quarta-feira, agosto 31, 2011

Deu vontade de escrever alguma coisa séria. Mas é que eu tenho preguiça. Tanta preguiça quanto se pode ter às duas e meia da manhã, depois de ter dado aulas durante toda a tarde e preparado aulas durante toda a noite. Pode ser que seja só cansaço misturado ao hábito de ser muito dura comigo mesma. Às vezes eu sou.

Sou quando acho que todas as coisas são grandes e eu não posso transformá-las em pequenas e simples. Sou quando me recuso a ser uma pessoa comum, que simplesmente faz as coisas e vive os dias - tento me convencer de que tudo precisa ter uma razão maior, um sentimento mais fundo. Um egocentrismo mal trabalhado? Talvez.

Mal trabalhado e mal resolvido porque me faz remoer por eras os pequenos detalhes e deixar sempre o mais importante para quando as forças - e o saco, a paciência - já se exauriram. Tudo termina capenga, pela metade, ou não termina mesmo. Transformo as coisas em grandes dramas, pinto de dramas épicos detalhes pelos quais todo mundo passa na vida. Todo mundo passa, sobrevive e parece que nem dói.

O problema pra mim é esse. Para mim sempre dói. Nunca é tão simples. E sempre é cheio de palavras como sempre, nunca. Como uma descrição de uma criança de quatro anos de idade.

Acontece que a paciência acabou até para a explicação cotidiana de que tudo (olha ela aí de novo) se resume ao fato de que eu sou uma criança mimada. Acontece que tudo não existe, nem fato - e se espremer muito, nem explicação, eu ou existir.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Asas cortadas


Me transformando em um cisne e a dor é necessária. Tudo é necessário, perigoso, divino-maravilhoso - na música é claro. Na vida real é a pele se abrindo, a carne rasgando, os rasgos alastrando em dor insuportável. Valerá à pena? Perguntaram. Alguém respondeu com um verso escrito à caneta bic roubada e já falhando: Ritos de passagem passam; há-que passar. Parecia um provérbio antigo ou sorte de biscoito oriental. Desses que não faz sentido porque faz parecer que a nossa vida devia ser maior do que realmente é. Devia ser mais cifrável e dizível em provérbios.

E a alma? Se perguntou de que tamanho estaria agora. Teria crescido ou encolhido nesses tempos todos? Essas coisas de penas, almas e valores eram muito para ela. Eram muito à essa altura da vida quando não se tinha quase nada. Só tinha uma meia dúzia de palavras que poderiam ter sido grandes num passado, mas já lhe tinham chegado gastas e desbotadas. Não tinha muita cor nem para onde correr.

Entrou no carro esperando estradas longas, noites frescas, ventos revigorantes. Faltava dar a partida. Não tinha carteira, gasolina, mapas. Não tinha nada além das asas que cresciam discretas ferindo as omoplatas. Tinha que matar uma parte - era o que pensava enquanto saía batendo portas pequenas demais para o tamanho de sua fúria. Quis correr por dentro de uma floresta densa ou um campo aberto até as pernas obrigarem a parar. Quis sentir o pulmão vivo, ofegando, pedindo para continuar vivo, mostrando que lutaria por mais um fôlego cada vez que fosse necessário.

Do lado de fora do carro o concreto lhe sorriu irônico. Muitos carros não lhe sorriram nem expressaram nenhum sentimento, parados sobre o asfalto. Uma viatura da PM à certa distância mostrou que não teria dado certo dar a partida no carro. Também não havia para onde correr. Nenhum precipício no final da floresta imaginária.

Os pés ainda agitavam-se pedindo passos firmes, fortes, ritmados e constantes. Ou que levassem a algum lugar apenas. Qualquer lugar. Que a levassem. Já não queria estar ali tão presa no desespero tão interminável, escuro, envolvente. Caiu de desespero no chão frio. Quando percebeu, tinha uma lama pegajosa em volta. Percebeu que era ali que devia estar e a opção era descobrir que um dia as asas terminariam de crescer. Doeria muito? Demoraria muito? Perguntaram. Ninguém respondeu.
Sempre uma tentativa de reconciliação. Sempre uma vontade de reencontrar o que nunca tive. a tal sensação impossível de estar em casa no mundo. Aceitar o passado, simples-fazer as coisas, o que é preciso, todo o tempo. Fazendo no automático? E o sentido, como faz? Vai pra onde? Eu já nem quero uma série de coisas e preciso sim de respostas externas porque de dentro parece que é tudo loucura. Sempre é e sempre tem palavras grandes na falta de achar o tom e a conciliação também com as coisas e palavras pequenas. Pequenos prazeres, pequenas coisas. E tudo deve passar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Falta a abdicação do ofício. O arregaçar as mangas e assumir o esforço - e depois o risco. Falta entender que escrever é reescrever, treescrever, talhar palavras num trabalho que não tem a beleza, a áurea que se imagina. A vida mesmo não tem. Não tem glamour no processo. Falta a conformação para encontrar a beleza pura, a beleza real de assumir as próprias imperfeições. Como olhar no espelho, como ver surgirem os calos nos dedos, as olheiras nos olhos.

