quarta-feira, outubro 17, 2012

Machismo nosso de cada dia

É sempre adequado reagir diante de uma situação de machismo? Talvez o meu questionamento pareça covarde, mas foi isso o que fiquei pensando hoje enquanto voltava para casa bastante chateada com o tal do 'machismo-nosso-de-cada-dia'. No de hoje eu calei. Em parte porque na situação não cabia, em parte porque ouvi de uma amiga um dia desses que eu devia parar de ser chata, pois ela gostava/gosta de ouvir cantadas na rua.

Hoje, quando engoli minha pílula diária de misoginia, de alguma forma ficou claro para mim que a vítima da situação (sim, para mim há vítima e agressor, porque sim, há um tipo de violência) se sentiu lisonjeada com o ocorrido - e imagino que essa reação, somada à minha não-reação, foram os responsáveis por esse nó na garganta que me acompanhou até em casa e que continua aqui até agora.

Sei que contar publicamente o caso pode ser uma forma de colocar a cara à tapa e receber muitas críticas ao meu feminismo da-boca-pra-fora, pouco combativo ou o que quer que seja. Bem, sem intenção de defesa prévia, digo que eu já me fiz todas essas mesmas críticas enquanto voltava para casa e, sem solução ou rótulo, escrevo sempre como uma forma de expurgar, tentar inteligir com palavras.

Explico:
Estava na aula de uma das disciplinas do mestrado. Uma das cinco alunas que compõem a turma apresentava os textos escolhidos pela professora para o tema a ser discutido. Vale observar que a turma é composta por cinco alunas e um aluno, bem como que quem leciona é uma professora. Ao final da apresentação, todxs fizeram suas observações, perguntas, comentários etc., como é de praxe. Foi em algum ponto desse momento da aula que o aluno fazia as suas considerações e alegou sentir falta de um determinado aspecto na fala encerrada. Rapidamente, a professora informou que o tópico havia sido abordado pela aluna e que, possivelmente, ele não tinha prestado atenção à hora.

A frase que veio em resposta pareceu incomodar apenas a mim naquela sala. Foi algo como: "Acho que eu me desconcentrei com a beleza da apresentadora". Nesse momento, eu acho importante esclarecer que a doutoranda em questão é uma mulher jovem, alta, loira e de olhos claros, ou seja, enquadra-se no padrão de beleza vigente em nossa sociedade. Qual a parte que não encaixa? O fato de uma mulher considerada bonita ocupar um papel ou estar numa posição que representa poder e inteligência.

Me vieram à mente as alegações usadas à época das lutas pela inserção das mulheres nas universidades, no mercado de trabalho, enfim, no espaço público: dizia-se que a beleza da mulher, ou melhor, a sua natural sedução, distrairiam os homens da racionalidade, das tarefas comumente desempenhadas com eficácia pelo lado racional da humanidade. Dizer que a beleza distraiu quer dizer que a presença feminina sugere obrigatoriamente beleza, sedução ou que só se deve permitir que pensem as mulheres que estejam fora dos tais padrões de beleza, ou que o papel da mulher é apenas enfeitar o universo masculino. Pode parecer que estou exagerando, mas se fosse eu que estivesse apresentando, que tivesse me esforçado para fazer uma pesquisa profunda sobre um tema, trazido questões, exposto e debatido ideias por mais de meia hora, ficaria muito indignada e ofendida de ouvir que todo o meu trabalho fica apagado por um caráter estético.

Pode ter passado despercebido, pode ter soado como um elogio, mas eu enxergo nesse comentário a demonstração do quanto o machismo está longe de ser extinto do nosso cotidiano. O quanto o ambiente acadêmico das ciências humanas está longe de ser um espaço de reais questionamentos, debates, transformações sociais - ou que pelo menos essas mudanças ocorrem com muito vagar. Que a presença feminina, ainda que majoritária em algumas situações, como foi o caso citado, não necessariamente significa que a lógica machista da sociedade está sendo de fato modificada.

E eu fiquei pensando se não falar nada não foi uma forma de legitimar, sei lá, perpetuar esse tipo de atitude. Fiquei pensando, mas ainda assim não disse nada. Vim embora pensando nisso, apenas... e talvez continue a pensar até que aconteça o próximo episódio que, infelizmente, não duvido que tarde. Espero então ter mais profícuas reações.

Um comentário:

  1. que situaçao chata, hein, Eliza! E muito provavel do cara nem ter se sentido constrangido com o fato.

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