas fica parecendo agressão à homogeneidade, quando o gosto nítido de cada elemento se interpõe e impede que saboreie nos cantos da boca o gosto.

Como se eu tivesse desaprendido a linguagem dos outros, a linguagem que eles usam para se comunicar. E eles não percebem os versos que eu uso à guisa de resposta às perguntas que eu não entendo e retribuo docemente com as respostas que eles sequer percebem. Nem você. Nem eu. Nem qualquer pessoa que procure ou ache possível encontrar nexo.


segunda-feira, outubro 29, 2012

Tecendo finos fios

Ao som de Assinado eu (Tiê).

Dispensa dedicatórias.

Tava nos fios dos cabelos. Não de um jeito bíblico, aquela baboseira de Sansão e Dalila, com vinganças e dramas - não que não tenham havido vinganças e dramas. Ambos abundaram, se é que pode-se dizer assim. Com profundidade, força e todo o sofrimento que se tem direito. Uma questão de proporção que talvez muitos não entendam, mas a dor precisava ser de uma forma equiparável à toda felicidade que foi. Foi. A distância precisava ser equiparável à toda proximidade que foi. Foi. - o tempo verbal fica só como mais uma ironia.

Era preciso percorrer no sentido inverso todo um caminho para construir outros tantos, remar com força contra a corrente, remar sozinha. Sentir a dureza do mar em cada braçada, o frescor das ondas em cada mergulho, o gosto salgado inundando a alma, a força das ondas batendo no corpo sem derrubar - e mostrando que do outro lado também havia uma espécie de força inimaginável, quem suporia? 

Do mesmo jeito que foi necessário e inevitável todo o antes. Mas agora, de um jeito imperceptível e improvável como sempre é, o presente virou passado, o passado virou passado mesmo e é até possível construir um presente - diante dos quais é sempre preciso fazer alguma coisa.

A gente faz, a gente vai minando aos poucos a defesa e a distância construídas com toda força e todo esforço possível. Era a única forma de ter alguma preservação, a única forma de construir algo com os cacos que ficaram - há quem diga que já é possível vislumbrar um vitral bonito.

Contudo e apesar de, os mais atentos observarão que nunca mais seria possível para uma cortar e para a outra lavar os cabelos.

sexta-feira, outubro 26, 2012

Deve ser bom

Pensou ter sentido alguém tocar seu ombro e se virou brusca, como quem desacostuma ao toque, desde a definição até a comprovação empírica. Do teclado, do telefone, da pele - da pele em outra pele. O falso palíndromo soava distante como um sussurro, um arrepio ou um vento que passa e dá aquela sensação de que alguém tocou-nos o ombro. Mesmo desconhecido o verbo se conjuga, como só as abstrações fazem, como quem resolve uma questão matemática sem que para isso precise macular seu pleno desconhecimento de tudo.

O mundo é um eterno desconhecido. Uma caixa pequena cujas paredes a gente não rompe, às vezes pinta um desenho bobo, abre um buraco e coloca uma pessoa dentro.

As pessoas saem e as madrugadas insones continuam sem sentido.

O insuportável é que nada é insuportável. A gente sempre vai se acostumar e os dias continuarão a nascer um após o outro.

sexta-feira, outubro 19, 2012

No tempo das cartas



Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2012.

Moças,
 
Ontem de madrugada eu fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas e na nostalgia-cliché e sem fundamento que eu sempre tive dele. Imagino que eu pertença à primeira geração que não escreveu cartas, por isso fica essa vontadezinha. Talvez nem seja a primeira, mas deixe-me construir artificialmente a minha importância no mundo. Nessa atitude cotidiana que é a construção da memória, tenho a sensação de que eu passei a infância inteira esperando a minha hora de fazer aquela coisa-de-gente-grande e aí, quando chegaria a minha vez, alguém danou de popularizar o computador e acabou com a minha festa. Quase como quando eu era mais nova, via as minhas irmãs vivenciando coisas e esperava ansiosa a minha vez para dar de cara no conhecido muro da frustração - como quando eu esperei que chegasse a minha vez de encenar Calabar na escola e aí veio a Gota d'água* no lugar...

Voltando às cartas, eu até tentei. Algumas pessoas tentaram comigo, fizemos projetos, planos, escrevemos algumas bem artificiais. Teve até o tempo de tentar adaptar essa vontade louca e anacrônica aos novos tempos, mas não adianta, emails são frios. E ontem à noite, quando fiquei pensando no tempo em que se escrevia cartas, teci algumas considerações definitivas sobre isso - dessas que a gente tem pouco antes de pegar no sono e que na hora dão uma certeza categórica de que está naquilo a solução para todos os problemas da humanidade.

Na hora, eu pensei que se fosse o tempo das cartas, eu levantaria e batucaria tudo isso na máquina de escrever. Serviu como desculpa para a minha preguiça, mas as constatações sobreviveram à luz da manhã. Fiquei pensando que o legal das cartas é você dizer uma coisa influenciado por uma determinada atmosfera de emoções e ter a certeza de que quando o destinatário ler, já se estará sentindo coisas completamente outras. E aí a pessoa responde de um jeito, porque aquela atmosfera a toca de um jeito e quando a resposta chega você pensa "caramba, eu tava assim tão mal nesse dia para o fulano ficar tão preocupado?", mas você não sabe, porque aquilo que você escreveu não está na sua pasta de enviados. Só a memória mesmo... essa memória que apaga as coisas difíceis de lidar e substitui por outras, coloca infinitas repetições que nos desviam daquilo que é realmente importante. E aí a gente responde que 'tá tudo bem, que não é o caso para tanta preocupação.

Ontem eu tinha destinatários, eu tinha coisas grandes e graves para dizer. Tinha também coisas bobas, comentários vagos e ingênuos sobre filmes e livros, conselhos categóricos sobre a vida, agradecimentos grandes para coisas miúdas e doces. Eu não levantei para escrever, mas eu confiei que um abraço e um beijo transmitido à distância pudesse dizer o valor que tem um pequeno gesto, uma pequena presença que nem é tanta quanto poderia, deveria, quanto a vontade quer. Eu escreveria a vocês que sinto muita falta de ter vocês mais perto, de conversar mais. Isso. Que eu gosto muito de conversar com vocês. Antes de qualquer coisa (não que o afeto seja uma coisa pequena), mas que a amizade pode ser inspirada por muitas coisas diferentes, nesse caso é muito pelas coisas que é possível dizer a vocês e as outras que eu ouço de volta. A escolha do verbo ouvir é pra dizer que se eu tivesse escrito uma carta ontem, ela diria que a sua voz fez falta, ainda mais quando eu soube que sua garganta não ia bem. Cartas têm isso, não é? Preocupações cotidianas, votos de boa saúde, porque a gente nunca sabe como a pessoa vai estar quando receber. Por isso - e por muito mais coisas - deixo os mais profundos desejos de todas as coisas boas.

