quinta-feira, dezembro 11, 2008

Copo de vidro

Foi na hora em que você não viu. Sem ser muita novidade, posto que, não raro você não estava olhando. Por isso mesmo, há de ser um mistério para a vida inteira. Um vento bateu na hora. A força do espírito santo. Um mau agouro. Ou uma mão cheia de vontade pegou com força o copo e o fez espatifar-se com gosto, em mil caquinhos, no chão. Você não viu. Você não sabe. Nunca saberá.

Agora está assim: irremediável.

Copo de vidro não é cobra de vidro, eu bem já lhe havia dito. Mas você não conhece, nunca nem ouviu falar em cobra de vidro e julgava que o copo estivesse bem guardado. E eu, embora tenha na paciência uma das minhas grandes características na vida, não tive paciência - ou foi vontade mesmo - para explicar. É porque você, além de nunca querer ouvir, não entederia. Não é capaz de perceber que se você deixa por aí largado o copo, cheio ou vazio, pode mesmo acontecer dele cair e quebrar. Difícil? Não.

Copo quebrado todo mundo sabe que o remédio único é varrer e jogar fora os cacos. Minha mãe também me ensinou que, depois da tragédia feita, é bom andar calçado porque sempre ficam uns cacos e se pode cortar o pé. Eu aprendi.

Mas então, agora, depois do chão já limpo, você vem para catar os cacos e saber do que aconteceu. Caiu, quebrou, passou. É só o que eu lhe digo.

O chão já está limpo, já disse e odeio me repetir. Eu já estou pronta. Já tenho um jogo novinho de copos de cristal guardados numa charmosa cristaleira - "resiste ao tempo e às boladas que levou". Aliás, vai ver foi isso: umas crianças jogando bola, é assim mesmo... entra pela janela, bate e sempre quebra alguma coisa. A gente grita, reclama com os pais, mas no fundo não liga não. Acha até bonito, engraçado, coisa da idade.

Então pronto. Expliquei. E daí se não é verdade? Podia muito bem ser. Se o que você queria era entender está tudo certo. Agora eu preciso ir, atrasada para um compromisso importante. Você faça o favor de ir embora porque eu já disse - e era o mais importante que, como sempre, você nem se importou: era copo de vidro e não cobra de vidro. Porque cobra de vidro é uma espécie de lagarto que se você parte "dois, três, mil vezes, facilmente se refaz".

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Encontro das águas - Jorge Vercilo

Sem querer te perdi
tentando te encontrar
por te amar demais
sofri, amor
me senti traído e traidor
Fui cruel sem saber
que entre o bem e o mal
Deus criou um laço forte,
um nó
e quem viverá um lado só?
A paixão veio assim
afluente sem fim
rio que não deságua
Aprendi com a dor
nada mais é o amor
que o encontro das águas

Esse amor
hoje vai pra nunca mais voltar
como faz o velho pescador
quando sabe que é a vez do mar
Qual de nós foi buscar
o que já viu partir,
quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir?
Quem eu sou pra querer
Entender o amor

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Confesso (Ana Carolina)

Confesso acordei achando tudo indiferente
Verdade acabei sentindo cada dia igual
Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante
Quem sabe o amor tenha chegado ao final
Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero ou vaidade
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz

Não vou pedir a porta aberta é como olhar pra trás
Não vou mentir nem tudo que falei eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo eu já roubei demais

Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer
Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais

domingo, novembro 30, 2008

"toda mulher é um pouco puta e um pouco lésbica"

http://entrequatropalavras.blogspot.com/

...

O ano passou rápido, afinal...

“Depois que acaba a gente pensa que ele nunca existiu...”
(Para se ler ao som de Você se parece com todo mundo - do Cazuza).

Amor, quando morre, deixa uma cicatriz feia na camada mais funda da parte da alma que fica sob a pele. Uma cicatriz feia, disforme – que às vezes dói ainda mais pelo fato de simplesmente não doer. Dói por não ser possível engolir de volta todo o sangue que dela um dia jorrou. Dói por estar ali, pela pele que nunca mais voltará a ter seu esplendor inocente. Um amor morto nos tira a ingenuidade e nos dá um ar blasé de quem já teve um amor e sabe como é. Um ar de quem sobreviveu não a um naufrágio, mas a uma doença grave e secreta que todo mundo já teve e não diz. Deixa na cara a vontade de esculpir no reflexo a força de continuar, não mais como continuar após o abismo do amor, ao abismo é fácil: todo mundo sobrevive. O difícil é sobreviver ao outro lado, depois do resgate, saudando todo dia no espelho aquela cicatriz de arrependimento.
Um amor quando morre deixa os pés fincados na terra de um jeito. Morre e deixa umas músicas arquivadas na HD, umas cartas rasgadas no lixo, outras queimadas no desespero da raiva e mais umas guardadinhas num canto do armário para serem vistas quando a cicatriz já não for a única e se puder lembrar das coisas com menos mágoa e mais nostalgia.
Um amor quando morre sem atestado de óbito deixa milhões de gritos, palavrões e batidas de porta presos na garganta. Deixa um arrependimento das coisas sem perdão. Deixa uma saudade da cama cheia. Da inocência de se dormir acreditando. Um amor quando morre cria insônia, aumenta o tamanho da cama, o tamanho do quarto, a intensidade da escuridão, até a noite fica mais longa.
Um amor quando morre faz descobrir o gostoso de dormir esparramada, sozinha. Faz descobrir o afago do fundo do copo. A beleza da iluminação disforme da madrugada. Da alegria decadente que as noites não dormidas na rua têm. Morre e um dia a vida ganha cores fortes como não se pensou quando as coisas eram o preto-no-branco de um amor.
Um amor quando morre deixa no rádio aquela música do Cazuza, você se parece com todo mundo... Um amor quando morre, mata. Abre ferida grave, sangra jorra, alaga a cama de saudade e lágrimas, dá ao travesseiro forma de corpo. O sangue um dia estanca. A lágrima seca. A ferida fecha, cria casca, vira cicatriz charmosa que a gente veste no rosto quando vira mais um sobrevivente na vida. Amor quando morre nos faz olhar o céu à noite e ver mais estrelas do que o céu poluído de um amor nos permitia.
Amor morre e deixa a vontade do café forte, do uísque amargo, da noite menos amena. Amor quando morre deixa mais funda é a vontade de amores, que nos amem, que nos matem. O amor não pode ser um*.
*Referência ao verso de Romã Neptune.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Ferrugem

