quarta-feira, dezembro 16, 2009

O meu escudo além dos olhos

Enquanto você não chega eu fico aqui inventando coisas que não dão para amassar depois e jogar longe. [Eu dou para amassar depois e me guardo perto, sempre perto]
Enquanto o vento corre seco nas flores da noite lá fora eu fico esperando que você vá, mas vá logo. Pra depois voltar mais logo ainda.
Enquanto essa sede de muito mais coisas do que você envelhece na boca e na pele como a vista que cansa dos mosaicos a cores, eu me coloco nesses mosaicos muitos mais estranhos e finjo que faz sentido apenas esperar de boca vazia e barriga cheia.
Você não veio nem vem e já passaram muitos anos desde o tempo que eu acreditava que a vida tanto fazia pra mim. Pois tanto faz que você não venha, porque eu espero você chegar do mesmo jeito. Tanto faz que você não queira, que eu espero a maré virar, o oceano ir e voltar, porque eu não nasci ontem, eu sei que volta. E seja em caravelas, barcas, balsas, aviões, foguetes ou bolhas de sabão, eu sei que você sempre vai e sempre volta. Como criança que espera a mãe trabalhar. Como os objetos que jogo nas paredes na raiva de ausência e que só voltam despedaçados. Não peço que volte inteira. Aliás, nunca pedi nada mesmo. Só quero o que me seja dado de graça. Você é uma graça! E o mundo uma casa aconchegante. Vence na vida quem diz sim.
Sim aos meus escudos além dos olhos, os meus apuros além dos poros. O meu seguro que já não precisa de prestações e dívidas velhas. Meus olhos sabem que você chega mesmo que não veja, que você deseja - e eu desejo - mesmo que não tenha. Que você receba, mesmo que não venha (mas venha!)...
Eu me desmorono toda, porque já entrei e não é o caso de ter ou não volta.

terça-feira, novembro 24, 2009

Iguais (Isabela Taviani)

No dia em que ela se declarou a cidade inteira
silenciou
Todos queriam ouvir a resposta
Águias com seus vôos razantes, urubus a espreita
de um pobre instante
Rezando pelo não nas suas costas
E ela cantava o seu amor
Com a sua garganta bran-ca
E ela jurava o seu amor
Com sua garganta San-ta
No dia em que a outra decidiu enfrentar o mundo
por aquele amor
Sentiu o peso sobre seus ombros
Pai, mãe, filho, irmãos, amigos e um casamento
antigo
Julgamentos e seus escombros
Mas elas se amavam tanto
Que já não cabia engano
Mas elas se desejavam tanto
Mesmo o futuro uma tela em branco
Nunca foi tarde demais
O medo, a verdade desfaz
Águias, urubus, julgamentos, fobias, força bruta
Tudo é pouco demais
Código civil, onde se viu, nêgo que enrustiu não
separa os iguais!

quinta-feira, outubro 22, 2009

Sabe o que me cansa? São essas suas palavras que eu tenho que arrancar do meio da tua garganta, criança! Que eu tenho que trazer de dentro do teu peito perfeito...
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo.
Mas eu aqui, eu aqui morrendo - desaparecendo como uma foto de Polaroid, eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo.
Sabe o que me mata? São os teus olhos de vidraça fosca embaçada à jato de areia de onde não mina uma lágrima, teu olho turmalina, pedra muito negra como esse tal amor por mim.
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo. Mas eu aqui, eu aqui morrendo, desaparecendo, como uma foto de Polaroid: eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo.
Sabe, eu odeio, odeio adorar teu jeito simples de viver. Ver você sorrindo assim loucamente quando estou aqui presente. Sentir as tuas pernas trêmulas depois do prazer satisfeito. E é por isso que eu não aceito, eu não aceito não, ver você assim retrocedendo, abrindo mão dos sonhos, fantasias por essa covarde covardia. Muito menos pagando o preço dos nossos pecados nem se fosse dez centavos.
Mas eu aqui, largada num canto desse apartamento: eu choro mais, eu choro menos. Tanto faz, você, você não vem mesmo. Mas eu aqui, eu aqui morrendo, desaparecendo, como uma foto de Polaroid. Eu morro mais ou morro menos. Tanto fez, você não veio mesmo. Não veio...