Quando eu acordei, entendi que toda essa calma, toda essa gratidão e, principalmente, toda essa ludicez vinham da rara sensação de conforto que vocês deixaram ao sair [mesmo que não tenham vindo todos, vocês de alguma forma vieram todos]. Entendi que às vezes, tudo o que eu preciso é de uma boa refeição e um banho quente pra recomeçar a vida.

Obrigada por continuarem no recomeço.







* Calabar e Gota d'água são peças de teatro escritas por Chico Buarque, a primeira em parceria com Ruy Guerra e a segunda com Paulo Pontes.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Machismo nosso de cada dia

É sempre adequado reagir diante de uma situação de machismo? Talvez o meu questionamento pareça covarde, mas foi isso o que fiquei pensando hoje enquanto voltava para casa bastante chateada com o tal do 'machismo-nosso-de-cada-dia'. No de hoje eu calei. Em parte porque na situação não cabia, em parte porque ouvi de uma amiga um dia desses que eu devia parar de ser chata, pois ela gostava/gosta de ouvir cantadas na rua.

Hoje, quando engoli minha pílula diária de misoginia, de alguma forma ficou claro para mim que a vítima da situação (sim, para mim há vítima e agressor, porque sim, há um tipo de violência) se sentiu lisonjeada com o ocorrido - e imagino que essa reação, somada à minha não-reação, foram os responsáveis por esse nó na garganta que me acompanhou até em casa e que continua aqui até agora.

Sei que contar publicamente o caso pode ser uma forma de colocar a cara à tapa e receber muitas críticas ao meu feminismo da-boca-pra-fora, pouco combativo ou o que quer que seja. Bem, sem intenção de defesa prévia, digo que eu já me fiz todas essas mesmas críticas enquanto voltava para casa e, sem solução ou rótulo, escrevo sempre como uma forma de expurgar, tentar inteligir com palavras.

Explico:
Estava na aula de uma das disciplinas do mestrado. Uma das cinco alunas que compõem a turma apresentava os textos escolhidos pela professora para o tema a ser discutido. Vale observar que a turma é composta por cinco alunas e um aluno, bem como que quem leciona é uma professora. Ao final da apresentação, todxs fizeram suas observações, perguntas, comentários etc., como é de praxe. Foi em algum ponto desse momento da aula que o aluno fazia as suas considerações e alegou sentir falta de um determinado aspecto na fala encerrada. Rapidamente, a professora informou que o tópico havia sido abordado pela aluna e que, possivelmente, ele não tinha prestado atenção à hora.

A frase que veio em resposta pareceu incomodar apenas a mim naquela sala. Foi algo como: "Acho que eu me desconcentrei com a beleza da apresentadora". Nesse momento, eu acho importante esclarecer que a doutoranda em questão é uma mulher jovem, alta, loira e de olhos claros, ou seja, enquadra-se no padrão de beleza vigente em nossa sociedade. Qual a parte que não encaixa? O fato de uma mulher considerada bonita ocupar um papel ou estar numa posição que representa poder e inteligência.

Me vieram à mente as alegações usadas à época das lutas pela inserção das mulheres nas universidades, no mercado de trabalho, enfim, no espaço público: dizia-se que a beleza da mulher, ou melhor, a sua natural sedução, distrairiam os homens da racionalidade, das tarefas comumente desempenhadas com eficácia pelo lado racional da humanidade. Dizer que a beleza distraiu quer dizer que a presença feminina sugere obrigatoriamente beleza, sedução ou que só se deve permitir que pensem as mulheres que estejam fora dos tais padrões de beleza, ou que o papel da mulher é apenas enfeitar o universo masculino. Pode parecer que estou exagerando, mas se fosse eu que estivesse apresentando, que tivesse me esforçado para fazer uma pesquisa profunda sobre um tema, trazido questões, exposto e debatido ideias por mais de meia hora, ficaria muito indignada e ofendida de ouvir que todo o meu trabalho fica apagado por um caráter estético.

Pode ter passado despercebido, pode ter soado como um elogio, mas eu enxergo nesse comentário a demonstração do quanto o machismo está longe de ser extinto do nosso cotidiano. O quanto o ambiente acadêmico das ciências humanas está longe de ser um espaço de reais questionamentos, debates, transformações sociais - ou que pelo menos essas mudanças ocorrem com muito vagar. Que a presença feminina, ainda que majoritária em algumas situações, como foi o caso citado, não necessariamente significa que a lógica machista da sociedade está sendo de fato modificada.

E eu fiquei pensando se não falar nada não foi uma forma de legitimar, sei lá, perpetuar esse tipo de atitude. Fiquei pensando, mas ainda assim não disse nada. Vim embora pensando nisso, apenas... e talvez continue a pensar até que aconteça o próximo episódio que, infelizmente, não duvido que tarde. Espero então ter mais profícuas reações.

terça-feira, outubro 16, 2012

Automodelação

Ao som de Girasole (Giorgia).

Na literatura é abolir o eu, na vida real é a medição. As datas nunca estão certas, mas desde que há essa vontade de poesia já se vão sete anos. Dizem que esse é o tempo necessário para que todas as células invisíveis do corpo já sejam outras (as visíveis também). Já são outros os cenários. É outra a pele que já escolheu outras datas para ser trocada; a voz, os cabelos e os amores já foram tantos nesse meio tempo. Acabou o colégio no meio desses versos desabafados e afobados. Foi uma faculdade inteira e agora um mestrado de palavras que fogem de outros papéis e de outras histórias para transbordar aqui no eterno refúgio das horas loucas. Não teria como percorrer hoje o percurso redundante de cada uma das células invisíveis, dá pra percorrer palavras - e mesmo os silêncios.