Nas mãos a caneca grande demais para o café. Na boca, o café já meio morno. No pensamento o pensamento de ontem tentando se re-traduzir como quem requenta um café sabendo que, ao prová-lo, desistirá de tomar. Sobre a mesa, uma folha de caderno já meio amassada de tanto lida – no tempo em que já não se escreve a mão, já não se passa a limpo, já não se relê muito as coisas porque o tempo é curto.
No coração (palavra boba mas insubstituível), algumas angústias repetitivas e copiadas sobre o tempo, sobre a temperatura, sobre o vermelho-velho do cabelo. Algumas frases de fato por dizer, alguma sensação de ter ido longe demais, de ter feito um bolo em forno alto. Alguns erros na vida são irreparáveis, imperceptivelmente irreparáveis. Algumas cicatrizes pequenas só a gente mesmo vê. Alguns perdões são impossíveis – se é que existe perdão nessa vida.
O café melancólico, frio e melancólico, da cena melancólica que ela mesma criara sem perceber que a cortina de tanto tempo fechada já sustentava um tom poeirento de vermelho-velho, como seu cabelo.
O que não sabia era lidar com a vontade incoerente, persistente, contrastante com a sensação ora de fim, ora de eterna primeira impressão.
Denise já não era a mesma. Chegava a falar de si na terceira pessoa para minorar a dor dessa constatação. Olhava de longe. Dava-se somente em frases curtas, não mais em gestos arrebatadores.
Denise parada num bar tomando café frio numa caneca grande. Já não queimava a garganta com a pressa de viver. Já não fazia questão de efemeridades.
Envelhecera com a cor do cabelo. O furor intenso que antes a movia parecia estacionado numa vontade de deixar-se opaca, de deixar a vida vir a si ao invés de correr atrás e forçá-la como uma inversão de papéis. As rédeas ficavam pesadas às vezes e a melhor – talvez não a melhor, mas a mais confortável – coisa a se fazer era ficar e esperar. Não como quem toma um táxi na rua, mas como uma estudante que escolhe o ônibus pela cor.

terça-feira, novembro 11, 2008

Ainda no Banco de trás

A mulher escrevia poemas no banco de trás do carro como quem pára e espera o instante em que a água começa a ferver. Caderno e caneta nas mãos, olhar no horizonte e vento nos olhos fazendo-a lacrimejar bonito e sentir-se mais emocionalmente ligada ao fato de estar viva. Esperava um poema como uma primeira bolha da ebulição de seus pensamentos sempre vagos. Nunca importara-se muito em vagar por aí, protegia-se com uma antiga máxima segundo a qual "para quem não sabe aonde está indo, qualquer lugar serve"...

E por isso se deixava fingindo não saber nem se importar com o destino do veículo - apenas o trajeto lhe era indispensável. Acostumara-se a ser levada, acostumara-se a achar saboroso o gosto das estradas, às vezes surpreendentes, noutras reconhecíveis. O que nunca sabia era se a familiaridade se dava por de fato estar num lugar onde já estivera, ou se depois de um tempo começava a achar as paisagens parecidas. Mas isso não fazia lá muita diferença; era como uma fórmula: bastava acender o fogo e ficar esperando, logo a água entraria em ebulição. Uma semi-certeza. Como uma verdade maior que todos sabem mas ninguém diz: a poesia estava no caminho. Não. Nenhuma verdade secreta, subjetiva ou teleológica. Estava no caminho porque estava no caminho. Em cada árvore que passava e não num suposto destino final. Até porque este não existia, era como aquele sonho de "ser em si". Pronto.

Do barulho da chave girando, o tremor do carro acordando, o solavanco natural que invertia a ordem do mundo fazendo todas as coisas andarem para trás só porque ela estava era andando para frente.

Na velocidade, era certo, sempre se chegava aos cem graus e as moléculas-sinapses entregavam-se àquela festa silenciosa e íntima. As linhas preenchiam-se como um coração acalentado. Contudo, o conforto que a inundava quase sempre se parecia mais com o que se tem quando se chega em casa debaixo de uma tempestade - o alívio após o furacão.

Mas uma vez (quase como "era uma vez..."), houve uma enchente grave e não foi possível entrar em casa, o furacão não passou, a água estacionou nos noventa e cinco graus: o papel ficou em branco. O desespero não foi seguido de alívio e a lágrima que caiu - e sequer se deu ao trabalho de pingar no papel para soar mais bonito - não foi por causa do vento nos olhos.

A dor, afinal, era como a de um matemático que após anos e anos de trabalho descobre uma equação ridiculamente irresolúvel. A mulher acabara de perceber o vazio de vagar sem rumo e a falta do que quer que fosse a tragou dolorosamente como se Deus, arrependido de tê-la criado uma vez, ao invés de matá-la resolve-se deglutí-la. Mastigá-la vagarosa e impiedosamente, mas com um apetite genuíno e, portanto, incontestável.

Ali, vendo sua carne amolecer entre os dentes de uma divindade para ela sequer conceituada, a única saída era um ato heróico. Salvar a si mesmo era um imperativo irremediável e inadiável, como qualquer coisa o é quando enfim acontece.

GRITOU.

O carro parou mostrando que não se conduzia sozinho, mas que havia um homem ali. Meu Deus, havia um homem ali! A constatação da humanidade óbvia de outrem afundou sua cabeça torturada num barril cheio d'água. Esse tempo todo se deixara cegar pela idéia de um caminho, de uma paisagem, de umas drogas de móléculas fazendo festa, de umas palavras bobas num papel que jamais seria lido! Como pudera se deixar afundar por essas tolices se todo o tempo estivera diante do milagre maior da existência?

Milagre este que, apesar de milagroso, em sua realidade aparentemente intangível estava era bastante aturdido com aquela história de grito, "pare o carro!" etc. Enquanto ela aturdia-se era do caso de ser de repente tão mais vivo o mundo real e tão latente a necessidade de estar no mundo real quando se está diante de um homem.

Como se de novo a temperatura da água subisse um grau, só por charme, dando a entender que um dia ferveria, mas não agora. Ela saiu do carro. Pois se só encararia se fosse a última saída, que fosse. Ela iria.

Para quem gostava tanto do caminho do vento, o sol penetrou doído nos poros. Tudo bem, pensou, doer faz parte. Com medo de parte ainda ser apenas um pedaço do caminho, espantou o pensamento com as mãos no ar, como fossem mosquitos, de um jeito doce de personagem de desenho animado.

Quase pensou que se fosse uma personagem de desenho animado jamais precisaria enfrentar a humanidade de um homem, mas teve medo de que esse pensamento a acovardasse.