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Eu tava aqui tentando não pensar no seu sorriso, mas me peguei sonhando com sua voz ao pé do ouvido e te liguei. Me encontro tão ferida, mas te vejo ai também em carne viva. Será que não tem jeito? Esse amor ainda nem nasceu direito, pra morrer assim.
Se você pudesse ter me ouvido um pouco mais. Se você tivesse tido calma pra esperar. Se você quisesse poderia reverter. Se você crescesse e então se desculpasse.
Mas se você soubesse o quanto eu ainda te amo! É que eu não posso mais...
Não vou voltar atrás, raspe dos teus dedos minhas digitais. Eu não vou voltar atrás!
Apague da cabeça o meu nome, telefone e endereço...
Eu não vou, eu não vou voltar atrás, arranque do teu peito o meu amor cheio de defeitos...
Me mata essa vontade de querer tomar você num gole só. Me dói essa lembrança das suas mãos em minhas costas sob o sol da manhã. Você já me dizia: conheço bem as suas expressões. Você já me sorria ao final de todas as minhas canções. Então por que?

(Foto Polaroid/Digitais - Isabella Taviani)

terça-feira, setembro 08, 2009

Carta

"Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre.(...)

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. (...)

Remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido".

(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, agosto 24, 2009

E agora, o que eu vou fazer?
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus?
E as lágrimas não secaram com o sol que fez?

E agora como posso te esquecer?
Se o seu cheiro ainda está no travesseiro?
E o seu cabelo está enrolado no meu peito?

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo

E agora, como eu passo sem te ver?
Se o seu nome está gravado no
Meu braço como um selo?
Nossos nomes que tem o "N"
Como um elo

E agora como posso te perder?
Se o teu corpo ainda guarda o
Meu prazer?
E o meu corpo está moldado com o teu?

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
E que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo
De novo...de novo...de novo...

segunda-feira, agosto 03, 2009

Tudo sobre você

Zélia Duncan
Composição: John Ulhoa - Zélia Duncan

Queria descobrir
Em 24hs tudo que você adora
Tudo que te faz sorrir
E num fim de semana
Tudo que você mais ama
E no prazo de um mês
Tudo que você já fez
É tanta coisa que eu não sei
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

E até saber de cor
No fim desse semestre
O que mais te apetece
O que te cai melhor
Enfim eu saberia
365 noites bastariam
Pra me explicar por que
Como isso foi acontecer
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

Por que em tão pouco tempo
Faz tanto tempo que eu te queria

quarta-feira, julho 29, 2009

Tra dire e fare (Giorgia)

Tra dire e fare
tra terra e mare
tra tutto quello che avrei da dire sto qua
a parlare d'amore
tra dire e fare
tra bene e male
con tutto quello che avrei da fare sto qua
che penso solo a te
e tu lasciami fare
a me basta restare un po'
un po' di tempo a parlare insieme a te
solo a parlare
non voglio fare l'amore
a me basta guardarti un po'
guardare i tuoi movimenti così lenti
che mi fai sentire che
fammi sentire che
che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà
tra te e me
tra dire e fare
tra miele e sale
resto a sentire
i tuoi pensieri per me
che fanno rumore
e tu lasciami fare
a me basta restare un po'
un po' di tempo a parlare insieme a te
solo a parlare
non voglio fare l'amore
a me basta guardarti un po'
guardare i tuoi movimenti così lenti
che mi fai sentire che
fammi sentire che
che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà tra te e me
tu dimmi che durerà tra te e me
e il tempo si fermerà
tra te e me

segunda-feira, julho 27, 2009

Aperte o interruptor por mim

Não era pra ser vermelho. Mas quando viu já estava na rua e não tinha volta. Quer dizer, ter até tinha. Ela que não queria voltar. Foi com a cara de quem sabe que o que vai por fora não tem lá muita importância quando a gente quer entrar e apagar a luz.

Foi o que fez.

Sozinha em casa, sem nenhuma vontade de encarar aquele vermelho impetuoso que a invadia até pelos reflexos do armário da cozinha, o único sossego era a escuridão. No seu mundo, seu quarto. Onde não haviam espelhos nem cores.

Decidiu que ficaria só.

quinta-feira, julho 09, 2009

Pelas ruas flores e amigos me encontram vestindo meu melhor sorriso...

"Ele perguntou:
– Procura margaridas?
Ela respondeu:
– Já era.
Ele perguntou:
– Avencas?
Ela respondeu:
– Falou".

