terça-feira, setembro 23, 2008

A razão das coisas (depois de três anos) ou Homônimo

Eu sou uma boneca.

De plástico como as que parecem um bebê carente de mil cuidados. Fácil e boa de brincar. Portátil, companhia ideal para levar por aí. Dessas que já vêm com um sorriso no rosto para agradecer os mimos.

De pano macio. Feita por mãe, avó ou comprada numa loja bem aconchegante. Dessas que você não usa para brincar, que passam o dia inteiro na cama esperando por você, e você vem por saber nela um abraço de carinho morno.

De porcelana fina. Para exibir na estante. Dessas em que quase não se toca, pois, mesmo se tocada, permanece impassível, linda, vívida e indiferente. Dessas que se guarda numa caixa às vezes, feito um tesouro, para proteger do tempo e da poeira; e só abre em segredo, sozinho, para ficar admirando.

Eletrônica, birrenta, de frases poucas e ensaiadas. Dessas que na propaganda parecem irresistíveis, no entanto, rapidamente denunciam sua artificialidade. Por isso você torce para que lhe acabe logo a bateria, ou quebra de propósito como pretexto para deixá-la de lado.

De papel. Desenhada em cada detalhe segundo a sua vontade. Contudo, é a que mais rápido rasga, envelhece, amarela, amassa e vai pro lixo. A vantagem é ser facilmente substituída e também reciclável.

Do tipo Barbie, que insiste em dizer-se adulta, até veste-se como, apesar de comportar-se quase sempre como pré-adolescente.

Do tipo Polly: pequena, meiga, macia de um jeito que dá vontade de brincar pra sempre. Entretando, seus infindáveis acessórios e detalhes são trabalhosos, perdem-se fácil - e sem eles a brincadeira não tem a menor graça.

Eu sou uma bonequinha de palitinho, isso é irrefutável.

Sou uma manequim nua na vitrine vazia da loja fechada.

Se apaixonada, me transformo numa boneca de ventríloco.

Sou uma marionete caída no chão com as cordas cortadas na hora em que o amor acaba.

Eu sou uma boneca russa que se abre - uma a uma - e se revela em várias.

Eu sou um fantoche, quase uma luva, que se pode dominar nas mãos e pôr uma voz desencontrada.

Sou a bailarina dançante que se esconde na caixinha de música.

Uma boneca inflável, com a qual se faz sexo sem nem olhar na cara.

Eu sou uma boneca automática, com a pilha fraca e as funções trocadas. Fui costurada à mão, fabricada em série, esculpida em madeira.

Me cortei o cabelo embolado de nylon, arranquei as pernas, passei tinta a óleo como maquiagem na cara.

Eu sou uma boneca com as mãos mastigadas, a roupa trocada, um pé de sapato perdido.

Uma boneca velha, rabiscada, do aniversário do ano passado.

Eu tinha um manual que algum dono afoito por brincar jogou fora sem ler.

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