terça-feira, abril 26, 2011

Diário de um prisioneiro

Às oito eles desligam o ar condicionado. Às luzes ficam acesas até no máximo 21h15. Já é difícil respirar o mesmo ar daqueles que vemos, perceber que eles têm a mesma cara de desespero do nosso rosto. A angústia de não ter um espelho revira-se de um jeito estranho, dá vontade de não ter nenhum tipo de reflexo, melhor o vazio do que o reconhecimento justo na parte que não queremos admitir de nós mesmos. Ser plural já é bem ruim.

Quando a luz se apaga a angústia maior é a de respirar o mesmo ar daqueles que não vemos. Imaginamos apenas os olhares desesperados uns dos outros. Procuramos o branco dos olhos, a referência de desenho animado sem encontrar nada além das respirações entrecortadas, ofegantes, passando entre si goles de ar feito brincadeira de telefone sem fio.

Enquanto ela não chegar

Quantas coisas eu ainda vou provar
E quantas vezes para a porta eu vou olhar
Quantos carros nessa rua vão passar
Enquanto ela não chegar
Quantos dias eu ainda vou lhe esperar
E quantas estrelas eu vou tentar contar
E quantas luzes na cidade vão se apagar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver
Quantas besteiras eu ainda vou pensar
E quantos sonhos no tempo vão se esfarelar
Quantas vezes eu vou me criticar
Enquanto ela não chegar
Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que
acreditar
Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar

segunda-feira, abril 25, 2011

Medo de tragédias e de seguidores que surgem do nada (mas sejam bem vindos, é claro). Medo de ser vista, lida, exposta. Medo de gatos que destroem a casa. Medo de que a luz acabe, apague. Medo da solidão minha e outra, da distância, do frio da chuva da noite da saudade da repetição da falta de pontos e da explicação gramatical desenfreada. Complemento nominal, regência nominal que carece de preposição embora muitas vezes explicação falte.

Medo a gente espanta com preces e vela para São Jorge - eu tô só esperando, eu vim pra lhe ver. Mas nada vai nos separar daquilo pelo que lutamos nessa vida, nada vai nos separar da paz com que sonhamos tanto tempo.

terça-feira, abril 19, 2011

Como se fosse a primavera (Chico Buarque)

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril

Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
E eu morrendo
Eu morrendo

Lugar de memória

Perseguindo um passado estranho. Paredes que já não são amarelas. Cadeiras coloridas.
Algumas mesmas vozes, alguns mesmos rostos.
Mas alguma coisa mais abstrata, algo que se formou ali. Uma áurea de uma vontade enorme e errante de não se deixar perder.
Talvez eu esteja voltando para procurar. Pode ser que lá seja o terreno confortável onde é possível ter algumas certezas. Artificiais, superficiais. Era bom quando eu ali as ganhava. Só não sei como fazer para construí-las agora.
Vida cíclica, geograficamente cíclica. Trabalhosamente cíclica. Podia ter sido acaso, mas é vontade, esforço, muito esforço até.
Diziam tanto sobre o que seria no dia que fosse rompida a placenta amarela de concreto e grades azuis. Ninguém nunca disse que poderia ter volta. Nem tanto tempo depois, nem tanta vida depois. Volto de um mundo bem maior agora, maior do que imaginei nos melhores sonhos. Espero que lá me deem o direito de contar que.

terça-feira, abril 05, 2011

Sempre a crise do fim e a vontade de fim pela vontade de crise
o fim provocado em começo
o eixo feito de choro
o choro feito de saudade