domingo, novembro 30, 2008

"toda mulher é um pouco puta e um pouco lésbica"

http://entrequatropalavras.blogspot.com/

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O ano passou rápido, afinal...

“Depois que acaba a gente pensa que ele nunca existiu...”
(Para se ler ao som de Você se parece com todo mundo - do Cazuza).

Amor, quando morre, deixa uma cicatriz feia na camada mais funda da parte da alma que fica sob a pele. Uma cicatriz feia, disforme – que às vezes dói ainda mais pelo fato de simplesmente não doer. Dói por não ser possível engolir de volta todo o sangue que dela um dia jorrou. Dói por estar ali, pela pele que nunca mais voltará a ter seu esplendor inocente. Um amor morto nos tira a ingenuidade e nos dá um ar blasé de quem já teve um amor e sabe como é. Um ar de quem sobreviveu não a um naufrágio, mas a uma doença grave e secreta que todo mundo já teve e não diz. Deixa na cara a vontade de esculpir no reflexo a força de continuar, não mais como continuar após o abismo do amor, ao abismo é fácil: todo mundo sobrevive. O difícil é sobreviver ao outro lado, depois do resgate, saudando todo dia no espelho aquela cicatriz de arrependimento.
Um amor quando morre deixa os pés fincados na terra de um jeito. Morre e deixa umas músicas arquivadas na HD, umas cartas rasgadas no lixo, outras queimadas no desespero da raiva e mais umas guardadinhas num canto do armário para serem vistas quando a cicatriz já não for a única e se puder lembrar das coisas com menos mágoa e mais nostalgia.
Um amor quando morre sem atestado de óbito deixa milhões de gritos, palavrões e batidas de porta presos na garganta. Deixa um arrependimento das coisas sem perdão. Deixa uma saudade da cama cheia. Da inocência de se dormir acreditando. Um amor quando morre cria insônia, aumenta o tamanho da cama, o tamanho do quarto, a intensidade da escuridão, até a noite fica mais longa.
Um amor quando morre faz descobrir o gostoso de dormir esparramada, sozinha. Faz descobrir o afago do fundo do copo. A beleza da iluminação disforme da madrugada. Da alegria decadente que as noites não dormidas na rua têm. Morre e um dia a vida ganha cores fortes como não se pensou quando as coisas eram o preto-no-branco de um amor.
Um amor quando morre deixa no rádio aquela música do Cazuza, você se parece com todo mundo... Um amor quando morre, mata. Abre ferida grave, sangra jorra, alaga a cama de saudade e lágrimas, dá ao travesseiro forma de corpo. O sangue um dia estanca. A lágrima seca. A ferida fecha, cria casca, vira cicatriz charmosa que a gente veste no rosto quando vira mais um sobrevivente na vida. Amor quando morre nos faz olhar o céu à noite e ver mais estrelas do que o céu poluído de um amor nos permitia.
Amor morre e deixa a vontade do café forte, do uísque amargo, da noite menos amena. Amor quando morre deixa mais funda é a vontade de amores, que nos amem, que nos matem. O amor não pode ser um*.
*Referência ao verso de Romã Neptune.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Ferrugem

Nas mãos a caneca grande demais para o café. Na boca, o café já meio morno. No pensamento o pensamento de ontem tentando se re-traduzir como quem requenta um café sabendo que, ao prová-lo, desistirá de tomar. Sobre a mesa, uma folha de caderno já meio amassada de tanto lida – no tempo em que já não se escreve a mão, já não se passa a limpo, já não se relê muito as coisas porque o tempo é curto.
No coração (palavra boba mas insubstituível), algumas angústias repetitivas e copiadas sobre o tempo, sobre a temperatura, sobre o vermelho-velho do cabelo. Algumas frases de fato por dizer, alguma sensação de ter ido longe demais, de ter feito um bolo em forno alto. Alguns erros na vida são irreparáveis, imperceptivelmente irreparáveis. Algumas cicatrizes pequenas só a gente mesmo vê. Alguns perdões são impossíveis – se é que existe perdão nessa vida.
O café melancólico, frio e melancólico, da cena melancólica que ela mesma criara sem perceber que a cortina de tanto tempo fechada já sustentava um tom poeirento de vermelho-velho, como seu cabelo.
O que não sabia era lidar com a vontade incoerente, persistente, contrastante com a sensação ora de fim, ora de eterna primeira impressão.
Denise já não era a mesma. Chegava a falar de si na terceira pessoa para minorar a dor dessa constatação. Olhava de longe. Dava-se somente em frases curtas, não mais em gestos arrebatadores.
Denise parada num bar tomando café frio numa caneca grande. Já não queimava a garganta com a pressa de viver. Já não fazia questão de efemeridades.
Envelhecera com a cor do cabelo. O furor intenso que antes a movia parecia estacionado numa vontade de deixar-se opaca, de deixar a vida vir a si ao invés de correr atrás e forçá-la como uma inversão de papéis. As rédeas ficavam pesadas às vezes e a melhor – talvez não a melhor, mas a mais confortável – coisa a se fazer era ficar e esperar. Não como quem toma um táxi na rua, mas como uma estudante que escolhe o ônibus pela cor.

terça-feira, novembro 11, 2008

Ainda no Banco de trás

A mulher escrevia poemas no banco de trás do carro como quem pára e espera o instante em que a água começa a ferver. Caderno e caneta nas mãos, olhar no horizonte e vento nos olhos fazendo-a lacrimejar bonito e sentir-se mais emocionalmente ligada ao fato de estar viva. Esperava um poema como uma primeira bolha da ebulição de seus pensamentos sempre vagos. Nunca importara-se muito em vagar por aí, protegia-se com uma antiga máxima segundo a qual "para quem não sabe aonde está indo, qualquer lugar serve"...