Alguns eternos retornos pegam assim pelo pé e me fazem ver que de repente alguma coisa transcende as tais células que se foram pelo ralo do banho ou na lâmina da faca. Há muitas promessas e muita vontade de vida que a gente vê em tantos textos mal feitos, tantos versos mal rimados e tantas palavras escolhidas na pressa. A boneca já mudou muito de corpo, cor e roupa. O nome já deixou e recobrou os sentidos algumas vezes.

Há fontes falidas de inspiração que se espalham por essas páginas. Alguns versos escritos pra um ou uma que foram depois canalhamente usados para outros e outras. Tem um monte de gente e um monte de personagens que eu invento pra me acompanhar. Vou enchendo a casa pra ver se me sinto. Mas como gente é essa coisa inventada e sem autorização que se transforma em comentários anônimos, em elogios abertos, em leitores atentos e naqueles que sempre querem se reconhecer de alguma maneira - o que fica são os fantasmas. Vão grudando no meu espelho e satisfazendo duplamente os egos, duplos cegos que desconhecem igualmente meus testes e minha cegueira. Vão povoando as horas, preenchendo as noites e, principalmente, as linhas. Desenham círculos frágeis no vento que a gente desmancha com os dedos e mostra no arco dos cílios que está com os olhos abertos para o que vier. 

São personagens de mim mesma que eu invento. Talho em madeira fina as máscaras que bem caberiam no meu próprio rosto. Coloco-lhes à força e depois não só não querem tirar, como também querem que as minhas mãos permaneçam ali coladas à madeira fria e fina, através da qual é possível sentir o calor da minha pele - e também da sua. No fim das contas, sendo boa ou ruim, o que eu quero é poesia.

As damas da noite recolhem o seu perfume com a luz do dia



"Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada".
(Trecho do conto Dama da noite, de Caio Fernando Abreu).



Podia ter acabado num convite para uma dança do qual ninguém lembraria já que a dança sequer aconteceu. Quer dizer, aconteceu. Aconteceram várias enquanto você observava de longe o movimento que faziam os cachos dos meus cabelos. Não, não era isso. Você observava os movimentos só, sem nem saber ou se importar com quem eu era. A pista rodando e eu rodando junto com uma depois outra e outras tantas de quem também não é possível lembrar. As moças e as músicas.

Você olhava de fora, à margem, a cara cheia de quem diz, "Olha, eu não sei" e oferece um sorriso perambulando entre a doçura e a educação. A vida segue e a roda continua rodando e toda a gente junto, dentro.

Quem olhasse sua cara de fora - digo assim 'quem olhasse', porque eu mesmo não olhei, eu estava dentro, como todo mundo - diria que a sua vontade era rodar junto também, mas as pessoas nunca sabem.


É que ninguém sabe - ou todos sabem e nunca é importante saber - que a vida é a polpa de onde se tira com custo, sangue, suor e pequenos gritos o substrato para a literatura. Essa coisa inútil, impalpável, essa coisa de quem não tem nada de concreto. Eu nunca disse que tinha. E também quem sou eu para me achar li-te-rá-ria? 

A pergunta não era para ser realmente respondida. A vida não era pra ser real. Não era pra ser, entende? Chega um dia em que a gente vira personagem da própria história e aí... e aí não tem jeito que dê jeito. Não tem vida que dê fim.

Quando eu fui atrás de você, no entanto, não era no intuito de encontrar uma brechinha e aprender a tal palavrinha secreta. O que eu queria era te tirar dessa roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar. Queria só quebrar, como se diz?, o pro-to-co-lo.

Eu disse que não sabia rodar misturando feito cachaça e cerveja essas minhas referências que no fim das contas ninguém entende. Enchi o copo e te disse que viver é melhor do que entender, que criticar pode ser melhor do que propor - ou alguma coisa parecida com ou completamente diferente disso. Dissemos coisas porque era preciso dizer, era preciso quebrar o silêncio que se formava com o recolher da música e com o fim dos pretextos e com o vazio que fica na mente quando o que se quer é só apresar as coisas. E falamos essas coisas vagas, vazias, essas frases que a gente encontra para preencher o tempo entre o primeiro copo e a primeira transa. Dissemos, andamos, fomos.

Eu acordei sem saber a que horas você teria saído. Poderia até pensar que foi tudo sonho, mas isso não chegaria a ser um pensamento e sim uma lembrança. Alguns vestígios pelo chão e alguns cheiros ainda presos ao lençol que você mal desforrou me diziam que não.

E não adiantava tudo o que me diziam, não adiantava a cena, não adiantava a música, as coisas no lugar e as tais coisas todas que você disse, que a gente disse. Eram só essas frases que a gente usa para preencher os tempos e espaços que separam a cama do primeiro copo. O meu primeiro havia sido cerveja e o último cachaça. Você parecia ter bebido outras coisas e vindo de outros mundos. Mundos que deixam as portas abertas quando saem e sabem que isso não é um aviso de volta.

Esse nunca mais ficou rodando na cabeça só o tempo que durou a ressaca, como uma melodia fina que se desmancha no ar durante a manhã de segunda-feira.

quinta-feira, outubro 11, 2012

"Por favor, me reconheça"

Ao som de Amor, meu grande amor (Frejat).

Às almas incomunicáveis.


Eu achei que se eu ficasse olhando para a porta você viria. Eu já não sabia dizer há quanto tempo esperava. Não saberia precisar coisas imprecisas como a cor do céu, talvez a tarde já tivesse caído, o sol tivesse baixado. Devia ter uma claridade bonita lá fora, a luz poderia bater como um tapa no meu rosto e desfazer essa expressão desesperada de olhos vidrados na porta.

Já fazia muito tempo que eu estava ali e eu sabia que você não vinha. Talvez tivesse ficado preso no trânsito, quem sabe um acidente ou apenas um desses imprevistos inescapáveis. O celular mudo em minhas mãos sugeria algo mais grave e impeditivo. Se não viesse, eu tinha alguma certeza rasa de que você ligaria, pensei abusando de minha própria credulidade.

Há imprevistos, obstáculos e outras coisas absolutamente contornáveis.

Eu pensava - digo isto por pura força de expressão, posto que não havia uma ponta sequer de racionalidade ali. Se houvesse, eu piscaria lentamente as pálpebras cansadas e me libertaria da tarefa inútil. Repito que não havia nenhum tipo de racionalidade - que talvez você tivesse dificuldade de me ver quando entrasse por aquela mesma porta. Eu poderia parecer imperceptível em meio a tantas pessoas e mesas, por isso me posicionei estrategicamente próximo à porta, meio de frente, meio de lado, pronta para abrir um sorriso quando você chegasse e me visse. Eu queria que você chegasse e me visse. Queria que você visse que eu estava ali esperando durante todo esse tempo com a minha melhor cara de desespero.