Como um exercício escolar, diferenciar a estética do belo. Aprender a função que têm nas palavras e que função não se desprende do maior.

(E eu tão pequenininha...)

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Pânico de saber o que há do outro lado. Improvável que haja um outro lado, mas só há um jeito de descobrir e a cada dia mais inevitável. A coxia a cada hora mais distante e irreversível. Como um cerco se fechando, que fecha também mãos frias e cordas ásperas no pescoço. Pescoço fino, frágil, não deve ser difícil de. É tudo uma questão de oportunidade e jeito para.

Não tem mais como ficar apenas espiando do lado de cá. Espiar é feio. Ficar olhando de esguelha, a cara cheia de vontade, as mãos suando pavor e covardia. Não tem muito jeito, não tem mágica, só o abismo de sempre sob os pés. Medo de cair no poço. Maior ainda de fazer casa, costumar, aconchegar-se, como já está tão perto. Pânico completo. Um pouco de ocupação salvaria. Vontade zero de fazer o que precisa ser feito. Longe demais da cabeça a convicção de que algo precisa ser feito.

Uma ansiedade pousada na boca que os outros chamariam de natural. Uma vontade de um milagre, de que as coisas não dependessem de um grande gesto. Que não dependesse de pequenos, árduos, cotidianos e muitos gestos. Saber que não virá de lugar nenhum uma salvação não melhora a vontade de ficar esperando que venha. O chão vai subindo em raízes grossas pelos tornozelos finos, apertando aos poucos, bem aos poucos, de modo que quase não percebo o quanto será difícil se eu tentar me mover. Por via das dúvidas não faço. O corpo todo imóvel. A mente fingindo fazer mil viagens - parada na mesma estação cinzenta, mais ainda à noite. Uma espécie de bruma junto ao cenário confuso em que cabem portões, grades, locomotivas e cortinas de teatro.

O tremor que se alastra e domina seu corpo que nem parece um corpo transforma a imobilidade num paradoxo estranho. Não sei o que fazer, para onde ir, olhar, seguir. O que fazer quando a única coisa a fazer é o que menos é possível e desejável? Onde fica a modalidade de vida em que as perguntas têm respostas?

Dormir parece uma solução, mesmo que sem um veneno definitivo, há sempre a esperança de desinverter alguma coisa e que o lado contrário é que seja o real - isso que não existe. As fronteiras curtas e as frases longas de sintaxe incompreensível fazem pensar em borboletas, em cores, em labirintos onde não se sabe se surgirá uma figura mitológica e salvadora - Ítalo, fauno, chave de portal.

As coisas se misturam, reviram o estômago. A sensação de que tem algo que precisa ser expurgado de um lugar menos físico. Isso que chamamos de vida não cede aos meus pedidos de desaceleramento, não adianta pedir em tom religioso quando não se tem uma fé convincente. Retórica e humanidade demais. Se fosse o caso de ter engolido algo, mesmo sem querer, era só expelir, expurgar, vomitar. Mas a vida não se resolve mais com náuseas programadas. É maior, é mais fundo, é mais irreversível quando o reverso só pode vir de um lado.

E o que mais irrita é esse espécime muito estranho de consciência. Saber como falta ilusão pleonástica e necessária de poder.

Tão vazia e tão desejada de uma ilusão verdadeira.

