quarta-feira, junho 30, 2010

Polissilábica

Uma sinestesia. Depois de mais vinte e nove dias que são trinta e um, uma sinestesia é que encontra as pessoas que não estão mesmo procurando nada. Sem procurar a gente encontra muita coisa no caminho. Se espanta, se assuta. Cai, tropeça, levanta, abraça, segura na mão da outra para se erguer. Sem procurar nada a gente ergue bem alto uma coisa muito grande. A gente procura e procura muito, procura o que já achou. Procura a cada dia não perder as rédeas, não perder o caminho, não perder as pedras bonitas que desenham as trilhas, procura não deixar que as migalhas marquem o caminho de volta. Não tem volta, tem vontade. Tem uma vontade imensa de ficar. Essa que nos fez construir esse refúgio tão perto do céu e das borboletas no meio da sala junto com o nosso retrato. É porque, mesmo que não soubéssemos antes, era um sonho junto. A mente aberta e o coração aquecido pelo conforto das paredes do penhasco. Aquela luz mansa metamorfoseou-se muitas vezes até virar esse nosso sol de noites de lua cheia que une olhares perdidos no infinito ao mar incansável. Nesse abraço se fez um ciclo que não tem fim - e é só mudar o jeito de ver. Criou raízes que se alastram e quebram o chão para se enroscar. A gente se transformou muito ao longo desse tempo - porque mudar é viver cada segundo - nos transformamos em luares, em ventanias, em arco-íris, em plurais, correntezas, em sóis a pino. Aprendi a vestir o meu melhor sorriso e ver o seu que faz tudo ficar bem e certo. No meio de tudo o que aprendi ainda não sei o jeito certo de tirar do seu olhar essa neblina, mas não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo, minhas mãos vão estar coladas às suas - eu juro que não vou soltar.

Casa no Céu (Isabella Taviani)

Eu vou comprar uma casa no céu
E mandar mobiliar como gostamos tanto
Tudo tão branco
Borboletas por todos os lados
Visitando um jardim perfumado
E no meio da sala
O nosso retrato

Tudo que sonhamos juntos vamos conquistar
Basta ter a mente aberta
E um coração bem quente pra acreditar
Meu anjo lindo
Bem no alto da montanha
Eu vou plantar nosso lugar
Nosso eterno lar
Onde as raízes vão pra sempre se enroscar

Não precisamos de luxo e riqueza
Tenho você meu tesouro
Que beleza!
Só por você eu insisto
Lá teremos os nossos dois filhos
E se não for possível abriremos as portas
Pros bons e velhos amigos

quarta-feira, junho 23, 2010

A última folha de papel

"Escorreu pela escada, não foi? Só quero que você me responda essa pergunta simples. Só quero saber como foi que acabou, quando foi embora. Em que momento que uma coisa - se é que se pode chamar de coisa - foi substituída pela outra. Sim, porque tem de haver um momento. Um instante em que você viu o céu fechar e no meio de uma cegueira enorme aquela ilha que julgávamos ter descoberto foi inundada. O inverno se mostra no espelho e é como se me tivessem tirado uma parte que eu não sabia mas nunca foi minha. A singularidade de tudo isso é o que mais choca. Porque o costume me diz um plural que eu não vejo mais quando acordo ou quando deito esperando um sono que nunca chega. É preciso ter sonhos para dormir em paz."

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Não era nada daquilo. Rasgou o papel com uma raiva que era apenas do papel e de si mesmo, porque dela não conseguia sentir. Ou melhor, não conseguia era deixar de sentir tudo aquilo que até a véspera parecia ter significado e sentido. Agora tinha uma confusão de vazios, um papel com umas boas bobagens suicidas ou assassinas ou demasiado piegas, e uma caneta ameaçando falhar.
Pensou em muita auto-ajuda e em experiências passadas a que tinha sobrevivido. Pois é, não é que estava vivo para passar por aquilo tudo que já nem se imaginava capaz.

Depois de chorar como uma criança por duas noites e dois dias ininterruptos, tinha decidido usar um papel e caneta para tirar aqueles sentimentos disformes e sem nome de dentro de si.Nem que fosse uma escavadeira ou um bisturi, concluiu débil. O pior de sentir uma dor é saber que ela é só nossa.