Por um instante, pensou se teria coragem de beijá-lo. Depois, viu o quanto soaria bobo. Tendo a chance única na vida de um gesto grande não seria burra a ponto de encolhê-lo num gesto bobo. Pensou na doçura que têm as impulsividades bobas. Pensou na redução. Sentiu-se menor como quando a lágrima poderia ter caído no papel mas fez questão de cair sabe-se lá onde.

Sorriu ao mesmo tempo vencida e triunfante: troca. Ele trocou com ressalvas. Apesar de um homem, não era fraco. Foi para o banco do carona. Ela assumiu a direção. Seguiram assim o resto do caminho (?!). Ele sendo um homem e ela sendo uma mulher. Não pela obrigação de o serem, mas pela ocasião natural de serem homem e mulher. O vidro da janela fechado quase até em cima. O caderno vazio caído inerte - sozinho - no banco de trás. A água fervente, evaporando.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Banco da frente

"Sou um móbile solto no furacão
e qualquer calmaria me dá solidão"

Não tem mais graça confessar. Não tem mais graça tomar coragem. Não tem mais graça cuspir coragem. Não tem mais graça tpm, tempo feio, dormir até tarde sabendo que terei pesadelo. Não tem mais graça meus pensamentos que ficam meio rimando sem querer. Não tem mais graça.
Eu não estou rindo, está vendo?
Não têm mais graça aposto, vocativo, complemento nominal. Não tem mais graça digitar tudo e dar merda - o troço sumir. Não tem mais graça chorar por razões hormonais. Não tem mais graça se esconder atrás de razões hormonais, de mudanças climáticas, do tempo que corre rápido pra caramba. Não tem graça.
Não tem graça a mesma frase cinqüenta vezes. Não tem graça a morte do trema nem dos acentos em ditongos. Não têm graça as idéias que somem - com ou sem acento.

Sou mesmo um móbile solto no meio do furacão. Girando, girando, girando... até ficar tonto e descobrir que girar também não tem graça nenhuma.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Filmes de guerra, canções de amor

(humberto gessinger)
os dias parecem séculos
quando a gente anda em círculos
seguindo ideais ridículos
de querer, lutar & poder
as roupas na lavanderia...
o analista passeando na Europa...
as encomendas na Bolívia...
nas fotos um sorriso idiota
os dias parecem séculos
e se parecem uns com os outros
como enfermeiras em filmes de guerra
e violinos em canções de amor
a seguir cenas obcenas do próximo capítulo
é só virar a página e o futuro virá...
filmes de guerra, canções de amor
manchetes de jornal, ou seja lá o que for
há sempre uma estória infeliz
esperando uma atriz e um ator
há vida na terra, há rumores no ar
dizendo que tudo vai acabar
(mais uma estória infeliz
esperando um ator e uma atriz)
não tenho medo de perder a guerra
pois no fim da guerra todos perdem
no fim das contas as nações unidas
'tão sempre prontas pra desunião
não tenho medo de perder você
desde o início eu sabia
era só questão de dias
um dia iria acontecer
preciso beber qualquer coisa
não me lembre que eu não bebo
o que só nós dois sabemos
nós sabemos que é segredo
há um guarda em cada esquina
esperando o sinal
pra transformar um banho de piscina
numa batalha naval
agora sinto um medo infantil
mas na hora certa afundaremos o navio
então dê um copo de aguardente
para um corpo sentindo frio
preciso beber qualquer coisa
você sabe que eu preciso
e o que só nós dois sabemos
já não é mais segredo
se alguém, seja lá quem for
tiver que morrer, na guerra ou no amor,
não me peça pra entender
não me peça pra esquecer
não me peça para entender
não me peça pra escolher
entre o fio ciumento da navalha
e o frio de um campo de batalha
chegamos ao fim do dia
chegamos, quem diria?
ninguém é bastante lúcido
pra andar tão rápido
chegamos ao fim do século
voltamos enfim ao início
quando se anda em círculos
nunca se é bastante rápido

domingo, outubro 19, 2008

A livreira.

[sob o signo das ironias sem limites que a vida tem]

Mas também não sei, esse negócio de depressão é forçar demais a barra para mim.
E terapia é menos estético que um chute na cara.
Fato é que se eu me acostumei às amputações de pernas, braços, almas - e me criei, me refiz no processo feio e doloroso que niguém gosta de ver (como um açougue de onde provém as carnes deliciosas) - fato é que na mesma medida ou em contrapartida talvez eu não saiba é lidar com isso de realocar uma perna mecânica.
Admito o quão estranho deve ser andar com isso fingindo-se normal ao invés de um tripé.
Quem sabe agora uma bengala charmosa.
Mas eu permaneço com medo de fazer análise e perder a inspiração.
E não me rendo fácil assim não.
Sempre preferi a morte dolorosa, a angústia dolorosa do processo solitário - mesmo que sempre se tenha com quem contar - a temperatura amena de dar a mão à terapia.
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E o passado bater à porta faz pensar que, de alguma maneira, se estava era o tempo todo esperando por isso. Como uma alma saindo do forno ainda bem quente devorada num rompante. Comer quente dá dor de barriga.
Como um casal que ao invés de continuar de onde parou, resolve recomeçar do zero.
Não sei se tenho talento para espelho. Não sei se para aurora. Se para chute na cara. Sinfonia de silêncio, terapia ou rosa de lá de longe.
Sei que cada dia mais é estranho me publicar. O divórcio dos eus-líricos não funcionou afinal.
Eu tenho talento é para dar aulas de gramática.
Não sei se é/sou reconhecível.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Em ondas salgadas com gosto de vida (e vida não no sentido de certeza, antes uma sensação tateante) eu sorvo em pequenas bocadas teu gosto.

Teu gosto que sequer é inteiro. Até por isso, uma parte justo da minha curiosidade pelas coisas inacabadas. E não-inteiro que eu digo se assemelha mais a um quebra-cabeças bagunçado do que a um copo se enchendo.

Mas na minha ilusão, eu certamente não teria a intenção de arrumar as peças, embora talvez ficasse tentada a encher o copo até a boca só para esvaziá-lo num só trago.

Mas eu não quero.

O meu prazer está antes em afundar minhas mãos lascivas nas suas peças embaralhadas só pela sensação do toque – como mergulhar a mesma mão num saco de sementes.