(Caio Fernando Abreu - "A margarida enlatada" in: O Ovo apunhalado).

sexta-feira, junho 26, 2009

Dois patinhos na lagoa

Hoje eu acordei meio séria e ando com vontade, já faz algum tempo, de mudar a cara disso daqui. Romper com a minha hipocrisia que prega a liberdade de formatos para esse blog, quando, afinal, sempre escrevo as mesmas coisas, do mesmo jeito por sinal. Enfim, no meio de uma oscilação entre pólos que pode vir a me enlouquecer - os posicionamentos políticos, meu deus! - acho que preciso usar esse espaço para falar de algumas coisas que tem me incomodado.

Ontem à noite, eu estava deitada no sofá da minha casa, com febre e impossibilitada de levantar para pegar o controle remoto quando, no intervalo de um emocionante "TV Fama - especial Michael Jackson" vi uma propaganda assustadoramente imbecil. Tratava-se do PR, Partido da República. Não sei há quanto tempo isso existe, se era um outro que mudou de nome ou coisa parecida. Fato é que se a política brasileira já era uma palhaçada sem tamanho, ver esse comercial me provou que as coisas sempre podem piorar.

Consistia em dois jovens felizes e descolados num diálogo mais ou menos assim: "o que o número 22 te lembra?"; "Dois patinhos na lagoa"; "Mas o número 22 também é o número do Partido da República"(!!!!!!!!!!!). Aí, quando eu pensei que a coisa já estava ridícula o suficiente, o casal descolado anunciou um concurso de desenho para a escolha do novo mascote do partido, cuja premiação era algo em torno de 10 mil reais.

Nenhuma promessa para não cumprir, nenhuma difamação de adversários, nenhuma cena triste da realidade brasileira ou cenas positivas de grandes realizações (não saberia o que esperar, porque sinceramente não sei se esse tal partido está ou não no poder). Fiquei pensando que daqui a um tempo eles usarão o slogan de um partido limpo, que não joga baixo. Sim, porque realmente vivemos num mundo em que a política não passa de um jogo no qual o vencedor é aquele que possui o melhor marketeiro. Dentro dessa lógica, faz todo sentido ter um bom logotipo.

Gostaria de ter ficado assustada ou surpresa, mas acho que o pior de tudo é saber que isso não me surpreende. Não surpreende a nenhum de nós...
Não resisti à curiosidade e fui conferir o site do tal partido. Adivinhem? É o partido do Garotinho. Ia dizer que é um partido do qual ele faz parte, mas se alguém for conferir o site, descobrirá porque digo que é o partido do Garotinho.
Enfim, não dá mesmo para discutir política no Brasil, porque ela não deve existir.

Se alguém estiver interessado, segue o link do concurso: http://www.partidodarepublica.org.br/PR22/Noticias_Republicanas_2009/noticias_2009_0563.html

quinta-feira, junho 25, 2009

Sobre o amor

"Não falo do amor romântico,aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento. Relações de dependência e submissão, paixões tristes. Algumas pessoas confundem isso com amor. Chamam de amor esse querer escravo, e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida, explicada, entendida, julgada. Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro, antes de ser experimentado. Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta. A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.

O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. O amor é um móbile. Como fotografá-lo? Como percebê-lo? Como se deixar sê-lo? E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine? Minha resposta? O amor é o desconhecido. Mesmo depois de uma vida inteira de amores, o amor será sempre o desconhecido, a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão. A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação. O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante.

A vida do amor depende dessa interferência. A morte do amor é quando, diante do seu labirinto, decidimos caminhar pela estrada reta. Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos, e nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim. Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.

O amor não é orgânico. Não é meu coração que sente o amor. É a minha alma que o saboreia. Não é no meu sangue que ele ferve. O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito. Sua força se mistura com a minha e nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu como se fossem novas estrelas recém-nascidas.

O amor brilha. Como uma aurora colorida e misteriosa, como um crepúsculo inundado de beleza e despedida, o amor grita seu silêncio e nos dá sua música. Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor, se estivermos também a devorá-lo.

O amor, eu não conheço. E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo, me aventurando ao seu encontro. A vida só existe quando o amor a navega. Morrer de amor é a substância de que a vida é feita. Ou melhor, só se vive no amor. E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto".

[Paulinho Moska]

quinta-feira, junho 18, 2009

Desabafo (ou um trocadilho muito pessoal)

As tempestades vêm para que tenhamos certeza do que pode resistir a elas.

