quinta-feira, maio 27, 2010

Memoração da existência

É sempre tão sintomático.
Explode pelo mesmo ponto,
espirra pelo mesmo poro.
Todas as coisas
às quais não se pode dar nome
corroem as paredes das vísceras,
formam um bolo estacionado.

É também sintomático,
as membranas se alargam
para um parto difícil.
Algo que se rompe,
uma lagarta que enfim se transforma.

Uma volta se completa
e transmuta de estação.

Os ciclos se rompem:
transformam-se
(em espirais novas e coloridas).

quinta-feira, maio 20, 2010

Reencontro

Andando apressada, como todos os dias, atrasada daquele jeito que já não se olha no relógio porque nem vale a pena. Era fim de tarde e o tempo esfriava aos poucos, a temperatura ia caindo a cada baforada de vento nos cabelos. Aquele mesmo viaduto, lembranças rápidas vieram de um outro tempo, um dia agora quase distante. Apertou o passo evitando olhar a paisagem. Inevitável. Olhos abertos e acelerados focaram na imagem assustadora: era ele.
A trilha sonora interrompida voltou à mente sem pedir nenhuma licença. Ele tinha o mesmo olhar penetrante, o mesmo ar despojado. Segurou o próprio corpo com a respiração que faltou. Olhou em volta, talvez viesse alguém, talvez alguém pudesse perceber o que se passava ali. As pessoas passando impassíveis responderam que não, que não viam, não percebiam, não queriam perceber. Uma solidão medonha apareceu ressignificada.
Nos instantes em que o corpo e a mente ficaram retidos naqueles olhos secos e sem nenhuma lembrança em que pudesse se reconhecer, suas sinapses congelaram naquela mesma música interrompida sem pudor. O mesmo medo voltou reciclado, ressignificado. Teve uma vontade incontrolável de ter coragem, de poder fazer alguma coisa, de gritar ou perguntar em tom seco como seus olhos se ele lembrava dela.
Bobagem. Ele nunca lembraria, era só mais uma. Uma manhã qualquer de verão, sem nenhum significado pa-ra e-le - essas duas palavras repetiam-se pausadamente com rancor.
Não conseguiu outra atitude que não tornar a mover os pés, retomar os passos e a pressa.
Só mais uma, só mais um. Um assalto, um assaltante, um momento banal.

terça-feira, maio 18, 2010

Trocando de roupa

Para ficar no mesmo lugar, coisa outra. Para parar e deixar a roda rodar troco outra vez de roupa e fico sempre aqui (sem ter bem pra onde ir, por medo ou preguiça). Acrescendo coisas e restando em casa, cada ciclo uma casa nova, novas cores dessas que fazem o mundo explodir e ficar a sensação de que não podia ter sido melhor.

Escrevo uns versos, depois dobro tudo num origami desconexo. Me guardo em algumas caixas e declamo rimas antigas ao vento. As mesmas paixões velhas, angústias serenas já quase amigas.

Era para ser sério ou ao menos um pouco coerente, mas devo ter nascido sem. É só deixar correr, deixar secar, deixar sair,


e continuar...

Adulteci.

É porque lua tem fase, é porque decorar versos tem cor e deslizes acontecem mais vezes do que nós gostaríamos. É porque retorna no meio do excesso e eu me vejo sozinha além de sabendo andar só. Passei do tempo de andar em bando. Ando em dois, ando em nós - os das cordas que nos prendem de vontade, os dos lençóis, os dos plurais.
As rodas param e a gente desce mesmo se ninguém deixar. Vejo você parada e sorrindo com um algodão doce nas mãos, ciente de que estão mesmo nas coisas mais pequenas as coisas grandes que a gente procura-encontra por acaso.

sábado, maio 15, 2010

Alguns luares depois


Passaram- se alguns luares... vários deles. Alguns a gente viu do alto da roda, mente torpe, coração comprimido para não bater rápido demais, a hora correndo atrás. Lá de cima a nuvem pesada parece maior, negra, intransponível, quase sólida, prometendo um temporal que vai levar tudo. Sem falar dos raios e trovões. Eles turbam o céu anunciando uma chuva que dá medo. A gente se espreme no banco gelado, encolhe os pés, aperta os dedos contra o chinelo velho e segura firme no ferro frio e morto. Preciso de um calçaco!

