domingo, julho 31, 2011

Para nós todas as palavras do mundo.

Os olhos embaçados de sono, de falta de interposição entre mim e o mundo, desse vazio que fica aqui quando você não está.

As semanas também são ciclos e o ponto de revolução em que uma coisa deveria ter se tornado o que era antes nesse antes impossível chega diferente, como só podia ser. É sempre confuso, é sempre cifrado, metafórico, perdido, disfarçado e misterioso. Não é por má vontade, não é para construir-um-atmosfera-pessoal, é porque é. Como essas coisas que a gente questiona sabendo que não conhece. Continua questionando e desconhecendo. Um dia muda para uma outra coisa completamente diferente e igualmente misteriosa. Porque indizível. Sempre - e como eu insisto em dizer, fico repetindo: indizível, indizível, indizível. O faço porque sei que as palavras que procuro já não são só escritas nem só virtuais. As palavras têm sons. Você me ensinou que o que eu finjo dizer pode ser dito de verdade. E quando digo, quando escuto o som da minha voz te dizendo e escuto o som do seu silêncio me ouvindo ou o som do meu silêncio te dizendo para o som da sua voz me falando de você, eu sei que você está aqui. E não importa se a gente é assim tão diferente, não importa se a ausência é dolorida, não importa que a saudade vá sempre existir. De perto ou de longe, de passado ou de presente, de olhar demais para o outro lado quando você esteve aqui esse tempo todo.

Eu estou aqui também. Eu, saudade. Eu, ciclos rompidos. Eu, tantas e tantos. Eu-desejos. Eu-algo-menos-possessivo-e-egóico-que-esse-pronome-pessoal-reto. Aberta, presente, palavra, voz, abraço - e todos os outros sentidos que não se separam tanto assim.

quinta-feira, julho 21, 2011

Não fazer é mais fácil. Chafurdar na inércia, perder-se em caminhos cuja direção (sentido?) eu sei tanto quanto conheço a dificuldade em seguir. O problema é que dá um trabalho enorme e ninguém nem disse que seria fácil. Ninguém nunca disse que seria breve, nem que seria possível. Diante de todo esse silêncio do mundo, falo sozinha também. Com as paredes, com os papéis, com as virtualidades viscosas.

E também faço silêncio, também abdico. Ignoro. Aquieto.

Birro o quanto posso, mas no fundo sei que não há escolha, há que fazer.

terça-feira, julho 12, 2011

O quereres

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não

E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão

Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim
a loucura tá sempre aqui
a loucura tá sempre aqui
faz vinte e dois anos
talvez mais
os olhos que ficaram esperando
derretendo
envelhecendo
enverrugando
criando olheiras
todos os dias
todas as noites
todas as luas
todas as tonteiras
náuseas gozos fomes glórias fracassos imagens discursos fumaça trago papel teclado música palavra silêncio mágoa estrago sílaba sentimento companhia solidão boletim aula prova plano de responsabilidade mudança cozinha faxina lixo lá fora ônibus busca perda encontro etiqueta flerte fresta festa flecha cerca ponto ponta beco banco curso exercício filme livro disco chuva sol verão
a loucura tá sempre aqui
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segunda-feira, julho 11, 2011

Não veio. Àquela altura da vida não era mais possível desobrigar-se. As amarrações, ai, as inúmeras, incontáveis amarrações. Todo mundo veria, todo mundo diria alguma coisa caso. E o mundo nem era mais tão grande assim. Fazia tempo os círculos tinham se estreitado, restringido, casca de ovo se aproximando, céu sufocante - de modo que quando dizia mundo, não se referia a mais que uma meia dúzia de pessoas. Ferinas, como só sabem ser as pessoas.

E da impossibilidade sempre surgia a loucura. A vontade-louca. O incontrolável, inadiável, irrecusável. Por isso mesmo não dito, não feito, não sentido.