Confesso que duvidava. Ou pior, tinha mesmo certeza de que algum abismo desabaria e a queda seria fatal. A queda é dolorosa. Mas fatal não.

No meio da queda livre não há muito em que se agarrar, mas alguns elos embora pareçam frágeis continuam ligados enquanto você tiver força ao menos para segurá-los. Pode ser de leve, eles também são leves em meio a tudo que pesa e te puxa pra baixo.

Eu seguro até não aguentar e mesmo depois. Mesmo que a força não seja muita, a certeza é forte. Essa certeza indizível, invisível ao passo que tão palpável. Essa certeza indecifrável. A certeza me mantém aqui, apenas um pedaço de alguma coisa em que você pode se agarrar. Não precisa segurar com força que eu não vou soltar. Confie em mim.

No meio da monstruosa tempestade, estou aqui com meu pequeno guarda-chuva aberto, que não vai conseguir te manter seca, mas vai te proteger um pouco mais.

Pena que não possa fazer cessar todo o resto e reabrir no horizonte aquela primavera bonita que bem conhecemos.

Mas por trás das nuvens, aquele ponto brilhante, está vendo? [Não é um ovni.] É um raio de sol de um céu que vai se abrir.

quarta-feira, junho 10, 2009

Mais um segredo

Eu quis cantar minha canção iluminada de sol, digo, quis contar ou vier um momento mágico, mas o relógio gritava e corria feito alice no país das maravilhas.

Então, pensei em ficar triste, chorar de saudade, dormir tristonha quando vi (como se ainda não tivesse visto o que já há tanto sabia) que até os mais mínimos momentos cintilam magia.

Ninguém é capaz de entender, é quase imperceptível a quem não tem os sentidos apurados pelo sentimento.

Mas eu vi o quanto cada relance de olhar, cada toque, ainda que breve, diz tudo e se eterniza tanto quanto as horas sem fim dos dias que a gente deixa perder nos nós dos lençóis.

"Espero que o tempo passe/Espero que a semana acabe/ Pra que eu possa te ver de novo"

domingo, maio 24, 2009

Sensorial

É que as palavras não dizem. Ainda que vastas, não bastam. Mesmo assim teimo e vou dizendo silêncios e silêncios, assim, em sussurro no ouvido - como verdades grandes.

Dizendo pelos poros, pelos pêlos. Pelos cílios que se encontram por acaso na luz branda da escuridão. Pelos olhos que brilham no encontro do espanto, no espanto do encontro, no deslumbre do encontro que é sempre o primeiro. Os silêncios gritam, quase como um velho cliché - mas um cliché único, novo, des-lum-bran-te. O encontro diário.

Daí que os olhos se lêem depois. Os olhos conversam, se entendem. Os olhos se sabem de um jeito, ainda que não se enxerguem direito, ainda que na escuridão profunda das madrugadas.

Então, os lábios conversam, trocam as mais indizíveis palavras.

Então, as almas se lêem à revelia do poeta - os corpos e as almas entrelaçados no gesto único.

As almas brilham à luz da manhã como o sexo no escuro. As palavras afinal são poucas, mas se desdobram em dizeres múltiplos pelos diferentes sentidos.

Pode sentir?

terça-feira, abril 28, 2009

Diálogo (de Caio Fernando Abreu)

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, voc~e não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)


(In Morangos Mofados)

Trecho da novela Dodecaedro

Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de lemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem nem conheço. Por um momento, cede. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.

(Do livro Triângulo das Águas, Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, março 23, 2009

"Se faltar o vento a gente inventa"

[Para ser lido ao som de "Pose (anos 90)"]

O horror não tem detalhe. Não tem minúcia. Não é cheio de explicações. O horror não tem explicação. Não adianta você vir me perguntar como foi e querer que eu fique horas aqui contando. É sempre rápido. O pânico é sempre muito rápido. Eu lembro bem do meu desespero na hora, se o senhor quer saber. Lembro nítido, como essas coisas que a gente dava tudo pra esquecer mas sabe que vai ficar pra sempre aqui martelando.