Eu tinha um milhão de coisas para dizer e as coisas pareciam querer ser ditas a qualquer preço, mesmo sem você aqui. À essa altura, nem faz sentido dizer que você não apareceu, tamanha a obviedade disso.

Eu olhava aflita a calma das pessoas em volta, engolia em seco puxando de volta ao estômago as frases todas, imaginando se eles percebiam, se eles sentiam no ar ou se era possível ver nos meus olhos. Eu sequer sabia dizer quem eram os tais eles, mas tinha a sensação de que sim, todos viam, percebiam, sentiam no ar o cheiro. Recebia de volta algumas expressões de incompreensão, desprezo, perplexidade, medo. Expressões que não se convertiam em ações mais concretas do que aquele afastamento sutil do corpo ao passar perto da mesa.

Eu amaldiçoava os tempos pós-modernos, os cerceamentos e as repressões nossas de cada dia enquanto alternava o olhar entre a porta e o aviso de proibido fumar. Frases de bonitas paredes francesas percorriam minha mente numa velocidade que eu chamaria de superior à velocidade de luz por pura provocação no vazio. Fato é que eu não tinha meios de mensurá-la, a velocidade da luz.

A vertigem do pecado me percorria os poros e transformava a ansiedade desesperada em ódio. Levantei e saí com a mesma irracionalidade de antes. Cruzei rapidamente a portas dos fundos tentando passar despercebida enquanto você adentrava esbaforido o salão principal, os olhos também desesperados percorrendo as mesas à minha procura.

Na rua, o vento bagunçou meus cabelos, mas não me impediu de acender um cigarro.

ARTE DE AMAR


Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

segunda-feira, outubro 08, 2012

Página 249

"Olha, estou escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende?".

sábado, outubro 06, 2012

Instantâneo

Então nem toda poesia é palavra. Nem todo prazer é instantâneo. Nem tudo é hoje e agora. Não se afobe não, que nada é pra já. O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio. Mas quando a gente tem a certeza bruta de que não é amor, espera pra quê? Quando a gente se vê fazendo e se vê não fazendo o que já foi tão simples...

A gente se monta em imagens que só virão depois. Desenha cenas e se confunde na brincadeira do querer não querer. É que tem tanta coisa envolvida, tem tanto sangue escondido nas entregas mais pequenininhas que tirar o olhar de diante do espelho já parece algo impossível.

Eu poderia te dizer se valesse a pena, mas não vale. Você não quer ouvir e também não tem nada com isso. E eu também não quero dizer. E esse não querer é que se desdobra nesse marasmo que não avança espaços, que estanca o gesto ao perceber que, afinal, teu cheiro é conhecido.

Acontece que não dá para dizer assim fácil que não vai haver ninguém para me machucar se for necessário me tirar uma grande dor. Ninguém parece disposto e a dor tá aqui. A dor é outra. É aquela mesma de antes e é tantas mais que você colocou junto apesar de ter prometido que retiraria a outra. E no fim ficou tudo tão sem sentido quanto as frases mal escritas que me rodeiam, me rondam como feras famintas à espreita.

Não vai aparecer ninguém para me obrigar a tirar as mãos da lama do poço, me obrigar a lavar as mãos e ir jantar antes de pensar em suicídio. Os pensamentos sendo todos falsos, ninguém vai entrar na onda, partilhar o desespero e desfazer as maiores angústias com um único abraço. Não há sequer felinos que distribuam amor e esperem amor de volta. Não há amor. Simplesmente não há amor nenhum, ainda que hajam tantas outras coisas. Há esse oco, essa descrença que povoa os dias.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Não existe verso simples e eficaz.
Não é esse o papel dos versos.

Talvez seja das músicas, elas encorajam, enchem a cena daquela atmosfera de coragem quando a gente acha que já não é mais possível. Uma melodia qualquer perpassa a água do banho, os perfumes da pele e as roupas que a gente veste pensando em despir.

Quando o relógio ameaça dali, não dá para brincar com palavras. Elas carecem de tempo, cuidado, arrumação. Precisam ser colocadas na posição certa, descolocadas, desacertadas. O tempo escasso só permite que se pense em músicas, dessas que já vêm com os sentimentos prontos. Que a gente também veste junto com a roupa que vai despir.

Os refrões podem ter palavras fortes, melodias preenchedoras, notas marcantes como as de um vinho. Podem ser espumosas como cerveja. Podem ter sabor. Aliás, conhecido o cheiro, este qual será? Uma gaveta de cada vez.

"Eu já nem sei se eu tô misturando"



Há cansaço. Há a vida que urge e se acumula em dias, em tarefas, em rotina - essa que chega, sempre chega de uma forma ou de outra para alguém dizer em tom controlador que a gente se acostuma a tudo na vida. A gente não se acostuma, mas a gente vai fazendo a vida que quer dentro do que as possibilidades permitem. Rema contra a corrente quando é preciso e deixa a maré carregar quando o balanço do mar é bom.

Caso é que o sono mesmo que chegue guarda na cabeça a lembrança de ontem que quer dizer que conquista é um processo. Que a gente ganha espaços - ou metafóricos e os territórios do corpo mesmo. Vai avançando aos poucos, alargando as fronteiras da pele e ergue uma bandeira. Pode ser uma bandeirinha pequena, uma bandeirinha do arco-íris, no pescoço. Claro, na-linha-em-que-se-encontram-o-pescoço-e-ombro-,-onde-o-cheiro-de-nenhuma-pessoa-é-igual-ao-de-outra. Isso a gente já sabe.

Sabe também que não é conquista no sentido militar do termo. Que no fim aquela bandeira não fica fincada ali. Que não é de ninguém e que também não é só uma curva de pele. Se fosse, já tinham se ido fronteiras infinitamente mais profundas. Tem gente do outro lado da lente e na metade de cá do espelho. Gente que se faz e que se mostra. Eu assisto. E caminho devagar.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Estátua de gesso

Para ler ao som de Não há cabeça.