Vivemos em um tempo em que a fome não mais muito possível. A saída é sempre o nojo do que se come não para matar a fome, mas para não morrer de inanição. Morte pudica, santa, cristã, abdicada. Depois de tantas voltas, discursos, protestos. Depois de explicar vagarosa e insistentemente para tantos ignorantes (mais felizes), subverter as ordens, as amarrações, as normatividades, não é que. Não é que se via agora pensando, mais do que pensando, se via dizendo em alto e bom som que não era mais possível. Assim, como se o tempo tivesse passado, como se fosse uma questão de tempo apenas. Como se o tempo em que parecia que ia dar (sabe quando parece que vai dar?) já tivesse passado, ou nem tivesse existido, ou tivesse passado antes de a gente ter consciência - o que dá na mesma.

Não mais desabafo, palavra só dita em sussurros, como segredo. Nunca mais drink no dance e nunca mais bis. Nem importava, não mudaria mais nada que não fossem apenas closes, não importava que lhe cortassem os pés se já não andava, se o tal tripé ainda estava ali, ainda, meu deus! Tudo no mesmo lugar, a mesma imobilidade - e saber desde sempre, saber que bastava um corte, um rasgo com qualquer pedaço de vidro na face, uma amputação, uma perna a menos. O chão continuava limpo, a tela ainda em branco, variando os planos de filmagem e montagem da mesma cena imóvel e branca. O vazio o vazio o vazio. Esse que às vezes ecoava na cabeça e levava à loucura, mas depois trazia de volta e não fazia muita diferença. Todos os lugares aonde tinha ido não valiam mais de muita coisa, já que voltara ao mesmo lugar.

sexta-feira, julho 08, 2011

Fechou. Ia dizer im-per-cep-tí-vel, assim pausado mesmo. Mas seria uma mentira deslavada demais até para mim. Podia dizer que fechou no mesmo ponto também, como um ciclo deve ser. Eu sei que não é, por isso não digo. Porque não foi.

Fechou diferente. Coisa completamente outra, assim como correr correr correr, correr por horas, subindo ladeira e chegar lá em cima sem fôlego, sem nem saber em que pensar, o que fazer. Não há o que fazer, nem mais para onde ir. Respiro fundo e olho para baixo com um orgulho inconfessável de mim mesma. Foi. Acabou - e nem é verdade ainda.

E parece que quando acaba a gente só pensa no começo. Nas expectativas que eram apenas expectativas e em tudo o que aconteceu depois. Aconteceu tanta coisa desde que eu só queria dormir tranquila. Aconteceu uma espécie de vida, história, estória, História. E não aconteceram tantas outras. Frustraram-se tantos planos, montanha-russa-viva. Tantas pessoas espaços, pensamentos - tantos pen-sa-men-tos.

Nem saberia dizer quem era aquela pessoa que chegou u9am dia tão certa de tudo o que queria querer pelos próximos tempos. Os quereres, os seres, os (a)fazeres e os víveres mudaram tanto. Eu mudei tanto - constatação estranha de cada dia. E fico pensando que se alguém me dissesse, quer dizer, se alguém dissesse praquela garotinha-esperando-o-ônibus-da-escola-e-rezando-baixo-pelos-cantos-por-ser-uma-menina-má. Se alguém dissesse a ela que seria assim... Fico pensando em todas essas coisas que não é possível saber, prever, dizer - eu fico sentindo um montão de coisas. E sabendo que ainda tem muito ainda o que querer e ser. Eu quero.

sexta-feira, julho 01, 2011

Martelo Bigorna (Lenine)

Muito do que eu faço
Não penso, me lanço sem compromisso.
Vou no meu compasso
Danço, não canso a ninguém cobiço.
Tudo o que eu te peço
É por tudo que fiz e sei que mereço
Posso, e te confesso.
Você não sabe da missa um terço

Tanto choro e pranto
A vida dando na cara
Não ofereço a face nem sorriso amarelo
Dentro do meu peito uma vontade bigorna
Um desejo martelo

Tanto desencanto
A vida não te perdoa
Tendo tudo contra e nada me transtorna
Dentro do meu peito um desejo martelo
Uma vontade bigorna

Vou certo
De estar no caminho
Desperto.