Não tinha nada a fazer além de limpar com um pano incardido a tinta da caneta que acabava de estourar em suas mãos respingnado por todo o chão e manchando o papel sem endereço certo.

terça-feira, junho 22, 2010

Orgulho

Acordada sob um balde de água fria, ela não soube fazer nada diferente de buscar os esquecimentos de costume. A pele gelada de susto, os poros eriçados em alerta, os olhos ainda cambaleantes. Sacudiu o corpo todo num calafrio involuntário, tentativa de recobrar o ritmo. Piscou lentamente tentando entender o que lhe faziam.

Quis se encolher sob uma coberta já inexistente, aconchegar-se num colchão agora molhado e tão rápido! frio.

Ainda deitada, olhou para a madeira escura da porta imaginando o que estaria do outro lado. Não teve coragem de levantar e abrir.

segunda-feira, junho 21, 2010

É a impressão que ela dá

Me perguntaram outro dia - embora a pergunta não tenha sido diretamente para mim, tomei as dores - se eu mataria pelo que escrevo. A pergunta soa muito forte e fiquei sem saber o que a pessoa queria ouvir como resposta.

Eu nunca fui nada a ideologias nem nunca gostei muito de defender causas. Talvez nunca tenha encontrado uma grande o bastante que merecesse meu esforço todo. Fato é que no meio de todo o meu ceticismo, olhei para o meu caderninho (onde não escrevo lá grandes coisas) e percebi que eu queria que a resposta desejada fosse que sim, que eu mataria pelas minhas idéias.

Fiquei com uma séria indignação quando percebi que a conversa continuava no clima, o problema é matar pelas idéias. Não cheguei a entrar no mérito da violência ou do direito que uma pessoa possa ter ou não sobre a vida da outra.

Olhei para dentro com toda superficialidade que um momento público me permitia e não vi idéia nenhuma. O problema não era a minha gana assassina (que toda vez que eu vejo uma barata descubro que não tenho) o problema é a total falta de pelo quê lutar.

Nunca achei que as bandeiras que vejo por aí levantadas serviam para mim. O mais perto que já cheguei de levantar alguma, foi uma com um arco-íris bem bonito. Confesso que as cores pareceram me proteger com uma áurea brilhante e justificada, mas com o tempo estava eu bebendo do mesmo copo dos meus inimigos.

Não digo que me vi nua, pois essa seria uma situação confortável para mim. Me vi sem reflexo, sem ter o que pintar no rosto em tempo de festa. Sem ter o que defender.

Eu posso defender algumas pessoas, as que amo, principalmente. Mas as tais das idéias de que falam naquela cena inicial de V de Vingaça ficam faltando.

Quando o tal do professor (ops, denunciei...) perguntou se alguém ali mataria pelo que escreve, eu, com as poucas coisinhas que escrevo, tive vontade de dizer que sim. Mas no meu silêncio, cantarolei uma musiquinha pouco conhecida: "nem sempre faço o que é melhor pra mim, mas nunca faço o que eu não estou afim de fazer. Não viro vampiro, eu prefiro sangrar. Me obrigue a morrer, mas não me peça pra matar").

quarta-feira, junho 16, 2010

De bicicleta

Não é uma questão de sentimento. É orgânico. É um (des)equilíbrio químico. É a onda cíclica (?) que assombra em períodos eventuais e vem dizer que vontade não é uma questão de escolha. É a pulsão freudiana no sentido de que pode ser resolvida com pílulas mágicas - vai depender da dosagem o veneno-remédio.

Ela faz a revolução sem saber que sentido usa para a palavra. Muda tudo sem saber que volta para um mesmo lugar - a cada volta aperta mais. Um mesmo ponto e pela mesma razão. Alguns sabem que não é ela que determina a tal da humanidade, nenhuma outra coisa que não aquela habilidade de pegar um objeto com os dedos em oposição.

O que isso significa? Que talvez não dê mesmo para pegar nas mãos o tal do controle da própria vida. Não dá mesmo para achar que é só escrever o roteiro - é outra pessoa quem vai filmar, são outros os que vão cuidar da fotografia, da iluminação, da trilha sonora, da atuação e até mesmo da escalação do elenco.