"Essa tristeza que o amor me deu
É a coisa mais bonita dentro do meu eu".
(Marina Lima)


Em primeiro lugar, pega-se entre as mãos a massa disforme. Bloco sólido, neutro. Quase sem querer a gente esbarra e vê que é possível tocá-lo. Depois que encosta as pontas dos dedos, vê que sai uma eletricidade estranha. Há um tipo desconhecido de ímã que parece pedir que as linhas das mãos percorram toda a sua superfície.

De início ela é impenetrável. Há que lubrificar as mãos e umidificar aos pouquinhos a massa até que ela possa ser moldada, penetrada, modificada – até que vire alguma coisa. Mesmo que a gente não tenha sabido dar um nome, que não tenhamos conseguido transformar numa obra de arte, numa estátua, num enfeite de estante, num bibelô, nem nada disso, dava para ver que do misturar de mãos e massa, do magnetismo, da vontade de transformar dedos e corpos numa única explosão de gozo constante; dava pra ver que de tudo isso se poderia ter feito alguma coisa.

A gente fez a poesia palpável que se mostra em constelações da pele, no tom rosado sob a luz de fim de tarde. A gente até fingiu que tinha mais do que pele, misturou álcool no momento de moldar a massa; a gente colocou algumas cores de outros cenários; a gente tocou partes fundas, desejos irreveláveis, frustrações comuns. A gente viveu versos.

Numa segunda-feira qualquer veio um vento e quebrou a estátua de gesso.


Que nem era gesso, que nem tinha nome, mas que era algo mais maleável como faixas de gaze – espuma branca lavando os pés – que a gente enrola igual a um quase amor de promessas telefônicas. Todo quase amor tem um calcanhar de Aquiles que pode se quebrar de uma hora pra outra mesmo que não seja quebrável. Deixa meia dúzia de versos na cabeça. Ficam cheiros, gostos, gozo, a mesma incompreensão da pele na pele e aquela sensação de que um dia desses, num desses encontros casuais talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Poça d'água


É bom ter conselhos para dar do alto da minha completa falta de bom senso. É fácil dizer que a vida não precisa ser assim, que é claro que tem como, que basta um gesto, um sorriso, que é simples e fácil. Para quem?, mandam perguntar com os punhos cerrando os copos meio cheios de cerveja quente. A mesa é uma ilha cercada de outros passados, outras vidas estouram de diferentes lados sugerindo uma cena de surrealismo de quinta, com pipocas falantes fritando ao redor. Corte brusco, porque precisa produzir as idiotices atuais.

Quando tem tanta esquisitice para não se orgulhar se acumulando sobre as caixas de papelão e restos de isopor. O altruísmo da mais funda falsidade. Um desejo de dizer para quem não faz a menor diferença que, olha, dá sim para ser menos idiota que isso, para ter um pouquinho mais de amor-próprio. Ou pelo menos mais poesia - frase-sussurro para quem nem tem nem sabe onde compra esse dicionário.

Vai dar pra dizer quando a ressaca trouxer aquela amnésia fajuta. Ou quando a minha cara de pau já tiver polida o bastante para dizer deslavadamente que não, não lembro - com direito a despedidas teatrais, teatro de quinta, também não precisa dizer. Quando for possível não querer essas vergonhas de que se orgulhar. Os fracassos bonitos para botar na estante ou só distribuir como conselhos de gente experiente.

Mais uma dose. Mais um gosto. Mais uma página dessas que a gente amassa e joga fora. Uma história dessas que a gente não registra nem conta, mas que um dia alguém recupera para desfazer falsas tentativas de glória interior.

Eu gosto é do estrago. O insosso também vale. Quem disse que o diferente precisa ser bom? Quem disse que a parte boa de escrever pode ser algo além de juntar letras, formar frases, colocar vírgulas e pontos?

Às vezes a gente sai do poço para alçar poças. Afunda dos  pés no esgoto e finge pensar que isso é alguma espécie de evolução - posto que a teleologia acena sempre de algum canto. Saio do poço, piso na poça e sei que não é nada mais do que um cenário diferente.

[Não digo a ninguém que no fundo do poço e na superfície da poça sempre tem um pedaço de mar e um reflexo de céu]

segunda-feira, setembro 24, 2012

Sob esse prisma...

Para Carol e Lissandra.

Para ler ao som de Alívio imediato (Engenheiros do Hawaii).

Será que leitor vira personagem? É que não é qualquer coisa saber que de alguma forma a minha válvula de escape ajuda a escoar angústias outras, pensar que as minhas madrugadas insones povoam as manhãs atarefadas e sufocadas de quem fica longe-perto.

As coisas mudam, as pessoas mudam, átomos se dividem e se esfumaçam em desenhos feitos com a ponta dos dedos no pára-brisa do carro. Os ciclos começam e terminam, as bolhas fazem-se necessárias até o momento em que estouram. É difícil pensar em uma parte só, é difícil observar o quadrado da mesa distorcido em um triângulo, mas a gente precisa aprender a lidar com as novas formas que a vida desenha - que a gente rascunha, esboça e depois fica tentando ajeitar sem cair no cliché dos clichés de que a vida não tem borracha, comparação tão desnecessária para quem sempre se orgulhou de só saber usar caneta.

As lembranças ficam, o desconforto, o não-saber-lidar, as conjugações inapropriadas para os verbos, a curiosidade e a necessidade de entender são inevitáveis. Daqui a um tempo passa, cicatriza, vira piada e quem sabe a mesa não se preenche em risadas leves outra vez? É só uma questão de construir um mundo em que isso caiba.

Sentir-se em casa no mundo é sensação dos tolos, o desconforto - e por que não dizer, o desespero - existe naqueles que sabem que a vida pode ser mais, nos que viram e sentiram na ponta dos poros que a vida pode ser mais do que consentimento. A vida é vontade e a gente segue. Com carinho, respeito ao outro e a si mesmo para ir fazendo cada pedacinho de um mundo que possa ser chamado de nosso. Pode não ser possível implodir esse que nos atira bombas todas as manhãs, nos desampara.

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Não saberia dizer quanto tempo fazia que estava andando. Os saltos altos, ainda que não fossem muito finos, causavam um desconforto no calcanhar. Nada que parece motivo o suficiente para parar, os outros também não paravam, seguia. A roupa era apertada demais, parecia tornar os passos mais lentos, mas se todos andavam, devia mesmo ser preciso continuar. A maquiagem soava pesada demais àquela hora do dia, oleosa demais para o calor daquela cidade, mas, mais uma vez, ninguém parecia se importar com isso. A impressão que tinha era a de que todos acordavam todos os dias sem sentir todos os incômodos que povoavam sua cabeça com excesso de grampos e fios esticados por excessos de calor. Ninguém parecia perceber. Todos mantinham suas expressões impassíveis, sóbrias, eficientes, imutáveis - e caminhavam. Barulhos ritmados do atrito das solas no chão.