O senhor já levou uma martelada? Dessas que a gente dá no próprio dedo sem querer? Claro que já, todo mundo já fez isso alguma vez. Mas a dor que a gente provoca na gente mesmo passa rápido. Porque a gente percebe e pára de fazer. Quando é do outro não. O outro nunca sabe da gente e a gente nunca sabe do outro. Não tem essa de se colocar no lugar. Minha mãe dizia, muito certa como só ela, que ninguém sente a dor do outro. Por isso que as pessoas machucam umas às outras. Porque ferir não dói. Só dói na alma de alguns bons cristãos, coisa que pouco existe hoje em dia. Mas pra quem sofre sim, a alma fica doendo essa dor confusa que parece que é pra sempre. Não sei se passa quando morre porque nunca morri. Já pensei que ia morrer algumas vezes, mas deus foi bom. Ou ruim, porque às vezes penso que coisa pior que isso aqui não há de ter não.

E também já vi gente morrer assim bem do meu lado. É esquisito. Não é só a cor que a pessoa perde assim na hora não, ela perde... Sei lá... Vira outra coisa. Vai ver é isso mesmo: vira uma coisa ao invés de gente. Daí você pensa que é brincadeira, ou pesadelo, sei lá. Que vai soprar uma nuvem colorida como de filme e a pessoa volta, acorda como se tivesse só dormindo. Podia né?

Eu ia dizer que não, porque o horror é preto e branco, mas acho que não é não. O horror tem cor até, embora em nada pareça com uma nuvem bonita. Tem várias cores, todas fazendo parte de um borrão confuso. Deve ter alguma explicação da psicanálise, eu acho. Do tipo que a mente apaga os detalhes porque a gente não quer lembrar. Porque é muito ruim lembrar. Eu não sei é que explicação que tem pro fato da cena embaçada ficar remoendo e remoendo dentro da cabeça. Eu não estou nem aí pra psicanálise, se o senhor quer saber. Não quero pensar, sei lá, num homem apático de óculos me hipnotizando pra fazer lembrar de tudo e curar o - trauma. Palavra esquisita. Uma coisa que quebra dentro ou fora da gente, alguém me explicou. Que pode quebrar lá no fundo mesmo. Onde 'tão as coisas em que a gente mais acredita.

Eu, como já não acredito em muita coisa nessa vida... E também, vai que eu lembro de alguma parte que eu esqueci porque era mesmo melhor esquecer? Como uma coisa pior ainda... Deus me livre!

Engraçado como a gente costuma falar em deus, né? Como se fosse uma coisa assim grande. Eu costumava acreditar, mas hoje em dia... Não sei, acho que se ele existiu, foi embora há muito tempo. Que nem uma amiga minha, uma vez ela cansou dos filhos dela, arrumou as malas e foi embora. Calma, todos grandes já. Nada de abandono de menor não. Disse que ou se matassem ou se virassem. Só que aqui no nosso caso com deus, a gente ficou foi na primeira opção mesmo. Deu no que deu.

Eu já me perguntei muitas vezes se seria capaz de matar alguém. Todas as vezes me respondi que não e até agora tenho provado que estou certa sem muito esforço. Não só não me vejo, como não entendo. Eu, que já vi ali do meu lado, tanto sangue... o senhor não calcula. Não entendo mesmo.

O pior é que se o senhor me perguntar tudo o que aconteceu antes, eu conto tim-tim por tim-tim. Quem tava sentado onde, como, com que roupa e que cabelo. Mas do momento em que o desgraçado. Desgraçado não, porque chamar assim parece querer dizer que é um pobre coitado que só passou desgraça na vida e por isso. Pois eu acho é que todo mundo passa por desgraça na vida e nem por isso. Mas do momento em que o maldito - porque estou maldizendo mesmo! - entrou lá. Fico parecendo testemunha jurada de morte que diz que não viu nada, não sabe de nada com medo de. Não é o caso não, o senhor fique sabendo. Que eu não tenho medo da morte não. Tenho medo é do sofrimento que esse tipo de gente causa nas pessoas. Penso na minha mãe, coitada. Vendo a cara da filha dela no jornal sem vida. Uma coisa estampada. Depois de tanto sacrifício, ela ia dizer. Também não foi o caso de não ver não. Mesmo que eu quisesse tampar o olho, o maldito não deixava, disse que era para todo mundo ver bem direitinho que é pra saber como as coisas são. Mesmo que fechasse também, ia ficar ouvindo os gritos e o sofrimento dos outros.

