quarta-feira, novembro 30, 2011

As unhas não correm risco, nunca tive o hábito de roê-las - nem de conjugar esse verbo, por isso soou tão estranho agora. Mas o estômago eu começo a sentir corroendo na ansiedade que sempre chamo de angústia para vestir uma personagem exageradamente cliché. As pontas dos dedos é que podem se desgastar de tanto clicar no mesmo botão, atualizar a mesma página e não ver nada ainda. Sempre o medo do fracasso, o medo da frustração, enfim, o medo que aos poucos vai se esvaindo na certeza de que de todas formas as coisas se acertam e se ajeitam de algum jeito. MAS PODIAM SE RESOLVER LOGO!!!!




terça-feira, novembro 29, 2011

Machismo na novela das oito

Aposto que de olhar o título vocês estão pensando, dã! Machismo está em todos os lugares e na novela das oito da Globo é que não ia faltar. Não duvido que existam umas dez cenas dignas de comentários críticos e revoltados a cada capítulo, mas como vocês sabem, eu não vejo mais tanta tv e o tempo de abstinência que eu pude experimentar me ajudou a ter um estranhamento maior quando me deparo com os absurdos cotidianos da telinha.

Pois bem, estava eu ontem diante da novela Fina Estampa quando, entre uma cena e outra de maldade clichê, me deparo com uma cena de violência contra à mulher. Não, eu não estou falando da personagem Celeste (Dira Paes) sendo espancada pelo marido, um esforço que considero válido de discussão do tema na sociedade. A cena que me chocou por não ter nenhuma tentativa de problematização e muita legitimação da violência foi uma cena com as personagens Danielle (Renata Sorrah) e Enzo (Júlio Rocha). Não achei o vídeo da cena (só o capítulo inteiro e não sei cortar), acompanhem a minha humilde descrição, vejam se soa familiar e escolham o final. 

Danielle está numa festa sozinha. Ela fala ao telefone com alguém enquanto bebe o que parece ser um drink quando é abordada por Enzo. O cara solta uma dessas cantadas baratas e recebe um fora. 

O você acha que acontece na sequência?

a) O cara pede desculpas e vai embora.

b) O cara insiste, a mulher continua negando e é agredida.

c) O cara insiste e consegue ir para a cama com a mulher.


Apesar de muit@s desejarem que aconteça a opção a e saibam que não são raros os casos em que a letra b acontece, a ficção global optou por nos enojar com a letra c, com agravantes assustadores de legitimação de uma suposta necessidade que as mulheres têm dos homens e os direitos que estes têm sobre elas. 

Quando Enzo aborda Danielle já do lado de fora do local da festa, entre as palavras do que para mim é um estuprador, estão frases como "Eu vou tirar o seu atraso" e "Você está precisando muito de um homem". Eu já me senti ofendida de ver a cena e ingenuamente esperei que a negativa fosse continuar, mas quais não foram meu nojo e meu estranhamento quando a mulher foi para casa, olhou para o agressor da janela (ele continuava na calçada, olhando com aquela expressão de quem acha que mulher é um pedaço de carne) e abriu a porta de sua casa para que ele subisse e "tirasse o atraso"!



Sabem o que essa cena me diz? Repete aquela concepção besta de que mulher não pode dizer não e até quando diz, está querendo dizer sim*. Esse tipo de cena diz aos homens que as mulheres estão apenas fazendo doce e que, se você transar com ela à força, você vai estar dando a ela tudo o que precisa e depois ela vai te agradecer. O que também me remete a absurdos que (como a Lola diz) os trolls ficam dizendo por aí - esses eu não vou linkar porque não se dá audiência para maluco, nem visitação para criminoso, foi minha mãe quem me ensinou -, como que você você vai estar fazendo um favor à mulher e, na verdade, ela nem sabe o que quer, não pensa. Lembram que a racionalidade é exclusividade do homem? Que mulher serve para cuidar da casa e dos filhos (não que eu acredite que não é necessário muito pensamento racional para isso) e que quem responde por ela é o pai, depois o marido e depois os filhos? Ué, você achou isso um absurdo de tempos que já se foram? Então porque a opinião e a vontade das mulheres a respeito de si mesmas e do mundo não são levadas em consideração?