No meio da pressa e vigiada pelo relógio, todas as manhãs ela segue o protocolo, sente a maquiagem que lhe cobre o rosto, as roupas que lhe apertam as pulsações da pele, os saltos que parecem aprisionar seus passos invariavelmente destinados ao mesmo lugar. Ir vir, vestir, despir, bater o cartão, a continência, fazer a ronda, a guarda, a prova, sorrir, preencher, assinar, submeter, anular o que a gente nem sabe porque nunca viu que pode ser diferente até o dia que...

Um dia acordou e repetiu todo o protocolo ensaiado de todos os dias, mas sem querer um grampo escapou dos cabelos, rodopiou fugitivo entre as mãos e foi sugado pela força gravitacional. Como seria o mais lógico a fazer, ela abaixou e olhou para baixo a fim de pegar o objeto. E foi assim: quando parou de andar, quando deixou escapar um detalhe de sua perfeição, quando não seguiu seus passos no mesmo trote de todos os outros, quando afrouxou de leve o pano da roupa para conseguir abaixar, quando pensou em levar a mão à testa para enxugar o suor que se formava da mistura de pós e tintas que lhe cobriam todos os dias o rosto. Ela olhou e descobriu que não havia chão.

sexta-feira, setembro 21, 2012

E depois de tanto e tanto tempo é vinte e um de setembro de novo, depois de tantas outras datas que se passaram, tanta coisa que a gente finge que ressignifica pra ver se pára de doer. Um dia a dor se convence ou o calendário passa, sempre passa. Os dias correm rápidos, as estações mudam, o sol abre e mesmo os dias nublados vão mostrando sua beleza leve, fresca por traz do tom de cinza.

Não dá mesmo para exigir que o sol nasça deliberadamente no meio do inverno, mas quando vem, do jeito mais cliché, mais ultrapassado, mais adolescente e mais tosco, as lágrimas evaporam. Mas algumas músicas ainda tocam em alguma parte da cabeça...

Corpos em movimento
Universo em expansão
O apartamento que era tão pequeno
Não acaba mais
Vamos dar um tempo
Não sei quem deu a sugestão
Aquele sentimento que era passageiro
Não acaba mais
Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Novos horizontes
Se não for isso, o que será?
Quem constrói a ponte
Não conhece o lado de lá
Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Suspender a queda livre
Libertar
O que não tem fim sempre acaba assim

terça-feira, setembro 18, 2012


Surge tímida e quase imperceptível aos olhos desatentos. Há que parar, olhar para fora e ver que dali do outro lado existe uma beleza outra. Singela e veloz.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Mar!

Ela encostou no meu corpo e disse 'mar'. Não, não foi isso. Ela tocou de leve a minha alma - porque ali, naquele momento, naquela nudez, naquele vento, naquele cenário, só era possível expor almas - e foi a minha que ela tocou quando me pediu que dissesse junto com ela. Eu disse 'mar' da forma mais atrapalhada. Não teve uníssono, nem timbres harmoniosos, teve a palavra nervosa pela fome de ouvir mais palavras.

Eu disse 'corpo' porque nunca saberia dizer qual a parte, posto que meu corpo inteiro estremeceu de um jeito estranho. Pode ter sido um pedaço de cotovelo ou antebraço, ou algumas dessas partes quaisquer que a gente esquece de erotizar - e nem imagina que podem despertar sensações tão gritantes. Meu corpo inteiro sentiu o calor que certamente também era de um corpo inteiro. Fiquei pensando se a alma se divide em partes e se há sensações diferentes quando se toca o dedão-do-pé-da-alma ou o-fundo-do-sexo-da-alma. Eu não sei se existem essas partes, porque, assim como o corpo, ela me tocou a alma inteira.

Me fez imaginar sóis e tardes de praia talhando feito escultura em madeira aquela temperatura que eu senti tão breve. Não só isso, a cor era de sol. Dia de verão em que a pele é assim elaborada durante todo o dia para, ao cair da tarde, refrescar-se em um banho que não diminui a temperatura da pele que já não é sol e sim fôlego de vida. Fôlego efêmero herdado do mergulho-gesto que lava e lavra as almas tão mais imorais do que os corpos. Meu corpo se desfez em ondas metafóricas do mar que você trazia na voz e na garganta. Toque fortuito que é inteiro mar e não só pela palavra que disse - dissemos - e continua gritando que só se abre depois da água no pescoço.

terça-feira, setembro 11, 2012

Entrelaçado

Para ler ao som de Tempo de pipa (Cícero).

"Vamos nos espalhar sem linhas".

Eu não sei como faz para desatar nós e nem sei se é necessário - ou se vale a pena. Há nós apertados, há pronomes pessoais retos tão pessoais e tão plurais que não dá para desfazer assim por qualquer bobagem. Não que futuro seja bobagem, não que projetos completamente diferentes também o sejam, mas é que alguém sempre sai machucado das coisas e preservar tudo no seu devido lugar é sempre a minha maneira de evitar que o sangue respingue em mim quando ainda tem as nem-tão-velhas feridas assim tão mal fechadas.

Quando o nó fica assim muito preso, a gente machuca as unhas e não consegue. Às vezes usa os dentes e parece que só fica tudo mais amarrado.

Sei não... Enquanto os nós não se desmancham, nada impede que nos deixemos levar pelos laços que nossos corpos fazem sozinhos, sem que a gente queira e porque a gente quer.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Uma crônica paulistana

Para ler ao som de Concreto & Asfalto (Engenheiros do Hawaii).

É possível ir da Luz para a Liberdade desde que se saiba seguir as cores certas, contornar as linhas certas. Dá até para encontrar Consolação nos já conhecidos fundos de copo de cerveja ou fundo de garrafa verde-garrafa entre saltos, silicone, cílios postiços e neons convidativos da Rua Augusta.