Pois eu vi foi tudo. Só que tem uns detalhes assim que. Parece que tá tudo embaralhado, de um jeito que dá pra saber como é, mas não como ajeita tudo no devido lugar. Não sei quem falou primeiro, quem atirou primeiro. Só sei que tava tudo lá. O circo armado e eu no meio sem ter pra onde correr. Até maldade falar assim, circo é uma coisa tão bonita, não é nada parecido com. Muito grito, muito desespero, eu não sei se na hora cheguei a sentir pena, acho que fiquei mais foi aliviada de não ser comigo.

Mas pensando depois. Agora ainda. Fico com tanta pena. Da menina, da família. Até de mim por ter visto tudo. É duro, né? Morrer assim, nessa idade. Tanto pela frente, ia dizer minha mãe. De graça. Assalto bobo. Estupro. Tiro. Jornal e tudo. E ficar na lembrança dos outros tão assim sem detalhe como ficou na minha. Quando vieram me contar que a pobre tinha marido, filho, trabalho, sonho etc. nem consegui acreditar. Não combina. Não encaixa na lembrança que eu tenho. Um borrão confuso de gritos e sangue. Mais que isso eu não sei dizer, o senhor me perdoe. O horror não tem detalhe.

Pequena fábula metropolitana

Era como se, mesmo depois de tanto tempo, ainda estivesse esperando por algo. Um telefonema inesperado, uma visita, um encontro casual com um velho amigo. Na verdade, apenas algum acontecimento que mudasse a ordem das coisas, que pareciam sempre ocorrer conforme uma programação prévia e meticulosa. Pensava essas coisas enquanto olhava o cinza-mil-tons das ruas. As pessoas sem cor, cujo brilho se reduzia ao suor provocado por aquele calor infernal.

Duas da tarde, centro da cidade. Entre um esbarrão e outro, olhava os prédios altos se perguntando por que diabos eles não produziam uma sombra maior. Chegava a sonhar com uma vida em que pudesse trabalhar na praia, barulho de mar etc. Sem saber que se lá as pessoas não teriam esse brilho cinza, também não seriam mais interessantes - apesar de certamente mais coloridas.

Os excessos fervilhavam por todos os lados. O tal formigueiro que gostava de imaginar quando criança. O lugar onde a vida pulsava de tantos modos, como supunha na adolescência. Hoje, sem imaginar nada, caminhava apressada sob um sol escaldante, com muito mais roupas do que gostaria.

Se alguém a observasse todos os dias, poderia pensar que ela seguia uma espécie de rastro do dia anterior. Sempre o mesmo lado da calçada, dobrando as mesmas esquinas, no mesmo semi-círculo, parando para atravessar sempre nos mesmos pontos. Isto, se alguém a observasse, pois se nem mesmo ela o fazia. Se algum dia, num estalo, percebesse, ao invés de mudar o caminho correria para o terapeuta.

Podia também ser uma fábula de auto-ajuda, na qual ela perceberia que um grande acontecimento em sua vida só dependeria de si mesma. Caso fosse uma história adulta, sairia de seu escritório sem graça, conheceria três caras bonitões e teria uma noite maravilhosa. Na fábula infantil, teria um nome parecido com Kika e descobriria que a verdadeira felicidade são os amigos ou coisa parecida. Mas personagens de fábulas costumavam ser animais. Entreteu-se algum tempo pensando em que bicho seria, talvez uma lebre cinzenta.

Na sua literatura, o mundo foi ficando pelo meio do caminho. O relógio rodando como sempre faz. O final do dia chegou como sempre chega. Kika voltou como sempre volta, pelo mesmo caminho por onde veio.

segunda-feira, março 16, 2009

Passo da Guanxuma

"Eu queria...outra coisa".

"Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por aí levando um violão debaixo do braço".

Alguns novos contos, mas todos ainda muito presos no papel. Um dia quem sabe se rendem, talvez em breve.

Às vezes tenho raiva por não poder amassar o monitor e jogar no lixo.

sábado, fevereiro 07, 2009

Conto de fadas


Acostumada ao sabor áspero e denso do álcool puro, chegava a ficar enjoada daquelas cores todas. Daquelas frutas todas. Daquelas nuances adocicadas estampando sorrisos tão artificiais quanto os corantes nas pessoas. Não por causa da embriaguez, mas pela combinação carnavalesca. Não condenava os sorrisos. Pelo contrário, chegava a ter vergonha de si mesma, de seus pensamentos arrogantes dentro da noite fresca de verão.