E se fosse um copo eu venceria meus ímpetos: sugaria um pequeno gole para cuspir de volta em seu rosto bonito. Porque bagunçar as perfeições da vida é uma das grandes perfeições da vida. Assim como embaralhar aleatoriamente cartas bagunçadas.

Isso tudo para dizer que tua perfeição (bem como teus defeitos) me seduzem ao passo que me repelem. Como uma vontade birrenta de desenhar um retrato só para jogar um balde de tinta por cima.

Não entenda mal que isso nada tem a ver com morder e assoprar. Talvez antes disso, com dar-me de graça, com graça e força e depois esperar em troca um afago infantil.

Ou oferecer minha nudez sob máscara e figurino d’uma personagem e esperar de volta tua mais funda verdade. Ou como selecionar uma a uma as palavras de minhas confissões e esperar ler-te num vômito de sinceridade.

E já faz tempo os meus vômitos são provocados pelo dedo na garganta.

E já faz tempo minhas dores são provocadas pelo dedo na ferida.

E já desde não sei quando minha espontaneidade é premeditada.

E já há muito minhas verdades comuns só vêm à tona quando ninguém me vê.

A máscara grudou no meu rosto.

A pintura dos olhos – de riso ou de lágrima – parece permanente.

A roupa ou a nudez são meticulosamente preparadas.

E minha face mais real tem o olhar vazio nas noites de chuva.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Pazes:

"Eu sou uma boneca russa que se abre - uma a uma - e se revela em várias"...

Resolvi que a única maneira de estabelecer uma convivência pacífica com meus "eus-líricos" é divorciá-los.

Eis aí, cada uma num lugar:

- O fundo do copo
http://fundodocopo.blogspot.com

Porque das mesas de bar não sai só filosofia, mas também Poesia!

E porque o fundo do copo - e o fundo do poço - são fonte inesgotável da angústia que me consome, me corrói e que eu vomito em poemas.

- Entre quatro palavras
http://entrequatropalavras.blogspot.com
O espaço aberto para a luxúria da Boneca de Luxo.
Porque sexo não se faz só entre quatro paredes, se faz em palavras.

- E pra Boneca ficam os desabafos em prosa a partir de agora.

domingo, setembro 28, 2008

(chico buarque)

"Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim

Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais"

terça-feira, setembro 23, 2008

Poema medíocre

Eu estou com vontade
de me reescrever inteira.
Reinscrever-me
num molde de areia
pra esperar o mar
vir desfazer.

Remoldar tudo.
Reviver tudo.
E me entrego à pena,
a duras penas
- a trocadilhos infames -,
mas não sai nada.

Tudo o que eu digo
parece piada.
O que escrevo
me soa desejo
de ficar deitada na pedra
esperando
a Vida vir e me dar
de presente
uma nova personagem.

Mas todas as que me vêm
parecem já antes forjadas
ou desbotadas.

Toda minha poesia
de repente
me soa forçada.
Meu caderno
parece vitrine,
minha vitrine,
um caderno guardado.

Até minha psedo-meta-poesia
sobre a vontade de ser
se foi sem final -
me deixou vazia.

Hoje eu não sou é nada.

A razão das coisas (depois de três anos) ou Homônimo

Eu sou uma boneca.

De plástico como as que parecem um bebê carente de mil cuidados. Fácil e boa de brincar. Portátil, companhia ideal para levar por aí. Dessas que já vêm com um sorriso no rosto para agradecer os mimos.

De pano macio. Feita por mãe, avó ou comprada numa loja bem aconchegante. Dessas que você não usa para brincar, que passam o dia inteiro na cama esperando por você, e você vem por saber nela um abraço de carinho morno.

De porcelana fina. Para exibir na estante. Dessas em que quase não se toca, pois, mesmo se tocada, permanece impassível, linda, vívida e indiferente. Dessas que se guarda numa caixa às vezes, feito um tesouro, para proteger do tempo e da poeira; e só abre em segredo, sozinho, para ficar admirando.

Eletrônica, birrenta, de frases poucas e ensaiadas. Dessas que na propaganda parecem irresistíveis, no entanto, rapidamente denunciam sua artificialidade. Por isso você torce para que lhe acabe logo a bateria, ou quebra de propósito como pretexto para deixá-la de lado.

De papel. Desenhada em cada detalhe segundo a sua vontade. Contudo, é a que mais rápido rasga, envelhece, amarela, amassa e vai pro lixo. A vantagem é ser facilmente substituída e também reciclável.

Do tipo Barbie, que insiste em dizer-se adulta, até veste-se como, apesar de comportar-se quase sempre como pré-adolescente.

Do tipo Polly: pequena, meiga, macia de um jeito que dá vontade de brincar pra sempre. Entretando, seus infindáveis acessórios e detalhes são trabalhosos, perdem-se fácil - e sem eles a brincadeira não tem a menor graça.

Eu sou uma bonequinha de palitinho, isso é irrefutável.

Sou uma manequim nua na vitrine vazia da loja fechada.

Se apaixonada, me transformo numa boneca de ventríloco.

Sou uma marionete caída no chão com as cordas cortadas na hora em que o amor acaba.

Eu sou uma boneca russa que se abre - uma a uma - e se revela em várias.

Eu sou um fantoche, quase uma luva, que se pode dominar nas mãos e pôr uma voz desencontrada.

Sou a bailarina dançante que se esconde na caixinha de música.

Uma boneca inflável, com a qual se faz sexo sem nem olhar na cara.

Eu sou uma boneca automática, com a pilha fraca e as funções trocadas. Fui costurada à mão, fabricada em série, esculpida em madeira.

Me cortei o cabelo embolado de nylon, arranquei as pernas, passei tinta a óleo como maquiagem na cara.

Eu sou uma boneca com as mãos mastigadas, a roupa trocada, um pé de sapato perdido.

Uma boneca velha, rabiscada, do aniversário do ano passado.

Eu tinha um manual que algum dono afoito por brincar jogou fora sem ler.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Carta pública a um fim sem começo

"E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Feitiço, transe-viagem, alucinação
Não te enganarias"
(Bandoleiro, Ney Matogrosso)

(Ou nome próprio das coisas imperdoáveis)

Após tempos e tempos, enfim, voltando a conviver comigo. De certa forma, de bem com minhas esquizofrenias, com minhas múltiplas máscaras e faces - e até mesmo com minha artificialidade e as situações com as quais eu continuo sem ter dedos para lidar, sem saber onde ponho as mãos chamuscadas do que eu mesma incendiei. E até mesmo com a mente que se aprende a ordenar no papel de um jeito (quase) inteligível.