São Paulo é cidade de que muito se ouve - e eu, do alto do meu habitual provincianismo de metrópole, nunca parei para prestar atenção. Paulista, Augusta, Anhangabaú, Bexiga, Ipiranga, Butantã, Vila Madalena, Pacaembu, Jabaquara, as pessoas diziam esses nomes engraçados, com seus fonemas tão bonitos - e eu cantarolava baixinho, às vezes sem nem mesmo emitir som, o binômio insosso "concreto e asfalto".

A minha ingenuidade arrogante teimava em confundir o bom e o belo, achando que este último só se podia encontrar nas 'belezas' construídas e naturalizadas das terras cariocas. Querendo ou não, no fim das contas a gente sempre carrega um montão de preconceitos e o trabalho da vida é ir querendo jogá-los fora pelas janelas de avião, pelos trilhos do metrô ou deixar a força do vento levar quando bate deliciosamente no rosto e bagunça cabelos coloridos no meio da Avenida Paulista.

Preconceito bobo, xenofobia boba, construção boba de identidade que a gente teima em fazer negando o outro para tentar ser alguma coisa sem saber que não podem ser além de sonhos, como diria o Álvaro de Campos saído de sua tabacaria para um chão escuro da terra-luz das pa-la-vras. São Paulo é terra de lavrar palavras, de ouvir sotaques da terra de ninguém. De se sentir em casa por ganhar tão fácil o direito de ser só mais um na multidão. São Paulo me engole em Avenidas, me perde em linhas de ônibus, São Paulo dos descaminhos do excêntrico, da moça que sai do metrô e deixa no ar poluído essa beleza do sujo, essa beleza de quem conhece a fundo tudo o que é feio.

São Paulo é terra de me apaixonar pelo movimento, pelo trem que cruza rápido a estação bonita de um progresso que já é passado. Terra em que o cinza espelhado das ruas esconde passados apagados, gritos abafados pela palavra progresso - dos quais a gente ouve ecos em nomes próprios que não se explicam, em amontoados de bairros e histórias que são só flashes, quebra-cabeças, pedaços de um isso que parece estar sempre se fazendo. E de que eu não conheci mais do que alguns pedacinhos.

São Paulo tem uma atmosfera, alguma coisa estranha que envolve e inebria, uma espécie de capa, num tom de cinza forte, bonito, marcante, opressivo e vivo - que os desavisados dirão ser apenas nuvem de poluição.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Ao momento presente

Para ler ao som de Ta Douleur (Camille Dalmais).

É preciso fazer alguma coisa quando se ganha um presente. É preciso, em primeiro lugar, segurar a caixa que colocam em nossas mãos para que ela não caia no chão. Depois, tirar os laços, caso eles existam, romper o lacre com a calma educada de quem sabe o que fazer ou com a pressa voraz de uma criança faminta por vida, rasgando o papel, espalhando seus pedaços pelo chão com ansiedade. Quando o presente está ali, finalmente aberto, a gente sempre imprime alguma expressão no rosto. Logo no primeiro olhar o presenteador atento consegue ver se é alegria, desgosto, desconforto, desagrado, carinho, surpresa, alegria, felicidade, ou cara-de-quem-estava-esperando-apenas-isso. Independente do que pensa e do que veste no rosto - posto que existem os presenteados mais atores - a pessoa pega o conteúdo do pacote. Segura com os dedos, agradece entusiasmada ou burocrática. Aquilo que foi escolhido, comprado ou feito com carinho, embalado, protegido, transportado etc. - aquilo foi dado e agora pertence à outra pessoa.

Não é seu aniversário, não é Natal na Leader Magazine, não é nem mesmo Páscoa - a data dos melhores presentes. Era para ser um dia comum, com uma aflição disfarçada de um saudade antecipada, uma agonia da distância, mas aí os ventos de um agosto que já era para ter-se ido trazem um assovio sombrio e rimado de uma angústia sua. E aí, você nem sabe que sua angústia colocou numa gaveta imaginária o meu medo de acreditar, dobrou o guardanapo com cara de quem rejeita os rótulos mais verdadeiros e quis, quis com força, quis com a voracidade de criança que rasga a embalagem do presente, te dizer de dentro de um abraço que passa, que há tempestades nos mares abertos, mas o melhor de tudo é perceber os músculos movendo-se seguros em cada braçada. São gelados e salgados os primeiros golpes que a gente leva no rosto, mas lavam a alma.

E por mais que por fora a gente espere sorriso, abraço etc., quem dá um presente não espera absolutamente nada além de dar o presente, além de que a pessoa presenteada ganhe uma coisa bonita e tenha alguns momentos de alegria. Toma, é seu, pode pegar (se quiser).

domingo, setembro 02, 2012

Tudo novo de novo (Paulinho Moska)


Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

quarta-feira, agosto 29, 2012

29 de agosto: Dia da Visibilidade Lésbica

O dia quase no fim, cheio de problemas, preocupações, coisas martelando na cabeça e a internet (que sempre me avisa das coisas) me diz que hoje é dia da visibilidade lésbica. E eu me sentindo tão invisível - e até bastante hétero nos últimos tempos... É claro que este tem sido apenas um comentário com amigos que explicita o fato de que eu tenho me relacionado muito mais com homens nos últimos tempos, mas quem sou eu para julgar e condenar a minha própria sexualidade se eu procuro tanto não fazer isso com a de mais ninguém?

Eu costumo dizer, costumo mais do que dizer, costumo levantar a bandeira (e olha que essa é uma das poucas bandeiras busco levantar com todas as minhas forças) de que sexualidade é uma coisa muito mais ampla do que querem nossas classificações. Como já disse Caio Fernando Abreu, em frase que eu também repito constantemente, "homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade — voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe"*. Então, fica a pergunta: por que um dia da Visibilidade Lésbica? Por que um dia do Orgulho Gay?

Enxergo os caminhos das respostas para essas questões na própria nomenclatura das datas - e hoje, por razões óbvias, opto por dar destaque à questão da (in)visibilidade. A conversa pode começar naqueles clichés de que lésbicas são aquelas mulheres que ainda não encontraram um homem capaz de comê-las direito, mas eu prefiro enveredar por um caminho diferente. Não faz muito tempo, ouvi de um amigo que é muito mais fácil para uma lésbica "sair do armário", que a sociedade tem menos preconceito, que a aceitação é muito mais fácil.