Os prefixos de dissolução são apenas prefixos e segredos partilhados.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Antes de começar

Abri janela para o sol entrar
Mas era a chuva que estava por vir
Liguei o radio para disfarçar
Mas não tocou o que eu queria ouvir

Peguei um livro pra me distrair
Mas as palavras não estavam lá
Troquei de roupa pronto pra partir
Mas não consigo sair do lugar

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Tranquei a porta pra me esconder
Mas escutei batidas no portão
Desci a escada para atender
Mas era só minha imaginação

Fiquei num canto pra ninguém me ver
Mas ao meu lado estava a solidão
Fechei os olhos pra não perceber
Mas ela estava no meu coração

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar
Antes de começar
Ahhhhhh

Telefonei para um amigo qualquer
Mas do outro lado não encontrei ninguém
Pensei, ok, venha o que vier.
Mas não estava vindo nada bem

Tentei quebrar os santos no altar
Mas me senti um pouco Talibã
Eu quis mandar a casa pelo ar
Mas ela pode voltar amanhã

Eu sei
Que já não adianta forçar
Quando um dia termina
Eu sei
Que não há o que se possa mudar
Quando um dia termina
Antes de começar

quinta-feira, agosto 04, 2011

Eu deveria gritar, mas só queria uma resposta, um sinal de aprovação. Já perdi o lado artístico há muito e não sei se é possível encontrarem mais do que uma atualização de status onde se procura poesia. Não tem mais. Eu demorei a admitir, mas sei que não tem. Deixei perder, secar, verter, escorrer, foi-se. Foice afiada dos dramas longos, das metáforas bobas. Não adianta dizer que uma coisa é outra, a coisa não deixa de ser, nem fica menos incompreensível. Nem mais palpável. Continua tudo sem a menor possibilidade de toque, um passado que se busca na procura impossível, com a pureza que está sempre se pondo. Saber que não há onde chegar tira o tesão da viagem. E eu já nasci desacreditada. As graças do percurso só servem para os mais ingênuos, eles não sabem que vão morrer, eles não sabem que não é possível voltar e que não faz sentido buscar a reconstituição. Eles não sabem que eu sei e que saber não valeu de absolutamente nada. Eles não sentem a minha prisão incongruente.
O desespero de já não saber onde começou. Como se identificar o ponto exato de origem pudesse fazer diferença, como se pudesse existir origem, como se o grande e maior problema de todos não fosse justamente o oposto. Não de onde viera, mas para onde estava indo. Agora, parada na estação, tinha certeza de que para lugar nenhum. Todos os dias parava diante da bilheteria e ensaiava a compra. Sem nem mesmo ultrapassar as grades, já que não tinha um bilhete que lhe desse a permissão, via a velocidade ir ganhando aos poucos as locomotivas que se transformavam em borrões escuros. Imaginava quem estaria dentro remoendo a inveja e a própria incapacidade de escolha que pulava em seu estômago dolorosamente, todos os dias, à frente da estação.

Tinha medo da poeira que lhe sujaria a cara durante o trajeto, medo de que este fosse mais demorado do que poderia suportar, medo dos enjoos que o balanço dos vagões teria, medo de que não chegasse, afinal. Medo de que, se tentasse, se comprasse a tal passagem, se apostasse todas as suas fichas, aplicasse todo seu dinheiro e esforço, levasse toda a bagagem que passara a vida arrumando, mesmo assim não fosse capaz de chegar. Medo de que soubessem também os outros, como ela já sabia, que não poderia. Ela enxergava mais do que os outros de si mesma e sabia que a compra do passe seria apenas como atravessar as grades, a única diferença é que veria os trens sem os recortes de metal listrado, mas não mudaria o fato de que ficaria ali apenas os observando partir. Com o agravante de que perderia junto a liberdade da rua. Ficaria do lado de dentro das grades e do lado de fora do trem. Quase um limbo, a mais detestável das posições.

terça-feira, agosto 02, 2011

O doce e o amargo

O sol que veste o dia
O dia de vermelho
O homem de preguiça
O verde de poeira
Seca os rios, os sonhos
Seca o corpo a sede na indolência

Beber o suco de muitas frutas

O doce e o amargo
Indistintamente
Beber o possível
Sugar o seio
Da impossibilidade

Até que brote o sangue
Até que surja a alma
Dessa terra morta
Desse povo triste

Carece de perder o medo. Desamarrar os muitos fios de receio que vão cercando e embotando a ação, embotando a escrita, borrando as palavras em lágrimas, separando a literatura do sobre a literatura. E não fica nada, no final não sobrou nenhum algo além da garrafa. Contando as páginas, as palavras, mecânico, técnico, examinável. (A gata quer passar por cima do teclado)
São metáforas, não passam de metáforas. Dar a uma coisa o nome de outra. Metáfora-antítese. Dar a uma coisa o nome de uma oscilação de duas outras. Dar a uma coisa um nome. Saber que o nome tem significados. Dar vários nomes para não ser um único. Não existe singular. Contra a restrição. À guisa de manifesto. Querendo festa e fim. Difícil... Por hora só trocadilho.