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* Sobre o desrespeito ao não da mulher, um entre vários textos ótimos é o da Sara Joker que você pode ler no Blogueiras Feministas: http://blogueirasfeministas.com/2011/10/nao/ 

quinta-feira, novembro 24, 2011

A vontade de férias traz vontade de música, daquela que vem viva e com contorno de sol



O amor precisa da sorte
De um trato certo com o tempo
Pra que o momento do encontro seja pra dois o exato momento
O amor precisa de sol
E do barulho da chuva
De beijos desesperados
De sonhos trocados da ausência de culpa
Talvez o amor só seja assim pra mim
E pra você não seja nada disso
Mas eu prometo tentar aprender a te amar do jeito que for preciso
Mas se o amor quiser mudar as leis do que é certo
Ele faz que o improvável aconteça
Quando o amor vier não tema, tenha fé
Que ele será seu olhar, esplendor e beleza
Talvez o amor só seja assim pra mim
E pra você não seja nada disso
Mas eu prometo tentar aprender a te amar do jeito que for preciso


Uma preciosa propaganda contra a assistência

Talvez fosse necessário algum tipo de desculpas por não falar de uma coisa atual - parece que a internet como grande expressão do mundo acelerado e presentista precisa falar do que aconteceu há dois segundos atrás ou vai acontecer daqui pra frente. Contudo, antes de internauta ou blogueira (nem sei se sou alguma dessas coisas), sou historiadora e o passado é uma preocupação porque nunca está morto, prova disso é o meu assunto de hoje ser uma pulguinha que está coçando os meus dedos há algum tempo pedindo para ser escrita. 

Ok, Preciosa não é tão antigo assim, o filme é de 2009 e, se não me engano, assisti a ele em algum momento desse conturbado 2011. Na ocasião, tive a reação que imagino ter sido semelhante à de muitas pessoas: fiquei super sensibilizada com a história triste da menina, achei um absurdo tudo o que ela passou, pensei "como tem gente ruim no mundo", me acabei de chorar e recomendei para todos os amigos que gostam de um bom drama. À época, elegi com meus botões os temas da desigualdade, exploração sexual, racismo, discriminação como os temas de maior relevância da trama. Não digo que não sejam importantes todas essas coisas e que não seja válido que a história suscite discussões ou ao menos nos obrigue a pensar, ainda que brevemente, o quanto tudo isso está presente no cotidiano da nossa sociedade "judaico-cristã-ocidental". 

Isso, é claro, se a gente considerar quantas pessoas conseguem pensar criticamente quando estão tomadas pela emoção de cenas violentas e angustiantes. Admiro muito quem o seja, mas o que eu fiz ao longo e depois do filme foi ficar com muita raiva daquela mãe desocupada dela, até mais do que do pai ou das outras pessoas que violentam de várias formas a personagem ao longo da trama. Aí, sei lá quantos meses depois, estava eu numa ótima aula discutindo as influências do neoliberalismo nas políticas públicas educacionais no Brasil e me lembrei de algumas cenas da personagem da mãe da Preciosa. 

Uma das cenas mais impactantes

Por quê? Porque reparei o quanto esse filme é uma propaganda do modelo de self made woman levado às últimas consequências. Porque, afinal, o que a trama nos ensina não é outra coisa que não "não importa o quanto te ferrem, não importa quantas desgraças você sofra, você precisa superar isso e dar a volta por cima" - e com o seu próprio suor, porque, como todos podem ver, políticas estatais assistencialistas só levam à acomodação. Precisei me distanciar do "calor dos acontecimentos", como dizia um professor muito querido, para perceber que a personalidade da mãe é construída com base numa ideologia neoliberal segundo a qual assistencialismo é atraso para a economia, estímulo ao ócio, gasto desnecessário, além de, é claro, atrapalhar a livre concorrência da mão de obra. As pessoas que realmente querem, as realmente talentosas, vão vencer todas as adversidades. Capaz até de se tornarem pessoas melhores e de darem mais valor ao que conquistarem.

domingo, novembro 20, 2011

Se essa rua, se essa rua fosse minha...