Dois rapazes de um tom moreno-avermelhado de sol tocavam umas músicas de três acordes em desafinados violões pretos tipo cult bacaninha. Fortes, suados e cantando fora do tom. A cena só não era mais deprimente porque graças a deus não havia ali uma fogueira. Mesmo assim, estavam todos sentados em roda, como se houvesse uma bem no centro. Lá menor, sol maior, ré menor. Deprimente.

Um rapaz novinho e bonitinho, cabelo raspado, bochechas rosadas pelo álcool, tirou do bolso uma gaita e interferiu desencontrado naquela cena de filminho de verão. Alice sorriu meio de alívio, meio de admiração pela ousadia do garoto. A situação cômica criada a fez pensar na possibilidade de guardar seu costumeiro ar amargo e não contaminar mais aquela noite. Apesar de tudo, bonita, lua cheia, barulho de mar e tal. Céu limpo. Vento morno soprando no rosto. O hálito quente de um grande deus que só aparecia nas noites de verão para derreter o espírito.

Levantou aliviada por se desvencilhar da roda patética. Olhando de fora, de cima, decidiu que não tornaria a fazer parte daquilo. Percebeu na estampa da canga onde estivera uma grande mandala vermelha desenhada. Sorriu irônica e querendo acreditar nesse prenúncio. Queria estar bêbada, pensou exatamente com essas palavras andando em direção ao toldo sob o qual um casal preparava aquelas coisas excessivamente doces e coloridas.

O rapaz de cabelo preto espetadinho com gel fazia lembrar as personagens de Caio Fernando Abreu. Roupa preta e tudo. Sua alocação nos anos dois mil só era denunciada pelos grandes alargadores de metal. Alice se distraiu olhando demorado o espaço vazio no meio destes.

A mulher ao seu lado parecia entretida nos malabarismos que fazia com a coqueteleira rosa fosforescente. Era mais velha que o garoto, com certeza era. Talvez perto de vinte e cinco. Olhos de um azul muito claro contrastando com o preto do excesso de delineador e rímel. Pele muito branca, criaturas da noite os dois. Cabelos pintados de preto, bastante lisos, presos num coque desfiado. Vários piercings desses com bolinhas coloridas na sobrancelha, nariz, orelha, língua, sabe-se lá mais onde. Camiseta branca muito justa, um pouco transparente. Ofereceu um Sex on the Beach que a princípio Alice entendeu como uma proposta. Riu da própria idiotice quando a outra estendeu o copo. Pareceu um sorriso educado. Líquido colorido e doce desceu enjoativo. Tomou apenas um gole prevendo o tempo que ficaria sem saber o que faria com aquilo.

Quando pensava sem estímulo no copo e na roda e no quanto não queria nenhum dos dois, a viu. Na areia, bem perto do mar, distante daquela aglomeração ridícula, agachada quase como que de joelhos lá onde a água batia fraca, num encontro de marolas vindas de várias direções. Cabelos acastanhados, algumas mechas dourados pelo sol, bem compridos, caindo pelo ombro até a frente do corpo, cobrindo o contorno dos seios e deixando à mostra uma mandala muito colorida, tatuada logo abaixo do pescoço. Se crescessem asas exatamente daquele círculo, poderia ser uma fadas dessas de conto infantil.

Alice se aproximou com reserva e timidez. Parou de pá ao lado dela. A maré é suave a esta hora..., arriscou pensativa tentando disfarçar o nervosismo, que a outra logo percebeu pelos pés inquietos encostando alternadamente na areia. As unhas e os dedos se deixando afundar de leve, o calcanhar meio desequilibrado.

A fada estendeu a mão aberta sobre o espaço ao seu lado num gesto largo de convite. É bonito de ver, respondeu quando Alice sentou. A água toca na gente devagar, parece que com respeito.

As duas ficaram algum tempo em silêncio, sentindo as pequenas ondas geladas tocarem seus pés. Na noite abafada, o frescor do mar era um alívio. A conversa logo foi retomada no mesmo tom: bastante leve, como o marulho que reverenciava a escuridão branca sob a lua. O desejo pairava no ar junto com o vento morno e seco que as rodeava. O cheiro de sal libertava Alice do adocicado irritante dos drinks de antes. Enquanto inspirava fundo a maresia, sentiu o copo ainda cheio em sua mão. Apoiou-o na areia torcendo para que não derramasse. Nesse gesto, as mãos se esbarraram quase sem querer apesar da vontade muita. Antes que soasse uma cantada barata, Alice explicitou sua intenção percorrendo a tez branca daqueles braços com a ponta dos dedos. Quase sem tocá-la de fato, terminou no pescoço, apertando a nuca por dentro dos cabelos e trazendo-a para muito perto de si, a ponto de as respirações quentes e ofegantes confundirem-se no vento morno. O beijo também era morno, macio, longo e passível de vários adjetivos incapazes de definir a sinestesia daquilo.