Não é só o tempo a areia seca que escorre por entre os nosso magníficos polegares opositores.

Pequenas faltas de sentido e a gente vai para onde tiver espaço, para onde nos levam os meios de transporte.

Querendo viver sempre em alta velocidade só para ter o vento no rosto. O perigo é não saber medir os perigos na hora certa. A velha história da altura do tombo.


Mas para quem crê que não há caminhos, esse é o único caminho.

segunda-feira, junho 14, 2010

Um ciclo

Não adianta esperar que venha alguma coisa. Nunca acreditei em culpa, por que passaria tanto tempo esperando a redenção? Os dias passam, os anos passam e na falta de em que se apoiar, a gente vai conquistando pequenas crenças. Adquirindo alguma fé para manter a esperança. Criticando toda a velha moral cristã, não passamos de pobres perdidos esperando alguma salvação. Procuramos algum caminho mesmo com essa certeza aguda de que não há caminho nenhum, não há salvação nenhuma. Ítaca nunca existiu e cabe a nós escolhermos se queremos olhar pela janelinha ao longo do caminho. Houve tempo em que eu preferia o vento nos olhos. Falta disposição para engolir - e as coisas sempre ficam estacionadas no estômago. Falta uma disposição bem maior para peneirar a gosma. Fazer a escolha definitiva entre o querer e o não querer. Ter a coragem de enfiar o dedo na garganta. Escrever não dói. (Peneirar a gosma sim).

segunda-feira, junho 07, 2010

Cultivo do desenlouquecimento ou Cinco anos, muleque!

Há 21 anos estou tentando me sentir em casa no mundo e há cinco construí esse meu mundinho daqui - que já mudou de cor e de cara muitas vezes. Era um jeito de tentar pôr ordem em alguma coisa dentro de mim. Criar uma espécie de disciplina para escrever, mas nunca deu certo. A idéia inicial era conseguir transformar os meus desabafos em coisas compreensíveis para outras pessoas (a pretensão mais vã e ingênua de todas). Fato é que tenho conseguido descobrir aqui muito mais do que na terapia, por exemplo - não contem a ninguém, mas acho que não sobrevivi nem dois meses a ela, comecei a faltar às consultas e a simplesmente não atender aos telefonemas do tal do psicólogo (será que ele se achou fracassado por isso? será que ele insistiu tanto porque queria me internar?). Pois é, são cinco anos...
Sei que algumas pessoas devem ter a esperança de que este post seja, afinal, uma tomada de consciência: se nada funcionou em cinco anos, ela finalmente vai dizer que o blog vai sair do ar. Sinto decepcionar, mas não é o caso ainda. Olha, que ao longo desse tempo eu pensei muitas vezes em apagar, excluir do mapa esse lugar que nunca existiu. Mas nunca consegui. Essa boneca confusa que às vezes vos escreve se tornou uma parte imprescindível de mim. Já tentei matá-la muitas vezes, mas acho que isso seria cruel demais. Logo agora que aprendemos a conviver tão bem. Essas bonecas, que sempre se mostram mais e mais russas - acabam sendo o desdobramento das coisas que vou descobrindo sobre mim. É um livro aberto muito do particular esse aqui, e acho que faz parte do charme e das minhas loucuras não ter muitos leitores (será que ainda tenho algum?). Sempre escrevi muito mais para mim mesma do que para um leitor imaginário. Não quero me fingir de desvaidecida e dizer que criei um blog (quatro!) para ninguém ler. A escrita é uma arte que só se completa na leitura - é assim que sempre pensei: "a verdade das palavras está na alma de quem as lê". É claro que com o passar dos anos deixei de acreditar em verdade, mas descobri muitas coisas mais pelo caminho. E uma parte do caminho vai continuar sendo traçada e testemunhada aqui. Não sei a quem devo agradecer ou parabenizar por esses cinco anos, mas não podia deixar de fazer um registro (talvez ao blogspot que nunca me tirou do ar...).
As loucuras brotaram e deram alguns frutos bonitos até, as velhas e novas partes continuam coexistindo - assim como o convite para quem quiser entrar e opinar.