Eu sei que não é fácil. Eu sei que você sabe que eu sei que não é fácil tanto quanto nós sabemos que vai passar mas nem por isso deixamos de repetir o máximo de vezes que dá para ver se passa mais rápido. Às vezes as coisas ficam muito à flor da pele e a gente deixa entrar um ventinho da janela que chega a doer nos poros todos. A dor parece tão funda e parece ainda mais funda porque a gente sabe que, se não tivesse assim tão sensível, não ia ter dor nenhuma. Seria até bom aquele ventinho no rosto.

Queria te dizer que estamos juntas, mas sei que às vezes você só quer ficar sozinha. Queria te dizer que eu queria que as minhas frases não te machucassem e que eu queria que pudéssemos dormir todas as noites. Que essas tais pedras que temos que botar na hora de construir o caminho às vezes são muito pesadas e que eu percebo quando elas machucam os seus dedos, doem nos seus braços e ombros e eu queria que não doessem nunca, ainda mais quando é uma pedra - mesmo uma pedrinha - que você só pega para me ajudar. Vai ver o bom dessas pedras grandes e pesadas é que ajudam a construir a estrada mais rápido, aí quem sabe chega logo a hora de podermos olhar o contorno e ver como há flores e cores e céu e nuvens em formatos estranhos e tantas outras coisas que não são essa estrada.

Eu quero ver e apontar deseducadamente e rir e sentir o sol das coisas com você. Mas enquanto isso, me dá essa pedra, deixa eu segurar desse lado de cá que a gente divide o peso.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Eu quis cantar minha canção iluminada de sol, quis deixar para você um beijo que não precisasse ser deixado porque sempre junto, mas sempre junto não tinha saudade e a gente tava perdida, caminhando que nem duas meninas no escuro, com medo e sem saber o caminho.
A gente não sabe o caminho, mas já descobriu que tem que colocar as pedras uma a uma antes de passar. E depois colocar os pés, um de cada vez, as mãos dadas, mesmo quando é tudo ao mesmo tempo.

terça-feira, novembro 15, 2011

Rejeição e histeria feminina da Música Popular Brasileira

Há alguns dias atrás, alguns de nós ficaram chocados com dois casos de violência contra a mulher: o da moça de Natal e a outra de Belo Horizonte. Para mim, o que não choca, mas enoja são os muitos argumentos que justificam ou diminuem a proporção da agressão numa hora dessas. Não são poucas as pessoas, homens e mulheres, que ouvi comentando que se elas tivessem sido menos duronas, ou tivessem topado conversar com os caras, as coisas não seriam tão graves. No caso da Dani, me incomoda mais a série de violências que ela sofreu quando solicitou ajuda do segurança e do dono da boate.

Ela deve sofrer de excesso de fragilidade nos ossos...


Como eu disse, essas coisas me enojam, incomodam, mas na real, não chocam. Por quê? Porque violência contra a mulher e a ideia de que todas as mulheres são presas esperando o-macho-alfa-que-não-pode-ser-recusado são pensamentos bastante legítimos em nossa sociedade. Uma evidência disso é uma música que eu venho ouvindo com muita frequência sendo veiculada por uma das rádios mais tocadas no núcleo cult bacaninha do Rio de Janeiro.

Trata-se da canção A Doida, de ninguém menos que Seu Jorge, um dos destaques recentes da mpb, cujas canções eu costumava gostar. O título já revela bastante da imagem feminina que se desenha, não? Não é de hoje que as mulheres fora do padrão são colocadas no saco da loucura, muitos estudos no campo da História da Loucura se debruçaram sobre a patologização do comportamento fora da norma da mulher.

Suponho que algumas pancadas devem "curar" esse tipo de coisa.
A música conta uma breve história que pode se passar em qualquer casa noturna por aí: uma mulher que dispensa um homem. Sim, a personagem feminina aparentemente seduz o pobre coitado do homem à noite toda. Ele, enganado e iludido, paga bebidas - porque, obviamente, aceitar uma bebida é aceitar ir pra cama, como eu não pensei nisso se eu sei, como todo mundo, que toda mulher é prostituta - e depois é abandonado ao relento, pois "a doida vazou" como diz a música.