E por isso se deixava fingindo não saber nem se importar com o destino do veículo - apenas o trajeto lhe era indispensável. Acostumara-se a ser levada, acostumara-se a achar saboroso o gosto das estradas, às vezes surpreendentes, noutras reconhecíveis. O que nunca sabia era se a familiaridade se dava por de fato estar num lugar onde já estivera, ou se depois de um tempo começava a achar as paisagens parecidas. Mas isso não fazia lá muita diferença; era como uma fórmula: bastava acender o fogo e ficar esperando, logo a água entraria em ebulição. Uma semi-certeza. Como uma verdade maior que todos sabem mas ninguém diz: a poesia estava no caminho. Não. Nenhuma verdade secreta, subjetiva ou teleológica. Estava no caminho porque estava no caminho. Em cada árvore que passava e não num suposto destino final. Até porque este não existia, era como aquele sonho de "ser em si". Pronto.

Do barulho da chave girando, o tremor do carro acordando, o solavanco natural que invertia a ordem do mundo fazendo todas as coisas andarem para trás só porque ela estava era andando para frente.

Na velocidade, era certo, sempre se chegava aos cem graus e as moléculas-sinapses entregavam-se àquela festa silenciosa e íntima. As linhas preenchiam-se como um coração acalentado. Contudo, o conforto que a inundava quase sempre se parecia mais com o que se tem quando se chega em casa debaixo de uma tempestade - o alívio após o furacão.

Mas uma vez (quase como "era uma vez..."), houve uma enchente grave e não foi possível entrar em casa, o furacão não passou, a água estacionou nos noventa e cinco graus: o papel ficou em branco. O desespero não foi seguido de alívio e a lágrima que caiu - e sequer se deu ao trabalho de pingar no papel para soar mais bonito - não foi por causa do vento nos olhos.

A dor, afinal, era como a de um matemático que após anos e anos de trabalho descobre uma equação ridiculamente irresolúvel. A mulher acabara de perceber o vazio de vagar sem rumo e a falta do que quer que fosse a tragou dolorosamente como se Deus, arrependido de tê-la criado uma vez, ao invés de matá-la resolve-se deglutí-la. Mastigá-la vagarosa e impiedosamente, mas com um apetite genuíno e, portanto, incontestável.

Ali, vendo sua carne amolecer entre os dentes de uma divindade para ela sequer conceituada, a única saída era um ato heróico. Salvar a si mesmo era um imperativo irremediável e inadiável, como qualquer coisa o é quando enfim acontece.

GRITOU.

O carro parou mostrando que não se conduzia sozinho, mas que havia um homem ali. Meu Deus, havia um homem ali! A constatação da humanidade óbvia de outrem afundou sua cabeça torturada num barril cheio d'água. Esse tempo todo se deixara cegar pela idéia de um caminho, de uma paisagem, de umas drogas de móléculas fazendo festa, de umas palavras bobas num papel que jamais seria lido! Como pudera se deixar afundar por essas tolices se todo o tempo estivera diante do milagre maior da existência?

Milagre este que, apesar de milagroso, em sua realidade aparentemente intangível estava era bastante aturdido com aquela história de grito, "pare o carro!" etc. Enquanto ela aturdia-se era do caso de ser de repente tão mais vivo o mundo real e tão latente a necessidade de estar no mundo real quando se está diante de um homem.

Como se de novo a temperatura da água subisse um grau, só por charme, dando a entender que um dia ferveria, mas não agora. Ela saiu do carro. Pois se só encararia se fosse a última saída, que fosse. Ela iria.

Para quem gostava tanto do caminho do vento, o sol penetrou doído nos poros. Tudo bem, pensou, doer faz parte. Com medo de parte ainda ser apenas um pedaço do caminho, espantou o pensamento com as mãos no ar, como fossem mosquitos, de um jeito doce de personagem de desenho animado.

Quase pensou que se fosse uma personagem de desenho animado jamais precisaria enfrentar a humanidade de um homem, mas teve medo de que esse pensamento a acovardasse.

Por um instante, pensou se teria coragem de beijá-lo. Depois, viu o quanto soaria bobo. Tendo a chance única na vida de um gesto grande não seria burra a ponto de encolhê-lo num gesto bobo. Pensou na doçura que têm as impulsividades bobas. Pensou na redução. Sentiu-se menor como quando a lágrima poderia ter caído no papel mas fez questão de cair sabe-se lá onde.

Sorriu ao mesmo tempo vencida e triunfante: troca. Ele trocou com ressalvas. Apesar de um homem, não era fraco. Foi para o banco do carona. Ela assumiu a direção. Seguiram assim o resto do caminho (?!). Ele sendo um homem e ela sendo uma mulher. Não pela obrigação de o serem, mas pela ocasião natural de serem homem e mulher. O vidro da janela fechado quase até em cima. O caderno vazio caído inerte - sozinho - no banco de trás. A água fervente, evaporando.