Imagino que por trás dessa formulação esteja um pensamento do tipo "Ué, mas tem um monte de filme pornô com lésbicas, existe uma cultura erótica do sexo entre mulheres". Sim, existe. E nos leva àquele outro cliché de que o sexo entre mulheres existe para o deleite masculino - construção baseada naquela velha e tão presente lógica machista segundo a qual as mulheres, afinal, só existem para o deleite masculino, são inclusive uma mera parte dos homens ou vocês esqueceram da historinha da costela do Adão? Não, eu não esqueci. E não esqueci porque nunca me deixaram esquecer. Porque ser lésbica e lutar pela visibilidade não é necessariamente lutar para sair nas ruas e não ser fisicamente agredida. Ser lésbica e lutar pela visibilidade é ouvir gracejos, "elogios", gente "querendo participar", é enxergar nos olhares alheios aquela agressão da cultura do estupro - e, ouso dizer, com a ameaça do estupro mais exacerbada pelo argumento de que as lésbicas precisam disso para corrigirem a sua sexualidade.

Como disse no começo do texto, após três anos casada com uma mulher, nos últimos tempos tenho me relacionado com homens e me peguei em alguns momentos constatando como a gente acaba criando mecanismos de defesa para a homofobia. Um gesto bastante corriqueiro e inconsciente para um casal heterossexual como andar de mãos dadas nas ruas foi o que me surpreendeu um dia desses. O que era para ser um gesto de carinho, ter as minhas mãos entre as de outra pessoa, depois de um certo tempo, depois dos percalços e inseguranças de uma separação, depois da alma machucada por muitas coisas, o que era para ser um gesto de carinho me sobressaltou. Tentei disfarçar o susto e me vi automaticamente observando minuciosamente o local em que estávamos, como costumava fazer a fim de precaver a mim e a minha companheira de possíveis demonstrações de homofobia. A gente se acostuma com o preconceito? A gente acostuma a sentir medo... Esse medo invisível para muita gente, esse medo intangível para os que abrem a boca para dizer que direitos para minorias servem para construir privilégios.

Me surpreender nesse "momento heterossexual" me fez sentir exatamente assim, uma pessoa privilegiada. Uma pessoa que vive em circunstâncias mais confortáveis do que uma quantidade enorme de pessoas e essa sensação não foi nada legal, porque se eu estivesse com uma mulher ao meu lado, talvez nós não déssemos as mãos, talvez ficasse entre as duas a áurea de medo que nesse caso passou só por mim. E é isso o que acontece muitas vezes e o que eu não canso de ver (graças a deus e com muito orgulho, quero ver muito mais!) é gente vencendo esse medo, unindo as mãos, os lábios e mostrando que uma demonstração de afeto é uma demonstração de afeto independente de qualquer coisa. O que eu queria ver mais é que as outras pessoas entendam que essa demonstração de afeto não altera em nada a vida heterossexual delas e que não há motivo para responder a isso com xingamentos, comentários estúpidos, agressões, assassinatos e outras formas de violência.





* Trecho da crônica A mais justa das saias publicada no jornal O Estado de São Paulo em 23 de julho de 1987 e presente no livro Pequenas Epifanias (2007).

terça-feira, agosto 28, 2012

Sinal

Para ler ao som de Alazão (Filipe Catto).


Uma questão de colocar o ponto final. Alinhavar com força e precisão o que falta. Tirar do lugar o que juntou poeira por tanto e tanto tempo e que nunca teria se resolvido com o afago de uma flanela umedecida. Linha e agulha em mãos e o medo de furar o dedo guardadinho no peito palpitante que há pouco sangrava. Ele eu também costurei. Fica essa carne vedada e ainda com cheiro de ferida aberta. Dá pra sentir o cheiro de carne fresca no ar, a vermelhidão da pele exibe o quanto ainda é sensível ao toque - despertando uma vontade enorme de encostar com a delicadeza mais firme a ponta dos dedos quentes, de mergulhar nessa dor que na verdade é sen-si-bi-li-da-de.

É que me puxaram a máscara com brutalidade, à guisa de construção narrativa, diria que de-forma-abrupta-e-inesperada. Redundante e falso, como as frases feitas usadas para cumprir o script mais cliché entre os que imaginei que seria o nosso fim. Mas passou, passaram as minhas cenas de drama mexicano e as suas falas de revista de auto-ajuda, passou mais rápido do que pareceria o tempo de rosto lívido depois da máscara que você arrancou e foi junto uma camada inteira de pele. Ficou a descoberta de que existe outra camada de pele debaixo da pele e que quando a gente arranca a primeira, fica aquela segunda que é mais fininha e sente tudo muito mais intenso, muito mais real. O frio e o calor alternam em suores, febres, tremores. É vida o que se desenha na nova volta de círculos descentrados.

A palavra despedida tem rostos de anjos, os cenários que farão falta (e ainda assim estarão perto) têm outros personagens, roteiros mais contundentes e têm aquilo... aquilo que faltava e eu não via, eu tinha esquecido o que era, coisa simples, pequena e tão desejada: ficam espalhadas pelas ruas santas gotas de poesia que derrama de copos, corpos, vozes, sorrisos e palavras.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Laço de fita

Abro pontas que talvez alguém ate. Talvez alguém faça laços, leques. Espalho migalhas que talvez alguém recolha e siga como um conto infantil sem saber que são tirinhas de no máximo quatro quadros. Desenho em nanquim os contornos do cenário, pequenos quadros, curta sequência - assim do jeito ideal para caber nos meus sonhos e na minha capacidade de elaboração literária, que todos sabem que é do tamanho do meu estômago. Faço os limites dos quadros, restrições torpes baseadas em metas rasas, e depois chamo carinhosa e forçosamente de mol-du-ra. Há quem compre a ideia, elogie o trabalho do marceneiro e há os mais prosaicos que, como deve ser, nem reparam nesses detalhes desinteressantes que rodeiam as obras de arte. Vou colocando as minhas próprias dentro. Passando os dedos de olhos fechados para melhor sentir a textura, chegando o rosto bem perto para procurar ainda um cheiro das cores - sabendo que é isso o que importa. Tirando o limo para escorregar mais fácil, mais rápido no caminho desembestado que sempre leva ao chão.

Chão que eu decoro com pedrinhas, que eu povoo com sonhos, livros e poucas coisas cuja graça consiste em escolher junto com meus botões onde cada coisa fica. Por fim, ato sozinha as pontas, faço laços, origamis e junto minhas próprias migalhas com as pontas dos dedos - que bem conhecem os caminhos da boca.