O calor amolecia os pensamentos. Um risco maior do que se julgava capaz. Foi o máximo que conseguiu definir, mais com orgulho de si mesma do que com o medo que esperaria sentir se estivesse esperando algo. Aquela boca era doce como uma lembrança antiga, com a suavidade forte e marcante que a doçura deve ter, sem cores fortes, vodka ou nomes estadunidenses. A fada era doce da mesma forma que o mar era salgado. Aquela antítese lhe aprazia os sentidos. Não quis saber ao certo se era uma recordação, um sonho ou apenas uma saborosa noite de verão. Sabia do cheiro fresco de xampu e sal nos cabelos dela, do gosto rosado de carne fresca, da brisa suave sob o céu estrelado nas noites mágicas.

Sentiu que a outra permitia que tocasse não apenas o corpo quente, mas também sua alma. A mandala, que agora Alice via bem de perto e podia sentir com as mãos e os lábios, era uma espécie de marco. Tatuara após o término de um relacionamento. Melina, nome de fada mesmo. Libra com ascendente em câncer. A leveza do ar na profundidade da água, lembrava alguma música. Segundo a definição da própria, equilíbrio sujeito a fundo do poço. Soou patético, mas Alice achou meigo.

As peles, de um branco reluzente sob o luar, tocavam-se ávidas, num abraço terno. O barulho do mar embalava a sensualidade e o tesão de ambas. Melina tinha seios pequenos, róseos, quentes sob a brisa fresca. Alice sentia no arrepio da pele a vontade de ficar ali para sempre.

A essa altura já ignoravam que existisse mais alguém na praia, a música distante pouco se ouvia, a madrugada adentrava sem que sentissem. Os sentidos concentrados apenas no desejo do outro corpo, na vontade do prazer único que é o prazer do outro. Alcançado por aquela mescla inigualável de mãos, línguas, afagos, peles... Precisam de ajuda aí? A voz brusca cortou a magia da cena, como de abruptamente desligassem uma linda música. Gargalhadas certamente bêbadas, alguns comentários que, no susto, Alice não conseguiu entender. Alice abriu os olhos e viu que eram vários. Tentou amarrar de volta a blusa de Melina, mas já era tarde.

O gosto doce de carne fresca em sua boca tornou-se sangue no primeiro soco. Cheiro de suor sujo misturado com álcool. Alice se debatia tentando ao menos olhar para os lados, queria que houvesse algum modo de proteger Melina. Com o braços imobilizados por um ser asqueroso sobre si, o máximo que conseguiu foi encontrar uma das mãos dela, cravada na areia de desespero. Segurou com força, ou o que restava disso.

Uma outra mão, grande, áspera, suja do sangue que supunha seu, cobriu sua boca para abafar os gritos, impedindo que olhasse para Melina. Segurou com mais força a mão da fada, ouvindo os urros de dor e medo ainda que abafados. No desespero, fechou os olhos. Tentando acordar do pesadelo talvez. Em vão. Percebeu quando suas forças se esvaiam por completo e chegou a ansiar que desmaiasse. Sentiu sua própria mão afrouxando o toque na dela.

Acordou com o dia claro. Sol forte batendo no rosto. O mar batia fraco mas lancinante na pele lanhada, arranhada. Aos poucos foi percebendo os vários hematomas. Sentia todo o corpo como em carne viva. Enquanto a alma estava seca, rasgada, destroçada. Olhou em volta. Ninguém. A pergunta do que teria acontecido àquela fada ficaria arranhando imperdoavelmente sua alma ainda por muito tempo. Sem resposta.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Convive com as palavras antes de escrevê-las...

Vai ver as coisas tão maturando.
As mesmas expressões. Algumas obsessões-paranóias urbanóides. O pó espesso sobre qualquer espécie de sentir. Sentido?
Eu queria...outra coisa.
Em luto, um luto cinza esbranquiçado. Desbotado. As emoções desbotam também.
Sem estética.