segunda-feira, março 23, 2009

"Se faltar o vento a gente inventa"

[Para ser lido ao som de "Pose (anos 90)"]

O horror não tem detalhe. Não tem minúcia. Não é cheio de explicações. O horror não tem explicação. Não adianta você vir me perguntar como foi e querer que eu fique horas aqui contando. É sempre rápido. O pânico é sempre muito rápido. Eu lembro bem do meu desespero na hora, se o senhor quer saber. Lembro nítido, como essas coisas que a gente dava tudo pra esquecer mas sabe que vai ficar pra sempre aqui martelando.

O senhor já levou uma martelada? Dessas que a gente dá no próprio dedo sem querer? Claro que já, todo mundo já fez isso alguma vez. Mas a dor que a gente provoca na gente mesmo passa rápido. Porque a gente percebe e pára de fazer. Quando é do outro não. O outro nunca sabe da gente e a gente nunca sabe do outro. Não tem essa de se colocar no lugar. Minha mãe dizia, muito certa como só ela, que ninguém sente a dor do outro. Por isso que as pessoas machucam umas às outras. Porque ferir não dói. Só dói na alma de alguns bons cristãos, coisa que pouco existe hoje em dia. Mas pra quem sofre sim, a alma fica doendo essa dor confusa que parece que é pra sempre. Não sei se passa quando morre porque nunca morri. Já pensei que ia morrer algumas vezes, mas deus foi bom. Ou ruim, porque às vezes penso que coisa pior que isso aqui não há de ter não.

E também já vi gente morrer assim bem do meu lado. É esquisito. Não é só a cor que a pessoa perde assim na hora não, ela perde... Sei lá... Vira outra coisa. Vai ver é isso mesmo: vira uma coisa ao invés de gente. Daí você pensa que é brincadeira, ou pesadelo, sei lá. Que vai soprar uma nuvem colorida como de filme e a pessoa volta, acorda como se tivesse só dormindo. Podia né?

Eu ia dizer que não, porque o horror é preto e branco, mas acho que não é não. O horror tem cor até, embora em nada pareça com uma nuvem bonita. Tem várias cores, todas fazendo parte de um borrão confuso. Deve ter alguma explicação da psicanálise, eu acho. Do tipo que a mente apaga os detalhes porque a gente não quer lembrar. Porque é muito ruim lembrar. Eu não sei é que explicação que tem pro fato da cena embaçada ficar remoendo e remoendo dentro da cabeça. Eu não estou nem aí pra psicanálise, se o senhor quer saber. Não quero pensar, sei lá, num homem apático de óculos me hipnotizando pra fazer lembrar de tudo e curar o - trauma. Palavra esquisita. Uma coisa que quebra dentro ou fora da gente, alguém me explicou. Que pode quebrar lá no fundo mesmo. Onde 'tão as coisas em que a gente mais acredita.

Eu, como já não acredito em muita coisa nessa vida... E também, vai que eu lembro de alguma parte que eu esqueci porque era mesmo melhor esquecer? Como uma coisa pior ainda... Deus me livre!

Engraçado como a gente costuma falar em deus, né? Como se fosse uma coisa assim grande. Eu costumava acreditar, mas hoje em dia... Não sei, acho que se ele existiu, foi embora há muito tempo. Que nem uma amiga minha, uma vez ela cansou dos filhos dela, arrumou as malas e foi embora. Calma, todos grandes já. Nada de abandono de menor não. Disse que ou se matassem ou se virassem. Só que aqui no nosso caso com deus, a gente ficou foi na primeira opção mesmo. Deu no que deu.

Eu já me perguntei muitas vezes se seria capaz de matar alguém. Todas as vezes me respondi que não e até agora tenho provado que estou certa sem muito esforço. Não só não me vejo, como não entendo. Eu, que já vi ali do meu lado, tanto sangue... o senhor não calcula. Não entendo mesmo.

O pior é que se o senhor me perguntar tudo o que aconteceu antes, eu conto tim-tim por tim-tim. Quem tava sentado onde, como, com que roupa e que cabelo. Mas do momento em que o desgraçado. Desgraçado não, porque chamar assim parece querer dizer que é um pobre coitado que só passou desgraça na vida e por isso. Pois eu acho é que todo mundo passa por desgraça na vida e nem por isso. Mas do momento em que o maldito - porque estou maldizendo mesmo! - entrou lá. Fico parecendo testemunha jurada de morte que diz que não viu nada, não sabe de nada com medo de. Não é o caso não, o senhor fique sabendo. Que eu não tenho medo da morte não. Tenho medo é do sofrimento que esse tipo de gente causa nas pessoas. Penso na minha mãe, coitada. Vendo a cara da filha dela no jornal sem vida. Uma coisa estampada. Depois de tanto sacrifício, ela ia dizer. Também não foi o caso de não ver não. Mesmo que eu quisesse tampar o olho, o maldito não deixava, disse que era para todo mundo ver bem direitinho que é pra saber como as coisas são. Mesmo que fechasse também, ia ficar ouvindo os gritos e o sofrimento dos outros.