É isso mesmo: até com as minhas guerras e com os meus fracassos eu, enfim, me conciliei. Desculpa se eu te magoei, é que eu tranquei mesmo as portas dessa vez. E sei, dessa vez, exatamente de que lado cada coisa fica. A isso a gente dá os nomes que quiser - eu liberdade, você medo. O importante é que cada um no seu dicionário e não diga que eu não avisei.

É que eu aprendi a até no meu suicídio preservar uma parte de mim. E por isso saio sempre, ao menos em parte, ilesa. Desculpe dizer sem rodeio. Calar sem rodeio. Desculpe até mesmo rodear tanto para não dizer nada: é que eu não tenho nada mesmo para dizer.



*Editado em 19 de outubro de 2012.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Sob o signo de Afrodite

O amor é mesmo uma espécie de sacerdócio,
um ritual de falas ensaiadas,
um palco de luz apagada.
O amor é mesmo o que se espera
de um abraço quente no frio,
de um olhar blasé de carinho óbvio.
O amor é mesmo um acaso qualquer.
O amor é mesmo uma dicotomia.
O amor é mesmo impossível a dois
(às vezes melhor a três).
Um jeito qualquer de engolir sem degustar
a santidade.
Um jeito qualquer de denunciar no toque
uma necessidade precisa,
uma vontade ambígua.
O amor é sempre só o primeiro:
os amores são simulacros,
espelhos de um reflexo já desbotado.
O amor é mesmo o corrimão
da escada que a gente desce em saltos,
sem pestanejar.
O amor é um signo.
O amor é um assunto novo e vencido.
O amor é o equilíbrio
entre o que se quer e o que se espera.
O amor é algum tipo de entrega impossível.
O amor é uma instituição falida.
O amor é chato.
O amor acaba.
O amor é uma verruga na memória.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Porque já estava escrito

Eu é que não disperdiço mais minha sinceridade com ninguém. E, doravante, guardo meus orgasmos só pra mim. Na mesma gaveta recôndita que minhas lágrimas. Lágrimas, sinceridades, orgasmos, fraquezas. Todos esses pedaços de alma que eu tenho mania de engolir com vodka pura quando ninguém me vê. Os mesmos pedaços que eu tenho mania de vomitar por aí, ao telefone, quando não bebo o bastante para submergir em mim mesma. Porque dentro da minha umidade eu sou menos frágil. Sozinha eu me prendo menos ao mínimos detalhes.

No fim das contas meu asilo de loucos fica melhor exposto na estante. E a beleza é mesmo ordinária. Eu ao menos... Eu menos.

Na próxima encarnação eu quero nascer forte, mais forte que eu pelo menos. Versão editada de mim. Um dia eu deixo de ser sincera, de ser ingênua, de ser careta, de ser carente, de ser erótica, de ser simples, de ser definitiva, de ser diminutiva e de me pôr na vitrine.

Um dia desses eu me apaço de mim. Amadureço e caio.


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Do dia em que eu compreendi que vermelho e azul são cores complementares. E que habitam em mim, simultaneamente, a freira e a puta. A ousadia e a doçura. A força e a ingenuidade. Do dia em que as borboletas podem revoar o estômago, enquanto lateja a vontade no sexo - e continuar vivendo por vinte e quatro horas.

A freira e a puta encontraram um jeito de conviver conciliadas, ainda que não exatamente em paz.

Me reconheço de repente. Reconheço minhas atitudes e vejo que não é o outro. Sou eu. Meus ímpetos não são reflexos de pré-sentimentos inexplicáveis, meus sentimentos é que são reflexo de meus ímpetos inexplicáveis. E essa descoberta é como a morte de alguma ingenuidade que ainda restava em algum lugar que eu já nem sabia ter; é como perder outra virgindade ou descobrir que minha alma é, não só transcendentalmente ligada ao me corpo, mas é também - e tão somente - minha.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Caso dos dois velhinhos no metrô

Olhou-a. O olhar era triste e azul, quase infantil no meio das rugas brancas na pele rosada, marcas que pareciam dizer mais uma inocência doce do que os pecados e vivências que provavelmente denunciavam. Parecia mesmo uma criança chorosa implorando atenção. De uma doçura gigantesca, apesar de quase imperceptível sob aquela massa corpulenta. E ainda que ela tentasse dissimular a grandeza do homem pedindo ali, silenciosamente, clemência, a pouca distância se via e entendia-se fácil os dois: ela tentando engolir o perdão engasgado na garganta, ele implorando já por tanto tempo aquela absolvição.

A surpresa dos dois era também indisfarçável em meio àquele encontro casual. O estrondo das portas do vagão abrindo por sorte havia abafado o grito de susto que ela também rapidamente engoliu. Alguém que olhasse mais atento veria que desmoronou-se toda no chão ao ser obrigada a reviver num rompante todo aquele sofrimento dado como morto há anos. Pois viu o quanto estava viva sua memória. Do mesmo modo que seu rancor. Não admitiria nunca, mas descobrira também ali o quanto seu corpo ainda estava vivo, morreria afirmando que o palpitar de seu peito era do excesso de coisas que queriam lhe atropelar a garganta e pular em gritos de raiva pela boca. Mas não era. O seu peito explodia era por ver aquele corpo, por sentir-se acarinhada por aqueles olhinhos que, com o passar da idade, como era possível!, só se haviam tornado mais doces. Pensou se o fato daqueles olhos terem ficado ainda mais iluminados não teria alguma coisa a ver com o tamanho do monte de pecados que eles mentiam. Foi a única explicação que encontrou para se confortar e resistir ao ímpeto de dar-lhe junto com a redenção todo o resto de sua vida. Pois foi o que na verdade quis e não disse. Como tantas outras coisas que não disse ao longo dos anos, da distância e do orgulho que a impediram de procurá-lo, de voltar atrás. O orgulho besta, como se diz, que a fez derrubar as colunas de sustento da sua felicidade gritando com uma raiva passada por ódio que ele é quem as fizera ruir com sua traição.