O sucesso da música para mim está bastante relacionado àqueles argumentos que defenderam os agressores da Dani e da Rhana, já que uma mulher que dispensa um homem (porque um homem é a única coisa que uma mulher precisa na vida, certo?) só pode ser lésbica ou doida mesmo. Porque todas as mulheres devem dar graças a deus todos os dias de suas vidas por terem homens dispostos a "bancar a noite inteira" e os homens, bem eles estão certos de não aceitarem um não, porque, afinal, "eles não são de perder", quando perdem, é legítimo que fiquem p*tos e acabem quebrando alguma coisa - não será culpa deles se essa coisa acabar sendo o braço ou a cara daquela que o rejeitou.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Compromissos, birras e frases ríspidas


Não posso negar que tenho o defeito de me sentir injustiçada. Sabe aquela mania que a maioria dos seres humanos têm de se encerrarem dentro de seus casulos cinzas achando que os seus problemas são os maiores do mundo? Então... Acho que eu passo uma boa parte do meu tempo enxergando moinhos enormes que não me deixam dar sequer um passo de tanto medo. Eu posso até saber que existem sofrimentos muito mais graves, mas, por mais que eu me solidarize com a dor do outro, não tem jeito, é só a minha que dói na minha própria pele. E dói bastante, bem mais fundo que a pele até. Às vezes dói no estômago, noutras ardes nos olhos insones, nas pernas esticadas ou dobradas, a depender das circunstâncias, por mais tempo do que deviam e queriam. Há os momentos de doer nos braços e nos ombros o peso; além das mãos, a escrita infindável (quem falou que escrever não é trabalho braçal nunca teve de dar aula escrevendo no quadro por um dia inteiro). Da cabeça não se fala, a falta de sono, a visão que parece diminuir a cada dia ignorando a minha aparente juventude.

Doem as contas, os prazos, as cobranças, as datas, as horas que passam, os passarinhos que começam a cantar, desaforados e lindos, antes que eu durma, o sol que nasce agredindo, de novo, os pobres e exaustos olhos. Dói a minha ausência de mim, das pessoas que amo e que pouco vejo nascerem, crescerem, envelhecerem. São dores pequenas que se somam e que eu sei que são pequenas e minhas. Não saem das minhas paredes, não são despejadas em cima de ninguém. Não se convertem em lamúrias para amigos - dos quais prefiro mesmo me afastar para não ficar uma pessoa chata e lamurienta. Daí que vem a outra dor, a da incompreensão.

Uma das coisas de que não gosto na vida é quando colocam o lazer na esfera da obrigação. Sabe quando você marca de ir à praia num lindo domingo de janeiro e reclamam da sua meia hora de atraso? Este é só um exemplo, pois nunca tive o hábito de me atrasar. Me entristece que as pessoas criem ainda mais causos e sofrimentos pelas minhas ausências, transformem-nas em ainda mais cobranças como se fosse porque eu gosto que fico noites em claro trabalhando, como se eu amasse trabalhar aos sábados e ter ainda uma vida para resolver no domingo, antes que chegue a segunda-feira e atropele o tempo, criando mais bolas de neve insolúveis.

Dois mil e onze tem sido um ano difícil, de muitas (in)definições que eu espero que passem junto com o calendário. Muitos abismos e poços cujo limo já entranhou na minha pele de um jeito que eu nem sei quantas águas de janeiro serão necessárias para limpar. Mas tenho fé e boas esponjas de banho. O que eu não preciso é de pessoas que agravem mais do que eu os meus problemas. Pessoas que criem cobranças dentro das cobranças quando o papel de amigos poderia (poderia, apenas, pois não acho que ninguém deva nada a ninguém na vida) ser acompanhado de compreensão, apoio, afeto, sei lá, essas coisas que a gente diz em cartas da adolescência e depois ficam perdidas em gavetas antigas. Essas coisas que a gente vai deixando de ser e nem percebe. Quando vê sobram só compromissos, birras e frases ríspidas.


terça-feira, novembro 01, 2011

"Tudo quanto não seja literatura enjoa-me e torna-se detestável para mim porque me importuna ou entrava, mesmo que seja hipoteticamente" (Diários, Franz Kakfa)

Não sei onde quero chegar indo a lugar nenhum nem me pergunto mais se eu sei o que é bom para mim se eu sempre caio nas minhas próprias armadilhas.

Repetir repetir repetir até ficar diferente.