Pois eu vi foi tudo. Só que tem uns detalhes assim que. Parece que tá tudo embaralhado, de um jeito que dá pra saber como é, mas não como ajeita tudo no devido lugar. Não sei quem falou primeiro, quem atirou primeiro. Só sei que tava tudo lá. O circo armado e eu no meio sem ter pra onde correr. Até maldade falar assim, circo é uma coisa tão bonita, não é nada parecido com. Muito grito, muito desespero, eu não sei se na hora cheguei a sentir pena, acho que fiquei mais foi aliviada de não ser comigo.

Mas pensando depois. Agora ainda. Fico com tanta pena. Da menina, da família. Até de mim por ter visto tudo. É duro, né? Morrer assim, nessa idade. Tanto pela frente, ia dizer minha mãe. De graça. Assalto bobo. Estupro. Tiro. Jornal e tudo. E ficar na lembrança dos outros tão assim sem detalhe como ficou na minha. Quando vieram me contar que a pobre tinha marido, filho, trabalho, sonho etc. nem consegui acreditar. Não combina. Não encaixa na lembrança que eu tenho. Um borrão confuso de gritos e sangue. Mais que isso eu não sei dizer, o senhor me perdoe. O horror não tem detalhe.

Pequena fábula metropolitana

Era como se, mesmo depois de tanto tempo, ainda estivesse esperando por algo. Um telefonema inesperado, uma visita, um encontro casual com um velho amigo. Na verdade, apenas algum acontecimento que mudasse a ordem das coisas, que pareciam sempre ocorrer conforme uma programação prévia e meticulosa. Pensava essas coisas enquanto olhava o cinza-mil-tons das ruas. As pessoas sem cor, cujo brilho se reduzia ao suor provocado por aquele calor infernal.

Duas da tarde, centro da cidade. Entre um esbarrão e outro, olhava os prédios altos se perguntando por que diabos eles não produziam uma sombra maior. Chegava a sonhar com uma vida em que pudesse trabalhar na praia, barulho de mar etc. Sem saber que se lá as pessoas não teriam esse brilho cinza, também não seriam mais interessantes - apesar de certamente mais coloridas.

Os excessos fervilhavam por todos os lados. O tal formigueiro que gostava de imaginar quando criança. O lugar onde a vida pulsava de tantos modos, como supunha na adolescência. Hoje, sem imaginar nada, caminhava apressada sob um sol escaldante, com muito mais roupas do que gostaria.

Se alguém a observasse todos os dias, poderia pensar que ela seguia uma espécie de rastro do dia anterior. Sempre o mesmo lado da calçada, dobrando as mesmas esquinas, no mesmo semi-círculo, parando para atravessar sempre nos mesmos pontos. Isto, se alguém a observasse, pois se nem mesmo ela o fazia. Se algum dia, num estalo, percebesse, ao invés de mudar o caminho correria para o terapeuta.

Podia também ser uma fábula de auto-ajuda, na qual ela perceberia que um grande acontecimento em sua vida só dependeria de si mesma. Caso fosse uma história adulta, sairia de seu escritório sem graça, conheceria três caras bonitões e teria uma noite maravilhosa. Na fábula infantil, teria um nome parecido com Kika e descobriria que a verdadeira felicidade são os amigos ou coisa parecida. Mas personagens de fábulas costumavam ser animais. Entreteu-se algum tempo pensando em que bicho seria, talvez uma lebre cinzenta.

Na sua literatura, o mundo foi ficando pelo meio do caminho. O relógio rodando como sempre faz. O final do dia chegou como sempre chega. Kika voltou como sempre volta, pelo mesmo caminho por onde veio.

segunda-feira, março 16, 2009

Passo da Guanxuma

"Eu queria...outra coisa".

"Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por aí levando um violão debaixo do braço".

Alguns novos contos, mas todos ainda muito presos no papel. Um dia quem sabe se rendem, talvez em breve.

Às vezes tenho raiva por não poder amassar o monitor e jogar no lixo.