Ao abrirem-se as portas daquele vagão transformou-se em certeza a dúvida-angústia pesando em sua cabeça todo esse tempo: como teria sido se fosse diferente. Todas aquelas tardes que passara imaginando-se ainda ao lado daquele homem, perdoado e satisfeito com ela só, pareceram-lhe o caminho certo que não escolhera. E a raiva que fingia ainda guardar dele tornou-se de si mesma. Como pudera ser tão burra! Altruísta ao ponto de abrir mão de si mesma esperando que longe dela ele se regenerasse, não acreditando no poder do amor – que julgava tão grande e forte – para fazê-lo, feito receita de bolo na fôrma de suas pernas, seu homem. Mas não, deixara o tempo passar, tempo incompetente que não soubera cuidar do seu homem como cuidaria. Tempo que enrugou a maciez de sua fôrma, de modo que agora já não confiava-se capaz de cuidá-lo como ele merecia. Ele, que depois de anos e anos, estava ali – esperando e pedindo. Ele, que diante do susto que provavelmente também experimentara, podendo optar pelo orgulho – e sabendo que se pudesse era o que ela faria – continuara pedindo e esperando.

Nisso já estava parada, em pé, nem muito perto nem muito longe, tentando fingir que não via e, se não funcionasse, que não ligava. Mas era só o pretexto para esperar passar um tempo e tomar um gole grande de coragem que lhe empurrasse todos os impropérios pro estômago e só sobrassem na garganta as verdades tão ansiosas por serem ditas. Ele fez menção de se levantar e, tão rápido quanto pode, ela pensou que, se não lhe saíssem as palavras agora mesmo, o seguiria até o infinito respirando seu ar enquanto a coragem não vinha.

Respirou o mais fundo que pôde, parecendo acreditar que nas profundezas de seu pulmão estariam guardadas as palavras perfeitas e cabíveis. Tentou recuperar alguma parte de seu prumo natural, ajeitou-se com toda dignidade que só os mais velhos conseguem ter. O trem parou. As portas se abriram. Muitas pessoas saíam ao mesmo tempo. Perdeu-o de vista. Desesperou-se vendo esvair-se novamente sua felicidade. Tentava em vão vencer a multidão vigorosa. Vendo-se incapaz, aceitou mais aquela jogada cruel da vida. O vislumbre efêmero de sua felicidade já não doía como antes. Faz tempo havia se acostumado a dor, já não se deixava ferver pelas coisas. Pareceu lógico, apesar de irônico, aquele encontro não passar de um esbarrão no passado. Como encontrar uma foto antiga durante uma faxina. Uma lembrança de quem se foi e já não é mais. Um sonho rápido do que poderia ter sido. Um tropeço qualquer que nos faz voltar a realidade e continuar arrumando a casa. No caso, esperar calmamente a multidão se dissolver e seguir o curso normal de antes. Acostumara-se em sua vida morna a seguir os dias sem pressa, a esperar a morte sem pressa, a viver as coisas uma de cada vez, saboreando cada uma em passos lentos – mais porque aprendera a respeitar a vontade do corpo já cansado do que por ter aprendido a tomar as rédeas de si mesma.

Sua conformidade foi logo dissipada pelo peito inquieto quando, ao chegar ao topo da escada, deparou-se de novo com aquele azul reluzente. Agora tão perto ao ponto de sua alma não ter tempo nem para pensar em fazer o que quer que fosse. Estendeu a mão. O maior gesto de que foi capaz. Gesto esse que dispensava todo orgulho, todas as palavras, todas as conformidades, todo arrependimento, todo o perdão. Gesto que os fazia iguais em culpa e amor. Ela o pedira de volta e ele aceitou. Perceberam-se disso no toque das mãos.

Se algo de bom o tempo havia feito aos dois fora isso: os tornara iguais. Iguais em pecado. Iguais em traição. Iguais em arrependimento. Iguais em solidão. Iguais em sabedoria. Iguais na certeza calma de saber o que queriam. Iguais na firmeza trêmula ao segurarem as mãos. E essa simetria que o fez pedir ingenuamente um naco do tempo dela sem saber que, ao oferecer-lhe a mão, ela lhe havia dado junto todo o resto de seus dias!

quinta-feira, setembro 04, 2008

A outra volta do parafuso (Moska)

Naquele dia senti
Que, finalmente,
Tua máscara ia cair
Definitivamente
Eu estava cansado
De te ouvir mentir
Meu corpo doía de um lado
Minha alma fervia do outro
De novo no mesmo lugar
E eu não queria estar ali
Tenho certeza que tu és o castelo
Onde o meu desejo mora
Mas me machuquei
Quando me aproximei
De tuas paredes de pedra
E tudo que sonhei
Me incomoda agora
Seja qual for o dia
Seja qual for a hora
Antes de pensar em me procurar
Me apague da tua memória
Porque já tranquei as portas
E escondi as chaves
Só não vi de que lado fiquei
De dentro, ou por fora, nem sei
Você me dói agudo e isso é grave,
Grave
Antes de te reencontrar
Sei que preciso voltar
A ser alguém
Alguém que saiba, pelo menos
Tudo aquilo que não quer
Alguém que tente
Atravessar o túnel no final da luz
Pois fiquei cego, surdo e mudo
E agora quero me esquecer de tudo
Pra descobrir em fim o que sobrou de mim
Que ainda me seduz
Se por acaso pensas que
Eu vou me perder por aí
Ainda vou gritar no teu ouvido
Que a vida é um parafuso sem fim
Que a cada volta
Aperta mais
E nunca afrouxa
Para trás
Só então saberás que
Desde o início eu já era assim

Salubridade da alma

“Nessa extravagância, o teatro desenvolve sua verdade que é a de ser ilusão. Coisa que a loucura é, em sentido estrito”. Michel Foucault, em História da Loucura.

A loucura é pois a essência da arte. É o instrumento de que é feita a nossa nova vida imaterial, pseudo-cultural. É da abstração e do mergulho em nossos mais esdrúxulos devaneios que provém o que enaltecemos como genialidade.
O espectro da loucura perpassa a arte há séculos na tentativa de justificá-la. Fico tentada a pensar se a ação não é recíproca: a arte subsiste como meio de justificar a loucura que, apesar de considerada um desvio da normalidade, mostra-se há séculos tão abundante em nossas sociedades; ao passo que a loucura sobrevive como um instrumento do qual a arte é feita, o alimento de que é feita.
O delírio, a imaginação, a inversão e a subversão dos valores morais – entre outros aspectos condenáveis para o bom funcionamento da vida prática – ganham lugar nos palcos, nas páginas literárias, nas telas etc.
Já me ouvi muitas vezes dizendo que escrevo para não enlouquecer. Bobagem. Eu escrevo porque a literatura é o espaço onde posso enlouquecer sem pudor. A dimensão da arte é onde é possível devanear, extravasar minhas alucinações, minhas paranóias, minhas obsessões. Escrevo para viver tranqüilamente minha esquizofrenia. É com as palavras que posso viver minhas muitas vidas que explodem dentro de um corpo só. Nas palavras me cabe bem ora melancolia, ora minhas tolas manias. Escrevo para experimentar meu autismo, minha literatura é meu mundo particular e impenetrável. Escrevo para enlouquecer sozinha e em paz.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Perigoso

