quinta-feira, maio 20, 2010

Reencontro

Andando apressada, como todos os dias, atrasada daquele jeito que já não se olha no relógio porque nem vale a pena. Era fim de tarde e o tempo esfriava aos poucos, a temperatura ia caindo a cada baforada de vento nos cabelos. Aquele mesmo viaduto, lembranças rápidas vieram de um outro tempo, um dia agora quase distante. Apertou o passo evitando olhar a paisagem. Inevitável. Olhos abertos e acelerados focaram na imagem assustadora: era ele.
A trilha sonora interrompida voltou à mente sem pedir nenhuma licença. Ele tinha o mesmo olhar penetrante, o mesmo ar despojado. Segurou o próprio corpo com a respiração que faltou. Olhou em volta, talvez viesse alguém, talvez alguém pudesse perceber o que se passava ali. As pessoas passando impassíveis responderam que não, que não viam, não percebiam, não queriam perceber. Uma solidão medonha apareceu ressignificada.
Nos instantes em que o corpo e a mente ficaram retidos naqueles olhos secos e sem nenhuma lembrança em que pudesse se reconhecer, suas sinapses congelaram naquela mesma música interrompida sem pudor. O mesmo medo voltou reciclado, ressignificado. Teve uma vontade incontrolável de ter coragem, de poder fazer alguma coisa, de gritar ou perguntar em tom seco como seus olhos se ele lembrava dela.
Bobagem. Ele nunca lembraria, era só mais uma. Uma manhã qualquer de verão, sem nenhum significado pa-ra e-le - essas duas palavras repetiam-se pausadamente com rancor.
Não conseguiu outra atitude que não tornar a mover os pés, retomar os passos e a pressa.
Só mais uma, só mais um. Um assalto, um assaltante, um momento banal.

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