Morto. Parece tudo morto. Como se o dia já nascesse morto lá em cima. A gente faz tudo sem fazer nada. A cabeça dói, os olhos secos doem, o sono interrompido dói. Não é tempo de muitos sorrisos. O céu "abril-se" fechando o mês e levando alguém querido com ele. Como ele atravessou aquela nuvem tão espessa e fria? Ah... ele devia saber das Ítacas, devia estar tranquilo também sabendo que lá, depois do arco-íris invisível metastaseado por aquele cinza da nuvem deve estar um céu bem azul.

Os sustos foram grandes. Sabe quando o banco balança e parece que a gente vai despencar lá embaixo? Não sabe? Claro. Você nunca foi a um parque de diversões. Você devia ir, vai acabar descobrindo que mesmo quando o aparelho está chato e as pessoas fazendo cara de assustadas, ou de medo, a tortura acaba. O moço sempre vira a manivela e bah! Acaba tudo.

A gente não caiu, nem vai cair. Os sustos foram apenas pedagógicos. A roda parece parada enquanto a morte ronda, mas a gente muda o final do filme. A gente até esqueceu um pouco o que ficou logo atrás dos ombros. Aqueles sorrisos, a-que-les sor-ri-sos! Lembra? Silenciosos comovem, barulhentos fazem a barriga doer e bagunçam os lençois. Bagunça boa... lembra tempo.

É, daqui de cima, pensando bem, não dá para ver direito. As pessos sumiram e só se vê o que é concreto, os borrões do asfalto, as luzes do carro passando rádido. Dentro deles imagino pessoas falando ou pensando freneticamente em tudo o que têm para fazer até virar o mês. Mesmo quando a gente se esforça, se concentrando em abrir bem os olhos não dá pra ver. Não dá pra achar nada que valha a pena contar, descrever animadamente, esculpindo a imagem à palavras, expulsando o mau humor com uma divertida história. Não, não vale a pena insitir naquele tumulto... não se salva nada. Só fica essa angustia... no fundo é bom, não falo da roda, falo da angustia. Alguém me dizia: não deixa água parada aqui dentro. Tão poucopra quem queria dizer coisas grandes, meio patético até, mas bem verdadeiro.

Sobra dentro, a gente começa a se questionar sobre coisas tão banais... Às vezes essa brincadeira de passar o tempo procurando o que fazer, o que escrever, acaba desencadeando uma mania de achar problema onde não tem. Já dizia a mamãe. É... o tédio e a impaciência. A gente não percebe, mas isso vai se enraizando tanto na rotina que depois é pior que erva-daninha pra matar. Xô pra lá! Entra no mar porque a coisa tá feia. Toma um banho de sal grosso, bate na madeira.

Faz uma respiração bem funda, tenta ultrapassar os limites da epiderme da alma, superfície calma? Esqueço sempre as letras...

Enfim, voltam os luares na história. Passaram-se vários, 10, 11... 12! A roda deve ter dado algumas voltas, a gente é que se perdendo em absurdos, não conseguiu anotar nada para contar nas horas de trânsito lento. Eu nem levei caderno... mas você pode sempre escrever em mim. "Me continua..."

Mas tiveram coisas bonitas no caminho, né? Conseguimos quase decorar as faixas de um ou dois shows inteiros. Acabou a pilha, mas hoje tem mais. Carne e osso, à cores e ao vivo. Chega desse papo de morte. Hoje tem 'mais do mesmo', que sendo da gente, não é monótono, é doce. É quase sempre doce. (Preciso encontrar um jeito de riscar o quase). É nosso e transforma a gente em luar.

"Coisas que eu sei - pensou - se eu for eu vou assim não vou trocar de roupa".

Eu vou, mas eu volto. E chego já.

quinta-feira, maio 06, 2010

Sem dizer

Só a loucura. Apesar de e somando tudo, só a loucura. Sempre a um passo do desespero, sempre vestindo e encenando os dramalhões, sofrendo mais do que devo cada coisa. E não fazendo. Não fazer me toma um tempo, um esforço. Dá um trabalho negar tanta coisa e me manter imóvel no meio desse mundo que se movimenta tanto.
O peso de uma verdade, uma conversa - e alguém virá me dizer que não é o caso nem há motivo, já que a verdade não existe. Se preferirem, eu posso mesmo fingir que não existe e posso até dizer que assim será mais confortável.
Mas viver sempre me foi um desconforto tão grande. Porque é preciso viver dentro das engrenagens. A vida só é possivel em relação a outras pessoas. É um rede, ou uma cama de gato para quem preferir. Eu, que nunca soube desvencilhar com talento dos fios, fiquei enroscada de um jeito difícil de sair.
Invento desculpas, provoca uma briga e digo que não estou. Não tenho paciência para pagar a conta do analista.
As tais escolhas que é preciso fazer.
Eu que não peço mais força me pergunto se já tenho mesmo toda de que preciso.

segunda-feira, maio 03, 2010

Sonolento

A semana começa meio sem pedir licença. Os olhos abrem sem força nem vontade e encontram uns borrões opacos pelo caminho que não querem seguir. Aliás, caminhos não faltam, estradas escuras e desertas pelas quais a mulher-que-escreve-um-poema-no-banco-de-trás passa sem nada pensar. O grafite passeia por papéis imaginários que ela representa com a força e a superficialidade que talhou só para a ocasião. Os caminhos são tantos e o sentido - aff - nenhum. Os dias passam voando com o vento no rosto, vendo taxímetros e ponteiros marcarem velocidades que não se julga capaz de percorrer. O corpo se deixa ir pesado para lugares cada vez mais distantes e indecifráveis. O caminho para Aeda é só o caminho. Escovando a contrapelo esse relógio estranho que na verdade se tenta parar mas, quando toca o objeto, a mão submerge na penugem esquisita e predadora.
Aquele homem ainda está sentado à beira da praia sentindo os suspiros da morte lhe fazerem rodopios no estômago. Aquela velha mulher ainda briga com a fobia de dirigir e vê que os dias são círculos concêntricos de raio decrescente fechando-se ao redor de alguma parte do corpo que sempre dói a mesma dor aguda de todos os dias e não sabe precisar onde fica de tanto que parece funda. Um menino brinca de estourar bolhas de sabão sem saber da violência com que destrói os próprios sonhos. Uma adolescente catastrófica acende um cigarro e contempla a fumaça pelo prazer de ter as rédeas de sua própria morte - uma parte de si pensa no homem à beira da praia, já há tantos anos congelado no mesmo tormento.
Nenhum deles sobreviveu a nada ainda. Nem se julgam capazes por circunstância de não mais que meros reflexos de uma página encardida e sublinhada numa estante. A menina fecha os olhos e ainda dança com as garras de seu falcão presas ao bracinho frágil. São só espirais de angústias vagas e, de tão fundas, superficiais. Não quero ir muito longe, nunca quis ir rápido e também nunca saí do lugar. Não preciso chegar ao final para saber o quão perigoso é viver - nem a carência de abrir mão de minhas palavras grandes e neologismos infantis.
Tem uma doçura. Eu sei, embora não possa provar o paladar alheio, que existe uma doçura quase palpável nos sobrevoando. E sei todas as velhas histórias sobre o caminho, a estrada e a distração. Sei da urgência que se imprime na pele enegrecida pelo tempo, calor e esforço.

A senha da roda gigante

Fissura de quem segura muita coisa. Vertigem germinando num mundo que não pára de rodar. Tentando ir junto e fazendo cara de feliz enquanto a náusea da roda me toma. Decorei a palavrinha, mas toda vez que repito, há uma dor funda e estranha na garganta. Parece que até para entrar na roda e rodar (ah, eu não sei como se dança, eu não sei dançar) preciso abdicar dos cem. As coisas se montam sozinhas, sem que eu veja - e muito menos tenha algum controle. Tá lá. Tá tudo lá. Tudo pronto. Mas nem que eu tenha que desfazer tudo, jogar tudo no chão e refazer em cada pedaço o nosso mosaico colorido, não vou me deixar acreditar que a vida vai por si e a gente só vai vivendo. Minha teimosia em ter as tais rédeas na mão que nunca cavalgou me faz desmanchar tudo com a mão e refazer cada grãozinho.