Porque a fé é azul,
o amor é cinza
e a raiva amarela.
Porque todas as coisas
só existem quando e porque
a gente precisa delas.
E principalmente porque o desejo...
Ah, o desejo tem várias cores,
o desejo tem várias horas.
O desejo é vermelho,
um puxão de cabelo,
uma cicatriz no tórax.
O desejo é branco,
pratos limpos,
termos claros,
versos tantos.
O desejo é róseo, rígido e calado,
o desejo é até meio azulado
- como bem o são as segundas-feiras -
O desejo oscila entre claro e escuro,
conforme a luz: apagada ou acesa.
O desejo é chuva, é ponto de ônibus,
é banco de carro, rede, chuveiro e chão de quarto.
O desejo chupa, cospe, ou só roça a mão de leve
e depois me põe no colo
e diz o quanto me merece.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Vai, me arranca um poema!
Me arranca no suspiro da pele sob seu toque macio...
Vem, arranca esse poema dos meus olhos,
arranca esse umidecer
que nunca explode em lágrima inteira.
Arranca esse poema preso na garganta,
arranca junto com os gritos de prazer.
Arranca essa sensação que me arranha o peito,
arranca essa metade, essa leveza:
transforma esse instante bonito no grito intenso.
Tira de mim esse cheiro de sexo grudado no suor,
impregnado em mim de um jeito
que já me parece impróprio suar se não for por orgasmo
Tira seu pau da minha boca,
arranca esse gosto de porra
e vê se eu cuspo poesia!
Arranca minha roupa, meu ar, sei lá...
Leva tudo!
Mas não leva esse poema não.
Deixa eu guardar a poesia disso
só aqui dentro de mim.

terça-feira, agosto 12, 2008

Palavra.

Será que existem palavras para descrever esse momento?

Bobagem supor que existam palavras fiéis o bastante a ponto de descrever um silêncio tão puro. Um silêncio pleno. A sintonia plena. A respiração mútua. Talvez o barulho da água caindo na pele seja o som mais próximo de uma tradução, o barulho impossível de ser escrito. Talvez o intervalo entre as músicas de fundo. Talvez o silêncio da hora em que sobem os créditos dos filmes. Talvez o som dos copos brindando. Talvez alguma música alta, tocada pela segunda vez no carro.
Talvez a respiração ao pé do ouvido.

Talvez um misto veloz e confuso de todos esses sons.

Talvez nem caiba tentar descrever ou escrever.

Fica a lembrança indizível. O afeto invisível. O instante indescritível. Um corpo indivisível. Os momentos inesquecíveis.

Será que você vai ler essa cena nas minhas palavras?

Tem coisas que a gente só lê no tom da voz, e não nas palavras que ela profere. Tem coisas que a gente só lê no brilho dos olhos, no toque dos dedos, das mãos, da pele. Tem coisa que a gente só lê nos silêncios puros.

domingo, julho 20, 2008

Conto


Foi. Decidiu. Inteira. Passos lentos. Firmes. Segurando com o sorriso o vento no rosto. Chegando, foi abrindo logo as metáforas bobas, as garras presas no peito.

– É que eu sou...

Parou aí. Sem saber por onde continuar. Sem saber em que pedaço de si estaria a transitividade disso. Pareceu que o alcance dessa definição exigia que fosse ainda mais dentro do que já estava. Se não podia alcançar aquilo, não era. Então não era. E não podia dizer. Querer que dissesse já seria muito. Seria transpor, ir muito além. Um mergulho que ali não acabaria definindo sua vida, seu mais profundo e superficial eu, tampouco sua frase. Não podia dizer! Engoliu em seco. Depois engoliu quente uma parte de fora que confortava. O líquido escuro, quente, amenizava sua culpa de não ver através das coisas. Afinal, não era só ela que não era transparente. Uma superfície inebriante, enigmática.

E ele ali com aquela cara de objeto direto, substantivo próprio com artigo definido e tudo. Com aquela cara tão definitiva e aqueles olhos estranguladores de quem sabia que ela não era nada. E sabia tanto que achava que nem precisava dizer. E não precisava mesmo. Não era nada. Já não tinha como tentar não deixar transparecer também em seus olhos. Então todos os olhos diziam a mesma coisa. Cada um a sua maneira. Seu ar de tudo de um lado. O ar de nada dela do outro. Transparente. Ele denunciando. Ela admitindo. Assumindo a culpa. Se fora ali para justamente despir as roupas de seu espelho – mas agora fugia a coragem, queria até fugir os olhos, desfazer a firmeza com que entrara, trocar o que ele estava pensando até que não pensasse. Isso. Queria esvaziá-lo num grito. Colocar sua alma inteira ali na mesa e esmiuçá-la tanto e tanto até que não sobrasse mais por onde ele ficar inteiro. Tinha de existir um pedaço não imune. Precisava existir.
Já não sabia precisar direito (tampouco esquerdo) a quem se dizia ali tão acalorada e silenciosamente. Quis ficar do outro lado. Quis ter o olhar superior. Ou enviesado. Cega que fosse. E não estivesse mais sob os holofotes invisíveis da sua consciência. Quis até não ter dito nada nunca na vida. Que tivesse resistido ao ímpeto de ser do lado de fora sempre. Desde bebê recusado a repetir os parentescos incognoscíveis. As sílabas de onde se deduz os afetos completamente indizíveis, indecifráveis. Pudera então ter recusado também andar, seguir o caminho inevitável de todos. Não ir a lugar algum que lhe dissessem. Nem saberia compreender as linguagens. Seria imóvel. Com o tempo desprenderia-se naturalmente de ouvir. Primeiro, não decodificando. Depois, ignoraria por inteiro os sons. Então é que seria. Entre todos os sentidos jogados no lixo cuidadosamente, ficaria apenas o sentir. Daí saberia ser intransitivamente, transcendentalmente. Sem olhos ou espelhos. Sem ter de sair de casa para ir se dizer por aí. Sem ter de precisar as coisas inexplicáveis nunca. Pra ninguém mesmo. Sem, contudo deixar de precisar das coisas inexplicáveis. Tão indispensáveis o tempo todo. Para tudo. Dissociando o que levava consigo e tão dentro de si do reflexo externo que emprestava – já não dava! – aos outros a quem dizia-se. Viu também assim que não era só ele. Que não era só para ele. Que o que mostrava ali, gritaria ao mundo inteiro. Estava mesmo gritando ali. Platéia e tudo. Destoando da paisagem. E as pessoas ao redor jamais compreenderiam o poder que tinha de ser. O poder que tinha de não ser absolutamente como a viam ali. Em pé. Olhos cheios d’água. Frase engasgada no meio. Firmeza trêmula da maior atitude que já tomara na vida. E o gole descia queimando a garganta. Queimando a face antes artificialmente ruborizada. Ergueu imperceptivelmente a cabeça. Piscou lenta. A breve escuridão serviu como um suspiro longo que a coragem aparente – e tão verdadeira! – não permitia que desse ali. Resolveu guardar o segredo de sua recente descoberta numa sala escura e deserta de um prédio abandonado em seu espírito. E teve certeza.
Repetiu firme:

– É que eu sou!

E voltou.

sábado, julho 12, 2008

Só por hoje

Só por hoje eu sou vermelho sangue.

Só por hoje eu bato à sua porta vestindo salto alto, alguma coragem, álcool enrubrescendo as faces e peças fáceis de despir no meio dessas palavras fáceis de cuspir no meio de sorrisos leves e de graça. Só por hoje as palavras que você vai usar não importam. Só por hoje eu sou puro personagem. A roupa, o rosto já não escondem - é tudo a mais pura mentira invetada, com toda sinceridade.

Inventei com tanto carinho. Toma! Pra você de presente. Faça bom proveito. Pode roçar assim, bem de leve, a mão no meu peito que hoje eu até finjo incidente. Hoje eu tenho cara de indigente inesquecível, daquelas pessoam estranhas que passam por você na rua uma vez e ficam n'algum canto da memória, no mesmo em que fica o desejo.

Eu sou capaz, hoje, de passar pelo mundo na rua e não ver ninguém.

Hoje eu sou vermelho-intenso, vermelho-brega, vermelho-vulgar, vermelho-sexy, vermelho-ruiva-drogada-de-decote, vermelho-parado-na-esquina, vermelho-lingerie-vagabunda-de-renda, vermelho-liquidação-de-quinta-do-dia-dos-namorados, vermelho-excesso.

(Mas cuidado que vermelho envelhece também feito sangue, enferruja, enruga e fica amarronzado. Um vermelho recém acordado é feio, cuidado!)

Mas só por hoje eu fico hoje até amanhã de manhã.

quarta-feira, julho 09, 2008

Vai ver nem tanto assim

É que a loucura me esconde sob sua máscara do tudo é permitido e as vontades confusas confudem-se entre o desejo intenso de mergulhar de cabeça e o receio (in)constante de macular as imagens perfeitas.
Mas as cenas têm de ser espontâneas...
Não!
Tire essas palavras vulgares da boca, pois elas não lhe cabem. Simplesmente não combinam com o penteado, destoam como cores complementares: há de se ter muita ousadia para usar. Nâo vê? Que elas misturam lados distintos das coisas.

É que despir a maquiagem é mais difícil do que as roupas e minha alma já não fica nua há muito tempo. Por isso tem medo de que, caso a toquem, venha a público o tamanho de sua aspereza. Os meus gestos também não são crus há tanto tempo... E todo esse excesso - "no meio desse excesso, no meio desse excesso" - no meio, nas bordas, nos eixos, nas arestas, transbordando artificialidades desde sei lá quando. No fim das contas, esconde apenas o medo prosaico de ser prosaica.

Já não foi inteira. Já não sabia decidir inteira. Uma parte queria pensar no antes antes do depois, antes do casual arrependimento, da falta de coragem de assumir as vontades escondidas atrás da amnésia alcoólica.
E a parte maior queria amanhecer ali, entre sussurros leves, adormecendo de leve, um carinho de leve...

É que não cabe, como não cabe na boca. Como não couberam as palavras de ensaio, os termos comuns.

terça-feira, junho 24, 2008

(vercilo)

Aonde cresci
do que já vivi
Não me lembro de nada na vida
que mais se pareça com amor
como lembro de ti

Na minha ilusão
O seu coração
é a peça perdida
no quebra-cabeças daquela emoção
que um dia perdi

Flor,
Minha vida tá despetalada sem teu amor
e parece que nada vai mudar
Chuva que cai sem parar
deixa no canto do peito
esse gosto de dor

Vem,
Eu guardei o meu tempo de vida
pra mais ninguém
Seja fogo de palha ou seja amor
Seja do jeito que for
só de pensar em você
já me faz tanto bem

segunda-feira, maio 26, 2008

Retrato na parede

A nossa conta conjunta
De tanta labuta, acabou de zerar
Não precisa votlar para cobrir
Todos os cheques sem fundo
Pode seguir, viajar o mundo
Enquanto espero seu cartão postal
O meu crédito acabou há muito
não sobrou nem ficha
pra ligar no Carnaval
No deste ano vou me vestir de cinza
E chorar meu pranto sozinha
Com cara de quem te espera ainda
Com duas taças de vinho tinto
Visto na fantasia a máscara
da liberdade tão sóbria e vazia
Sua imagem na foto embaça
Ferida por todas as traças
dos anos em que sumiu
Mas hoje, é outra quem bebe a tinta
Do vinho tequila e cachaça...
Em todo esse tempo de só
Fiquei sem vontade e desejo
contente de apenas um beijo
a me molhar a garganta
Mudo dos dias o tempero
equilibro sem ti a balança.

(2004)

quarta-feira, maio 07, 2008

Préférence (com sotaque francês)

O cheiro de novo
Na roupa e no sexo
Embaçando os odores velhos
Das idéias vencidas.

O toque leve dos dedos,
As palavras mansas
Querendo ser os berros
Mais intensos,
As unhas querendo
Rasgar mais que os panos,
Mais que a pele...
Vontade de arrancar
Junto com o gozo
A tal verdade visceral
Que me contam,
Em sussurros ensurdecedores,
Os seios pulsando forte – juntos.
E depois de suor, suspiros,
Banho, abraço e mil carinhos,
Te vestir de boneca,
Te pintar o rosto feito porcelana
E te ver distante,
Os passos tão firmes
Das pernas que sei tão frouxas.

segunda-feira, maio 05, 2008

Olha a gota que falta pro desfecho da festa:

Ressuscitando das cinzas, das gotas, das poças de sangue, de água e de choro. Nem que eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo...

Chico Drummondiano:
A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor
Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amavaCarlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha